Pergunta: — Tenho lido bastante sobre o dízimo. Penso que significa a décima parte da renda de alguém. Podeis dar-me uma breve — bem breve — história bíblica do dízimo no Antigo Testamento? Desejo especificamente saber se havia um dízimo ou três.
Resposta: — Havia três dízimos sob a Antiga Aliança: — [1] – o dos levitas, [2] – o das festas e [3] – o dos pobres. Estes eram ordenados pela Lei. Uma breve história nos ajudará a compreender sua importância.
O dízimo de Abraão a Melquisedeque é frequentemente apontado como o primeiro dízimo (cf. Hebreus 7:4 – 10). Nesse caso, o dízimo consistia em um décimo dos despojos de guerra, oferecido como tributo a Deus porque Ele concedera a Abraão vitória na batalha (Gênesis 14:18 – 24). Contudo, tratava-se de um “dízimo voluntário”. Assim, essa narrativa não parece ser um caso claro de “dízimo obrigatório”, visto que Melquisedeque inicialmente recusou o presente e Abraão objetou, afirmando que o dízimo era consequência de um voto que havia feito. Votos e ofertas voluntárias não são “dízimos” em sentido estrito, sendo regidos por diferentes leis nas Escrituras — ainda que, por vezes, correspondam a um décimo. Note-se também que o dízimo de Jacó foi igualmente voluntário (Gênesis 28:22).
O episódio do dízimo de José, em Gênesis 47:23, 24, 26, também é instrutivo como base para o dízimo posteriormente codificado na Lei. José estabeleceu que dois décimos (a quinta parte) fossem entregues a Faraó, enquanto o restante ficava com o povo. José seguiu um princípio semelhante ao de Abraão: — o dízimo incidia sobre o que Deus fazia crescer (rebanhos, colheitas), não sobre os produtos de artesãos e comerciantes. O mesmo se verificou depois na Lei de Moisés.
Como já mencionado, sob a Lei mosaica, no Antigo Testamento, havia três dízimos distintos. Alguns os entendem como sobrepostos, mas outros — como eu — os consideram separadamente:
1 – O primeiro dízimo — o dízimo dos levitas.
O primeiro dízimo era entregue aos levitas (Números 18:21). Apenas os membros da tribo de Levi podiam receber esse dízimo (a décima parte). Por sua vez, os levitas deviam dar a décima parte do dízimo recebido aos sacerdotes (Números 18:25 – 28). Diferentemente dos outros dízimos, este substituía o direito de herança na terra de Israel e provia o sustento básico dos levitas e dos sacerdotes arônicos da tribo de Levi. Este dízimo só tinha validade na Terra Prometida (Deuteronômio 12:19).
2 – O segundo dízimo — o dízimo das festas.
O segundo dízimo prescrito era o dízimo das festas (Deuteronômio 16:16). A cada ano, Israel deveria trazer seus dízimos, no plural (Deuteronômio 12:6[1]), os quais seriam separados “e consumidos” durante a festividade (Deuteronômio 12:18[2]). Assim, o primeiro e o segundo dízimo são distintos entre si, pois em Deuteronômio 12:18 o indivíduo recebia o direito de comer do segundo dízimo, especificado como parte da celebração festiva e jubilosa (Veja também Deuteronômio 14:22 – 26).
Até mesmo a história da Igreja registra essa distinção. Em Antiguidades dos Judeus, do historiador judeu Flávio Josefo (37 ou 38 – ca. 100 d.C.), lemos a seguinte declaração: — “Que se retire dos vossos frutos uma décima parte, além daquela que já destinastes aos sacerdotes e levitas. Essa vós podeis, de fato, vender no campo; mas ela deve ser usada nas festas e nos sacrifícios que se celebram na cidade santa. Pois é justo que desfruteis dos frutos da terra que Deus vos concedeu para possuir, de modo que seja para a honra daquele que os doou[3]”.
3 – O terceiro dízimo — o dízimo dos pobres.
O terceiro dízimo era destinado aos pobres (Deuteronômio 14:28, 29). A Igreja tem a obrigação de socorrer os necessitados (Deuteronômio 15:11; João 12:8; Atos 20:35; Gálatas 2:10; 1 Timóteo 5:3). Essa obrigação tem suas raízes no Antigo Testamento. Duas vezes (Deuteronômio 14:28; 26:12, 13), o Senhor ordena um dízimo a ser reservado e distribuído a cada terceiro ano. Este terceiro dízimo devia ser guardado localmente e armazenado em cada cidade ou povoado (Deuteronômio 14:28; 26:12), para o sustento dos levitas e dos pobres da comunidade — o estrangeiro, o órfão e a viúva.
Além disso, os cantos dos campos e os cachos de uva deixados pelos trabalhadores eram reservados aos pobres (Deuteronômio 24:17[4]; Levítico 19:9, 10[5]). Também lhes era permitido comer do que a terra produzia durante os anos sabáticos (Levítico 25:1 – 7; Deuteronômio 15:1 – 11). Josefo escreveu: — “Além daqueles dois dízimos que, como já disse, deveis pagar todos os anos — um para os levitas e outro para as festas — trareis, a cada terceiro ano, um terceiro dízimo, a ser distribuído aos que têm necessidade; também às mulheres que são viúvas e às crianças que são órfãs[6]”.
Outras considerações.
Não dizimar, na economia da Antiga Aliança, era considerado “roubar a Deus” (Malaquias 3:6 – 12). Tratava-se de uma violação da Aliança. Hoje, porém, os cristãos precisam perguntar: — permanecem ainda sob a Lei cerimonial do Antigo Testamento acerca dos “dízimos” (Romanos 6:14; 7:4, 6; Gálatas 5:8), ou são chamados a “dar” com alegria (2 Coríntios 9:7)?
A Igreja do Antigo Testamento foi instruída a ser um corpo doador: — a socorrer, cuidar e amar ao próximo. A Igreja do Novo Testamento encontra-se sob o mesmo mandamento. Entretanto, permanece a questão: — será que o dízimo de 10% é um requisito bíblico sob a Nova Aliança?[7]
Paz e graça.
[1] “E ali trareis os vossos holocaustos, e os vossos sacrifícios, e os vossos dízimos, e a oferta alçada da vossa mão, e os vossos votos, e as vossas ofertas voluntárias, e os primogênitos das vossas vacas e das vossas ovelhas” (ACF).
[2] “Mas os comerás perante o Senhor teu Deus, no lugar que escolher o Senhor teu Deus, tu, e teu filho, e a tua filha, e o teu servo, e a tua serva, e o levita que está dentro das tuas portas; e perante o Senhor teu Deus te alegrarás em tudo em que puseres a tua mão” (ACF).
[3] Antiguidades, Livro 4, Capítulo 8, §8.
[4] “Não perverterás o direito do estrangeiro e do órfão; nem tomarás em penhor a roupa da viúva” (ACF).
[5] “Quando também fizerdes a colheita da vossa terra, o canto do teu campo não segarás totalmente, nem as espigas caídas colherás da tua sega. Semelhantemente não rabiscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro. Eu sou o Senhor vosso Deus” (ACF).
[6] Antiguidades, Livro 4, Capítulo 8, §22.
[7] Para uma análise detalhada, consulte o artigo — “O Dízimo no Novo Testamento?”.
[8] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.

