O EVANGELHO DE JOÃO — DEUS COMO ESPÍRITO SANTO

O EVANGELHO DE JOÃO — DEUS COMO ESPÍRITO SANTO

João contém ensinamentos muito importantes sobre o Espírito Santo. Ele começa com o testemunho de João Batista, que viu o Espírito Santo “descer do céu como pomba e pousar sobre [Jesus]” (1:32). Todos os sinóticos registram o batismo de Jesus, mas somente o quarto Evangelho relata o que João Batista disse naquele momento. E ele relata um detalhe que não consta dos sinóticos: — “o Espírito Santo permaneceu sobre Jesus”. O ministério público de Jesus não foi só iniciado no poder do Espírito Santo, mas o Espírito também permaneceu sobre Ele por todo o ministério.

João nos diz em seguida que João Batista não conhecia a Jesus, e que este foi o sinal que lhe foi dado para que reconhecesse aquele que batizaria com o Espírito Santo (1:33). Não está claro se isso significa que João Batista nunca se encontrara com Jesus (é bem possível que não; ele crescera no deserto, Lucas 1:80) ou se ele não sabia que Jesus era o Messias. Essa segunda possibilidade é mais provável. Seja como for, somos informados de que a vinda do Espírito foi um sinal de que o ministério de Jesus estava começando. A declaração de que “Deus não dá o Espírito por medida” (3:34) provavelmente se refere ao fato de o Pai ter dado o Espírito ao Filho[1].

1 – Nascidos do Espírito.

Em resposta ao começo de conversão tão amável de Nicodemos, Jesus disse: — “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (3:3). E passou a falar de nascer “da água e do Espírito” (v. 5), do “que é nascido do Espírito” (v. 6) e de ser “nascido do Espírito” (v. 8). Evidentemente a obra do Espírito é importante na renovação de vidas.

É impossível ter certeza se devemos traduzir “de novo” ou “de cima”, o advérbio pode significar as duas coisas, mas em todas as outras passagens em que ele ocorre neste Evangelho, ele significa “de cima”. Contra isso temos o fato de que Nicodemos o entendeu como uma referência a um segundo nascimento físico, pois falou de voltar ao ventre materno. Mas isso é um erro de interpretação dele, devemos entender o sentido da palavra como “novo” não “de novo”.

Jesus está falando de algo completamente novo. Muitas expressões do quarto Evangelho pode ser entendida de mais de uma maneira. Seja como for, o nascimento do qual Jesus está falando é um renascimento, mas também é de cima. Não podemos descartar nenhum dos dois.

Há muitas idéias em relação a como devemos entender o nascimento “da água e do Espírito”, mas elas podem ser divididas, a grosso modo, em três grupos. Primeiro, há os que consideram a água como referência à purificação. É natural associar a água com lavar para ficar limpo. Alguns estudiosos tornam isso específico, mencionando o batismo de João Batista como “batismo de arrependimento” (Marcos 1:4). A idéia, então, seria que se deve aceitar o batismo de João Batista e se arrepender, e depois passar para o “batismo com o Espírito Santo” que Jesus traz. Ou se pode deixar a coisa mais geral: — primeiro precisa ocorrer a limpeza do mal, a rejeição de tudo o que é errado. Depois essa ação precisa ser completada por outra — a obra do Espírito, que capacita os crentes a andar no caminho de Deus.

Uma segunda maneira de entender “água” é vê-la relacionada ao nascimento físico. Se ela se refere ao rompimento da bolsa de água por ocasião do nascimento de uma criança, Jesus está aludindo ao nascimento físico comum e normal, dizendo que ele precisa ser seguido de um nascimento espiritual, pois “o que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito” (v. 6). O ser humano natural não pode entrar no reino; é necessária a obra do Espírito Santo antes que isso possa ocorrer.

Também podemos ligar água ao nascimento físico de uma maneira muito diferente do nosso uso de água. H. Odeberg demonstrou que, em fontes rabínicas e outras fontes antigas, palavras que indicavam algo molhado (“água”, “orvalho”, “chuva”, “gota” etc.) muitas vezes eram usadas como eufemismo relacionado com sêmen[2]. Isso resultaria num sentido próximo ao que acabamos de ver — nascido do modo comum, natural, e também nascido do Espírito.

Todavia, podemos entender “água” e “Espírito” juntos, dando o sentido de “água espiritual” ou “semente espiritual” (com o apoio do fato de que, em grego, o mesmo “de”, “ek”, rege os dois substantivos). Nesse caso, Jesus está dizendo que quem quiser entrar no reino precisa nascer espiritualmente; a expressão significaria a mesma coisa que nascer “do Espírito”. Essa posição é muito provável porque João usa com frequência pequenas variações para dizer a mesma coisa. Desse ponto de vista, ser “nascido da água e do Espírito” teria o mesmo sentido de ser “nascido do Espírito”.

A terceira maneira principal de entender a passagem é vê-la como uma referência ao batismo cristão. Alguns estudiosos entendem que a ligação de água, usada quando um recém-convertido era iniciado na Igreja, com “nascer” como início da vida espiritual, parece indicar de modo irrefutável o batismo. Para apoiar esse ponto de vista argumenta-se que, na época em que o Evangelho de João foi escrito, essa provavelmente seria a maneira mais natural de se entenderem as palavras, e o escritor devia saber de que modo seus leitores as entenderiam. É bastante óbvio que esse argumento contém um grande elemento subjetivo, pois não temos como saber até que ponto essa interpretação teria sido “natural” naquela época.

Há um argumento muito forte contra essa posição, que é a impossibilidade de Nicodemos compreender a Jesus, se o sentido fosse esse. No momento dessa conversa, a instituição da Igreja estava alguns anos no futuro, e Nicodemos não poderia ter entendido uma alusão a um sacramento ainda não existente. Só podemos manter esse ponto de vista se abandonarmos totalmente a historicidade do relato.

A melhor maneira de entender a passagem parece-me ser a segunda, e no sentido de que água aponta para sêmen. Nesse caso, Jesus estaria enfatizando que o modo de entrar na vida não é pelo esforço humano (independentemente de como queiramos entendê-lo), mas por obra do Espírito de Deus. Essa é uma verdade que João reforça em todo o seu Evangelho (cf. 1:13). Jesus não veio simplesmente para ordenar que as pessoas se esforçassem mais; antes, Ele veio para lhes trazer nova vida no Espírito. Isso é o que Jesus está dizendo a Nicodemos. A repetição denota ênfase: — “nascer de cima, da água e do Espírito, do Espírito”[3]. E Jesus em seguida diz a Nicodemos que será “levantado” para que todos os que crerem nEle tenham vida eterna (3:14, 15). Precisa acontecer a ação do Espírito para podermos ver o que a cruz significa e entrar pela fé na vida que Cristo veio nos trazer por sua morte[4].

Há um contraste entre a carne e o Espírito e uma ligação entre o Espírito e a vida numa discussão depois do sermão na sinagoga em Cafarnaum. Os ouvintes acharam “duro” o que Jesus dissera (6:60), e Ele respondeu dizendo-lhes que é o Espírito quem dá vida, enquanto a carne para nada aproveita; suas próprias palavras “são espírito e são vida” (6:63). O pensamento é complexo. Certamente há um contraste entre a interpretação perversa e carnal que os judeus estavam dando às palavras de Jesus e a compreensão que teria uma pessoa convencida pelo Espírito. Também há a idéia de que seguir a letra não dá vida, como os mestres judeus parecem ter ensinado.

“Grande é a Lei”, disseram os pais, “pois ela dá vida àquele que a pratica, neste mundo e no vindouro” (Mishná, Aboth 6:7). Jesus não está ensinando que se siga alguma Lei; Ele está enfatizando a liberdade que a vida no Espírito traz. Suas palavras são “espírito” e são “vida”, não porque formam uma Lei Nova e com mais autoridade, mas porque são criadoras: — “elas põem as pessoas em contato com o Espírito Santo que dá vida”.

Isso não se refere apenas a uma frase de efeito aqui e ali; todas as suas palavras presumem que apenas a obra do Espírito Santo gera vida espiritual. Há uma ligação inseparável entre vida e Espírito Santo.

2 – O templo do Espírito.

Outra declaração difícil deste Evangelho consta do relato que João faz do que Jesus disse quando ensinou no último dia da festa dos Tabernáculos. Tradicionalmente, a primeira parte da afirmação tem sido entendida como em ARA: — “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (7:37, 38). Há dificuldades para encontrar uma passagem do Antigo Testamento que diga isso, e por isso muitos, hoje em dia, posicionam o ponto depois de “mim” e não depois de “beba”, como na BJ: — “Se alguém tem sede, venha a mim e beba, aquele que crê em mim! Conforme a palavra da Escritura […]”. As palavras sobre a água viva que fluirá do seu coração podem, então, ser entendidas como uma referência a Cristo e não ao cristão. Na verdade, não se ganha muito com isso, porque é mais difícil encontrar uma passagem do Antigo Testamento que diga que Cristo concede a água viva do que uma que diga isso em relação ao cristão. Pelo menos para esta há algumas que se referem à bênção de Deus em termos de água, com a implicação de que ela seja dada adiante (cf. Isaías 58:11; Ezequiel 47:1 e seguintes). Cristo deve ser visto como a fonte primária, mas também é verdade que o crente passa a bênção para outros, e parece que é isso que Jesus está dizendo[5].

O grande problema, porém, vem com o que João diz em seguida. João diz que Jesus estava falando do Espírito, que haveriam de receber aqueles que cressem nEle, e depois acrescenta palavras entendidas de várias maneiras: — “O Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado” (maioria das traduções), ou “Não havia ainda Espírito” (BJ; Moffatt). Em termos literais, João diz isso mesmo: — “Ainda não Espírito”. A dificuldade com a BJ é que toda a Bíblia mostra que havia o Espírito Santo, e sempre houve. A dificuldade com “o Espírito ainda não fora dado” é dupla: — [1] – Não há palavra que corresponda a “dado” no texto grego, e [2] – na verdade, antes houve pessoas cheias do Espírito, como Isabel e Zacarias (Lucas 1:41, 67).

Devemos levar a sério o sentido literal das palavras. João está dizendo “ainda não Espírito” no sentido de que vemos o Espírito atuando a partir do dia de Pentecostes. Haviam ocorrido manifestações do Espírito, mas Ele ainda não estava plenamente em ação, e só estaria depois que Jesus fosse “glorificado”. Na administração divina, a obra do Filho precedia a do Espírito; era necessário que o sacrifício expiatório fosse oferecido antes que o derramamento do Pentecostes pudesse ocorrer. Não nos é dito por que isso é assim. Mas claramente foi o que aconteceu. Há nos evangelhos alguma coisa do que o Espírito estava fazendo, mas há uma série de atividades do Espírito em Atos que continuam nas epístolas.

3 – O Espírito da verdade.

Durante a última ceia, na noite antes da crucificação, Jesus transmitiu um ensinamento importante sobre o Espírito Santo. Há cinco passagens principais: — 14:16, 17; 14:26; 15:26; 16:7 – 11; 16:12 – 15. Jesus o chama de “Espírito da verdade” (14:17; 15:26; 16:13), expressão que aponta para um dos grandes conceitos deste Evangelho. João fala muito da verdade e deixa claro que, em seu sentido mais profundo, a verdade tem uma ligação estreita com Jesus e com o que Ele está fazendo (14:6). O Espírito, portanto, está ligado à verdade de Deus que vemos na obra de Jesus. Ele é “o Espírito que transmite a verdade”[6], o Espírito que ensina às pessoas a verdade do Evangelho, a verdade que está em Jesus.

Os manuscritos de Qumran também usam essa terminologia ao se referir aos “espíritos da verdade e do erro” (1QS iii 18, 19). Esse, porém, é um exemplo impressionante de como os mesmos termos contêm uma grande diferença no ensino. Os homens de Qumran consideravam o “espírito da verdade” um dos espíritos que lutavam pelo domínio dentro do ser humano. Parece que o “espírito do erro” está no mesmo nível do “espírito da verdade”; não existe a grandiosidade que João vincula ao Espírito Santo. Aqueles que adoram o Pai devem fazê-lo “em verdade” (4:23, 24), e Jesus é “a verdade” (14:6); “o Espírito da verdade”, portanto, liga o Espírito ao Pai e ao Filho.

Como Espírito da verdade, o Espírito conduzirá os discípulos em (ou a)[7] toda a verdade (16:13). Isso não é verdade como conceito filosófico, mas a verdade revelada em Jesus; o Espírito os levará a uma compreensão ainda mais plena do que essa verdade significa. E à medida que o Espírito nos conduz e não por meio da sabedoria deste mundo que veremos o que vem a ser a verdade de Deus. Mas o Espírito não está fazendo alguma revelação própria que substitua aquilo que Jesus disse. Jesus diz expressamente: — “[Ele] não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido”; não haverá uma revelação nova, dada pelo Espírito. O Espírito continuará o ensino que Jesus deu.

Provavelmente devemos entender as palavras que seguem da mesma maneira: — “[Ele] vos anunciará as coisas que hão de vir”. Dificilmente podemos entender isso com o sentido de que o futuro será esclarecido aos cristãos, porque: — [1] – as palavras não dizem necessariamente isso, e [2] – em todos esses séculos os cristãos têm estado tão perplexos como todos os outros quanto ao que está por vir. Antes, as palavras significam que o Espírito levará os crentes a entender o que o caminho cristão significa. Na época em que Jesus falou não havia teólogos cristãos que tivessem desenvolvido uma compreensão do que é o cristianismo. No transcurso dos séculos, porém, o Espírito esteve agindo na Igreja e levou o povo de Deus a uma maior compreensão do que a sua fé significa.

4 – O mestre da Igreja.

Há bastante ênfase na função de ensino do Espírito Santo nesses discursos. Jesus disse que Ele ensinaria aos discípulos “todas as coisas” (“panta”, 14:26). Isso é ampliado com o acréscimo destas palavras: — “E vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito”. Portanto, o que o Espírito ensina é o que foi revelado em Cristo. O que Jesus ensinou não será substituído mais tarde por alguma nova “dispensação do Espírito”. O Espírito ensina o que Jesus ensinou. A revelação cristã definitiva foi feita em Cristo, e mesmo que algumas implicações dessa revelação ainda estejam por se desvendar, é essa revelação e não alguma outra que é o objeto correto do ensino cristão.

O Espírito “dará testemunho” de Cristo (15:26). A idéia de dar testemunho é importante neste Evangelho e aponta para algo que é certo, não uma possibilidade que possa ser substituída por algo melhor. Quando, portanto, o Espírito “dá testemunho”, Ele está mostrando quem Jesus era e o que Ele fez. É significativo que logo em seguida Jesus diz: — “Vós também testemunhareis”. Não se pede que os apóstolos melhorem o que seu mestre lhes ensinou e fez por eles; eles simplesmente contarão tudo isso a outros. Mas só o farão à medida que o Espírito os guiar.

Jesus diz: — “[O Espírito] me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” (16:14). O Espírito não veio para desviar a atenção de Jesus, assim como não veio para modificar o seu ensino. Por isso, tudo o que Ele fizer glorificará a Cristo, e novamente temos a idéia de que é o ensino de Jesus e não alguma novidade que o Espírito transmitirá aos apóstolos. Desta vez temos um adendo: — “Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso é que vos disse que há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” (16:15). Jesus está falando das coisas que pertencem a ninguém menos que Deus, e essas coisas não podem ser tratadas com leviandade.

5 – A presença divina.

O Espírito estaria com os apóstolos para sempre (14:16). Jesus explica que, longe de ter o Espírito para sempre, o mundo nem sequer pode receber o Espírito da verdade (14:17); ele não o vê, não o conhece. Por toda a história da Igreja, quem estava fora da Igreja considerou o cristianismo tolice. Ele não faz sentido para aqueles que são insensíveis aos estímulos do Espírito da verdade. Para aqueles que o recebem, a história é outra. Nada em todo este mundo pode se comparar ao conhecimento que podemos ter de Deus e à habitação do seu Espírito em nós, com a paz, o poder e o dinamismo que essas realidades proporcionam.

“Convém-vos que eu vá”, disse o mestre, “porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei” (16:7). Para os que estavam com Ele na última ceia, essa afirmação deve ter sido angustiante. Eles tinham deixado tudo — casa, família, amigos e trabalho — para estar com Ele.

Agora Ele diz que é melhor para eles que Ele os deixe. Ele lhes está dizendo que sua presença física, que lhes foi útil durante o seu ministério, não era a melhor coisa para eles. Obviamente ela estava sujeita a limitações de tempo e espaço, e as necessidades dos discípulos nem sempre surgiam quando eles estavam fisicamente junto dEle. A vinda do Espírito, no entanto, era diferente. Seria uma presença que jamais seria tirada. Era melhor para eles, como também é para nós, que o Espírito divino esteja permanentemente presente.

Essa presença é algo que pertence aos que são de Deus e somente a eles. Jesus disse claramente sobre o Espírito que o mundo não o recebe “nem pode”; ele não o vê nem o conhece (14:17). Há pessoas espiritualmente cegas e ignorantes. Sem visão nem conhecimento, é claro que elas não podem se pronunciar sobre as atividades do Espírito. Para elas, esse território é completamente desconhecido. Todavia, Jesus disse aos discípulos que o Espírito ficaria com eles e estaria neles (14:17). Aquilo que o mundo é incapaz até de perceber é uma das boas dádivas de Deus para os discípulos. O triunfo sobre o mal não é uma conquista humana; é resultado da obra do Espírito Santo em seu povo e em favor dele.

6 – Convencendo o mundo.

No entanto, apesar de o mundo não reconhecer o Espírito de Deus, e apesar de a maior parte da atuação do Espírito se dar nos que são de Deus, há uma obra que se realiza nos incrédulos. É o Espírito que “convence” o mundo do pecado, da justiça e do juízo (16:8). O verbo é usado com vários sentidos, mas um deles claramente é “provar que alguém está errado” (por exemplo, quando Tiago fala de ser “arguido pela Lei”, Tiago 2:9)[8]. Buchsel diz que no Novo Testamento o verbo significa “mostrar a alguém seu pecado e chamá-lo ao arrependimento”.

É natural que todos nós coloquemos em destaque o que realizamos. Por natureza, não nos vemos como pecadores. Sempre há circunstâncias atenuantes, no fundo não somos maus; fomos tentados além da conta, apanhados num momento de fraqueza, ou derrotados por tentações inesperadas. É preciso que o Espírito Santo aja em nosso coração para que nos vejamos como realmente somos — pecadores, pessoas que infringiram a Lei de Deus e são culpadas diante dEle, que têm de dizer: — “Não fizemos o que deveríamos ter feito e fizemos o que não deveríamos ter feito”.

A afirmação de que o Espírito convencerá o mundo do pecado Jesus acrescenta: — “Porque não crêem em mim” (16:9). Isso poderia dar a entender que o pecado deles consiste em não crerem em Jesus, e de fato, não importa como entendamos as palavras, em última instância a incredulidade é fatal. As palavras, no entanto, podem ser entendidas no sentido de que a incredulidade é um exemplo notório de pecado, ou talvez que a incredulidade mostra que o mundo tem idéias totalmente erradas sobre a natureza do pecado. Nenhuma dessas possibilidades é impossível. Já escrevi que o pecado fundamental é aquele que põe a pessoa no centro das coisas e que, em consequência disso, se recusa a crer. Esse é o pecado característico do mundo. Ele recebeu sua expressão clássica quando Deus enviou seu Filho ao mundo e este se recusou a crer nEle. O mundo é culpado, mas precisa do Espírito para entender isso[9].

O Espírito também convencerá o mundo “da justiça”, porque Jesus iria para o Pai e os discípulos não o veriam mais (v. 10). O convencimento que resulta da partida de Jesus está claramente ligado ao que aconteceu no Calvário. A terminologia da justificação, com sua ênfase na justiça, é típica de Paulo, mas essa passagem mostra que Jesus a usou durante o seu ministério terreno. Ao morrer, Jesus foi totalmente obediente à vontade de Deus, e por isso agiu em justiça. E é essa morte que permite a pecadores estar diante de Deus como justos. A verdade sobre a justiça, porém, não é uma descoberta humana; se chegamos a conhecê-la, é porque o Espírito Santo realizou sua obra de convencimento[10].

A terceira parte da obra de convencimento do Espírito diz respeito ao “juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado” (v. 11). “O príncipe deste mundo”, é claro, é Satanás (cf. 12:31), e a cruz de Cristo significou sua derrota. Muitos textos recentes contêm uma forte ênfase na derrota do Maligno, e essa é uma parte importante da obra expiatória de Cristo. Mas não devemos esquecer que a expiação não é simplesmente um ato de poder. É um ato de julgamento. Cristo agiu de acordo com o que é certo, e por isso Satanás não foi destronado simplesmente porque não teve poder suficiente para resistir a Deus. Ele foi derrubado porque essa era a coisa certa a fazer.

Na cruz se fez justiça, mas precisamos da ação do Espírito Santo para poder ver isso. Do ponto de vista do mundo, a cruz foi um erro jurídico, a execução indevida de um homem inocente. Mas isso é só uma parte do que aconteceu ali. O Espírito mostra ao povo de Deus que foi um julgamento justo que derrubou o Maligno.

7 – O Parácleto[11].

No discurso da última ceia, Jesus se refere ao Espírito como o “parakletos”, palavra grega muito difícil de traduzir, e por isso mesmo muitas vezes transliterada simplesmente como “Parácleto” (cf. BJ). Não se trata de uma tradução de um termo hebraico, e os judeus, na verdade, também o transliteravam. Por isso temos de procurar seu sentido em fontes gregas.

Literalmente, o sentido é “chamado para o lado de”, com um pedido de ajuda subentendido. O léxico de grego de Liddell e Scott define a palavra assim: — “Chamado para ajudar num tribunal; como substantivo, auxiliar de justiça, advogado”. A palavra, por essa razão, poderia indicar alguém como o advogado de defesa nos tribunais de hoje, e esse é o raciocínio por trás de traduções como “Conselheiro” (NVl). Johannes Behm nega que se trata do termo técnico relativo à pessoa que conduz a defesa num julgamento, mas concorda que ele deve ser entendido “pelo prisma da ajuda legal, como defesa de alguém”[12]. O que ele quer dizer é que a palavra podia se referir a qualquer pessoa que ajudasse o réu no tribunal, não apenas para o profissional que conduz a defesa. Mas pelo menos podemos dizer que a palavra é aplicada a alguém que ajuda e que ela vem de um contexto legal.

Em suas cinco ocorrências no Novo Testamento (todas nos escritos de João — quatro vezes no Evangelho e uma em 1 João), não há muita ênfase em seu sentido legal (diferente de 1 João 2:2). Assim, enquanto o assessor legal tinha a tarefa de instruir o tribunal, o Evangelho de João mostra o “Parácleto” ensinando os apóstolos (14:26), estando sempre com eles (14:16) e dando testemunho de Jesus (15:26). Ele é quem “convence” o mundo, ou seja, Ele tem a função de promotor, não de defensor.

O que transparece em todas as passagens em que o “Parácleto” é mencionado é que Ele está em atividade, ajudando as pessoas (Moffatt e NTLH traduzem a palavra por “Ajudador”). Podemos ver a origem legal do termo no fato de que os pecadores estarão numa difícil situação quando acusados no tribunal celestial, e seria correto dizer que toda a ajuda que o “Parácleto” dá (ensinando os apóstolos e recordando-lhes o que Jesus disse, além de dar testemunho de Jesus e convencer o mundo do pecado) tem o propósito de ajudar a preparar as pessoas para o dia em que se encontrarão com Deus. O Espírito está preocupado com as questões do fim, além das coisas que importam aqui e agora.

Há um ambiente jurídico, portanto, para o que o “Parácleto” faz, mas nenhum termo jurídico abrange completamente o seu trabalho. Podemos usar termos como “amigo” ou “consolador”, mas eles negligenciam a origem legal. Só nos resta usar a transliteração “Parácleto”, ou uma tradução que não faz justiça a algum aspecto da obra do Espírito. O que importa, no entanto, é que entendamos o que o termo significa, não que encontremos um equivalente em nossa língua que chame a atenção para todos os aspectos do seu trabalho.

8 – O Espírito na Igreja.

Na noite posterior à ressurreição, Jesus encontrou seus discípulos reunidos com portas fechadas. Entre outras coisas, Jesus soprou sobre eles e disse: — “Recebei [o] Espírito Santo” (20:22). Suas próximas palavras podem ser entendidas como: — “Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos”, ou: — “Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; aqueles aos quais retiverdes ser-lhes-ão retidos” (BJ)[13]. Não há muita diferença no sentido, e o problema não é esse. O problema está em se Jesus está concedendo à Igreja o poder de perdoar os pecados das pessoas por meio dos seus ministros autorizados. A Igreja Católica Romana, por exemplo, vê aqui o poder da absolvição e entende que o versículo se aplica aos sacerdotes individualmente.

Há dificuldades com essa posição. Uma é o fato de que o verbo “soprou” não tem objeto. Temos de inserir algo em português, porque não podemos dizer: — “Ele soprou e disse […]”. Mas devemos ter certeza que não há uma série de sopros sobre indivíduos enfileirados; João está falando de um único sopro sobre o grupo. É uma dádiva aos discípulos como um todo, não a indivíduos entre eles.

Depois temos o problema da composição do grupo. Aqueles que vêem aqui o poder da absolvição, geralmente não acham que ele seja concedido a todo cristão (apesar de R. H. Strachan adotar esse ponto de vista[14]), mas o restringem ao sacerdócio. Eles acreditam que somente os apóstolos estavam presentes nessa ocasião. Mas há poucas garantias disso. João certamente está descrevendo a mesma reunião de Lucas 24:33 e seguintes, que incluiu Cleopas e uma pessoa não identificada que estava com ele. É plenamente possível que outros discípulos estivessem presentes; não temos nenhuma indicação para restringir a reunião aos apóstolos.

Além disso, o objeto está no plural nas duas frases. Jesus não está falando de indivíduos, mas de grupos de pessoas, de classes. Quando a Igreja é guiada pelo Espírito, ela pode declarar com autoridade quais pecados são perdoados e quais não. A declaração não deve ser feita pelo sacerdote ao penitente individual, mas pela Igreja ao mundo. A questão não é diferente do “ligar” e “desligar” dos rabinos, que apontava para atos proibidos e permitidos.

Devemos ter em mente também que o poder de reter pecados está em paralelo com o de perdoar. Levando em consideração a falibilidade humana, é impossível pensar que Deus daria a uma pessoa (ou grupo de pessoas) em especial o direito absoluto de reter pecados no sentido de privar do perdão. Talvez possamos pensar que, quando um sacerdote cometia um erro e perdoava alguém que não devia ter perdoado, Deus assim mesmo endossaria a ação. O que não podemos pensar é que, quando um sacerdote comete um erro e retém um pecado que deveria ter perdoado, Deus não concederá o perdão. Nessa passagem, porém, as duas coisas andam juntas.

Em todo caso, os verbos (segundo o melhor texto) estão ambos no tempo perfeito. Jesus está dizendo que, quando a Igreja, cheia do Espírito, anuncia que este ou aquele pecado está perdoado, se verá que o perdão já foi concedido. Ele não está dando à Igreja o poder de fazê-lo ali naquele momento. O Espírito capacita a Igreja a declarar com autoridade o que Deus fez na questão do perdão ou de reter pecados[15].

João, portanto, tem uma enorme riqueza de ensinamentos sobre o Espírito Santo, considerando o pouco espaço que dedica ao tema. A maneira como o dom do Espírito é relacionado à glorificação de Cristo é de grande importância e nos dá a melhor explicação do motivo de tão pouca informação sobre o Espírito Santo antes dos fatos do dia de Pentecostes e de tanta coisa sobre Ele depois. Em cada época também é vital deixar clara a importância central e a absoluta necessidade do renascimento pelo Espírito. É uma tentação constante, para nós, pensar que entramos na vida eterna por esforço próprio, e temos sempre de ser lembrados de que, para nascer espiritualmente, não podemos fazer mais do que fizemos para nascer fisicamente. No Evangelho de João, o papel do Espírito recebe um destaque que os cristãos jamais devem desprezar[16].

Paz e graça.

[1] A expressão também pode ser entendida no sentido de que o filho dá o Espírito aos crentes sem medida. Mas os crentes não têm o Espírito como o Filho o tem e, por outro lado, como Agostinho e Calvino já mostraram, a graça é concedida a cada um de nós “segundo a proporção do dom de Cristo” (Efésios 4:7). Em termos gramaticais, é possível tomar “o Espírito” como sujeito e não objeto do verbo, e então o sentido seria que o Espírito concede seus dons sem limite. Mas não são muitos os que aceitam essa interpretação.

[2] Thefourth Gospel, Uppsala, 1929, p. 48 – 71. Talvez também devamos observar que as religiões de mistério usavam a idéia de renascimento. Só que elas pensam numa renovação mágica, não na transformação de toda a vida que caracteriza o nascimento do qual Jesus está falando.

[3] É possível que devamos ver uma referência ao Espírito na primeira parte do versículo 8, em que a maioria dos tradutores e comentaristas entende que o sentido é “o vento sopra onde quer […]” — “πνεῦμα”, porém, é a palavra normalmente traduzida por “espírito” no Novo Testamento, e podemos traduzir a frase assim: — “O Espírito sopra onde quer […]”. A mim parece que “vento” provavelmente é o sentido aqui, mas não devemos descartar a possibilidade de João ter os dois sentidos em mente.

[4] E. Schweizer observa que os discípulos farão “obras maiores” do que Jesus (14:12) e descarta a idéia de que isso aponta para milagres como curas (os pagãos tinham histórias como essa). “Para João, o milagre supremo e quando alguém é levado à fé. Quando isso acontece, um novo mundo raia, um novo tipo de vida começa. […] É o Espírito Criador que nos chama à vida” (The Holy Spirit, Londres, 1981, p. 71).

[5] A linguística parece ser contra a variante. Em termos gramaticais, “seu” deve se referir a “quem” e não a “mim”. Além disso, é o sedento que precisa beber, e não o crente. Neste sentido metafórico, crer é beber.

[6] C. K. Barrett, The Gospel according to st.John, Philadelphia, 1978, p. 463.

[7] Alguns manuscritos têm “ἐν” e outros “εἰς”. Mas essas duas preposições nem sempre são usadas de modo completamente distinto no Novo Testamento, e talvez não devamos dar muita importância a essa diferença.

[8] O verbo é “ἐλέγχω (elenchō)”. MM dá exemplos do seu uso nos papiros, incluindo um caso em que o particípio é usado no sentido de “promotor”. Eles vêem o sentido no quarto Evangelho, principalmente nessa passagem, como “revelar o verdadeiro caráter de alguém e sua conduta”.

[9] The Gospel accordíng to John, Grand Rapids, 1971, p. 698.

[10] Cf. William Barclay: — “Pensando bem, é impressionante o fato de as pessoas colocarem num criminoso judeu crucificado sua confiança em relação à eternidade. O que convence as pessoas de que este judeu crucificado é o Filho de Deus? Essa é a obra do Espírito Santo. É o Espírito Santo quem convence as pessoas da justiça total de Cristo” (The Gospel of John, Edinburgh, 1956, 2:225).

[11] Outras grafias recebem apoio dos melhores dicionários: — Paráclito, Paracleto, Paraclito (N. do E.).

[12] TDNT, 5:801. Ele diz: — “Não há nenhum exemplo de “παράκλητος”, à semelhança de seu equivalente “advocatus” em latim, usado em referência ao conselheiro ou advogado de defesa de um réu, com o mesmo sentido de “σὑνδικος” ou “συνήγος”, que, diz ele, “ainda é a palavra usada em grego moderno nas referências ao advogado no tribunal” (Ibid., 801 n. 8).

[13] O problema é o sentido de “ἄν”. Pode se tratar da conjunção “se” ou do pronome “aqueles”. A maioria dos tradutores mais recentes faz a primeira opção, ao contrário da BJ.

[14] R. H. Strachan, Tbefourtb Gospel London, 1955, p. 329.

[15] Alguns estudiosos vêem outra referência ao Espírito nas palavras geralmente consideradas a maneira de João descrever a morte de Jesus: — “Inclinando a cabeça, rendeu o espírito” (19:30). A maioria dos estudiosos entende que o artigo “o” equivale a “seu”, e que Jesus entregou seu espírito na morte. Hoskyns, porém, acredita ser possível entender as palavras como “ele entregou o Espírito”, palavras “dirigidas aos fiéis que estavam ao redor da cruz”. Ele conclui sua análise dizendo que sua interpretação “não é só possível, mas necessária” (E. C Hoskyns em The fourth Gospel, ed. F. N. Davey, London, 1950, p. 532). Seu argumento, no entanto, não é convincente, e devemos ver aqui uma referência ao modo como Jesus morreu, e não à concessão do Espírito aos cristãos.

[16] Devemos notar que a divisão mais séria na Igreja ocorreu, pelo menos oficialmente, por causa da interpretação de “procede” em 15:26. A Igreja Oriental afirma que isso significa que o Espírito tem sua origem no Pai, que é visto como a única “fonte” da divindade. Os orientais recitam o Credo de Nicéia usando a expressão “procede do Pai”, ao passo que no Ocidente se diz “procede do Pai e do Filho”. Não pode haver dúvida de que as palavras foram inseridas no Credo no Ocidente sem a autoridade adequada. Mas isso não significa que o Oriente esteja certo. O ponto central em nosso estudo é que “πορεὑεται” no versículo em questão não está descrevendo as relações eternas entre as pessoas da Trindade, mas se referindo ao envio do Espírito ao mundo depois da partida do Filho. A passagem não é pertinente para essa controvérsia.

[17] Pr. Me. Plínio Sousa — Teologia do Novo Testamento, Leon Morris, Tradução Hans Udo Fuchs, Título original: New Testament Theology, Edições Vida Nova, p. 307 – 319.

O EVANGELHO DE JOÃO — DEUS COMO ESPÍRITO SANTO

TOMÁS DE AQUINO E AS CINCO EVIDÊNCIAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS

[1] – Via do movimento–primeiro motor ou modificação.

O valor técnico da palavra “motus” não pode ser expresso por “movimento” com a condição de estender seu significado primeiro de movimento local (ou mecânico) a tudo o que seja mudança, devir[1]. O que, aliás, a linguagem moderna não hesita em fazer, falando de movimento das almas (“etimologia de emoção”), do movimento do espírito (“indutivo, dedutivo, dialético”), dos movimentos sociais e políticos, do movimento da evolução, etc.

Para Tomás de Aquino, assim como para Aristóteles, tudo aquilo que poderíamos denominar movimento e devir no mundo físico reduz-se a três grandes categorias: — [1] – O movimento local, medido pelo tempo; [2] – O movimento de alteração[2], que, como o precedente, diz respeito apenas às transformações acidentais do ser; e [3] – O movimento substancial, que é a passagem de uma substância a outra, a transformação propriamente dita.

É a análise dessa realidade do movimento, ou devir, que determinou a teoria da potência e do ato. O movimento aparece então como o advento ao ato daquilo que estava em potência. Assim generalizada, a idéia de movimento pode ser analogicamente transposta ao domínio das realidades espirituais.

A palavra “moção” (“motio”) tão frequentemente utilizada por Tomás de Aquino, deverá ser entendida igualmente de uma maneira muito generalizada. A “moção” é o que determina o movimento. É nesse sentido ampliado que deve ser compreendido o axioma: — “nada move nem é movido a não ser movido por um outro, e finalmente por Deus”, o que é dito na Suma Teológica na questão 2. E, não deverá compreender-se a moção da vontade ou do espírito que não pode remontar senão a Deus, à maneira de uma moção materialmente física, ainda que se trate sempre de uma comunicação de ato.

A primeira via fala de um fato do mundo: — o próprio “movimento”. O sentido da palavra movimento aqui não é, de fato, simplesmente a locomoção de um lado a outro (como explicado acima), mas a modificação, a alteração dos entes, que entende-se como — “[ser], criatura, entidade, figura, organismo, coisa, objeto, elemento, matéria, corpo, substância, etc., tudo aquilo que existe”; como um bebê que nasce dependente de alguém, mas que chegará um momento que tornar-se-á independente, autossuficiente, quando este alcança a fase adulta, há um movimento dentro de si mesmo. Percebemos pelos sentidos que as coisas se movimentam. Como expresso por Tomás de Aquino: — “A primeira e mais manifesta é a procedente do movimento; pois, é certo e verificado pelos sentidos, que alguns seres são movidos neste mundo. Ora, todo o movido por outro o é. Porque nada é movido senão enquanto potencial, relativamente àquilo a que é movido, e um ser move enquanto em ato. Pois mover não é senão levar alguma coisa da potência ao ato[3]. Tomás de Aquino diz que, antes do movimento, os seres estão “em potência”, pressupõe que passiva, sendo que Deus tem soberanamente a potência ativa. Ou seja, em capacidade eficiente, isto é, possuem a possibilidade (“em potência”) de se tornar diferentes do que são, como uma “parede branca que tem a possibilidade de tornar-se em parede preta, ou ainda, uma parede sem porta e janela, pode tornar-se uma parede com porta e janela”.

“Pois, a matéria–prima está para a potência, como Deus, agente primeiro, para o ato (em si). Ora, nenhum ato há na matéria–prima, em si mesma considerada. Logo, nenhuma potência tem Deus, agente primeiro[4].

Ainda sobre este conceito, ato e potência são os conceitos utilizados por Aristóteles, em sua metafísica (aquilo que é caracterizado pela investigação das realidades que transcendem a experiência sensível), para explicar a origem do movimento na natureza. Ato aqui tem o sentido de “realidade que se realiza”, que está se “realizando” é a forma “atual do ser”. Esse conceito se contrapõe com o que é simplesmente potencial ou possível. Afirma Nicola Abbagnano, em seu Dicionário de Filosofia, que “ato é a própria existência do objeto” e está para potência, assim como “construir está para saber construir”. A potência, por sua vez, é o “princípio” ou a “possibilidade (probabilidade, contingência) de realizar uma mudança no próprio ser ou em outro ser”; capacidade de sofrer mudança causada por outra coisa ou por si mesmo; capacidade de ser mudado para melhor e não para pior; capacidade de resistir a qualquer mudança. O conceito de potência não deve ser confundido com força, mas sim com a “ausência de perfeição” em um ser capaz de vir a possuí-la, pois uma potência é a capacidade de tornar-se alguma coisa ou a resistência para isso e, para tal, é preciso que sofra a ação de si ou de outro ser já em ato — que é Deus, “ato em si mesmo”. O movimento é, pois, a passagem do ato de um ser para sua potência, que se tornando “ato” carregando outras “potências”.

A potência é princípio de operação, entretanto, como em Deus não há acidente (mutabilidade e inconstância), a operação divina é a sua essência. Mas, esta não tem nenhum princípio. Logo, a idéia de potência (possibilidades) não convém a Deus. Como ficou demonstrado, a “ciência e a vontade” divinas são a causa das coisas. Ora, causa e princípio se identificam. Logo, não se pode atribuir a Deus potência, mas somente ciência e vontade. Mas, em contrário, a Escritura (Salmos 89:8): — “Senhor, Deus das virtudes, quem é semelhante a ti? Poderoso és, Senhor, e a tua verdade está sempre em roda de ti, Domine, Deus virtutum, quis similis tibi? Potens es, Domine, et veritas tua in circuitu tuo” – Vulgatam Clementinam.

Tomás de Aquino exprime-se que há duas espécies de potência — a “passiva”, que de nenhum modo existe em Deus; e a “ativa”, que lhe devemos atribuir, soberanamente. Pois, como é manifesto, um ser é princípio ativo de um efeito (consequência), na medida em que é atual e perfeito; e recebe uma ação, na medida em que é deficiente e imperfeito. Ora, Deus é ato puro, absoluto e universalmente perfeito [demonstraremos a seguir], não deixando lugar a nenhuma imperfeição. Por isso, soberanamente lhe convém ser princípio ativo, mas de nenhum modo, passivo. Pois, a natureza de “princípio ativo” convém à “potência ativa”, por ser esta, princípio de ação transitiva (temporária). A potência passiva, pelo contrário, é princípio de sofrer a ação exterior. “Donde se conclui, que Deus tem soberanamente a potência ativa”.

Ao se moverem, a potência se transforma em ato, atualiza-se nas possibilidades. Se tentarmos regressar a fim de buscar a origem, perceberemos que é necessário ter um primeiro motor, um agente, por exemplo, “ao comprarmos um pão, sabemos que ele veio da padaria, e que foi feito por um padeiro, e que o mesmo recebeu da indústria a farinha de trigo, e que a indústria recebeu do campo o trigo, e que o trigo foi semeado, e quem o semeou, recebeu a semente da natureza, e que a natureza foi criada antes de todas as coisas por um primeiro motor, que é Deus” — O trigo [“em potência”] tem a capacidade de modificar-se [isto é, alteração] em pão, não obstante, dependente do padeiro–agente instilando força (afinco); de outra maneira, observa-se que existe um movimento em si, entretanto, que ao mesmo tempo é movido por outro. Outro exemplo, é o que expressa o postulado latino: — “baptisma autem in actum nisi per baptisma – non valet sancti” — “um batismo com o qual deseja ser acionado apenas por batismo, não tem nenhum poder do Espírito”. Ou seja, que um batizado em ato, é somente um batizado, mas ele tem potência — dispõe da possibilidade de se tornar diferente do que é – pecadores impenitentes injustificados — para ser santo — pecadores contritos justificados [ato][5]. O batismo doa a graça de Deus, e Deus conduzirá o batizado a um grau maior, ainda de aperfeiçoamento cristão e virtudes teologais, a pessoa torna-se santa porque recebe a graça de Deus, mas tem que trabalhar, labutar para ser santa continuamente, em outras palavras “Deus que separou o eleito e o chamou sem que este tivesse feito, absolutamente, nada, não irá salvar, se este não fizer inteiramente alguma coisa — santificai-vos[6]. Ainda sobre este exemplo, a ação de batizar de João era um forte anúncio do sacramento do Batismo a ser trazido pelo Senhor Jesus, ou seja, “a potência (“ausência de perfeição”) é a realidade do ser batizado por João, e o ato (“realidade que se realiza”) é a atualidade e o que esse ser pode vir a ser em Cristo Jesus (é a conformação atual do ser – justificado e santo em Cristo)”. Ele, o Filho de Deus feito homem, batiza não apenas com água, como João, mas também com o Espírito Santo[7], grande dom do Messias prometido pelos profetas[8], aqui encontra-se a relação de potência e ato.

A Escritura diz: — “e, chegando-vos para Ele, pedra viva, rejeitada, na verdade, pelos homens, mas, para com Deus eleita e preciosa, sois vós também quais pedras vivas, edificados como casa espiritual para serdes um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus por Jesus Cristo” (1 Pedro 2:5), ou seja, “chegando-vos” para Ele [Jesus], os crentes constituem “casa espiritual de Deus”, em que os crentes como “sacerdócio santo” devem oferecer “sacrifícios espirituais”; aqui notamos que os crentes já estão em ato (“casa espiritual”, “sacerdócio santo”) mais ainda assim, em potência (“devem ainda oferecer sacrifícios espirituais”), alterando-se a todo tempo — “em Deus” — o que chamamos de santificação (João 17:17).

Outro exemplo, para mais claro, é a “Parábola do Semeador” (Mateus 13; Marcos 4) e a “Parábola do Grão de Mostarda” (Mateus 13:31, 32; Marcos 4:30 – 32; Lucas 13:18, 19), ambas, a semente está “em potência”, e tem potencialidade para ser algo diferente. Vejamos: — [1] – A primeira Parábola a semente é potência entre várias virtualidades, das quais, uma sobressai; ao jogar a semente, uma parte caiu sobre a terra crestada do caminho que atravessava o campo, essa semente sobre a superfície rapidamente atraiu as aves; no “solo rochoso”, não um solo coberto de pedras, mas uma grande rocha coberta com uma fina camada de terra, as sementes ali lançadas brotariam rapidamente, pois, o sol aqueceria rapidamente a fina crosta; mas por falta de raiz e umidade, a planta rapidamente queimou e secou-se; entre “os espinhos”, solo infestado com raízes de espinhos que o arado não removeu; e na “boa terra”, o solo fértil da Galiléia que era capaz de produzir colheita da magnitude mencionada aqui. Ou seja, possibilidades[9]; e [2] – Na segunda Parábola, a semente é potência definida, I. Howard Marshall escreveu que a parábola “sugere que o crescimento do reino de Deus a partir de um minúsculo começo até o tamanho do mundo inteiro”. Ou seja, que o cristianismo se inicia pequeno (“em potência”) e cresce até o tamanho do mundo (ato).

Agostinho exprime-se e esclarece assim acerca do “ato e potência” e “potência e ato”, da ação de salvação, “Deus est, qui creavit te sine te, sine te autem non nisi”. Ou seja, “O Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti” — O texto de 1 Tessalonicenses 2:13, diz: — “[…] como palavra de Deus, a qual “opera” em vós, os que crestes”, a palavra grega usada para “opera” é “energeo” que é uma das quatro palavras principais de energia, são elas: — “energeo, energes, energeia e energema”; todas as palavras derivam de “en” (“em”) e “ergon” (“trabalho”), e têm a ver com a “operação ativa” ou “trabalho do poder” e seus “resultados efetivos”, podemos concluir que o poder de Deus é o “movimento–primeiro motor ou modificação que move o ser [em potência]” e seus resultados efetivos, atuais e reais é ato, ou seja, a capacidade que os crentes possuem [em Deus] de terem possibilidades de tornarem-se diferentes do que são [em Cristo] — santos pelo Poder de Deus mediante a Palavra, neste contexto de Filipenses 2:13; 2 Coríntios 3:5 e 1 Tessalonicenses 2:13, destacamos os seguintes motores: — [1] – O trabalho contínuo da graça de Deus que envolve; [2] – O trabalho santificador do Espírito Santo de Deus; e [3] – Nossa continuidade em avançar mediante a crença na verdade — movido por nenhum outro senão Deus, movido por uma causa não causada [Deus], ou seja, alguém que começou, sem ter precisado ser começado por alguém; é a Pessoa que tem todas as ações perfeitas em si, é o arquétipo perfeito (padrão perfeito) de todas as coisas. Destaco que há imperfeição nos entes, mas em Deus não: — Todas as coisas necessitam de perfeitos arquétipos (padrões perfeitos, como dito), razão disto, é que no máximo que este mundo pode oferecer há alguma imperfeição; nunca chega a ser totalmente o que sabemos que deveria ser; no amor maior da Terra há ainda alguma imperfeição; no conhecimento mais alto da Terra há ainda ignorância; na maior realização humana há ainda persistentemente algum elemento de imperfeição; na fé há ainda incredulidade; na santidade há ainda a necessidade de santificação, pois, há pecado em nós — o Padrão Perfeito deve ser necessariamente o primeiro motor [Deus], pois, é o Padrão de todas as coisas [entes] “em potência” a tornarem-se perfeitas [ato], pois existem nelas ausência de perfeição — e, aqui (potência) é apenas o pálido reflexo da realidade (primeiro–motor, ato em si) — a eternidade [Deus], como dizia Browning: — “O alcance de um homem deveria exceder seu logro ou, para que existe então o céu?”. Reiteradamente, todas as coisas movem-se, todas as coisas transformam-se de um ponto para outro, não somente no sentido de locomoção, mas de mudança substancial, como na geração de novas substâncias — “a madeira que queima tornando-se carvão” — como acidente, aumento ou diminuição quantitativa — “o menino que cresce tornando-se adulto” — e, até como variação quantitativa, quer na ordem material quer na ordem espiritual — “quanto maior sofrimento, por fim, maior graça[10].

Deus é “ato em si”, que não necessita de outras características que sejam acrescentadas nEle, para Ele vir a ser alguma coisa diferente, porque Ele já é; expresso na Escritura em ambas as dispensações, [1] – Primeiro, em Êxodo 3:14: — “Eu Sou o que Sou” é justamente ser “ato em si”, significa que Deus é a plenitude do ser e de toda perfeição — é o próprio ser — não tem origem nem fim. Ao passo que as criaturas receberam dEle todo o seu ser e o seu ter, na aparência, é possível interpretar “YHWH” como uma terceira pessoa do singular na forma arcaica do verbo “hayah”, “ser”, significando, portanto, “Ele é [presente]”, esse nome está ligado ao verbo hebraico que significa “ser”, e, assim, implica a absoluta existência de Deus. Esta interpretação está de acordo com o significado do nome dado em Êxodo 3:14, onde Deus é representado como se estivesse falando e, portanto, como o uso de primeira pessoa – “ehyeh”, “Eu Sou” [primeiro–motor, ato em si];  e [2] – Segundo, no Novo Testamento, é dito por Jesus: — “[…] Eu Sou [presente]” (João 8:58) dentro do contexto da passagem, Abraão não estava no começo com Deus, esclareço que “antes que Abraão existisse”, deveria [o verbo] ser traduzido como “antes que Abrão [ter nascido]”, indicando que a vida de Abraão tinha um começo específico. Isso contrasta nitidamente com a auto–reivindicação de Jesus: — “Eu Sou” — em outras palavras, Ele era [é] sem começo — o Onipresente.

Síntese do pensamento da primeira evidência [via]:

[1] – No cosmos, algumas [todas] coisas são movidas; [2] – Tudo o que é movido, é movido por outro [primeiro–motor]; [3] – Não pode-se preceder (anteceder) até ao infinito nos “moventes” (quem modifica; causas; razões; fins; propósitos; objetivos; etc.) e “movidos” (quem é modificado; instigados; ocasionados; afetados, agitados; capacitados; descritos; dirigidos; etc.), a exemplo, do que foi dito — quem criou a natureza — dentro deste planeta, e que este encontra-se com todo sistema solar como partículas dentro da galáxia chamada de Via Láctea, e que esta faz parte dos dois trilhões de galáxias[11] de um universo que é infinito — e que esta dá o trigo que faz o pão? Ou quem criou as matérias–primas que compôs (construiu, obrou) a parede e o próprio agente construtor? Ou quem criou, gerou e consumou a fé (dom), e, em contínuo trabalho preserva e torna-a perseverante em si? [4] – Logo, é necessário um primeiro–motor não movido por outrem, que é Deus.

[2] – Via da causa eficiente.

A segunda via observa que tudo depende de uma causa para agir e existir. Ela tem forte semelhança com a primeira, mas, nessa, os seres dependem de uma causa eficiente para existir, enquanto naquela observa-se a necessidade de uma causa motriz (motor, movimento–primeiro). Se, regressarmos na relação causa e efeito, chegaremos a uma causa primeira não subordinada e não causada, pois, não pode ser causada por outra, caso contrário, não seria a primeira nem poderia ser absolutamente independente no agir e no causar, e consequentemente, não eterna. A essa causa eficiente primeira chamamos Deus. Ou seja, a causa eficiente é que “uma causa depende da outra”, chegando-se a um ponto que a causa eficiente não depende de outrem; é aquela que se torna motivo de criar um efeito (consequência, conclusão, resultado), sem ser efeito (consequência, conclusão, resultado) de outra causa. Ou seja, “é uma causa não causada”. Tomás de Aquino exprime-se dessarte: — “Esta causa é infinitamente perfeita, porque sendo a existência mesma subsistente, é tudo o que pode existir, isto é, todos os modos de ser, todas as perfeições (arquétipo perfeito); imaterial, porque a matéria é potência (transforma-se, muda-se). Ora, a causa primeira não sofre mudanças por ser ela ato puro; inteligente, porque a imunidade e exceção da matéria é a causa da faculdade intelectual, que se caracteriza por se fazer atualmente inteligíveis as formas materiais abstraindo-as da matéria e das condições da matéria; não subordinada e incausada, pois, não pode ser causada por outra, caso contrário, não seria a primeira, nem poderia ser absolutamente independente no agir e no causar — causa eficiente primeira é Deus”.

Síntese do pensamento da segunda evidência [via].

[1] – No mundo, todas as coisas têm uma causa eficiente [como a semente plantada que precisa do fertilizante [adubo, esterco], água, luz solar, etc.]; [2] – Nada pode ser a causa eficiente de si mesmo [a semente não pode se molhar, nem ser duas coisas ao mesmo tempo, semente e esterco]; [3] – Não é possível que se preceda até o infinito nas causas eficientes (pois, tornaria em coisa eterna e infinita, não sendo finito); [4] – Logo, existe uma causa primeira eficiente, que é Deus, que é eterno e infinito.

Sobre as evidências, um e dois, de modo resumido: — “O motor que iniciou todas as coisas, e não precisou ser iniciado — é alguém perfeitíssimo — a causa que causou todas as coisas, mas não precisou ser causada — também é um ser perfeitíssimo — este [ser] perfeitíssimo que criou todas as coisas, que gerou todas as coisas como primeiro–motor e causa eficiente: — é Deus”.

[3] – Via do contingente e do necessário.

Noção contrária à de necessidade. Aquilo que é contingente, é aquilo que poderia não ter sido ou não ter sido tal, ou não acontecer [evento contingente], por não ter em si nem em suas causas a razão adequada de sua existência. Denominamos futuros contingentes aquilo que, considerado em si mesmo ou em suas causas, poderia advir (resultar, acontecer) ou não advir, e que, portanto, não pode ser previsto. Eles são cognoscíveis (acessíveis) apenas enquanto presentes (é enquanto presentes e não por antecipação que Deus os conhece), e revestem por isso mesmo uma necessidade de fato: — “supondo que uma coisa seja, ela não pode não ser”. Aquilo que foi não pode não ter sido. As escolhas das vontades livres são contingentes.

A definição de contingente é: — “qualquer ente que existe, mas poderia também não existir, porque não tem em si mesmo, em sua essência, a razão de sua existência”, por conseguinte, a terceira via é semelhante à primeira e à segunda. Entrando mais intimamente na essência dos entes do universo, procura o ponto de partida na entidade desses seres contingentes, ou seja, “dependente de outro ser necessário para existir”; por exemplo, “um bebê quando nasce, necessita de minerais, vitaminas, nutrientes essenciais, etc., que encontra-se no leite materno, portanto, o bebê é contingente ao colo da mãe”. Ou seja, dessa maneira, ele existe, mas poderia não existir se não dispusesse dessas condições. Ou ainda, da possibilidade de escolha, entre duas cores distintas de caneta, sendo uma de cor azul e outra de cor vermelha, uma vez escolhendo, por exemplo, a caneta de cor azul, esta escolha é “contingente a circunstância” da probabilidade real da escolha dentro do campo das reais potencialidades. Ou seja, a virtualidade de escolha da caneta de cor vermelha, poderia simplesmente não existir; permanece a necessidade de outro ser que lhe cause a existência [da possibilidade de outras escolhas] — outro ente.

Observamos, então, que existe seres contingentes que existem, mas poderiam não existir, por não ter em si mesmos, em sua essência, a razão de sua existência. Da possibilidade de não existir, permanece a necessidade de outro ser que lhe cause a existência. Se, remontarmos ao infinito, chegaremos ao ser necessário, que tem em si a razão absoluta de sua existência, e, é o oposto do contingente, esse ser é Deus.

“O necessário é o ser existente que de modo algum, pode não existir, porque tem em si a razão absoluta da sua existência”. O contingente que necessita do necessário para existir, assemelha-se com um oficial que necessita de cumprir obrigações para subsistir[12], que não pode destinar-se a si mesmo ao pastorado; sua nomeação [e aprovação], portanto, provém de Deus, e ele precisa do necessário para existir: — Deus e sua Palavra. Ou seja, “dessa maneira, ele existe, mas poderia não existir se não prescrevesse e deliberasse cumprir dessas obrigações” — O contingente estar [de modo dependente] para o ser necessário, assim, como o pastor estar [de modo dependente] para Deus.

O necessário[13] contém na sua própria essência a sua existência, seria absurdo não existir. Dessa forma, é necessário afirmar a existência de um ser necessário por si mesmo, e que é a causa e a necessidade de todos os outros, é necessário sem ser contingente, tem tudo para poder ajudar a outrem, apesar disso, não necessita da ajuda de ninguém; mas para isso, este ser precisa ser perfeitíssimo: — Deus. “A perfeição de Deus é tão enorme, funda, intensa, incompreensível, inacessível e penetrante, que é transmitida a outros entes”. Prova disto, é que Deus reparte a sua Onipotência com os santos[14].

Síntese do pensamento da terceira evidência [via].

[1] – No mundo, há coisas contingentes que existem, mas poderiam não existir; [2] – Mas é preciso que algo seja necessário entre os entes; [3] – Não é possível que se preceda ao infinito nas coisas necessárias; [4] – Logo, existe um primeiro necessário, que é Deus.

[4] – Via dos graus de perfeição.

Assim, nelas [nas coisas, entes] se encontram em proporção maior e menor o bem, a verdade, a nobreza e outros atributos semelhantes. Ou seja, o mais e o menos se dizem de diversos atributos enquanto se aproximam de um máximo, diferentemente; assim, “o mais cálido (quente) é o que mais se aproxima do maximamente cálido, e o mais calmo é o que  mais se aproxima do maximamente calmo — como é dito, não tenho a paciência de Jó, mas sou muito calmo!”. Há, portanto, algo verdadeiríssimo, ótimo e nobilíssimo e, por consequente, maximamente ser; pois, as coisas maximamente verdadeiras são maximamente seres, como diz o Filósofo. Em outras palavras, o que é maximamente tal, em um gênero, é causa de tudo o que esse gênero compreende; assim o fogo, maximamente quente, é causa de todos os cálidos, como no mesmo lugar se diz. Logo, há um ser, causa do ser, e da bondade, e de qualquer perfeição em tudo quanto existe, e esse ser chama-se Deus.

A quarta via é aprovada pelos graus de perfeição dos entes, é uma via mais poética, o nosso entendimento percebe que existem graus de perfeição em todas as coisas. Os graus estão evidenciados (explicitados) desde os objetos mais gerais até os sentimentos mais obscurecidos ou nobres, julgamos sobre tais graus de tais coisas, tendo como referência alguma coisa de grau máximo; por exemplo, “o homem é mais perfeito que o animal, por sua vez, o animal é mais perfeito que o vegetal, e este, é mais perfeito que o mineral, etc.”. Se admitirmos a possibilidade de diferentes graus de perfeição, o maximamente dessa perfeição é o próprio Deus.

Conforme refere Aristóteles, certos filósofos antigos — os Pitagóricos e Espeusipo — não concebiam que o princípio primeiro fosse ótimo e perfeitíssimo. E a razão é que tais filósofos consideravam só o princípio material. Ora, o principio material primeiro é imperfeitíssimo; pois, sendo a matéria em si mesma potencial (“em potência”, podendo mudar-se, transformar-se), por força o princípio material primeiro há de ser totalmente potencial por excelência e, portanto, totalmente imperfeito.

Deus, porém, é considerado como primeiro princípio, não material [imaterial], mas, no gênero, da causa eficiente; e, então, há de necessariamente ser perfeitíssimo. Pois, assim como, em si mesma, a matéria é potencial, assim, o agente é, em si mesmo, atual (“ato em si”). Por onde, o primeiro princípio ativo há de, por força, ser soberanamente ativo, e, por consequência, perfeito em máximo grau. Pois, um ser é considerado perfeito na medida em que é atual; porque perfeito se chama aquilo ao que nada falta, nos limites da sua perfeição[15].

“O princípio material, que em nós existe imperfeitamente, não pode ser, em absoluto, primeiro, mas é precedido por outro, que é perfeito [necessário]. Assim, embora o sêmen seja o princípio do animal dele gerado, tem, contudo, como princípio, o animal ou a planta donde deriva. Pois, antes do potencial, há de necessariamente existir o atual, porque o “ser potencial” não se atualiza senão pelo que já é atual”.

Se para cada coisa existente há um grau máximo, portanto, deve existir um ser [Deus] que contém todos os atributos e coisas possíveis em seus graus de perfeição no máximo – e, que seria gerador de todas as coisas em grau de perfeição menor. Tomás de Aquino diz (como já dito) que “se encontra nas coisas algo mais ou menos bom, mais ou menos verdadeiro, mais ou menos nobre, etc., portanto, mais e menos se dizem de coisas diversas, conforme elas se aproximam diferentemente daquilo que é em si o máximo”. Esse ser é Deus.

O ser em si é o mais perfeito de todos por atualizar a todos; pois, nenhum ser é atual senão enquanto existente. Por onde, o ser em si é o que atualiza todos os outros e, mesmo, as próprias formas. “Por isso, não está para outros como o recipiente para o recebido, mas, antes, como o recebido para o recipiente”.

Assim, quando designo o ser do homem, do cavalo, ou de qualquer outro ente, considero o ser mesmo como princípio formal e como recebido; e não como um sujeito a que sobrevém a existência.

Razão disto, é que no máximo que este mundo pode oferecer há alguma imperfeição; nunca chega a ser totalmente o que sabemos que deveria ser [perfeito, e mais perfeito]; no amor maior da Terra há ainda alguma imperfeição [pois, medimos pelo maximamente perfeito amor – de Deus]; no conhecimento mais alto da Terra há ainda ignorância [pois, medimos pela maximamente perfeita sabedoria – de Deus]; na maior realização humana há ainda persistentemente algum elemento de imperfeição  [pois, medimos pela maximamente perfeita obra – de Deus]; na fé há ainda incredulidade [pois, medimos pela maximamente perfeita fé – confiante em Deus pela Palavra]; na santidade há ainda a necessidade de santificação, pois há pecado em nós [e, ainda, medimos pela maximamente perfeita santidade – do Filho e Palavra de Deus] — só existe um ser — Deus, que pode oferecer toda perfeição, que é totalmente um ser perfeito, que tem amor perfeito, que tem todo conhecimento perfeito de todas os entes, que tem todo o poder para realizar todas as coisas perfeitamente, que é um ser santíssimo e perfeitíssimo.

“Há um só Deus vivo e verdadeiro, o qual é infinito em seu ser e em perfeição. Ele é um Espírito puríssimo, invisível, sem corpo, sem membros, não sujeito a paixões; é imutável, imenso, eterno, incompreensível, onipotente, onisciente, santíssimo, completamente livre e absoluto, e tudo faz segundo o conselho da sua própria vontade que é reta e imutável, e para a sua própria glória […][16].

“Sede santos, porque eu sou santo” (1 Pedro 1:16). “[…] sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:48)[17].

Síntese do pensamento da quarta evidência [via].

[1] – No mundo, as coisas têm diferentes graus de perfeição; [2] – Os graus de perfeição atribuem-se em relação à proximidade do grau máximo (arquétipo maximamente perfeito); [3] – O grau máximo de um gênero é a causa eficiente [Deus] de todas as coisas desse gênero; [4] – Logo, há algo que é a causa da existência para todas as coisas, que é o Deus perfeitíssimo e santíssimo.

[5] – Via do governo das coisas — da finalidade ser.

“Pois, vemos que algumas, como os corpos naturais, que carecem de conhecimento, operam em vista de um fim; o que se conclui de operarem sempre ou frequentemente do mesmo modo, para conseguirem o que é ótimo; donde resulta que chegam ao fim, não pelo acaso, mas pela intenção. Mas, os seres sem conhecimento não tendem ao fim sem serem dirigidos por um ente conhecedor e inteligente, como a flecha, pelo arqueiro. Logo, há um ser inteligente, pelo qual todas as coisas naturais se ordenam ao fim, e a que chamamos Deus[18].

A quinta via é a prova pelo ordenamento do cosmos, se considerarmos a ordem existente no universo, da posição que a Terra encontra-se diante do Sol, a velocidade em que a Terra movimenta-se, a distância exata da Lua,  e tudo isso, permite que exista vida em nosso planeta, se fosse um pouco diferente disso, não haveria vida; podemos dizer que desde os componentes microscópicos existentes até os gigantescos astros do firmamento; a harmonia, a atividade e relação entre eles; são milhares de exemplos — “quem é que ensina a uma abelha que têm em suas cabeças glândulas que secretam duas enzimas, a invertase e glicose oxidase, e que o mel é formado pela reação dessas substâncias com o néctar coletado das flores? Ou a uma flor que o fechamento das folhas é uma defesa natural em reação a qualquer tipo de toque, percebido como um ataque em potencial? Ou ainda, de bebês que já nascem sabendo mamar, engolir, etc.?” — ainda nos primeiros dias de vida observados, entendimentos, compreensões, assimilações, pensamentos, inteligências, idéias, discernimentos, juízos, pensamentos, conclusões, etc., facilmente chegamos à seguinte conclusão: — “houve uma inteligência que criou e ordenou tudo isso, um ser inteligentíssimo; caso contrário, seria absurdo, tolice, dizer que isso é fruto do acaso ou do caos”. Em outras palavras, Tomás de Aquino usa uma expressão: — “Uma flecha não pode atingir o alvo, sem que o arqueiro a dispare”. Portanto, deve ter alguém que mude, modifique, altere e lide com tudo, que coloque exatamente uma ordem, que forme inclusive um equilíbrio extraordinário no cosmo inteiro. “A qualidade que originamos [ser causa de algo] a Deus através desta quinta via é exatamente a inteligência”. Um Deus inteligentíssimo que sabe coordenar os movimentos de todos os astros do universo inteiro.

“De fato, apenas a inteligência pode ser razão da ordem, quer dizer, da organização dos meios em vista de um fim, ou dos elementos em vista do todo que eles compõem: — os corpos ignoram os fins e, por conseguinte, se os corpos ou os elementos conspiram em conjunto, é necessário que sua organização tenha sido obra de uma inteligência de um ser inteligentíssimo: — que é Deus”.

Garrigou–Lagrange diz: — “Os seres privados de razão não tendem a um fim se não são guiados por uma inteligência, como a flecha pelo arqueiro. Com efeito, uma coisa não pode estar ordenada à outra senão por uma causa ordenadora, que necessariamente deve ser inteligente, “sapientis est ordinare”. Por quê? Porque somente a inteligência conhece a razão de ser das coisas”.

Qual é a inteligência que ordena e guia o cosmos? Tem de ser diferente dos seres da natureza, porque os minerais e vegetais são desprovidos da ciência das coisas e os animais não possuem intelecto. Deve ser, também, diferente da inteligência humana, que, apesar de perceber e explicar a ordem que existe [e de muitas coisas], não a cria nem a compreende plenamente. Tem que ser, pois, a suprema [suma] inteligência, dado que a ordem do cosmos supõe um ser que possua a ciência de todos os seres e suas propriedades.

Por isso, conclui Garrigou–Lagrange: — “Os animais conhecem sensivelmente o objeto que constitui seu fim, mas nesse objeto não percebem a razão formal do fim. Por conseguinte, se não houvesse uma inteligência ordenadora, que governasse o mundo, a ordem e a inteligibilidade que há no universo e que as ciências descobrem, proviria da inteligibilidade, e ainda mais, nossas próprias inteligências proviriam de uma causa cega e ininteligível; uma vez mais, o mais sairia do menos, o que é absurdo”.

A inteligência criadora e ordenadora — é Deus. Por consequência, a esta afirmativa, é necessário esclarecer o porquê que a “inteligência criadora e ordenadora” do universo é “infinita e divina”. Um ser natural, na sua criação, não é precedido por nada e suas propriedades e capacidades provêm de sua própria essência. Daí, a ordem interna de cada ser e, por conseguinte, das relações destas essências entre si, resulta a ordem externa do universo.

Sendo a causa total de toda ordem, o autor dessas essências precisa ser também criador, por tirá-las do nada. Portanto, a “inteligência ordenadora” é também criadora, Deus (Gênesis 1 — 2) que cria, diferente do ser natural que é criado. Também, essa inteligência não pode ter sido criada (Êxodo 3:14), porque seria como qualquer outro ser existente e não ordenaria, mas seria ordenada por outra inteligência, superior. Por fim, a inteligência ordenadora deve ser também por si subsistente e infinita (eterna). A esse ser criador, subsistente por si, infinito, criador e inteligentíssimo, chamamos Deus.

Síntese do pensamento da quinta evidência [via].

[1] – No mundo, algumas coisas operam por causa de um fim. [2] – Essas coisas não atingem o fim por acaso, é determinado. [3] – Essas coisas não tendem para um fim a não ser que estejam sendo dirigidas por algo inteligente. [4] – Logo, existe algo inteligente, que é Deus, que dirige as coisas a um fim de forma inteligentíssima.

O argumento ontológico no Proslógio — Anselmo Aosta.

Anselmo inicia seu argumento com a definição de “um ser do qual não é possível pensar nada maior”. Mesmo que um insipiente (“incrédulo” ou “tolo”) negue sua existência, ele é capaz de compreender ao ouvir as palavras “o ser do qual não é possível pensar nada maior”.

Mesmo que ele não admita a existência desse ser na realidade, ele se encontra pelo menos em sua inteligência. Ao afirmar que o insipiente compreende “o ser do qual nada maior pode ser concebido”, Anselmo quer apenas salientar que não há nisso nenhuma dificuldade.

A compreensão do insipiente neste ponto parece ser independente de qualquer compreensão da própria existência desse ser. “Por uma questão de argumentação dialética, Anselmo requer do insipiente apenas que ele compreenda esta expressão[19].

Ter a idéia de um objeto na inteligência, no entanto, é bem diferente de compreender que este ser realmente exista. Um pintor, por exemplo, já tem em sua mente a obra que pretende pintar antes de executá-la, mas nada compreende de sua existência real, pois, ela ainda não existe. Somente quando a tiver pintado é que ele compreenderá também sua existência[20].

Anselmo ressalta com este exemplo que não basta ser capaz de imaginar um objeto para que ele exista também na realidade. Seu único objetivo é mostrar que algo pode existir somente na idéia, sem existir na realidade. Resultaria em uma contradição, porém, se “o ser do qual não é possível pensar nada maior” existisse somente na inteligência. Fosse este o caso, “poder-se-ia pensar que há outro ser existente também na realidade; e que seria maior[21].

Segundo Anselmo, “se, portanto, o ser do qual não é possível pensar nada maior existisse somente na inteligência, este mesmo ser, do qual não se pode pensar nada maior, tornar-se-ia o ser do qual é possível […] pensar algo maior; o que […] é absurdo”. Logo, conclui Anselmo, “o ser do qual não é possível pensar nada maior existe, sem dúvida, na inteligência e na realidade [Deus] [22].

Ao reduzir ao absurdo a afirmação do insipiente de que “o ser do qual nada maior pode ser pensado” não existe na realidade, Anselmo conclui que se deve pensar, portanto, este ser como existindo na realidade. Neste passo da argumentação, cabe observar, Anselmo ainda não provou que Deus existe, tendo afirmado tão-somente que “nós” acreditamos que Deus seja “aquilo do qual nada maior pode ser pensado”. Ele pensa ter estabelecido, neste ponto, apenas a existência deste ser, mas ainda não equacionou a identidade deste ser a Deus[23].

O próximo passo do argumento é então afirmar que aquilo que se pode dizer do “ser do qual nada maior pode ser concebido” pode também ser dito sobre Deus. O argumento de Anselmo tem, segundo Glymour[24], a seguinte estrutura lógica: — [1] – Premissa 1: — Podemos conceber um ser do qual nada maior pode ser concebido. [2] – Premissa 2: — O que quer que seja concebido existe no entendimento de quem o concebe. [3] – Premissa 3: — Aquilo que existe no universo de quem o concebe e também existe na realidade é maior do que algo similar que existe apenas no entendimento de quem o concebe. Portanto, um ser concebido, do qual nada maior pode ser concebido, deve existir na realidade assim como no entendimento. [4] – Premissa 4: — Deus é um ser do qual nada maior pode ser concebido.

Conclusão: — Deus existe na realidade[25].

O argumento ontológico de Anselmo de Aosta tenta demonstrar a existência de Deus de maneira apriorística. Sua elaboração resultou do projeto de seu autor de encontrar um argumento único e mais simples do que aqueles apresentados no Monológio, sua obra anterior. A ontologia neoplatônica, embora com forte presença no período de Anselmo e também em sua formação agostiniana, parece não ser um pressuposto do argumento. O arcebispo de Cantuária parece se valer, antes, da arte dialética apresentada por Aristóteles na sua obra Tópicos, transmitida neste período da Idade Média por Boécio[26].

Segundo Logan[27], a estratégia de Anselmo consiste em inicialmente identificar um termo médio com o qual seu oponente concorde, que lhe seja aceitável (argumento provável), para estabelecer, em seguida, sua solidez demonstrativa (argumento necessário).

Para demonstrar que Deus existe, ele primeiro apresenta ao público geral, à audiência de sua disputa com o insipiente, seu termo médio como sendo “o ser do qual nada maior pode ser pensado” (= “X”). Ele então afirma que a existência de Deus está sendo colocada em questão, e leva seu oponente a aceitar seu termo médio e sua premissa maior: — “X” existe no entendimento (“in intellectu”) e na realidade (“in re”). Tendo estabelecido a premissa maior, ele então argumenta pela premissa menor: — Deus é “X”.

Se Deus não é este “X”, então existe algo maior que Ele, o que significa que a criatura é maior que o Criador, o que é impossível. Anselmo atinge, segundo Logan[28], os limites da arte dialética, pois, um argumento necessário só pode ser negado às custas da racionalidade de quem o nega.

Tendo estabelecido, portanto, as duas premissas, o insipiente não desempenha mais nenhum papel na argumentação, pois, Anselmo se move de um argumento provável para um necessário, e pode concluir que Deus existe. O argumento de Anselmo nunca foi bem aceito por teólogos. Criticado por Gaunilo logo à época de sua publicação, ele foi esquecido até meados do século XIII, quando Tomás de Aquino o rejeitou de uma vez por todas.

Entre os filósofos, contudo, seu destino foi diferente. Sua constante presença na filosofia moderna alcançou o máximo de influência ao constituir, na leitura de Russell[29], a base de todo o sistema hegeliano. Seja válido ou não, concordamos com as palavras de Bertrand Russell: — “um argumento com uma história tão significativa certamente deve ser tratado com respeito”. Por isso citado aqui em contraste com as cinco vias de Aquino, ou nos mistérios das entrelinhas concordantes [consoantes] ou discordes, e paradoxal; o que define, de fato, é a capacidade do ente, tempo dispensado e conferido sobre essas riquezas.

Paz e graça.

[1] Para Aristóteles, o devir é apenas uma passagem da potência ao ato que é a perfeição para a qual o devir tende. Segundo Aristóteles, ato é a perfeição para a qual o devir tende. Aristóteles dá o nome de devir ao processo de realização da potência. Devir é o princípio de atualização da potencialidade em direção à realização da forma. “O princípio do devir é o movimento, o princípio do movimento é a potência” (William Baptista). O devir aristotélico é a realização de um processo para se receber, o que move um ente para sua finalidade é o motor; tudo está em movimento porque é movido por um motor, o motor que move a si mesmo e não é movido por nenhum outro é o primeiro motor, o motor perfeito onde todas as suas potencialidades estão atualizadas — é Deus.

[2] Ser alterado significa tornar-se outro, mas não em sua substância. Tomada filosoficamente, a palavra não tem o sentido de atingir a própria integridade do ser, o que ela evoca na linguagem comum. É um dos nomes da mudança, uma das formas do movimento. A mudança é puramente acidental, e mais precisamente qualitativa. Mas a alteração pode chegar a uma transformação substancial, a uma mudança do ser substancial nele próprio, ao advento de uma nova forma substancial a qual é determinada (a ponto de ser requerida necessariamente) pela qualidade recém-produzida. Na ordem dos fenômenos da natureza, é mediante alterações prévias que se produzem as transformações substanciais. É a mesma ação que, para fazer advir a nova forma, a determina. E a qualidade que era disposição torna-se propriedade decorrendo da forma uma vez advinda. Essas noções valem em sentido próprio apenas para os seres materiais. Mas Tomás de Aquino as transpõe constantemente à ordem superior — Deus.

[3] Suma Teológica I, q. 2, a. 3.

[4] AQUINO, 1265 – 1273.

[5] Cf. Filipenses 2:13; 2 Coríntios 3:5.

[6] Cf. 1 Pedro 1:15, 16; Hebreus 12:14.

[7] Cf. Marcos 1:8; Lucas 3:16, 17; João 1:29 – 34.

[8] Cf. Isaías 11:1 – 3; Joel 3:1 – 5; Isaías 32:14, 15.

[9] V. M. Thomson, Land and Book, p. 83.

[10] Cf. 2 Coríntios 12:7 – 9; João 16:33; Jó 1 — 42.

[11] Astrophysical Journal.

[12] Cf. 1 Timóteo 3:1 – 7; Tito 1:5 – 9.

[13] “Necesse”, advérbio indeclinável que traduzimos por necessariamente, possui como etimologia “necedere”, no sentido de “não ceder”, “não fraquejar”. O “necessário” é aquilo que não pode não ser ou deixar de acontecer. Ele se opõe ao contingente (aquilo que acontece com […] que poderia não ser ou deixar de acontecer). Existem dois tipos de necessidade: — A necessidade absoluta e a necessidade hipotética ou condicional: — supondo, ou, sob condição que haja “A”, haverá necessariamente “B”. Ou então: — para que haja “A”, deve necessariamente haver “B”.

[14] Cf. Êxodo 14:15, 16, 21, 26, 27; Mateus 14:27 – 32; Atos 8:38 – 40.

[15] Suma Teológica I, q. 4, a. 1.

[16]  Confissão de Fé de Westminster, Capítulo 2, Tópico 1.

[17] Almeida Revista e Corrigida (ARC).

[18] Suma Teológica, q. 2, a. 3.

[19] LOGAN, 2009, p. 94.

[20] ANSELMO, 1988, p. 102.

[21] ANSELMO, 1988, p. 102.

[22] ANSELMO, 1988, p. 102.

[23] LOGAN, 2009, p. 95.

[24] GLYMOUR, 2015, p. 16.

[25] GLYMOUR, 2015, p. 16.

[26] LOGAN, 2009, p. 14.

[27] LOGAN, 2009, p. 17.

[28] LOGAN, 2009, p. 17.

[29] RUSSELL, 1945, p. 417.

Referências:

[1] – As cinco vias de Santo Tomás de Aquino para provar a existência de Deus – Suma Teológica.

[2] – Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica.

[3] – Roberta Melo, 2019, Ato e potência, Aristóteles.

[4] – St. ANSELM, Proslogium; Monologium; An appendix in behalf of the fool by Gaunilon; And Cur Deus Homo, Tradução de Sidney Norton Deane, Chicago, The Open Court Publishing Company, 1939.

[5] – Santo ANSELMO, Proslógio, Tradução de Angelo Ricci, In: Os Pensadores, São Paulo, Nova Cultural, 1988.

[6] – LOGAN, Ian, Reading Anselm’s Proslogion: The history of Anselm’s argument and its significance today, Farnham: Ashgate Publishing House, 2009.

[7] – Suma Teológica, Caderno.

O EVANGELHO DE JOÃO — DEUS COMO ESPÍRITO SANTO

PIEDADE, CONFIANÇA E REVERÊNCIA SÃO OS REQUISITOS PARA SE CONHECER A DEUS

Portanto, de fato entendo como conhecimento de Deus aquele em virtude do qual não apenas concebemos que Deus existe, mas ainda apreendemos o que nos importa dEle conhecer, o que lhe é relevante à glória, enfim, o que é proveitoso saber a seu respeito. Ora, falando com propriedade, nem diremos que Deus é conhecido onde nenhuma religiosidade há, nem piedade. E aqui ainda não abordo essa modalidade de conhecimento pela qual os homens, em si perdidos e malditos, apreendem a Deus como Redentor, em Cristo, o Mediador. “Ao contrário, estou falando apenas desse conhecimento primário e singelo, a que nos conduziria a própria ordem da natureza, se Adão se conservasse íntegro”. Ora, se bem que nesta ruinosa situação do gênero humano já ninguém sentirá a Deus, seja como Pai, seja como autor da salvação, seja como de qualquer maneira propício, até que Cristo se interponha como agente mediador para apaziguá-lo em relação a nós, todavia uma coisa é sentirmos que Deus, como nosso Criador, nos sustenta com seu poder, nos governa em sua providência, nos provê em sua bondade e nos cumula de toda sorte de bênçãos; outra, porém, é abraçarmos a graça da reconciliação que nos é proposta em Cristo. Portanto, uma vez que o Senhor se mostra, em primeiro lugar, tanto na estrutura do mundo, quanto no ensino geral da Escritura, simplesmente como Criador, e então na face de Cristo (cf. 2 Coríntios 4:6) como Redentor, daí emerge dEle “duplo conhecimento”, de que se nos impõe tratar agora do primeiro. O outro se seguirá, na devida ordem (confiança e reverência). Mas, embora nossa mente não possa apreender a Deus sem que lhe renda alguma expressão cultual, não bastará, contudo, simplesmente sustentar que Ele é um e único, a quem importa ser de todos cultuado e adorado, se não estamos também persuadidos de que “Ele é a fonte de todo bem”, para que nada busquemos de outra parte senão nEle. Eu o recebo nestes termos: — “não só que uma vez Ele criou este mundo, e de tal forma o sustém por seu imenso poder; o regula por sua sabedoria; o preserva por sua bondade; rege com sua justiça e equidade especialmente ao gênero humano; suporta-o em sua misericórdia; guarda-o em sua proteção; mas, ainda que em parte alguma se achará uma gota ou de sabedoria e de luz, ou de justiça, ou de poder, ou de retidão, ou de genuína verdade, que dEle não emane e de que não seja Ele próprio a causa; de sorte que aprendamos a realmente dEle esperar e nEle buscar todas essas coisas; e, após recebidas, a atribuir-lhes com ação de graças”. Ora, este senso dos poderes de Deus nos é mestre idôneo da piedade, da qual nasce a religião. Chamo “piedade à reverência associada com o amor de Deus que nos faculta o conhecimento de seus benefícios”. Pois, até que os homens sintam que tudo devem a Deus, que são assistidos por seu paternal cuidado, que é Ele o autor de todas as coisas boas, daí nada se deve buscar fora dEle, jamais se lhe sujeitarão em obediência voluntária. Mais ainda: — “a não ser que ponham nEle sua plena felicidade, verdadeiramente e de coração nunca se lhe renderão por inteiro”.

Confiança e reverência são fatores do conhecimento de Deus.

Portanto, simplesmente se recreiam em frívolas especulações quantos se propõem insistir nesta pergunta: — “Que é Deus?”. Quando devemos antes interessar saber qual é sua natureza e o que lhe convém à natureza. Pois, de que vale, segundo Epicuro, confessar um Deus que, pondo de parte o cuidado do mundo, só se apraz no ócio? Afinal, que ajuda traz conhecer a um Deus com quem nada temos a ver? Antes, pelo contrário, seu conhecimento nos deve valer, em primeiro lugar, que nos induza ao temor e à reverencia; segundo, “tendo-o por guia e mestre, aprendamos a buscar nEle todo o bem e, em recebendo-o, a Ele tudo creditar”. Ora, como pode subir-te à mente o pensamento de Deus, sem que, ao mesmo tempo, logo reflitas: — uma vez que és feitura dEle, pelo próprio direito de criação foste sujeitado e vinculado a seu domínio, que lhe deves a vida, que convém atribuir-lhe tudo quanto fazes? Se assim é, então segue-se necessariamente, uma vez que sua vontade nos deve ser a lei do viver, “que inexoravelmente a vida te é corrompida, se não a pões ao serviço dEle”. Por outro lado, nem o podes visualizar com clareza, sem que reconheças ser Ele a fonte e origem de todas as coisas boas, donde deveria nascer não só o desejo de se apegar a Ele, mas ainda de depositar nEle sua confiança, “se o homem não desviasse sua mente da reta investigação para sua depravação”. Ora, para começar, a mente piedosa não sonha para si um Deus qualquer; ao contrário, contempla somente o Deus único e verdadeiro; nem lhe atribui coisa alguma que lhe ocorra à imaginação, mas se contenta com tê-lo tal qual Ele mesmo se manifesta, e com a máxima diligência sempre se acautela, “para que não venha, mercê de ousada temeridade, a vaguear sem rumo, indo além dos limites de sua vontade”. Conhecido Deus desta forma, visto saber que “Ele a tudo governa”, confia ser Ele seu guia e protetor, e assim se entrega a toda sua guarda; porque entende ser Ele o autor de todo bem, se algo o oprime, se algo lhe falta, de pronto a sua proteção se recolhe, dEle esperando assistência; visto que está persuadido de que Ele é bom e misericordioso, nEle repousa com segura confiança, nem duvida que a todos os seus males em sua clemência haverá de ter sempre preparado o remédio; visto que o reconhece por Senhor e Pai, também o julga digno de toda sua atenção, em todas as coisas, para sua soberania, reverenciar sua majestade, procurar promover sua glória, seus preceitos obedecer; porque percebe ser Ele justo juiz e armado de sua severidade para punir os crimes, tem sempre diante dos olhos seu tribunal, e no temor que por Ele nutre, se retrai e coíbe de provocar-lhe a ira. Todavia, não significa que a tal ponto se deixa apavorar pelo senso de seu juízo que, embora lhe seja patente o meio de evadir-se, ainda que o queira. Antes, não menos o abraça como o juiz dos maus quanto é Ele o benfeitor dos piedosos; uma vez que compreende que tanto “pertence à glória de Deus dar aos ímpios e perversos o castigo que merecem, como também aos justos o dom da vida eterna”. Além disso, refreia-se de pecar não só pelo temor do castigo, mas porque ama e reverencia a Deus como Pai; honra-o e cultua-o como Senhor; “e mesmo que não existisse nenhum inferno, ainda assim treme só à idéia da ofensa”. Eis no que consiste a religião pura e real: — “fé aliada a sério temor de Deus, de modo que o temor não só em si contém reverência espontânea, mas ainda traz consigo a legítima adoração, a qual está prescrita na Lei”. E isto se deve observar com mais diligência: — “enquanto todos veneram a Deus de maneira vaga e geral, pouquíssimos o reverenciam de verdade; enquanto, por toda parte, grande é a ostentação em cerimônias, rara, porém, é a sinceridade de coração”.

Paz e graça.

[1] CALVINO, João, Tratado da Religião Cristã, Volume 1, Capítulo II, p. 41 – 42.

[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.

O EVANGELHO DE JOÃO — DEUS COMO ESPÍRITO SANTO

CASAMENTO — O VÍNCULO PRECIOSO

Efésios 5:22 – 33.

Ninguém em pleno século XX que leia esta passagem pode esgotar toda sua grandeza. Através dos séculos se chegou enfim a aceitar a visão cristã do casamento. Mesmo quando a prática não alcance o ideal, este sempre está nas mentes e corações dos homens que vivem numa situação cristã. O casamento é considerado como a união perfeita de corpo, mente e espírito e para sempre entre o homem e a mulher. Mas quando Paulo escrevia a situação era muito diferente. Nesta passagem Paulo apresenta perante homens e mulheres um ideal que brilha com pureza radiante num mundo imoral.

A. W. Verrall, o grande erudito clássico, dizia certa vez que uma das principais enfermidades pelas que pereceu a civilização antiga foi a pouca avaliação da mulher. Vejamos brevemente as circunstâncias nas quais Paulo escreve esta passagem e expressa seu pensamento.

Os judeus tinham um baixo conceito das mulheres. Na forma judia da oração matutina havia uma frase em que o judeu cada manhã agradecia a Deus por não tê-lo feito “um pagão, um escravo ou uma mulher”.

O que viciava toda a legislação judia em relação às mulheres era que, segundo a Lei judia, uma mulher não era uma pessoa, mas sim uma coisa. Carecia totalmente de direitos legais, era possessão absoluta do marido que podia dispor dela à vontade. O judeu possuía em teoria o mais alto ideal do casamento. Os rabinos diziam em seus refrões: — “Todo judeu deve entregar sua vida antes que cometer idolatria, homicídio ou adultério; o próprio altar derrama lágrimas quando o homem se divorcia da mulher de sua juventude”.

Mas o fato era que quando nasceu a Igreja o divórcio tinha chegado a ser tragicamente fácil. A Lei do divórcio está sintetizada em Deuteronômio 24:1: — “Se um homem tomar uma mulher e se casar com ela, e se ela não for agradável aos seus olhos, por ter ele achado coisa indecente nela, e se ele lhe lavrar um termo de divórcio, e lhe der na mão, e a despedir de casa”. É obvio tudo depende da interpretação da frase “coisa indecente”.

Os rabinos mais estritos, encabeçados pelo famoso Shammai, mantinham que a frase significava só adultério, por isso ainda que a mulher for tão malévola como Jezabel, o marido não podia divorciar-se; o motivo só podia ser o adultério. Os rabinos mais liberais, encabeçados pelo igualmente famoso Hillel, interpretavam a frase da maneira mais lassa possível. Um homem podia divorciar-se de sua mulher se esta tinha jogado muito sal em sua comida, ou se passeava em público com a cabeça descoberta, ou se falava com homens na rua, ou se em suas palavras tinha faltado o respeito aos pais do marido em presença deste ou se era bagunceira, impertinente e briguenta.

Certo Rabino Aquiba interpretava a frase “se não lhe agradar” no sentido de que o marido podia divorciar-se dela se encontrava outra mulher mais atrativa. É fácil supor que escola de pensamento preponderaria.

Dois fatores na Lei judia pioravam as coisas. Em primeiro lugar a mulher não tinha nenhum direito ao divórcio mesmo quando seu marido chegasse a “converter-se em leproso, apóstata ou se complicasse em negócios sujos”. Falando em geral, na Lei judia o marido podia divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo. A mulher não podia divorciar-se de seu marido por nenhum motivo. Sob a Lei judia a mulher carecia de toda ajuda e defesa. Em segundo lugar, o processo do divórcio era desastrosamente fácil. A Lei mosaica dizia que aquele que queria divorciar devia entregar à sua mulher uma carta de divórcio. O documento rezava: — “Que esta seja de minha parte a escritura de divórcio, a carta de demissão e a ata de libertação, de maneira que possas casar com qualquer homem que encontres”. Tudo o que o homem fazia era entregar esta nota de divórcio à sua mulher escrita corretamente por um rabino e na presença de duas testemunhas. Assim o divórcio era levado a cabo. A única outra condição que se requeria era que o dote da mulher fosse reintegrado.

Quando surgiu o cristianismo, o laço matrimonial estava em perigo até dentro do judaísmo. Tão grande era o perigo que a própria instituição do casamento via-se ameaçada; os jovens judeus rechaçavam absolutamente o casamento pela posição insegura da mulher.

1 – O vínculo precioso — Efésios 5:22 – 33 — continuação.

A situação era pior dentro do mundo helênico (grego). A prostituição era uma parte essencial da vida grega. Demóstenes o deixou estampado como a regra de vida comum e aceita: — “Temos cortesãs por motivo de prazer; dispomos de concubinas por motivo da coabitação diária; temos esposas com o propósito de possuir filhos legítimos e uma guardiã fiel para todos os nossos assuntos domésticos”.

As mulheres das classes respeitáveis na Grécia levavam uma vida completamente à parte. Não tomavam parte na vida pública; nunca apareciam sozinhas nas ruas; nunca se apresentavam em comidas ou reuniões sociais; tinham suas próprias habitações às quais ninguém podia entrar senão apenas o marido. Como dizia Xenofonte, a finalidade era que “vissem tão pouco, ouvissem tão pouco e perguntassem tão pouco quanto fosse possível”. A mulher respeitável grega era educada de tal maneira que o companheirismo e a comunidade matrimonial lhe resultavam impossíveis. O homem encontrava o prazer e a amizade fora do casamento.

Sócrates dizia: — “Existe alguém a quem pode confiar assuntos mais sérios que sua mulher — e há alguém com quem se fala menos que com ela?”.

Vero, o colega imperial do grande Marco Aurélio, certa vez sua esposa o reprovou por associar-se com outras mulheres; respondeu-lhe que lembrasse que o nome de esposa era um título de dignidade, mas não de prazer. Todo o teor de vida grega fazia do companheirismo entre o homem e a mulher algo quase impossível. O grego esperava que sua mulher dirigisse sua casa e cuidasse de seus filhos legítimos; o prazer e a companhia os encontrava em alguma outra parte.

Pior ainda, na Grécia não existia um procedimento legal de divórcio. Como alguém o expressou, o divórcio era puramente um capricho. A única segurança que a mulher tinha era a reintegração de seu dote. Na Grécia o lar e a vida familiar estavam próximos da extinção, e a fidelidade era absolutamente inexistente.

2 – O vínculo precioso — Efésios 5:22 – 33 — continuação.

Nos dias de Paulo a situação em Roma era ainda pior. A degeneração de Roma era trágica. Nos primeiros cinco séculos da república romana não tinha havido um só caso de divórcio. O primeiro divórcio documentado foi o do Spurio Carvilio Ruga em 234 antes de Cristo. Mas no tempo de Paulo a vida familiar romana estava em ruínas. Sêneca escreve que “as mulheres se casavam para divorciar-se e se divorciavam para casar-se”. Os romanos ordinariamente não datavam os anos com números, mas com os nomes dos cônsules. Sêneca diz que as mulheres datavam seus anos com os nomes de seus maridos.

O poeta romano Marcial nos fala de uma mulher que teve dez maridos; Juvenal de uma que teve oito em cinco anos; Jerônimo confirma que em Roma vivia uma mulher casada com seu vigésimo terceiro marido do qual por sua vez ela era a vigésima primeira mulher. Até encontramos o imperador romano Augusto exigindo a um marido o divórcio de Lídia já grávida para poder casar-se com ela. O próprio Cícero de idade provecta (idosa) mandou embora a sua mulher Terencia para poder casar-se com uma jovem herdeira, cujo administrador legal era ele, e assim ter parte em sua fortuna a fim de poder resolver suas dívidas.

Isto não significa que não existisse a fidelidade. Suetônio nos fala de uma jovem romana chamada Malonia que se suicidou antes de resignar-se aos favores do imperador Tibério. Entretanto, não é exagerado afirmar que toda a atmosfera do mundo antigo respirava adultério. “A castidade era vítima da crescente luxúria da civilização”. O laço matrimonial estava a caminho da sua completa bancarrota.

Paulo escreve contra o pano de fundo desta situação. Quando escreveu esta muito formosa passagem não estava simplesmente expressando o ponto de vista dos homens. Estava chamando homens e mulheres a uma nova fidelidade, a uma nova pureza e a uma nova comunidade na vida matrimonial.

É um fato patente na história que ninguém no mundo, exceto dos meninos, como veremos, deve mais a Cristo que as mulheres. É impossível exagerar o efeito purificador do cristianismo no mundo antigo na vida familiar e ordinária de cada dia.

3 – O crescimento do pensamento paulino — Efésios 5:22 – 33 — continuação.

Justamente nesta passagem encontramos o verdadeiro pensamento de Paulo sobre o casamento. Há coisas que Paulo escreveu sobre o casamento e que nos deixam perplexos e desconsertados; coisas que honestamente desejaríamos que nunca as tivesse escrito. E por desgraça isto é o que se cita com frequência como o ponto de vista paulino sobre o casamento.

Um dos capítulos mais estranhos de Paulo é 1 Coríntios 7. Ali fala sobre o casamento e sobre as relações entre homens e mulheres. Segundo o ensino de Paulo nesse capítulo a verdade nua é que a única razão pela qual é permissível o casamento é para evitar algo pior. Escreve: — “Mas por causa da impureza, cada um tenha a sua própria esposa, e cada uma, o seu próprio marido” (1 Coríntios 7:2).

Permite que uma mulher cujo marido faleceu possa casar-se de novo; mas é melhor que ela fique solteira (1 Coríntios 7:39, 40). Prefere que não se casem os que não estão casados e as viúvas. “Caso, porém, não se dominem, que se casem; porque é melhor casar do que viver abrasado” (1 Coríntios 7:9). Para falar cruamente, o ensino estranho e ferino deste capítulo, é que o casamento é melhor que o adultério, mas que isso é tudo o que se pode dizer sobre ele.

Há uma razão para que Paulo escrevesse assim. Quando o apóstolo escreveu 1 Coríntios esperava cada dia e a cada hora a Segunda Vinda de Jesus; por esta razão estava convencido de que ninguém, homem ou mulher, devia submeter-se a nenhum tipo de laço terrestre, mas sim concentrar-se totalmente no uso do breve tempo que restava como preparação para a vinda do Senhor. “O solteiro cuida das coisas do Senhor, em como há de agradar ao Senhor; mas o que é casado cuida das coisas do mundo, em como há de agradar à mulher” (1 Coríntios 7:32, 33). Quando escreveu 1 Coríntios 7, Paulo estava insistindo em realidade em que o homem devia amar mais a Jesus que ao pai ou mãe ou esposa ou filho; em que a lealdade a Jesus devia ter precedência sobre as mais caras lealdades da Terra. E procedia assim porque pensava que a Segunda Vinda de Cristo teria lugar em qualquer momento.

Mas entre 1 Coríntios e Efésios há um espaço talvez de nove anos. Nestes nove anos Paulo se precaveu de que a Segunda Vinda não era tão iminente como cria; que de fato a comunidade cristã não vivia a situação temporária do fim do mundo, mas sim uma situação mais ou menos permanente. Em Efésios encontramos o verdadeiro ensino de Paulo sobre o casamento: — “o casamento cristão é a relação mais preciosa da vida; seu único paralelo é a relação entre Cristo e a Igreja”.

Para ser justos com Paulo devemos tirar sua doutrina sobre o casamento deste capítulo e não da mais primitiva carta aos Coríntios. Em 1 Coríntios 7 há prescrições para uma situação de crise e emergência numa época em que Paulo estava convencido do iminente fim do mundo. Efésios nos dá a doutrina de Paulo sobre o casamento como parte da situação permanente da vida cristã.

Ainda é possível que a passagem de Coríntios esteja colorida por uma experiência pessoal do apóstolo. Parece que em seus dias de judeu ciumento era membro do Sinédrio; quando narra sua conduta para com os cristãos diz: — “contra estes dava o meu voto” (Atos 26:10).

Agora, ao que parece uma das condições para ser membro do Sinédrio era o casamento; por isso Paulo devia ser casado. Mas nunca menciona a sua esposa. Por que?

Bem pode ser que sua esposa o tivesse abandonado quando se tornou cristão, voltando-se contra ele. Pode ser que quando Paulo escreveu 1 Coríntios falasse de uma situação em que não só esperava o advento imediato de Cristo, mas também em que encontrava em seu próprio casamento um dos problemas maiores e um dos sofrimentos mais penosos.

Nessas circunstâncias do mundo, como ele as via, e de um casamento, que vivia em carne própria, teria concebido o casamento como um estorvo para o cristão. Mas com o correr dos anos caiu na conta de que a relação matrimonial se assemelhava nada menos que à relação entre Cristo e a Igreja — mas, tudo isto, é tão–somente especulativo. 

4 – O fundamento do amor — Efésios 5:22 – 33 — continuação.

Algumas vezes se descarta por completo a ênfase desta passagem. É lida como se a essência da mesma estivesse na subordinação da mulher ao marido. A frase “o marido é cabeça da mulher”, cita-se isoladamente. Mas há muito mais. O fundamento de toda esta passagem não é o controle, mas sim o amor. Paulo refere-se ao amor que o marido deve ter para com sua mulher.

[1] – Deve ser um amor sacrifical.

Deve amar a sua mulher como Cristo amou a Igreja e deu-se a si mesmo por ela. Nunca deve ser um amor egoísta. Cristo não amou a Igreja para que a Igreja fizesse algo por Ele, senão para Ele fazer coisas por ela. Crisóstomo se espraiou admiravelmente nesta passagem: — “Viu a medida da obediência? Escuta também a medida do amor. Quer que sua mulher lhe obedeça como a Igreja obedece a Cristo? Preocupe-se por ela assim como Cristo se preocupou com a Igreja. E se for necessário que deva entregar sua vida por ela ou ser despedaçado, ou suportar o que for, não fuja disso […] Cristo levou a Igreja a seus pés por sua grande solicitude, não pelas ameaças, o temor ou coisa que o valha; esta mesma deve ser sua conduta com respeito a sua mulher”.

O marido é cabeça da mulher — é verdade que Paulo afirmou isto. Mas o apóstolo diz também que o marido deve amar a sua mulher como Cristo amou a Igreja, com um amor que jamais recorre à tirania do controle, mas sim está disposto a qualquer sacrifício por seu bem.

[2] – Tem que ser um amor purificador.

Cristo purificou e consagrou a Igreja pelo lavar da água, no dia em que cada membro fez sua profissão de fé. Pode ser que aqui Paulo tenha em mente um costume grego. Um dos costumes nupciais gregos era que a esposa antes de ser conduzida ao altar devia banhar-se nas águas de um rio consagrado a um deus ou a uma deusa.

Em Atenas, por exemplo, banhava-se nas águas do Calírroe consagrado à deusa Atenas para que as águas sagradas a purificassem de toda impureza — Paulo pensa no batismo — Pela lavagem do batismo e a profissão da fé Cristo faz com que a Igreja seja para Ele limpa, pura e consagrada, de tal maneira que não se encontre nela nenhum lugar sujo nem ruga que a desfigure.

“Todo amor que arrasta a uma pessoa para baixo é um amor falso. Todo amor que em lugar de refinar o caráter o torna mais grosseiro, que necessita do engano que debilita a fibra moral, que torna má uma pessoa, não é amor. O amor verdadeiro é o grande purificador e limpador da vida toda”.

[3] – Deve ser um amor solícito.

Um homem deve amar a sua mulher como ama a seu próprio corpo. No dizer de Paulo, como nutre e cuida de seu corpo, o amor cuida da pessoa amada. Não ama para procurar serviço nem para assegurar a atenção de sua comodidade física. Não ama por própria conveniência, mas sim cuida da pessoa amada.

Há algo que não está em ordem quando um homem olha a sua mulher consciente ou inconscientemente, como a que deve preparar a comida, lavar a roupa, limpar a casa e educar os filhos. Não deve ser tida como um tipo de diarista permanente, mas sim como a pessoa com quem alguém tem o dever de brindar-se.

[4] – É um amor inquebrantável.

Por este amor o homem deixa pai e mãe e se adere à sua mulher — Tornam-se uma carne — Une-se a ela como os membros do corpo estão unidos entre si. Não pensa em separar-se dela, o qual equivaleria a rasgar seu próprio corpo. De fato, estamos aqui perante um ideal que contrasta com uma época em que homens e mulheres mudavam de consorte com a facilidade com que mudavam a roupa.

[5] – Esta é uma relação como diz Paulo, no Senhor.

Vive-se na presença do Senhor, em sua atmosfera; cada iniciativa é dirigida pelo Senhor; cada decisão é tomada no Senhor. No lar cristão Jesus é o hóspede que sempre se tem presente ainda que esteja em forma invisível. No casamento cristão não participam dois, mas sim três e o terceiro é Cristo.

Paz e graça.

[1] Comentário de Efésios por William Barclay, p. 119 – 128, Tradução: Carlos Biagini, Título original em inglês: The Letter to the Ephesians.

[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.

O EVANGELHO DE JOÃO — DEUS COMO ESPÍRITO SANTO

A MULTIFORME SABEDORIA DE DEUS E O PRINCÍPIO REGULADOR DO CULTO

“[…] para que agora a multiforme sabedoria de Deus, por meio da Igreja, fosse conhecida aos principados e potestades nas regiões celestes, segundo o propósito dos séculos, que Ele fez em Cristo Jesus nosso Senhor […]” (Efésios 3:10, 11).

Mas, o que esta passagem de Efésios 3, tem a ver com o Princípio Regulador do Culto? Bem, poucas pessoas se utilizam desta passagem para afirmarem que Deus por meio da “multiforme sabedoria da Igreja”, estabelece muitas formas de culto aceitáveis, e que por isso, não é um pecado termos formas variadas de culto — de serviço sagrado prestado ao SENHOR em profundo devotamento e piedade. Iremos ver neste artigo, o que realmente este texto de Efésios 3 ensina a Igreja que estar “em Cristo” em obediência voluntária.

Aqui, o eterno propósito é o mesmo do capítulo 1:9 – 11. O texto se eleva quando o Apóstolo Paulo cita a intenção de Deus de apresentar a Igreja perante todos os poderes do mal como seu instrumento para dispensar por toda a terra o que Ele já “fez ‘em Cristo Jesus’, nosso Senhor” — isto é, o que fez através da morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo.

A palavra “multiforme”, do grego, “polupoikilos”, retrata a sabedoria de Deus como muito variada, com muitas gradações, tonalidades, matizes e expressões coloridas, como é–nos revelado em Hebreus 1:1 – 3: — “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e ‘de muitas maneiras’, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho […]”. Como um Deus de variedade, Ele ainda está entrando na área humana apresentando uma sabedoria multiforme, multicolorida e diversificada para seu povo e através do seu povo. Pode ser que, à vista disso, e significância, atualmente, pessoas estejam tergiversando esta passagem para ratificar, autorizar e homologar, elementos que são sui generis[1] à Escritura — e, que corrompem, apodrecem e decompõem o culto ao SENHOR. Mas, de fato, este texto não se ocupa em absoluto de generalidades ou princípios cúlticos. O Apóstolo Paulo reflete sobre sua missão de ajudar os judeus e gentios crentes a se aceitarem como parceiros no Pacto de Deus sobre a salvação. Este mistério era especialmente desconhecido para a mente judaica do Antigo Testamento, não sendo compreendido por judeus ou gentios até Jesus chegar — compare 1:17 (“revelação”) com 1:9 (“mistério). Devido à natureza humana que é pecaminosa, o povo pactual de Deus não raro se desvia da verdade; é comum o homem perverter a verdadeira religião ao eliminar elementos considerados “desagradáveis” (ele também a corrompe pela adição de idéias próprias), esta tendência de deturpar a verdadeira religião, mediante adição ou subtração, constitui a razão de Deus ter advertido Israel de nada acrescentar ou retirar de sua Palavra: — “Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino, para os cumprirdes; para que vivais, e entreis, e possuais a terra que o Senhor Deus de vossos pais vos dá. Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando” (Deuteronômio 4:1, 2; cf. Deuteronômio 12:30 – 32). Identicamente, repete-se Mateus 15:9 — “E em vão me adoram”. As palavras do Profeta ocorrem, portanto, literalmente: ― “seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens”. Mas, Jesus Cristo deu, fiel e exatamente, o sentido de “em vão é Deus adorado”, quando a doutrina é substituída pela vontade do homem, pela adição da própria vontade humana a mandamentos de Deus. Por essas palavras, todos os tipos de pretensa religiosidade, como Paulo a denomina, são claramente condenadas em Colossenses 2:23: — “Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne[2]; é inconcebível que ditos “ministros” deturpem o sentido, forcem puramente por idéias particulares, violentem a inspiração por sugestões de Satanás e, no fim, pervertam a Palavra, para estes ministros, Tiago escreveu: — “[…] muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos um juízo mais severo” (Tiago 3:1). Relativamente, ao texto de Efésios 3, Matthew Henry, exprime-se e esclarece o sentido textual: — “Aqueles a quem Deus promove a cargos de honra, faz com que sintam-se baixos diante de seus próprios olhos; aonde Deus dá graça para que sejamos humildes, aí concede toda a graça que seja necessária; quão alto o Apóstolo fala de Jesus Cristo, das inescrutáveis riquezas de Cristo! Ainda que muitos não sejam enriquecidos com estas maravilhosas riquezas, de todo modo, que favor tão grande é que alguém as pregue para nós, e que estas nos sejam oferecidas — se não somos enriquecidos com estas, é nossa própria culpa. A primeira criação, quando Deus fez todas as coisas a partir do nada, e a nova criação, pela qual os pecadores são transformados em novas criaturas pela graça que converte, são de Deus por meio de Jesus Cristo. As suas riquezas são tão inescrutáveis e tão seguras quanto sempre foram, mesmo que enquanto os anjos adoram a Deus por sua sabedoria pela redenção de sua Igreja, a ignorância dos homens carnais, que se julgam sábios a seus próprios olhos, condena a tudo como se fossem coisas néscias, estultas, estúpidas e apalermadas (imbecis)”. Efésios 3:10 deve-se entender conforme o contexto de 1 Pedro 1:12 (passagem correspondente ao assunto); ou seja, embora, os profetas do Antigo Testamento tivessem uma visão incompleta, fragmentária do acontecimento de Cristo, eles profetizavam através do Espírito Santo a salvação que os cristãos agora têm e experimentarão (comparar 1 Pedro 1:5 – 9 com Efésios 1:9, 10, 11, 17). A correlação e equiparação desses textos assume que o Antigo Testamento pode ser totalmente compreendido levando em consideração o Novo Testamento. Por exemplo, o autor de Hebreus (1:1 – 3) prefere começar comparando Jesus com os profetas, porque sempre se creu que estes estavam no segredo de Deus. Muito tempo antes Amós havia dito: — “O SENHOR Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas” (Amós 3:7). Filo diz que: — “Os profetas são intérpretes do Deus que os usa como instrumentos para revelar aos homens o que [Deus] quer”. Há quem pense ser um absurdo concluir que essa é uma referência aos anjos, visto que tal ignorância não pertence àqueles a quem é permitido contemplar o esplendor do semblante de Deus. Preferem, ao contrário, que a referência recaia sobre os demônios, porém precipitadamente; pois, que coisa haveria de espantoso na declaração do Apóstolo a respeito do Evangelho ou da vocação dos gentios, caso ele dissesse que primeiro o fez notório aos demônios? No entanto, procede o fato de que ele labuta com o fim de magnificar, o quanto possível, a misericórdia de Deus em favor dos gentios, bem como a importância do Evangelho. E para fazer isso ele declara que na proclamação do Evangelho se faz manifesta a “multiforme” graça de Deus, a qual jamais se fez conhecida mesmo dos anjos celestiais. Daí segue-se que a sabedoria de Deus, manifestou-se unindo judeus e gentios na participação da salvação (cf. Efésios 2:14 – 16), seria mais que maravilha aos olhos dos homens. Ele chama, “πολυποίκιλος”, visto que os homens estão habituados a medi-la erroneamente por meio de uma só idéia particular, ignorando o todo e as partes individualmente. Os judeus, por exemplo, imaginavam que a sabedoria de Deus estivesse limitada à dispensação sob o regime da Lei, com a qual estavam familiarizados e na qual foram instruídos. Ao proclamar o Evangelho a todos os homens, porém, e isso indistintamente, Deus produziu outro exemplo e indício de sua sabedoria. Não que fosse ela uma “nova[3]” sabedoria, mas que era mais plena e multiforme do que nossa tacanha capacidade poderia discernir. Saibamos, pois, que o conhecimento, seja ele qual for, que tenhamos adquirido, não passa de uma ínfima porção. E se a vocação dos gentios é conhecida e reverenciada pelos anjos celestiais, quão vergonhoso seria caso fosse a mesma rejeitada ou menosprezada pelos homens sobre a terra! A inferência que alguns extraem desse fato, isto é, de que os anjos se encontraram presentes em nossas assembléias e progridem juntamente conosco, não passa de especulação infundada. Devemos ter sempre em vista os propósitos para os quais Deus designou o ministério de sua Palavra. Se os anjos, que desfrutam da visão divina, não andam mediante a fé, tampouco necessitam eles da administração externa da Palavra. A pregação, pois, atende apenas a carência dos homens caídos, tão–somente entre os quais é ela utilizada. As palavras de Paulo significam que a Igreja, a colheita de judeus e de gentios igualmente, é um espelho no qual os anjos contemplam a portentosa, formidável e magnificente sabedoria de Deus, a qual anteriormente não conheciam. Contemplam uma obra totalmente nova para eles, cuja forma estava oculta em Deus. Dessa forma, e não por aprenderem tudo dos lábios dos homens, eles progridem[4]“[…] nas regiões celestes” — é a quarta ocorrência da frase na epístola. Outra indicação de que os seres celestiais estão observando a Igreja e vendo na Igreja o desdobrar da sabedoria de Deus — “a multiforme sabedoria de Deus”. Ambos, anjos bons e maus, estão evidentemente admirados com a operação de Deus quando Ele redime homens e mulheres[5].

Ainda devemos notar algumas outras coisas nesta passagem, de Efésios 3, a partir dos versículos 8 a 13.

[1] – Paulo nos lembra que a reunião de todos os homens de todas as nações é parte do propósito e desígnio eternos de Deus. Isto é algo que se deve ter bem em mente. Algumas vezes a história do Cristianismo se apresenta de tal maneira como se o Evangelho tivesse passado aos gentios só porque os judeus não o receberam. Mas, aqui, Paulo nos lembra que a salvação dos gentios (nossa própria salvação), não é uma ocorrência tardia de Deus; não é algo que Deus aceitou como um bem secundário porque os judeus rechaçaram sua mensagem e convite. O atrair a todos os homens a seu amor eterno era, igualmente, parte do desígnio eterno de Deus.

[2] – Paulo usa aqui uma palavra importante para descrever a graça de Deus. Chama-a “polupoikilos”; como já mencionado, quer dizer, “multicolor”. A idéia é que a graça de Deus está à altura de qualquer situação que nos brinde [regale] a vida. Não há luz ou trevas, brilho de Sol ou sombra, para os quais esta graça de Deus não seja triunfalmente adaptada.

[3] – Novamente, Paulo volta a um de seus pensamentos favoritos. Em Jesus Cristo temos livre acesso a Deus. Às vezes ocorre que algum amigo nosso está em relação com certa personalidade de muita categoria. Jamais teríamos tido por nós mesmos o direito de nos apresentar perante tal personalidade. Mas nosso amigo nos leva consigo e por estar com ele desfrutamos do direito de entrada. Isto é o que Cristo faz por nós com respeito a reconciliação com Deus. Em sua presença e companhia há uma porta aberta à presença de Deus que ninguém pode fechar (1 Timóteo 2:3 – 6).

[4] – Paulo termina com uma oração para que seus amigos não se desanimem por seu encarceramento. Talvez pensassem que a pregação do Evangelho entre os gentios poderia ficar em grande maneira impedida pela prisão do paladino dos gentios. Pode ser que se sentissem atemorizados em face da possibilidade de que um destino semelhante caísse sobre eles. O Apóstolo Paulo lhes lembra que as aflições que aguenta são pela glória e o bem deles mesmos. Não devem temer jamais que a causa de Deus se prejudique por sua prisão. “A causa de Deus é superior a qualquer homem e mais poderosa que quaisquer circunstâncias”. Da maneira que explicamos a passagem de Efésios 3, corretamente dentro de seu contexto e das regras fidedignas de interpretação das Escrituras, podemos concluir que a passagem reportada para corroborar com a adição de manifestações grotescas ao culto a Deus, não passa de deturpação da própria Palavra.

Em nada, o Apóstolo Paulo devota-se ou ocupa-se a respeito do culto ao SENHOR nessa passagem, mas, apenas é–nos revelado do “concerto de Deus sobre a salvação, em relação a judeus e gentios, diante dos principados e potestades nos céus”.

O Princípio Regulador do Culto.

A síntese é que o culto a Deus, a verdadeira piedade, e a santidade dos cristãos não consistem de “bebida, comida e vestes”, que são coisas transitórias, passíveis de corrupção e perecem pelo abuso, mas, em tudo que Deus ordenou, segundo a sua boa, perfeita e agradável vontade. Veja quais são os elementos divinamente ordenados e circunstanciais.

Ordenanças referente ao culto versus circunstâncias:
Elementos ordenados. Elementos circunstanciais.
 

Pregação a partir das Escrituras Sagradas (Mateus 26:13; Marcos 16:15; Atos 9:20; 2 Timóteo 4:2; Atos 20:8; 17:10; 1 Coríntios 14:28).

 

 

Estrutura para o culto da Igreja (Atos 20:8; 17:10; 1 Coríntios 14:28).

 

Leitura da palavra de Deus (Marcos 4:16 – 20; Atos 13:15; 1 Timóteo 4:13; Apocalipse 1:13; Atos 1:13; 16:13; 1 Coríntios 11:20).

 

 

Local do culto da Igreja (Atos 1:13; 16:13. 1 Coríntios 11:20).

 

Culto no Dia do Senhor (Atos 20:7; 1 Coríntios 16:2; Apocalipse 1:10; Atos 20:7; 1 Coríntios 11:28).

 

 

Horário do culto da Igreja (Atos 20:7; 1 Coríntios 11:28).

 

Administração dos Sacramentos (Mateus 28:19; 1 Coríntios 11:24, 25).

 

 

Roupas para o culto (1 Coríntios 11:13 – 15; Deuteronômio 22:5).

 

Audição da palavra de Deus (Lucas 2:46; Atos 8:31; Romanos 10:41; Tiago 1:22).

 

 

Tipo de assento provido para o culto da Igreja (Lucas 4:20; Atos 20:9).

 

Oração a Deus (Deuteronômio 6:9; 1 Tessalonicenses 5:17; Hebreus 13:18; Filipenses 4:6; Tiago 1:5; 1 Coríntios 11:13 – 15; Deuteronômio 22:5).

 

 

Canto de Salmos (1 Crônicas 16:9; Salmos 95:1, 2; 105:2; 1 Coríntios 14:26; Efésios 5:19; Colossenses 3:16).

 

Não sobrecarregar as consciências com novas observâncias, nem contaminar o culto a Deus com as nossas próprias invenções, essas coisas consistem em nossas obras laboriosas de santidade e fidelidade. Quando supomos poder servir a Deus ao nosso próprio modo, Ele o repudia como corrupção. O Princípio Regulador do Culto nos protege desta corrupção. “Idolatria é tanto o culto a um falso deus quanto o culto falso ao verdadeiro Deus”. A idolatria começa quando o homem coloca um elemento no culto que não foi ordenado por Deus. A idolatria é uma violação do Primeiro ou do Segundo dos Dez Mandamentos.

Por exemplo, às vezes há muita coisa podre e fria na música tradicional, e muita coisa carnal nas modernas canções de “louvor”. Isto não pode ser aceito como adoração pela Igreja. O Princípio Regulador do Culto, que encontramos claramente na Escritura, não deve ser abandonado, pois, nós mesmos e a cultura contemporânea, somos muito mais fascinados e atraídos pelo entretenimento do que pela adoração ordenada por Deus.

Os primeiros cristãos da Igreja primitiva, bem como, os reformados e puritanos, tinham o mesmo alvo: — “O culto aceitável a Cristo”. Hoje, os crentes têm o mesmo alvo: — “O culto aceitável ao homem”. O culto aceitável a Deus, implica existir um modo inaceitável de adorar a Deus. Ou melhor dizendo, somente o culto ordenado é aceitável — o culto foi instituído e regulado por Deus pelas Escrituras, que é limitado por aquilo que Ele mesmo revelou a respeito da sua santa e perfeita vontade —, não a mínima vontade do homem.

O culto em que o homem procura fabricar, inventar, acrescentar, retirar e impressionar, distorcendo a Escritura, ou aquilo que ele pode ser tentado a fazer por ouvir o diabo, não é adoração aceitável a Deus, é idolatria, vaidade e imaginações sugeridas pelo próprio diabo, e, portanto, abominado por Deus. Deve ser totalmente desprezado e condenado. Um cristão não permitiria, em boa consciência, que o homem pecador determinasse o culto, e por que meios eles mesmos se aproximariam de Deus, a Escritura, somente, deve guiar todo culto a Deus. Não é possível que qualquer cristão saudável imagine estar tão acima do pecado, que se ache capaz de mostrar para Deus a maneira aceitável, pela qual se aproximaria dEle no culto. Somente Deus, que é santo e puro, pode determinar, por si mesmo, por sua vontade, a maneira pela qual os cristãos podem aproximar-se dEle — não pense que é à sua maneira, por que não o é. Sujeite-se a vontade de Deus. Quão arrogantes e podres são os homens ao se imaginarem no direito de determinar o culto a Deus — numa pequena parte que seja —, como Deus será adorado. “A idolatria é tanto o culto a um falso deus quanto o culto falso ao verdadeiro Deus (não esqueçamos disso); se é o homem quem determina, logo, é um ídolo a ser derrubado. Introduzir práticas não bíblicas, não ordenadas, tende, inevitavelmente, a anular e menosprezar o culto designado por Deus, por deliberada desobediência. Subentende-se que o homem quer colocar-se “acima” de Deus — e já vimos na Escritura o que acontece quando homens fazem o que Deus não ordenou; Nadabe e Abiú são exemplos, que não devemos seguir (cf. Levítico 10:1, 2).

A negação do Princípio Regulador, foi praticado pelo rei Acaz, ele constrói um novo altar e substitui o anterior (de bronze) como o local onde os sacrifícios regulares seriam oferecidos. Mas o altar (de bronze) designado por Deus não seria destruído — é claro que não! Seria apenas colocado num “canto”, seria desprezado. É exatamente assim que os homens fazem quando negam o Princípio Regulador do Culto, desprezam os elementos ordenados por Deus.

Imaginem se Nadabe e Abiú pudessem visitar Igrejas contemporâneas, eles lamentariam amargamente ao reconhecer que o seu pecado — de oferecer “fogo estranho” —, ainda é praticado com grande tolerância e aceitação por muitos crentes. Ministrações de coaches, regadas a “adoração” funkeira, teatros sensuais, melopeia pagã e sincrética de Natal, Rock and Roll, sertanejo e pagode gospel, enfim, músicas não ordenadas (não–inspiradas) das mais variadas, unidas à pirotecnia e instrumentos musicais (que outrora, outrossim, os “órgãos de Paulos e Pedros” foram derrubados como elementos idólatras), etc., são oferecidos ao SENHOR; bem, tudo isso precisa ser novamente derribado e tombado, e muitas outras coisas que são tolerados na Igreja, como a corrupção do texto acima exposado (Efésios 3), para legitimar práticas que nascem da corrupção humana ou da sugestão de Satanás.

Os Padrões de Westminster — Idolatria e Instrumentos.

Uma carta dos ministros e presbíteros escoceses que eram delegados na Assembléia de Westminster à Assembléia Geral da Escócia (1644). Nela se lê: ― “Só podemos nos maravilhar com a boa mão de Deus nas grandes coisas já realizadas até aqui, particularmente: — que o Pacto (a base de toda a obra) foi aceito; que a liderança eclesiástica e todo o [seu] séquito foi, por causa disso, extirpado; o Livro de Oração, esquecido em muitas localidades, a pregação plena e poderosa estabelecida; muitas faculdades de Cambridge supridas com ministros zelosos da melhor Reforma; altares removidos; os grande órgãos de Paulos e Pedros em Westminster foram derrubados; imagens e muitos outros monumentos de idolatria destruídos e abolidos”.

A Assembléia Geral escocesa respondeu à correspondência dos comissionados com uma carta oficial à Igreja da Inglaterra, onde se lê: ― “Fomos grandemente reconfortados ao tomar conhecimento pelas cartas dos nossos comissários que estão convosco […] das grandes e boas coisas que o Senhor tem operado entre vós e em vosso favor […]; a remoção de muitas corrupções como altares, imagens, e outros monumentos de idolatria e superstição […] a derrubada dos grandes órgãos em Paulos e Pedros[6].

O não uso de instrumentos musicais no culto era a norma entre puritanos e presbiterianos e a posição principal dos teólogos de Westminster. Os presbiterianos começaram a abandonar essa posição na década de 1880 — e todos seguiram a essa trágica decisão. Será que a rejeição desses instrumentos no culto era apenas a opinião de alguns puritanos que extrapolaram o consenso da Assembléia? Não, absolutamente não! Assim também, devemos ser — como Igreja —, radicais para homens, obedientes para Deus.

Que o Deus a ser adorado abra os olhos daqueles que necessitam vê.

Paz e graça.

[1] De seu próprio gênero, ou seja, “único em seu gênero”. Usa-se como adjetivo para indicar que algo é único, peculiar, incomum, descomunal, particular, algo que não tem correspondência igual ou mesmo semelhante: — uma atividade sui generis, uma proposta sui generis, um comportamento sui generis.

[2] Versão NVI — Nova Versão Internacional.

[3] A não ser, que entendamos, que a palavra “nova” traz o mesmo sentido da aplicação do Novo Testamento; sentido de aprofundamento, em que a instrução se torna plenamente revelada para nós, causando uma clara compreensão por meio de uma explicação, igualmente, penetrante. Por vezes, Jesus Cristo, utiliza algum arquétipo de exemplificação, compare Mateus 22:39 com João 13:14, a respeito do amor ao próximo. Jesus se coloca como exemplo (ou padrão) de como devemos amar ao próximo. Não se trata de um mandamento “novo”, mas da correta compreensão acerca de como devemos amar ao próximo. O que consequentemente, nos leva a um aprofundamento no que se refere ao entendimento desta doutrina de amar ao próximo como a nós mesmos.

[4] CALVINO, João, Comentário sobre Efésios, Edições Paracletos, São Paulo, p. 48 – 49.

[5] Comentário Bíblico Moody, Efésios, p. 20.

[6] Sola Scriptura and the Regulative Principle of Worship de Brian M. Schwertley, p. 112 – 113.