“Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21 – ACF).
O estudo verdadeiro é um ato de adoração: — “não mera acumulação de fatos, mas consagração do espírito ao Verbo que ilumina as coisas”.
Consagre-se, temos, obrigatoriamente, de nos entregar completamente a Deus; consagrada ao Deus da verdade em sua totalidade, a nossa vida é dEle em todas as situações que ela integra! O pensamento que não se oferece torna-se soberbo; a inteligência que não se disciplina empobrece. Recolhimento primeiro; trabalho depois, este é o regramento. “A atividade intelectual é uma via que exige ‘silêncio e método[1]’, isto é, consagração e recolhimento, assim como a terra precisa ser arada no outono e repousar no inverno para frutificar no verão. São almas recolhidas, formadas na disciplina do silêncio e da consagração, nas quais a verdade opera longamente em segredo, como a água subterrânea que fecunda silenciosamente as raízes mais profundas de uma árvore, a qual, em sua estação própria, virá a frutificar”. A busca da verdade requer “pobreza de espírito”: — “não aquela miséria espiritual que abdica do pensamento, mas a humildade interior que reconhece os limites da própria razão e abre a alma para ser conduzida à douta ignorância pelo Verbo de Deus”.
Humilha‑te, pois, diante do Verbo!
A pobreza de espírito não empobrece o entendimento; antes, purifica‑o e enriquece-o. Quem se julga rico em entendimento ergue imediatamente uma muralha entre si e a verdade; a soberba intelectual fecha os ouvidos do inteligir, transformando “o pensamento em terreno improdutivo”.
A pobreza de espírito é um recolhimento operoso, é reconhecer as sombras do próprio juízo e convidar a luz primeva a entrar. Não é autoflagelação, é um propósito claríssimo; “é reconhecer que a razão necessita ser nutrida pela tradição, pela oração e pelo silêncio, assim como a vinha, já estabelecida pela terra, pela água e pelo cuidado, requer poda para frutificar”.
Trabalhe com ritmo e paciência; exercite-se como músculos que se fortalecem pela ordem cadenciada e pela repetição. “Contudo, pense que eliminar incompreensões, romper limitações intelectuais, superar ignorâncias e examinar questões complexas podem ser ações arriscadas e potencialmente prejudiciais à construção da piedade. Jamais saberemos qual, dentre as inúmeras misérias que nos assolam, é o alicerce que sustenta o edifício do nosso saber humilde”.
Seguem-se estas imagens que ajudam a como devemos compreender o “pensar pacientemente” e o “empobrecer espiritualmente”: — “Exercícios difíceis preparam o corpo, fortalecendo-o e eliminando indisposições; conteúdos desafiadores iniciam e educam a humildade e a dedicação; pessoas complicadas cultivam a paciência e a compaixão; e tempos difíceis fortalecem o espírito e aumentam a perseverança”.
No Evangelho segundo São João (16:12), o Senhor Jesus Cristo, em seu discurso, não comunica de modo exaustivo todas as coisas aos seus discípulos; antes, declara: — “Ainda tenho muito que vos dizer”. Havia ainda muito a ser ensinado, mas não seria apropriado naquele momento específico, pois os discípulos não poderiam suportar certas verdades. Eles estavam imaturos demais para compreendê-las. Essas verdades se tornariam mais claras à medida que a experiência deles crescesse. Da mesma forma, todos os que desejam construir a sabedoria devem pacientemente, sob muitas súplicas, esperar pelas direções e iluminações divinas; por ora, muitas vezes vindas de um diretor espiritual comprometido.
Que aspiremos não, a um excesso de conhecimentos, mas a conhecimentos espirituais, e que a partir desses façamos o bem, enriqueçamos em boas obras e, que essas, ecoem para a eternidade. Repartamos de boa mente a verdade, a qual é Pessoa, Jesus Cristo, e sejamos comunicativos com humildade. Que entesouremos para um bom fundamento tesouros no céu, para podermos nos apoderar da vida eterna, porque esta consiste em conhecermos a Deus (João 17:3; Romanos 12:3[2]).
A leitura que não transforma é vã, é puramente livresca, é puramente hipotética, é, certamente, dissimulada, pertencente a outro, é conhecimento emprestado; o saber que não açula a virtude “é uma areia fina que escapa entre os dedos”. Estude, portanto, como se orasse: — “com humildade sempre, com atenção sempre e com ardor sempre; porque é sabido que, se orássemos sempre sem humildade, sempre sem atenção e sempre sem veemência, Deus nos abateria pela soberba de nosso coração; e não seria diferente nos estudos”. Submeta o raciocínio às virtudes cardeais — “a ‘prudência’, porque é ela que refreia a precipitação, a ‘fortaleza’, porque é ela que sustém a diligência, a ‘temperança’, porque é ela que evita o excesso de opiniões, e a ‘justiça’, porque é ela que sempre orienta a intenção”.
Eis a verdade, quando afirmamos que, todo tema é parte do todo! Nunca se isole um problema, todo argumento aponta para as causas primeiras e participa da Providência. “Pensar fragmentariamente é amputar a verdade; pensar em vista do todo é restaurá-la, e, em vista do fim [ontológico[3]], estabelecê-la”.
Atleta da inteligência, levanta-te, pois, agora, porque a disciplina intelectual forma o caráter!
Não busques, de nenhum modo, a glória fácil dos homens fracos, muito menos o aplauso que te oferece o dia sem progresso, isto é, aquele pelo qual não te graduaste na virtude; a glória sem serviço é o princípio que guia este mundo, é a regra de toda alma desordenada que tenta encobrir a sua tibieza; busca, sim, a fidelidade que sempre dura, aquela que é diária e que pertence ao ofício, aquela que ecoa, certamente, para a eternidade e para os corações.
Recolhe-te e trabalha, recolhe-te e retoma!
Que cada narração, cada exposição, cada letra, cada sentido e cada sentença seja oferenda a Deus; e que cada ocasião de silêncio — isto é, cada preparação para aquilo que, em sua Providência, Ele santamente determinou para a nossa vida — seja igualmente consagrada a Ele.
Persevera na humildade, a qual é a matriz de toda fecundidade intelectual!
Vai — e faze da tua vida de estudo um ministério fecundo: — “o ofício de traduzir a realidade à luz do Verbo de Deus, para que o mundo veja não apenas conjunturas e sucedidos, mas, que veja, claramente, a causa e o sentido de todas as coisas”. Cultiva, insistentemente, mas pacientemente, o fervor monástico que este mundo tanto rejeita: — “a arte de aprender”. Ela te tornará mais humano, mais sábio e, por fim, mais santo.
“Muitos, caro leitor, vivem no anonimato e evitam os holofotes, os chamariscos da publicidade, não por medo da exposição ou das responsabilidades, mas porque sabem que a vida exterior foi transposta para a interior — a verdadeira vida, da qual toda aparência exterior recebe seu sentido”.
“Neles, a ‘virtude’ não é mero entretenimento moral, mas o único modo de viver perfeitamente diante de Deus e dos homens; é lume. A ‘sabedoria’ não é divertimento intelectual, mas a única maneira de existir em temor diante de Deus e de viver, entre os homens, uma vida verdadeiramente filosófica; é lume. A ‘retidão’ não é artifício moral, mas a concórdia da alma que vive ordenada, isto é, que vive virtuosamente e sabiamente, segundo o que Deus lhe comunicou, para que, diante dos homens, nossas obras sejam compreendidas e o Deus Doador de todo Bem seja sempre glorificado em perfeito louvor santificador; é puro lume! Assim, pois, segue-se que a virtude e a sabedoria convergem num Uno Indivisível: — a retidão, uma única obra que revela quem pertence ao Eterno e que constará nos livros eternos, glorificando a Deus como memorial. Estes, pois, são homens sem espaventos ou pompas, porém densos de ser e de pertencer”.
Da quádrupla distinção entre virtude e dignidade.
“Há alguns homens, que são elevados interiormente, mas homens não elevados exteriormente. Nestes resplandece a excelência da virtude, a retidão da disposição interior e a abundância dos dons espirituais; contudo, não lhes é concedida dignidade pública, honra manifesta ou autoridade visível. Permanecem ocultos aos olhos do século presente, embora sejam preciosos diante de Deus e dos séculos futuros. A esta ordem pertencem muitos homens piedosos, cristãos íntegros e recônditos intelectuais, cujo interior excede em muito a estima que deles fazem os homens”.
“Há outros homens, porém, que são elevados exteriormente sem o terem sido interiormente. Recebem posição, autoridade, fama e distinção pública; todavia, carecem da condição interior que deveria corresponder à dignidade que exercem. Possuem a aparência da sabedoria, mas não a sua substância; ostentam o ofício, mas não possuem a virtude proporcionada ao dever. Assim, pois, se encontram certos diletantes da vida intelectual, que mais amam a glória do saber, sem serviço, do que a própria verdade, com serviço; bem como ministros que ocupam exteriormente o pastorado sem haverem sido interiormente comunicados pela graça, pela piedade e pela vocação legítima”.
“Há ainda aqueles homens nos quais coincidem a elevação interior e a exterior. Estes foram enriquecidos por Deus não somente com dons e virtudes, mas também foram legitimamente constituídos em dignidade e autoridades: — Autoridade de experiência; autoridade de conhecimento; autoridade formal; autoridade material; autoridade moral ou virtuosa; autoridade de governo; autoridade de ensino; autoridade de testemunho; autoridade de caridade. Neles há consonância entre o hábito interior e a operação exterior; entre a substância e a manifestação; entre o caráter e o ministério. A sabedoria que possuem interiormente confirma as autoridades que exercem exteriormente, e as autoridades que exercem exteriormente tornam-se instrumentos da virtude que possuem interiormente. A esta ordem pertencem os verdadeiros mestres, diretores espirituais, os intelectuais íntegros e os bons ministros do Evangelho”.
“Por fim, existem aqueles homens que nem interior nem exteriormente foram elevados. Não possuem virtude, prudência ou sabedoria; tampouco lhes pertence dignidade legítima ou autoridade honrosa. Encontram-se desordenados tanto no interior da alma quanto na exterioridade das obras. A corrupção do coração manifesta-se na desfiguração da conduta, de tal modo que a indigência interior redunda necessariamente em deformidade exterior e no desprezo dos homens. São os homens perversos e os falsos piedosos, nos quais nem a aparência é sustentada pela verdade, nem a verdade é paramentada por qualquer aparência legítima”.
Cumpre, pois, sumarizar cuidadosamente entre a “elevação interior” e a “elevação exterior”. A primeira, elevação interior, radica-se propriamente na qualidade da alma e refere-se principalmente: — “à posse habitual da virtude, recepção dos dons sobrenaturais, à retidão da prudência e à reta disposição de todas as potências espirituais para o seu fim último”; a segunda, elevação exterior, refere-se principalmente: — “à dignidade visível, ao exercício de ofícios, à autoridade pública (civil, política ou eclesial), à estima e reputação que os homens conferem hierarquicamente uns aos outros segundo funções”. Ora, nem sempre ambas coincidem em ato, pois não é necessário que a perfeição do ser interior se manifeste sempre na ordem das aparências externas.
1 – Da primeira distinção — Dos escondidos de Deus.
“(Dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra” (Hebreus 11:38; cf. Mateus 6:4[4]).
Existem aqueles que se elevam pela perfeição interior, permanecendo, porém, na privação exterior. “Estes, pois, são engrandecidos, de fato, pela sabedoria e pela virtude, contudo, permanecem destituídos da dignidade patente, desprovidos do exercício de ofícios, faltos de autoridade pública — seja civil, política ou eclesial —, depostos de qualquer estima, e sem a reputação que os homens, costumeiramente, conferem hierarquicamente uns aos outros segundo suas funções”. Isto se dá, seja pela divina Providência, seja pelas contingências da vida temporal [pela sorte] — segundo os mistérios da divina Sabedoria.
2 – Da segunda distinção — Dos amantes de si mesmos.
“Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mateus 15:8; cf. 2 Timóteo 3:5[5]; Mateus 23:27, 28[6]).
Outros há que recebem “elevação exterior” sem a correspondente “elevação interior”. “Estes obtêm ofícios, títulos e honrarias, mas carecem da formação da alma e da virtude que deveria sustentá-las, vivendo, por conseguinte, da mera aparência da autoridade, sem a realidade que lhe corresponde”.
3 – Da terceira distinção — Dos homens perfeitos[7].
“Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:48; cf. 1 Coríntios 2:6[8]).
Outros, enfim, realizam a devida conformidade entre a “elevação interior” e a “elevação exterior”. “Estes possuem habitualmente a virtude e a sabedoria na alma, isto é, uma disposição estável e ultimada da verdade no íntimo do espírito, e, simultaneamente, exercem de modo legítimo os ofícios e recebem as dignidades externas, de sorte que haja coerência entre o ser e o operar, e o congraçamento entre a disposição interior e a manifestação pública da ordem[9]”.
4 – Da quarta distinção — Dos desordenados na alma e na vida.
“Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives, e estás morto” (Apocalipse 3:1; cf. 2 Tessalonicenses 3:6[10]).
Finalmente, há aqueles que padecem dupla privação, destituídos tanto da “elevação interior” quanto da “elevação exterior”. “Estes não possuem nem a virtude da alma nem a dignidade visível, manifestando assim uma dupla desordem: — interiormente desordenados e, igualmente, desordenados na vida pública, segundo a privação simultânea da forma devida e da realidade correspondente”.
Paz e graça.
[1] O “silêncio”, no sentido mais elevado da vida intelectual, não consiste meramente na ausência de sons exteriores, mas na remoção deliberada de tudo aquilo que dispersa a alma, perturba a intelecção e dissolve a ordem interior do espírito. É silêncio afastar-se do ruído moral e intelectual do século: — da frivolidade, do entretenimento desordenado, da curiosidade vã, do amadorismo, da dissipação contínua, das paixões desgovernadas e de toda forma de agitação que impede a alma de recolher-se à contemplação da verdade. O verdadeiro silêncio é, portanto, uma disciplina da interioridade, pela qual a inteligência se liberta da tirania do supérfluo para ordenar-se inteiramente ao conhecimento, à sabedoria e à contemplação das realidades superiores. Não é mera quietude sensível, mas ascese intelectual. O “método”, por sua vez, é a ordenação racional dos meios em direção à verdade. Consiste não apenas nos caminhos pelos quais a inteligência alcança a compreensão das coisas, mas também no conjunto de disposições, exercícios e instrumentos pelos quais a alma é fortalecida contra tudo aquilo que obscurece o juízo, enfraquece a atenção e corrompe a disciplina do espírito. O método é uma “pedagogia da inteligência” e, ao mesmo tempo, uma estratégia de combate interior. Por ele, a mente aprende não somente a conhecer, mas também a resistir: — “resistir à dispersão, à superficialidade, à preguiça intelectual, à desordem afetiva e à instabilidade do pensamento”. Assim, “enquanto o silêncio purifica o terreno da alma, o método ordena seus movimentos; um remove os obstáculos da sabedoria, o outro conduz positivamente à sua aquisição”.
[2] “Porque, pela graça que me é dada, digo a cada um dentre vós que não saiba mais do que convém saber, mas que saiba com temperança, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (ACF).
[3] Fim no sentido das causas últimas (τέλος–télos).
[4] “Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente” (ACF).
[5] “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” (ACF).
[6] “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” (ACF).
[7] Dupla deve ser a elevação destes que são constituídos em dignidade: — “primeiro, devem ser promovidos interiormente pela graça à excelência da virtude; depois, exteriormente, chamados à excelência do ofício”. Assim como César possui seus representantes junto ao povo para exigir as coisas que pertencem a César, assim também Deus possui os seus representantes junto ao seu povo, para requerer as coisas que pertencem a Deus.
[8] “Todavia falamos sabedoria entre os perfeitos; não, porém, a sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que se aniquilam” (ACF).
[9] Assim como César tem os seus representantes junto ao povo para exigir o que pertence a César, assim também Deus constitui os seus ministros e sábios junto ao seu povo, para requerer o que pertence a Deus; neles, porém, a ordem se encontra elevada à sua forma mais perfeita, pois a autoridade exterior não se dissocia da retidão interior, mas antes a pressupõe e a manifesta, de modo que o exercício do ofício se torna expressão visível da virtude interior e instrumento da ordem divina entre os homens.
[10] “Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu” (ACF).

