INCONSISTÊNCIAS PROTESTANTES — PARTE 2

INCONSISTÊNCIAS PROTESTANTES — PARTE 2

2 – O Luteranismo. 

As Igrejas luteranas também se apartaram do Sola Scriptura na compreensão e regulamentação do culto público. Lê-se na Confissão de Augsburgo (1530): — “E para [alcançar] a verdadeira unidade da Igreja é bastante que se concorde quanto à doutrina do Evangelho e a administração dos sacramentos. Nem é necessário que as tradições humanas, rituais, ou cerimônias instituídas pelos homens devam ser iguais em toda parte, como disse São Paulo: — uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos” (Artigo 7, Da Igreja).

Quanto aos rituais eclesiásticos (criados pelos homens), eles ensinam que aqueles rituais devem ser obedecidos e observados sem pecado, e que são proveitosos para a tranquilidade e boa ordem na Igreja; assim como são determinados dias santos, festivais e coisas semelhantes. Mas quanto a isso, deve-se admoestar aos homens que não devem ter as consciências pesadas como se tais serviços fossem necessários à salvação. Ensina-se, ademais, que todas as ordenanças e tradições feitas pelo homem com o propósito de por elas reconciliar-se a Deus e merecer graça são contrárias ao Evangelho e à doutrina da fé em Cristo. Portanto votos e tradições quanto a comidas e dias e coisas semelhantemente instituídas para merecer graça e reparação pelo pecado são inúteis e contrárias ao Evangelho (Artigo 15, Dos Rituais Eclesiásticos).

Na Fórmula de Concórdia (1576 [1584]), Artigo 10, Das Cerimônias Eclesiásticas, lê-se: — (As quais são comumente chamadas de adiafóricas, ou coisas indiferentes). Surgiu também entre os teólogos da Confissão de Augsburgo uma controvérsia quanto às cerimônias eclesiásticas ou rituais que não são ordenados nem proibidos na Palavra de Deus, mas que foram introduzidos na Igreja meramente por causa da ordem e da decência (sã doutrina e confissão referente a este artigo).

I – Para melhor desembaraço dessa controvérsia nós cremos, ensinamos e confessamos, com unânime consentimento, que cerimônias ou rituais eclesiásticos (que não são ordenados nem proibidos na Palavra de Deus, mas foram instituídos apenas por motivos de ordem e decência) não são em si mesmos, culto divino, nem sequer fazem parte dele. Pois está escrito, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens (Mateus 15:9).

II – Nós cremos, ensinamos e confessamos que é permito à Igreja de Deus em qualquer parte da terra, a qualquer tempo, consoante a ocasião, modificar tais cerimônias, de modo que sejam julgadas mais úteis para a Igreja de Deus e mais apropriadas à sua edificação […].

V – Nós cremos, ensinamos e confessamos que uma Igreja não deve condenar outra por ela observar em maior ou menor grau as cerimônias externas, as quais o Senhor não instituiu, desde que haja entre elas concordância quanto à doutrina e a todos os artigos concernentes, e no verdadeiro uso dos sacramentos.

Nós repudiamos e condenamos como antagônicos à Palavra de Deus os seguintes falsos dogmas: — [1] – Que as tradições e preceitos humanos de coisas eclesiásticas devem, por si mesmos, ser considerados como culto divino ou pelo menos como parte do culto divino. [2] – Quando cerimônias e preceitos desse tipo são, por algum tipo de coerção, impostos à Igreja como necessários, sendo isso contrário à liberdade cristã que a Igreja de Cristo tem em assuntos externos dessa natureza.

A posição luterana confessional sobre o culto é basicamente a de que os homens podem fazer acréscimos ao culto a Deus conforme lhes for conveniente, uma vez que os acréscimos humanos não são considerados como parte do culto. É permitido à Igreja acrescentar rituais e cerimônias uma vez que não sejam condenados pela palavra e sejam considerados proveitosos. Entretanto, as tradições humanas que são acrescentadas não são em si mesmas, culto divino, nem sequer fazem parte dele. De acordo com os teólogos luteranos, os rituais e cerimônias criados pelos homens são meramente matérias externas e não verdadeiramente culto; podem ser acrescentados e retirados à vontade; e não podem ser impostos como compulsórios ao laicato.

O entendimento luterano sobre o culto foi desenvolvido cedo na Reforma e era dirigido primariamente contra Roma. Para Lutero e Melanchthon o maior problema com os ritos e cerimônias papais é que eram compulsórios e considerados necessários à salvação. Lutero escreveu: — Sobre esta mesma base frágil os romanistas atribuíram ao sacramento da ordenação um certo caráter fictício, do qual se diz estar indelevelmente impresso em um ordenando. Eu perguntaria donde surgiram tais idéias, com a autoridade de quem e com que propósito foram estabelecidas? Não é que não queiramos que os romanistas sejam livres para inventar, dizer ou asseverar o que bem quiserem. Mas nós também insistimos na nossa própria liberdade, para que eles não se arroguem o direito de criar artigos de fé da sua própria cabeça, como até agora têm se atrevido a fazer. É suficiente que, por causa da concórdia, devemos nos acomodar às suas cerimônias e idiossincrasias, mas recusamo-nos a ser forçados a aceitá-las como necessárias à salvação, porque que elas não o são. Retirem eles o item de obrigatoriedade de suas demandas arbitrárias, que concederemos livre obediência aos seus desejos para que possamos viver em paz uns para com os outros. Porque é indigno, iníquo, e servil para um homem cristão, em sua liberdade, ser submetido a qualquer regra exceto à celestial e divina.

Em sua Apologia, Melanchthon escreve: ― Pois a Escritura chama as tradições de doutrinas de demônios, ao passo que ensina que os ritos religiosos são úteis para merecer remissão de pecados e graça. Se os adversários defendem esses atos humanos como merecedores de justificação, de graça e de remissão de pecados, eles estabelecem definitiva e completamente o reino do Anticristo. Daniel indica que novos cultos humanos serão a própria forma e preceito do Anticristo.

As principais diferenças entre o culto reformado e o luterano resultam das diferentes perspectivas teológicas de Lutero e Calvino. Pode-se dizer que Lutero, quanto à prática da Igreja, era bem conservador. Para ele, a justificação pela fé era a doutrina maior sob a qual praticamente todos os outros ensinamentos tinham de ser considerados para serem entendidos. Era a doutrina principal pela qual a Igreja se mantinha de pé ou caía. Por isso, quando Lutero aplicou-se à reforma do estilo de culto medieval, ao qual estava acostumado, ele usou um bisturi e não um machado. Embora Lutero fosse um ardente defensor do Sola Scriptura, ele nunca fez a conexão entre a Escritura somente e a necessidade da sanção divina para as ordenanças do culto, como fez Calvino. Quando Lutero olhava a prática do culto, a sua principal preocupação era: — Será que esta prática é motivada por uma crença na justificação pelas obras? Será que este ritual ou prática deprecia de algum modo o perfeito, todo–suficiente sacrifício de Jesus Cristo? Com esse critério, Lutero eliminou muitos abusos (exempli grata – por exemplo [e.g.], a missa católico–romana, as peregrinações, a mediação dos santos, a hierarquia clerical, etc.). Lutero ensinava também que qualquer prática de culto que contradissesse o claro ensinamento da Escritura deveria ser evitada. Por isso, o culto da Igreja deveria ser inteligível para o povo. Deveria ser conduzido em sua própria língua. A Comunhão deveria ser servida em ambos os elementos — o pão e o vinho. A pregação deveria ser enfatizada para que o rebanho recebesse instrução e edificação em vez de inútil algaravia[2] em latim. Um outro importante aspecto em Lutero era a liberdade cristã. As tradições humanas no culto eram adiafóricas (indiferentes) e não deveriam ser impostas às pessoas. Tal coerção cheirava a catolicismo e mercadejar de méritos.

Lutero tinha uma visão favorável das tradições da Igreja. As tradições humanas na Igreja deveriam ser respeitadas e consideradas valiosas desde que não contradissessem a Escritura. Esta visão das tradições é notada na doutrina das ordens de Lutero. Escreve Davies: — A implicação desta doutrina era que Deus havia ordenado o mundo de tal modo que o homem não deveria viver como um mero indivíduo isolado da sociedade, mas como um ser que compartilha certos relacionamentos comunais. Tais comunidades ordenadas por Deus são a Igreja e o Estado. Desde que elas dependem do divino assentimento para a sua continuidade, os homens deveriam respeitá-las. Devem, portanto, ser obedecidas, exceto quando contradizem definitivamente a vontade revelada de Deus. Essa doutrina concede à tradição um valor excessivo e como tal deve ser considerada como a base religiosa do conservadorismo de Lutero. Ajuda também a explicar porque os bispos têm um papel tão importante na decisão de quais reformas litúrgicas são desejáveis. Teoricamente Lutero deixa a escolha de aceitar ou rejeitar as suas reformas litúrgicas aos cristãos das Igrejas locais, mas na prática a decisão foi deixada a critério do bispo.

A confissão luterana reflete fielmente o ensino de Lutero quanto às cerimônias humanas. As tradições da Igreja (isto é, rituais humanamente imaginados e cerimônias não ordenadas na Escritura) são permitidas se: — [1] – Elas não tiverem tendências católicas (isto é, nenhum mérito humano está ligado à cerimônia), [2] – As cerimônias não violarem o ensinamento das escrituras, [3] – Elas não forem superestimadas a ponto de os crentes valorizarem menos os reais mandamentos bíblicos (por exemplo, a Ceia do Senhor), [4] – Elas não forem compulsórias (isto é, não podem ser impostas sob pressão). Noutras palavras, não devem ser considerados atos necessários de culto — Um ato necessário de culto é aquele ordenado pela Escritura, como, por exemplo, os sacramentos.

Os luteranos ensinam que é permitido à Igreja acrescentar rituais e cerimônias apenas dentro do âmbito da adiaforia (palavra grega que significa “coisas indiferentes”). Allbeck escreve: — A Fórmula de Concórdia delimita primeiro as fronteiras da genuína adiaforia. A genuína adiaforia não é contrária à Palavra de Deus, não cria facções, não romaniza, não [cria] tolos e inúteis espetáculos, não constitui essencialmente o culto a Deus. Quanto à sua situação diz-se que a adiaforia pode ser modificada pela Igreja no interesse da boa ordem, disciplina e edificação. Mas há sempre a necessidade de uma clara confissão doutrinal em palavras e ações. A adiaforia é um elemento de liberdade. Adiaforia compulsória é uma contradição de termos. Quando deixa de ser livre deve ser resistida. O entendimento luterano de Sola Scriptura não permite à Igreja acrescentar as suas próprias doutrinas aos ensinamentos da Escritura, nem lhe permite acrescentar culto essencial ou ordenado (isto é, os sacramentos). Ele, no entanto, ao declarar simplesmente que os acréscimos humanos estão no âmbito da adiaforia, dá à Igreja um papel muito amplo na determinação de ritos e cerimônias. Na teoria, as declarações luteranas referentes ao culto são superiores aos ensinamentos episcopais. Pelo menos os luteranos não consideram seus acréscimos humanos como parte real do culto. Eles também argumentam que os rituais e cerimônias humanas não são compulsórios como as ordenanças de culto prescritas pela Escritura. Na prática, entretanto, as Igrejas luteranas não são melhores que as suas similares episcopais. Ambas negam a suficiência das Escrituras no âmbito do culto. Ambas são culpadas em permitir que a corrupção humana substitua o puro culto evangélico. Ambas negam que o culto a Deus na era da Nova Aliança é fixado ou limitado pelo cânon da Escritura. Em consequência disso, ambas entregam os parâmetros do culto aceitável a uma alteração contínua. As fronteiras do culto estão em constante mudança porque são determinadas, não pela Escritura somente, mas também pela tradição humana, e há um número infinito de opções de culto à disposição do homem que não violam o princípio luterano de permitir qualquer coisa que não seja expressamente proibida.

Há uma série de razões pelas quais o entendimento luterano do culto deve ser rejeitado com não bíblico e irracional. Primeiro, não é bíblico a idéia de que ritos e cerimônias externas são adiafóricas. Todo ato na esfera moral e religiosa é sempre bom ou mal. As únicas atividades que podem ser consideradas adiafóricas são as matérias que são realmente circunstanciais ou incidentais à cerimônia, tais como a disposição das cadeiras, acender as luzes, etc. Atividades circunstanciais não necessitam de comprovação da Escritura, entretanto precisam ser conduzidas conforme as regras gerais do mundo. Williamson escreveu: — É preciso cuidado ao distinguir entre as circunstâncias do culto e o próprio culto. Por exemplo, a Escritura não determina a que hora do dia o culto público congregacional deve ocorrer. O Senhor também não determinou o formato, estilo ou tamanho do local de culto. Conforme a natureza do caso, tais circunstâncias poderão variar de país a país, entre as estações do ano, ou de um lugar para outro. Há, entretanto, uma regra geral que determina que as congregações se reúnam em algum lugar no dia do Senhor. A regra geral controla a situação particular, conforme as circunstâncias. Mas, quando a congregação se reúne no local acertado o culto, então, deve ser unicamente aquele que Deus ordenou.

O estilo arquitetônico da Igreja, a iluminação, a climatização, a organização da bancada e a duração do serviço são circunstanciais no culto a Deus. Entretanto, aspergir água–benta, fazer o sinal da cruz, proibir comer carne às sextas–feiras, usar sal e creme no batismo infantil, Confirmação, celebração de Natal e de Páscoa, vestimentas sacerdotais, cerimoniais especiais e ajoelhar-se para receber a Ceia do Senhor não são circunstanciais ao culto, mas acréscimos a ele.

As inovações no culto criadas pelos homens são terminantemente proibidas pela Escritura. A Bíblia ensina que os homens nada devem acrescentar ou subtrair dos preceitos morais de Deus (cf. Deuteronômio 4:2; Josué 1:7, 8; Provérbios 30:5, 6) nem nada acrescentar ou subtrair ao culto que Deus instituiu em sua Palavra (cf. Deuteronômio 13:32; Levítico 10:1, 2; 2 Samuel 6:3 – 7; Jeremias 7:31; 19:5). A idéia luterana de que os rituais ou cerimônias criadas pelo homem não são culto é antibíblica e totalmente arbitrária. Sabemos que Deus considera os rituais ou cerimônias humanas adicionadas ao culto como não autorizados, inaceitáveis e pecaminosos. Jeová matou Nadabe e Abiú por realizarem uma cerimônia idealizada humanamente (a queima de fogo estranho diante do Senhor, Levítico 10:1, 2). Embora os teólogos luteranos não considerem os atos de culto humanamente criados como culto real, Deus se refere a todas essas invenções humanas como culto de si mesmo (Colossenses 2:20 – 23). Jesus repreendeu os fariseus pela invenção humana do ritual religioso de lavar as mãos (Mateus 15:1 – 3). Os judeus foram repreendidos pelo nosso Senhor não porque haja alguma coisa intrinsecamente imoral no lavar as mãos, mas porque a Igreja não tem autoridade para acrescentar as suas próprias cerimônias religiosas àquilo que Deus autorizou em sua Palavra. Alguns argumentam que Jesus estava condenando apenas às más e não edificantes tradições humanas que estavam sendo adicionadas ao que Deus ordenara. O problema dessa argumentação é que o lavar religioso das mãos, numa perspectiva estritamente ética, não fere ninguém. Jesus pegou a tradição religiosa humana mais inocente e inócua possível para deixar claro como a luz o ponto de que nenhum acréscimo humano é aceitável a Deus, não importa quão pequeno ou inocente ele seja.

Em segundo lugar, a afirmativa luterana de que os rituais e as cerimônias humanas não são obrigatórias, nem compulsórias não reflete a prática real nem dos luteranos nem de ninguém. Por quê? Porque quando cerimônias humanas são introduzidas na adoração pública a Deus elas são sempre praticadas debaixo de algum tipo de coerção humana. A partir do momento em que elas são introduzidas no culto da Igreja, as pessoas são forçadas ou a saírem daquela Igreja, para evitar os acréscimos humanos, ou a cometerem pecado, ao participarem de cerimônias não autorizadas. Sempre que alguma Igreja acrescenta cerimônias humanamente elaboradas ao culto a Deus há sempre pressão eclesiástica e social para submeter-se a elas. Espera-se que os membros, e a isso são motivados, sigam o calendário da Igreja, vão aos cultos de Páscoa e de Natal, cantem hinos não inspirados, ouçam a grupos musicais, assistam ao coral infantil, participem dos apelos para irem ao altar, etc. Até mesmo em Igrejas reformadas as pessoas sofrem pressão ou coerção para se conformarem às variadas corrupções que se foram acumulando ao longo dos anos. As pessoas têm sido disciplinadas por se recusarem a participar de invenções humanas tolas e romanistas (por exemplo, hinos não inspirados, dias santos, culto infantil, etc.).

O conceito luterano de tradições humanas não compulsórias pode, na teoria, soar bem, mas na prática ele corrompe a Igreja e destrói a liberdade cristã. A Bíblia ensina que somente Deus falando em sua Palavra infalível tem absoluta, inquestionável autoridade sobre a consciência dos homens. Assim assevera a Confissão de Fé de Westminster: ― “Só Deus é Senhor da consciência, e a deixou livre das doutrinas e mandamentos humanos que, em qualquer coisa, sejam contrários à sua Palavra, ou que, em matéria de fé ou de culto, estejam fora dela. Assim, crer em tais doutrinas ou obedecer a tais mandamentos, por motivo de consciência, é trair a verdadeira liberdade de consciência; e requerer para eles fé implícita e obediência cega e absoluta, é destruir a liberdade de consciência e a própria razão” (XX.II). Os crentes em Cristo são livres não apenas de doutrinas e mandamentos que são contrários à Palavra de Deus, tais como confissão a um sacerdote, missa, celebração de dias santos além do Dia do Senhor, etc., são também livres de doutrinas e mandamentos que sejam acréscimos à Bíblia, isto é, que não contradizem à Escritura explicitamente, mas não são ensinados nela; eles derivam da autoridade humana. A qualquer doutrina ou mandamento contrário ou além da sua vontade, em assuntos religiosos, o cristão não apenas pode, mas deve desobedecer. Liberdade de consciência significa a liberdade do indivíduo obedecer a Deus e não ao homem.

Embora os luteranos insistam (como já foi observado) que os seus acréscimos humanos não são compulsórios (com o objetivo de se evitar a aparência de catolicismo), eles o são de fato. Até mesmo o grande Martinho Lutero foi inconsistente. Davies escreve: — De modo semelhante, em assuntos litúrgicos, pode-se argumentar legitimamente que a sua doutrina da Palavra de Deus não foi desenvolvida logicamente. Como atenuante, deve-se lembrar, entretanto, que ele foi o primeiro dos reformadores e que no tempo de Calvino a situação era mais estável e os homens tinham mais tempo para refletir sobre tais assuntos. Entretanto, não se pode negar que nos últimos anos de Lutero, o reformador demonstrou um crescente conservadorismo. Ele desejava uma maior uniformidade tanto no uso das vestimentas eclesiásticas quanto na forma litúrgica. Aquilo que anteriormente havia sido opcional tornou-se obrigatório.

Será que se espera que acreditemos que um ministro luterano e sua congregação serão deixados à vontade pelas autoridades da Igreja se eles decidirem descartar o calendário eclesiástico, os dias santos extra–bíblicos, hinos, órgãos, cruzes e todas as outras inovações humanas que carecem da sanção divina? É triste, mas espera-se que os congregados luteranos, assim como seus similares anglicanos, se submetam às cerimônias e aos mandamentos dos homens com fé implícita e obediência cega. Lembre-se, aquilo que não é feito em fé, nem é acompanhado do convencimento pessoal da sua obrigação ou legitimidade à vista de Deus, é declarado como pecado (Romanos 14:23). Hodge escreve: ― “É um grande pecado, que envolve ao mesmo tempo sacrilégio e traição à raça humana, qualquer homem ou associação humana arrogar-se a prerrogativa de Deus e tentar subjugar a consciência de seus semelhantes com qualquer obrigação certamente não imposta por Deus e revelada em sua Palavra. Além disso, quando as pessoas participam das ordenanças de culto que brotaram da mente do homem que se baseiam na autoridade eclesiástica e não na Escritura — não estão honrando a Deus (que jamais ordenou tais ritos ou cerimônias), mas ao homem. Estão em princípio curvando-se à autoridade autônoma de homens pecadores. Adorar a Deus sem que haja uma determinação divina é um reconhecimento implícito do papado e de uma liderança eclesiástica ― “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (1 João 5:21).

Em terceiro lugar, as posições luteranas sofrem de contradições internas irreconciliáveis. De acordo com as confissões luteranas é permitido aos homens acrescentarem as suas próprias tradições, rituais ou cerimônias ao culto a Deus somente se elas forem edificantes e consideradas não compulsórias. Tais qualidades levantam importante questão. Se os homens têm a capacidade de imaginar uma tradição, ritual ou cerimônia que verdadeiramente santifica os crentes, não deveria tal cerimônia se realmente edifica o povo de Deus ser obrigatória? Os artigos anglicanos que determinam que a Igreja pode produzir e impor ao rebanho, se necessário, com disciplina eclesiástica, ritos ou cerimônias que ela considera como edificantes são mais lógicos. Se uma tradição humana, ritual ou cerimônia santifica, então deveria ser obrigatória. É importante observar, entretanto, que o apóstolo Paulo ensina que mandamentos e ordenanças humanos não edificam nem santificam a Igreja. Ele escreve: ― Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitas a ordenanças: — não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquilo outro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas cousas, com o uso, destroem-se. Tais cousas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade (Colossenses 2:20 – 23). Rituais e cerimônias humanas são mandamentos de homens. Parecem ser sábios e edificantes, a verdade, entretanto, é que elas nada santificam. O Espírito Santo não usa tradições humanas, rituais ou cerimônias para edificar a Igreja. Ele usa a Palavra de Deus – “Santifica-os na verdade; a Tua Palavra é a verdade” (João 17:17). Se quisermos, portanto, receber edificação, devemos seguir apenas as leis, estatutos e ordenanças religiosas de Deus. Legalismo papal, da liderança eclesiástica e/ou fundamentalista não edifica.

Em quarto lugar, a alegação luterana de que rituais ou cerimônias criadas pelo homem não são culto é contra–senso fantasioso. Quando as autoridades eclesiásticas inventam uma cerimônia religiosa e a introduzem no ato do culto público ao lado das ordenanças de culto autorizadas na Escritura, eles estão ensinando implicitamente que as cerimônias criadas pelo homem são do mesmo tipo e carregam autoridade igual às ordenanças divinamente ordenadas. Quando os homens misturam cerimônias humanas com ordenanças divinas no culto, será que eles esperam que os adoradores façam distinção entre as duas (humana e divina) no desenrolar do ato de culto? Além disso, se as cerimônias religiosas criadas pelo homem não são ato de culto, então, o que são elas? Qual o propósito delas? Por que são elas conduzidas durante o culto? Por que são arroladas no boletim da Igreja como parte do culto público a Deus? Frank Smith escreve: — Observe cuidadosamente que o ato de culto é uma imposição, desde que se exige que nos congreguemos com o povo de Deus para participarmos do culto público. Portanto, qual é a posição legalista (e que se opõe à liberdade cristã) — a que pensa que não é preciso aprovação bíblica para exigir que se faça isso ou aquilo no culto, ou a que apela estritamente à Escritura e nada deseja impor ao precioso rebanho de Deus que não se encontre em sua Palavra? Poderíamos observar, incidentalmente, que a fé reformada é ao mesmo tempo a mais rígida e estreita, e, também, a mais larga e mais universal, devido à sua disposição de nada impor às pessoas que não seja bíblico. A idéia luterana de que os acréscimos humanos ao ato de culto realmente não são culto mostra quão enganoso é o coração do homem. Os homens são tão apaixonados por suas tradições humanas não autorizadas que eles torcem o claro sentido das palavras e recorrem a argumentos ilógicos e doentios e a malabarismos exegéticos para justificarem as suas práticas pecaminosas. A concepção luterana é muito parecida com a absurda afirmação católico–romana de que o culto aos santos e à Virgem Maria não é realmente culto. Alegam que é um culto especial (“latria”) quando o romanista curvar-se diante de Deus. Mas quando ele se curva para adorar os santos e a bendita virgem é “doulia” (ou, para Maria, “hyperdoulia”). Precisamos reconhecer que todas estas distinções tipicamente farisaicas nada mais são que desculpas espertas para desviar-se do culto que Deus tem determinado. Contra toda usurpação tirânica e excesso da Igreja, Cristo diz: ― “E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mateus 15:9; cf. Isaías 29:13).

Paz e graça.

[1] Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, 1ª Edição — Março de 2001, Traduzido do original em inglês: Sola Scriptura and the Regulative Principle of Worship de Brian M. Schwertley, Editora Os Puritanos, p. 24 – 42.

[2] Algaravia — Linguagem muito confusa, incompreensível.

[3] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.

INCONSISTÊNCIAS PROTESTANTES — PARTE 2

O ENTENDIMENTO CONFESSIONAL REFORMADO DO SOLA SCRIPTURA — O QUE É SOLA SCRIPTURA?

Antes de considerarmos a relação que há entre Sola Scriptura e o Princípio Regulador precisamos, primeiro, definir o que é Sola Scriptura. Após ser dada uma breve definição desta doutrina voltaremos nossa atenção para as declarações confessionais protestantes.

Dito resumidamente, a doutrina protestante de Sola Scriptura ensina que a Bíblia (os 66 livros do Antigo e do Novo Testamentos) é a divina Palavra inspirada de Deus, e, portanto, infalível e absolutamente autoritativa para todos os assuntos referentes à fé e à vida. Como palavra escrita de Deus contém tudo o que existe da revelação sobrenatural de Deus, e porque cessaram todas as formas de revelação direta (com a morte dos apóstolos e o fechamento do cânon), apenas e somente a Bíblia é a autoridade da Igreja. Por que a Escritura é clara (isto é, todo ensino necessário à salvação, fé e vida, são facilmente compreendidos pelas pessoas comuns) não há necessidade de quaisquer fontes adicionais de autoridade para interpretar a Bíblia infalivelmente para a Igreja. A Igreja (sejam ou não papas, cardeais, bispos, pais da Igreja, concílios eclesiásticos, sínodos ou congregações) não tem autoridade sobre a Bíblia, mas a Escritura auto–autenticada tem autoridade absoluta sobre a Igreja e sobre todos os homens. Por ser o que a Bíblia é (como já visto), o mister (ofício) da Igreja é puramente ministerial e proclamador. Todos os homens são proibidos de acrescentar ou subtrair algo das Sagradas Escrituras, seja pelas tradições humanas, ou pelas assim chamadas novas revelações do Espírito, ou pelos decretos de concílios e sínodos. A Bíblia é suficiente e perfeita e não necessita de quaisquer acréscimos humanos. Além do que, apenas aquilo que é ensinado na Escritura pode ser usado para tornar cativas as consciências dos homens.

1 – O entendimento Confessional Reformado do Sola Scriptura.

As confissões Reformadas estão em total concordância quanto ao Sola Scriptura ou ao Princípio Regulador da Escritura.

[A] – Primeira Confissão Helvética (1536).

Artigo 1 – A Escritura. A Escritura Canônica, sendo a Palavra de Deus, concedida pelo Espírito Santo, e proclamada ao mundo pelos profetas e apóstolos, sendo de todas as outras a mais perfeita e antiga filosofia, contém perfeitamente toda a piedade e boa ordenação da vida[1].

[B] – Confissão Francesa (1559).

Artigo 5 – Cremos que a palavra, contida nesses livros, procede de Deus; de quem somente, e não de homens, depende, portanto, a autoridade. E vendo que é a suma de toda a verdade, contendo tudo aquilo que se requer para a adoração a Deus e nossa salvação, afirmamos que não é lícito ao homem, não, nem mesmo aos anjos, acrescentar ou subtrair qualquer coisa a ou desta palavra, ou alterar nela o mínimo que seja[2].

[C] – Confissão Belga (1561).

Artigo 7 – A suficiência das sagradas Escrituras para serem a única regra de fé. Cremos que as Sagradas Escrituras contêm totalmente a vontade Deus, e que tudo quanto o homem deve crer para a salvação é suficientemente ensinado nela. Porquanto todo modo de adoração que Deus requer de nós está nela amplamente escrito, é ilícito a quem quer que seja, mesmo um apóstolo, ensinar outra coisa além do que agora somos ensinados nas Sagradas Escrituras: — nem um anjo vindo do céu, como disse o apóstolo Paulo. Pois desde que é proibido acrescentar ou subtrair qualquer coisa da Palavra de Deus, fica, portanto, assim evidente, que a sua doutrina é a mais perfeita e completa em todos os aspectos. Nem consideramos de valor equivalente às divinas Escrituras qualquer escritura de homens, por mais santos que tenha sido; nem devemos considerar costume, ou grande multidão, ou antiguidade, ou sucessão de eras e pessoas, ou concílios, decretos, ou estatutos, como de igual valor à verdade de Deus, pois a verdade está acima de tudo; porque todos os homens são, em si mesmos, mentirosos e mais vãos que a própria vaidade. Portanto rejeitamos de todo coração tudo que discordar dessa infalível regra que nos foi ensinada pelos apóstolos, dizendo, provai os espíritos se procedem de Deus. E, de semelhante modo, se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas–vindas[3].

[D] – Segunda Confissão Helvética (1566).

1 – Das sagradas Escrituras sendo a verdadeira palavra de Deus […] 2 – E nesta santa Escritura, a Igreja universal de Cristo tem todas as coisas referentes à fé salvadora plenamente expostas, e também os moldes de uma vida aceitável a Deus; e quanto a isso é expressamente ordenado por Deus que nada seja acrescentado ou retirado dela (Deuteronômio 4:2; Apocalipse 22:18, 19). 3 – Julgamos, portanto, que deve-se derivar destas Escrituras a verdadeira sabedoria e a piedade, a reforma e o governo das Igrejas; como também a instrução para todos os deveres de piedade; e, para ser breve, a confirmação de doutrinas e a refutação de todos os erros, com todas as exortações; de acordo com as palavras do apóstolo: ―Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão […], etc. (2 Timóteo 3:16, 17). Novamente ― Escrevo-te estas coisas, diz o apóstolo a Timóteo ― para que […] fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, etc. (1 Timóteo 3:14, 15)[4]. Da interpretação das sagradas Escrituras; e dos Pais da Igreja, Concílios e Tradições. 4 – […] Portanto, nas controvérsias da religião ou de assuntos relativos à fé, não podemos admitir nenhum outro juízo senão o de Deus mesmo, declarando pelas sagradas Escrituras o que é verdadeiro, o que é falso, o que deve ser seguido, ou o que [deve] ser evitado. Por isso só nos apoiamos no juízo de homens espirituais, tomados da Palavra de Deus. Certamente que Jeremias e outros profetas condenaram com veemência as assembléias de sacerdotes reunidos contra a lei de Deus e diligentemente advertiram-nos de antemão que não deveríamos dar ouvidos nem andar nos caminhos dos antepassados que, seguindo a suas próprias invencionices, apartaram-se da lei de Deus. 5 – Semelhantemente rejeitamos as tradições humanas que, embora recebam títulos piedosos como se fossem divinas e apostólicas, e dadas à Igreja pela vívida voz dos apóstolos; como se fossem dadas pelas mãos de homens apostólicos por meio da sucessão de bispos, mas que comparadas às Escrituras discordam delas; e que nessa discordância traem-se como não sendo, de modo nenhum, apostólicas. Como os apóstolos não se contradisseram entre si quanto à doutrina, assim os homens apostólicos não ensinaram nada contrário aos apóstolos. Não, pois seria blasfemo asseverar que os apóstolos, de viva voz, proclamaram coisas antagônicas aos seus escritos. Paulo afirma expressamente que ensinava a mesma coisa em todas as Igrejas (1 Coríntios 4:17). E, novamente, diz ele: — “porque nenhuma outra coisa vos escrevemos, além das que ledes e bem compreendeis” (2 Coríntios 1:13). Também, noutro lugar, testifica que ele mesmo e seus discípulos — isto é, homens apostólicos — andavam do mesmo modo, e que juntamente pelo mesmo Espírito faziam todas as coisas (2 Coríntios 12:18). Os judeus também, no passado, tinham a tradição de seus anciãos, mas tais tradições foram repudiadas severamente pelo Senhor, ao demonstrar que guardá-las é um estorvo à lei de Deus, e de que assim Deus é adorado em vão (Mateus 15:8, 9; Marcos 7:6, 7)[5].

[E] – Os padrões de Westminster (1646 – 1648).

1 – Breve Catecismo: — Pergunta 2 – Que regra Deus nos deu para nos dirigir na maneira de o glorificar e gozar? Resposta – A palavra de Deus, que se acha nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos, é a única regra para nos dirigir na maneira de o glorificar e gozar[6].

2 – Catecismo Maior: — Pergunta 3 – O que é a palavra de Deus? Resposta – As Escrituras Sagradas – o Antigo e o Novo Testamentos – são a palavra de Deus, a única regra de fé e de obediência.

3 – Confissão de Fé de Westminster: — (I.II) – Sob o nome de Escritura Sagrada, ou Palavra de Deus escrita, incluem-se agora todos os livros do Antigo e do Novo Testamentos, que são os seguintes, todos dados por inspiração de Deus para serem a regra de fé e de prática […] (I.VI) – Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dEle e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens; reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas na Palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comuns às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras da Palavra, que sempre devem ser observadas.

2 – Esclarecimentos.

Conforme as declarações confessionais reformadas, a Bíblia é uma regra de fé e de vida completa e suficiente. Agora que o cânon está fechado e a revelação direta cessou, as Escrituras inspiradas são a única regra de doutrina e prática. Embora a Bíblia seja a única regra que Deus nos deu para nos conduzir na maneira de o adorar e gozar, há uma série de questões que precisam ser esclarecidas antes de continuarmos. Primeiro, a doutrina de Sola Scriptura não é a negação da revelação natural. A Bíblia mesmo ensina que existem coisas que o homem pode aprender sobre Deus e sobre si mesmo a partir da natureza (cf. Salmos 19; Romanos 1:20 e seguintes). Precisamos, entretanto, observar que: — [1] – A revelação natural não tem por objetivo ser usada independentemente da revelação direta. Antes da queda Deus falou diretamente com Adão quanto à árvore da ciência do bem e do mal. [2] – Quando a humanidade caiu em Adão, tanto a terra quanto a raça humana foram afetadas pelo pecado. Por causa do pecado e da maldição a revelação natural tornou-se uma forma não confiável de fonte de ética. [3] – A Escritura ensina que embora a revelação natural seja bastante para tornar a raça humana culpada e inescusável –, indesculpável diante de Deus (Romanos 1:18), ela não é suficiente para ensinar o homem quanto a salvação, a Cristo e a muitas outras doutrinas cruciais. [4] – Além disso, quaisquer doutrinas ou comportamento que pudessem ser deduzidas da revelação natural não poderiam contradizer as sagradas Escrituras — que são claras e suficientes — mas, seriam por elas julgadas. Em segundo lugar, a doutrina de Sola Scriptura não é a negação da natureza progressiva e dos diversos meios de revelação divina antes do fechamento do cânon. Um ensino fundamental do princípio regulador da Escritura é que o homem nada pode acrescentar ou subtrair da Palavra de Deus (Deuteronômio 4:2). Conquanto anterior à conclusão da Escritura, este mandamento não impedia o próprio Deus de acrescentar seus pensamentos àqueles que seu povo já possuía. Proibia, entretanto, quem quer que fosse, de acrescentar ou subtrair da revelação divina que tinham, fosse por falsa profecia, augúrio, tradição humana ou negligência aos mandamentos de Deus. Além disso, como cristãos atentamos para uma revelação completa e escrita (nos tempos antigos os homens recebiam visões, sonhos e comunicações verbais de Deus, mas nem toda revelação era para ser escrita). Observe que, se quisesse, Deus poderia ter preservado a revelação divina de maneira sobrenatural que não fosse a forma escrita. Entretanto, em seu bel–prazer e infinita sabedoria, Deus consignou tudo que a Igreja e o mundo precisam na revelação escrita. Uma vez que a revelação natural é insuficiente, cessou a revelação direta à Igreja, e Deus declarou-nos a sua vontade ao fazê-la escrever toda, as Escrituras são nosso único padrão para fé e para vida. Terceiro, a doutrina do Sola Scriptura, ao afirmar que todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dEle e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela, não é uma negação de que existiam muitas revelações e eventos históricos que não foram incluídos no cânon. A Escritura completa, que Deus deu à Igreja, é exatamente aquela que Ele queria que nós tivéssemos. Ele poderia ter dado ao seu povo uma centena de volumes que contivessem mais casos relativos à lei, mais histórias detalhadas dos patriarcas, Moisés, Israel, Jesus Cristo e os atos da Igreja Apostólica. Mas Jeová nos deu apenas os 66 livros, e este cânon completo e perfeito é totalmente suficiente para alcançar o seu propósito. Deus tem muitas coisas ocultas que pertencem a Ele e à sua perfeição divina que são infinitas e jamais poderiam ser-nos reveladas total e adequadamente, mesmo que existissem um milhão de volumes inspirados. Mas, em sua misericórdia, tudo o que precisamos saber para amá-lo e servi-lo nos foi dado nas Escrituras.

Paz e graça.

[1] Traduzido do latim por Peter Hall, The Harmony of Protestant Confessions (Edmonton, Canada: Still Waters Revival Books, 1992 [1842]), 4.

[2] Ibid., 8.

[3] Joel R. Beek e Sinclair B. Ferguson, eds., Reformed Confessions Harmonized (Grand Rapids: Baker, 1999), 14, 16.

[4] Ibid., 10, 12.

[5] Ibid., 14, 16.

[6] A Confissão de Fé, O Catecismo Maior, O Breve Catecismo (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1991). Neste livro, todas citações da Confissão de Fé Westminster, Catecismo Maior e Breve Catecismo são retiradas da referida edição. No texto original o autor fez uso da The Westminster Confession of Faith (Glasgow, Scotland: Free Presbyterian Publications, 1976).

[7] Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, 1ª Edição — Março de 2001, Traduzido do original em inglês: Sola Scriptura and the Regulative Principle of Worship de Brian M. Schwertley, Editora Os Puritanos, p. 7 – 11.

[8] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.

INCONSISTÊNCIAS PROTESTANTES — PARTE 2

SOLA SCRIPTURA — ASPECTOS

1 – A autoridade da Escritura.

O princípio regulador da Escritura alicerça-se no fato de que a Bíblia é única. Somente a Bíblia é a palavra de Deus. A Confissão de Westminster declara que: ― “a autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou Igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu Autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a Palavra de Deus” (I.IV). A Escritura é inspirada por Deus. É, portanto, a verdade, e tem a autoridade do próprio Deus. Somente ela, entre todos os livros, possui absoluta autoridade. Só há um Deus — a Trindade ontológica que é transcendente, que criou todas as coisas e que dá sentido à realidade. Do mesmo modo, só existe hoje uma única direção verbal ou fonte escrita da revelação divina. Só existe um único livro que nos declara a mente e a vontade de Deus. Por ser inspirada pelo próprio Deus, a Escritura é auto–autenticada e absoluta. A sua autoridade não depende da Igreja, nem de provas empíricas ou de filosofia humana. À Igreja, e a todos os homens, exige-se que a ela se submetam sem quaisquer reservas ou evasivas, pois ela é a própria voz do Onipotente. Por ser a palavra de Deus, a Escritura é a autoridade final e definitiva para todos os assuntos de fé e de vida. A Bíblia é o único padrão absoluto e objetivo, pelo qual a ética, a doutrina, o governo da Igreja e a adoração devem ser julgados. A Confissão de Westminster afirma que: ― “o Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura” (I.X). Homens pecadores e falíveis podem e recebem autoridade delegada por Deus, mas somente Deus, que é o Soberano absoluto e Criador de todas as coisas, tem o direito à sujeição da fé e da obediência dos homens.

2 – A suficiência e perfeição da Escritura.

A compreensão da suficiência, perfeição ou completude da Escritura (que é um dos principais aspectos do entendimento reformado de Sola Scriptura) nos conduzirá a um entendimento mais profundo da conexão inseparável que existe entre o Princípio Regulador da Escritura e o Princípio Regulador do Culto (PRC). Por perfeição da Escritura queremos dizer que a Bíblia é completamente suficiente para aquilo que foi por Deus designada. “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Timóteo 3:16, 17). Robert Shaw escreveu: ― “A Escritura é apresentada como perfeita, apropriada para atender a toda necessidade, Salmos 19:8, 9; é suficiente para que o homem de Deus seja perfeito, e pode tornar o crente sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2 Timóteo 3:15 – 17). Tão completa é a Escritura que o seu Autor proíbe peremptoriamente (absolutamente) que a ela se acrescente ou se diminua qualquer coisa (Deuteronômio 4:2; Apocalipse 22:18, 19). A. A. Hodge escreveu: ― “a Escritura ensina de fato um perfeito sistema de doutrina e todos os princípios necessários à regulamentação prática das vidas dos indivíduos, das comunidades, e das Igrejas. Quanto mais diligentes forem os homens no estudo da Bíblia, e mais frequentemente puserem em pratica as suas instruções, tanto menos lhes será possível crerem que, qualquer item da regra perfeita, é incompleta quanto àquilo que o homem deve crer a respeito de Deus, e dos deveres todos que Deus requer do homem”. Quando discutimos a Escritura como a revelação inspirada e final de Deus, que é suficiente e completa para a salvação, servir a Deus, fé e prática, não queremos dizer que não existam verdades que possam ser apreendidas fora dela. Dissemos anteriormente que certas coisas sobre Deus e sobre nós mesmos são entendidas através da revelação natural. Além disso, a Bíblia não é necessária para a prática da lógica elementar, da matemática simples e de observações básicas e superficiais. As conquistas de cientistas, engenheiros, artistas, arquitetos, médicos e de outros incrédulos no mundo são a prova disso. Entretanto, até mesmo nestas áreas da vida chamadas de seculares, os não–crentes, para fazerem alguma coisa, têm de conduzir os seus assuntos em conformidade com as pressuposições bíblicas. Noutras palavras, a Bíblia não apenas nos ensina sobre Deus, sobre nós mesmos, redenção e ética, ela é também o fundamento de todo o entendimento. Sem a revelação divina o homem não pode realmente entender nem dar a explicação de nada. Van Til escreveu: ― “Assim, pois, a Bíblia, como a inspirada e infalível revelação de Deus ao homem pecaminoso, está diante de nós como a luz em torno da qual todos os fatos do universo criado precisam ser interpretados. Tudo relativo a existência finita, natural e redentiva, funciona conforme um plano todo–inclusivo que está na mente de Deus. Nesse âmbito da atividade de Deus, seja qual for a percepção que o homem venha a alcançar, ele só a obterá observando todos os seus objetos de pesquisa à luz da Escritura. Para irradiarmos a verdadeira religião precisaremos ter como nosso princípio que é necessário começar com o ensinamento celestial e que é impossível ao homem obter a mínima porção que seja da justa e sã doutrina sem ser um discípulo da Escritura”. Além disso não existe no universo uma área de neutralidade ética. Até mesmo nas áreas que a Bíblia não trata diretamente, tal como engenharia estrutural e construção de foguetes, ela fala indiretamente. Tudo o que há na vida deve ser vivido para a glória de Deus, até mesmo as mais terrenas atividades devem ser conduzidas de acordo com os princípios gerais da Palavra de Deus. Por perfeição e suficiência da Escritura as confissões reformadas querem dizer que, para o homem, a Bíblia é um guia tão completo e perfeito quanto a tudo o que Deus requer que creiamos (salvação, doutrina, estatutos, etc.) e façamos (ética, santificação, ordenanças do culto, governo da Igreja, etc.) que ela não precisa de nenhuma complementação da parte do homem. As confissões reformadas enfatizam que a Bíblia não é uma regra entre tantas nem a melhor ou principal delas. Ela é a única regra de fé e de prática. A Primeira Confissão Helvética diz: ― “A Escritura Canônica […] contém perfeitamente toda a piedade e boa ordenação da vida” (Artigo 1). A Confissão Belga afirma: ― “Cremos que as Sagradas Escrituras contêm totalmente à vontade Deus […] todo modo de adoração que Deus requer de nós está nela amplamente escrito […]” (Artigo 7). A Segunda Confissão Helvética declara: ― “E nesta Santa Escritura, a Igreja universal de Cristo tem todas as coisas referentes à fé salvadora plenamente expostas, e também os moldes de uma vida aceitável a Deus […]” (1:2). O Breve Catecismo de Westminster afirma: ― “A palavra de Deus, que se acha nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos, é a única regra para nos dirigir na maneira de o glorificar e gozar” (Resposta da Pergunta 2). O Catecismo Maior ensina: ― “As Escrituras Sagradas – o Antigo e o Novo Testamento – são a palavra de Deus, a única regra de fé e de obediência” (Resposta da Pergunta 3). A Confissão de Fé de Westminster diz: ― “Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dEle e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela […]” (I.VI, ênfase acrescentada). Falando positivamente, a Bíblia é a única regra de fé e obediência. Falando negativamente, é expressamente proibido aos homens, em qualquer hipótese, acrescentarem as suas próprias idéias, doutrinas e/ou preceitos à Escritura. A Confissão Francesa diz: ― “E vendo que é a suma de toda a verdade, contendo tudo aquilo que se requer para a adoração a Deus e nossa salvação, afirmamos que não é lícito ao homem, não, nem mesmo aos anjos, acrescentar ou subtrair qualquer coisa a ou desta palavra, ou alterar nela o mínimo que seja” (Artigo 5). A Confissão Belga afirma: ― “é ilícito a quem quer que seja, mesmo um apóstolo, ensinar outra coisa além do que agora somos ensinados nas Sagradas Escrituras: — nem um anjo vindo do céu, como disse o apóstolo Paulo. Pois desde que é proibido acrescentar ou subtrair qualquer coisa da Palavra de Deus, fica, portanto, assim evidente que a sua doutrina é a mais perfeita e completa em todos os aspectos. Nem consideramos de valor equivalente às divinas Escrituras qualquer escritura de homens, por mais santos que tenha sido; nem devemos considerar costume, ou grande multidão, ou antiguidade, ou sucessão de eras e pessoas, ou concílios, decretos, ou estatutos, como de igual valor à verdade de Deus, pois a verdade está acima de tudo; porque todos os homens são, em si mesmos, mentirosos e mais vãos que a própria vaidade. Portanto rejeitamos de todo coração tudo que discordar dessa infalível regra que nos foi ensinada pelos apóstolos […]” (Artigo 7). A Segunda Confissão Helvética assevera: ― “e quanto a isso é expressamente ordenado por Deus que nada seja acrescentado ou retirado dela – isto é, das Sagradas Escrituras (Deuteronômio 4:2, Apocalipse 22:18, 19)”. A Confissão de Fé de Westminster diz: ― “À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens” (I.VI). O fato de a Bíblia ser suficiente, perfeita e completa torna em anti–bíblica e tola todas as tentativas de complementar seus ensinamentos, quanto a fé e à ética, com idéias e regras da mente do homem. Contra os entusiastas do espiritualismo, os carismáticos, os adivinhos e todos os falsos profetas, a Confissão de Fé de Westminster declara que: ― “à Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito”. Contra os papistas e todos os que intrometem tradições humanas nos preceitos, nas ordenanças, no culto ou governo da Igreja, as confissões reformadas condenam o acréscimo ― “por tradições dos homens à Palavra de Deus”. A doutrina da perfeição e suficiência das Escrituras protege os crentes da tirania das exigências humanas. A ninguém (seja bispo, pai da Igreja, sínodo ou concílio) é permitido subjugar a consciência dos homens com qualquer doutrina ou exigência. Tudo deve estar embasado na Escritura, seja por um mandamento direto, ou por boa e necessária inferência. Por isso a Confissão de Fé de Westminster declara que: ― “só Deus é Senhor da consciência, e a deixou livre das doutrinas e mandamentos humanos que, em qualquer coisa, sejam contrários à sua Palavra, ou que, em matéria de fé ou de culto, estejam fora dela. Assim, crer em tais doutrinas ou obedecer a tais mandamentos, por motivo de consciência, é trair a verdadeira liberdade de consciência […]” (XX.II). Quanto às boas obras, a Confissão diz: ― “As boas obras são somente aquelas que Deus ordena em sua santa Palavra, não as que, sem a autoridade dela, são aconselhadas pelos homens movidos de um zelo cego, ou sob qualquer outro pretexto de boa intenção” (XVI.I). Quanto ao culto, diz a Confissão: — “mas, o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo, e é tão limitado pela sua vontade revelada, que Ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens, ou sugestões de Satanás, nem sob qualquer representação visível, ou de qualquer outro modo não prescrito nas Escrituras” (XXI.I).

3 – A completude e finalidade da Escritura.

Quando as confissões reformadas afirmam a perfeição e suficiência da Escritura, e a Confissão de Westminster fala contra as novas revelações do Espírito, elas estão ensinando a completude e fechamento da Escritura. Por Escritura queremos dizer o cânon completo (os 66 livros do Antigo e do Novo Testamentos), a palavra de Deus escrita. No ponto atual da história da salvação (após a obra redentiva de Cristo ter sido concluída, após a pessoa e obra de Cristo ter sido explicada pelos profetas e apóstolos do Novo Testamento e o governo, culto e doutrina da Igreja da Nova Aliança terem sido completamente definidos pelo Espírito Santo na Escritura) o processo revelacional cessou. A Escritura não poderia estar completa senão após Jesus ter concluído a sua obra na Terra. Tudo na Escritura está, de algum modo, relacionado à pessoa e obra de Jesus Cristo. Ele é descrito como o ápice e a conclusão de Deus falando ao homem (Hebreus 1:1, 2). Nosso Senhor disse aos seus discípulos que lhes seria conveniente que Ele fosse, porque após a sua ascensão Ele enviaria o Espírito Santo para guiá-los a toda verdade (João 16:7, 13 – 15). Inspirados pelo Espírito Santo, os apóstolos e profetas do Novo Testamento deram-nos o fundamento (o cânon do Novo Testamento) sobre o qual construir as Igrejas da Nova Aliança (Efésios 2:20, 21). É fato histórico que a revelação divina cessou com a morte do último apóstolo. Ao longo da história, aqueles que afirmaram ter revelações diretas de Deus (por exemplo, os Montanistas, os profetas de Zwickau, os Irvingitas, os modernos carismáticos, etc.) foram sempre falsos profetas. Cristo e os apóstolos predisseram o surgimento dos falsos profetas e advertiram-nos para não seguirmos às suas revelações mentirosas (cf. Mateus 7:15 – 23; 24:11; 2 Pedro 1 e seguintes; 2 Tessalonicenses 2:9 – 11; etc.). O fato de que a revelação cessou e de que a Escritura foi criada por Deus como totalmente suficiente às nossas necessidades (2 Timóteo 3:16, 17) significa que se quisermos conhecer a mente e a vontade de Deus, a nossa única fonte de conhecimento será a Bíblia. John Murray escreveu: — “Para nós a Escritura tem um lugar e uma função exclusivos como o único modo de revelação que permanece existindo. Os que estão particularmente envolvidos nessa discussão tem por certo que a Escritura não continua a ser escrita, que ela é um cânon fechado. Admitindo-se isto, precisamos então considerar aquilo que os nossos oponentes não estão dispostos a admitir, isto é, que este é o conceito de Escritura ensinado e pré–suposto por nosso Senhor e seus apóstolos, e insistir que é essa concepção que deve ser aplicada ao cânon da Escritura como um todo. Como não temos mais profetas, nem o nosso Senhor está presente conosco como com os discípulos, nem temos meios de revelação como nos dias apostólicos, a Escritura em sua totalidade é, segundo o conceito de nosso Senhor e seus apóstolos, a única revelação da mente e da vontade de Deus a nós disponível. É isso que significa o encerramento da Escritura para nós; ela é a única Palavra revelacional de Deus que ainda vigora”.

Paz e graça.

[1] Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, 1ª Edição — Março de 2001, Traduzido do original em inglês: Sola Scriptura and the Regulative Principle of Worship de Brian M. Schwertley, Editora Os Puritanos, p. 12 – 16.

[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.