Pergunta: — O que é o dízimo no Novo Testamento? Quanto? Devemos dar segundo a Lei ou segundo o amor?
Resposta: — Esta nota é apenas uma breve descrição do que a Bíblia ensina acerca de “dízimo” versus “dar”. Sou grato e recomendo vivamente a obra do Dr. Russell Earl Kelly, Should the Church Teach Tithing? A Theologian’s Conclusions about a Taboo Doctrine, Writers Club Press (11 de janeiro de 2000), para um estudo mais completo deste importantíssimo tema bíblico. Muitos dos pensamentos abaixo advêm do meu diálogo com o Dr. Kelly.
Uma distinção importante precisa ser feita a respeito da “oferta” dos cristãos hoje. Como veremos brevemente abaixo, o dízimo foi ordenado a Israel quando habitava na Terra Prometida. Havia essencialmente três dízimos para Israel. Esta era a Lei da terra. Contudo, hoje a Igreja se expandiu para além dos limites da Terra Prometida. Hoje, a Igreja já não está debaixo da Lei (Romanos 10:4; Gálatas 3:23 – 25; Efésios 2:15; Colossenses 2:14). Hoje, o cristão deve “dar” por amor, não por Lei. Esta distinção é importante de ser mantida — pois faz parte do Evangelho “que uma vez foi entregue aos santos” (Judas 1:3).
Como escreveu certa vez John Owen: — “Permitir-me-ei dizer que não é uma defesa segura para muitos insistirem que os dízimos são devidos e divinos, como dizem, ou seja, por uma Lei vinculante de Deus, agora sob o Evangelho. […] A Lei específica do dízimo não é confirmada no Evangelho […] é impossível que uma única regra certa seja prescrita a todas as pessoas[2]”.
1 – Fatos sobre o dízimo no Antigo Testamento.
Consideremos, por um momento, alguns fatos elementares a respeito do “dízimo” no Antigo Testamento:
[1] – Dízimo agrícola – O dízimo do Antigo Testamento recaía sobre a “terra” (baseado em alimentos), não sobre “cada indivíduo”. Ele incidia sobre o fruto das árvores frutíferas e das oliveiras, sobre o aumento dos campos e dos rebanhos (Levítico 27:30 – 33[3]; Números 18:21 – 24[4]; Deuteronômio 14:22 – 29[5]). Dos rebanhos, apenas o décimo animal que passava sob a vara do pastor era consagrado (Levítico 27:32); se alguém possuísse apenas nove animais, nenhum dízimo era requerido — não havia dízimo de animal. Não havia exigência escriturística de dar sobre o aumento que não fosse agrícola. Contudo, havia um dízimo “voluntário” em relação ao despojo de guerra, o que encontramos no dízimo de Abrão a Melquisedeque. Este dízimo foi: — [1] – “voluntário” e [2] – “um voto” (Abrão o ofereceu porque havia feito um voto – Gênesis 14:22 – 24[6]). Mas a Bíblia não registra se Abrão deu dízimos antes ou depois desse episódio com Melquisedeque. Embora seja verdade que Abraão ofereceu um dízimo voluntário antes da instituição da Lei (Gênesis 14:20[7]), também devemos notar que Abraão foi circuncidado antes da Lei (Gênesis 17:10). A circuncisão não é uma exigência para os crentes hoje. De fato, Paulo declara especificamente que isso não faz parte do nosso relacionamento com Deus (Gálatas 5:11, 12). Note-se, ainda, que Jacó também fez um voto voluntário de dízimo (Gênesis 28:22).
[2] – O aumento da terra – O dízimo no Antigo Testamento recaía sobre o aumento proveniente da terra, demonstrando a provisão de Deus e o seu senhorio sobre a Terra Prometida (Levítico 27:30 – 33; Números 18:21 – 24; Deuteronômio 14:22 – 29). “Guarda-te, que não desampares ao levita todos os teus dias na terra” (Deuteronômio 12:19). A Igreja, porém, já não habita naquela terra. Ela se expande continuamente a toda tribo e nação (Apocalipse 5:9; 7:9). E, por certo, os levitas já não existem.
Os rabinos judeus, em nossos dias, recorrem a um sistema de patronato — estabelecendo certa quantia em dinheiro para cada assento nas sinagogas — a fim de levantar fundos, já que não podem mais receber dízimos para o sustento de um Templo e de levitas que não mais existem (ao menos, conforme a sua concepção acerca da existência do Templo). Tal prática evidencia o quão estreitamente associam o dízimo do Antigo Testamento à Terra Prometida.
A maioria dos cristãos da Nova Aliança vive fora da Terra Prometida (cf. Deuteronômio 12:19). Embora não se refira à Lei moral, os cristãos da Nova Aliança estão isentos da Lei do Antigo Testamento (Romanos 2:12; Gálatas 3:23, 24; 4:5; cf. Romanos 7:1) — Lei esta que Cristo cumpriu (Mateus 5:17 – 20; Atos 13:29). Portanto, não necessitam “dizimar” (Deuteronômio 12:19).
[3] – Três dízimos no Antigo Testamento – Não havia apenas um dízimo no Antigo Testamento, mas três: — [A] – um destinado aos levitas e sacerdotes; [B] – outro a ser consumido na festa dos Tabernáculos; e [C] – outro, a cada terceiro ano, para o socorro [alívio] dos pobres[8]. Se o dízimo ainda é obrigatório, não deveria a Igreja do Novo Testamento pagar “três” dízimos? Se alguém deseja argumentar pela “continuidade” do dízimo do Antigo Testamento, então todos os três dízimos precisam ser exigidos — não apenas um dízimo de 10%. Há, pois, continuidade ou não há? Se alguém deseja colocar-se debaixo da Lei, então precisa obedecer a toda a Lei (Romanos 7:1).
[4] – Sétimo ano — sem dízimo no Antigo Testamento – Como a terra deveria permanecer em repouso e as árvores sem colheita a cada sétimo ano, não havia dízimo do Antigo Testamento proveniente da terra nesse ano (Êxodo 23:11; Levítico 25:11, 12). Se desejamos enfatizar a continuidade da Lei, então precisamos perguntar: — “As Igrejas do Novo Testamento que ensinam um dízimo neotestamentário observam a suspensão do sétimo ano?”. Se não, por que não? Veja o item 3 acima[9].
[5] – O dízimo dos Levitas não mais existe – O dízimo do Antigo Testamento era destinado aos levitas. Não era para a manutenção de edifícios ou programas; estes provinham das “ofertas”. Assim, dízimos e ofertas eram distintos. Os levitas, por sua vez, separavam o dízimo daquilo que recebiam, entregando-o aos sacerdotes arônicos. Isso servia para repassar o incremento agrícola que lhes era dado. Os levitas não podem mais receber dízimos – sua linhagem não existe mais. “Guarda-te, que não desampares ao levita todos os teus dias na terra” (Deuteronômio 12:19).
[6] – Nenhum dízimo sobre salários – As Escrituras do Antigo e do Novo Testamento não dizem nada sobre um dízimo sobre salários, renda de comércio ou investimentos, nem sobre os produtos da terra “fora” da Terra Prometida. Gade estava fora da Terra Prometida propriamente dita, mas a região tribal de Gade fazia parte de sua herança prometida por Deus. Assim, em essência, eles estavam em sua Terra Prometida. Consequentemente, vemos que não havia um dízimo obrigatório fora da Terra Prometida. Compare com o item 1 acima[10].
Não havia no Antigo Testamento nenhuma lei que exigisse um dízimo, muito menos três dízimos, sobre o salário de alguém. Embora mencionados nas Escrituras do Antigo Testamento, os seguintes grupos não receberam instruções explícitas sobre a obrigatoriedade de dizimar: — [1] pescadores (Levítico 11:9 – 12), [2] aqueles envolvidos na mineração (Deuteronômio 8:9), [3] os que atuavam no comércio de madeira (1 Reis 5:7 – 12) e [4] os trabalhadores da construção (1 Reis 5:13 – 18).
[7] – Nenhum dízimo para os pobres – O Antigo Testamento nunca determinou que os pobres fossem obrigados a “dizimar”. Embora pudessem oferecer “ofertas” voluntárias, não havia exigência de dízimo para eles (Levítico 5:11 – 13[11]; 14:21[12]; 27:8[13]). Pelo contrário, os pobres eram beneficiários dos dízimos, das ofertas, das sobras da colheita e da abundância de Israel (Deuteronômio 26:12, 13; Malaquias 3:5; cf. Levítico 25:6, 8 – 15, 23 – 35; 25:16 – 25; Números 36:4; Deuteronômio 24:19 – 21; Ester 9:22; Ezequiel 46:17).
Robert Spender, no “Baker’s Evangelical Dictionary of OT Theology”, afirma: — “Além das leis diretas, diversas instituições do Antigo Testamento incluíam disposições especiais para os pobres. As leis de respigas eram destinadas às viúvas, aos órfãos, aos estrangeiros e aos pobres (Levítico 19:9, 10; 23:22; Deuteronômio 24:19 – 22). Durante o ano sabático, as dívidas deveriam ser canceladas (Deuteronômio 15:1 – 9), e o Jubileu proporcionava a libertação de hebreus que haviam se tornado servos devido à pobreza (Levítico 25:39 – 41; 25:54). Durante esses períodos festivos, os pobres tinham livre acesso aos produtos de todos os campos (Êxodo 23:11; Levítico 25:6, 7, 12)”.
Outras estipulações para auxiliar os pobres incluíam o direito de redenção da escravidão por um parente consanguíneo (Levítico 25:47 – 49), o sustento proveniente do dízimo trienal (Deuteronômio 14:28, 29) e disposições especiais relativas às ofertas pelo pecado. Esta última Lei ilustra a natureza relativa do conceito de pobreza. Se alguém não pudesse arcar com o cordeiro usual para a expiação, poderia trazer dois pombos (Levítico 5:7); mas, para aquele que não pudesse custear nem mesmo dois pombos, havia a possibilidade de oferecer um décimo de efa (ou efá) de farinha (Levítico 5:11). Claramente, a Lei enfatizava que a pobreza não era motivo para exclusão da expiação e do culto.
D. James Kennedy escreveu: — “Os pobres não têm a obrigação de oferecer dízimos, mas sim de recebê-los, seja diretamente de vizinhos e amigos compassivos, seja por meio do ministério dos clérigos. Qualquer contribuição oferecida por uma pessoa pobre seria uma oferta voluntária, não um dízimo. O dízimo é o tributo de Deus, exigido daqueles que obtêm lucro de seu trabalho, e não daqueles que dependem de assistência social ou vivem de suas reservas financeiras. Nosso principal dever econômico é garantir alimentos, vestimentas e moradia essenciais para nossas famílias. O dízimo não foi estabelecido para impedir a provisão de suporte material essencial aos membros de nosso lar (1 Timóteo 5:8; Mateus 15:3 – 9)”.
[8] – Dízimos da casa do tesouro – O SENHOR ordenou aos israelitas: — “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa […]” (Malaquias 3:8 – 12). Este texto é da Lei do Antigo Testamento (cf. Levítico 6:14 – 23). Malaquias 3:8 usa o plural “dízimos” (מַעַשְׂרוֹת), não o singular (הַֽמַּעֲשֵׂ֖ר). Ensinar um único dízimo de 10% a partir deste texto seria um erro, visto que “dízimos” aqui equivalem a um mínimo de 23,33%. O depósito era onde se guardava o dízimo “agrícola” no Antigo Testamento. Note, novamente, a ênfase do dízimo no aumento agrícola. Um minerador não poderia colocar nada no depósito. Além disso, a maioria dos crentes não está mais na Terra Prometida, não possui fazendas e o Templo não está mais de pé.
Quando Jesus deu a Grande Comissão (Mateus 28:18 – 20) à Igreja, este mandato do “depósito” não poderia mais estar em vigor para “toda tribo, língua, povo e nação” (Apocalipse 5:9; 7:9).
Sujeitar os cristãos do Novo Pacto a uma aplicação literal, palavra por palavra, deste texto hoje seria provocar a Deus (Atos 15:10; Gálatas 5:3) e privar os crentes da liberdade que possuem em Cristo (Romanos 8:15; Gálatas 2:4; 5:1, 4, 5; 2 Coríntios 3:17). Utilizar este texto para impor o dízimo no Novo Testamento é desvirtuar as Escrituras de seu sentido original, incorrendo, assim, na pregação de um outro evangelho (Gálatas 1:9).
2 – Fatos sobre o Dízimo no Novo Testamento.
Examinemos brevemente alguns fatos relacionados à menção do “dízimo” no Novo Testamento:
[1] – Mateus 23:23 – Jesus se dirige aos fariseus sobre o dízimo “da hortelã, do endro e do cominho”, plantas de especiarias cultivadas na Terra Prometida. Esses fariseus estavam sob a obrigação dos três dízimos do Antigo Testamento. A pergunta que surge é: — Jesus estava sugerindo que a Igreja de hoje deve superar esses dízimos para alcançar a justiça? Não, o objetivo de Jesus era mostrar que a oferta legalista dos fariseus não resultava em verdadeira justiça. Eles davam os dízimos sem um coração reto. Se o fizessem, estariam também praticando “o juízo, a misericórdia e a fé”. Observe que todos os “ais” pronunciados por Jesus em Mateus 23 foram dirigidos aos fariseus e escribas (Mateus 23:13 – 16, 23, 25, 27, 29), que estavam sob a Lei do Antigo Testamento. Eles eram os que enfatizavam a observância ritual, mas negligenciavam seu dever moral para com o próximo. O que Jesus defende? Lucas afirma: — “Antes dai esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo” (11:41). No Antigo Testamento, uma quantidade obrigatória é mencionada (dízimo, 10%), mas aqui o texto não especifica nenhuma quantia. Em vez disso, o mandamento é simplesmente “dar”. A lei do dízimo teve validade apenas até a cruz. A instrução de Jesus em Mateus 23:23 não justifica que os cristãos continuem obrigados a seguir a lei do dízimo do Antigo Testamento, muito menos os “três” dízimos. Fazer isso seria uma violação da Carta da Liberdade mencionada na Epístola aos Gálatas (Gálatas 5:1, 2; cf. Gálatas 2:4). A questão central em Gálatas era que os gentios estavam sendo instruídos a não apenas crer em Jesus Cristo para a salvação, mas também a aceitar a circuncisão e, consequentemente, comprometer-se a seguir a lei judaica como um caminho para a salvação (Gálatas 2:3 – 5, 12; 4:10; 5:3 – 6; 6:12, 13; cf. Colossenses 2:16 – 20; Levítico 23:2; 1 Crônicas 23:31; 2 Crônicas 31:3; Neemias 10:33 etc.). No entanto, isso é um evangelho falsificado, que na verdade não é Evangelho, e por isso era e é fatal (Gálatas 1:6, 7). O autor Pipa afirma: — “Adicionar algo ao Evangelho — seja obras, sacramentos, batismo ou qualquer outra coisa — é diminuir o Evangelho”. Várias nuances dessa “filosofia” (um evangelho falso) eram comuns entre os primeiros cristãos judeus (Atos 15:1; 21:20, 21; Filipenses 3:2, 3; Colossenses 2:8 – 23). Aqueles que viviam sob a Lei (os judeus) foram libertos para algo muito melhor, e o mesmo vale para a Igreja hoje. Em Romanos 7:6, Paulo escreve: — “Mas agora temos sido libertados da Lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra”. O cristão que tenta seguir a Lei para ser justificado ou santificado caiu da graça (Gálatas 5:4). Atos 2:42 afirma que a Igreja primitiva seguia não as regras do Antigo Testamento, mas a “doutrina dos Apóstolos”. O dízimo foi instituído quando havia uma necessidade: — o estabelecimento do sacerdócio. Mas ele foi dissolvido quando um sacerdócio superior chegou (Hebreus 8:1 — 10:18). As leis cerimoniais — como os holocaustos, as ofertas de cereais, as regras alimentares, as purificações rituais, as leis sobre lepra e escravidão, as festas e o ano do Jubileu — não se aplicam mais aos crentes.
[2] – Marcos 14:41 – 44 – A mulher viúva que deu tudo (Marcos 14:41 – 44). Ela deu uma oferta voluntária, não um dízimo obrigatório do Antigo ou Novo Testamento. Note, ela ainda estava operando sob a Lei do Antigo Testamento (Veja o item 3 abaixo). Embora se possa ensinar a “doação pela graça” a partir deste texto, se faz um mau uso do texto se tentar ensinar um “dízimo obrigatório” a partir dele! No entanto, devemos ser doadores agradecidos. Nosso desejo deve ser dar tudo o que temos. Mas isso não deve ser o “mandato” da Igreja.
[3] – Lucas 18:12 – É frequentemente usado para dizer que um cristão hoje deveria dizimar “tudo quanto [possui]” (Lucas 18:12). No entanto, sabemos, ao estudar o Antigo Testamento, que a Lei nunca exigiu um dízimo sobre “tudo quanto [possui]”, mas apenas sobre itens agrícolas específicos em Israel (Levítico 27:30 – 33; Números 18:21 – 25; Deuteronômio 14:22 – 29; cf. Deuteronômio 12:19). Jesus contou a parábola em Lucas 18 como: — [A] – um antídoto para a autojustiça por parte dos fariseus e [B] – a culpa não merecida por parte das pessoas comuns da época de Jesus que sentiam que nunca poderiam ser santas. Portanto, o propósito desta parábola era libertar ambas as pessoas de tal escravidão. Você está escravizado hoje?
[4] – Hebreus 7:9 – O fato de Abraão ter sido abençoado por Melquisedeque e ter dado a ele os dízimos ilustra a superioridade de Melquisedeque e, ainda mais, de Cristo sobre o sacerdócio levítico (Hebreus 7:1 – 10). No entanto, o texto prossegue observando que quando o sacerdócio é mudado, a Lei também é! A Lei permaneceu a mesma? Não (Hebreus 7:12). Se houve uma mudança no sistema cerimonial levítico, isso afeta o dízimo. As leis que ordenavam que os dízimos fossem dados aos levitas são obsoletas (Deuteronômio 12:19), a menos que sejam restabelecidas em outro lugar no Novo Testamento. Além disso, deve-se reiterar que o dízimo de Abraão foi, ao mesmo tempo, voluntário e um voto. Em Gênesis 14:21 – 24, fica claro que não se tratava de um dízimo obrigatório de 10%. Podemos mostrar no Novo Testamento onde o dízimo obrigatório (seja os três, ou até mesmo um) foi restabelecido? Não! No entanto, o Novo Testamento nos mostra que a pessoa deve “dar” com alegria (Romanos 15:25 – 27; 1 Coríntios 16:2; 2 Coríntios 8 etc.), mas não “dizimar” (seja os três ou até mesmo um).
[5] – A reconstrução do verdadeiro Templo – O Templo foi destruído em 70 d.C. Contudo, hoje estamos testemunhando uma empolgante “reconstrução” do Templo corporal (1 Coríntios 3:9, 16, 17; 6:19; 2 Coríntios 6:16; Efésios 2:21, 22; 1 Timóteo 3:15; Hebreus 3:6). Simplificando, o Templo que está sendo construído hoje é a Igreja. À medida que o Templo da Nova Aliança é edificado, ele deve ser sustentado da mesma forma que a reconstrução do Templo no Antigo Testamento — com ofertas voluntárias e espontâneas (cf. Esdras 1:4, 6; 7:16; 8:25).
[6] – Dízimos por voto — É claro que havia várias ofertas devidas a votos feitos. Dependendo do voto, estas podem ser obrigatórias. Se uma pessoa faz um voto de dizimar 10% pelo resto da vida, então ela é obrigada a dar 10% até a morte etc. Contudo, Deus nos instrui a não sermos precipitados com nossos votos (Eclesiastes 5:1 – 7). Com as drásticas mudanças em nossa economia, este é um conselho sábio a ser seguido. Observamos novamente que Abraão é registrado por ter feito apenas “um” voto deste tipo. Notamos também que Jacó fez um voto de dízimo voluntário (Gênesis 28:22). Embora nosso desejo deva ser dar 100%, isso seria antibíblico na prática, pois negligenciar a família não é bíblico (cf. 1 Timóteo 5:8).
[7] – Jesus não deu um dízimo obrigatório — Não se diz que Jesus tenha “dizimado” (Mateus 12:1, 2; Marcos 2:23, 24; Lucas 6:1, 2). Mateus 12:1, 2 diz: — “Naquele tempo passou Jesus pelas searas, em um sábado; e os seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas, e a comer. E os fariseus, vendo isto, disseram-lhe: — ‘Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num sábado’”.
Embora Jesus tenha cumprido toda a Lei (Mateus 5:17 – 20; Romanos 10:4) e tenha dado a Deus o que era de Deus (Mateus 22:20 – 22), Ele era carpinteiro e, portanto, não estava envolvido com a produção agrícola (da terra, aumento de campos, vinhas, pomares, rebanhos e colmeias). Por isso, Ele não era obrigado a dar um “dízimo” normal. Nenhum dos discípulos era fazendeiro ou pastor e, portanto, eles também não eram obrigados a pagar dízimos. Todos davam ofertas voluntárias (por serem pobres). Eles obedeciam à Lei ao não dizimar! Neste incidente, eles estavam praticando a Lei da respiga[14], que era especificamente para os pobres (Levítico 19:9, 10; 23:22; Deuteronômio 24:19; Rute 2:2, 15). Os fariseus não repreenderam Jesus e seus discípulos por respigar. Eles não repreenderam Jesus e seus discípulos por não pagarem um dízimo em sua colheita! A única acusação é que eles realizaram trabalho no dia de sábado, o que Jesus corrigiu os fariseus (Mateus 12:3 – 8). Jesus de fato “deu” aos pobres, mas uma porcentagem nunca é mencionada (João 12:4 – 6; Provérbios 14:31; 28:27; Tiago 1:27; 1 João 3:17, 18). Jesus alimentou os pobres etc. (Mateus 14:15 – 21; Lucas 9:12 – 15). Ele “deu” perfeitamente e sem pecado (Mateus 5:48), mas nunca foi obrigado a “dizimar”.
[8] – Alguns pontos de resumo – Deus prescreveu divinamente termos para o dízimo que não podem e não devem ser aplicados hoje:
[A] – A maioria da Igreja não vive na Terra Prometida.
[B] – A tribo levítica não continua.
[C] – Não existe um Templo central.
[D] – A maioria dos crentes não tem aumento agrícola da Terra Prometida.
[E] – Hebreus 8 descontinuou o dízimo obrigatório, pois o sacerdócio levítico não existe mais e um sacerdócio maior agora existe.
[F] – Não há dízimo sobre salário, remuneração, ou “tudo o que tenho” etc., nas Escrituras.
[G] – Os pobres não eram obrigados a dizimar.
Agora, o resto da história.
No entanto, embora o dízimo da Antiga Aliança não seja mais aplicável, podemos e devemos aprender com ele. O cristão deve dar o melhor de seu aumento, generosamente, apoiando aqueles que pregam e ensinam a Palavra. Além disso, devem ajudar o pobre, a viúva e o órfão. No entanto, isto não é um “dízimo obrigatório”. A Nova Aliança fala sobre “dar”, não sobre “dizimar” obrigatoriamente.
Alguns princípios de “doação” (não dízimo) do Novo Testamento.
O princípio e a liberdade do “dar” (não do dizimar) no Novo Testamento são o ato de “doar” de forma sacrificial, alegre, voluntária e proporcional para o sustento do ministério da Palavra e o auxílio aos necessitados, além da gestão adequada de todo o resto como pertencente a Deus. Veja Mateus 6:2 – 4; 25:34 – 46; Marcos 4:24; Lucas 6:38; 12:15, 34; 20:25; 21:1 – 4; Atos 2:44, 45; Romanos 15:25 – 27; 1 Coríntios 16:2; 2 Coríntios 8:2 – 5; 9:6 – 12; 1 Timóteo 6:17 – 19; Hebreus 13:16; 1 Pedro 4:10, 11 etc. Assim, o cristão deve dar voluntariamente por amor, não por Lei. Ele deve dar:
[A] – Do seu aumento, conforme o Senhor supre e direciona.
[B] – Como sua primeira prioridade, determinada de antemão, não como uma reflexão tardia do que sobrou. O cristão não deve perguntar: — “Certo, quanto eu tenho que dar este mês?”, mas sim, com alegria avassaladora e entusiasmo: — “Quanto eu posso dar? Posso dar ainda mais este mês?” etc. Louvado seja Deus!
[C] – Do seu melhor.
[D] – Sacrificialmente! Sacrificialmente! Sacrificialmente!
[E] – Alegremente, jubilosamente e de modo entusiasmado.
[F] – Para prover a pregação e o ensino da Palavra, o envio de pregadores e o alívio dos que sofrem; primeiro os crentes, depois os outros.
[G] – Por meio dos presbíteros e diáconos (cuidando dos pobres, das viúvas e dos órfãos) da Igreja.
[H] – Cumprindo quaisquer promessas ou votos que fizer de acrescentar algo ao reino de Deus.
[I] – Como um privilégio da graça, não como um fardo.
[J] – Por amor a Cristo, ao seu Reino, ao seu povo e ao próximo.
No entanto, a “doação” do Novo Testamento não é um dízimo obrigatório de 10%. Pode-se procurar, mas não se encontra este mandamento de dizimar nas Escrituras do Novo Testamento! Até mesmo o quarto voto de membro da PCA não exige um dízimo. Ele diz: — “Você promete apoiar a Igreja em sua adoração e trabalho da melhor maneira possível?”. Note que isso não diz “dizimar” (um 10% obrigatório), mas “apoiar […] da melhor maneira possível”. “Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente” (Romanos 14:5).
Observe que o BCO 54–1 da PCA menciona um “dízimo”. No entanto, o BCO 54–1 não é constitucionalmente vinculativo. Note que ele também difere, em substância, das deliberações presbiterianas anteriores: — [1] – a referência da Assembleia de 1854 ao dízimo como “presunção” e [2] – a linguagem de 1933 de “porção digna”. É interessante que a Confissão de Fé de Westminster (21:5), como originalmente escrita, não contém nenhuma referência a coletas como um elemento ordinário de adoração ou como um elemento ocasional de adoração.
Que maravilhoso presente — A doação.
Temos o “privilégio” e a “liberdade” de “dar”. Louvado seja o Senhor! Aproveite esta oportunidade para considerar, em oração, com alegria e sacrificialmente, o que o Senhor gostaria que você desse hoje – e todos os dias – à sua Igreja, aos pobres e a outros. Calvino escreveu: — “Ai da nossa indolência! — que se manifesta nisto, que enquanto Deus nos convida com tanta bondade à honra do sacerdócio, e até mesmo coloca sacrifícios em nossas mãos, nós, no entanto, não sacrificamos a Ele […]. Pois os altares, nos quais os sacrifícios de nossos recursos deveriam ser apresentados, são os pobres e os servos de Cristo. Negligenciando estes, alguns esbanjam seus recursos em todo tipo de luxo, outros no paladar, outros em trajes imodestos, outros em moradias magníficas[15]”.
Deus não nos limita a uma lei de meros 10% ou 23,3%; em vez disso, como Ele nos deu abundantemente, agora temos a oportunidade de devolver o que já é dEle (Salmos 50:10, 12; 89:11; 1 Coríntios 10:26; cf. Êxodo 9:29; Deuteronômio 10:14) de acordo com seu Espírito. No entanto, Ele entende a situação dos pobres, da viúva e do órfão. Ele provê para eles através de você e de mim (Êxodo 23:11; Levítico 19:10; 23:22; Deuteronômio 15:9 etc.). Em sua providência, Deus até provê para os pobres por meios miraculosos em alguns momentos (1 Reis 17:7 – 24; Mateus 14:13 – 21; Marcos 6:31 – 44; Lucas 9:10 – 17; João 6:5 – 15). E até mesmo os pobres podem ser tocados pelo Espírito para dar uma oferta voluntária de algum tipo. Às vezes, eles são movidos pelo Espírito Santo a serem os mais generosos de todos os doadores (Marcos 12:41 – 44; Lucas 21:1 – 4). Oh, a maravilhosa obra do Espírito de Deus e seu dom de dar! Como você exercerá este dom, esta semana, este mês e durante todo o ano?
“Mais bem–aventurada coisa é dar do que receber” (Atos 20:35; cf. 2 Coríntios 9:6, 7).
Referências históricas.
Este ensinamento não é novo. Ele tem sido ensinado por séculos. Até mesmo muitos teólogos atuais ensinam a “doação” do Novo Testamento e não um “dízimo” do Antigo Testamento. Abaixo está uma lista incompleta, mas adequada, para reforçar o ponto.
A doação e a Igreja Primitiva.
Irineu (120 – 202 d.C.), Against Heresies, Chapter XIII of Book IV: — “E por esta razão o Senhor, em vez daquele [mandamento], ‘Não cometerás adultério’, proibiu até mesmo a concupiscência; e em vez daquele que diz, ‘Não matarás’, Ele proibiu a raiva; e em vez da Lei que ordenava a entrega dos dízimos, [Ele nos disse] para partilhar todas as nossas posses com os pobres”.
Tertuliano (c. 150 – 220), Apology, XXXIX, 1 – 18: — “Nossos líderes são anciãos de valor comprovado, homens que alcançaram esta honra não por um preço, mas por seu caráter. Cada um traz alguma moeda modesta uma vez por mês ou quando desejar, e apenas se estiver disposto e puder; é uma oferta voluntária. Você poderia chamá-los de fundos fiduciários da piedade; eles são gastos […] no sustento e sepultamento dos pobres”.
Dictionary of Early Christian Beliefs (Dicionário de Crenças Cristãs Primitivas – p. 9): — “Embora tenhamos o nosso cofre de tesouros, ele não é formado por dinheiro de compra, como se fosse uma religião que tivesse seu preço. Antes, no dia mensal, se quiser, cada um deposita uma pequena oferta — mas somente se for de sua vontade e somente se estiver em condições. Pois não há compulsão; tudo é voluntário”.
Contribuições e os Reformadores.
John Wycliffe (1328 – 1384) e John Huss (1373 – 1415) compararam os dízimos às ofertas voluntárias. Wycliffe afirmava que o Novo Testamento não ordenava o dízimo. Huss e seus seguidores concluíram que a Lei do Antigo Testamento não era obrigatória para os cristãos. John Smyth (1609) declarou que Cristo aboliu os dízimos em razão da mudança do sacerdócio. François Turrettini (1623 – 1687) sustentou que as leis do Antigo Testamento, como os dízimos e as primícias, não eram vinculantes. Ele concluiu que o modo de sustento dos pastores deveria ter como fundamento a voluntariedade[16].
Martinho Lutero em “How Christians Should Regard Moses (Como os Cristãos Devem Considerar Moisés), April 27, 1525”: — “Mas assim como os judeus falham, também falham os gentios. Portanto, é natural honrar a Deus, não furtar, não cometer adultério, não dar falso testemunho, não matar; e o que Moisés ordena não é nada novo. Pois aquilo que Deus deu aos judeus do céu, Ele também escreveu nos corações de todos os homens. Assim, eu guardo os mandamentos que Moisés estabeleceu, não porque Moisés os tenha dado, mas porque eles foram implantados em mim pela natureza, e Moisés concorda exatamente com a natureza etc. Mas os outros mandamentos de Moisés, que não estão [implantados em todos os homens] pela natureza, os gentios não observam. Nem a estes estão obrigados, como o dízimo e outros igualmente bons, que eu gostaria que também tivéssemos. Eis, portanto, a primeira coisa que devo considerar em Moisés: — a saber, os mandamentos aos quais não estou obrigado, exceto na medida em que estão [implantados em todos] pela natureza [e escritos no coração de cada um]”.
Charles Spurgeon, Metropolitan Tabernacle Pulpit, 68 vols. (Pasadena, TX: Pilgrim, 1974), 47:97: — “É digno de nota também que, no que diz respeito à liberalidade cristã, não há regras estabelecidas na palavra de Deus. Recordo-me de ouvir alguém dizer: — ‘Gostaria de saber exatamente quanto devo dar’. Sim, querido amigo, sem dúvida você gostaria; mas não está debaixo de um sistema semelhante àquele pelo qual os judeus eram obrigados a pagar os dízimos aos sacerdotes. Pois se houvesse alguma regra assim estabelecida no Evangelho, isso destruiria a beleza da doação espontânea e tiraria todo o frescor do fruto da sua liberalidade!”. MTP (Metropolitan Tabernacle Pulpit) 28:694: — “Li algumas afirmações surpreendentes acerca do suposto direito divino dos dízimos. Parece estar estabelecido na mente de alguns que, se Deus deu os dízimos a Levi, deve, portanto, tê-los dado aos ministros episcopais: — uma inferência que não consigo enxergar! Eu poderia, com a mesma facilidade, concluir que Ele os deu aos ministros batistas; certamente, não seria mais ilógico. A ideia de que sejamos sacerdotes ou levitas a fim de receber dízimos compulsórios seria demasiado abominável para ser admitida sequer por um momento!”. MTP (Metropolitan Tabernacle Pulpit) 14:567 – 568: — “Muito se tem dito sobre dar a décima parte da renda ao Senhor. Penso ser este um dever cristão que ninguém deveria questionar por um só instante. Se era dever sob a lei judaica, muito mais o é agora, sob a dispensação cristã. Mas é um grande equívoco supor que o judeu dava apenas a décima parte. Ele dava muito, muito, muitíssimo mais do que isso. O dízimo era o pagamento obrigatório; mas, além dele, vinham todas as ofertas voluntárias, todos os diversos dons em diferentes épocas do ano, de modo que, talvez, desse um terço — certamente muito mais próximo disso do que de um décimo! Não gosto, contudo, de estabelecer regras para o povo de Deus, pois o Novo Testamento do Senhor não é um grande livro de regras; não é um livro da letra — porque a letra mata — mas é o livro do Espírito, que nos ensina mais a alma da liberalidade do que o corpo dela. E, em vez de escrever leis sobre pedras ou sobre papel, Ele escreve leis sobre o coração. Dai, queridos amigos, conforme propusestes no vosso coração, e dai proporcionalmente, conforme o Senhor vos tenha prosperado. Não façais a vossa estimativa do quanto deveis dar pelo que parecerá respeitável aos olhos dos outros, ou pelo que deles se espera, mas como diante do Senhor, pois Ele ama ao que dá com alegria; e, sendo o doador alegre também um doador proporcional, cuidai, como bons despenseiros, de manter contas fiéis diante do grande Rei”.
Diversos autores sobre a contribuição.
The Billy Graham Evangelistic Association: — “[…] a questão sobre dizimar do rendimento líquido ou bruto não é respondida pela Escritura, nem a questão se tudo deve ser dado à Igreja local ou se podem ser incluídos outros ministérios. Entendemos que tais decisões devem se basear em convicção pessoal. O dízimo não é mencionado no Novo Testamento, exceto quando descreve práticas do Antigo Testamento, ou nos Evangelhos, quando Jesus se dirige a pessoas que estavam debaixo da Lei do Antigo Testamento. Notai, por exemplo, os comentários de Jesus aos fariseus em Lucas 11:42. Um ensino do Novo Testamento sobre a contribuição que pode ser útil encontra-se em 1 Coríntios 16:2: — ‘No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade’. Este texto ressalta quatro pontos: — devemos dar de forma individual, regular, metódica e proporcional. A questão da contribuição é entre você e Deus, e Ele sempre leva em conta as nossas circunstâncias. Ele sabe quando estão além de nosso poder de controlar. O importante é que encaremos a contribuição como um privilégio e não como um peso. Não deve ser por mero dever, mas por amor ao Senhor e desejo de ver o seu reino avançar. Como diz 2 Coríntios 9:6, 7: — ‘E digo isto: — Que o que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância ceifará. Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria’. A pergunta mais profunda é esta: — O que tem prioridade em nossa vida? Cristo está realmente em primeiro lugar — ou colocamos a nós mesmos e aos nossos desejos acima dEle? Certifique-se de que Cristo seja o primeiro em sua vida e, então, peça-lhe que o guie”.
Dr. Russell Earl Kelly, Should The Church Teach Tithing (p. 139 – 140): — “Nenhuma das três principais abordagens hermenêuticas da Teologia hoje sustenta o dízimo. Primeiro, os defensores da Teologia do Pacto dividem a Lei em mandamentos morais, estatutos cerimoniais e juízos civis. Em seguida, reconhecem o dízimo como estatuto cerimonial e o descartam. Segundo, os defensores da Teologia Dispensacional também dividem a Lei em mandamentos, estatutos e juízos; porém, a veem como um todo indivisível, rejeitam a Lei inteira e recomeçam com Deus repetindo seus princípios morais eternos na Nova Aliança, após o Calvário. Por fim, os defensores de uma terceira via hermenêutica, situada entre a Teologia do Pacto e a Dispensacional, igualmente rejeitam o dízimo em razão de seu uso cúltico e imoral[17]”.
R. C. H. Lenski, The Active Church Member: — “Deus nos deu a sua Lei divina, e o Espírito de Cristo — que é o espírito de fé e amor — usa livremente a Lei de Deus como reguladora da vida cristã. Como cristãos, porém, estamos sob o Evangelho; e isso significa que, com fé e amor, obedecemos voluntariamente ao Senhor e buscamos cumprir a sua santa vontade. Legalismo é o nome de toda lei espúria na Igreja: — tanto o estabelecer leis humanas na Igreja quanto a obediência a tais leis. Nenhuma Igreja tem o direito de fazer leis pelas quais prenda seus membros; e nenhum membro tem o direito de obedecer a tais leis e permitir que a consciência seja assim algemada. Tanto a Igreja quanto o membro são legalistas quando conduzem as atividades eclesiásticas desse modo. O Estado pode legislar; a Igreja, porém, não. Assim como o Evangelho, somente ele, reina em nossos corações, também métodos evangélicos devem ser usados, e apenas eles, em nossas atividades eclesiásticas. Esses métodos utilizam o poder exclusivo da fé e do amor, e nenhum constrangimento exterior. Por isso trazem a marca da liberdade do Evangelho. O membro da Igreja faz o que faz de livre vontade, com alegria e gratidão, como privilégio. Esse é o método evangélico. O cristão evangélico vai à Igreja por amor a Cristo, à sua Palavra e ao culto. Somente quando o Senhor vê isso no coração é que se agrada. Nenhuma atuação meramente exterior satisfaz ao Senhor — muito menos fazer o que o Senhor em parte alguma ordenou. E, pior que tudo, tentar comprar o seu favor é insultar a sua bendita graça, pela qual somente os seus dons salvíficos podem tornar-se nossos. Métodos legalistas parecem especialmente promissores quando se trata de obter dinheiro para a Igreja. Por que não impor um imposto aos membros — um tributo fixo por cabeça —, ou um tributo proporcional aos bens? Não garantiria isso a soma desejada de modo muito mais seguro do que o método evangélico da contribuição voluntária? O problema é que, embora o dinheiro pudesse ser obtido por via legalista, o Senhor não o aproveita. O único dinheiro que Ele aceita é aquele que vem como verdadeira oferta, feita a Ele por corações voluntários, em fé e amor. Tais ofertas só podem ser recolhidas por métodos evangélicos, jamais por expedientes legalistas. Métodos errados tendem sempre a corromper princípios certos, e assim impedem as bênçãos que deveríamos receber. Métodos corretos sustentam os verdadeiros princípios, ajudam a mostrar quão benéficos são e, assim, alcançam a aprovação e a bênção do Senhor”.
John Fullerton MacArthur, Jr. (1939 – 2025) Commentary on the Book of Romans 9 – 16 (p. 233): — “[…] Os cristãos não estão sob obrigação de dar uma quantia especificada para a obra de seu Pai celestial. Em nenhuma de suas formas, o dízimo, ou quaisquer outros tributos do Antigo Testamento, se aplicam aos cristãos”.
“Thoughts On Tithing” (trecho de sermão pregado na Grace Community Church, Panorama City, CA): — “O dízimo, basicamente, nunca, jamais é defendido no Novo Testamento; nunca é ensinado no Novo Testamento — nunca!”.
Bruce Metzger, Oxford Companion to the Bible (p. 223): — “O Novo Testamento em parte alguma exige explicitamente o dízimo como meio de sustentar o ministério ou um local de assembleia”.
Tyler Ramey, Tithing Today: God’s Plan or Designs of Man: — “No que diz respeito à Igreja primitiva mais antiga, nem os Apóstolos, nem seus discípulos (os Pais da Igreja) ensinaram que o dízimo fosse uma obrigação cristã. Antes que o dízimo se tornasse gradualmente uma prática estável em alguns setores da Igreja primitiva, não havia sustento do clero por meio de uma contribuição sistemática de dízimo. Com o tempo (alguns séculos após a cruz), o dízimo passou a ser considerado, em geral, segundo o modelo da sinagoga judaica. Até então, o dízimo era apenas uma sugestão, que aparentemente ganhava cada vez mais apoio à medida que crescia o poder de bispos e presbíteros. À medida que a autoridade e a posição dos líderes da Igreja passaram a refletir a dos sacerdotes da era do Templo e das provisões que os sustentavam, a Igreja acabou por prescrever um dízimo que incluía ‘dinheiro, roupas e todos os teus bens’ (Didaqué 13:7, citado em Walter A. Elwell, ed., The Concise Evangelical Dictionary of Theology, Grand Rapids: Baker Book House, 1991, verbete ‘Tithing’, por D. K. McKim, p. 513). Algo que hoje em geral não se ensina e que está conspicuamente ausente da prática contemporânea (cf. David W. Bercot, ed., A Dictionary of Early Christian Beliefs, Peabody: Hendrickson Publishers, 1998). No século IV, a defesa do dízimo já era feita com base em textos como Mateus 10:10 — ‘digno é o operário do seu alimento’ (cf. Lucas 10:7) — e 1 Coríntios 9:11 — ‘Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito que de vós recolhamos as carnais?’. Entretanto, alguns líderes da Igreja (como Irineu e Epifânio) mostraram que o argumento a partir desses textos não era válido; pelo contrário, enfatizava-se a liberdade na contribuição cristã (Merril C. Tenney, ed., The Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible, Grand Rapids: Zondervan, 1975, verbete ‘Tithe’, por C. L. Feinberg, p. 758). Já no século VI, a prática do dízimo havia absorvido numerosas regulamentações humanas, que determinavam porções específicas destinadas a sacerdotes e paróquias. Essa prática refletia a noção comum de que as determinações veterotestamentárias sobre sustento de sacerdotes e manutenção do templo teriam contrapartida em líderes da Igreja — usualmente pastores — e na manutenção de edifícios eclesiásticos. Essa crença no paralelismo ainda é sustentada por muitos cristãos, e conta até hoje com o apoio de não poucos líderes eclesiásticos”.
Diversos dicionários e comentários sobre a contribuição.
The Bible Knowledge Commentary (p. 1585): — “Embora não exija o dízimo dos crentes hoje, o Novo Testamento fala da bênção de Deus sobre aqueles que contribuem generosamente para as necessidades da Igreja, especialmente para os que se dedicam ao ministério da Palavra”.
The Encyclopedia Americana: — “O dízimo não era praticado na Igreja cristã primitiva, mas tornou-se gradualmente comum (na Igreja Católica Romana da Europa Ocidental) por volta do século VI. O Concílio de Tours, em 567 d.C., e o Segundo Concílio de Mâcon, em 585 d.C., defenderam o dízimo. Tornou-se obrigatório por lei civil no Império Carolíngio, em 765 d.C., e na Inglaterra no século X […]. A Reforma não aboliu o dízimo, e a prática continuou tanto na Igreja Católica Romana quanto em países protestantes […] até ser gradualmente substituída por outras formas de tributação. A Igreja Católica Romana ainda prescreve o dízimo em países onde ele é sancionado por lei, e alguns grupos protestantes consideram o dízimo obrigatório”.
Hastings Dictionary of the Apostolic Church: — “É universalmente admitido que o pagamento de dízimos ou décimas dos bens, para fins sagrados, não encontrou lugar na Igreja cristã durante a era dos Apóstolos e de seus sucessores imediatos”.
Nelson’s Bible Dictionary (verbete tithe): — “No Novo Testamento, as palavras dízimo e dizimar aparecem apenas oito vezes (Mateus 23:23; Lucas 11:42; 18:12; Hebreus 7:5, 6, 8, 9). Todas essas passagens se referem ao uso do Antigo Testamento […]. Em parte alguma, o Novo Testamento ordena expressamente aos cristãos que dizimem. Contudo, como crentes, devemos ser generosos em compartilhar nossos bens materiais com os pobres e para o sustento do ministério cristão. O próprio Cristo é o nosso modelo em dar. A contribuição deve ser voluntária, disposta, alegre e feita à luz de nossa prestação de contas a Deus. Deve ser sistemática, e de modo algum limitada a um dízimo de nossos rendimentos. Reconhecemos que tudo o que temos vem de Deus. Somos chamados a ser mordomos fiéis de todos os nossos bens (Romanos 14:12; 1 Coríntios 9:3 – 14; 16:1 – 3; 2 Coríntios 8 — 9)”.
New Advent Catholic Encyclopedia Online: — “Na Igreja cristã, como aqueles que servem ao altar devem viver do altar (1 Coríntios 9:13), alguma provisão precisava ser feita para os ministros consagrados. No início, isso era suprido pelas ofertas espontâneas dos fiéis. Com o tempo, porém, à medida que a Igreja se expandiu e várias instituições surgiram, tornou-se necessário estabelecer leis que garantissem o sustento adequado e permanente do clero. O pagamento de dízimos foi então adotado da Antiga Lei, e escritores primitivos o mencionam como uma ordenança divina e uma obrigação de consciência. A legislação positiva mais antiga sobre o assunto parece estar contida na carta dos bispos reunidos em Tours (567 d.C.) e nos cânones do Concílio de Mâcon (585 d.C.). Com o tempo, encontramos o pagamento de dízimos tornado obrigatório por decretos eclesiásticos em todos os países da cristandade”.
Treasury of Scripture Knowledge: — “O dízimo não é ensinado no Novo Testamento como obrigação para o cristão sob a graça […]. Porque não estamos debaixo da Lei, mas debaixo da graça, a contribuição cristã não deve ser transformada em uma questão de obrigação legalista, para que não caiamos no erro do galatianismo (Gálatas 3:24, 25; Romanos 10:4; Colossenses 2:14 etc.)”.
Paz e graça.
[1] Por Dr. Joseph R. Nally, Jr., D.D., M.Div. — https://thirdmill.org/answers/answer.asp/file/43275.
[2] Works, vol. 21, p. 324, 325.
[3] “Também todas as dízimas do campo, da semente do campo, do fruto das árvores, são do Senhor; santas são ao Senhor. Porém, se alguém das suas dízimas resgatar alguma coisa, acrescentará a sua quinta parte sobre ela. No tocante a todas as dízimas do gado e do rebanho, tudo o que passar debaixo da vara, o dízimo será santo ao Senhor. Não se investigará entre o bom e o mau, nem o trocará; mas, se de alguma maneira o trocar, tanto um como o outro será santo; não serão resgatados” (ACF).
[4] “E eis que aos filhos de Levi tenho dado todos os dízimos em Israel por herança, pelo ministério que executam, o ministério da tenda da congregação. E nunca mais os filhos de Israel se chegarão à tenda da congregação, para que não levem sobre si o pecado e morram. Mas os levitas executarão o ministério da tenda da congregação, e eles levarão sobre si a sua iniquidade; pelas vossas gerações estatuto perpétuo será; e no meio dos filhos de Israel nenhuma herança terão, porque os dízimos dos filhos de Israel, que oferecerem ao Senhor em oferta alçada, tenho dado por herança aos levitas; porquanto eu lhes disse: — No meio dos filhos de Israel nenhuma herança terão” (ACF).
[5] “Certamente darás os dízimos de todo o fruto da tua semente, que cada ano se recolher do campo. E, perante o Senhor teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome, comerás os dízimos do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer ao Senhor teu Deus todos os dias. E quando o caminho te for tão comprido que os não possas levar, por estar longe de ti o lugar que escolher o Senhor teu Deus para ali pôr o seu nome, quando o Senhor teu Deus te tiver abençoado; então vende-os, e ata o dinheiro na tua mão, e vai ao lugar que escolher o Senhor teu Deus; e aquele dinheiro darás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, e por ovelhas, e por vinho, e por bebida forte, e por tudo o que te pedir a tua alma; come-o ali perante o Senhor teu Deus, e alegra-te, tu e a tua casa; porém não desampararás o levita que está dentro das tuas portas; pois não tem parte nem herança contigo. Ao fim de três anos tirarás todos os dízimos da tua colheita no mesmo ano, e os recolherás dentro das tuas portas; então virá o levita (pois nem parte nem herança tem contigo), e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, que estão dentro das tuas portas, e comerão, e fartar-se-ão; para que o Senhor teu Deus te abençoe em toda a obra que as tuas mãos fizerem” (ACF).
[6] “Abrão, porém, disse ao rei de Sodoma: — Levantei minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra, jurando que desde um fio até à correia de um sapato, não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu; para que não digas: — Eu enriqueci a Abrão; salvo tão somente o que os jovens comeram, e a parte que toca aos homens que comigo foram, Aner, Escol e Manre; estes que tomem a sua parte” (ACF).
[7] “E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo” (ACF).
[8] Para uma análise detalhada, consulte o artigo — “O Dízimo no Antigo Testamento?”.
[9] A sentença do item 4 reforça o argumento do item 3 ao apontar mais uma inconsistência na prática moderna do dízimo. Enquanto o item 3 questiona por que apenas um dos três dízimos é praticado (ignorando os outros dois), o item 4 questiona por que a regra do sétimo ano, que fazia parte da mesma legislação do dízimo no Antigo Testamento, é ignorada. Ambos os itens desafiam a lógica de adotar parcialmente as leis do Antigo Testamento, sugerindo que, se a continuidade da Lei é defendida, então todas as suas estipulações (os três dízimos e a isenção do sétimo ano) deveriam ser observadas. A referência explícita ao “Veja o item 3 acima” no final do item 4 reforça essa conexão, indicando que o argumento do sétimo ano é uma extensão da crítica à aplicação seletiva do dízimo apresentada no item 3 — nota do tradutor.
[10] O item 1 não menciona diretamente a Terra Prometida, mas as passagens citadas (Levítico 27:30 – 33; Números 18:21 – 24; Deuteronômio 14:22 – 29) implicam que o dízimo estava vinculado à produção da terra de Israel, que era considerada a herança prometida por Deus. O item 6 aprofunda essa ideia ao esclarecer que o dízimo era restrito à Terra Prometida, usando o exemplo da tribo de Gade, que, embora estivesse fora da Terra Prometida propriamente dita, ainda fazia parte da herança prometida e, portanto, estava sujeita ao dízimo. O item 6 conclui que não havia dízimo obrigatório fora desse contexto geográfico, reforçando a especificidade do dízimo descrita no item 1. A comparação com o item 1 sugere que o dízimo era tanto um imposto agrícola quanto geográfico, não aplicável a contextos fora da economia e da terra de Israel — nota do tradutor.
[11] “Porém, se em sua mão não houver recurso para duas rolas, ou dois pombinhos, então aquele que pecou trará como oferta a décima parte de um efa de flor de farinha, para expiação do pecado; não deitará sobre ela azeite nem lhe porá em cima o incenso, porquanto é expiação do pecado; e a trará ao sacerdote, e o sacerdote dela tomará a sua mão cheia pelo seu memorial, e a queimará sobre o altar, em cima das ofertas queimadas do Senhor; expiação de pecado é. Assim o sacerdote por ela fará expiação do seu pecado, que cometeu em alguma destas coisas, e lhe será perdoado; e o restante será do sacerdote, como a oferta de alimentos” (ACF).
[12] “Porém se for pobre, e em sua mão não houver recursos para tanto, tomará um cordeiro para expiação da culpa em oferta de movimento, para fazer expiação por ele, e a dízima de flor de farinha, amassada com azeite, para oferta de alimentos, e um logue de azeite” (ACF).
[13] “Mas, se for mais pobre do que a tua avaliação, então apresentar-se-á diante do sacerdote, para que o sacerdote o avalie; conforme as posses daquele que fez o voto, o avaliará o sacerdote” (ACF).
[14] A palavra hebraica para “respigar” é “לָקַט” (lāqaṭ), que significa recolher, ajuntar, apanhar. Respigar é a prática de recolher os grãos ou frutos deixados para trás pelos ceifeiros após a colheita. Na Escritura, os israelitas foram ordenados a permitir que os pobres seguissem os trabalhadores do campo, colhendo o que caía ou ficava esquecido. Assim, a Lei de Moisés providenciava sustento para os necessitados, os órfãos, as viúvas e os estrangeiros. A norma mosaica determinava: — “Quando também fizerdes a colheita da vossa terra, o canto do teu campo não segarás totalmente, nem as espigas caídas colherás da tua sega. Semelhantemente não rabiscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro. Eu sou o Senhor vosso Deus” (Levítico 19:9, 10). Esse princípio de misericórdia brilha de modo especial na narrativa de Rute, a moabita, nora de Noemi. Viúva e estrangeira, ela encontrou sustento por meio da respiga nos campos de Boaz: — “E Rute, a moabita, disse a Noemi: — Deixa-me ir ao campo, e apanharei espigas atrás daquele em cujos olhos eu achar graça. E ela disse: — Vai, minha filha” (Rute 2:2) — nota do tradutor.
[15] Calvin, Commentary, Phil. 4:18.
[16] Para uma história mais completa do tema, veja: Perspectives on Tithing: Four Views, editado por David A. Croteau.
[17] Recomendo vivamente a obra do Dr. Kelly: Should the Church Teach Tithing? A Theologian’s Conclusions about a Taboo Doctrine, Writers Club Press, 11 de janeiro de 2000.
[18] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.

