SOBRE A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ — TESES INAUGURAIS DE FRANCISCUS JUNIUS

SOBRE A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ — TESES INAUGURAIS DE FRANCISCUS JUNIUS

Sobre a justificação pela fé, teses inaugurais de Franciscus Junius, o Velho, pelas quais ele recebeu testemunho público em Teologia Sagrada, de acordo com as leis da Academia de Heidelberg, com o objetivo de ser aceito.

1 – A justificação é uma ação pela qual Deus torna justo um homem ímpio, de acordo com o bom prazer de sua vontade, e sem qualquer mérito próprio para a salvação.

2 – Portanto, as partes dessa ação divina são duas: — uma, que absolve o homem ímpio de seus pecados (ou a remissão dos pecados); a outra, pela qual a mesma pessoa é feita justa “em Cristo Jesus” — nossa justiça.

3 – A única causa eficiente da justificação é o Deus uno e trino, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

4 – O fim de nossa justificação é, em última instância, nossa salvação e vida eterna; o fim mais elevado, porém, não é outro senão a glória de Deus, de quem vem a justificação.

5 – A matéria da justificação é o Mediador entre Deus e os homens, o verdadeiro Deus e o verdadeiro Homem, “naturezas divina e humana na Pessoa de Jesus Cristo” (Unio Personalis[2]): — em quem, como Redentor perfeito, existem todas as causas da justificação. Aquele que nos amou tornou-se “Emanuel” (que quer dizer “Deus Conosco”), e deu-se a si mesmo por nós.

6 – A forma é que o Filho de Deus, de acordo com seu Espírito ou Deidade, habita completamente em nós, e Ele faz com que sua justiça e obediência sejam nossas, não apenas por imputação diante de Deus, mas também pela aplicação da remissão de pecados, justiça e reconciliação gratuita em si mesmo.

7 – O selo divino dessas coisas é o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho (Filioque), por meio do qual o amor de Deus é derramado em nossos corações, e somos conduzidos a toda verdade, de acordo com a promessa do Filho.

8 – Finalmente, para compreender e receber essas coisas, o instrumento comum dos piedosos é somente a fé (sola fide); pela qual nós, que somos justificados, temos paz com Deus “em Cristo Jesus”, e sem a qual não podemos agradar a Deus (Hebreus 11:6).

9 – Portanto, embora seja dito figurativamente, ainda assim, de modo apropriado e verdadeiro, dizemos que somos justificados somente pela fé (sola fide), independentemente de obras e méritos; também que não somos justificados pelas obras da Lei, mas pela fé que temos livre e graciosamente “em nosso Senhor Jesus Cristo”.

Paz e graça.

[1] Franciscus Junius, o Velho (1545 – 1602), “On Justification By Faith, Inaugural Theses” — https://www.reformedorthodoxy.org/post/introitus-de-fide — Acessado em 2023.

[2] Veja como Richard Müller define a Unio Personalis: — “[…] a aquisição da natureza humana pela pessoa eterna e preexistente do Filho de Deus de tal forma que atrai a natureza humana em unidade com a pessoa divina sem divisão ou separação de naturezas, mas também sem mudança ou confusão de naturezas; todavia de tal forma que os atributos de ambas as naturezas pertençam à pessoa divino–humana e contribuam conjuntamente para a obra de salvação” (MÜLLER apud CAMPOS, Heber Carlos de. A União das Naturezas do Redentor, São Paulo, Cultura Cristã, 2005, p. 86 – 87 — Richard Müller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms, Grand Rapids, Baker, 1986, p. 316).

[3] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.

SOBRE A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ — TESES INAUGURAIS DE FRANCISCUS JUNIUS

TESES ELÊNTICAS SOBRE A SAGRADA ESCRITURA

Uma vez que os papistas, vendo que seus dogmas não apenas carecem de fundamento nas Escrituras Sagradas, mas também são claramente comprovados como falsos por elas, trabalham acima de tudo para elevar a autoridade e a perfeição de seus dogmas a fim de confirmar suas próprias ficções, é justo que nós, que lutamos sob a bandeira de Cristo para a derrubada do reino do Anticristo e o estabelecimento do reino de Cristo, nos esforcemos para afirmar e vindicar essa palavra de Deus contra seus erros.

1 – Portanto, para que possamos abordar o assunto, afirmamos que os papistas erram gravemente principalmente em relação a três aspectos: — [1] – quanto à autoridade da Sagrada Escritura, [2] – quanto à sua interpretação, [3] – quanto à sua perfeição.

2 – Quanto à sua autoridade, eles professam abertamente que, com respeito a nós (quoad nos), ela depende primariamente do testemunho da Igreja, como se, para nós, a natureza divina e canônica da Escritura Sagrada devesse ser considerada verdadeira somente por causa do testemunho da Igreja. Por Igreja, no entanto, eles não querem que se entenda aquela que se seguiu imediatamente aos tempos dos Apóstolos, mas sua própria Hierarquia Romana, que o Papa constitui com seu clero, e muitas vezes apenas o próprio Papa, que eles consideram como uma espécie de epítome[2] da Igreja de Roma.

3 – No entanto, deixando de lado a questão de se a Igreja de Roma é a verdadeira Igreja, afirmamos que a autoridade da Sagrada Escritura, mesmo com relação a nós (quoad nos), não depende propriamente do testemunho da Igreja, embora seja verdadeiro, mas sim que o próprio Deus concedeu uma “autoridade divina excepcional” (omni exceptione maiorem) à Escritura, como ele claramente atestou à sua Igreja por discurso, sinais e obras milagrosas, e a sela e confirma privadamente em nossas almas através do testemunho interno de seu Espírito Santo.

4 – Portanto, é certo para nós que essas Escrituras vieram de Deus e são verdadeiramente inspiradas, tanto por sua matéria quanto por sua forma — uma vez que nada além de matéria e forma divinas são encontradas nas Escrituras e em cada um de seus livros canônicos — e também pelo testemunho de Deus por meio do Espírito Santo, que nós mesmos temos se crermos em Cristo Jesus — “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu” (1 João 5:10). Esse Espírito nos ensina todas as coisas (1 João 2:27[3]; João 6:45[4]), abrindo nossos ouvidos para que possamos reconhecer a voz de nosso Pastor e fugir “dos estranhos” (João 10:3 – 5, 27[5]) e nos dando o discernimento pelo qual podemos julgar, cada um de acordo com sua própria compreensão, o divino do humano, o verdadeiro do falso (1 Coríntios 10:15[6]; João 7:17[7]).

5 – Secundariamente a esse testemunho divino, vem a autoridade dos Profetas e Apóstolos (como notários públicos[8] de Deus e da Igreja), que testificam com seu próprio selo que tudo o que está contido nessas Escrituras é a própria palavra de Deus. Eles não funcionam como ministros da Igreja simplesmente (simpliciter), mas como os instrumentos mais seguros do Espírito Santo, santificados, mesmo desde o ventre, para essa tarefa (Jeremias 1:5[9]). Portanto, seu testemunho deve ser atribuído não à razão humana, mas à autoridade divina.

6 – A autoridade da Igreja vem em terceiro lugar, que desde o início transmitiu esse Cânon à posteridade, afirmando sua certeza e distinguindo os livros genuínos e verdadeiros dos adulterados e espúrios, cumprindo seu dever de preservar o depósito[10]. Pois a Igreja daquele tempo não distinguiu os livros canônicos dos apócrifos somente por sua própria autoridade, mas os reconheceu como divinamente separados e, com fé e prudência, pelas quais ela também se sobressaiu na compreensão dos assuntos sagrados, averbou (fundamentou) sua decisão.

7 – Portanto, não negamos que alguma certeza sobre a Sagrada Escritura nos vem do testemunho da Igreja, mas é meramente uma certeza de um tipo externo e não uma certeza que possa, por si só, nos levar a crer. A autoridade de Deus é primária e formal, enquanto a autoridade da Igreja é subordinada e ministerial.

8 – A Igreja é chamada de “coluna (στῦλος) da verdade” (1 Timóteo 3:15[11]), ou seja, porque a Igreja é como uma coluna na qual Deus desejou pendurar sua vontade (como as leis eram penduradas em colunas públicas), para que essa verdade salvadora pudesse ser exposta e conhecida por um grande número de pessoas.

9 – Ela, a Igreja, também é chamada de “fundamento” (ἑδραίωμα[12]), isto é, uma sede firme da verdade, porque na Igreja, à semelhança de um trono ou de uma base, ela se assenta, é preservada e protegida das corrupções humanas. Essa é a verdade de Deus. Mas isso não contraria nossa opinião, pois não é a autoridade da Igreja, mas sua função e ministério adequados que são recomendados aqui.

10 – De fato, o Apóstolo afirma que a Igreja é construída sobre o fundamento, isto é, sobre a doutrina dos Profetas e Apóstolos, sendo o próprio Cristo a pedra angular (Efésios 2:20). E João Crisóstomo (c. 347 – 407 d.C.) não hesitou em dizer que a própria verdade é a coluna e o firmamento da Igreja[13].

11 – Tendo o primeiro erro sido enfraquecido, segue-se o segundo, que consiste na interpretação da Sagrada Escritura. Entretanto, como há dois tipos de interpretação, “uma de palavras e linguagem” e outra de “assuntos que são expressos por meio de palavras quanto por símbolos”, demonstraremos que os papistas erram em ambas.

12 – Pois eles mesmos (com relação ao primeiro tipo de interpretação) rejeitam as fontes primárias da Sagrada Escritura, a saber, o hebraico para o Antigo Testamento e o grego para o Novo Testamento, desejando que sua própria versão da Vulgata Latina, que eles chamam de “Vulgata”, seja considerada autêntica em leituras públicas, debates e pregações, de modo que ninguém ousaria ou presumiria rejeitá-la sob qualquer pretexto. O que provém, sobretudo, de Deus, em termos de matéria e forma, é mais autêntico do que o que provém da engenhosidade humana, e que a fonte é mais pura do que os riachos que dela fluem.

13 – Portanto, mesmo se fosse permitido que a versão da Vulgata fosse a mais precisa e pura, ela não deveria ser equiparada, e muito menos preferida, ao cânone primário, dado que seus conteúdos e palavras são determinados pelo Espírito Santo e, portanto, são “infalíveis” (ἀναμάρτητος). Como outras traduções diversas que são formadas a partir desse cânone para outros idiomas podem ser avaliadas, corrigidas e alteradas pelo julgamento humano com base na confiabilidade do cânone primário, ao qual atribuímos tudo porque é o protótipo da verdade divina entregue por Deus por meio de seus amanuenses, reconhecemos outras traduções como obras humanas, ou seja, imperfeitas.

14 – No entanto, afirmamos que, a partir dessa interpretação humana (tradução), os homens podem obter o que é suficiente para sua salvação, desde que corresponda à dignidade da fonte autêntica em suas partes essenciais, mesmo que não o faça em alguns pontos menores.

15 – Nem suas afirmações sobre a antiguidade de sua tradução se sustentam, uma vez que ela é superada pelas próprias fontes; nem sua afirmação de sua pureza se sustenta, uma vez que ela é muito corrupta em muitos lugares; nem, finalmente, sua afirmação de que deve haver uma edição autêntica absolutamente incontestável para resolver controvérsias religiosas, de modo que a Igreja possa permanecer firme, se sustenta, pois temos o cânone primário ao qual podemos recorrer com segurança em questões de controvérsia (locis).

16 – Quanto ao decreto do Concílio de Trento, atribuímos muito pouca autoridade a ele, assim como fazemos no caso de todos os concílios que ousam decretar qualquer coisa relativa à fé na Igreja de Deus sem a palavra de Deus.

17 – Um complemento a essa seção anterior diz respeito à proibição pela qual eles negam a leitura da Sagrada Escritura ao povo na língua vernácula[14], para que eles não percebam quão miseravelmente estão aprisionados no erro por eles. No entanto, no Antigo Testamento, Deus desejava que suas leis e estatutos fossem lidos anualmente em público diante de homens, mulheres, crianças, escravos e até mesmo de estrangeiros (Deuteronômio 31:12[15]; Neemias 8:3[16]), e Jesus Cristo nos ordena a examinar as Escrituras Sagradas nas quais consiste “a vida [eterna]” (João 5:39; Deuteronômio 32:47[17]). O Apóstolo Paulo também deseja que a palavra de Deus habite ricamente em nossos corações (Colossenses 3:16[18]), por meio da qual cada um dos fiéis pode resistir à Satanás [adversário] — “como em companhia de uma espada” (Efésios 6:17[19]).

18 – Tampouco fazem algo quando dizem que “a Escritura não deve ser confiada aos iletrados”, quando é o próprio ensinamento que torna alguém erudito. De fato, de acordo com o próprio Roberto Belarmino (1542 – 1621), sob o Novo Testamento, “até mesmo os iletrados e as mulheres entendem os mistérios da redenção[20].

19 – Em segundo lugar, eles afirmam que a leitura das Escrituras Sagradas gera heresias, quando isso acontece apenas de uma forma acidental (per accidens[21]). Pois a causa primária que gera as heresias é o vício e a cegueira dos homens com relação às coisas divinas. Entretanto, a vantagem de um bem não deve ser impedida se alguns abusarem do bem, e as Escrituras ensinam isso, e isso é confessado por todos — “[…] Não seles as palavras da profecia deste livro; porque próximo está o tempo” (Apocalipse 22:10).

20 – Em terceiro lugar, eles dizem que as Escrituras são obscuras; pelo contrário, elas são muito claras em si mesmas e iluminam os olhos. Se algumas partes parecem obscuras, isso se deve a uma falha ou cegueira de nossa parte, porque compreendemos apenas na medida em que somos iluminados, ou seja, de forma incerta e parcial (1 Coríntios 13:12[22]).

21 – Os papistas erram não apenas na interpretação das palavras, mas também na interpretação dos assuntos, pois afirmam que as controvérsias não podem ser resolvidas a partir das Escrituras Sagradas, a menos que o sentido autêntico dessas Escrituras seja decidido por nós. E somente esse sentido das Escrituras é afirmado como verdadeiro: — “aquele que o Romano Pontífice entrega em um concílio e aprova por seu próprio julgamento”.

22 – Nós, porém, afirmamos que todos os dogmas de fé necessários à salvação estão claramente e perspicuamente expostos nas Escrituras Sagradas e podem ser extraídos de passagens cujo sentido é fácil por si mesmo e óbvio para qualquer pessoa, exceto, talvez, para aqueles cujos olhos o príncipe deste século cegou, de modo que não obedecem à verdade (2 Coríntios 4:4[23]).

23 – E embora admitamos que a interpretação das Escrituras Sagradas seja necessária na Igreja de Deus, para que possamos alcançar uma compreensão mais exata dos mistérios que nela nos são expostos, negamos que esse direito pertença somente à Igreja de Roma, mas sim a qualquer verdadeiro Pastor da Igreja, publicamente chamado e instruído, para interpretar as Escrituras Sagradas, não de acordo com seu próprio senso e arbítrio (Neemias 8:9), mas pela própria Escritura, de acordo com a “analogia da fé”, quer passagens fáceis e claras sejam apresentadas para a elucidação de outras mais obscuras, quer a própria passagem seja exposta de acordo com suas circunstâncias e a intenção do autor.

24 – Não apenas isso, mas também afirmamos que os crentes individuais, de acordo com sua capacidade e a medida da graça de Cristo, podem interpretar as Escrituras em particular e comparar passagens para investigar a verdade, até mesmo para examinar a interpretação de seu pastor pela “pedra de toque” da Sagrada Escritura (Atos 17:11[24]) como ovelhas de Cristo, discernindo seu alimento a partir do senso comum e do testemunho de fé em si mesmos, de modo que, da mesma forma, eles se rendam à fé em relação à verdade divina, não individualmente à influência da autoridade humana.

25 – Eles proclamam em alto e bom som que a Sagrada Escritura é ambígua, de modo que pode admitir vários sentidos que são repugnantes entre si em instâncias específicas e, portanto, pode ser aduzida (pretextada) pelos próprios hereges para a confirmação de seus erros. No entanto, respondemos que a Escritura Sagrada não é de forma alguma ambígua, mas “os indoutos e inconstantes” inventam novos significados para si mesmos e “torcem” as Escrituras a seu próprio juízo para perdição (2 Pedro 3:16[25]). Não é de surpreender que os hereges abusem das Escrituras Sagradas, uma vez que o próprio Satanás deseja atacá-las, mas podemos e devemos derrotar Satanás com a própria espada da palavra de Deus — a Escritura Sagrada —, da qual Cristo é o Autor, e com as mesmas armas com as quais Ele o derrotou (veja Mateus 4).

26 – Portanto, não é a ambiguidade das Escrituras Sagradas, mas a cegueira ou escuridão maliciosa deles, que é a razão pela qual o Evangelho é para eles “certamente cheiro de morte para morte” (cf. 2 Coríntios 2:16), mas, não obstante, “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (cf. Romanos 1:16).

27 – Tampouco o que eles afirmam é verdadeiro, pois, a menos que haja um juiz supremo cuja interpretação deva ser seguida e que possa obrigar por autoridade, as heresias nunca terão um fim, uma vez que isso nunca acontecerá neste mundo, a saber, que todas as heresias sejam erradicadas (2 Coríntios 11:15[26]). Além disso, o Espírito Santo age com santa violência na Escritura (que afirmamos ser o juiz supremo), mas Ele trabalha dentro das consciências, de modo que elas obedecem à verdade reconhecida pela fé, e este é apenas o caso em que Ele opera eficazmente. No entanto, negamos que as consciências possam ser compelidas por força externa a crer, uma vez que a fé não depende da autoridade humana, mas de Deus (Efésios 2:8[27]), em cujas mãos estão os corações dos homens, e Ele pode incliná-los para onde quiser (Provérbios 21:1[28]).

28 – Nossos adversários desejam afirmar que o Pontífice deles não apenas sucedeu a Pedro, mas também a Moisés, pelo menos no grau de ofício, de modo que ele próprio possa ser o juiz supremo na Igreja de Deus, assim como Moisés foi entre o povo de Israel. No entanto, respondemos que a vocação de Moisés foi extraordinária e recebida imediatamente de Deus, mas a vocação do Romano Pontífice (se admitirmos isso) é mediata e comum. De fato, a vocação de Arão era ordinária, mas legal e típica, não se estendendo aos tempos do Evangelho (Deuteronômio 17:11[29]; veja Números 15). Além disso, tanto Moisés quanto os sumos sacerdotes não julgavam por escolha absoluta, mas de acordo com a Lei de Deus. Quando não havia nenhuma lei ou aviso sobre ela, eles consultavam o próprio Deus, que lhes fornecia as respostas.

29 – Mas negamos tanto que Pedro tenha sido o juiz supremo das controvérsias na Igreja de Deus quanto que o Romano Pontífice tenha sucedido a Pedro nessa questão, uma vez que a Escritura Sagrada não ensina nada disso, nem pode ser provado por qualquer outra fonte.

30 – Mas agora é hora de prosseguirmos para o terceiro ponto, no qual eles, afirmando a imperfeição e (por assim dizer) a insuficiência da Escritura Sagrada, acrescentam não apenas as tradições às quais deram o nome de “palavra não escrita”, sobre as quais falaremos mais tarde, mas também forçam sobre nós como canônicos, os livros que a Igreja sempre chamou de apócrifos (uma vez que foram separados da cripta[30] sagrada; do tesouro sagrado de Deus) para que pudessem colher algo deles para apoiar seus próprios erros.

31 – Mas esses mesmos livros argumentam suficientemente e testificam que não são inspirados (θεόπνευστος), uma vez que estão longe daquela perfeição divina de verdade e majestade que brilha nos escritos verdadeiramente inspirados; e muitas coisas neles não são encontradas nem correspondentes às Escrituras Sagradas nem harmônicas entre si.

32 – Além disso, eles não eram de linguagem profética, nem escritos no padrão divino, nem dados por autoridade divina e santificados pela Igreja de Deus, nem reconhecidos no cânone hebraico da Igreja judaica, nem citados por Jesus Cristo e pelos Apóstolos, que não extraíram deles nenhum testemunho como de livros verdadeiramente inspirados (θεόπνευστος), para demonstrar a verdade de sua própria doutrina.

33 – Os papistas apresentam certos decretos de concílios, mas não concílios nos quais o Espírito de Cristo presidiu, mas sim concílios de homens; seus dogmas foram sancionados, “não pela palavra de Deus, mas contra a palavra de Deus”. Portanto, seria necessário provar que esses concílios são verdadeiros; então, também, que todas as coisas que decretaram nesses concílios, legitimamente, devem ser recebidas sem controvérsia e julgamento — o que negamos!

34 – De fato, reconhecemos que os Pais extraíram certas coisas dos referidos livros, mas com o propósito de moldar a moral, não para confirmar a fé; não a partir de escritos canônicos, mas a partir de escritos eclesiásticos. Portanto, esse argumento não contribui em nada para a questão em disputa, uma vez que até mesmo o próprio Apóstolo cita versículos de autores pagãos (Arato em Atos 17:28[31]; Menandro em 1 Coríntios 15:33[32]; cf. Tito 1:12[33]) e, ainda assim, esses livros não são considerados canônicos.

35 – Os Pais às vezes chamam esses livros de sagrados, até mesmo canônicos, mas em um sentido ambíguo e comparativo quanto a outros escritos humanos, e não em um sentido próprio e unívoco (concordante), como no caso dos livros proféticos e apostólicos. Eles mesmos estão habituados a chamar os livros apócrifos de “protocanônicos” e todos os outros de “deuterocanônicos”, classificando-os em uma posição depois dos livros canônicos como conjunto dos escritos humanos. Concedemos a eles essa posição de bom grado, mas negamos que devam ser recebidos no mesmo grau que os livros canônicos.

36 – Quanto às tradições, no entanto, deve-se observar que aqui estamos lidando com tradições relacionadas à fé e à moral que não têm fundamento nas Escrituras Sagradas, seja diretamente ou por justa implicação. No entanto, os papistas desejam que essas tradições sejam recebidas e honradas por nós com o mesmo grau de piedade e reverência que é dado às coisas que são expressamente ensinadas na palavra de Deus.

37 – Afirmamos que tudo o que devemos crer e fazer para nossa salvação está perfeitamente contido nas Escrituras Sagradas, nas quais Deus nos revelou claramente sua vontade, o que pode nos tornar sábios para a salvação (2 Timóteo 3:15[34]), e além do que os crentes fiéis não devem fazer elucubrações — “[não devem] ir além do que está escrito” (cf. 1 Coríntios 4:6). Pois este julgamento permanece: — “[…] ainda que nós [Apóstolos] mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro Evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” (Gálatas 1:8).

38 – De fato, reconhecemos que os Apóstolos não escreveram tudo, nem o que Jesus Cristo fez e disse (João 20:30[35]) nem o que eles mesmos pregaram (pois o mundo inteiro não poderia suportar todos os livros, muito menos contê-los). Entretanto, pela mesma razão, afirmamos que Deus nos apresentou perfeitamente nas Escrituras Sagradas todas as coisas, tanto universais quanto comuns, que Ele revelou, bem como tudo o que é necessário saber para a salvação, particularmente as coisas que dizem respeito à fé e à moral. Quanto à lei geral dos cultos (praxes), assim foi estabelecida pelo Apóstolo Paulo: — para que todas as coisas sejam feitas “decentemente e com ordem” (1 Coríntios 14:40).

39 – Portanto, admitimos todas as tradições, sejam elas chamadas Apostólicas ou Eclesiásticas, se concordarem com a Escritura; se discordarem, nós as rejeitamos; e se não concordarem nem discordarem, nós as deixamos como opcionais (liberas). Por exemplo, acreditamos que a Bem–aventurada Maria foi virgem antes de dar à luz, de acordo com a Escritura (Mateus 1:25[36]), mas quanto ao fato de ter permanecido virgem depois de dar à luz, não consideramos isso um dogma de fé, mas algo digno de aceitação.

40 – Portanto, os papistas trabalham em vão para provar que a “palavra não escrita” tem a mesma autoridade que a “palavra escrita”, uma vez que o autor de ambas é um só. Pois eles devem primeiro provar que tal palavra não escrita existe e que algumas coisas devem ser cridas à parte do que está contido nas Escrituras Sagradas — o que negamos!

41 – Eles dizem que a Igreja não pode errar e, portanto, os estatutos eclesiásticos devem ser aceitos, mas nós negamos que a Igreja não possa errar, pois ela consiste de seres humanos que são apenas “parcialmente” regenerados. Além disso, mesmo que concedêssemos que a verdadeira Igreja não pode errar, ainda assim negamos que ela possa determinar qualquer coisa além do que está contido nas Escrituras Sagradas, pois, assim juntamente com os Apóstolos (dos quais é universalmente confessado que não podiam errar na doutrina), Paulo nega enfaticamente que qualquer coisa possa ser ensinada na Igreja além do que eles receberam de Cristo (Gálatas 1:8, 9[37]).

42 – Portanto, a Escritura Sagrada é uma regra suficiente para a nossa fé e é a “pedra de toque” (Lydium lapidem[38]) com a qual todas as coisas devem ser examinadas para que possamos reter o que é bom [para esta vida e a eterna]. Concluímos e afirmamos resolutamente que não é permitido a nenhuma criatura subtrair ou acrescentar algo à Escritura Sagrada (Deuteronômio 4:2[39]; Apocalipse 22:18, 19[40]).

Paz e graça.

[1] Franciscus Junius, o Velho (1545 – 1602), “Elenctic Theses on Holy Scripture” — https://www.reformedorthodoxy.org/post/3-theses-elencticae-de-scriptura-sacra — Acessado em 2023.

[2] Aquele que como agente simboliza a Igreja de Roma, que serve como modelo ideal de verdade para Igreja de Roma — aquele que é o verdadeiro “compêndio da fé” para a Igreja de Roma.

[3] “E a unção que vós recebestes dEle, fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nEle permanecereis” (ACF).

[4] “Está escrito nos Profetas: — E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim” (ACF).

[5] “A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas, e as traz para fora. E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas de modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem” (ACF).

[6] “Falo como a entendidos; julgai vós mesmos o que digo” (ACF).

[7] “Se alguém quiser fazer a vontade dEle, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo” (ACF).

[8] Representantes oficiais.

[9] “Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por Profeta” (ACF).

[10] A Igreja é a “coluna e baluarte da verdade” porque ambos os vocábulos têm a conotação de prover suporte. O Apóstolo Paulo enfatiza, em oposição aos falsos mestres e falsos ensinos, que a verdade do Evangelho de Cristo é encontrada na Igreja de Deus e sustentada pela mesma (2 Timóteo 2:19). Em última análise, a Igreja sustenta a própria fundação dos Profetas e Apóstolos (Efésios 2:20). Deus dá sua Palavra à Igreja e a Igreja a aceita e preserva (depósito sagrado).

[11] “Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” (ACF).

[12] “Hedraíōma” – a base, que em última análise sustenta o próprio fundamento (usado apenas em 1 Timóteo 3:15).

[13] “Saberás como proceder na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo: — coluna e sustentáculo da verdade”. Não como o templo judaico. Contém a fé e a pregação, pois a verdade é coluna e sustentáculo da Igreja (Comentário às Cartas de São Paulo, Parte 3, Homilia 11, Homilias sobre 1 Timóteo, p. 44).

[14] Uma língua vernácula (ou vernácula) contrasta com uma “língua padrão”. Refere-se à língua ou dialeto que normalmente é a língua nativa de seus falantes. Vernáculo é o nome que se dá ao idioma próprio de um país, de uma nação ou região; é a língua nacional. Vernáculo é utilizado sempre para designar o idioma puro, utilizado tanto no falar, como no escrever; sem utilizar palavras de idiomas estrangeiros.

[15] “Ajunta o povo, os homens e as mulheres, os meninos e os estrangeiros que estão dentro das tuas portas, para que ouçam e aprendam e temam ao Senhor vosso Deus, e tenham cuidado de fazer todas as palavras desta Lei” (ACF).

[16] “E leu no livro diante da praça, que está diante da porta das águas, desde a alva até ao meio-dia, perante homens e mulheres, e os que podiam entender; e os ouvidos de todo o povo estavam atentos ao livro da Lei” (ACF).

[17] “Porque esta palavra não vos é vã, antes é a vossa vida; e por esta mesma palavra prolongareis os dias na terra a qual, passando o Jordão, ides a possuir” (ACF).

[18] “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração” (ACF).

[19] “Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (ACF).

[20] Bellarmino, “De Verbo Dei”, III.ii, Argumentum nona, em De controversiis christianae fidei adversus hujus temporis haereticos; Opera omnia, Neapoli: J. Giuliano, 1:100

[21] Locução latina aplicada na linguagem filosófica, por oposição a “per se”, às qualidades acidentais das cousas.

[22] “Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido” (ACF).

[23] “Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do Evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (ACF).

[24] “Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (ACF).

[25] “Falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição” (ACF).

[26] “Não é muito, pois, que os seus ministros se transfigurem em ministros da justiça; o fim dos quais será conforme as suas obras” (ACF).

[27] “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (ACF).

[28] “Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR, que o inclina a todo o seu querer” (ACF).

[29] “Conforme ao mandado da Lei que te ensinarem, e conforme ao juízo que te disserem, farás; da palavra que te anunciarem te não desviarás, nem para a direita nem para a esquerda” (ACF).

[30] Servia como cofre para guardar itens importantes e/ou sagrados.

[31] “Porque nEle vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: — Pois somos também sua geração” (ACF).

[32] “Não vos enganeis: — as más conversações corrompem os bons costumes” (ACF).

[33] “Um deles, seu próprio profeta, disse: — Os cretenses são sempre mentirosos, bestas ruins, ventres preguiçosos” (ACF). Epimênides de Festus, cerca de 600 d.C., ele foi enviado para purificar Atenas de sua poluição ocasionada por Cylon. Ele foi considerado como um adivinho e profeta. As palavras aqui são tiradas provavelmente do seu tratado “Concernente a Oráculos”.

[34] “E que desde a tua meninice sabes as Sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus” (ACF).

[35] “Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro” (ACF).

[36] “E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus” (ACF).

[37] “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro Evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro Evangelho além do que já recebestes, seja anátema” (ACF).

[38] A expressão “pedra de toque” se refere ao significado ou sentido de algo, especialmente quando se trata de uma questão essencial ou fundamental. “Credimus, confitemur et docemus unicam regulam et normam secundum quam omnia dogmata omnesque doctores estimari et judicari oporteat nullam omnino aliam esse quam profética et apostolica scripta […] sola sacra scriptura judex norma et regula agnoscitur, ad quam ceu ad Lydium lapidem omnia dogmata exigenda et judicanda” (BKS, p. 767 e 769).

[39] “Não acrescentareis à Palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando” (ACF).

[40] “Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; e, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro” (ACF).

[41] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.

SOBRE A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ — TESES INAUGURAIS DE FRANCISCUS JUNIUS

COMO VOCÊ RESPONDE AS PALAVRAS DE ENCORAJAMENTO DO SEU SERMÃO?

“Bom trabalho […] bom sermão […] isso realmente falou comigo”. A lista de frases que um pastor pode ouvir, quando os membros da Igreja, estão saindo da Igreja continua. Inevitavelmente, quer o sermão tenha sido bom ou não, esses comentários rápidos nos serão dirigidos com diferentes níveis de sinceridade, e é importante que saibamos como responder de uma forma que honre a Deus.

Aqui estão 4 sugestões:

1 – Diga “obrigado”.

É triste quando um pastor tenta usar uma falsa humildade para esconder suas inseguranças ou sua incapacidade de reconhecer uma palavra gentil. Isso geralmente aparece na resposta de um pastor após um comentário gentil e encorajador, ele diz: — “Ah […] não, não foi um bom sermão. Eu errei neste ponto, tropecei nas minhas palavras aqui etc.”. Basta parar e dizer: — “Obrigado por suas palavras amáveis”.

2 – Agradeça o incentivo.

Independentemente do comentário, se foi feito para o encorajar, agradeça as palavras de encorajamento. Agradeça o fato de alguém ter dedicado tempo a partilhar os seus pensamentos com você, por mais simples, discreto ou superficial que seja o comentário. Seja grato e receba-o dessa maneira. 

3 – Seja humilde para que o Senhor te use.

O que deveria nos humilhar mais do que um ouvinte que dedica tempo a encorajar-nos sobre o nosso sermão, é o fato de que Deus escolhe usar vasos quebrados como nós, semana após semana, domingo após domingo, para alimentar o seu povo com a Palavra que é dEle. Isso deve nos maravilhar com cada palavra amável que nos é dirigida. Quando deixar de nos surpreender tais palavras amáveis, então devemos começar a nos preocupar.

4 – Dê a Deus toda a glória.

A grande tentação quando somos elogiados por um sermão, é pensar que o fruto do nosso trabalho é sobre nós e por causa de nós. Quando uma palavra amável é dirigida a nós sobre o nosso sermão, certifiquemo-nos de que a Deus é dado todo o crédito e louvor. Não superficialmente, mas com sinceridade. Podemos dar glória a Deus com os nossos lábios em resposta, mas dentro de nós podemos estar cheios de orgulho.

Sugestões de respostas:

À luz dessas sugestões, aqui estão algumas maneiras que eu acho que é apropriado responder a uma palavra gentil estendida a nós após um sermão:

“Obrigado pelas suas palavras amáveis, não é boa a forma como Deus fala com cada um de nós através da sua Palavra?”.

“Obrigado pelo seu encorajamento, estou grato a Deus por ter usado a sua palavra dessa maneira”.

“Estou grato por ter dedicado tempo a partilhar a forma como a palavra de Deus o afetou. Esta passagem afetou-me de forma semelhante. Deus é tão gracioso”.

Pastores, recebam as palavras amáveis que vos são oferecidas. Sintam-se encorajados por elas. Elas irão ajudar-vos a ultrapassar o desânimo que muitas vezes surge à segunda-feira. E, mantenham-se humildes, pois dentro de 6 dias terão de fazer tudo novamente.

Paz e graça.

[1] Brian Croft. “How do you respond to encouraging words about your sermon?”, Practical Shepherding — https://practicalshepherding.com/articles/how-do-you-respond-to-encouraging-words-about-your-sermon?rq=encouraging, Acessado em 2023.

[2] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.

SOBRE A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ — TESES INAUGURAIS DE FRANCISCUS JUNIUS

JOÃO CALVINO SOBRE A MARAVILHA DOS SALMOS

1 – A maravilha dos Salmos.

No Prefácio do seu comentário aos Salmos, João Calvino confessa que as palavras não conseguem transmitir a maravilha deste livro inspirado: — “As variadas e resplandecentes [isto é, magníficas] riquezas que estão contidas neste precioso tesouro não são fáceis de expressar em palavras […] a grandeza (dos Salmos) não admite ser totalmente revelada[2].

Para Calvino, os Salmos são um livro único no cânone da Sagrada Escritura.

“Não há outro livro em que se encontrem elogios mais expressos e magníficos, tanto da incomparável benevolência de Deus para com a sua Igreja, como de todas as suas obras; não há outro livro em que se registem tantos livramentos, nem outro em que as evidências e experiências da paternal providência e cuidado que Deus exerce para conosco, sejam celebradas com tal esplendor de palavras, e ainda assim com a mais rigorosa união à verdade; Em suma, não há outro livro em que nos seja ensinada mais perfeitamente a maneira correta de louvar a Deus, ou em que sejamos mais poderosamente estimulados a realizar este exercício sagrado[3].

Os Salmos estão cheios de riquezas das doutrinas bíblicas, e os santos encontram neles grande bem–aventurança e paz.

“Numa palavra, não só encontraremos aqui louvores gerais da bondade de Deus, que podem ensinar aos homens a repousar somente nEle, e a buscar toda a sua felicidade somente nEle; e que se destinam a ensinar os verdadeiros crentes, com todo o seu coração, a olhar para Ele com confiança para obter ajuda em todas as suas necessidades. Mas também descobriremos que a livre remissão dos pecados, que por si só nos reconcilia com Deus, e nos proporciona uma paz estável com Ele, é tão exposta e magnificada, que aqui não falta nada que se relacione com o conhecimento da salvação eterna[4].

O reformador de Genebra vê nos Salmos um campo de treinamento essencial para a piedade cristã, especialmente “levando a cruz”. Sem dúvida, ele está a pensar nas palavras do Senhor Jesus e em “todo o itinerário da vida de Davi[5]”.

“Além disso, embora os Salmos estejam repletos de todos os preceitos que servem para enquadrar nossa vida em todas as partes da santidade, piedade e retidão, eles nos ensinarão e nos treinarão principalmente a carregar a cruz; e o carregar a cruz é uma prova genuína de nossa obediência, pois, ao fazer isso, renunciamos à orientação de nossas próprias afeições e nos submetemos inteiramente a Deus, deixando-o nos governar e organizar as nossas vidas de acordo com a sua vontade, de modo que as aflições que são as mais amargas e severas para a nossa natureza, tornam-se doces para nós, porque procedem dEle[6].

Uma característica marcante do livro dos Salmos, na avaliação de Calvino, é que eles cobrem toda a gama de emoções e enfermidades cristãs, expondo nossos corações ao olhar perscrutador de nosso Pai Celestial e chamando-nos ou atraindo-nos ao autoexame. “Tenho estado habituado”, escreve Calvino, “a chamar este livro, penso que não de forma inadequada, ‘A Anatomia de Todas as Partes da Alma’[7]. Ele explica a razão deste título perspicaz: — “[…] não há uma emoção de que alguém possa ter consciência que não esteja aqui representada como num espelho. Ou melhor, o Espírito Santo desenhou aqui […] todas as tristezas, angústias, medos, dúvidas, esperanças, preocupações, perplexidades, em suma, todas as emoções perturbadoras com que as mentes dos homens costumam ser agitadas. As outras partes da Escritura contêm os mandamentos que Deus ordenou aos seus servos que nos anunciassem. Mas aqui os próprios Profetas, visto que nos são exibidos como falando a Deus, e expondo todos os seus pensamentos e afeições mais íntimos, chamam, ou melhor, atraem cada um de nós para o exame de nós mesmos em particular, a fim de que nenhuma das muitas enfermidades a que estamos sujeitos, e dos muitos vícios com os quais abundamos, possa permanecer encobertas. É certamente uma vantagem rara e singular, quando todos os lugares ocultos são descobertos, e o coração é trazido à luz, expurgado da infecção mais nociva, a hipocrisia[8].

2 – Os Salmos e a oração.

A partir daí, Calvino elogia os Salmos por seu ensino a respeito da oração cristã. Ele fala brilhantemente do privilégio e acesso que temos às cortes do Todo–poderoso: — “[…] pareceu-me necessário mostrar […] que este livro nos dá a conhecer este privilégio, que é desejável acima de todos os outros — que não só nos é aberto o acesso familiar a Deus, mas também que temos permissão e liberdade concedida para expor diante dEle nossas enfermidades, que teríamos vergonha de confessar diante dos homens[9].

Ele prossegue falando da utilidade dos Salmos como um auxílio para a oração verdadeira e sincera, pois: — “É através da leitura destas composições inspiradas, que os homens serão mais efetivamente despertados para um senso de suas enfermidades, e, ao mesmo tempo, instruídos na busca de remédios para sua cura[10]. Isto é impressionante, uma vez que muitos vêem o canto reformado dos Salmos como um obstáculo à verdadeira súplica. “A verdadeira oração”, dizem eles, “é agitada pelo canto de hinos [de composição humana]”. O grande Reformador era de outra opinião: — “Em uma palavra, tudo o que pode servir para nos encorajar quando estamos prestes a orar a Deus nos é ensinado neste livro[11]. O crente reconhecerá a verdade destas palavras sobre a união vital entre os Salmos (lidos e cantados) e a oração fervorosa: — “A oração genuína e fervorosa procede primeiro de um senso de nossa necessidade, e depois, da fé nas promessas de Deus. É através da leitura dessas composições inspiradas, que os homens serão mais efetivamente despertados para um senso de suas doenças, e, ao mesmo tempo, instruídos na busca de remédios para sua cura. Numa palavra, tudo o que possa servir para nos encorajar quando estamos prestes a orar a Deus é–nos revelado e ensinado neste livro. E não apenas as promessas de Deus nos são apresentadas nele, mas muitas vezes nos é mostrado alguém que está, por assim dizer, entre os convites de Deus, por um lado, e os impedimentos da carne, por outro, cingindo-se e preparando-se para a oração: — ensinando-nos, assim, se em qualquer momento formos agitados por uma variedade de dúvidas, a resistir e lutar contra elas, até que a alma, liberta e desembaraçada de todos esses impedimentos, se eleve a Deus; e não só isso, mas mesmo quando estivermos no meio de dúvidas, medos e apreensões, esforcemo-nos na oração, até experimentarmos alguma consolação que possa acalmar e trazer contentamento às nossas mentes[12].

Calvino identifica os Salmos como a melhor ajuda na oração: — “uma regra melhor e mais infalível para nos guiar neste exercício (da oração) não pode ser encontrada noutro lugar senão nos Salmos[13]. Com base nisto, chega a uma conclusão importante: — “Em suma, como invocar a Deus é um dos principais meios de garantir nossa segurança, e como uma regra melhor e mais infalível para nos guiar neste exercício não pode ser encontrada em nenhum outro lugar senão nos Salmos, segue-se que, em proporção à proficiência que um homem terá alcançado em compreendê-los, será seu conhecimento da parte mais importante da doutrina celestial[14].

Se isso é verdade, devemos confessar o quanto precisamos dos Salmos!

Poderemos alguma vez ter o suficiente deles, se a oração cristã (que o Catecismo de Heidelberg, Pergunta e Resposta 116[15], chama de “a parte principal da gratidão que Deus requer de nós”) é tão forte ou tão fraca quanto nossa compreensão sincera dos Salmos?

O raciocínio de Calvino aqui deveria nos estimular a ler, cantar e meditar nos Salmos. Estará o reformador de Genebra a identificar aqui o problema da oração no nosso país? A ignorância dos Salmos e a popularidade da hinódia moderna e sem inspiração?

Calvino identificou essencialmente três elementos no culto público da Igreja de Deus: — a Palavra (lida e pregada), os sacramentos (batismo e a Ceia do Senhor) e a oração (falada e cantada – os Salmos!). Escreve Barry Gritters: — “[…] embora o canto seja uma das duas formas de oração, e seja em si mesmo adoração, Calvino afirma que as orações cantadas estimulam mais e mais profundas orações e, portanto, melhor adoração[16]. Calvino declara: — “Além disso, é uma coisa muito conveniente para a edificação da Igreja cantar alguns Salmos na forma de orações públicas pelas quais se ora a Deus ou se canta seus louvores, de modo que os corações de todos possam ser despertados e estimulados a fazer orações semelhantes e a render louvores e agradecimentos semelhantes a Deus com amor comum (Artigos para a Organização da Igreja e seu Culto em Genebra [1537])”.

Assim, cantar as orações dos Salmos estimula-nos a continuar a orar e a louvar.

3 – Os Salmos e a adoração.

É claro que Calvino elogia os Salmos não apenas no que diz respeito à doutrina cristã, piedade e oração, mas também no que diz respeito ao culto cristão. Assim como regulam a nossa adoração, os Salmos asseguram-nos que Deus se deleita com uma adoração bíblica e sincera.

Além disso, também nos é prescrita uma regra infalível para nos orientar quanto à maneira correta de oferecer a Deus o sacrifício de louvor, que ele declara ser o mais precioso aos seus olhos e de mais suave aroma[17].

Os Salmos não apenas nos ensinam a maneira aceitável de louvar a Deus, mas também nos vivificam nesse chamado pelo Espírito Santo.

“[…] em suma, não há outro livro em que nos seja ensinada mais perfeitamente a maneira correta de louvar a Deus, ou em que sejamos mais poderosamente estimulados a realizar esse exercício sagrado[18].

Ouçam Calvino exaltar o efeito revigorante para a alma que tem a convicção de cantar Salmos no idioma vernacular (língua comum): — “Os Salmos podem estimular-nos a elevar os nossos corações a Deus e despertar-nos para um fervor em invocar, bem como em exaltar com louvores a glória do seu Nome. Além disso, com isto, reconhecer-se-á de que benefício e consolação o papa e as suas cúpulas privaram a Igreja, pois distorceram os Salmos, que deveriam ser verdadeiros cânticos espirituais, num murmúrio entre si sem qualquer entendimento[19].

Nos nossos dias, não é apenas “o papa e as suas cúpulas” que privam a Igreja de cantar Salmos em congregação. Nas Igrejas Evangélicas, hinos não–inspirados são muito mais frequentemente cantados do que os 150 Salmos, e o canto dos Salmos é frequentemente ridicularizado como “morto”, como se as palavras de Cristo não fossem “espírito” e “vida” (João 6:63)!

Ler, pregar e cantar os Salmos gerou o amor de Calvino por eles. Herman J. Selderhuis afirma: — “Três fatos são apresentados por Erwin Mulhaupt (em seu trabalho em 1959) para explicar a afeição de Calvino por este livro bíblico. Em primeiro lugar, os Salmos tinham um significado especial para Calvino, em termos pessoais. Ele reconheceu muito de si mesmo em Davi e, em tempos difíceis, encontrou conforto e força neste livro da Bíblia. Em segundo lugar, os Salmos são o único livro do Antigo Testamento a partir do qual Calvino pregava aos domingos. Assim, os Salmos eram a única exceção à sua prática habitual de pregar a partir do Novo Testamento aos domingos, enquanto o Antigo Testamento era reservado para os dias de semana. Em terceiro lugar, Mülhaupt[20] mencionou que Calvino promoveu o canto dos Salmos durante o culto da Igreja como nenhum outro[21].

Numa nota de rodapé, Selderhuis observa que, num livro posterior (1981), “Mülhaupt dá as mesmas três razões, mas menciona primeiro a do canto dos Salmos[22]. Aparentemente, Mülhaupt chegou a ver que o canto dos Salmos aumentava especialmente o amor de Calvino pelo livro mais longo da Bíblia.

Calvino entendeu as implicações da excelência dos Salmos com respeito ao conteúdo do louvor cantado na Igreja. Em sua “Epístola ao Leitor”, prefixada ao Saltério de Genebra (1542), ele argumenta: — “Ora, o que Santo Agostinho diz é verdade, que ninguém é capaz de cantar coisas dignas a Deus a não ser que as tenha recebido dEle. Por isso, depois de termos procurado bem por todos os lados e de termos pesquisado por alto e por baixo, não encontraremos melhores cânticos nem mais apropriados para o assunto do que os Salmos de Davi, que o Espírito Santo produziu e proferiu através dele. E, além disso, quando os cantamos, temos a certeza de que Deus põe as palavras na nossa boca, como se Ele próprio cantasse em nós para exaltar a sua glória”.

Nos termos dessa declaração, os hinos modernos certamente não são “dignos para Deus”, pois não foram “recebidos […] dEle”. “Procurando por todos os lados”, inclusive através das miríades de hinários não–inspirados, “não encontraremos melhores cânticos nem mais apropriados para o propósito [de adoração] do que os Salmos de Davi, que o Espírito Santo criou e revelou através dele”. Cantando os Salmos, ao contrário dos hinos modernos, temos a certeza de que o conteúdo do nosso louvor o agrada e o engrandece: — “temos a certeza de que Deus põe as palavras na nossa boca, como se Ele próprio cantasse em nós para exaltar a sua glória”.

Não é de se admirar que Calvino tenha trabalhado tão arduamente, diante de muita oposição, para estabelecer o canto congregacional em Genebra! Este foi mesmo um dos pontos essenciais em que Calvino e Farel insistiram nos “Artigos para a Organização da Igreja e seu Culto em Genebra”, que eles apresentaram ao conselho da cidade (16 de Janeiro de 1537). Ao instituir a ordem da Igreja para que o povo “vivesse de acordo com o Evangelho e a palavra de Deus”, os Artigos de Calvino exigiam (entre outros elementos essenciais): — [1] – que os cidadãos subscrevessem a confissão de fé, [2] – que a excomunhão fosse usada como um instrumento eficaz de disciplina da Igreja, [3] – que se cantassem Salmos no culto público, [4] – que se catequizassem as crianças na doutrina bíblica para manter a aliança, e [5] – que se redigissem ordenanças para o casamento.

A declaração de Calvino (“é uma coisa muito conveniente para a edificação da Igreja cantar alguns Salmos na forma de orações públicas pelas quais se ora a Deus ou se canta seus louvores, de modo que os corações de todos possam ser despertados e estimulados a fazer orações semelhantes e a render louvores e agradecimentos semelhantes a Deus com um amor comum”) que vem nesses Artigos deixa claro que, para o Reformador de Genebra, o canto congregacional de Salmos é vital na reforma da Igreja.

Calvino também queria melodias de qualidade — “pomposas e majestosas” — para cantar os Salmos. Assim, ele declara em seu Prefácio ao Saltério de Genebra: — “Deve haver sempre a preocupação de que o cântico não seja ligeiro nem frívolo, mas tenha grandeza e majestade, como diz Santo Agostinho. E assim há uma grande diferença entre a música que se faz para entreter os homens […] e os Salmos que se cantam na Igreja na presença de Deus e dos seus anjos”.

Nos seus primeiros anos em Genebra, Calvino não ficou impressionado com a qualidade do canto em Genebra, pelo que tomou a medida prática de exigir que as aulas de catecismo para as crianças incluíssem a memorização e o canto de Salmos. Os responsáveis pela Igreja e os professores das escolas cristãs tinham um papel importante neste domínio. Calvino afirma: — “Escreve uma carta aos conselheiros para os informar de que o Senhor deseja que os jovens aprendam a cantar os Salmos, e que o reitor da escola e o seu diretor ensinem a música dos ditos Salmos[23].

O amor de Calvino pelos Salmos levou-o a trabalhar durante muitos anos na produção, ampliação e melhoramento de Saltérios franceses. Em Estrasburgo, em 1539, quando Calvino tinha cerca de trinta anos, ele publicou seu primeiro Saltério, consistindo de 19 Salmos em tradução francesa — 6 dele mesmo e 13 de Clemente Marot[24]. O primeiro Saltério de Genebra de Calvino (1542) incluía mais 17 Salmos métricos de Marot e revisões de versões anteriores. A edição de 1543 continha 50 Salmos. Em 1551, este número tinha aumentado para 83. Marot morreu em 1544; a sua obra foi continuada por Teodoro de Beza (1519 – 1605). Louis Bourgeois foi o principal editor musical, mas as melodias dos Saltérios de Genebra foram também fornecidas por Guillaume Franc (1505 – 1571) — cantor e professor de música em Genebra —, Pierre Certon (1510 – 1572) e Pierre Davantès, o Velho, conhecido como Antesignanus (1525 – 1561) — Maistre Pierre, provavelmente Pierre Davantes.

Saltérios em constante expansão continuaram a ser produzidos em Genebra: — “em 1562 (dois anos antes da morte de Calvino e para seu grande prazer) apareceu um Saltério métrico com todos os 150 Salmos. Esse Saltério foi reimpresso (surpreendentemente) 62 vezes em seus primeiros dois anos e foi traduzido para (ainda mais surpreendentemente) vinte e quatro idiomas[25].

Seguindo o Reformador de Genebra, Holliday afirma que: — “foi o movimento calvinista que foi a fonte primária para a adaptação dos Salmos para o canto congregacional”, antes de citar dois estudiosos para o mesmo efeito: — “O canto dos Salmos foi uma das marcas incontestavelmente distintivas da cultura calvinista na Europa e na América nos séculos XVI e XVII (embora não o seja, infelizmente, hoje — para grande perda de muitos calvinistas professos)”.

“Os calvinistas estavam convencidos de que podiam legitimamente apropriar-se dos Salmos para si mesmos […]. Os Salmos eram as suas canções que eles cantavam como o povo eleito de Deus numa relação de aliança com Ele[26].

Infelizmente, poucos hoje em dia experimentam esta relação viva com os Salmos como “os seus cânticos”. Hinos não–inspirados são cantados quase, se não na totalidade, exclusivamente, e os Salmos inspirados por Deus são vistos como enfadonhos e (em grande parte) irrelevantes. Os nossos antepassados calvinistas ter-se-iam perguntado se o conhecimento dos cristãos modernos sobre a Predestinação e a Aliança da Graça de Deus é deficiente. No entanto, com a recuperação das verdades da Eleição e da Aliança de Graça de Deus, vem a recuperação do canto dos Salmos de Deus, não apenas como “seus cânticos” (os cânticos da Igreja do Antigo Testamento e do Novo Testamento, especialmente das Igrejas Reformadas), mas como “nossos cânticos”. Ficamos maravilhados e admirados com o rico tesouro do Saltério e, como Calvino diz: — “[…] temos a certeza de que Deus coloca as suas palavras nas nossas bocas, como se Ele próprio estivesse a cantar em nós para exaltar a sua glória[27].

Paz e graça.

[1] Rev. Angus Stewart. John Calvin on the Wonder of the Psalms — https://cprc.co.uk/articles/johncalvinpsalms/ Acessado em 2023.

[2] Baker ed., p. xxxvi; as páginas indicadas em algarismos romanos referem-se a este livro.

[3]  Baker ed., p. xxxviii – xxxix.

[4] Baker ed., p. xxxix.

[5] Baker ed., p. xliv.

[6] Baker ed., p. xxxix.

[7] Baker ed., p. xxxvi – xxxvii.

[8] Baker ed., p. xxxvii.

[9] Baker ed., p. xxxviii.

[10] Baker ed., p. xxxvii.

[11] Baker ed., p. xxxvii.

[12] Baker ed., p. xxxvii – xxxviii.

[13] Baker ed., p. xxxvii.

[14] Baker ed., p. xxxvii.

[15] Pergunta 116 do Catecismo de Heidelberg — “Por que a oração e necessária aos cristãos?”. Resposta — “Porque a oração é a parte principal da gratidão, que Deus requer de nós. Além disto, Deus quer conceder sua graça e seu Espírito Santo somente aos que continuamente lhe pedem e agradecem, de todo o coração” (Salmos 50:14, 15; Mateus 7:7, 8; Lucas 11:9, 10; 1 Tessalonicenses 5:17, 18) — nota do tradutor.

[16] “Music in Worship: — The Reformation’s Neglected Legacy”, Protestant Reformed Theological Journal, vol. 42, no. 1, Novembro, 2008, p. 86.

[17] Baker ed., p. xxxviii.

[18] Baker ed., p. xxxviii – xxxix.

[19] Citado em Charles Garside, Jr., The Origins of Calvin’s Theology of Music: 1536 – 1543, Transactions of the American Philosophical Society, vol. 69, parte 4, Philadelphia: The American Philosophical Society, 1979, p. 10.

[20] O Pastor Erwin Friedrich Mülhaupt (1905 – 1996) foi um historiador da Igreja protestante alemã e da Reforma. O seu Doutorado com Emanuel Hirsch em Göttingen foi sobre os sermões de João Calvino. O nome de Mülhaupt está associado sobretudo a três grandes edições sobre a história da Reforma: — [1] – a edição em cinco volumes da Interpretação de Lutero dos Evangelhos (1938 – 1954), [2] – a edição em três volumes da Interpretação de Lutero dos Salmos (1959 – 1965) e [3] – a sua participação numa edição internacional dos sermões de Calvino, que não tinham sido editados anteriormente, em sete volumes (1961 – 1981). Mülhaupt é caracterizado como autoconfiante e original, espirituoso e pessoalmente sociável, com uma extraordinária produção de trabalho — nota do tradutor.

[21] Calvin’s Theology of the Psalms, Grand Rapids: Baker, 2007, p. 14.

[22] Ibid., p. 14, n. 4.

[23] Citado em Ford Lewis Battles, The Piety of John Calvin, Grand Rapids: Baker, 1978, p. 142.

[24] Clemente Marot (1496 – 1544) foi valete de Francisco I (rei, 1515 – 1547), que promoveu o Renascimento na França. Preso em 1526, suspeito de ser luterano. Por volta de 1530 era poeta bem conhecido. Em 1533 começou a versificar Salmos. Esteve exilado por questões políticas e religiosas, entre 1534 e 1536, por ter participado da questão das cartazes contra a missa católica. Em 1535 escreveu a famosa “Épistre au Roy, du temps de son exil à Ferrare”. Em 1536 abjurou essa heresia. Entre 1541 e 1543 traduziu Salmos de Davi (“Trente Psaumes”, 1541, “Cinquantes Psaumes”, 1543) que foram o fundamento do Saltério Huguenote, impresso por Denis Janot, que eram cantados na corte e na cidade. Seu primeiro salmo traduzido foi o de número 6 (“Éternel! Neme permis pas dans Ta colère, et ne me châtie pas dans Ta fureur”). As traduções de Marot continuaram, durante os quatro séculos seguintes, a ser cantados pelas congregações protestantes. Marot liderou muitos versejadores.  A “Sorbonne” foi contrária às traduções da Bíblia em francês. Em 1542, Marot foi para Suíça (Genebra) a fim de juntar-se a Calvino, que tinha aproveitado 13 Salmos dele em seu primeiro livro (“Aulcuns Psalmes”, Strasbourg, 1539), dando início ao hábito do canto congregacional na Liturgia Reformada. Calvino encorajou o canto de canções piedosas nos lares dos crentes e de harmonizações de Salmos metrificados de Marot, das quais as melhores eram de Goudimel e de Bourgeois. Em 1551 Claude Goudimel (1505 – 1572) tinha harmonizado, a quatro vozes, oito Salmos. Embora tenha composto missas, motetos e Magnificats, talvez a salmodia de Goudimel tenha começado na época da Reforma. O coral protestante surgiu de uma forma extra–litúrgica e, pouco a pouco, ocupou lugar na música religiosa reformada. Entre 1558 e 1561 Goudimel passou para o protestantismo. Foi assassinado na Noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572), em Lyon (França). Em 1543 Marot foi para a Itália onde morreu, e foi sepultado na catedral de Turim. Em 1574 seu corpo foi retirado por ordem expressa do bispo de Turim — nota do tradutor.

[25] William L. Holladay, The Psalms through Three Thousand Years, Minneapolis: Fortress Press, 1993, p. 199.

[26] William L. Holladay, The Psalms through Three Thousand Years, Minneapolis: Fortress Press, 1993, p. 198.

[27] Este artigo está inacabado e será desenvolvido no futuro — nota do autor.

[28] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.

SOBRE A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ — TESES INAUGURAIS DE FRANCISCUS JUNIUS

A REVELAÇÃO DE DEUS POR MEIO DO SOFRIMENTO DO SEU POVO

“Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito” (Romanos 8:28).

Vejamos os realces escriturísticos a respeito da revelação divina por intermédio do sofrimento do povo eleito de Deus.

1 – O sofrimento de Jacó e a revelação da confirmação da Aliança Abraâmica na Pessoa de Cristo como sendo Ele o sustentador e redentor do seu povo.

É–nos revelado pela Escritura que “Jacó partiu de Berseba e seguiu para Harã”. No decorrer dessa história, devemos observar principalmente como o Senhor preservou sua própria Igreja na pessoa de um homem sofredor. Porque Isaque, em razão de sua idade, “jazia como um tronco seco”; e, embora a viva raiz da piedade estivesse oculta em seu peito, contudo já não restava em sua debilitada e estéril idade nenhuma esperança de futura descendência. Esaú, como um ramo verde e florido, tinha muito de ostentação e esplendor, porém seu vigor era apenas momentâneo. Jacó, como um galho quebrado, era removido para uma terra distante; não que, sendo enxertado ou plantado ali, granjeasse força e grandeza, e sim que, sendo umedecido com o orvalho do céu, produziria seus renovos naturalmente. Pois o Senhor o nutre maravilhosamente, e o supre com vigor, até que fosse outra vez trazido de volta à casa de seu pai. Entretanto, observemos diligentemente que, enquanto aquele que era abençoado por Deus parte para o exílio sofredor, propiciava-se ao réprobo Esaú ocasião de vangloriar-se, que era deixado na posse de tudo, de modo que podia reinar com segurança, sem qualquer rival. Não nos perturbemos, pois, se em algum momento os perversos fazem soar seus triunfos, como que havendo alcançado seus desejos, enquanto que nós somos oprimidos[1].

Foi justamente no ermo, por intermédio de um isolamento sofredor e totalmente desnorteado, em um lugar chamado “Betel[2]”, que Jacó, passando a noite a caminho da Síria para encontrar uma esposa, teve um sonho — uma experiência espiritual e profundamente profética —, em que recebeu a confirmação da Aliança Abraâmica (Gênesis 28:12 – 15[3]) na Pessoa e Obra do Redentor (João 1:51[4]). Moisés, em poucas palavras, declara quão severa e árdua viagem o santo homem (Jacó) fez, em razão de sua grande extensão; ao que se acrescenta também outra circunstância, a saber, que Jacó se deitou no chão fazendo de “uma das pedras daquele lugar […] seu travesseiro” (Gênesis 28:11), a céu aberto, sem um companheiro e sem uma habitação; Moisés, nitidamente, menciona o quanto Jacó sofreu e foi humilhado, ainda que Moisés registre apenas brevemente a esses fatos.

Há àqueles que em nosso tempo, à frente de sofrimentos, levantam problemáticas; poderiam arrazoar: — “Jacó não foi negligenciado por Deus, já que ele se viu deitado no chão tendo uma das pedras como seu travesseiro, no relento a céu aberto, sem nenhum companheiro e sem uma habitação, também exposto à incursão de animais selvagens e sujeito a todo gênero de dano, vindo da terra ou do céu, e em parte alguma achou ele qualquer socorro ou consolo por parte de Deus?”. A resposta que podemos oferece à objeção é que: — “O sofrimento a luz da Escritura não exclui o amor e domínio de Deus; essa definitivamente não é uma premissa que nasce da Bíblia. Paulo, em Filipenses 2:21 – 26, afirma que não existe algo como ‘sofrimento’ em si mesmo. Ele enfatiza que, em qualquer caso, Deus será glorificado em todas as situações da vida, incluindo o sofrimento. Em termos soteriológicos, o objetivo do sofrimento é o crescimento, não a recompensa de livramento”. Portanto, se, em algum momento de nossa vida, julgarmos que estamos sendo humilhados ou que estamos em sofrimento excessivo, recordemos rapidamente do exemplo de Jacó, como prova de nossa impaciência.

Mas, como escreveu João Calvino a respeito do cuidado de Deus por seu servo Jacó: — “Quando (Jacó) se viu assim reduzido à necessidade extrema, o Senhor, de repente, lhe estende sua mão e, maravilhosamente, alivia sua angústia por meio de um extraordinário oráculo. Como, pois, a invencível perseverança de Jacó já havia resplandecido, agora o Senhor dá um memorável exemplo de seu paternal cuidado para com os fiéis[5].

Calvino destacou em seu comentário de Gênesis, três coisas que devem ser notadas através do texto, em sua ordem:

[1] – Que o Senhor apareceu a Jacó num sonho.

[2] – A natureza da visão, tal qual foi descrita por Moisés.

[3] – As palavras do oráculo.

Quando se faz menção de sonho, sem dúvida está implícito o “modo de revelação”, o qual o Senhor outrora costumava utilizar para se revelar aos seus servos (Números 12:6). Jacó, pois, sabia que este sonho lhe fora divinamente enviado, como um sonho diferente dos sonhos comuns; e isso é destacado nas palavras de Moisés, quando afirma que Deus lhe apareceu num sonho. Pois Jacó não podia ver a Deus nem perceber sua presença, a menos que sua majestade fosse distinguível por certos sinais[6].

Neste instante, compare Gênesis 28:12, 13 com João 1:51:

[1] – “E sonhou: — e eis uma escada posta na terra, cujo topo tocava nos céus; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela; e eis que o Senhor estava em cima dela […]” (Gênesis 28:12, 13).

[2] – “Na verdade, na verdade vos digo que daqui em diante vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem” (João 1:51).

Este versículo 51, do capítulo 1 de João, claramente alude à visão de Jacó da escada, cujo topo atingia o céu e por onde os anjos subiam e desciam (Gênesis 28:12). Jesus Cristo se apresenta como a realidade para a qual a escada apontava — “a escada era um tipo de Cristo”. Jacó viu nesse sonho a reunião do céu e da terra “em Cristo”, que o transformou em realidade por sua obra redentora quando Ele é apresentado no texto como sendo o “Filho do homem” (João 1:51). Com este título Jesus prediz os sofrimentos, morte e ressurreição, que Ele cumpriria em favor da humanidade (Mateus 17:22, 23). Como escreveu Calvino: — “Para nós, que sustentamos o princípio de que a aliança de Deus foi fundada em Cristo, e que Cristo mesmo era a eterna imagem do Pai, na qual Ele se manifestou aos santos Patriarcas, nessa visão nada há de intrincado ou ambíguo[7]. Jesus dá ênfase à sua natureza humana, que o capacita a morrer por seu povo. Refere-se também à figura messiânica celestial conhecida em Daniel 7:13 (cf. Mateus 8:20). Resumidamente, o oráculo divino recebido pelo sonho de Jacó de um lugar de encontro entre céu e terra prenuncia Jesus Cristo, o Deus–Homem que reúne céu e terra (João 1:51). Através de Cristo, o único “Mediador entre Deus e os homens” (1 Timóteo 2:5), temos acesso ao Pai (Efésios 2:18).

Jacó respondeu a essa centelha renomeando o lugar, que antes era chamado “Luz”, para “Betel” (Gênesis 28:10 – 22). Quando voltou com sua grande família, Jacó veio a “Betel” novamente para ouvir a confirmação da aliança do Senhor, e seu nome foi mudado para “Israel”. Aqui novamente Jacó erigiu um monumento de pedra (Gênesis 35:1 – 16; Oséias 12:4, 5). Esse nome pessoal (Israel), tem como significado: — “Deus luta”, “Deus governa”, “Deus cura” ou “ele luta contra Deus”. Esse novo nome que Deus deu a Jacó depois que ele lutou contra um mensageiro divino (Gênesis 32:28), foi marcado pela “conversão da pessoalidade do santo Jacó, pelo relacionamento mais entranhado com Deus, que por fim, acabou determinando num modo de vida mais agradável perante Deus”. Contudo, “Israel” saiu mancando com uma perna lesionada; toda essa experiência sofredora de Jacó no Jaboque veio a ser o fundamento da nação do povo eleito de Deus. “Betel” foi um lugar de adoração ortodoxa desde Abraão até o tempo dos juízes, porque a partir desse último tempo, “cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos” (Juízes 21:25).

2 – O sofrimento de Moisés e a revelação do Nome de Deus como evidência da presença divina em companhia do seu povo.

No decurso do retiro sofredor, Moisés atônito, viu o SENHOR “em uma chama de fogo do meio duma sarça” (Êxodo 3:1 – 22). E ali o Senhor revelou seu “Nome Próprio” a Moisés e a todo povo: — “E disse Deus a Moisés: — ‘EU SOU O QUE SOU’. Disse mais: — Assim dirás aos filhos de Israel: — ‘EU SOU’ me enviou a vós” (Êxodo 3:14). Até aquele momento Deus era chamado de “Deus” (אֱלֹהִים֙). A questão é que a palavra “deus” em hebraico (’ĕ–lō–hîm) era usada também pelas outras nações para indicar seus falsos deuses (Êxodo 18:11; Juízes 10:14; 1 Samuel 4:8; 1 Reis 11:5, 33), no tempo antigo para governador ou chefe poderoso (Gênesis 23:6), para juízes (Êxodo 21:6; 1 Samuel 2:25), e também para anjos (Jó 1:6).

Assim como Jacó antes dele (Gênesis 28:10 – 17) e Gideão depois dele (Juízes 6:11 – 24), Moisés julgou o seu primeiro encontro direto com Deus uma experiência desalentadora (Êxodo 3:6). Mas se a reação humana nessa situação era um estereótipo, o propósito divino era misericordiosamente coerente. A forma tem chamado atenção para os elementos recorrentes que fazem parte das “narrativas de chamado e revelação”, como a temos aqui e em Juízes 6, Isaías 6 e Jeremias 1, e muitos outros textos — o sofrimento. Não é sem razão que Horebe (“vasto” ou “área desértica”) é um nome alternativo para Sinai, provavelmente associado a uma raiz hebraica significando “refugo, desolação”. Isto é, a Bíblia usa a palavra “Sinai” tanto para a montanha como para toda a região desértica (Levítico 7:38). Algumas vezes o Sinai é chamado de “o monte” (Êxodo 19:2), “o monte de Deus” (Êxodo 3:1), ou o “monte do Senhor” (Números 10:33). O “deserto” é colocado muitas vezes como sendo um lugar de “perigos” (2 Coríntios 11:26); também pode descrever “tarefas enormes” (Mateus 4). Por exemplo, o “deserto” de Parã, é o lugar mais provável onde os israelitas passaram parte dos seus 40 anos de peregrinação em meio a aflições; o rei Davi passou algum tempo no deserto de Parã, após a morte de Samuel (1 Samuel 25:1); é também o lugar onde Hagar, serva de Abraão, e seu primeiro filho Ismael ficaram (Gênesis 21). O que o Apóstolo Paulo afirmou acerca de Israel no deserto descreve frequentemente nosso fracasso em crer nas promessas de Deus: — “Porque as boas novas também foram pregadas a nós, assim como a eles; mas a palavra da pregação de nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com fé naqueles que a ouviram” (Hebreus 4:2). Portanto, pensemos que erramos em não compreender o que do sofrimento emana.

É–nos revelado que “[…] o anjo do Senhor” apareceu a Moisés (Êxodo 3:2) no deserto. O conceito de Anjo do Senhor provavelmente representa a forma veterotestamentária mais próxima da revelação cristã do Filho Divino. Numa analogia direta com o texto já citado, podemos observar como o que é afirmado sobre o Pai nos escritos do Novo Testamento, também pode ser afirmado sobre o Filho (João 10:30). A chama de fogo simboliza a presença divina como em Gênesis 15:17 e em outros textos. Agora a solene celebração da aliança em Gênesis 15:18 e seguintes está chegando à sua conclusão.

A ênfase da narrativa está no fogo como um símbolo divino; como celebração dessa ocasião, Deuteronômio 33:16 descreve Deus como aquele “que com a benevolência […] habitava na sarça”. O efeito e a intenção original do milagre eram conseguir a atenção de Moisés e prepará-lo para uma nova experiência. O chamado e a resposta são expressos de maneira convencional (cf. Gênesis 22:11; 1 Samuel 3:4).

O nome divino revelaria algo acerca do caráter do Deus que se havia revelado a Moisés. Antes de ser revelado o “Nome Próprio”, uma explicação é dada. “Eu Sou o que Sou” — três palavras no original — revela e retém ao mesmo tempo. No entanto, estabelece de fato a ligação entre o nome divino Jeová/Javé e o verbo hebraico “ser”. A tradução “Eu Serei o que Serei” também é possível e tornaria ainda mais explícita a sugestão de que o caráter de Deus seria manifesto à medida que transcorressem os eventos. Como em relação ao sinal dado no versículo 12, Moisés e os israelitas estão sendo desafiados a testar a palavra e o caráter de Deus em meio ao sofrimento que estavam passando. “Eu Sou” não é uma tradução do nome divino, que não é mencionado antes do versículo 15, mas é a primeira palavra da expressão interpretativa “Eu Sou o que Sou” anteriormente no versículo.

3 – O sofrimento de Elias e a revelação do poder controlador de Deus a respeito dos inimigos do seu povo.

Ao longo de um profundo sofrimento e perseguição, pedindo para si a morte, Elias ouviu “um sussurro calmo e suave”, a voz do SENHOR. A este profeta ancião, desencorajado e desesperançado, Deus responde com brandura (1 Reis 19:12, 13). Poderíamos traduzir assim: — “Depois do fogo um cicio tranquilo e suave[8]. No hebraico “um som de suave tranquilidade”. Em agudo contraste com as tremendas manifestações da natureza que se moviam de maneira tão catastrófica diante do Senhor, o próprio Senhor falava agora mansamente.

O som de suave tranquilidade convidou Elias a sair da caverna onde estava escondido para se apresentar a Deus face a face e receber de Deus a revelação que indiretamente puniria o rei Acabe. Devemos acreditar que em meio as aflições, há muito dos ocultos conselhos divinos.

Agora Deus revelou a Elias uma tarefa tripla: — [1] – ungir Hazael rei sobre a Síria (2 Reis 8:7 – 15); [2] – ungir como novo rei sobre Israel, a Jeú, filho de Ninsi (2 Reis 9:1 – 10); [3] – nomear seu próprio sucessor, Eliseu, o filho de Safate. Esses três indivíduos, embora diferindo em vocação e caráter, estariam, contudo, “ligados para humilhação e vergonha da casa de Acabe[9].

4 – O sofrimento de Ezequiel e dos cativos e a revelação da glória de Deus que consola e cuida de seu povo.

Durante o exílio sofredor no meio dos cativos, Ezequiel viu “a glória[10] do Senhor” junto ao rio Quebar; é–nos revelado de que “se abriram os céus”, e que Ezequiel “teve visões de Deus, e ali esteve sobre ele a mão do SENHOR” (Ezequiel 1:1 – 28).

A vocação do Profeta Ezequiel veio na forma de uma “Teofania[11]”, uma manifestação de Deus no meio de uma tempestade. Sua visão foi descrita com muito maiores detalhes do que teofanias em que homens como Moisés (Êxodo 33; 24:9 e seguintes), como o Profeta Amós (7:15), o Profeta Isaías (capítulo 6), o Profeta Jeremias (1:4 – 10) ou o Profeta Daniel (7:9 e seguintes), participaram.

Na presença de Deus, Ezequiel reconheceu a sua indignidade (Gênesis 32:30; Êxodo 20; 19, 20; 24:11; Isaías 6:5; Jeremias 1:6). Da sua visão, Ezequiel ficou sabendo que Deus não se limitava à Palestina, mas estava presente na Babilônia entre os exilados, descendo à terra sobre querubins e tempestade (Salmos 18:10; 104:3). O carro podia movimentar-se rapidamente em todas as direções, simbolizado pelo número quatro (os quatro cantos da terra). As figuras olhando para as quatro direções (Ezequiel 1:9, 10, 17) dão a idéia que todas as partes do universo estão abertas aos olhos de Deus. As asas ligavam a visão ao céu e as rodas à terra. Assim nenhum lugarzinho fica inacessível à presença, cuidado e poder de Deus. A onipresença de Deus fica desse modo transmitida de maneira poderosa para todo o seu povo. Devemos entender que em meio ao sofrimento podemos crer que Deus se faz presente em cuidados e consolações — em puro amor; também devemos compreender que a aflição não é a prova cabal de que Deus quer que soframos, mas é a evidência de que cresceremos em fé e no santo conhecimento dEle.

5 – O sofrimento de Daniel e a revelação da dignidade e eternidade de Deus.

No tempo da expatriação, Daniel viu se assentar o “Ancião de Dias”. Este é um título divino que se refere à dignidade e eternidade de Deus, Daniel soube verdadeiramente quanto o Senhor era [é] digno de receber a sua genuína adoração (Daniel 7:1 – 28), por ser Ele o Deus que julga e condena toda impiedade.

Neste capítulo o Profeta Daniel tem “uma visão das quatro bestas, do Ancião de Dias e do Filho do Homem”, claramente é revelado para Daniel o conflito de Cristo com o Anticristo. Três importantes mudanças têm início neste capítulo. Até o capítulo 7 a matéria é principalmente histórica. Daí em diante é principalmente preditiva (profética). Até agora Daniel fora o agente divino na revelação, interpretando sonhos de outros. Daqui para frente, um anjo interpreta os sonhos e as visões do próprio Daniel (7:16; 8:15 – 17; 9:20 – 23; 10:10 – 14).

Em suma, podemos afirmar tendo como fundamento a profecia de Daniel, que em seu poder providencial Deus: — [1] – Controla as nações, agitando-as ou apaziguando-as (Apocalipse 7:1 – 3; Jeremias 23:19; 49:36; 51:1; Zacarias 6:1 – 6; 7:14). [2] – Que cada nação tem as suas próprias características especiais, embora todas partilhem do mesmo caráter brutal, irracional e bestial, mas que todas elas não fogem do absoluto domínio de Deus. [3] – É uma cena do juízo onde o “Ancião de dias” — ninguém outro que “o Alto, o Sublime, que habita a eternidade” (Isaías 57:15) —, toma posse dos reinos da terra através do Filho do homem — “um nome que o Senhor claramente reivindicou para si mesmo” (Mateus 24:30). A ação dramática através da qual o reino da besta é violentamente derrubado encaixa-se em muitas predições bíblicas sobre a maneira pela qual nosso Senhor julgará as nações no final desta dispensação. Todas as angústias desse tempo que o seu povo sentirá, não podem desfazer “um peso eterno de glória” que a esse povo foi preparado antecipadamente.

Como afirmou o Apóstolo Paulo: — “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz, para nós, um peso eterno de glória mui excelente; não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (2 Coríntios 4:17, 18[12]).

6 – O sofrimento de Jó e a revelação da bondade de Deus que é cheio de compaixão e misericórdia para com o seu povo.

Num cativeiro de opressão terrena e espiritual em constante oração e aprendizado das coisas celestiais, Jó viu (ou seja, conheceu verdadeiramente) a Deus (Jó 42:10).

A verdadeira religião não é o caminho da prosperidade como boa parte da Igreja contemporânea pensa e acredita. Mas a criação de Deus é boa e a herança da terra prometida aos mansos é uma parte integral da bem–aventurança total do homem como um todo (Mateus 5:5). Conforme o próprio Livro de Jó ensina, “neste mundo a piedade e a prosperidade nem sempre são companheiras inseparáveis” (Mateus 5:3 – 12). Mas sob o governo do Criador que é justo, os homens justos devem em última análise “receber beleza em lugar de cinzas”. A vida de Jó foi moldada por Deus através do sofrimento para ser um sinal profético do “fim do Senhor” — como é–nos revelado por Tiago, que escreveu: — “Como vocês sabem, nós consideramos felizes aqueles que mostraram perseverança. Vocês ouviram falar sobre a paciência de Jó e viram o fim que o Senhor lhe proporcionou. O Senhor é cheio de compaixão e misericórdia” (Tiago 5:11) —, para maior encorajamento dos justos naquele período precoce da revelação redentora quando o fim ainda estava muito distante; assim igualmente foi a vida de Cristo.

De modo significativo, o momento crítico das circunstâncias externas de Jó, seu livramento das mãos de Satanás, foi marcado pelo ato no qual ele espiritualmente ilustrou a justiça do reino de Deus (Mateus 6:33) e cerimonialmente tipificou o sacrifício messiânico que estabelece aquela justiça (Jó 42:10). Buscar a justiça de Deus em meio a um mundo injusto, caótico e confuso, é inevitavelmente escolher sofrer. Mas, isso também é uma graça e privilégio concedido a Igreja, “pois a vocês foi dado o privilégio de, não apenas crer em Cristo, mas também de sofrer por Ele” (Filipenses 1:29). Assim, é a Igreja, que sofre muitas tribulações, deixando através do testemunho cristão para todas as eras, a manifestação da justiça e bondade de Deus.

O sofredor Jó recebe a “bênção dupla” (v. 10b; cf. Isaías 61:7; Zacarias 9:12), essa bênção estende-se à propriedade de Jó (Jó 42:12), sua família (v. 13 – 15), pois os filhos mortos de Jó continuavam sendo de Jó na esperança da imortalidade da alma (v. 16b). Possivelmente o prolongamento de sua vida até à plenitude patriarcal (v. 16, 17; cf. Gênesis 25:7, 8; 35:28, 29) é uma duplicação dos setenta anos prévios (cf. Salmos 90:10). Certamente sugere a restauração da saúde, como a herança das filhas entre seus irmãos (Jó 42:15b) e sugere a restauração da antiga felicidade familiar de Jó. 

7 – O sofrimento de Davi e a revelação da misericórdia e perdão de Deus que segue o seu povo.

Atravessadamente desgraçado em sua alma esmorecida, apegada ao pó, Davi alcançou e vestiu-se da misericórdia e perdão de Deus (Salmos 51:1 – 19).

Neste salmo, Davi grita por misericórdia divina, ele escreve: — “Compadece-te de mim, ó Deus”. O salmista nem pede inocência, porque “a inocência cristã é a sinceridade”, e ele sabe que se “fosse sincero, ficaria limpo de grande transgressão” (Salmos 19:13), como de fato ele foi sincero; esse salmo 19 foi escrito por Davi. Nem lança a culpa sobre outrem, porque incorreria em erro, não sendo sincero, logo não seria perdoado de seu pecado. Uma vez que sabe que não merece perdão, o rei Davi em profunda angústia primeiro roga por misericórdia, com base na bondade divina. De acordo com esta misericórdia, ele pede que a sua transgressão seja totalmente apagada e a sua iniquidade seja lavada, tornando-o puro outra vez. Os pecados causam sofrimento profundo, mas também fortalecem a consciência a respeito da eterna misericórdia e perdão de Deus. “[…] onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Romanos 5:20).

8 – O sofrimento de João e a revelação do Apocalipse, que é a esperança em sólida certeza para o povo de Deus, porque tem como fundamento a promessa de Deus.

No decorrer de violenta aflição na Ilha de Patmos, enclausurado, João foi arrebatado “no Espírito” (sendo poderosamente controlado pelo Espírito Santo), e no “Dia do Senhor” (domingo) viu o resplendor da glória de Deus. João encontrou-se com o seu Amado Jesus ressurreto e escreveu a revelação (Apocalipse 1:10).

Temos aqui as palavras que Cristo falou ao Apóstolo João, uma breve ordem a que registrasse o que veria, e instruções a que enviasse a transcrição quando terminada para todas as Igrejas; a mensagem é: — “Nada temas das coisas que hás de padecer (sofrimento). Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão (sofrimento), para que sejais tentados (sofrimento); e tereis uma tribulação (sofrimento) […]. Sê fiel até à morte (sofrimento), e dar-te-ei a coroa da vida (glorificação)” (Apocalipse 2:10).

9 – O sofrimento de Paulo e a revelação da suficiente graça de Deus para o seu povo.

Por meio de um “espinho na carne[13], um ataque incitado de maneira demoníaca, um mensageiro do próprio Satanás ao Apóstolo, fez com que o sofredor Paulo aprendesse sobre a suficiente e poderosa graça do Senhor (2 Coríntios 12:7 – 9).

A magnitude das revelações que o Apóstolo Paulo teve “sobre contato com as inefáveis grandezas divinas no terceiro céu” (v. 4 – 7), levaram o Senhor a lhe dar um estorvo divino (esse espinho na carne) com o propósito de reduzir quaisquer tendências de exaltação orgulhosa. Paulo precisava de um “lembrete” que lhe fizesse ver que, apesar do seu arrebatamento glorioso, ainda era um pobre e pecador homem entre os homens, totalmente dependente de Deus.

10 – O sofrimento da Igreja e a revelação da suficiência de Cristo na salvação do seu povo.

Para que tenhamos deleitável ânimo na entrada e permanência no reino de Deus, depositando corajosamente e ousadamente fé unicamente em Cristo Jesus, isto é, tendo desprendimento total das coisas terrenas e apego as coisas salutares e divinas por mediação de Cristo Jesus, faz-se necessário padecer muitas aflições, segundo o que ensinou o próprio Senhor em João 16:33: — “No mundo vocês vão sofrer; mas tenham coragem. Eu venci o mundo”; em outras palavras, venceu o mundo por todos aqueles que creem nEle, esses que fazem, verdadeiramente, parte da Igreja, do seu corpo.

Para proteção da sua Igreja, Cristo providenciou a sua paz (João 14:27), da qual todos os cristãos precisariam (e continuam a precisar, obviamente) quando enfrentassem as aflições que lhes estavam reservadas no mundo. Esta não é simplesmente paz do conflito (é em meio ao conflito), não é uma paz circunstancial, mas paz que descansa na certeza da vitória obtida agora pelo seu paladino sobre o mundo. A vitória de Cristo é a realidade objetiva que torna válida a dádiva interior de sua paz. 

“A paz que Cristo concede, não nos dá paz plena neste mundo, a paz esporádica é transitória. Ele nos dá paz com Deus que tem o caráter eterno. Essa é a mais importante e elevada paz que o homem caído necessita” (Romanos 5:1).

Conclusão.

Por que motivo, nos queixamos ainda tanto do sofrimento? Não deveríamos bradar como o salmista: — “O Senhor é o meu Pastor, e por isso, de nada terei falta?”, ainda que andássemos “pelo vale da sombra da morte?” (Salmos 23:4). Ou mesmo que ainda “comêssemos perante inimigos?”. Essas aflições indicam a realidade que ocorre aqui neste mundo, entrepõe-se céu e terra e nos faz buscar confiante e decididamente as coisas eternas com mais afinco. As Escrituras, frequentemente, indicam que Deus guia seus filhos através do sofrimento antes de eles alcançarem a revelação e glória eterna. Conhecemos, de fato, a Deus quando neste mundo experimentamos o sofrimento; é nesse momento que descobrimos que somos conhecidos de Deus; e o quanto somos amados por Ele. “O Espírito Santo garante a glória que é sempre futura (Romanos 8:17 – 30); e o ‘lucro’ da vida cristã segundo Paulo, não é o livramento dos sofrimentos, mas a morte ‘em Cristo’; e a vida aqui neste mundo, esse viver ‘em Cristo’, carrega as marcas dos sofrimentos vividos por amor a Ele e a sua Igreja (Filipenses 1:21; Gálatas 6:11 – 18)”.

Então, por qual razão, com tanta intensidade são as contestações e imposição acerca da soltura do sofrimento? Por que queremos nos livrar do sofrimento quando sabemos que é através dele que conhecemos verdadeiramente a Deus, nossos corações, o próximo e o próprio sentido da vida? Ora essa, não devemos entregar confiantemente nossos caminhos ao Senhor? Se qualquer cristão rejeitar carregar a sua cruz, sem dúvida não achará outra, e pior, talvez mais pesada, porque será separada da ajuda divina?

Nem Jesus Cristo, nosso Redentor, esteve um minuto, em toda a sua vida, sem dor, humilhação e sofrimento. Ele admitiu e aceitou sofrer e ressurgir dos mortos, para que assim entrasse na sua glória eterna (Lucas 24:26) — “com aquela glória que Ele tinha com Deus Pai antes que o mundo existisse” (João 17:5).

Como, diante disso, podemos buscar outro caminho que não seja o caminho real do sofrimento, a cruz que nos assemelha a Cristo? Como podemos abandonar o caminho real da santa cruz?

Devemos crer que Deus “age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito” (Romanos 8:28). Sim, é uma vida de sofrimento, contudo, diametralmente diferente com a vida abundante na eternidade de glória que nos aguarda. O que nos importa acreditar para a vida neste mundo? O que Jesus Cristo afirmou: — “E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mateus 28:20).

“A nossa pressa em acabar com o sofrimento de amanhã (que é geralmente ansiedade misturada à incredulidade), não retira de nós, o sofrimento presente que cercam nossas vidas e más decisões, apenas retira de nós a força (“alegria do Senhor”) de suportamos o sofrimento e a esperança de que todo sofrimento é transitório, mas que toda vida dada por Deus é eterna; e ela começa aqui”.

Como escreveu Charles Haddon Spurgeon: — “Aqueles que mergulham no mar das aflições trazem pérolas raras para cima”. E, Martinho Lutero complementa esse pensamento: — “Minhas tentações (sofrimentos) têm sido minhas mestras de Teologia”.

O Senhor sempre demonstrou seu poder, santidade e sua ira contra o pecado. Mas, sempre se revelou através do sofrimento de sua Igreja; em gentileza, graça e poder, o Senhor moveu céus e terra, e quando sabemos que quando Deus não está agindo de forma claramente visível em favor dela, está trabalhando silenciosamente e poderosamente por ela.

Apenas confie nEle! Ele jamais deixou (ou deixará) de amar a sua Igreja que foi comprada pelo sangue de seu Amado Filho. Ainda que seja em meio a angústias e longos períodos de sofrimento, Ele nunca nos abandonará.

“Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao Dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1:6).

Paz e graça.

[1] João Calvino. Série Comentários Bíblicos – Gênesis, Volume 2, Editora CLIRE – Centro de Literatura Reformada, 2019, p. 95.

[2] Betel significa “Casa de Deus”.

[3] “E eis que o Senhor estava em cima dela, e disse: — Eu sou o Senhor Deus de Abraão teu pai, e o Deus de Isaque; esta terra, em que estás deitado, darei a ti e à tua descendência; e a tua descendência será como o pó da terra, e estender-se-á ao ocidente, e ao oriente, e ao norte, e ao sul, e em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra; e eis que estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores, e te farei tornar a esta terra; porque não te deixarei, até que haja cumprido o que te tenho falado” (ACF).

[4] “Na verdade, na verdade vos digo que daqui em diante vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem” (ACF).

[5] João Calvino. Série Comentários Bíblicos – Gênesis, Volume 2, Editora CLIRE – Centro de Literatura Reformada, 2019, p. 96.

[6] João Calvino. Série Comentários Bíblicos – Gênesis, Volume 2, Editora CLIRE – Centro de Literatura Reformada, 2019, p. 97.

[7] João Calvino. Série Comentários Bíblicos – Gênesis, Volume 2, Editora CLIRE – Centro de Literatura Reformada, 2019, p. 97.

[8] Ou “e depois do fogo uma voz mansa e delicada” (1 Reis 19:12 – ACF).

[9] Comentário Bíblico Moody, 1 Reis, p. 66.

[10] “Esta glória foi vista por Ezequiel em Quebar (1:4 – 28), deu-lhe uma mensagem em Tel–Abibe (3:12 e seguintes, 22 e seguintes), transportou-o de sua casa no exílio até a entrada da porta do pátio interno do Templo em Jerusalém (8:4, 5), afastou-se dos querubins no Templo até a soleira do mesmo (9:3; 10:4), elevou-se da soleira da porta leste do pátio externo do Templo (10:15, 16, 18, 19), passou do meio da cidade ao Monte das Oliveiras no lado leste da cidade (11:22, 23), mas retornou para encher o novo Templo e purificar o povo (43:2 – 7; 44:4)” (Moody, p. 19).

[11] “Teofania”, do grego (ἡ) “θεοφάνεια” (theophaneia), que significa “aparência de uma divindade”, é um encontro pessoal com uma divindade, no qual a manifestação de uma divindade ocorre de uma forma observável. Especificamente, “se refere à manifestação temporal e espacial de Deus de alguma forma tangível”.

[12] “E essa pequena e passageira aflição que sofremos vai nos trazer uma glória enorme e eterna, muito maior do que o sofrimento. Porque nós não prestamos atenção nas coisas que se veem, mas nas que não se veem. Pois o que pode ser visto dura apenas um pouco, mas o que não pode ser visto dura para sempre” (NTLH).

[13] Veja uma análise completa em https://santoevangelho.com.br/o-espinho-na-carne-de-paulo/