DA COMPUNÇÃO DO CORAÇÃO E DA CONSIDERAÇÃO DA MISÉRIA HUMANA

Para a leitura cotidiana, a música instrumental que favorece o recolhimento.

Coletânea de Música Clássica

por Bach, Beethoven, Bizet, Boccherini, Boulanger, Bruckner, Burgmüller, Chaminade, Chopin, Debussy, Dvořák, Elgar, Gershwin, Gounod / Liszt, Granados, Handel, Joplin

Para o Dia do Senhor, o canto dos Salmos, próprio da adoração.

Saltério

por Comissão Brasileira de Salmodia

por | 11 set 2019

Livro I — Capítulos 21 – 22.

1 – Da compunção do coração.

“Se queres fazer algum progresso, conserva-te no temor de Deus e não busques demasiada liberdade; refreia, antes, todos os teus sentidos com a disciplina e não te entregues à vã alegria”. Procura a compunção do coração e acharás a devoção. A compunção descobre tesouros, que a dissipação bem depressa costuma desperdiçar. É de estranhar que o homem jamais possa, nesta vida, gozar perfeita alegria, se considera seu exílio e pondera os muitos perigos de sua alma.

Pela leviandade do coração e pelo descuido dos nossos defeitos não percebemos os males de nossa alma; e, muitas vezes, rimo-nos frivolamente, quando, com razão, devíamos chorar. “Não há verdadeira liberdade nem perfeita alegria, sem o temor de Deus e boa consciência”. Ditoso aquele que pode apartar de si todo estorvo das distrações e recolher-se com santa compunção. Ditoso aquele que rejeita tudo que lhe possa manchar ou agravar a consciência. Peleja varonilmente: — “um costume com outro se vence”.

Se souberes deixar os homens, eles te deixarão fazer tuas boas obras. Não te metas em coisas alheias, nem te impliques nos negócios dos grandes. Olha sempre primeiro para ti e admoesta-te com mais particularidade que a todos os teus amigos. “Não te entristeça a falta dos humanos favores, mas penalize-te o não viveres com tanta cautela e prudência como convém a um servo de Deus e devoto religioso”. Mais útil e mais seguro é para o homem não ter nesta vida muitas consolações, mormente sensíveis. Todavia, se não temos, ou raramente sentimos o consolo divino, a culpa é nossa, porque não procuramos a compunção do coração, nem rejeitamos de todo as vãs consolações exteriores.

Reconhece que és indigno da consolação divina, mas antes merecedor de muitas aflições. “Quando um homem está perfeitamente compungido, logo se lhe torna enfadonho e amargo o mundo todo”. O homem justo sempre acha bastante matéria para afligir-se e chorar. Pois, quer olhe para si, quer para o próximo, sabe que ninguém passa esta vida sem tribulações. E quanto mais atentamente se considera, tanto mais profunda é a sua dor. “Matéria de justa mágoa e profundo pesar são nossos pecados e vícios, aos quais de tal sorte estamos presos, que raras vezes podemos contemplar as coisas do céu”.

Se mais amiúde pensasses na morte que numa vida de muitos anos, não há dúvida que tua emenda seria mais fervorosa. “Se também meditasses seriamente nas penas futuras do inferno, creio que sofrerias de bom grado trabalhos e dores, sem recear nenhuma austeridade”. Mas, como estas coisas não nos penetram o coração e amamos ainda os regalos, ficamos frios e muito tíbios.

É muitas vezes pela fraqueza do espírito que este miserável corpo se queixa tão facilmente. Pede, pois, humildemente ao Senhor que te dê o espírito de compunção, e diz, com o profeta: — “Sustenta-me, Senhor, com o pão das lágrimas e a bebida copiosa do pranto” (Salmos 79:6).

2 – Da consideração da miséria humana.

Miserável serás, onde quer que estejas e para onde quer que te voltes, se não te voltares para Deus. Por que te afliges, quando não te correm as coisas a teu gosto e vontade? Quem é que tem tudo à medida de seu desejo? Nem eu, nem tu, nem homem algum sobre a terra. Ninguém há no mundo sem nenhuma tribulação ou angústia, quer seja rei quer papa. Quem é que vive mais feliz? Aquele, de certo, que sabe sofrer alguma coisa por Deus.

Dizem muitos mesquinhos e tíbios: — “Olhai que boa vida tem este homem: — quão rico é, quão grande e poderoso, de que alta posição! Olha tu para os bens do céu, e verás que nada são os bens temporais, mas muito incertos e onerosos, pois nunca vive sem temor e cuidado quem os possui”. Não consiste a felicidade do homem na abundância dos bens temporais; basta-lhe a mediania. O viver na terra é verdadeira miséria. “Quanto mais espiritual quer ser o homem, mais amarga lhe será a vida presente, porque conhece melhor e mais claramente vê os defeitos da humana corrupção”. Porque o comer, beber, velar, dormir, descansar, trabalhar e estar sujeito a todas as demais necessidades da natureza é tudo, na verdade, grande miséria e aflição para o homem espiritual que deseja estar isento disto e livre de todo pecado.

Sim, muito oprimido se sente o homem interior com as necessidades corporais neste mundo. Por isto roga o profeta a Deus, devotamente, que o livre delas, dizendo: — “Livrai-me, Senhor, das minhas necessidades” (Salmos 24:17). Mas, ai daqueles que não conhecem a sua miséria, e, outra vez, ai daqueles que amam esta miserável e corruptível vida! Porque há alguns tão apegados a ela – posto que mal arranjem o necessário com o trabalho ou com a esmola – que, se pudessem viver aqui sempre, nada se lhes daria do Reino de Deus.

Ó insensatos e duros de coração, que tão profundamente jazem apegados à terra, que não gostam senão das coisas carnais. Infelizes! Lá virá o tempo em que hão de sentir, muito a seu custo, como era vil e nulo aquilo que amaram. Os santos de Deus, e todos os fiéis amigos de Cristo, não tinham em conta o que agradava à carne nem o que neste mundo brilhava, mas toda a sua esperança e intenção se fixavam nos bens eternos. Todo o seu desejo se elevava para as coisas invisíveis e perenes, para que o amor do visível não os arrastasse a desejar as coisas inferiores. Não percas, irmão meu, a confiança de fazer progressos na vida espiritual; ainda tens tempo e ocasião.

Por que queres adiar tua resolução? Levanta-te, começa já e diz: — “Agora é tempo de agir, agora é tempo de pelejar, agora é tempo próprio para me emendar”. Quando estás atribulado e aflito, é tempo de merecer. Importa que passes por fogo e água, antes que chegues ao refrigério (Salmos 65:12). “Se não te fizeres violência, não vencerás os vícios”. Enquanto estamos neste frágil corpo não podemos estar sem pecado, nem viver sem enfado e dor. Bem quiséramos descanso de toda miséria; mas como pelo pecado perdemos a inocência, perdemos também a verdadeira felicidade. Por isso devemos ter paciência, e confiar na divina misericórdia, até que passe a iniquidade (Salmos 52:6), e a vida absorva esta mortalidade (2 Coríntios 5:4).

“Como é grande a fragilidade humana, inclinada sempre ao mal! Hoje confessas os teus pecados, e amanhã cometes outra vez os mesmos que confessaste”. Resolves agora acautelar-te, e daqui a uma hora te portas como quem nada se propôs. Com muita razão nos devemos humilhar e não nos ter em grande conta, já que tão frágeis somos e tão inconstantes. Assim, facilmente se pode perder pela negligência o que tanto nos custou a adquirir com a divina graça.

Que será de nós no fim, se já tão cedo somos tíbios? Ai de nós, se assim procuramos repouso, como se já estivéssemos em paz e segurança, quando nem sinal aparece em nossa vida de verdadeira santidade. Bem necessário nos fora que nos instruíssemos de novo, como bons noviços, nos bons costumes; talvez que assim houvesse esperança de alguma emenda futura e maior progresso espiritual.

Paz e graça.

[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 20 – 22.

[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor — notas e significações.

 

Post relacionado:

DOS MINISTROS ORDINÁRIOS E DE SEU OFÍCIO NA PREGAÇÃO

DOS MINISTROS ORDINÁRIOS E DE SEU OFÍCIO NA PREGAÇÃO

1 – O ministério ordinário é aquele que recebe toda a sua direção da vontade de Deus revelada nas Escrituras Sagradas, e dos meios que Deus instituiu na Igreja para sua edificação perpétua. 2 – Por isso são chamados ordinários, porque podem e são usualmente chamados ao ministério por ordem estabelecida por Deus. 3 – E, porque, em sua administração, têm por regra fixa a vontade de Deus anteriormente revelada por ministros extraordinários, não devem propor nem fazer coisa alguma na Igreja que não lhes tenha sido prescrita nas Escrituras. 4 –...

ler mais
A OBRIGAÇÃO MORAL DO DÍZIMO

A OBRIGAÇÃO MORAL DO DÍZIMO

A OBRIGAÇÃO MORAL pode ser criada somente por alguma intimação da vontade de Deus. Somente Deus pode ligar a consciência. A vontade de Deus pode ser-nos manifesta apenas de um de dois modos: — seja pela “luz da natureza”, seja pela “revelação”. A luz da natureza torna-se manifesta ou por meio da constituição e consciência do homem individual, ou por meio daquelas da raça humana expressas no “consensus populorum[2]”. Aquilo que foi crido sempre, em todo lugar e por todos, é muito propenso a ser verdadeiro; e aquilo que foi sentido como...

ler mais
O USO DA VERDADE EM AUTORES DIVERSOS E O DEVER DE COMBATER O ERRO NA PRÓPRIA COMUNHÃO

O USO DA VERDADE EM AUTORES DIVERSOS E O DEVER DE COMBATER O ERRO NA PRÓPRIA COMUNHÃO

Entre muitos cristãos surge, por vezes, uma aparente tensão intelectual: — como pode alguém ler e até recomendar certos autores de tradições teológicas diferentes — por exemplo, escritores católicos ou filósofos não protestantes — e, ao mesmo tempo, combater com veemência mestres que se encontram dentro do próprio campo protestante? À primeira vista, tal atitude pode parecer incoerente. Contudo, quando se introduzem algumas distinções clássicas da Teologia e da Filosofia, o problema desaparece. A questão não é de incoerência, mas de ordem e...

ler mais

O que você perdeu:

QUE A VERDADE FALA DENTRO DE NÓS, SEM ESTRÉPITO DE PALAVRAS

QUE A VERDADE FALA DENTRO DE NÓS, SEM ESTRÉPITO DE PALAVRAS

Livro III — Capítulo 2. Falai, Senhor, que o vosso servo escuta: — “Vosso servo sou eu, dai-me inteligência para que conheça os vossos ensinamentos. Inclinai meu coração às palavras de vossa boca; nele penetre, qual orvalho, vosso discurso” (1 Reis 3:10; Salmos 118, 36, 125; Deuteronômio 32:2). Diziam, outrora, os filhos de Israel a Moisés: — “Fala tu conosco, e ouviremos: — e não fale Deus conosco, para que não morramos” (Êxodo 20:19). Não assim, Senhor, não assim, vos rogo eu; antes, como o profeta Samuel, humilde e ansioso, vos suplico: —...

ler mais
DA COMUNICAÇÃO ÍNTIMA DE CRISTO COM A ALMA FIEL

DA COMUNICAÇÃO ÍNTIMA DE CRISTO COM A ALMA FIEL

Livro III — Capítulo 1. Ouvirei o que em mim disser o Senhor meu Deus (Salmos 85:8[2]). “Bem–aventurada a alma que ouve em si a voz do Senhor e recebe de seus lábios palavras de consolação!”. Benditos os ouvidos que percebem o sopro do divino sussurro e nenhuma atenção prestam às sugestões do mundo! Bem–aventurados, sim, os ouvidos que não atendem às vozes que atroam (bradam) lá fora, mas à Verdade que os ensina lá dentro! Bem–aventurados os olhos que estão fechados para as coisas exteriores e abertos para as interiores! Bem–aventurados...

ler mais
A NATUREZA E A EXCELÊNCIA DA DEVOÇÃO

A NATUREZA E A EXCELÊNCIA DA DEVOÇÃO

Capítulo 2. Aqueles que desanimavam os israelitas do desígnio de conquistar a terra prometida, diziam-lhes que esta terra consumia os habitantes, isto é, que os ares eram tão insalubres que aí não se podia viver, e que os naturais da terra eram homens bárbaros e monstruosos a ponto de comer os seus semelhantes, como gafanhotos. Deste modo, Filotéia, “o mundo anda a difamar diariamente a santa devoção, espalhando por toda parte que ela torna os espíritos melancólicos e os caracteres insuportáveis e que, para persuadir-se, é bastante contemplar...

ler mais

Descubra mais sobre INSTITUTO REFORMADO SANTO EVANGELHO (IRSE)

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading