INCONSISTÊNCIAS PROTESTANTES — PARTE 4

INCONSISTÊNCIAS PROTESTANTES — PARTE 4

4 – O Declínio Reformado. 

Muitas Igrejas reformadas também abandonaram a autoridade exclusiva da Bíblia sobre o culto. Muitas denominações reformadas e presbiterianas permanecem oficialmente apegadas à Sola Scriptura na esfera do culto. O papel da Escritura quanto ao culto é denominado de Princípio Regulador do Culto (PRC). Este princípio declara que todas as partes ou elementos do culto tem que possuir sanção divina, isto é, toda parte do culto que possui significado religioso (isto é, coisas e atos que não são circunstanciais) tem de ser autorizada ou por um mandamento direto da Escritura (por exemplo, “fazei isto em memória de mim” – Lucas 22:19); ou pela inferência lógica da Escritura (isto é, pode não ser um mandamento explícito, mas, quando diversas passagens são comparadas elas ensinam ou delas deduze-se uma prática da Escritura, por exemplo, batismo infantil); ou por um exemplo histórico bíblico (por exemplo, a mudança do dia de culto público corporativo do sétimo para o primeiro dia da semana). Dito de modo simplificado, toda prática de culto tem de ser comprovada pela Escritura. Tal princípio (se seguido rigidamente) elimina do culto todas as invenções humanas, pragmatismo e sincretismo pagão, e, portando, deixa a Igreja no mesmo estado em que estava nos dias apostólicos.

Hoje, infelizmente, a maioria das Igrejas reformadas abandonaram o princípio regulador, e por isso, permitem muitas práticas que não foram prescritas pela Bíblia (por exemplo, dias santos extra–bíblicos como Natal, São João e Páscoa, hinos não inspirados, corais, música instrumental, etc.). Muitas Igrejas reformadas estão seguindo os passos do arminianismo, do reavivalismo, do carismatismo, e do culto no estilo do movimento de crescimento de Igrejas. Um excelente exemplo dessa deterioração é a Igreja Presbiteriana na América (PCA). As estatísticas a seguir documentam a sua decadência. Há vinte e cinco anos atrás a PCA tinha 2% de Igrejas que cantavam exclusivamente salmos; 40% tradicionais (por exemplo, usando o Trinity Hymnal, com piano e órgão); 50% tradicional com alguns cânticos da Escritura e instrumentos musicais variados; e somente 8% tinha a mistura tradicional/contemporâneo. Hoje, aproximadamente 70% de suas Igrejas têm a mistura tradicional/contemporâneo. Hurst escreve: ― Se [eles] não têm dança e teatro é porque não há quem os dirija; mulheres e jovens podem dirigir o culto como orações individuais e leitura da Escritura, o aplauso é aceitável para [um] ato bem feito; a música pode tomar a forma de [uma] apresentação. Menos de 1% das Igrejas da PCA aderem hoje exclusivamente ao canto de salmos (isto é, culto bíblico).

Alguns conservadores dentro das denominações reformadas têm expressado preocupação quanto a tendência de suas denominações de desviarem-se rapidamente do culto tradicional para o culto contemporâneo, ou celebrativo. Esses homens tentam estancar a maré do culto moderninho discutindo sobre como o culto tem de ser digno, majestoso e reverente. Seu grito de batalha é: ― “decentemente e em ordem”. Não obstante concordemos de coração com nossos irmãos quanto a necessidade de reverência, decência e ordem no culto público a Deus, discordamos quanto ao problema fundamental que está causando uma tão rápida decadência no culto. Para curar a doença é preciso fazer mais do que tentar aliviar os sintomas, é necessário ir à raiz do problema. Como as denominações reformadas rejeitaram ou redefiniram o Princípio Regulador do Culto, tornando-o virtualmente inútil, todos os esforços para uma séria reforma no culto serão derrotados. Sem uma rígida interpretação do princípio regulador o debate sobre o culto deslocar-se-á da discussão exegética sobre o que é sancionado pela Escritura para uma disputa primária sobre as preferências humanas. A beleza e sabedoria do Princípio Regulador do Culto é que ele protege a Igreja de nossos próprios corações pecaminosos. O culto que está firmemente fundamentado na sólida rocha da Escritura é imune aos ventos e às ondas da opinião humana, do modismo e da excentricidade.

Paz e graça.

[1] Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, 1ª Edição — Março de 2001, Traduzido do original em inglês: Sola Scriptura and the Regulative Principle of Worship de Brian M. Schwertley, Editora Os Puritanos, p. 24 – 42.

[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.

INCONSISTÊNCIAS PROTESTANTES — PARTE 4

INCONSISTÊNCIAS PROTESTANTES — PARTE 3

3 – O Evangelicalismo. 

Os evangélicos também são culpados de restringir a aplicação da autoridade da Bíblia. Quando o assunto é culto, os evangélicos não crêem que a Escritura é suficiente. Eles diriam que nada que seja pecaminoso deve fazer parte do culto. Entretanto crêem que os homens têm autoridade para dar qualquer forma e conteúdo que acharem ser útil ao culto. Infelizmente o entendimento de culto dos episcopais e luteranos tem sido adotado pela grande maioria dos cristãos professos. Essa visão pragmática do culto tem, previsivelmente, conduzido ao caos litúrgico nas Igrejas evangélicas. Sempre que as Igrejas abandonam o Sola Scriptura na esfera do culto e abraçam o pragmatismo, o resultado é um ato de culto que se torna crescentemente antropocêntrico e pagão.

Tal fato tem se tornado cada vez mais evidente nos últimos trinta anos, na medida em que as Igrejas têm adotado o paradigma de culto dos especialistas em crescimento de Igrejas. Estes especialistas que buscam sua sabedoria em técnicas de comércio, na psicologia, na sociologia e não na Bíblia, afirmam que a melhor maneira para se alcançar o crescimento da Igreja é torná-la mais amigável à clientela incrédula. Esta tática envolve uma diminuição da ênfase na Palavra pregada e nos sacramentos em favor de um ato de culto que divirta e proporcione entretenimento. A ênfase dos mais modernos atos de culto evangélicos está no entretenimento. Tais cultos não alimentam o intelecto, antes, pelo contrário, estimulam as emoções. Os cultos modernos têm pouco em comum com o culto apostólico, e muito em comum com Las Vegas, Hollywood e Broadway. Em muitas Igrejas as pessoas até aplaudem depois da apresentação, como se estivessem num teatro ou concerto. 

O resultado é que o culto evangélico moderno não glorifica Deus, mas o homem. É basicamente um show do homem, voltado para o homem, com canções agradáveis ao homem e montes de entretenimento: — pastores comediantes, solistas musicais, grupos de rock, bandas gospel, célebres oradores convidados, peças, esquetes, vídeos, cantores, corais, dança litúrgica e assim por diante. O culto pragmático, centrado no homem, tem influenciado até a arquitetura das Igrejas. A característica principal de uma casa de reunião puritana era o púlpito sobre o qual descansava uma grande Bíblia. O aspecto principal de uma mega–Igreja moderna é o palco. As pessoas que elaboraram o culto episcopal e luterano, com todos aos seus desvios humanos, tentaram, pelo menos, ser reverentes e majestosas. Geralmente o culto evangélico moderno não é, nada disso; é grosseiro, não–nutritivo e insosso. 

Quando nos aproximamos de um Deus três vezes Santo, que é infinito em perfeição, não deveria ser a nossa única preocupação aprender o que Ele tem ordenado e concentrar nossa atenção naquilo que o agrada e não naquilo que nos agrada e nos faz sentir bem? Quando aderimos consistentemente ao Sola Scriptura e, por causa disso, dependemos apenas da suficiente e infalível Palavra de Deus para determinar o que é culto aceitável, eliminamos a possibilidade de se introduzir na Igreja o culto papal, pagão, imposto por alguma liderança eclesiástica, ou o pragmático culto a si mesmo. A adoração é possivelmente a mais importante atividade em que a Igreja se envolve. Portanto, quando buscamos direção quanto ao culto, não deveríamos colocar a nossa confiança em Deus e em sua infalível Palavra, em vez de buscarmos as opiniões do homem pecador? Relacionamo-nos com um Deus que é muito zeloso; ou Ele é adorado como Ele quer ser, ou não é adorado de modo algum. Nem podemos nos queixar. Se Deus for um Ser tal como nos ensina a Escritura Sagrada, é seu direito inalienável determinar e prescrever como será servido. É arrogante e tola a idéia de que homens pecadores possam, com seus acréscimos, melhorar e tornar mais suficiente o culto que Deus autorizou em sua Palavra. Young escreve: — “O entendimento iluminado contenta-se em aprender os preceitos de Deus e [tem] renovada a sua vontade de andar neles, entretanto, o coração regenerado não pode, como tal, querer fazer o mais leve acréscimo aos mandamentos de Deus. Sempre que crentes verdadeiros agiram inconsistentemente quanto a isso, eles invariavelmente permitiram a introdução de grande corrupção no santuário de Deus”.

Paz e graça.

[1] Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, 1ª Edição — Março de 2001, Traduzido do original em inglês: Sola Scriptura and the Regulative Principle of Worship de Brian M. Schwertley, Editora Os Puritanos, p. 24 – 42.

[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.

INCONSISTÊNCIAS PROTESTANTES — PARTE 4

INCONSISTÊNCIAS PROTESTANTES — PARTE 2

2 – O Luteranismo. 

As Igrejas luteranas também se apartaram do Sola Scriptura na compreensão e regulamentação do culto público. Lê-se na Confissão de Augsburgo (1530): — “E para [alcançar] a verdadeira unidade da Igreja é bastante que se concorde quanto à doutrina do Evangelho e a administração dos sacramentos. Nem é necessário que as tradições humanas, rituais, ou cerimônias instituídas pelos homens devam ser iguais em toda parte, como disse São Paulo: — uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos” (Artigo 7, Da Igreja).

Quanto aos rituais eclesiásticos (criados pelos homens), eles ensinam que aqueles rituais devem ser obedecidos e observados sem pecado, e que são proveitosos para a tranquilidade e boa ordem na Igreja; assim como são determinados dias santos, festivais e coisas semelhantes. Mas quanto a isso, deve-se admoestar aos homens que não devem ter as consciências pesadas como se tais serviços fossem necessários à salvação. Ensina-se, ademais, que todas as ordenanças e tradições feitas pelo homem com o propósito de por elas reconciliar-se a Deus e merecer graça são contrárias ao Evangelho e à doutrina da fé em Cristo. Portanto votos e tradições quanto a comidas e dias e coisas semelhantemente instituídas para merecer graça e reparação pelo pecado são inúteis e contrárias ao Evangelho (Artigo 15, Dos Rituais Eclesiásticos).

Na Fórmula de Concórdia (1576 [1584]), Artigo 10, Das Cerimônias Eclesiásticas, lê-se: — (As quais são comumente chamadas de adiafóricas, ou coisas indiferentes). Surgiu também entre os teólogos da Confissão de Augsburgo uma controvérsia quanto às cerimônias eclesiásticas ou rituais que não são ordenados nem proibidos na Palavra de Deus, mas que foram introduzidos na Igreja meramente por causa da ordem e da decência (sã doutrina e confissão referente a este artigo).

I – Para melhor desembaraço dessa controvérsia nós cremos, ensinamos e confessamos, com unânime consentimento, que cerimônias ou rituais eclesiásticos (que não são ordenados nem proibidos na Palavra de Deus, mas foram instituídos apenas por motivos de ordem e decência) não são em si mesmos, culto divino, nem sequer fazem parte dele. Pois está escrito, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens (Mateus 15:9).

II – Nós cremos, ensinamos e confessamos que é permito à Igreja de Deus em qualquer parte da terra, a qualquer tempo, consoante a ocasião, modificar tais cerimônias, de modo que sejam julgadas mais úteis para a Igreja de Deus e mais apropriadas à sua edificação […].

V – Nós cremos, ensinamos e confessamos que uma Igreja não deve condenar outra por ela observar em maior ou menor grau as cerimônias externas, as quais o Senhor não instituiu, desde que haja entre elas concordância quanto à doutrina e a todos os artigos concernentes, e no verdadeiro uso dos sacramentos.

Nós repudiamos e condenamos como antagônicos à Palavra de Deus os seguintes falsos dogmas: — [1] – Que as tradições e preceitos humanos de coisas eclesiásticas devem, por si mesmos, ser considerados como culto divino ou pelo menos como parte do culto divino. [2] – Quando cerimônias e preceitos desse tipo são, por algum tipo de coerção, impostos à Igreja como necessários, sendo isso contrário à liberdade cristã que a Igreja de Cristo tem em assuntos externos dessa natureza.

A posição luterana confessional sobre o culto é basicamente a de que os homens podem fazer acréscimos ao culto a Deus conforme lhes for conveniente, uma vez que os acréscimos humanos não são considerados como parte do culto. É permitido à Igreja acrescentar rituais e cerimônias uma vez que não sejam condenados pela palavra e sejam considerados proveitosos. Entretanto, as tradições humanas que são acrescentadas não são em si mesmas, culto divino, nem sequer fazem parte dele. De acordo com os teólogos luteranos, os rituais e cerimônias criados pelos homens são meramente matérias externas e não verdadeiramente culto; podem ser acrescentados e retirados à vontade; e não podem ser impostos como compulsórios ao laicato.

O entendimento luterano sobre o culto foi desenvolvido cedo na Reforma e era dirigido primariamente contra Roma. Para Lutero e Melanchthon o maior problema com os ritos e cerimônias papais é que eram compulsórios e considerados necessários à salvação. Lutero escreveu: — Sobre esta mesma base frágil os romanistas atribuíram ao sacramento da ordenação um certo caráter fictício, do qual se diz estar indelevelmente impresso em um ordenando. Eu perguntaria donde surgiram tais idéias, com a autoridade de quem e com que propósito foram estabelecidas? Não é que não queiramos que os romanistas sejam livres para inventar, dizer ou asseverar o que bem quiserem. Mas nós também insistimos na nossa própria liberdade, para que eles não se arroguem o direito de criar artigos de fé da sua própria cabeça, como até agora têm se atrevido a fazer. É suficiente que, por causa da concórdia, devemos nos acomodar às suas cerimônias e idiossincrasias, mas recusamo-nos a ser forçados a aceitá-las como necessárias à salvação, porque que elas não o são. Retirem eles o item de obrigatoriedade de suas demandas arbitrárias, que concederemos livre obediência aos seus desejos para que possamos viver em paz uns para com os outros. Porque é indigno, iníquo, e servil para um homem cristão, em sua liberdade, ser submetido a qualquer regra exceto à celestial e divina.

Em sua Apologia, Melanchthon escreve: ― Pois a Escritura chama as tradições de doutrinas de demônios, ao passo que ensina que os ritos religiosos são úteis para merecer remissão de pecados e graça. Se os adversários defendem esses atos humanos como merecedores de justificação, de graça e de remissão de pecados, eles estabelecem definitiva e completamente o reino do Anticristo. Daniel indica que novos cultos humanos serão a própria forma e preceito do Anticristo.

As principais diferenças entre o culto reformado e o luterano resultam das diferentes perspectivas teológicas de Lutero e Calvino. Pode-se dizer que Lutero, quanto à prática da Igreja, era bem conservador. Para ele, a justificação pela fé era a doutrina maior sob a qual praticamente todos os outros ensinamentos tinham de ser considerados para serem entendidos. Era a doutrina principal pela qual a Igreja se mantinha de pé ou caía. Por isso, quando Lutero aplicou-se à reforma do estilo de culto medieval, ao qual estava acostumado, ele usou um bisturi e não um machado. Embora Lutero fosse um ardente defensor do Sola Scriptura, ele nunca fez a conexão entre a Escritura somente e a necessidade da sanção divina para as ordenanças do culto, como fez Calvino. Quando Lutero olhava a prática do culto, a sua principal preocupação era: — Será que esta prática é motivada por uma crença na justificação pelas obras? Será que este ritual ou prática deprecia de algum modo o perfeito, todo–suficiente sacrifício de Jesus Cristo? Com esse critério, Lutero eliminou muitos abusos (exempli grata – por exemplo [e.g.], a missa católico–romana, as peregrinações, a mediação dos santos, a hierarquia clerical, etc.). Lutero ensinava também que qualquer prática de culto que contradissesse o claro ensinamento da Escritura deveria ser evitada. Por isso, o culto da Igreja deveria ser inteligível para o povo. Deveria ser conduzido em sua própria língua. A Comunhão deveria ser servida em ambos os elementos — o pão e o vinho. A pregação deveria ser enfatizada para que o rebanho recebesse instrução e edificação em vez de inútil algaravia[2] em latim. Um outro importante aspecto em Lutero era a liberdade cristã. As tradições humanas no culto eram adiafóricas (indiferentes) e não deveriam ser impostas às pessoas. Tal coerção cheirava a catolicismo e mercadejar de méritos.

Lutero tinha uma visão favorável das tradições da Igreja. As tradições humanas na Igreja deveriam ser respeitadas e consideradas valiosas desde que não contradissessem a Escritura. Esta visão das tradições é notada na doutrina das ordens de Lutero. Escreve Davies: — A implicação desta doutrina era que Deus havia ordenado o mundo de tal modo que o homem não deveria viver como um mero indivíduo isolado da sociedade, mas como um ser que compartilha certos relacionamentos comunais. Tais comunidades ordenadas por Deus são a Igreja e o Estado. Desde que elas dependem do divino assentimento para a sua continuidade, os homens deveriam respeitá-las. Devem, portanto, ser obedecidas, exceto quando contradizem definitivamente a vontade revelada de Deus. Essa doutrina concede à tradição um valor excessivo e como tal deve ser considerada como a base religiosa do conservadorismo de Lutero. Ajuda também a explicar porque os bispos têm um papel tão importante na decisão de quais reformas litúrgicas são desejáveis. Teoricamente Lutero deixa a escolha de aceitar ou rejeitar as suas reformas litúrgicas aos cristãos das Igrejas locais, mas na prática a decisão foi deixada a critério do bispo.

A confissão luterana reflete fielmente o ensino de Lutero quanto às cerimônias humanas. As tradições da Igreja (isto é, rituais humanamente imaginados e cerimônias não ordenadas na Escritura) são permitidas se: — [1] – Elas não tiverem tendências católicas (isto é, nenhum mérito humano está ligado à cerimônia), [2] – As cerimônias não violarem o ensinamento das escrituras, [3] – Elas não forem superestimadas a ponto de os crentes valorizarem menos os reais mandamentos bíblicos (por exemplo, a Ceia do Senhor), [4] – Elas não forem compulsórias (isto é, não podem ser impostas sob pressão). Noutras palavras, não devem ser considerados atos necessários de culto — Um ato necessário de culto é aquele ordenado pela Escritura, como, por exemplo, os sacramentos.

Os luteranos ensinam que é permitido à Igreja acrescentar rituais e cerimônias apenas dentro do âmbito da adiaforia (palavra grega que significa “coisas indiferentes”). Allbeck escreve: — A Fórmula de Concórdia delimita primeiro as fronteiras da genuína adiaforia. A genuína adiaforia não é contrária à Palavra de Deus, não cria facções, não romaniza, não [cria] tolos e inúteis espetáculos, não constitui essencialmente o culto a Deus. Quanto à sua situação diz-se que a adiaforia pode ser modificada pela Igreja no interesse da boa ordem, disciplina e edificação. Mas há sempre a necessidade de uma clara confissão doutrinal em palavras e ações. A adiaforia é um elemento de liberdade. Adiaforia compulsória é uma contradição de termos. Quando deixa de ser livre deve ser resistida. O entendimento luterano de Sola Scriptura não permite à Igreja acrescentar as suas próprias doutrinas aos ensinamentos da Escritura, nem lhe permite acrescentar culto essencial ou ordenado (isto é, os sacramentos). Ele, no entanto, ao declarar simplesmente que os acréscimos humanos estão no âmbito da adiaforia, dá à Igreja um papel muito amplo na determinação de ritos e cerimônias. Na teoria, as declarações luteranas referentes ao culto são superiores aos ensinamentos episcopais. Pelo menos os luteranos não consideram seus acréscimos humanos como parte real do culto. Eles também argumentam que os rituais e cerimônias humanas não são compulsórios como as ordenanças de culto prescritas pela Escritura. Na prática, entretanto, as Igrejas luteranas não são melhores que as suas similares episcopais. Ambas negam a suficiência das Escrituras no âmbito do culto. Ambas são culpadas em permitir que a corrupção humana substitua o puro culto evangélico. Ambas negam que o culto a Deus na era da Nova Aliança é fixado ou limitado pelo cânon da Escritura. Em consequência disso, ambas entregam os parâmetros do culto aceitável a uma alteração contínua. As fronteiras do culto estão em constante mudança porque são determinadas, não pela Escritura somente, mas também pela tradição humana, e há um número infinito de opções de culto à disposição do homem que não violam o princípio luterano de permitir qualquer coisa que não seja expressamente proibida.

Há uma série de razões pelas quais o entendimento luterano do culto deve ser rejeitado com não bíblico e irracional. Primeiro, não é bíblico a idéia de que ritos e cerimônias externas são adiafóricas. Todo ato na esfera moral e religiosa é sempre bom ou mal. As únicas atividades que podem ser consideradas adiafóricas são as matérias que são realmente circunstanciais ou incidentais à cerimônia, tais como a disposição das cadeiras, acender as luzes, etc. Atividades circunstanciais não necessitam de comprovação da Escritura, entretanto precisam ser conduzidas conforme as regras gerais do mundo. Williamson escreveu: — É preciso cuidado ao distinguir entre as circunstâncias do culto e o próprio culto. Por exemplo, a Escritura não determina a que hora do dia o culto público congregacional deve ocorrer. O Senhor também não determinou o formato, estilo ou tamanho do local de culto. Conforme a natureza do caso, tais circunstâncias poderão variar de país a país, entre as estações do ano, ou de um lugar para outro. Há, entretanto, uma regra geral que determina que as congregações se reúnam em algum lugar no dia do Senhor. A regra geral controla a situação particular, conforme as circunstâncias. Mas, quando a congregação se reúne no local acertado o culto, então, deve ser unicamente aquele que Deus ordenou.

O estilo arquitetônico da Igreja, a iluminação, a climatização, a organização da bancada e a duração do serviço são circunstanciais no culto a Deus. Entretanto, aspergir água–benta, fazer o sinal da cruz, proibir comer carne às sextas–feiras, usar sal e creme no batismo infantil, Confirmação, celebração de Natal e de Páscoa, vestimentas sacerdotais, cerimoniais especiais e ajoelhar-se para receber a Ceia do Senhor não são circunstanciais ao culto, mas acréscimos a ele.

As inovações no culto criadas pelos homens são terminantemente proibidas pela Escritura. A Bíblia ensina que os homens nada devem acrescentar ou subtrair dos preceitos morais de Deus (cf. Deuteronômio 4:2; Josué 1:7, 8; Provérbios 30:5, 6) nem nada acrescentar ou subtrair ao culto que Deus instituiu em sua Palavra (cf. Deuteronômio 13:32; Levítico 10:1, 2; 2 Samuel 6:3 – 7; Jeremias 7:31; 19:5). A idéia luterana de que os rituais ou cerimônias criadas pelo homem não são culto é antibíblica e totalmente arbitrária. Sabemos que Deus considera os rituais ou cerimônias humanas adicionadas ao culto como não autorizados, inaceitáveis e pecaminosos. Jeová matou Nadabe e Abiú por realizarem uma cerimônia idealizada humanamente (a queima de fogo estranho diante do Senhor, Levítico 10:1, 2). Embora os teólogos luteranos não considerem os atos de culto humanamente criados como culto real, Deus se refere a todas essas invenções humanas como culto de si mesmo (Colossenses 2:20 – 23). Jesus repreendeu os fariseus pela invenção humana do ritual religioso de lavar as mãos (Mateus 15:1 – 3). Os judeus foram repreendidos pelo nosso Senhor não porque haja alguma coisa intrinsecamente imoral no lavar as mãos, mas porque a Igreja não tem autoridade para acrescentar as suas próprias cerimônias religiosas àquilo que Deus autorizou em sua Palavra. Alguns argumentam que Jesus estava condenando apenas às más e não edificantes tradições humanas que estavam sendo adicionadas ao que Deus ordenara. O problema dessa argumentação é que o lavar religioso das mãos, numa perspectiva estritamente ética, não fere ninguém. Jesus pegou a tradição religiosa humana mais inocente e inócua possível para deixar claro como a luz o ponto de que nenhum acréscimo humano é aceitável a Deus, não importa quão pequeno ou inocente ele seja.

Em segundo lugar, a afirmativa luterana de que os rituais e as cerimônias humanas não são obrigatórias, nem compulsórias não reflete a prática real nem dos luteranos nem de ninguém. Por quê? Porque quando cerimônias humanas são introduzidas na adoração pública a Deus elas são sempre praticadas debaixo de algum tipo de coerção humana. A partir do momento em que elas são introduzidas no culto da Igreja, as pessoas são forçadas ou a saírem daquela Igreja, para evitar os acréscimos humanos, ou a cometerem pecado, ao participarem de cerimônias não autorizadas. Sempre que alguma Igreja acrescenta cerimônias humanamente elaboradas ao culto a Deus há sempre pressão eclesiástica e social para submeter-se a elas. Espera-se que os membros, e a isso são motivados, sigam o calendário da Igreja, vão aos cultos de Páscoa e de Natal, cantem hinos não inspirados, ouçam a grupos musicais, assistam ao coral infantil, participem dos apelos para irem ao altar, etc. Até mesmo em Igrejas reformadas as pessoas sofrem pressão ou coerção para se conformarem às variadas corrupções que se foram acumulando ao longo dos anos. As pessoas têm sido disciplinadas por se recusarem a participar de invenções humanas tolas e romanistas (por exemplo, hinos não inspirados, dias santos, culto infantil, etc.).

O conceito luterano de tradições humanas não compulsórias pode, na teoria, soar bem, mas na prática ele corrompe a Igreja e destrói a liberdade cristã. A Bíblia ensina que somente Deus falando em sua Palavra infalível tem absoluta, inquestionável autoridade sobre a consciência dos homens. Assim assevera a Confissão de Fé de Westminster: ― “Só Deus é Senhor da consciência, e a deixou livre das doutrinas e mandamentos humanos que, em qualquer coisa, sejam contrários à sua Palavra, ou que, em matéria de fé ou de culto, estejam fora dela. Assim, crer em tais doutrinas ou obedecer a tais mandamentos, por motivo de consciência, é trair a verdadeira liberdade de consciência; e requerer para eles fé implícita e obediência cega e absoluta, é destruir a liberdade de consciência e a própria razão” (XX.II). Os crentes em Cristo são livres não apenas de doutrinas e mandamentos que são contrários à Palavra de Deus, tais como confissão a um sacerdote, missa, celebração de dias santos além do Dia do Senhor, etc., são também livres de doutrinas e mandamentos que sejam acréscimos à Bíblia, isto é, que não contradizem à Escritura explicitamente, mas não são ensinados nela; eles derivam da autoridade humana. A qualquer doutrina ou mandamento contrário ou além da sua vontade, em assuntos religiosos, o cristão não apenas pode, mas deve desobedecer. Liberdade de consciência significa a liberdade do indivíduo obedecer a Deus e não ao homem.

Embora os luteranos insistam (como já foi observado) que os seus acréscimos humanos não são compulsórios (com o objetivo de se evitar a aparência de catolicismo), eles o são de fato. Até mesmo o grande Martinho Lutero foi inconsistente. Davies escreve: — De modo semelhante, em assuntos litúrgicos, pode-se argumentar legitimamente que a sua doutrina da Palavra de Deus não foi desenvolvida logicamente. Como atenuante, deve-se lembrar, entretanto, que ele foi o primeiro dos reformadores e que no tempo de Calvino a situação era mais estável e os homens tinham mais tempo para refletir sobre tais assuntos. Entretanto, não se pode negar que nos últimos anos de Lutero, o reformador demonstrou um crescente conservadorismo. Ele desejava uma maior uniformidade tanto no uso das vestimentas eclesiásticas quanto na forma litúrgica. Aquilo que anteriormente havia sido opcional tornou-se obrigatório.

Será que se espera que acreditemos que um ministro luterano e sua congregação serão deixados à vontade pelas autoridades da Igreja se eles decidirem descartar o calendário eclesiástico, os dias santos extra–bíblicos, hinos, órgãos, cruzes e todas as outras inovações humanas que carecem da sanção divina? É triste, mas espera-se que os congregados luteranos, assim como seus similares anglicanos, se submetam às cerimônias e aos mandamentos dos homens com fé implícita e obediência cega. Lembre-se, aquilo que não é feito em fé, nem é acompanhado do convencimento pessoal da sua obrigação ou legitimidade à vista de Deus, é declarado como pecado (Romanos 14:23). Hodge escreve: ― “É um grande pecado, que envolve ao mesmo tempo sacrilégio e traição à raça humana, qualquer homem ou associação humana arrogar-se a prerrogativa de Deus e tentar subjugar a consciência de seus semelhantes com qualquer obrigação certamente não imposta por Deus e revelada em sua Palavra. Além disso, quando as pessoas participam das ordenanças de culto que brotaram da mente do homem que se baseiam na autoridade eclesiástica e não na Escritura — não estão honrando a Deus (que jamais ordenou tais ritos ou cerimônias), mas ao homem. Estão em princípio curvando-se à autoridade autônoma de homens pecadores. Adorar a Deus sem que haja uma determinação divina é um reconhecimento implícito do papado e de uma liderança eclesiástica ― “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (1 João 5:21).

Em terceiro lugar, as posições luteranas sofrem de contradições internas irreconciliáveis. De acordo com as confissões luteranas é permitido aos homens acrescentarem as suas próprias tradições, rituais ou cerimônias ao culto a Deus somente se elas forem edificantes e consideradas não compulsórias. Tais qualidades levantam importante questão. Se os homens têm a capacidade de imaginar uma tradição, ritual ou cerimônia que verdadeiramente santifica os crentes, não deveria tal cerimônia se realmente edifica o povo de Deus ser obrigatória? Os artigos anglicanos que determinam que a Igreja pode produzir e impor ao rebanho, se necessário, com disciplina eclesiástica, ritos ou cerimônias que ela considera como edificantes são mais lógicos. Se uma tradição humana, ritual ou cerimônia santifica, então deveria ser obrigatória. É importante observar, entretanto, que o apóstolo Paulo ensina que mandamentos e ordenanças humanos não edificam nem santificam a Igreja. Ele escreve: ― Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitas a ordenanças: — não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquilo outro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas cousas, com o uso, destroem-se. Tais cousas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade (Colossenses 2:20 – 23). Rituais e cerimônias humanas são mandamentos de homens. Parecem ser sábios e edificantes, a verdade, entretanto, é que elas nada santificam. O Espírito Santo não usa tradições humanas, rituais ou cerimônias para edificar a Igreja. Ele usa a Palavra de Deus – “Santifica-os na verdade; a Tua Palavra é a verdade” (João 17:17). Se quisermos, portanto, receber edificação, devemos seguir apenas as leis, estatutos e ordenanças religiosas de Deus. Legalismo papal, da liderança eclesiástica e/ou fundamentalista não edifica.

Em quarto lugar, a alegação luterana de que rituais ou cerimônias criadas pelo homem não são culto é contra–senso fantasioso. Quando as autoridades eclesiásticas inventam uma cerimônia religiosa e a introduzem no ato do culto público ao lado das ordenanças de culto autorizadas na Escritura, eles estão ensinando implicitamente que as cerimônias criadas pelo homem são do mesmo tipo e carregam autoridade igual às ordenanças divinamente ordenadas. Quando os homens misturam cerimônias humanas com ordenanças divinas no culto, será que eles esperam que os adoradores façam distinção entre as duas (humana e divina) no desenrolar do ato de culto? Além disso, se as cerimônias religiosas criadas pelo homem não são ato de culto, então, o que são elas? Qual o propósito delas? Por que são elas conduzidas durante o culto? Por que são arroladas no boletim da Igreja como parte do culto público a Deus? Frank Smith escreve: — Observe cuidadosamente que o ato de culto é uma imposição, desde que se exige que nos congreguemos com o povo de Deus para participarmos do culto público. Portanto, qual é a posição legalista (e que se opõe à liberdade cristã) — a que pensa que não é preciso aprovação bíblica para exigir que se faça isso ou aquilo no culto, ou a que apela estritamente à Escritura e nada deseja impor ao precioso rebanho de Deus que não se encontre em sua Palavra? Poderíamos observar, incidentalmente, que a fé reformada é ao mesmo tempo a mais rígida e estreita, e, também, a mais larga e mais universal, devido à sua disposição de nada impor às pessoas que não seja bíblico. A idéia luterana de que os acréscimos humanos ao ato de culto realmente não são culto mostra quão enganoso é o coração do homem. Os homens são tão apaixonados por suas tradições humanas não autorizadas que eles torcem o claro sentido das palavras e recorrem a argumentos ilógicos e doentios e a malabarismos exegéticos para justificarem as suas práticas pecaminosas. A concepção luterana é muito parecida com a absurda afirmação católico–romana de que o culto aos santos e à Virgem Maria não é realmente culto. Alegam que é um culto especial (“latria”) quando o romanista curvar-se diante de Deus. Mas quando ele se curva para adorar os santos e a bendita virgem é “doulia” (ou, para Maria, “hyperdoulia”). Precisamos reconhecer que todas estas distinções tipicamente farisaicas nada mais são que desculpas espertas para desviar-se do culto que Deus tem determinado. Contra toda usurpação tirânica e excesso da Igreja, Cristo diz: ― “E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mateus 15:9; cf. Isaías 29:13).

Paz e graça.

[1] Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, 1ª Edição — Março de 2001, Traduzido do original em inglês: Sola Scriptura and the Regulative Principle of Worship de Brian M. Schwertley, Editora Os Puritanos, p. 24 – 42.

[2] Algaravia — Linguagem muito confusa, incompreensível.

[3] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.

INCONSISTÊNCIAS PROTESTANTES — PARTE 4

INCONSISTÊNCIAS PROTESTANTES ― PARTE 1

Não obstante alguns protestantes, felizmente, afirmarem o Sola Scriptura, muitos outros ensinam e praticam coisas que contradizem a doutrina de que a Escritura é o único padrão para a fé e para a vida. A negação implícita do Sola Scriptura, seja pelo ensino ou prática, pode ser encontrada em Igrejas luteranas, episcopais, evangélicas e até mesmo reformadas. Um breve exame de algumas dessas inconsistências nos auxiliará a entender esse ensino crucial.

A doutrina do Sola Scriptura é ao mesmo tempo afirmada e implicitamente negada nas declarações de fé da Igreja da Inglaterra (os Trinta e Nove Artigos da Religião – 1563, Revisão Americana de 1801) e dos luteranos (A Confissão de Augsburgo – 1530 – e a Fórmula de Concórdia – 1576, 1584). O sexto artigo dos Trinta e Nove Artigos contém uma boa declaração quanto à Bíblia ― “A Sagrada Escritura contém tudo o que é necessário à salvação: — portanto aquilo que não pode ser lido nela, nem por isso mesmo comprovado, não pode ser exigido de qualquer homem como artigo de fé a ser crido, nem ensinado como requisito necessário à salvação”.

A confissão luterana também contém uma forte afirmação do Sola Scriptura.

[1] – Nós cremos, confessamos, e ensinamos que a única regra e norma, segundo a qual todos os dogmas e doutores devem ser considerados e julgados, não é nenhuma outra senão as escrituras proféticas e apostólicas do Antigo e do Novo Testamentos, como está escrito: ― “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz, para os meus caminhos” (Salmos 119:105). E disse São Paulo: ― “ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue Evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema” (Gálatas 1:8). Dessa forma faz-se uma clara distinção entre as Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, e todos os outros escritos; e somente a Sagrada Escritura é reconhecida como (único) juiz, norma e regra, segundo a qual, como (única) pedra de toque, todas as doutrinas devem ser examinadas e julgadas, quanto a se são piedosas ou ímpias, verdadeiras ou falsas.

1 – O Episcopalismo.

Infelizmente, os símbolos luterano e episcopal contradizem o Sola Scriptura ao discutirem sobre as cerimônias eclesiásticas, autoridade da Igreja e tradição. Os Trinta e Nove Artigos dão à Igreja uma autoridade que é claramente incompatível com Sola Scriptura. No Artigo 20 (Da Autoridade da Igreja), lê-se: — “A Igreja tem o poder de decretar ritos ou cerimônias, e de autoridade em controvérsias de fé; não lhe é legítimo, entretanto, ordenar qualquer coisa que seja contrária à Palavra de Deus escrita, nem interpretar contraditoriamente uma parte da Escritura em oposição a outra. Embora a Igreja seja testemunha e guardiã do Texto Sagrado, nada pode ela decretar contrário à Escritura, nem nada impor além dela como crença necessária à salvação”.

O Artigo 34 (Das Tradições da Igreja), declara: — “Não é necessário que as tradições e cerimônias sejam as mesmas em todos os lugares, ou exatamente iguais; porque têm sido sempre diversificadas e podem ser modificadas conforme a variedade de países, épocas, e modos dos homens, contanto que nada seja contrário à Palavra de Deus. Qualquer um que, pelo seu entendimento particular, voluntária e intencionalmente, violar abertamente as tradições e cerimônias da Igreja que não sejam conflitantes com a Palavra de Deus e ordenadas e aprovadas pela autoridade comum, deve ser repreendido abertamente (para que os outros temam fazer o mesmo) por ter ofendido a ordem comum da Igreja e ferido a autoridade do Magistrado e as consciências dos irmãos mais fracos. Toda Igreja, em particular ou nacional, tem autoridade para ordenar, modificar e abolir cerimônias e rituais seus, apenas ordenados pela autoridade humana, contanto que tudo seja feito para a edificação.

Os Trinta e Nove Artigos dão à Igreja um poder independente da Escritura. Os líderes eclesiásticos não podem somente determinar ou abolir rituais ou cerimônias ao bel–prazer da sua própria autoridade sem o consentimento da Escritura, eles também reservam para si mesmos o poder de disciplinar o fiel que violar abertamente as Tradições e Cerimônias da Igreja. Embora o seu próprio credo afirme que a Igreja não pode ordenar qualquer coisa que seja contrária à Palavra de Deus escrita, ele, não obstante, dá à hierarquia da Igreja um poder que não depende da Escritura. Assim, ao passo que o sexto artigo afirma a Sola Scriptura na teoria, os artigos 20 e 34 a negam na prática. Estes últimos não dão à Igreja apenas o poder de determinar ou abolir rituais ou cerimônias como lhe aprouver, sem qualquer sanção da Escritura, dão também à Igreja a autoridade de disciplinar o crente que violar abertamente as tradições e cerimônias da Igreja. O artigo 20 declara que à igreja não […] é legítimo […] ordenar qualquer coisa que seja contrária à Palavra de Deus escrita. Esta declaração (que segue a das confissões luteranas), entretanto, pouco consolo deveria dar aos puritanos e pactuantes que foram disciplinados e perseguidos por se recusarem a se submeter aos rituais e cerimônias ordenadas pela Igreja. A posição episcopal quanto à autoridade da Igreja e à tradição humana deriva de: — [1] – Uma visão deficiente da perfeição e suficiência da Escritura; [2] – De uma falsa compreensão quanto ao papel da razão humana em determinar as ordenanças da Igreja; [3] – De um conceito falacioso sobre os régios direitos do Cristo ressurreto.

Quando o assunto é governo e culto da Igreja, os teólogos e apologistas episcopais admitem abertamente que a Escritura não é uma regra perfeita para a Igreja, mas apenas uma regra parcial. Os anglicanos (pelo menos nas áreas de culto e governo) vêm a Bíblia como incompleta, vaga e genérica. Para eles a Bíblia é como um mapa defeituoso que mostra algumas grandes estradas, mas sem os seus detalhes. Para que o mapa se faça realmente útil é preciso que a liderança eclesiástica preencha as lacunas. A que detalhes se precisa chegar? Os bispos usarão a inteligência para recolherem alguma coisa dentre as tradições largadas no caminho pela Igreja antiga, e acrescentarão mais algumas adoráveis tradições inventadas por eles mesmos. Ignora-se o fato de Deus deixar mais do que claro o seu desprezo pelas invenções humanas em termos de ética e de culto (cf. Gênesis 4:3 – 5; Levítico 10:1, 2; Deuteronômio 4:2 e 12:32; Números 15:39, 40; 2 Samuel 6:3 – 7; 1 Crônicas 15:13 – 15; 1 Reis 12:32, 33; Jeremias 7:24, 31; Isaías 29:13; Colossenses 2:20 – 23).

Há um grande contraste entre o entendimento anglicano e reformado de Sola Scriptura e suficiência da Escritura. As confissões reformadas consideram que a perfeição e suficiência da Bíblia é extensiva não apenas à doutrina, mas também ao culto e ao governo da Igreja. Se o culto e o governo que Deus instituiu na sua palavra forem suficientes, é óbvio, então, que não é necessária qualquer suplementação. Davies diz que: ― “O princípio mais importante da autoridade absoluta da palavra de Deus nas Escrituras quanto a fé, ética, e culto foi expresso pelos puritanos. Apartar-se disso é a maior das impertinências e pretensões humanas, pois implica em conhecer a vontade de Deus mais do que o próprio Deus, ou, que a fraqueza herdada do pecado original não cega o juízo humano por causa do egocentrismo”.

O conceito episcopal quanto à autoridade da Igreja e à tradição também se origina do uso errôneo da razão humana. Os apologistas anglicanos do século dezesseis, na tentativa de refutarem o que eles achavam um biblicismo dogmático dos puritanos, deram à razão um papel autônomo da Escritura, ao determinar o culto e o governo da Igreja. Os puritanos não eram contra o uso da razão. Para eles, entretanto, a razão deveria se submeter sempre à Escritura e ser utilizada para deduzir a doutrina e a prática da própria Bíblia. Não deveria ser usada independentemente da Escritura. Os teólogos de Westminster referem-se aos patentes ensinamentos da Escritura e aos logicamente deduzidos dela (I.VI). Os apologistas anglicanos (especialmente Richard Hooker) usaram a razão para liberarem as autoridades da Igreja dos rígidos parâmetros da palavra a fim de justificar as suas tradições humanas (a maioria delas era a continuação de práticas medievais católico–romanas). Quanto a Richard Hooker (o maior dos apologistas anglicanos), disse Cook: — “Na defesa do anglicanismo, publicada em oito livros entre 1594 e 1600, Hooker identifica a natureza da Igreja como o verdadeiro ponto de controvérsia entre puritanos e anglicanos. Ele procura repudiar a posição de Cartwright de que a Escritura provê um protótipo permanente para o governo da Igreja. Esforçando-se sobremaneira para deslocar o argumento para fora da Escritura, Hooker defende que o princípio da razão natural tem a mesma validade que o princípio da revelação divina. Ele segue numa abordagem essencialmente não–reformada sobre a verdade, ensinando que algumas leis espirituais são conhecidas pela razão à parte da Escritura. Aqui temos a mente católica em funcionamento, buscando a sua força em Aquino, ela opera muito à vontade dentro da Igreja Inglesa de onde jamais fora banida, criando, na verdade, a característica mentalidade anglicana que tem controlado, desde então, a prática da Igreja da Inglaterra […]. Nada há de Sola Scriptura na argumentação de Hooker que apele (intime) ao Novo Testamento, pois a Constituição da Igreja diz, com efeito, que: ― Deus, ao entregar a Escritura à sua Igreja, deveria ter ab–rogado claramente entre eles a lei da natureza; a qual é um saber infalível impresso nas mentes de todos os filhos dos homens (Ecclesiastical Polity, Livro II, capítulo 8, 6). Dá-se à razão a mesma validade da Escritura considerando que, assim como a lei está acima da razão, citar a razão serve tanto quanto citar a Escritura; pois tudo aquilo que é razoável é da lei, seja quem for o seu autor”.

A errônea compreensão anglicana quanto ao pecado original segue passo a passo o uso impróprio da razão humana. Davies escreve que: ― “Os Anglicanos entendem que o homem é deficiente na sua capacidade espiritual; as suas outras capacidades foram enfraquecidas, mas não desesperadamente feridas e carecendo de transfusões de sangue redentor, como argumentavam os puritanos. Para os Anglicanos a razão do homem era inigualável; ela possuía a capacidade de distinguir, numa ordem moral, entre o bem e o mal. Cranmer defendia, por exemplo, que os homens poderiam escolher o bem sem o auxílio da graça santificadora. Jewel afirmava que a razão natural, mantida em seus limites, não é o inimigo, mas a filha da verdade de Deus. Donne asseverava que a razão tinha de ser empregada quando o sentido da Escritura não fosse claro, mas que, embora a nossa suprema corte […] de apelação final seja a Fé, a Razão é o seu delegado”. Como consequência do entendimento falho quanto aos efeitos da queda, os Anglicanos não entendem o perigo de permitirem que homens pecaminosos e caídos tenham o direito de determinar os rituais e as cerimônias da Igreja. Os puritanos reconheciam que a corrupção do coração humano tornou o homem incapaz de estabelecer formas aceitáveis de culto ao santo Deus trino. Não se pode confiar nem mesmo na mente regenerada para instituir autonomamente ordenanças de culto, pois ela permanece em luta contra os efeitos remanescentes da queda. A única coisa segura a ser feita sob tais circunstâncias é estudar e seguir o que Deus diz: ― “Confia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento” (Provérbios 3:5).

Bushell escreveu: — “Portanto, de modo particular, o Princípio Regulador pode ser visto como uma inferência natural da doutrina da depravação total. Uma está ligada à outra, como, por exemplo, em Êxodo 20:25: ― “Se me levantares um altar de pedras, não o farás de pedras lavradas; pois, se sobre ele manejares a tua ferramenta, profaná-lo-ás”. Qualquer obra das mãos do próprio homem, que ele presume oferecer a Deus em adoração, é poluída pelo pecado e é, por essa razão, totalmente inaceitável”.

Não há dúvida que os pais da Igreja e os teólogos da era medieval, que acrescentaram muitas tradições humanas ao culto a Deus, pensavam que estavam inventando coisas que beneficiariam e edificariam a Igreja. O resultado, entretanto, foi a prostituta romanista, a “Igreja do Anticristo”. É por isso que as Escrituras advertem repetidamente ao povo da aliança para nada adicionarem nem subtraírem das leis, estatutos e ordenanças que Jeová prescreveu. Quando o SENHOR, teu Deus, eliminar de diante de ti as nações, para as quais vais para possuí-las, e as desapossares e habitares na sua terra, guarda-te que não te enlaces com imitá-las, após terem sido destruídas diante de ti; e que não indagues acerca de seus deuses, dizendo: — “Assim como serviram estas nações aos seus deuses, do mesmo modo também farei eu. Não farás assim ao SENHOR, teu Deus, porque tudo o que é abominável ao SENHOR e que Ele odeia fizeram eles a seus deuses, pois até seus filhos e suas filhas queimaram aos seus deuses. Tudo o eu te ordeno observarás; nada lhe acrescentarás, nem diminuirás” (Deuteronômio 12:29 – 32).

O conceito anglicano de autoridade e tradição da Igreja é uma rejeição implícita dos direitos régios de Jesus Cristo. Os teólogos episcopais não são obedientes à grande comissão que Jesus ordenou à Igreja: ― “Ensinando-os (as nações) a guardar todas as cousas que vos tenho ordenado” (Mateus 28:20). A versão deles deveria ser: ― “Ensinando-os (as nações) a guardar todas as cousas que vos tenho ordenado e tudo que os bispos decidirem que é edificante”. Quando líderes eclesiásticos ou qualquer outra pessoa definem leis humanas, ordenanças religiosas, cerimônias ou rituais paralelamente à vontade revelada de Deus, tais homens, então, estão atribuindo a si mesmos uma autoridade que pertence apenas a Deus. Somente Deus tem autoridade para declarar um ato como moral ou imoral. No entanto, homens e mulheres foram disciplinados e perseguidos simplesmente por recusarem submissão a ritos e cerimônias elaborados por homens. Todo uso de tradição humana no culto a Jeová é implicitamente romanista e tirânico. Embora não seja permitido a congregações evangélicas e Igrejas reformadas desviadas praticarem a tortura, o aprisionamento, o confisco de bens ou o banimento como forma de punirem os puritanos modernos, elas usam muitas formas sutis, e outras nem tão sutis, de coerção, de disciplina e de reprovação. Mesmo que muitas Igrejas desaprovem o culto bíblico, jamais devemos colocar a nossa fé nas ordenanças religiosas autônomas de homens finitos e pecadores. É maligno e tolo considerar as tradições humanas no culto como se fossem parte da Palavra de Deus. A fé bíblica deve ser direcionada apenas para Cristo e sua Palavra – pois toda a nossa obediência no culto a Deus é a obediência da fé. E se a Escritura é a regra de fé, a nossa fé com todo o seu zelo não deve ir além dela, do mesmo modo que a coisa regulamentada não pode ir além do regulamento. Só Jesus Cristo é o Rei e único legislador da Igreja. Sempre que os homens acrescentam leis humanas, ordenanças, rituais ou cerimônias ao que Cristo autorizou em sua Palavra, eles negam aos crentes a liberdade que têm em Cristo. Owen escreveu: — “O cerceamento da liberdade dos discípulos de Cristo, pela imposição de coisas que Ele não determinou, nem se fizeram necessárias pelas circunstâncias que as antecederam, são claras usurpações das suas consciências, destrutivas à liberdade que Ele lhes adquiriu, às quais se o dever deles é andar conforme a ordenança do Evangelho – submeter-se é pecaminoso”.

Hoje, ironicamente, os oponentes ao Sola Scriptura aplicada ao culto (isto é, o Princípio Regulador do Culto) têm tentado virar a mesa contra os puritanos modernos argumentando que são aqueles que querem regular o culto que cerceiam a liberdade dos crentes, por não darem oportunidade aos outros de introduzirem inovações humanas no culto a Deus. O problema com tal argumento é que liberdade, como definida pela Escritura, jamais significa libertação da lei de Deus, ou autonomia para se criar as próprias ordenanças ou cerimônias de culto à parte da Palavra de Deus. A liberdade bíblica refere-se a: — [1] – Nossa libertação de obedecer à lei como meio de justificação diante de Deus (Romanos 3:28); [2] – Nossa libertação do poder do pecado em nós (Romanos 6:6 e seguintes); [3] – Anulação da lei cerimonial, e, portanto, a nossa libertação dela; [4] – Nossa libertação em coisas que são verdadeiramente adiafóricas, isto é, coisas indiferentes (Romanos 14:20). Liberdade cristã jamais significa que nos é permitido fazer acréscimos aos preceitos morais de Deus ou ao que Deus prescreveu para o culto. Considerar que a atividade mais importante e reverente em que os cristãos se envolvem (no culto a Deus) está, de algum modo, dentro da esfera da adiaforia é completamente antibíblico e absurdo. A verdadeira liberdade advém do entendimento apropriado da doutrina reformada de Sola Scriptura e da doutrina correlata da suficiência da Escritura. Rawlinson escreveu dos puritanos: — “Além disso, eles criam com Calvino que, se Deus havia mostrado à luz esclarecedora de sua Palavra como Ele deveria ser adorado, era presunção desviante, fronteiriça à blasfêmia, que os homens fizessem acréscimos ao que Deus havia revelado. Em 1605 William Bradshaw disse que os puritanos declaravam e defendiam que a Palavra de Deus contida nos escritos dos profetas e apóstolos é absolutamente perfeita e dada por Cristo, o Cabeça da Igreja, sendo para a mesma o único Cânon e regra em todos os assuntos de religião, adoração e culto. E é ilegítimo tudo que for realizado nessa mesma adoração e culto que não puder ser justificado por esta palavra”. Passagens bíblicas tais como 2 Timóteo 3:15 – 17; 2 Pedro 1:19 – 21; Mateus 15:9, 13 e Apocalipse 22:19 eram utilizadas para justificar esta posição, ao passo que de passagens como Atos 2:41, 42; 1 Timóteo 2:1 e seguintes.; Efésios 5:19; Romanos 10:14, 15; 2 Timóteo 1:13 e Mateus 18:15 – 18, argumentava-se que havia seis ordenanças de culto evangélico: — “Oração, Louvor, Pregação, Batismo e Ceia do Senhor, Catequização e Disciplina”. Por não permitirem tradições humanas no culto, as Igrejas reformadas consistentes nunca disciplinam as pessoas por adotarem apenas o culto determinado na Escritura. É somente nas Igrejas que acrescentam as tradições humanas que os crentes são proscritos e perseguidos, e os ministros demitidos, por se apegarem ao puro culto evangélico. Como é possível acusar os puritanos modernos de negarem liberdade às pessoas quando toda culpa deles está em seguirem as leis e as ordenanças da Escritura sem a mescla humana? O valor de proporcionar sanção bíblica para todas as ordenanças do culto puritano era que isso dava a tais ordenanças uma augusta autoridade por meio daqueles que as usavam, como faziam os puritanos, na obediência da fé. Quem acrescenta invenções humanas no culto a Deus jamais pode lidar adequadamente com o assunto da autoridade por causa de suas inovações humanas. Não há autoridade divina que apoie as suas práticas nem a coerção envolvida na implementação e continuidade delas. John Owen escreveu: — “O princípio pelo qual a Igreja tem o poder de instituir qualquer coisa, ou cerimônia pertinente ao culto a Deus, tanto em conteúdo quanto em forma, além da obediência a essas circunstâncias como se elas atendessem a uma determinação do próprio Cristo, está na raiz de toda horrível superstição e idolatria, de toda confusão, sangue, perseguição e guerras, que têm por um bom tempo se espalhado sobre a superfície do mundo cristão”.

Aqueles que não consideram a autoridade divina como um item importante para o governo e culto da Igreja, deveriam se lembrar dos 18.000 homens, mulheres e crianças — dedicados presbiterianos escoceses (pactuantes) — que foram assassinados simplesmente por recusarem submissão às ordenanças humanas da liderança eclesiástica anglicana. Uma análise do culto ilegítimo criado pelo homem não apenas revela que ele, por sua natureza, não possui aval divino, e é, portanto, não apenas tirânico, mas também, antropocêntrico. Qual é o propósito de toda pompa, ostentação e espetáculo do culto anglicano? Qual a razão de catedrais ostentosas? Qual a razão de vitrais, de dias santos especiais, de gestos especiais e de especiais vestimentas sacerdotais? A razão não é que Deus ordenou tais coisas, e que, por isso, se deleita nelas. Deus não se impressiona de modo algum com catedrais fantásticas, sinos, incensos e vestimentas tolas. O propósito geral dos vários adornos feitos pelo homem (exceto no alto–clero) é exercer algum efeito psicológico no homem. A parafernália papista e os adereços medievais mantidos pelas Igrejas anglicanas eram considerados como auxílios à devoção. A intenção deles era suscitar o espanto, a reverência e a inspiração dos adoradores. A catedral, com a sua pompa e cerimônia, tinha função similar ao LSD, à maconha e aos efeitos de luz experimentados por um roqueiro num show de rock. Eles dão o tom emocional e manipulam o coração. No fundo todos esses tipos de recursos inventados pelo homem, para seu deleite e efeito psicológico, revelam falta de fé no poder do Espírito Santo que acompanha o puro culto evangélico. A pompa e a ostentação do culto anglicano é uma negação implícita de que o culto autorizado e designado por Jesus Cristo seja adequado ao objetivo a que se destina. George Gillespie adverte que as cerimônias humanas obscurecem a verdadeira religião. Ele escreveu: — “Mas entre tais coisas — que têm sido os amaldiçoados instrumentos da desolação da Igreja, os quais para alguns de vocês talvez não pareçam nada ferir nem causar o mínimo malefício — estão as cerimônias de ajoelhar-se no ato de receber a Ceia do Senhor, benzer ao batizar, episcopalianismo, dias santos, etc., que são infligidas sob o nome de coisas indiferentes; entretanto se se analisar cuidadosamente suas graves e variadas inconveniências, ter-se-á um pensamento bem ao contrário. As vãs aparências e sombras dessas cerimônias têm escondido e obscurecido a substância da religião; a verdadeira vida de piedade é extinguida e anulada pelo fardo dessas invenções humanas; por causa disso muitos que são tanto fiéis a Cristo quanto leais ao rei, sofrem ofensa, zombaria, vergonha, ameaça, perturbação; por causa delas os irmãos cristãos são ofendidos, e os fracos grandemente escandalizados; por causa delas os mais poderosos e sofridos ministérios do país são banidos, ou ameaçados de serem banidos de suas vocações; por causa delas os mais qualificados e esperançosos candidatos são impedidos de abraçarem o ministério; por causa delas os seminários [teológicos] estão tão corrompidos que pouca ou nenhuma boa planta pode nascer dali; por causa delas muitos são admitidos no ministério sagrado, ou papista ou arminiano, que ministram veneno e não comida ao rebanho; ou tolos ignorantes que dispensam ao faminto comida insalubre. Aos oponentes do Princípio Regulador do Culto, que acusam o culto puritano de minimalismo nominalista ou de iconoclastia daltônica, perguntamos o seguinte: — que melhorias humanas podem ser feitas ao cântico de salmos inspirados por Deus? Que acréscimos humanos auditivos, palatais e visuais são suplementos necessários ao ouvir a Palavra de Deus lida e pregada, e contemplar e banquetear-se na carne e no sangue do Filho de Deus? O que são edifícios deslumbrantes, tolas vestes papais, cerimônias e pompa romanista comparadas às ordenanças que nos foram dadas pelo nosso bendito Senhor e Salvador? Não seria suficiente colocar a nossa fé nas infalíveis palavras de Cristo? Temos também que colocá-la nas palavras e invenções dos homens?

Paz e graça.

[1] Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, 1ª Edição — Março de 2001; Traduzido do original em inglês: Sola Scriptura and the Regulative Principle of Worship de Brian M. Schwertley, Editora Os Puritanos, p. 24 – 42.

[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.

INCONSISTÊNCIAS PROTESTANTES — PARTE 4

O ENTENDIMENTO CONFESSIONAL REFORMADO DO SOLA SCRIPTURA — O QUE É SOLA SCRIPTURA?

Antes de considerarmos a relação que há entre Sola Scriptura e o Princípio Regulador precisamos, primeiro, definir o que é Sola Scriptura. Após ser dada uma breve definição desta doutrina voltaremos nossa atenção para as declarações confessionais protestantes.

Dito resumidamente, a doutrina protestante de Sola Scriptura ensina que a Bíblia (os 66 livros do Antigo e do Novo Testamentos) é a divina Palavra inspirada de Deus, e, portanto, infalível e absolutamente autoritativa para todos os assuntos referentes à fé e à vida. Como palavra escrita de Deus contém tudo o que existe da revelação sobrenatural de Deus, e porque cessaram todas as formas de revelação direta (com a morte dos apóstolos e o fechamento do cânon), apenas e somente a Bíblia é a autoridade da Igreja. Por que a Escritura é clara (isto é, todo ensino necessário à salvação, fé e vida, são facilmente compreendidos pelas pessoas comuns) não há necessidade de quaisquer fontes adicionais de autoridade para interpretar a Bíblia infalivelmente para a Igreja. A Igreja (sejam ou não papas, cardeais, bispos, pais da Igreja, concílios eclesiásticos, sínodos ou congregações) não tem autoridade sobre a Bíblia, mas a Escritura auto–autenticada tem autoridade absoluta sobre a Igreja e sobre todos os homens. Por ser o que a Bíblia é (como já visto), o mister (ofício) da Igreja é puramente ministerial e proclamador. Todos os homens são proibidos de acrescentar ou subtrair algo das Sagradas Escrituras, seja pelas tradições humanas, ou pelas assim chamadas novas revelações do Espírito, ou pelos decretos de concílios e sínodos. A Bíblia é suficiente e perfeita e não necessita de quaisquer acréscimos humanos. Além do que, apenas aquilo que é ensinado na Escritura pode ser usado para tornar cativas as consciências dos homens.

1 – O entendimento Confessional Reformado do Sola Scriptura.

As confissões Reformadas estão em total concordância quanto ao Sola Scriptura ou ao Princípio Regulador da Escritura.

[A] – Primeira Confissão Helvética (1536).

Artigo 1 – A Escritura. A Escritura Canônica, sendo a Palavra de Deus, concedida pelo Espírito Santo, e proclamada ao mundo pelos profetas e apóstolos, sendo de todas as outras a mais perfeita e antiga filosofia, contém perfeitamente toda a piedade e boa ordenação da vida[1].

[B] – Confissão Francesa (1559).

Artigo 5 – Cremos que a palavra, contida nesses livros, procede de Deus; de quem somente, e não de homens, depende, portanto, a autoridade. E vendo que é a suma de toda a verdade, contendo tudo aquilo que se requer para a adoração a Deus e nossa salvação, afirmamos que não é lícito ao homem, não, nem mesmo aos anjos, acrescentar ou subtrair qualquer coisa a ou desta palavra, ou alterar nela o mínimo que seja[2].

[C] – Confissão Belga (1561).

Artigo 7 – A suficiência das sagradas Escrituras para serem a única regra de fé. Cremos que as Sagradas Escrituras contêm totalmente a vontade Deus, e que tudo quanto o homem deve crer para a salvação é suficientemente ensinado nela. Porquanto todo modo de adoração que Deus requer de nós está nela amplamente escrito, é ilícito a quem quer que seja, mesmo um apóstolo, ensinar outra coisa além do que agora somos ensinados nas Sagradas Escrituras: — nem um anjo vindo do céu, como disse o apóstolo Paulo. Pois desde que é proibido acrescentar ou subtrair qualquer coisa da Palavra de Deus, fica, portanto, assim evidente, que a sua doutrina é a mais perfeita e completa em todos os aspectos. Nem consideramos de valor equivalente às divinas Escrituras qualquer escritura de homens, por mais santos que tenha sido; nem devemos considerar costume, ou grande multidão, ou antiguidade, ou sucessão de eras e pessoas, ou concílios, decretos, ou estatutos, como de igual valor à verdade de Deus, pois a verdade está acima de tudo; porque todos os homens são, em si mesmos, mentirosos e mais vãos que a própria vaidade. Portanto rejeitamos de todo coração tudo que discordar dessa infalível regra que nos foi ensinada pelos apóstolos, dizendo, provai os espíritos se procedem de Deus. E, de semelhante modo, se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas–vindas[3].

[D] – Segunda Confissão Helvética (1566).

1 – Das sagradas Escrituras sendo a verdadeira palavra de Deus […] 2 – E nesta santa Escritura, a Igreja universal de Cristo tem todas as coisas referentes à fé salvadora plenamente expostas, e também os moldes de uma vida aceitável a Deus; e quanto a isso é expressamente ordenado por Deus que nada seja acrescentado ou retirado dela (Deuteronômio 4:2; Apocalipse 22:18, 19). 3 – Julgamos, portanto, que deve-se derivar destas Escrituras a verdadeira sabedoria e a piedade, a reforma e o governo das Igrejas; como também a instrução para todos os deveres de piedade; e, para ser breve, a confirmação de doutrinas e a refutação de todos os erros, com todas as exortações; de acordo com as palavras do apóstolo: ―Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão […], etc. (2 Timóteo 3:16, 17). Novamente ― Escrevo-te estas coisas, diz o apóstolo a Timóteo ― para que […] fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, etc. (1 Timóteo 3:14, 15)[4]. Da interpretação das sagradas Escrituras; e dos Pais da Igreja, Concílios e Tradições. 4 – […] Portanto, nas controvérsias da religião ou de assuntos relativos à fé, não podemos admitir nenhum outro juízo senão o de Deus mesmo, declarando pelas sagradas Escrituras o que é verdadeiro, o que é falso, o que deve ser seguido, ou o que [deve] ser evitado. Por isso só nos apoiamos no juízo de homens espirituais, tomados da Palavra de Deus. Certamente que Jeremias e outros profetas condenaram com veemência as assembléias de sacerdotes reunidos contra a lei de Deus e diligentemente advertiram-nos de antemão que não deveríamos dar ouvidos nem andar nos caminhos dos antepassados que, seguindo a suas próprias invencionices, apartaram-se da lei de Deus. 5 – Semelhantemente rejeitamos as tradições humanas que, embora recebam títulos piedosos como se fossem divinas e apostólicas, e dadas à Igreja pela vívida voz dos apóstolos; como se fossem dadas pelas mãos de homens apostólicos por meio da sucessão de bispos, mas que comparadas às Escrituras discordam delas; e que nessa discordância traem-se como não sendo, de modo nenhum, apostólicas. Como os apóstolos não se contradisseram entre si quanto à doutrina, assim os homens apostólicos não ensinaram nada contrário aos apóstolos. Não, pois seria blasfemo asseverar que os apóstolos, de viva voz, proclamaram coisas antagônicas aos seus escritos. Paulo afirma expressamente que ensinava a mesma coisa em todas as Igrejas (1 Coríntios 4:17). E, novamente, diz ele: — “porque nenhuma outra coisa vos escrevemos, além das que ledes e bem compreendeis” (2 Coríntios 1:13). Também, noutro lugar, testifica que ele mesmo e seus discípulos — isto é, homens apostólicos — andavam do mesmo modo, e que juntamente pelo mesmo Espírito faziam todas as coisas (2 Coríntios 12:18). Os judeus também, no passado, tinham a tradição de seus anciãos, mas tais tradições foram repudiadas severamente pelo Senhor, ao demonstrar que guardá-las é um estorvo à lei de Deus, e de que assim Deus é adorado em vão (Mateus 15:8, 9; Marcos 7:6, 7)[5].

[E] – Os padrões de Westminster (1646 – 1648).

1 – Breve Catecismo: — Pergunta 2 – Que regra Deus nos deu para nos dirigir na maneira de o glorificar e gozar? Resposta – A palavra de Deus, que se acha nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos, é a única regra para nos dirigir na maneira de o glorificar e gozar[6].

2 – Catecismo Maior: — Pergunta 3 – O que é a palavra de Deus? Resposta – As Escrituras Sagradas – o Antigo e o Novo Testamentos – são a palavra de Deus, a única regra de fé e de obediência.

3 – Confissão de Fé de Westminster: — (I.II) – Sob o nome de Escritura Sagrada, ou Palavra de Deus escrita, incluem-se agora todos os livros do Antigo e do Novo Testamentos, que são os seguintes, todos dados por inspiração de Deus para serem a regra de fé e de prática […] (I.VI) – Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dEle e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens; reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas na Palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comuns às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras da Palavra, que sempre devem ser observadas.

2 – Esclarecimentos.

Conforme as declarações confessionais reformadas, a Bíblia é uma regra de fé e de vida completa e suficiente. Agora que o cânon está fechado e a revelação direta cessou, as Escrituras inspiradas são a única regra de doutrina e prática. Embora a Bíblia seja a única regra que Deus nos deu para nos conduzir na maneira de o adorar e gozar, há uma série de questões que precisam ser esclarecidas antes de continuarmos. Primeiro, a doutrina de Sola Scriptura não é a negação da revelação natural. A Bíblia mesmo ensina que existem coisas que o homem pode aprender sobre Deus e sobre si mesmo a partir da natureza (cf. Salmos 19; Romanos 1:20 e seguintes). Precisamos, entretanto, observar que: — [1] – A revelação natural não tem por objetivo ser usada independentemente da revelação direta. Antes da queda Deus falou diretamente com Adão quanto à árvore da ciência do bem e do mal. [2] – Quando a humanidade caiu em Adão, tanto a terra quanto a raça humana foram afetadas pelo pecado. Por causa do pecado e da maldição a revelação natural tornou-se uma forma não confiável de fonte de ética. [3] – A Escritura ensina que embora a revelação natural seja bastante para tornar a raça humana culpada e inescusável –, indesculpável diante de Deus (Romanos 1:18), ela não é suficiente para ensinar o homem quanto a salvação, a Cristo e a muitas outras doutrinas cruciais. [4] – Além disso, quaisquer doutrinas ou comportamento que pudessem ser deduzidas da revelação natural não poderiam contradizer as sagradas Escrituras — que são claras e suficientes — mas, seriam por elas julgadas. Em segundo lugar, a doutrina de Sola Scriptura não é a negação da natureza progressiva e dos diversos meios de revelação divina antes do fechamento do cânon. Um ensino fundamental do princípio regulador da Escritura é que o homem nada pode acrescentar ou subtrair da Palavra de Deus (Deuteronômio 4:2). Conquanto anterior à conclusão da Escritura, este mandamento não impedia o próprio Deus de acrescentar seus pensamentos àqueles que seu povo já possuía. Proibia, entretanto, quem quer que fosse, de acrescentar ou subtrair da revelação divina que tinham, fosse por falsa profecia, augúrio, tradição humana ou negligência aos mandamentos de Deus. Além disso, como cristãos atentamos para uma revelação completa e escrita (nos tempos antigos os homens recebiam visões, sonhos e comunicações verbais de Deus, mas nem toda revelação era para ser escrita). Observe que, se quisesse, Deus poderia ter preservado a revelação divina de maneira sobrenatural que não fosse a forma escrita. Entretanto, em seu bel–prazer e infinita sabedoria, Deus consignou tudo que a Igreja e o mundo precisam na revelação escrita. Uma vez que a revelação natural é insuficiente, cessou a revelação direta à Igreja, e Deus declarou-nos a sua vontade ao fazê-la escrever toda, as Escrituras são nosso único padrão para fé e para vida. Terceiro, a doutrina do Sola Scriptura, ao afirmar que todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dEle e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela, não é uma negação de que existiam muitas revelações e eventos históricos que não foram incluídos no cânon. A Escritura completa, que Deus deu à Igreja, é exatamente aquela que Ele queria que nós tivéssemos. Ele poderia ter dado ao seu povo uma centena de volumes que contivessem mais casos relativos à lei, mais histórias detalhadas dos patriarcas, Moisés, Israel, Jesus Cristo e os atos da Igreja Apostólica. Mas Jeová nos deu apenas os 66 livros, e este cânon completo e perfeito é totalmente suficiente para alcançar o seu propósito. Deus tem muitas coisas ocultas que pertencem a Ele e à sua perfeição divina que são infinitas e jamais poderiam ser-nos reveladas total e adequadamente, mesmo que existissem um milhão de volumes inspirados. Mas, em sua misericórdia, tudo o que precisamos saber para amá-lo e servi-lo nos foi dado nas Escrituras.

Paz e graça.

[1] Traduzido do latim por Peter Hall, The Harmony of Protestant Confessions (Edmonton, Canada: Still Waters Revival Books, 1992 [1842]), 4.

[2] Ibid., 8.

[3] Joel R. Beek e Sinclair B. Ferguson, eds., Reformed Confessions Harmonized (Grand Rapids: Baker, 1999), 14, 16.

[4] Ibid., 10, 12.

[5] Ibid., 14, 16.

[6] A Confissão de Fé, O Catecismo Maior, O Breve Catecismo (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1991). Neste livro, todas citações da Confissão de Fé Westminster, Catecismo Maior e Breve Catecismo são retiradas da referida edição. No texto original o autor fez uso da The Westminster Confession of Faith (Glasgow, Scotland: Free Presbyterian Publications, 1976).

[7] Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, 1ª Edição — Março de 2001, Traduzido do original em inglês: Sola Scriptura and the Regulative Principle of Worship de Brian M. Schwertley, Editora Os Puritanos, p. 7 – 11.

[8] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.