DA QUEDA DO PRIMEIRO ADÃO À REDENÇÃO DO SEGUNDO ADÃO

Para a leitura cotidiana, a música instrumental que favorece o recolhimento.

Coletânea de Música Clássica

por Bach, Beethoven, Bizet, Boccherini, Boulanger, Bruckner, Burgmüller, Chaminade, Chopin, Debussy, Dvořák, Elgar, Gershwin, Gounod / Liszt, Granados, Handel, Joplin

Para o Dia do Senhor, o canto dos Salmos, próprio da adoração.

Saltério

por Comissão Brasileira de Salmodia

por | 20 jul 2026

A analogia das representações federais e a supremacia da graça redentiva em Romanos 5.

Romanos 5:15 emprega repetidamente o vocábulo grego “πολλοί” (“muitos”), tanto em referência aos efeitos da transgressão de Adão quanto aos efeitos da obra redentora de Cristo. Essa recorrência lexical suscita uma questão hermenêutica fundamental: — Todas as ocorrências de “muitos” em Romanos 5:15 possuem exatamente o mesmo significado semântico, ou o vocábulo é empregado de modo análogo? Em outras palavras, a identidade lexical de “πολλοί” implica necessariamente identidade semântica (univocidade), ou o contexto autoriza uma predicação analógica, cuja significação é determinada pela distinta relação representativa entre Adão e Cristo?

Em Romanos 5:15[1], o vocábulo “πολλοί[2] (“muitos”) não é predicado de modo unívoco nem equívoco, mas analógico[3]. A unidade lexical do termo não implica identidade absoluta de significação; antes, sua significação é determinada pela distinta relação representativa existente entre Adão e Cristo.

A analogia estabelecida pelo Apóstolo Paulo reside na relação representativa entre Adão e Cristo, considerada em referência aos respectivos grupos que cada um representa, e não na identidade da extensão numérica desses grupos. “A correspondência diz respeito à natureza da representação federal exercida por cada cabeça, e não à equivalência quantitativa entre ‘todos os que estão em Adão’ e ‘todos os que estão em Cristo’”. O Apóstolo Paulo diz: — “Muitos morreram por causa do pecado de um só homem [Adão]”. Essa declaração refere-se à humanidade representada federalmente por Adão, que, em virtude de sua representação, participa da condenação e da morte decorrentes de sua transgressão. Contudo, o Apóstolo Paulo também afirma, no mesmo contexto, a superioridade da obra de Cristo: — “Ele dá a salvação gratuitamente a muitos, por meio da graça de um só homem, Jesus Cristo”. Essa declaração refere-se àqueles que recebem a graça e a vida por meio do Senhor Jesus Cristo.

A correspondência entre Adão e Cristo está na estrutura representativa de suas funções como cabeças federais, mas a comparação “não estabelece igualdade quantitativa nem equivalência qualitativa entre suas obras”. Enquanto Adão comunica a condenação “mediante sua transgressão”, Cristo concede gratuitamente a salvação “mediante a abundância de sua graça”. A representação de Cristo, portanto, não apenas corresponde à representação de Adão, mas “a supera qualitativamente”. Ela a supera “quanto à natureza”, porque Adão comunica aos seus representados a consequência de sua transgressão, enquanto Cristo concede gratuitamente aos seus representados a graça e a salvação. Ela a supera “quanto ao efeito”, porque a representação de Adão conduz à morte, ao passo que a representação de Cristo conduz à vida. Assim, a analogia estabelecida pelo Apóstolo Paulo não consiste em uma equivalência entre as obras de Adão e Cristo, mas em uma correspondência representativa na qual a graça de Cristo excede e triunfa sobre os efeitos do pecado de Adão.

O termo “muitos” é o mesmo em ambos os casos, mas não possui exatamente o mesmo “modo de participação”. Não é unívoco, porque a relação com Adão e a relação com Cristo “não são idênticas”: — “Adão comunica culpa e morte por meio de uma solidariedade natural e federal[4]; Cristo, por sua vez, comunica justiça e vida mediante uma união redentiva, pactual e graciosa, realizada sobrenaturalmente[5] naqueles que são eficazmente alcançados pela graça onipotente de Deus, a qual, conforme o próprio contexto de Romanos 5, não é concedida indistintamente a todos os homens (Romanos 5:17[6])”.

Também não há equívoco nisso, pois o Apóstolo realmente estabelece uma correspondência entre ambos: — “assim como uma realidade é comunicada por meio de um representante, outra realidade é comunicada por meio do outro”.

Portanto, afirmamos que se trata de uma analogia de proporção: — “‘os muitos’ designa, em ambos os casos, uma coletividade, porém segundo ordens distintas — uma na esfera da queda e outra na esfera da redenção”. O próprio argumento de Paulo depende dessa analogia assimétrica, expressa pelo contraste entre a “ofensa” e o “dom” [gratuito]. É evidente que não seria correto afirmar uma equivalência entre ambos quanto à natureza das realidades que representam, pois exprimem duas ordens diametralmente opostas. A ofensa de um representante federal comunica, de modo natural e judicial, a culpa e a condenação a toda a humanidade nele representada; o dom gratuito do outro representante comunica, pela graça e mediante a fé, a justiça e a vida aos que lhe pertencem. São, portanto, “duas realidades distintas” e “dois modos diversos de comunicação”.

A ofensa “pressupõe um demérito”, pois ela é uma ação culpável praticada contra uma norma ou autoridade legítima. O agente da ofensa age de modo contrário ao que é devido, tornando-se merecedor de uma consequência penal. Assim, a ofensa possui uma relação necessária com a culpa e com a imputação de responsabilidade: — “Ela não é simplesmente uma ação com efeitos negativos, mas uma transgressão que implica culpa e indignidade moral no agente. No caso da ofensa de Adão, essa indignidade não se restringe ao próprio indivíduo, pois, em razão de sua posição representativa como cabeça da humanidade, o demérito decorrente de sua transgressão é imputado e transmitido aos seus descendentes, que participam de sua condição caída por sua união natural com ele. Assim, Adão, como representante pactual, comunica à sua posteridade não uma qualidade moral superior, mas uma condição marcada pela culpa e pela corrupção provenientes de sua ofensa”.

O dom, ao contrário, “não pressupõe qualquer mérito” prévio naquele que o recebe. Sua natureza própria consiste precisamente em ser uma “concessão gratuita”, isto é, algo que procede da benevolência daquele que concede — Deus — e não de uma exigência fundada na dignidade ou no merecimento do recipiente. “O dom não é uma recompensa devida, mas uma dádiva livremente oferecida”. 

“Portanto, a assimetria fundamental está no fato de que a ofensa se relaciona ao demérito do agente [Primeiro Adão], enquanto o dom se relaciona à liberalidade do doador [Deus]. A primeira tem como fundamento a culpa daquele que age; o segundo tem como fundamento a graça daquele que concede. Logo, não há correspondência estrita entre ambos: — a ofensa encontra sua razão no indigno que merece juízo; o dom encontra sua razão não no mérito daquele que recebe, mas na liberalidade do benfeitor, que livremente concede favor por sua própria misericórdia. Sua causa não reside na dignidade do recipiente, nem em qualquer disposição meritória prévia, mas na bondade daquele que outorga gratuitamente”.

É justamente nessa desproporção essencial entre a ofensa e o dom que o Apóstolo Paulo estabelece o fundamento da superioridade da graça, ao declarar: — “não foi assim o ‘dom’ como a ‘ofensa’” (Romanos 5:16). Donde se segue que, ao afirmar tal sentença, Paulo estabelece desde o princípio o contraste que caracteriza a natureza assimétrica da analogia entre Adão e Cristo. Adão, como representante desobediente e indigno, por sua transgressão ofendeu a glória de Deus e, em razão de seu demérito e culpa, comunicou à sua posteridade a condição de afastamento dessa glória (Romanos 3:23[7]). Cristo, porém, como representante obediente e digno, manifesta perfeitamente a glória de Deus e, por sua graça e dom, reconcilia aqueles que lhe pertencem, restaurando-os à comunhão com a glória divina (Romanos 3:24 – 26[8]). “A correspondência entre ambos não consiste em identidade, nem em mera equivalência proporcional, mas em uma relação representativa marcada por uma assimetria fundamental: — enquanto Adão, como representante da humanidade, comunica por sua ofensa o demérito e a condenação decorrentes da transgressão do pecado original, Deus, em Cristo, comunica ao seu povo, pela obediência de seu Amado Filho, o mérito perfeito de sua justiça, sendo Justo, e, pela graça salvadora, a justificação, sendo Justificador. Deus é justo porque exige e satisfaz, na Pessoa do Filho, o pagamento da dívida do pecado, a saber, a morte na Cruz; e é justificador porque concede gratuitamente o perdão na Pessoa do Segundo Adão, Cristo Jesus, nosso Senhor (Romanos 3:26)”. A ofensa comunica aquilo que é devido em justiça; o dom, porém, concede aquilo que jamais poderia ser reivindicado por mérito.

Noutras palavras, a ofensa comunicou ao homem aquilo que justamente lhe era devido em razão de sua culpa: — “‘a condenação e a morte’, pois ‘todos pecaram’ (Romanos 3:23)”. A graça, ao contrário, comunica aquilo que o homem jamais poderia merecer: — “o ‘perdão divino’ (Efésios 1:7[9]), a ‘justificação’ (Romanos 3:24[10]; 5:1[11]), a ‘fé’ — ela mesma apresentada pelas Escrituras divinas como dom de Deus (Efésios 2:8, 9[12]) — e a ‘vida eterna’ na Pessoa de Jesus Cristo (Romanos 6:23[13]; 1 João 5:11, 12[14])”.

É exatamente nesse sentido que a obra de Cristo é “muito mais” (πολλῷ μᾶλλον–pollō mallon). Dito de outro modo, a obra de Cristo é “muito maior” “não porque reproduza o mesmo efeito ou a mesma extensão da condenação estabelecida pela desobediência do primeiro Adão, mas porque opera segundo um princípio inteiramente distinto: — o da graça”. Enquanto a ofensa comunica uma sentença de justiça devida à humanidade representada em Adão, a graça comunica, gratuita e soberanamente, uma salvação que transcende infinitamente todo mérito humano, pois procede da obediência perfeita do Segundo Adão, Jesus Cristo. Aqui se manifesta outra distinção fundamental da analogia: — “a relação entre a desobediência do Primeiro Adão e a obediência do Segundo Adão. Não é correto afirmar que a desobediência de Adão produz os mesmos efeitos da obediência de Cristo, pois a primeira pertence à ordem da queda, sendo realizada por Adão como representante federal de toda a sua posteridade natural, na qual todos pecam em Adão e também subjetivamente por suas próprias transgressões; enquanto a segunda pertence à ordem da redenção, sendo realizada por um só, Jesus Cristo, que comunica justiça a muitos pela graça. Essa justiça não é adquirida mediante a obediência pessoal daqueles que recebem tal benefício, isto é, os eleitos, mas lhes é imputada de modo forense[15], mediante sua união com Cristo pela fé. Portanto, todos os que são salvos o são exclusivamente pela ‘obediência ativa’ e ‘obediência passiva’ de Cristo: — por sua ‘obediência ativa’, mediante a qual cumpriu perfeitamente a Lei de Deus em lugar de seu povo, adquirindo para eles a justiça que lhes é imputada; e por sua ‘obediência passiva’, mediante a qual se submeteu voluntariamente [vicariamente] ao sofrimento e à morte na Cruz, satisfazendo a justiça divina e pagando a dívida do pecado; e todos os que são condenados o são justamente por sua própria culpa. O eleito permanece simultaneamente justo e pecador: — justo pela justiça de Cristo que lhe é imputada, e pecador por sua condição decaída e por seus pecados pessoais. O não eleito permanece somente sob a condenação do pecado, sem a justiça de Cristo que lhe é imputada. O eleito peca ainda como filho, pois, embora permaneça sujeito à fraqueza da natureza caída, foi reconciliado com Deus e recebeu os méritos de Cristo; o não eleito peca como aquele que permanece em oposição a Deus, rejeitando a graça manifesta em Cristo. O eleito recebe, em Cristo, o perdão da culpa herdada de Adão e dos seus próprios pecados cometidos; o não eleito permanece sob a culpa de Adão e tem sua condenação agravada pelos seus pecados pessoais. Assim, para o eleito, tudo procede da graça; para o não eleito, tudo manifesta a justa culpa diante de Deus”.

Essa superioridade da graça não implica qualquer mitigação da justiça divina; antes, pressupõe a sua plena satisfação em Cristo, pois a graça não procede da suspensão da justiça, mas da sua perfeita realização na obra redentora do Filho, como demonstrado. “É precisamente nessa excelência qualitativa da graça, e não em uma mera correspondência quantitativa com a queda, que repousa a afirmação paulina de que a obra de Cristo é ‘muito maior’ (πολλῷ μᾶλλον–pollō mallon), pois sua eficácia não apenas corresponde à ofensa, mas a supera infinitamente’”.

Objeção: — Mas a analogia não exige que a comparação recaia sobre o mesmo objeto considerado sob o mesmo aspecto? Se Paulo, em Romanos 5:15, estabelece uma comparação entre Adão e Cristo, não estaria ele tratando de realidades idênticas quanto ao objeto e ao aspecto formal? Caso contrário, em que sentido seria legítimo afirmar que o termo “muitos” é empregado analogicamente?

Resposta à objeção: — Não. Isso já foi demonstrado, mas convém reafirmar. Em Romanos 5:15, Paulo não compara o mesmo objeto sob o mesmo aspecto formal. O objeto da comparação é a comunicação de uma realidade proveniente da ação de um representante: — “por Adão, a morte é comunicada segundo a ordem natural da queda; por Cristo, a vida é comunicada segundo a ordem sobrenatural da redenção”.

O aspecto formal da analogia está na relação entre “um só” e “muitos”: — “um representante cuja ação produz efeitos sobre aqueles que lhe pertencem. Adão representa toda a humanidade, comunicando-lhe a culpa e a condenação decorrentes de sua transgressão; Cristo representa aqueles que nEle creem, isto é, os eleitos, comunicando-lhes a justiça e a vida pela graça”.

Nesse aspecto, o termo “muitos” possui sentido análogo, pois expressa uma proporção correspondente entre duas relações representativas: — “assim como ‘um só homem’, Adão, do qual procedem ‘muitos’, comunica condenação e morte, também ‘um só homem’, Cristo, do qual procedem ‘muitos’, comunica justificação, graça e vida”. A analogia repousa nessa semelhança estrutural: — “em ambos os casos, há um representante do qual procede uma realidade que alcança ‘muitos’”.

Entretanto, a analogia não implica “identidade absoluta”, pois “a semelhança é acompanhada por uma diferença formal quanto ao modo de participação e à natureza dos efeitos comunicados”. Em Adão, os “muitos procedem de uma ordem natural”, pois todos os seres humanos descendem do primeiro homem e, por isso, participam da condição caída da humanidade: — “todos nascem em Adão sob a corrupção original e estão sujeitos à condenação e à morte”. Em Cristo, porém, os “muitos não procedem de uma ordem natural, mas de uma ordem sobrenatural, fundada na ação espiritual e graciosa de Deus: — não se nasce em Cristo da mesma maneira que se nasce em Adão”.

A união com Cristo ocorre “pela graça divina, mediante a regeneração, o arrependimento e a fé”, pela qual o pecador é incorporado a Cristo e participa de seus benefícios (João 3:3 – 8[16]; Atos 11:18[17]; Efésios 2:8, 9; Romanos 6:5[18]; 9:6 – 8[19]; 1 Coríntios 12:13[20]). A união com Adão ocorre “pela geração natural”, pela qual seus descendentes participam de sua condição caída e de sua culpa representativa (Gênesis 5:3[21]; Romanos 5:12, 18, 19[22]; 1 Coríntios 15:22[23]).

Portanto, se o “muitos” em Cristo fosse entendido no mesmo sentido natural e universal do “muitos” em Adão, seria necessário concluir que todos os homens, assim como procedem naturalmente de Adão, também estariam salvos pelo simples fato de procederem, em última análise, de Deus como Criador. Porém, a Escritura distingue claramente entre a “relação criacional”, estabelecida no Pacto de Obras[24], mediante o qual Adão, como “representante federal” da humanidade, estava vinculado a Deus sob a exigência da obediência perfeita; e a “relação redentiva”, estabelecida na Pacto da Redenção[25], mediante a qual Cristo, como Segundo Adão e substituto [vicário] de seu povo, cumpre a obediência exigida e comunica aos seus os benefícios da salvação.

“Todos os homens recebem de Deus a existência enquanto Criador, mas nem todos participam da vida em Cristo enquanto Redentor; todos morreram em Adão segundo a ordem da queda, mas somente aqueles que estão unidos a Cristo vivem nEle segundo a ordem da graça. Assim, a união com Adão é universal por descendência natural, enquanto a união com Cristo é concedida sobrenaturalmente pela graça mediante a fé”.

A união com Cristo não ocorre pela origem natural do homem enquanto criatura, mas por uma “nova” obra de Deus — a Paligênese[26] — realizada pelo Espírito Santo mediante o novo nascimento. Como o próprio Senhor Jesus Cristo ensina a Nicodemos: — “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3:3). Esse nascimento, porém, não é uma repetição da geração natural, como Nicodemos inicialmente compreendeu ao perguntar: — “Como pode um homem nascer, sendo velho?” (João 3:4), mas uma obra espiritual realizada pelo Espírito de Deus (João 3:5 – 8). Assim, todos nascem em Adão segundo a ordem natural; contudo, ninguém nasce em Cristo segundo essa mesma ordem. A participação em Cristo pertence a uma nova realidade espiritual e graciosa, operada soberanamente por Deus. A própria realidade da condenação e da redenção demonstra essa distinção: — “ninguém nasce salvo; o homem necessita ser unido a Cristo pela graça e receber, mediante a fé, os benefícios de sua obra realizada em um momento determinado da história. Porém, todos nascem condenados sob a ira de Deus, separados de sua comunhão, mortos em seus delitos e pecados, sendo por natureza filhos da ira e inimigos de Deus. Essa condição manifesta-se nas diversas obras carnais da natureza caída: — idolatria, ateísmo, incredulidade, imoralidade, violência, mentira, avareza, bebedice, glutonaria, intemperança e toda sorte de obras provenientes do coração corrompido do homem (Efésios 2:1 – 3[27]; Romanos 1:18 – 32; Romanos 3:10 – 18, 23[28]; Colossenses 1:21[29])”. Assim, a analogia não reside na identidade dos efeitos, mas na correspondência entre duas ordens representativas: — “uma natural, em Adão, que comunica condenação e morte; outra graciosa, em Cristo, que comunica justificação, graça e vida”. A segunda é qualitativamente superior, pois não concede ao homem aquilo que ele justamente merece, mas aquilo que ele jamais poderia alcançar por mérito próprio: — a salvação em Cristo. Portanto, a leitura mais rigorosa seria: — Paulo utiliza uma analogia de proporção. Ele não afirma uma identidade unívoca entre Adão e Cristo, nem uma mera coincidência verbal equívoca. A força do argumento depende precisamente da semelhança ordenada entre duas realidades diferentes. A objeção acima é respondida pelo próprio desenvolvimento do argumento paulino em Romanos 5:16, no qual a estrutura analógica se torna ainda mais evidente, conforme já demonstrado ao longo deste texto.

Por ora, o que foi exposto é suficiente. Que a consciência de cada um seja conduzida à meditação e ao convencimento diante destas verdades; não me deterei mais neste assunto.

Paz e graça.

[1] “Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos” (ACF).

[2] Joseph Henry Thayer (1828 – 1901), autor do clássico Greek–English Lexicon of the New Testament, observa que a expressão “οἱ πολλοί” (“os muitos”), quando empregada com artigo definido, pode significar, conforme o contexto, “a maioria”, “a multidão” ou “o conjunto daqueles pertencentes a um determinado grupo”. Ao comentar a Epístola aos Romanos 5:15 e 5:19, Thayer explica que Paulo contrapõe “ὁ εἷς” (“o um”), referindo-se a Adão ou a Cristo, a “οἱ πολλοί” (“os muitos”). Nessa construção, “os muitos” corresponde ao conjunto integral daqueles representados por cada cabeça federal: — “toda a humanidade em Adão e todos aqueles unidos a Cristo”. Importa notar que Thayer não afirma que “πολλοί” possua, em si mesmo, o significado lexical de “todos”; sua observação é estritamente contextual e decorre da estrutura argumentativa de Romanos 5, onde “os muitos” designa o grupo completo representado por cada um dos dois cabeças federais.

[3] Na Filosofia clássica, especialmente na tradição aristotélica e escolástica, um termo não é simultaneamente unívoco, equívoco e análogo em relação ao mesmo objeto e sob o mesmo aspecto. Essas categorias são modos distintos de significação. A distinção é: — [1] – Unívoco é o termo que possui exatamente o mesmo significado quando aplicado a diferentes coisas. Exemplo: — “animal” aplicado a “homem” e “cavalo” (a natureza significada é a mesma, embora os sujeitos sejam diferentes). [2] – Equívoco é o termo que possui significados totalmente diferentes, apenas com a mesma palavra. Exemplo: — “manga” (fruta) e “manga” (parte da roupa). [3] – Análogo é o termo que possui um significado parcialmente comum e parcialmente diverso; há uma proporção ou relação entre os usos. Exemplo: — “saúde” aplicada ao corpo, ao alimento e à medicina — não significa exatamente o mesmo, mas possui referência ordenada a um princípio comum. Então, dizer que um termo é análogo já significa que ele não é unívoco nem equívoco naquele contexto. A analogia é justamente uma terceira via entre ambos.

[4] Em Adão, os “muitos” abrangem toda a humanidade, porque todos os homens descendem naturalmente do primeiro homem e, por isso, participam de sua condição representativa. Seja compreendida em termos de cabeça federal, seja considerada sob a ordem natural da descendência humana, a realidade permanece a mesma: — toda a raça humana nasce em Adão, participa de sua culpa e de sua corrupção e, consequentemente, encontra-se sob condenação e morte (Romanos 5:12, 15; Salmos 51:5; Efésios 2:1 – 3). Trata-se de uma participação decorrente da própria condição humana enquanto descendência de Adão.

[5] Em Cristo, porém, a participação ocorre segundo uma ordem inteiramente distinta. Os “muitos” não designam toda a humanidade indistintamente, mas aqueles que estão unidos a Cristo “pela graça”. Essa união não decorre da descendência natural, mas da operação sobrenatural e soberana de Deus. A própria Escritura distingue a “descendência natural” da “descendência espiritual” ao afirmar que: — “nem todos os que são de Israel são israelitas” e que “nem por serem descendência de Abraão são todos filhos”, mas “os filhos da promessa são contados como descendência” (Romanos 9:6 – 8). Do mesmo modo, antes mesmo do nascimento de Jacó e Esaú, “não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal, para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama”, Deus declarou: — “Amei Jacó e aborreci Esaú” (Romanos 9:11 – 13). Assim, a participação em Cristo não repousa sobre a linhagem natural, como em Adão, mas sobre a eleição soberana de Deus, pois “não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que usa de misericórdia” (Romanos 9:16). É por isso que Cristo declara: — “Todo o que o Pai me dá virá a mim” e “ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer” (João 6:37, 44). Essa união é realizada pela graça mediante a regeneração, o arrependimento e a fé, todos eles dons de Deus (Efésios 1:4, 5; Efésios 2:8, 9; Filipenses 1:29; Atos 11:18). Por conseguinte, a justificação e a vida não são comunicadas universalmente a todos os homens, mas àqueles que Deus, segundo o seu eterno propósito, une eficaz e salvificamente ao segundo Adão por meio da fé.

[6] “Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo” (ACF). O argumento do Apóstolo Paulo é decisivo. Ele não afirma que todos recebem a abundância da graça; ao contrário, restringe esse benefício àqueles que a recebem, empregando a expressão “οἱ τὴν περισσείαν τῆς χάριτος καὶ τῆς δωρεᾶς τῆς δικαιοσύνης λαμβάνοντες” (“os que recebem a abundância da graça, e o dom da justiça”). O particípio presente substantivado “λαμβάνοντες”, precedido pelo artigo “οἱ”, identifica um grupo específico de recipientes da graça. Além disso, o contexto reforça essa distinção. Em Romanos 5:15, Paulo fala dos benefícios concedidos “a muitos”, sem identificar esse “muitos” como a totalidade dos homens indistintamente. Em Romanos 5:17, porém, ele explicita quem são esses beneficiários: — “os que recebem a abundância da graça, e o dom da justiça”. À luz desse versículo, Romanos 5:19 — “os muitos serão constituídos justos” — deve ser interpretado como referência ao mesmo grupo previamente delimitado. Donde se segue que Romanos 5:17 constitui a chave hermenêutica da segunda metade do capítulo. Ele impede a conclusão de que a justificação e a vida são comunicadas indiscriminadamente a todos os homens, pois Paulo restringe expressamente tais benefícios “aos que recebem a abundância da graça, e o dom da justiça”. Assim, a analogia entre Adão e Cristo não exige identidade numérica entre os grupos representados, mas correspondência quanto ao princípio da representação federal.

[7] “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (ACF).

[8] “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que Ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (ACF).

[9] “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça” (ACF).

[10] “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus” (ACF).

[11] “TENDO sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (ACF).

[12] “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (ACF).

[13] “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor” (ACF).

[14] “E o testemunho é este: — que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida” (ACF).

[15] O termo “forense” deriva do latim “forensis” (“pertencente ao foro”, “ao tribunal”) e designa uma realidade relacionada ao âmbito jurídico ou judicial. Na Teologia da justificação, afirmar que a justiça de Cristo é imputada ao eleito de modo forense significa dizer que “Deus, como Juiz justo, declara o pecador justo diante de sua santa Lei, não com base em uma justiça própria ou em uma transformação moral já realizada nele, mas com base na justiça perfeita de Cristo que lhe é atribuída”. Essa declaração não significa que Deus considere o pecador justo por mera aparência ou por uma ficção jurídica, mas que há um fundamento objetivo para o veredito divino: — “a obediência perfeita e a obra expiatória de Cristo”. Assim como a culpa de Adão é “imputada” à sua posteridade representada nele, a justiça de Cristo é “imputada” àqueles que estão unidos a Ele pela fé. Portanto, a justificação é um ato judicial de Deus, distinto da santificação, embora inseparavelmente ligado a ela: — “Deus declara justo aquele a quem também está conformando à imagem de Cristo (Romanos 3:24 – 26; 4:5 – 8; 5:17 – 19)”.

[16] “Jesus respondeu, e disse-lhe: — Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Disse-lhe Nicodemos: — Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer? Jesus respondeu: — Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te maravilhes de te ter dito: — Necessário vos é nascer de novo. O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (ACF).

[17] “E, ouvindo estas coisas, apaziguaram-se, e glorificaram a Deus, dizendo: — Na verdade até aos gentios deu Deus o arrependimento para a vida” (ACF).

[18] “Porque, se fomos plantados juntamente com Ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição” (ACF).

[19] “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são de Israel; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: — Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” (ACF).

[20] “Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” (ACF).

[21] “E Adão viveu cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, e pôs-lhe o nome de Sete” (ACF).

[22] “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram. Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” (ACF).

[23] “Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (ACF).

[24] A expressão “Pacto de Obras” qualifica a relação pactual estabelecida por Deus com Adão antes da queda, na qual a vida era prometida sob a condição de obediência perfeita. Embora a terminologia não apareça literalmente nas Escrituras, sua substância é amplamente reconhecida a partir de passagens como Gênesis 2:16, 17; Oséias 6:7 (conforme a tradução que verte “como Adão”); Romanos 5:12 – 19; 10:5; Gálatas 3:10 – 12 e 1 Coríntios 15:21, 22. Adão foi constituído cabeça federal da humanidade, de modo que sua obediência ou desobediência produziria consequências para toda a sua posteridade.

[25] O “Pacto da Redenção” (Pactum Salutis), por sua vez, refere-se ao Pacto eterno celebrado entre as Pessoas da Trindade para a salvação dos eleitos. Nela, o Pai escolhe um povo para a vida e o entrega ao Filho (Salmos 2:7, 8; Isaías 42:1; João 6:37 – 39; Efésios 1:3 – 6); o Filho assume voluntariamente a natureza humana, cumpre toda a justiça exigida, satisfaz a justiça divina e adquire a redenção de seu povo (Salmos 40:7, 8; Isaías 53:10 – 12; João 10:17, 18; 17:4 – 6; Filipenses 2:6 – 11; Hebreus 10:5 – 10); e o Espírito Santo aplica eficazmente essa redenção aos eleitos, regenerando-os, concedendo-lhes arrependimento e fé, unindo-os a Cristo, santificando-os e preservando-os até a glória (Ezequiel 36:25 – 27; João 3:5 – 8; 6:63; 16:8 – 15; Romanos 8:9 – 16, 29, 30; Tito 3:5, 6; 2 Tessalonicenses 2:13; 1 Pedro 1:2). Como sintetizou Thomas Goodwin: — “Eu o escolherei para a vida, diz o Pai, mas ele cairá e, assim, não chegará a ser aquilo que meu amor planejou que fosse. Mas eu o redimirei, diz o Filho, daquele estado perdido. Mas, por estar ainda caído, ele recusará essa graça e as propostas dela e a menosprezará, portanto eu o santificarei, diz o Espírito Santo, e vencerei sua injustiça e farei com que aceite a graça” (Goodwin, Man’s restoration by grace, in: The works of Thomas Goodwin, D. D., 1861 1866, reimpr., Reformation Heritage Books, 2006, 7:540).

[26] Uma renovação produzida por Deus (παλινγενεσίας–palingenesias), não uma simples mudança externa ou moral, mas uma nova condição de vida concedida pela ação divina (cf. Mateus 19:28; Tito 3:5).

[27] “E VOS vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência; entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” (ACF).

[28] “Como está escrito: — Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; com as suas línguas tratam enganosamente; peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos. E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo” (ACF).

[29] “A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou” (ACF).

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