DANIEL 9:27

DANIEL 9:27

Na última preleção explicamos como Cristo confirmou o pacto com muitos durante a última semana; pois Ele congregou os filhos de Deus de seu estado de dispersão, quando a devastação da Igreja assumiu um caráter extremamente terrível e miserável. Embora o Evangelho não fosse instantaneamente promulgado entre as nações estrangeiras, todavia somos corretamente informados que Cristo confirmou o pacto “com muitos”, visto que as nações foram diretamente chamadas à esperança da salvação (cf. Mateus 10:5). Embora Ele proibisse os discípulos de pregarem então o Evangelho aos gentios ou aos samaritanos, contudo os instruiu dizendo que muitas ovelhas viviam dispersas pelo mundo fora, e que estava próximo o dia em que Deus construiria um só aprisco (João 10:16). Isso se cumpriu após sua ressurreição. Durante sua vida terrena, Ele começou a antecipar levemente a vocação dos gentios, e assim interpreto estas palavras do profeta: — “Ele confirmará o pacto com muitos”. Pois tomo a palavra “muitos”, aqui, “lā–rab–bîm” (“לָרַבִּ֖ים”), comparativamente em referência “aos gentios fiéis unidos aos judeus[2]. É muitíssimo notório que o pacto divino esteve depositado por um tipo de direito hereditário com os israelitas até que o mesmo favor se estendesse também aos gentios. Portanto diz-se que Cristo renovou o pacto de Deus não só com uma nação, mas em termos gerais com o mundo como um todo. Aliás, admito o uso da palavra muitos como sendo para todos, como no quinto capítulo da Epístola aos Romanos e em outras partes (v. 19), mas ali parece haver um contraste entre a Igreja antiga, crustada (limitada) dentro de estreitas fronteiras, e a Igreja nova, a qual se estende ao mundo inteiro. Sabemos que muitos, outrora estrangeiros, têm sido chamados das regiões longínquas da terra por meio do Evangelho, e assim reunidos aos judeus por meio de aliança, ao ponto de todos desfrutarem da mesma comunhão e todos reconhecidos como igualmente filhos de Deus.

O profeta agora adiciona: — “Ele fará cessar o sacrifício e a oblação durante metade de uma semana”. Devemos relacionar isso com o tempo da ressurreição. Pois enquanto Cristo atravessava o período de sua vida terrena, Ele não pôs termo aos sacrifícios; mas depois de oferecer-se como vítima, então todos os ritos da Lei chegaram ao termo final. Pelas palavras “sacrifício e oblação” o profeta aponta para todas as cerimônias, sendo uma parte expressa pelo todo; como se ele dissesse: — “depois que Cristo se ofereceu em sacrifício eterno, todas as cerimônias costumeiras da Lei foram abolidas; pois de outra forma a morte de Cristo teria sido supérflua, caso Ele não pusesse fim a todas as velhas sombras da Lei”. Embora os sacrifícios continuassem por muitos anos depois da morte de Cristo, todavia não podemos mais chamá-los “legítimos”, pois não se pode apresentar nenhuma razão para que os sacrifícios da Lei ainda agradassem a Deus, exceto sua referência àquele modelo celestial que Moisés viu no monte (Êxodo 25:40). Daí, depois que Cristo se manifestou e expiou todos os pecados do mundo, fez-se necessário que todos os sacrifícios cessassem (Hebreus 8:5). Essa é a intenção do profeta quando diz que Cristo faria cessar os sacrifícios durante metade de uma semana. Ele abarca dois pontos ao mesmo tempo: — “primeiro, Cristo real e eficientemente pôs fim aos sacrifícios da Lei; e, segundo, Ele provou isso ao mundo através da pregação do Evangelho por seus apóstolos”. Observamos, pois, o sentido no qual Deus testificou por meio de seu profeta a cessação dos sacrifícios depois da ressurreição de Cristo. O véu do templo então se rasgou em duas partes; foi proclamada a verdadeira liberdade; os fiéis, pois, podiam sentir-se homens plenamente amadurecidos, e não mais sujeitos àquele governo infantil ao qual se sujeitaram sob a Lei.

Agora vem a lume a segunda sentença do versículo: — já a lemos antes, mas agora a repetimos para renovar a memória. E sobre a extensão ou expansão das abominações ele causará espanto, ou estupefação; e isso até a consumação e determinação, ele se derramará sobre o assolador. Alguns traduzem: — “ela será derramada ou destilada”. Discutiremos as palavras mais adiante. A passagem é obscura, e poderia ser traduzida numa variedade de formas, e por conseguinte os intérpretes diferem muito entre si. Alguns tomam, “kanaph–kə-nap̄” (“כָּנָף”), “uma asa”, por um “querubim”; então mudam os números do singular para o plural, e crêem que o profeta está falando de querubim alado. Isso propicia aos que adotam tal tradução um duplo método de explicá-la. Alguns dizem que “a abominação estará acima das asas”, ou, seja, a arca do concerto, porque o templo foi profanado e a abominação foi tão desastrosa que destruiu até mesmo o próprio querubim.

Outros o toma no sentido causal — “as abominações serão por causa do querubim”. Eu, porém, ignoro essas sutilezas, uma vez que não me comunicam qualquer solidez.

Outros seguem também a versão grega, como citada por Cristo no capítulo 24 de Mateus e outros lugares. Embora Cristo pareça antes fazer menção da mesma abominação, não insistirei neste ponto; apenas farei observação sobre a tradução de uma palavra. Aqueles que traduzem “as abominações da desolação” tratam as palavras de Daniel de forma demasiadamente displicente, como se não houvesse nenhuma dependência gramatical de uma palavra com a outra, ou, tecnicamente falando, nenhum estado de regime. A opinião preferível é aquela que considera a palavra “asa” no sentido de extremidade ou extensão. Outros, ainda, tratam “extremo” como se significasse um estado de desespero; como se o anjo dissesse: — “por conta da extremidade das abominações, enquanto males se acumulam sobre males, sem fim, até que os problemas chegaram ao ponto extremo de desespero”. Outros explicam ainda “a asa das abominações” mais simplesmente pela expansão propriamente dita, como se o anjo declarasse que o templo seria publicamente profanado, e a impureza seria muito mais evidente.

Os intérpretes diferem uma vez mais sobre as palavras “מְשֹׁמֵ֔ם”, “mesmen–mə-šō-mêm”, e “שְׁמַם”, “sem–em”, geralmente traduzidas “tornar-se desolado” e “desolação”. Há quem toma a primeira transitivamente; e outros, como neutra; a segunda significando destruir e devastar, e também admirar e ficar atônito. Penso que essas duas palavras devem ser usadas no mesmo sentido; com se o profeta dissesse “que todos ficarão atônitos na mesma extensão das abominações”; quando perceberem o culto do templo sendo varrido por um dilúvio, então “ficarão profundamente atônitos”. Em seguida ele acrescenta a calamidade que começou quando Deus mostrou que a contaminação do templo se destilaria ou se derramaria sobre aquele que se sentisse atônito. Discutiremos a própria ocorrência para capacitar-nos a entender melhor o sentido das palavras. Não hesito declarar que o intuito de Deus era “subtrair dos judeus toda esperança de restauração”, os quais, bem o sabemos, foram cegados por uma insensata confiança, pressupondo que a presença de Deus se confinaria ao templo visível. Enquanto eram assim inabalavelmente convencidos da impossibilidade de Deus jamais afastar-se deles, seriam privados de sua falsa confiança e não mais se iludiriam por essas promissoras e ilusórias esperanças. E assim a contaminação temporária do templo foi mostrada por Ezequiel (10:18). Pois quando os profetas proclamavam incessantemente a aproximação dos inimigos com o fim de destruir a ambos, “cidade e templo” [como aquilo que ocorreu no ano 70 d.C. – nota do revisor], a maioria do povo escarnecia deles. Em sua opinião, isso subverteria toda sua confiança em Deus, como se considerasse falsa sua palavra, ao prometer-lhes descanso perpétuo no Monte Sião (Salmos 132:14). Aqui Ezequiel relata sua visão de Deus assentado no templo – “Ele, pois, desapareceu e o templo foi privado de toda sua glória”. Mas isso foi apenas temporariamente.

Agora, porém, passamos a tratar da profanação do templo, o que deve provar se eu posso usar a frase eterno e irreparável. Sem a mais leve dúvida, esta profecia cumpriu-se quando a cidade foi capturada e subvertida e o templo totalmente destruído por Tito, filho de Vespasiano. Isso explica satisfatoriamente os acontecimentos aqui preditos. Alguns consideram a palavra “abominação” como sendo usada metaforicamente e para significar a subversão da cidade; mas isso me parece muito forçado. Outros a explicam como indicando a estátua de Calígula erigida no templo; e outros, ainda, como indicativo da bandeira de Tibério, o qual ordenou que as águias (romanas) fossem colocadas no pináculo do templo. Eu, porém, a interpreto simplesmente como indicativo da profanação que ocorreu depois que o Evangelho começou a ser promulgado e do castigo infligido sobre os judeus quando perceberam que seu templo ficou sujeito às mais grosseiras formas de desconsagração, visto que não se dispuseram a admitir o unigênito Filho de Deus como sua verdadeira glória. Outros, ainda, como sendo as doutrinas e superstições ímpias, bem como os perversivos erros com que os sacerdotes se imbuíram. Eu, porém, penso que a passagem marca a mudança geral que ocorreu diretamente depois da ressurreição de Cristo, quando a obstinada impiedade do povo foi plenamente detectada. Foram, pois, convocados ao arrependimento; ainda que tivessem se esforçado em extinguir toda esperança de salvação radicada em Cristo, todavia Deus estendeu-lhes a mão e testou se sua perversidade era ou não passível de cura. Depois que a graça de Cristo foi obstinadamente rejeitada, então seguiu-se a extensão das abominações; ou, seja, “Deus subverteu o templo em total ruína, e fez com que sua santidade e glória se desvanecessem totalmente”. Embora essa vingança não ocorresse imediatamente depois de expirar a última semana, todavia Deus vingou-se suficientemente de seu ímpio desprezo por seu Evangelho; e, além disso, “Ele mostra como não mais carecia de algum templo visível, uma vez que agora Ele dedicou a si o mundo inteiro, desde o oriente até o ocidente[3].

Agora volto uma vez mais à explanação das palavras em separado. Diz o anjo: — “Sobre a extensão das abominações, espanto ou espantoso”; pois alguns acreditam ser a palavra um adjetivo, e outros, um substantivo; mas o significado é este: — “todos ficariam estupefatos, ou atônitos”. Eu não faço nenhuma objeção ao significado já indicado, ou, seja, traduzir a palavra “asa” por “extremo”; pois o sentido então será: — “quando as abominações chegarem a seu auge ou extremo”; e o sentido será o mesmo se usarmos a palavra “expansão”. A intenção de Deus é mostrar-nos a situação extensa da contaminação — “para cima, para baixo, de todos os lados, haviam obscurecido e sepultado a glória do templo”. Daí, por conta do extremo ou expansão das abominações haveriam de ficar atônitos, pois todos ficariam admirados. O anjo parece contrapor tal estupor à soberba; pois os judeus estavam totalmente persuadidos de Deus estar estritamente em obrigação para com eles e da impossibilidade de serem eles separados de seu próprio templo onde Deus fixara sua eterna habitação. Ele prediz a aproximação desse espanto em lugar de sua letárgica segurança.

Em seguida ele acrescenta: — “E até a consumação”. “כָּלָה”, “keleh”, significando “fim” e “perfeição”, tanto quanto “destruição”. Tomo a expressão aqui como equivalente a “consumação” ou “destruição”. Inundará ao ponto de causar perplexidade. Já observei que as palavras implicam esse assombro; matança, ou algo similar, deve ser subentendido antes do verbo. Não há dúvida alguma sobre a intenção do profeta. Ele diz que essa matança seria “como um aguaceiro contínuo, consumindo todo o povo”. Ele fala do povo como que pasmo ante suas calamidades e privado de toda e qualquer esperança de se escapar delas; pois a matança jorrará — “como água” — sobre o povo estarrecido. Entrementes, ele mostra quão loucamente os judeus se deixaram dominar pela soberba e quão ilusoriamente se enganavam supondo que o Todo–Poderoso se comprometera protegê-los permanentemente, a eles e a seu templo visível. “A matança jorrará até a consumação significa até que todo o povo perecesse”. Ele acrescenta ainda outro substantivo: — “até a um determinado fim”. Já desvendamos o significado deste substantivo. Aqui o profeta explica a causa daquela eterna distinção que o Onipotente determinara e decretara ser irrevogável.

Paz e graça.

[1] João Calvino, Comentário de Daniel, Edições Parakletos, Volume 2, p. 268 – 274.

[2] Isso concorda com a Escritura — Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque Ele é a nossa paz, o qual de “ambos os povos [gentios fiéis unidos com judeus]” fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a Lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo [“pacto com muitos”], matando com ela as inimizades (Efésios 2:13 – 16 – ACF) — nota do revisor.

[3] De acordo com os versículos 4, 18, 19, do capítulo 10, e do versículo 23, do capítulo 11 de Ezequiel: — A “glória do Senhor” partiu do templo por estágios: — primeiro, para a entrada da casa (v. 4), depois, sobre os querubins (v. 18), à porta oriental (v. 19); e finalmente para o Monte das Oliveiras (11:23), para o oriente (leste) da cidade — nota do revisor.

[4] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.

DANIEL 9:27

ABORTO E SALVAÇÃO

Há tantos que atribuem a Deus algum grau de autoria pelo mal que existe no mundo; obviamente não é Deus o autor do pecado (do mal), mas o homem, nem violentada é a vontade do homem, nem é removida a liberdade ou eventualidade (probabilidade) das causas secundárias, antes estabelecidas, pois é–nos dito que — “Desde o nascimento se rebelaram os ímpios e se desviaram do caminho certo todos aqueles que vivem mentindo” (Tiago 4:1 – 10; Salmos 58:3; Salmos 51:5; Jó 15:14). Deus é sumamente bom, Espírito puríssimo, infinito em seu ser e em perfeição, e de nenhum modo permitiria existir algum mal nas suas obras, se não fosse onipotente, justíssimo e bom para, mesmo do que é mal, tirar aquilo que é sumamente virtuoso, belo e verdadeiro, já que é terrível em seus juízos. Logo, pertence à infinita bondade de Deus tolerar, e até mesmo contemporizar o mal para deste fazer irromper e irradiar o bem celeste. Ora, um oceano não cabe num copo, aquilo que é finito (humano) não compreenderá jamais o que é infinito, assim, fazendo o homem sempre vã adjetivação e, quaisquer dos homens que atribuir a Deus parte no mal de qualquer natureza sofrerá prejuízo, todavia, sabemos que tudo terminará bem sendo Deus justo juiz e restaurador de tudo que o homem destruiu (Apocalipse 21:1, 4). Mas para aqueles que creem que Ele existe e o buscam (Hebreus 11:6) longo há de ser o descanso e regozijo.

Começo este texto explicando três passagens escriturísticas — é–nos dito nos Salmos 139: — “Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza” (v. 13, 14 – NVI); aqui, a palavra “tecestes” (tricotastes) acompanha–se do cuidado de Deus, da lindeza irretocável por sua criação, é a criança sendo concebida no ventre da mãe com amor divino, longe de quaisquer circunstâncias — distanciado do ódio e desviado do mal —, isto é, os ossos brancos, as veias azuis e as artérias vermelhas foram todas tecidas juntas por Deus. A idéia é repetida no versículo 15, em que “entretecido” significa “bordado com várias cores”; é simplesmente formidável, a criação é fascinante desde o ventre, e o ato divino é perfeito, portentoso e digno, a “terra” é uma metáfora para “útero”, o qual está encoberto, ou “oculto”, da visão, escuro e misterioso. Algo incrível também é–nos dito: — “corpo informe” (v. 16), uma linguagem usada para a argila que ainda não virou pote, ou uma meada de fio ainda não desenrolada e entrelaçada (Ezequiel 27:24). Aqui a aplicação é para um feto de vida humana; pontos imprescindíveis:

1 – Os versículos 19 a 22, traz o entendimento da vida incluir estar ciente dos homens maus entre a população da criação de Deus que estragam a beleza dessa criação.

2 – As afirmações anteriores de Davi são um pouco suavizadas pelo reconhecimento de que a maldade pode estar escondida no recôndito do seu próprio coração. A autocrítica é melhor do que a vingança” (Romanos 2:1 – 16).

Outro texto é de Salomão, Salmos 127, versículos 3 e 4; é–nos dito sobre os filhos duas coisas como palavras–chaves, primeiro refiro a passagem: — “Os filhos são herança do Senhor, uma recompensa que Ele dá. Como flechas nas mãos do guerreiro são os filhos nascidos na juventude”; esta seção a respeito dos filhos deve ser entendida tanto espiritualmente como biologicamente à luz da revelação do Novo Testamento (Filipenses 2:19 – 22) —, afinal, eles foram criados divinamente, e, agora, vivem sob o cuidado e amor dos pais recebendo instruções divinas. O amor e o cuidado pelos filhos honram a Deus. A aliança de Deus com Adão e Eva continha duas condições interdependentes: — “descendentes” e “domínio”. Duas pessoas sozinhas não podiam dominar a terra. Para isso, seria preciso haver descendentes. Para os cristãos, ter filhos é uma resposta à ordem: — “Frutificai, e multiplicai–vos, e enchei a terra, e sujeitai–a” (Gênesis 1:28). Neste Salmos, os filhos chamados de “herança do Senhor”. Isso significa que os filhos pertencem a Deus. Eles são “nossos” somente num sentido secundário. Deus dá filhos aos pais assim como um homem confia a sua fortuna aos seus herdeiros. Jesus Cristo não quer que desprezemos “algum destes pequeninos”, e usa da fé que eles têm em Deus como exemplo aos adultos (Mateus 18:1 – 5, 18). Quando um casal inicia um casamento, dispõe–se a amar, a servir e a sacrificar–se pela próxima geração. Amar e cuidar de filhos é uma das principais maneiras pelas quais honramos a Deus e participamos da construção do seu reino (Mateus 19:14).

Em outra parte é–nos dito sobre o “instruir a criança no caminho em que deve andar” (Provérbios 22:6), uma vez que, há “espinhos e laços no caminho do perverso” (Provérbios 22:5). Instruir tem a idéia de um pai que graciosamente investe numa criança toda a sabedoria, amor, aplicando educação e disciplina que é necessário para que ela se torne plenamente comprometida com Deus. Isso pressupõe a maturidade emocional e espiritual dos pais para fazerem isso. Neste texto “o caminho em que deve andar” significa fazer essa instrução de acordo com a personalidade, dons e aspirações únicas da criança; também significa treinar a criança a evitar quaisquer tendências naturais que ela tenha e que impeça o comprometimento total com Deus (por exemplo, uma vontade fraca, falta de disciplina, suscetibilidade para depressão). Em virtude disso, a promessa é que o desenvolvimento apropriado garante que a criança permanecerá compromissada com Deus. Ora, enquanto, as flechas estão no domínio do arqueiro, é ele quem direciona o itinerário, quando solta–se a flecha, foi o arqueiro responsável pelo destino e acerto ao alvo. Dessa forma, quando os pais ensinam o caminho aos filhos — “eles sairão das mãos dos pais como flechas” — certamente, seguirão pelo caminho da instrução dos pais; sendo que a força dos pais para atirarem as flechas é o próprio Cristo! O alvo que os pais direcionam as flechas é Cristo! E, Cristo também é a razão dos pais acreditarem que, “até quando envelhecer a criança, não se desviará ela do caminho”. Portanto, Cristo seja o Caminho, segundo é de fato, por onde os filhos caminhem alegremente e que sob a oração dos pais sejam instruídos a permanecerem comprometidos a Deus. Tão grande herança temos em mãos, do Senhor, e que cuidado devemos oferecer a tão grande privilégio.

Por fim, é–nos dito que: — “Antes de formá–lo no ventre eu (Deus) o escolhi; antes de você nascer, eu o separei e o designei profeta às nações” (Jeremias 1:5). Aqui, Deus mostra a sua soberania pelo fato de ter formado, santificado (separado) e dado (designado) Jeremias para ser profeta (alguém que é chamado) e porta–voz às nações (Assíria, Babilônia, Egito, Judá e outras).

Mas tudo explicado até aqui, não é para um filho assassinado pelos pais.

Estava interpelando–me: — uma alma é uma alma –, incluindo consciência, razão e disposição (vontade) –, no momento da concepção, e se sim, o que acontece com bebês que são assassinados (abortados) pelos pais?

Aceito como verdadeiro e, credencio escrituristicamente que a única resposta à interrogação imposta, a respondermos radicalmente, é “sim”. Creio que quando Deus cria vida, cria–a de fato, nada incompleto. E, creio que essa vida começa na concepção, e, portanto, a personalidade começa aí. João o Batista, no ventre de sua mãe, é–nos dito, que foi cheio do Espírito Santo. Caro leitor, lembra–se de que o bebê pulou de alegria no ventre? Recorde o que Davi disse: — “[…] em pecado me concebeu minha mãe” (Salmos 51:5; cf. Salmos 139:13, 14). Assim, de um lado, você tem embriões e fetos que são cheios do Espírito Santo, e do outro, você tem um feto pecaminoso. Isso indica um ente criado com personalidade, responsabilidade e que existe uma alma ali, existe, portanto, vida. Essa é a minha posição — a única posição, visto que nasce das Escrituras, que é a “norma normanda” (“norma determinante”) e não a “norma normata” (“norma determinada”) para todas as decisões de fé e vida — essa é a verdade contida na Escritura Sagrada; é a palavra de Deus.

Se você estudar as passagens sobre os caminhos, um largo e outro estreito, sendo poucos os que encontram o último, pode ser que o céu será mais populado pela taxa de mortalidade e de aborto, do que será pela fé. O motivo é que, eu creio, que quando as crianças morrem, em algum ponto no tempo após sua personalidade ser iniciada, elas estarão com Deus. Assim, pode ser que encontremos no céu uma grande quantidade dessas pessoas, e, talvez, essa é a razão da taxa de mortalidade ser tão alta em países não cristãos. Deus é misericordioso, e a salvação pertence, e vem do Senhor.

Não é diferente aqui no Brasil. No meio de uma nação concebida, coordenada e sistematizada por homens desalmados, impiedosos e de cultura ignorante, sendo imorais, endiabrados e imprestáveis, Deus, sim, o Deus Todo–poderoso faz convergir a malignidade dos homens de selvageria, ferocidade e iniquidade, em glória para si — salvando bebês abortados — julgando já com desprezo esses tais assassinos (Romanos 1:28 – 31), os quais conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem (Romanos 1:32).

A epítome latina “Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo” — literalmente, se não posso dobrar o céu, então moverei as regiões infernais, se não posso mover o Deus de cima, moverei o deus debaixo, reflete o orgulho ímpio sobre duas perspectivas. O inconsciente propriamente dito, isto é, o vasto domínio das regras obscenas que permeia sua vida e aquilo que regula diariamente a esfera pública e mais profundamente a esfera íntima. Observe quão cuidadoso é o ímpio quanto ao perigo do decreto do homem, e o cuidado que toma em não o quebrar, mas que não está apreensivo com as obrigações da Lei de Deus e os terrores de sua ira. O ímpio considera o que homem tem feito, não o que Deus tem feito, contra tais práticas pecaminosas e contumazes, pois “do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade em injustiça” (Romanos 1:18). Eles, os ímpios, temem o laço armado contra sua vida mais do que o laço armado contra sua alma. É comum para pecadores terem mais medo do castigo dos homens do que do julgamento justo de Deus. Há lamento, pranto e muitos ais nesse erro absurdo por parte dos ímpios, pensam eles que guiam suas vidas a parte de Deus, mas descobrirão aqui ou depois da morte que não.

Então, os bebês e outros incapazes de professar a fé em Cristo Jesus vão automaticamente para o céu?

As pessoas frequentemente se perguntam sobre o destino eterno dos bebês e daqueles “incapazes” de entender intelectualmente o Evangelho. A questão é difícil. Infelizmente, a Escritura não nos oferece nenhuma resposta explícita. Contudo, baseado em várias passagens, bem como num entendimento do caráter de Deus e seus tratamentos com os homens, podemos desenvolver uma boa idéia de como Deus age em tais situações.

2 Samuel 12:23 é uma das passagens frequentemente citadas para implicar que os bebês vão para o céu. Embora o versículo não diga isso explicitamente, Davi claramente espera um dia reunir–se com sua criancinha falecida. Visto sabermos que Davi é um crente cujo destino foi o céu, podemos inferir que sua esperança de reunião significa que ele esperava que sua criança estivesse no céu. Assim, 2 Samuel 12:23 sugere forte evidência para um destino celestial dos ainda não–nascidos e das crianças que morrem na infância.

Aparece aqui uma promessa maravilhosa para todos os que perderam uma criança: — “Eu irei a ela”.

Se esse versículo fosse tudo que apoiasse a minha posição, admitidamente ela não seria muito convincente para os tolos. Contudo, existem outras evidências que apontam para a mesma conclusão. Primeiro, a Escritura ensina claramente que Deus se preocupa profundamente com as crianças. Passagens como Mateus 18:1 – 6 e 19:13 – 15 afirmam o amor do Senhor por elas. Esses versículos não declaram que as crianças vão para o céu, mas mostram o coração de Deus por elas. Ele criou e cuida delas, e, além disso, sempre realiza sua perfeita vontade em cada circunstância.

O salmista nos lembra de que Deus é “cheio de compaixão, e piedoso, sofredor, e grande em benignidade e em verdade” (Salmos 86:15). Ele é o Deus que se tornou carne, para que pudesse levar nossos pecados por sua morte na cruz (2 Coríntios 5:21). Ele é o Deus que confortará os cristãos no céu, pois, “limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor” (Apocalipse 21:4). Podemos estar seguros que Deus fará o que é certo e amável, pois, Ele é o padrão de justiça e amor. Apenas essas considerações parecem ser evidências suficientes do amor particular e eletivo de Deus, mostrado para com aqueles que morrem na infância, ou mesmo antes dela (abortados).

O amor é caso de vida e morte, um assunto pessoal; sem o amor do outro, está–se sozinho e incompleto, é amor faminto e voraz. O amor tem lugar próprio, as provisões necessárias e o poder triunfante para responder quaisquer assuntos da vida, e quando nega–se respostas oferecidas pelo amor, há morte, há aborto. A linguagem do amor finaliza toda a comunicação hostil e que traz discórdia, desunião e indisposição, pois proclama uma vida partilhada e engrandece a união, seja em nossa cama, em nossa casa ou nas aflições da vida, o amor sustenta todo caos, ele cria e renova todas as coisas, e se escondemos esta essência que é o amor, perturbamo–nos sem respiração e morremos (Salmos 104:29, 30) — todos nós. O amor possui uma excelência inigualável, o amor é um desejo apaixonado pela união da vida. O amor é perfumado e duas vezes bom devido oferecer regozijo e lembranças, coisas agradáveis como um bom perfume gravado em nossa mente de um ponto da nossa história ou de uma criancinha recém–nascida — é como se através do cheiro voltássemos ao passado alegre. A ira humana é diretamente o oposto destrutivo das bênçãos do pacto de amor memorial, e geralmente ocultam ódio contra Deus. A família sem amor é caracterizada pela ira — A ira é semelhante um leproso que mora sozinho, num lugar fora do campo, em contraste com a vida comum da comunidade em amor — A aliança de amor comum é crucial para curar a solidão da lepra. Em outras palavras, a ira familiar faz com que pessoas morram lentamente, mas como leprosos, com dor e distantes de tudo que é fortalecedor e comum da união em amor. Talvez, seja por isso que Jesus Cristo especificamente tenha enviado os discípulos às “ovelhas perdidas da casa de Israel” com uma ordem de “limpar os leprosos”. Enfim, o amor exige o outro. O amor muitas vezes é intercambiável com a caridade, devido exigir um agente, ele faz do outro um receptáculo do bem. O amor não pode existir sem o outro, razão de existir aqui um padrão trinitário, é–nos revelado que Deus que é amor subsistindo em três pessoas, o Pai que é aquele que ama (amans) o Filho Amado (amatur) sendo o Espírito essencialmente o elo desse eterno amor. Uma vez indagado, por qual razão, o paraíso seria perfeito? Respondi, porque Deus é amor, uma vez que, é–nos dito que somente Ele é amor. Ora, o que vale um paraíso sem amor? Portanto, amem o outro, não somente os nascidos, mas aqueles que ainda não nasceram, e sejam amados por Deus — mas caso não ocorra assim, Ele odiará a todos devido a sua santidade exigir reparação em detrimento da maldade.

Contudo, outro ponto pode ser útil ao responder essa pergunta.

Embora os infantes e crianças pequenas não tenham senso do pecado e da necessidade de salvação, nem colocam sua fé em Cristo Jesus, a Escritura ensina que a condenação é baseada na clara rejeição da revelação de Deus – quer geral ou específica – não na simples ignorância dela (Lucas 10:16; João 12:48; 1 Tessalonicenses 4:8).

Podemos dizer definitivamente que os infantes e crianças pequenas compreenderam a verdade demonstrada pela revelação geral de Deus, que os torna “inescusáveis (indesculpáveis)” (Romanos 1:18 – 20)?

Eles serão julgados de acordo com a luz que receberam. A Escritura é clara que as crianças e os ainda não–nascidos possuem o pecado original, incluindo a propensão ao pecado, bem como a culpa inerente do pecado original. Mas poderia ser que de alguma forma a expiação de Cristo Jesus pagou pela culpa desses pequeninos indefesos? Sim, e, portanto, é uma suposição aceitável que uma criança que morra numa idade muito precoce para ter uma rejeição consciente e deliberada de Jesus Cristo, será levada para estar com o Senhor.

Robert Charles Sproul (1939 – 2017) ao ser questionado: — “Quando um bebê morre, ou é abortado, para onde vai a sua alma?”. Respondeu: — “A maneira como esta pergunta foi feita indica uma certa ambiguidade a respeito do relacionamento entre aborto e morte. Se a vida começa na concepção, então aborto é um tipo de morte. Se a vida não começa senão com o nascimento, então, obviamente, o aborto não envolve morte. A visão clássica do assunto é que a vida começa com a concepção. Se isto é certo, então a questão da morte da criança ou da morte pré–natal envolve a mesma resposta”.

A qualquer hora que um ser humano morre antes de alcançar a idade da responsabilidade (que varia de acordo com a capacidade mental), precisamos confiar em provisões especiais da misericórdia de Deus. A maioria das Igrejas crê que existe tal provisão especial da misericórdia de Deus. Esta posição não envolve a suposição que as crianças são inocentes. Davi declara que ele nasceu em pecado e foi concebido em pecado. Com isto ele estava se referindo obviamente à noção bíblica de pecado original. Pecado original não se refere ao primeiro pecado de Adão e Eva, mas ao resultado daquela transgressão inicial.

Pecado original refere–se à condição de decaídos que afeta todo ser humano. Nós não somos pecadores porque pecamos, mas pecamos porque somos pecadores. Ora, um cachorro não torna–se cachorro porque late, mas late devido ser cachorro, é próprio da natureza do cachorro latir. Isto é, nós pecamos porque nascemos com uma natureza pecaminosa. Embora os infantes não sejam culpados de um pecado real, estão manchados com o pecado original. Por isso, insistimos em que a salvação das crianças depende não de sua suposta inocência, mas da graça unicamente de Deus.

Minha Igreja em particular (Igreja Reformada Santo Evangelho) crê que os filhos de cristãos, que morrem na infância, vão para o céu pela graça especial de Deus; é a posição oficial. O que acontece aos filhos dos não–crentes é deixado na esfera do mistério. Creio que haja uma provisão especial da graça de Deus para eles também. Certamente esperamos que sim (para todas as crianças). Embora tenhamos esperança nessa graça, há pouco ensino bíblico específico sobre a matéria. As palavras de Jesus: — “Deixai vir a mim os pequeninos porque dos tais é o reino dos céus” (Mateus 19:14), nos dão algum consolo; os discípulos consideravam as crianças como um embaraço na obra de Jesus, mas Jesus Cristo as acolhe como súditos do reino e as abençoa. Uma vez que a entrada do reino é pela graça de Deus e não por conquista humana, os pequenos dependentes desfrutam de direito especial às bênçãos da aliança (Mateus 18:1 – 9).

Moody escreveu: — “As crianças deviam ser muito pequenas, algumas talvez fossem bebês (Marcos 10:16). Os discípulos não gostaram da intromissão e repreenderam os pais que trouxeram (Marcos 10:13; Lucas 18:15). Jesus, entretanto, estava sempre interessado nos jovens e fracos. Durante o delicioso momento, fez os discípulos se lembrarem de uma lição esquecida (18:3) — “Dos tais é o reino dos céus” —, Considerando que a entrada no seu reino exige que os homens se transformem em crianças na fé, os discípulos fariam melhor se fossem bondosos com as verdadeiras crianças[1].

Quando o filho de Davi e Bate–Seba foi levado por Deus, Davi lamentou: — “Vivendo ainda a criança jejuei e chorei porque dizia: — Quem sabe se o Senhor se compadecerá de mim, e continuará viva a criança? Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê–la voltar? Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim” (2 Samuel 12:22, 23).

Aqui Davi declara sua confiança de que “eu irei a ela”. É uma referência levemente velada à sua esperança de reunir–se com seu filho no futuro, como já dito antes e ratificado a esta altura. Esta esperança de uma reunião futura é a esperança gloriosa de todos os pais que perderam seus filhos. É a esperança reforçada pelo ensino do Novo Testamento sobre a ressurreição.

Talvez uma grande proporção desta geração, em algum tempo ou outro, tenha derramado lágrimas sobre caixões de criancinhas, e talvez, através deste texto, consolação seja dada a estes. Esse é o objetivo aqui.

Charles Haddon Spurgeon (1834 – 1892) escreveu acerca de 2 Reis 4:8 – 41: — “Geazi perguntou a essa boa Sunamita se estava bem quanto a ela. Ela estava lamentando o filho que havia morrido, e mesmo assim ela disse: — “Vai bem”, ela sentia que sua provação seria certamente abençoada (no final das contas). Geazi também perguntou: — “Vai bem com teu marido?”. Este era velho e avançado em dias, e estava já no processo de amadurecimento final para a morte, mas ainda assim ela disse: — “Sim, vai bem”. Então veio a pergunta sobre o filho que estava morto em casa, e a pergunta renovaria as suas dores: — “Está tudo bem com a criança?”. Ela ainda disse: — “Vai bem”, talvez respondendo assim porque tinha uma fé que ele logo deveria ser restaurado para ela, e que a ausência temporária estava bem, ou ela respondeu assim porque estava persuadida de que fosse o que fosse que tivesse acontecido com o espírito do seu filho, ele estava seguro debaixo do cuidado de Deus, ele (seu filho) estava feliz à sombra das suas asas. Portanto, não temendo que ele estivesse perdido, não tendo qualquer suspeita de que seu filho foi lançado para longe do lugar de gozo — porque tal suspeita teria impedido ela de dar tal resposta — ela disse “sim, o meu filho está morto, mas vai bem”.

Agora, que toda mãe e todo pai, saibam com segurança que tudo está bem com o seu filho, se Deus o tirou de vocês nos dias da infância ou por um assassinato (aborto). Vocês nunca ouviram a sua declaração de fé (pois ele, o filhinho não era capaz de tal coisa), ele não foi batizado no Senhor Jesus Cristo, não foi sepultado com Ele em batismo, não foi capaz de dar aquela “resposta de uma boa consciência para com Deus”, todavia, vocês podem descansar seguros de que tudo vai bem com a criança, bem em um sentido mais alto e melhor do que está bem com vocês mesmos, bem sem limitação, bem sem exceção, bem infinitamente, “bem” eternamente.

Talvez vocês pais, irão dizer: — “Quais razões temos para acreditar que tudo vai bem com o nosso filhinho (já morto)?”.

É–nos dito por Charles Haddon Spurgeon (1834 – 1892): — Antes que eu entre nisso eu faria uma observação. Tem sido maliciosamente, enganosamente e caluniosamente dito a respeito dos Calvinistas, que nós cremos que algumas crianças (mortas) perecem. Aqueles que fazem esta acusação sabem que tal denúncia é falsa. Eu não ouso mesmo esperar, embora desejasse assim poder fazer, que é com ignorância que tais acusadores nos deturpam. Eles impiamente repetem (e nos atribuem) o que (por nós) tem sido negado mil vezes, o que eles sabem não é a verdade. No conselho de João Calvino para Omit, ele toma a promessa justificativa em Êxodo 20:6: — “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos”, dada por Deus para o segundo mandamento: — “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” (Êxodo 20:4, 5 – ACF), e interpreta–a como referindo–se a gerações, e então ele parece ensinar que crianças que têm ancestrais piedosos, isto é, verdadeiros salvos, não obstante quão remotamente na árvore genealógica, morrendo como crianças são salvas. Isso certamente incluirá as crianças mortas de toda a raça humana; dos Calvinistas modernos, não conheço nenhuma exceção, mas todos nós esperamos e cremos que todos que morrem quando crianças são eleitos.

John Gill (1697 – 1771) que tem sido visto como sendo o padrão de Calvinismo, e talvez do ultra–Calvinismo, nunca dá a mínima dica em nenhum momento, nem afirma que qualquer criança tem perecido, mas afirma que isto é um assunto misterioso e nebuloso, mas que é a sua posição, e ele crê que tem as Escrituras para justificar, que os natimortos (feto quando morre dentro do útero materno ou durante o trabalho de parto) não pereceram, mas foram contados com os escolhidos de Deus, e, portanto, entraram no descanso eterno. Nunca temos ensinado contrariamente, e quando somos taxados assim eu o rejeito e digo: — “Você pode ter dito assim, mas nós nunca dissemos assim, e você sabe que nunca dissemos tal coisa. Se você ousar repetir tal difamação de novo, então que a mentira marque na sua face em escarlata, se você ainda tiver a capacidade de sentir vergonha”. Nós nunca nem sequer sonhamos com tais coisas. Com poucas e raras exceções, tão raras que eu nunca ouvi delas a não ser da boca de difamadores, nunca imaginamos que as crianças que morreram em tenra idade têm perecido, e temos crido que entram no paraíso de Deus.

Pontos convictos acerca da salvação de bebês – nascidos e mortos em tenra idade ou natimorto.

[1] – Alguns apóiam a idéia do gozo eternal da criancinha na sua inocência. Não fazemos ou mencionamos tal coisa, cremos que a criancinha caiu em pecado dentro do primeiro Adão — “Assim como todos morrem em Adão”. A posteridade inteira de Adão, infante ou adulta, era representada por ele – ele representou todos, e, quando ele caiu, caiu em lugar de todos os seres humanos (todos caíram dentro dele). Não houve nenhuma exceção na aliança das obras feita com Adão (e no alcance das consequências de sua queda) a respeito das criancinhas morrendo, e estes que estavam incluídos em Adão, mesmo que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, tem a sua culpa original. Estes são “nascidos no pecado e inteiramente em iniquidade, em pecado são concebidos pelas suas mães”, assim diz Davi de si mesmo, e (por inferência) de toda a raça humana. Se são salvas não cremos que seja por inocência natural. Entram no céu pelo mesmo caminho que entramos, são recebidas no nome de Cristo. “Ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto”, e não penso nem sonho que haja um fundamento diferente para a criancinha além do que aquele posto para o adulto.

Por qual razão, então, cremos que as criancinhas mortas são salvas?

Cremos que uma criancinha viva está tão perdida como toda a humanidade, e totalmente condenada pela sentença que disse “no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. Ela é salva por ser eleita. No escopo da eleição, no livro da vida do Cordeiro, cremos que serão achadas milhões de almas que só brevemente apareceram sobre a terra e depois voaram para o céu. Todas elas são salvas por terem sido também, como nós, redimidas pelo precioso sangue de Jesus Cristo. Aquele que derramou seu sangue para todo seu povo comprou–as com o mesmo preço com o qual redimiu os pais delas e, portanto, elas são salvas porque Cristo representou–as e sofreu por elas no seu lugar. São salvas não sem regeneração, pois “aquele que não nascer de novo […]” — o texto não designa um homem adulto, mas uma pessoa, qualquer um ser da raça humana — “aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus”. Sem dúvida, numa maneira misteriosa o Espírito de Deus regenera a alma da criancinha e ela entra na glória e é feita adequada para ser participante da herança dos santos da luz. Que isto é possível é comprovado nas Escrituras. João o Batista, foi cheio do Espírito Santo desde o ventre da sua mãe. Lemos de Jeremias também, que a mesma coisa ocorreu a ele, e de Samuel encontramos que ainda criança o Senhor o chamou. Cremos, portanto, que antes que o intelecto possa funcionar plenamente, Deus o qual não opera segunda a vontade do homem, nem do sangue, mas pela agência misteriosa do seu Espírito Santo, cria na alma da criancinha uma nova criatura em Cristo Jesus, e então ela entra naquele “repouso para o povo de Deus”. Pela eleição, pela redenção, pela regeneração, e em nenhuma outra maneira, a criança entra na glória pela mesmíssima porta pela qual cada cristão em Cristo espera entrar. Se não pudéssemos crer que crianças podiam ser salvas como os adultos, se fosse necessário propor que a justiça de Deus tem que ser infringida, ou que o seu plano da salvação deveria ser ajustado para responder em particular ao caso das criancinhas, então estaríamos em dúvida, mas podemos perceber que é com os mesmos meios, pelo mesmo plano, apoiado no mesmo fundamento, e através das mesmas agências, que a alma da criancinha morta pode contemplar a face do Cristo na eterna glória, e, portanto somos consolados neste assunto.

[2] – Primeiramente, temos que deixar bem claro que a nossa convicção sobre salvação de crianças está fundamentada sobre a bondade da natureza de Deus. Dizemos que a doutrina oposta, que diz que algumas criancinhas perecem e estão perdidas, é inteiramente repugnante ao entendimento que temos sobre aquele cujo nome é “Amor”. Se tivéssemos um Deus cujo nome era Moloque, se Deus fosse um tirano arbitrário, sem benevolência ou graça, poderíamos supor algumas criancinhas sendo lançadas no inferno, mas nosso Deus, que dá sustento aos filhos dos corvos quando clamam, certamente não achará nenhum regozijo no clamor e gritos das criancinhas lançadas para longe da sua presença. Lemos dEle que Ele é tão bondoso que cuida dos bois, que não teria atada a boca do boi que trilha o cereal. Sim, Ele cuida do passarinho no seu ninho e não deixaria morrer a mãe deles enquanto aninhando está os seus pequenos. Ele deu mandamentos e ordenanças até para as criaturas irracionais. Ele providencia comida para o animal mais bruto, e também não negligencia nenhuma minhoca mais do que um anjo, e podemos nós crer que, com tal bondade universal quanto essa, que Ele lançaria a alma da criancinha, digo eu, seria contrário a tudo que temos lido e crido dEle, que a nossa fé enfraqueceria diante de uma revelação que afirmaria um fato tão singularmente excepcional ao grau usual de seus outros feitos. Temos aprendido humildemente a submeter–nos à sua vontade e não nos atreveremos a criticar ou acusar o SENHOR de tudo, nós confiamos que Ele é justo em tudo que Ele quer fazer. Portanto, qualquer coisa que é revelada por Ele, aceitaremos, mas Ele nunca pediu, e Ele nunca pedirá de nós, tão desesperada fé quanto imaginar bondade de Deus na miséria eterna de uma criancinha lançada no inferno. Lembremos que, quando Jonas — o petulante e espontâneo Jonas — desejou a perdição de Nínive, Deus disse a razão pela qual Nínive não deveria ser destruída, ou seja, que continha mais de 120 mil “criancinhas” – pessoas, Ele disse, que não sabiam discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda. Se Deus poupou a Nínive, cuja vida mortal seria poupada, pensaria você que as almas imortais delas, das criancinhas mortas seriam descartadas desnecessariamente? Eu deixo tudo ao seu raciocínio. Não é um caso que devemos ter muitos argumentos. O seu Deus lançaria fora uma criancinha? Se o seu Deus faria isto, então eu estou feliz em dizer que Ele não é o Deus que eu adoro.

Novamente, cremos que lançar no inferno a criancinha que morre seria grosseiramente inconsistente com o caráter revelado do nosso Senhor Jesus Cristo. Quando os seus discípulos impediram os meninos cujas mães ansiosas lhe trouxeram, Jesus disse: — “Deixai vir os meninos a mim e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus”.

Assim Ele nos ensinou, como John Newton (1725 – 1807) corretamente afirmou: — “[…] que tais como estes meninos constituem grande parte do reino de Deus. E, quando consideramos, usando as melhores estatísticas, que é calculado que mais de um terço da raça humana morre ainda criança, e quando consideramos aquelas vastas regiões onde prevalece o infanticídio e os abortos, naturais ou por assassinato, como nos países pagãos tais como a China e outros assim, de modo que talvez metade da população mundial morra antes de chegar à idade da razão — então a instrução do Salvador carrega grande força de fato, dos tais é o reino de Deus”.

Se alguns me relembram que o reino de Deus significa a dispensação da sua graça sobre a terra, eu respondo: — “Sim, é verdade, mas também significa a mesma dispensação no céu, pois enquanto parte do reino de Deus está sobre a terra na Igreja, então, desde que a Igreja é sempre uma, aquela outra parte da Igreja que já está no alto céu também é o reino de Deus”. Contudo, o texto prova isto: — “que criancinhas compõem uma grande parte da família de Cristo e que Jesus Cristo tem amor e amabilidade para com os pequeninos. Quando os meninos clamavam no templo: — Hosana! Ele os reprovou? Não, mas regozijou–se nas infantis exclamações. Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor”. Este texto também parece afirmar que no céu haverá “perfeito louvor” dado a Deus pela multidão dos “querubins” (as criancinhas mortas) que estavam aqui na terra — aqueles pequeninos acariciados no seio dos pais — e subitamente e prematuramente levado ao céu. Não posso crer que Jesus diria às criancinhas: — “Apartai–vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos!”. Eu não posso pensar que seja possível que aquele que é amoroso e terno, quando Ele se assentar a julgar as nações, coloque as criancinhas na sua esquerda e as bana para sempre da sua presença. Como imaginar que Ele poderia dizer às criancinhas: — “Tive fome e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; estando nu, não me vestistes, e enfermo, e na prisão, não me visitastes?”. Como poderiam as criancinhas ter feito isto? Se a maior razão de condenação está nos pecados de consciente e deliberada omissão, então como iria Cristo condenar os infantes e lançá–los na perdição por um pecado que as criancinhas não tinham a possibilidade de cometer, por não terem o poder de fazerem o dever?

Ademais, pensamos que a natureza da graça de Deus, se a consideramos, faz com que seja muito improvável, para não dizer impossível, que uma alma de uma criancinha morta devia ser destruída. O que diz as Escrituras? — “Onde abundou o pecado, superabundou à graça”. Tal verdade não pode ser dita a respeito de uma criancinha lançada na perdição. Sabemos que Deus é abundantemente gracioso, que tais expressões como “as riquezas incompreensíveis de Cristo”, “Deus, que é riquíssimo em misericórdia”, “grande em benignidade”, “abundantes riquezas da sua graça”, e outras tais, são verdadeiras sem exageração e sem hipérbole. Sabemos que Deus é bom para com todos, e que as suas misericórdias são sobre todas as suas obras, e que, na sua graça, Ele pode fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos. A graça de Deus buscou no mundo o pior dos pecadores. Não se desviou do mais vil de todos os vis. Aquele que se auto–intitulou o maior dos pecadores tornou–se participante do banquete do amor de Cristo. Todo tipo de pecado e blasfêmia tem sido perdoado ao homem.

Ele já salvou perfeitamente os que por Cristo se chegaram a Ele e, pergunto: — “Será consistente com tal graça que ela deve ignorar as multidões de multidões de pequeninos que têm a imagem do Adão terrestre, e não coloque sobre eles a imagem do Adão celestial?”. Eu não posso conceber tal coisa. Todo aquele que tem provado, experimentado e tocado da graça de Deus, penso eu, vai instintivamente sentir repugnância e se afastar de qualquer outra doutrina senão esta: — “Que, muito seguramente, aqueles que morrem como criancinhas estão salvos”.

Conclusão.

E, ainda, um dos mais fortes argumentos de sã inferência se acha no fato que as Escrituras positivamente afirmam que o número das almas salvas, no final das contas, será muito grande. No livro de Apocalipse, lemos a respeito de uma multidão a qual ninguém podia contar. O salmista fala dos tais como sendo tão numerosos com as gotículas de orvalho no ventre da manhã. Muitas passagens das Escrituras profetizam para Abraão, como o pai dos crentes, uma semente tão numerosa quanto às estrelas do céu, ou quanto a areia nas praias. Jesus Cristo verá o trabalho da sua alma e será satisfeito, asseguradamente, não é um pouco que o satisfará. O poder e a beleza da preciosa redenção incluem a redenção de uma grande multidão. Em todo lugar nas Escrituras aparece o ensino de que o céu não será um mundo pequeno, e que a sua população não será como um punhado rabiscado nos campos de uma grande fazenda, mas que Cristo será glorificado por dez milhares de dez milhares que foram redimidos pelo seu sangue. De onde virão estes? Considerando o mundo geográfico, somente uma pequena parte dele é usualmente chamada de cristandade! Observe num mapa. Daqueles países que são considerados como sendo de crentes em Cristo, quão poucos de seus cidadãos sequer cogitam em carregar o nome de crente verdadeiro. De quão poucos poderia ser dito que têm pelo menos uma ligação nominal com a Igreja de Cristo? Entre aqueles membros ativos de alguma das poucas Igrejas verdadeiras e fiéis, muitos são hipócritas e não conhecem a verdade! Eu não vejo como possível, a não ser que o milênio seja verdadeiramente literal e terrestre, (que não creio) e assim venha muito em breve e que se estenda muito além de mil anos e seja muito grande a taxa de natalidade e a percentagem dos salvos, eu não entendo como pode ser possível que um número tão grande deve entrar nos céus a não ser a possibilidade de que as almas das criancinhas mortas constituem sua grande maioria. É uma doce crença para a minha mente que serão mais os salvos do que os perdidos, pois em todas as coisas a preeminência será dada a Jesus Cristo, portanto, por que não nisto também, isto é, no aspecto quantitativo? Foi um pensamento de um grande teólogo que talvez naquele dia o número dos perdidos não será em proporção maior em relação ao número dos salvos, do que hoje, o número dos criminosos nas penitenciárias não é em maior proporção em relação a aqueles que estão livres. A minha esperança é que seja assim. De qualquer modo, não é o meu dever perguntar: — “Senhor, são poucos os que serão salvos?”. A porta é estreita, mas o Senhor sabe trazer milhares por ela sem fazê–la mais larga, e nós não devemos tentar esbarrar qualquer pessoa por a estreitarmos ainda mais. Sim! Eu sei que Cristo terá a vitória e que Ele é seguido por hostes inumeráveis, sei que o vil príncipe do inferno nunca terá tantos seguidores quanto Cristo no seu triunfo resplandecente. E, se isto é assim, então as almas dos que morrem como criancinhas têm que estar salvas, numeradas como abençoadas, e irão morar com Cristo no porvir, no céu.

Apenas para terminar: — Suponhamos uma mulher que sofreu um aborto. Posso lhe dizer que a criança está salva agora?

Bem, essa é a minha crença, pois Jesus disse: — “Deixai os meninos, e não os estorveis de vir a mim; porque dos tais é o reino dos céus” (Mateus 19:14). E, creio, está dentro do desígnio de Deus que Ele redime aqueles que não sabem diferenciar a sua mão direita da esquerda (Jonas 4:11). E, esse é um dos sinais da infância. Jesus toma–os para estar consigo.

Isso é confortador para uma pessoa que passou por isso. Que maravilha! Enquanto escrevia este texto com Spurgeon, visitei o meu filho Abraão, na época com apenas sete meses, enquanto dormia (hoje ele tem 4 anos), e dormindo serenamente sorriu sem saber que observava–o, em seu rosto vejo o verdadeiro semblante de um filho de Deus (não digo que não haja pecado nele), mas definitivamente não posso conceber, nem apoiar a idéia de que Deus lançaria Abraão no mais profundo abismo, onde em meio às trevas, ele mesmo sem saber falar, em suas balbuciações gemeria de tormento, e pelos tormentos e fogo eterno sentiria em sua alma a ira de Deus, a ira do Cordeiro, certamente, Deus ama–o, como ao pai ama, creio, pois se Deus não amar uma criancinha de meses, seja viva ou assassinada (pois Deus é Senhor), que não sabe diferenciar, absolutamente nada, a não ser a mãe que alimenta–a, e o pai que embala–a, não posso crer que Deus me ame, visto que já dei motivos suficientes para que Ele não me ame, e nenhum deles anularam seu amor por mim — é a graça, não pode ser recursos humanos; a minha fé seria uma mentira se acreditasse em tal coisa. Certamente, que se Deus me amou uma vez, Ele me amará para sempre — e, juntamente com as minhas criancinhas, quer eles estejam vivos, quer eles estejam mortos, Deus é bom, amoroso e misericordioso para com os seus, para com todos os seus. Sim! Ouça, o Antigo Testamento diz que Ele reúne os cordeirinhos em seu peito e suavemente guia as que amamentam (Isaías 66:10 – 13) Assim, creio, Deus cuida delas — de todas as criancinhas que morreram ou que foram assassinadas.

O homem fia–se num céu que ele mesmo criou astutamente; num deus para si que nasce de sua própria determinação; num caminho que ele estabeleceu que cambia todas às vezes em atalhos quando há obstáculos (sem cruz) e, numa salvação sem salvador, visto que não creem pessoalmente em nada, e confessam tudo. Ora, as coisas propositadamente feitas devem–se reduzir a alguma origem (causa) mais alta, nesse caso, o homem que se coloca como aquele que as criou. Mas é falso, os homens se colocam como a causa de tudo, sempre foi assim (porém, parcamente do mal), mas não são, são apenas criadores daquilo que é essencialmente nocivo (Isaías 64:6). Todas as coisas estão sob a direção de um agente superior que é Deus, razão de ser necessário que as coisas feitas se reduzam a Deus como motor de todas as coisas; como causa eficiente sendo incausado; sendo agente necessário e doador de arquétipos, antes estabelecidos; sendo perfeito e tendo governo de tudo, pois é onipotente e intrinsecamente bom. O homem apenas as falsifica como coisas suas já que não dominam nenhuma parte da vida e não possuem liberdade plena, à vista disso, não são livres para criarem absolutamente nada, entretanto, fazem tais falsificações com o pecado da troca. Esse pecado da troca é atuante do seguinte modo, a troca da verdade pela mentira, que suprime a verdade pela injustiça e que serve a criatura ao invés do Criador que é bendito eternamente (Romanos 1:25). Ora, isso tornar–se–á penoso à humanidade; a troca entre o incorruptível, transcendente e santo Deus pela corrupção de coisas semelhantes a criaturas há de ser pleiteado desses, que auto–iludidos acham que passarão impunes ante Deus. Todas as falsificações oriundas de um coração morto ou de sugestões do diabo serão eternamente requeridas por Deus e, duro há de ser o castigo.

Paz e graça.

Referência: — Spurgeon, Child Salvation — 29 de Setembro de 1861.

[1] Mateus, Comentário Bíblico Moody, p. 93.

DANIEL 9:27

A CANONICIDADE DO NOVO TESTAMENTO

A “Inspiração do Texto Sagrado” é uma qualidade intrínseca – ela é porque é. No entanto, nós podemos perceber essa qualidade inerente, comparando material inspirado com outro que não é. Existem também argumentos outros: — [1] – a unidade da Bíblia – embora escrita por muitos autores humanos diferentes (pelo menos 30), no decorrer de 2.000 anos e em duas (principais) línguas bem distintas (hebraico e grego), ela é coerente, não se contradiz; [2] – profecias específicas e detalhadas, até com o nome próprio da pessoa, dadas com centenas de anos de antecedência, que se cumpriram cabalmente, literalmente; [3] – a própria natureza do conteúdo ou da mensagem – não é o tipo de coisa que o homem gostaria de escrever, mesmo que pudesse, e nem que ele poderia escrever, mesmo que quisesse; [4] – o efeito que produz – a Bíblia tem poder sobrenatural, pois sua mensagem transforma as vidas das pessoas. Dito tudo, no entanto, devemos reconhecer que afirmarmos a inspiração divina da Bíblia é uma declaração de fé – “fé inteligente e que condiz com as evidências, mas fé (não ciência no sentido objetivo)”.

Contudo, existe a questão (aguda) da canonicidade do Texto: — “porque a nossa Bíblia tem o exato sortimento de livros que tem – não mais, não menos e não outros?”. A inspiração diz respeito à ação divina no ato de escrever o material, garantindo o resultado. Já a canonização do texto diz respeito à ação humana, reconhecendo a qualidade divina daquele material. Esse processo de reconhecimento se deu no seio da comunidade da fé – a comunidade hebraica, quanto ao Antigo Testamento, e a comunidade cristã, quanto ao Novo Testamento.

É importante observar que o próprio Senhor Jesus Cristo abonou o Antigo Testamento, citando as diversas seções — Lei, História, Profecia, Poesia — como palavra de Deus, coisa sagrada e de autoridade – os autores humanos do Novo Testamento também. O Antigo Testamento era exatamente a Bíblia deles. Agora, a canonização tem tudo a ver com a preservação do texto. Pois, a comunidade da fé só iria se preocupar em transmitir e proteger os livros “canônicos”, tidos como inspirados. A parte humana na transmissão do texto fica patente, mas será que houve ação divina também, protegendo o texto (a exata redação do texto)? E como medir essa participação divina? Parece-me existir duas linhas relevantes, a lógica e a histórica. Vejamos primeiro a lógica.

Inspiração é resultado ou qualidade da Revelação – com essa linguagem estamos afirmando que o Criador achou por bem transmitir alguma informação objetiva à raça humana. Se o alvo fosse apenas um determinado indivíduo ou grupo, num certo momento histórico, bastaria uma palavra falada. Mas se o alvo foi de alcançar as gerações subsequentes também, então o meio indicado seria exatamente o escrito, como foi (1 Crônicas 16:15 — “a palavra que preservou para mil gerações” – de Adão até nós não passa de 300!). Agora, se o Criador quis que sua revelação chegasse intacta, ou pelo menos de forma íntegra e confiável, até o século XXI, fatalmente teria que vigiar o processo da transmissão através dos séculos.

Teria que proibir a perda irrecuperável de qualquer parte genuína, bem como a inserção indetectável de material espúrio.

A redação original deveria ficar disponível, em qualquer geração, às pessoas interessadas o suficiente para pagarem o preço necessário (tempo, viagem, dinheiro) para haver essa redação — “no geral as pessoas se dariam por satisfeitas com a redação à mão, desde que tida por confiável”. Assim sendo, a pessoa que crê na divina inspiração do Novo Testamento, por exemplo, deve crer também na divina preservação do Novo Testamento – é questão de lógica. Mas, e as evidências históricas – elas sustentam nossa expectativa, ou a desmentem?

Passo a alistar os argumentos históricos mais relevantes para iluminar esta questão[1].

Os próprios autores humanos sabiam que estavam escrevendo “Bíblia”, ou coisa autoritária.

Seus colegas, contemporâneos, também reconheceram que estavam escrevendo “Bíblia”.

Os líderes cristãos do século I e do século II (e III, IV, etc.) utilizaram e citaram material neotestamentário lado a lado com material do Antigo Testamento como sendo palavra de Deus.

Entendendo, como entenderam, que estavam lidando com coisa sagrada, iriam zelar por essa Palavra, vigiando o processo da transmissão.

Dispomos de declarações cabais dessa preocupação a partir do próprio Novo Testamento (Apocalipse 22:18, 19).

Justino Mártir (a. 150 d.C.) escreveu que era costume nas congregações cristãs, quer na cidade quer no campo, ler tanto o Novo Testamento como o Antigo Testamento cada domingo.

Resulta dali que tinham que existir cópias, muitas cópias (não se pode ler sem livro), e teriam que ser cópias boas (os usuários seriam exigentes).

Embora o processo de copiar a mão resulte em erros sem querer, muitas vezes, no início seria possível verificar qualquer cópia contra o Autógrafo (documento original), e principalmente nas regiões mais próximas da Igreja detentora do Autógrafo.

Tudo indica que pelo menos 18 e talvez até 24 dos 27 Autógrafos (2/3 a 8/9) se encontravam na região Egea (Grécia e Ásia Menor).

Foi exatamente nessa área que a Igreja mais prosperou, e ela se tornou o eixo da Igreja até o século IV (pelo menos) (lembrar que Jerusalém foi saqueada em 70 d.C., e provavelmente quaisquer Autógrafos ali existentes foram levados para a Antioquia, ou ainda mais longe).

Foi também nessa área que a língua Grega foi mais usada, e durante mais tempo – foi língua oficial do Império Bizantino, que durou até o século XV (transmissão exata de qualquer texto é possível unicamente na língua original).

A Ásia Menor foi caracterizada também por uma mentalidade conservadora quanto ao Texto Sagrado; na Antioquia surgiu uma “escola” de interpretação literalista (por formação um literalista é obrigado a se preocupar com a exata redação do texto, pois sua interpretação se prende a ela).

Quer dizer, até o ano 300 C., tinha um fluxo cada vez maior de cópias boas, fidedignas emanando da região Egea para o mundo cristão, precisamente porque aquela região reunia todos os requisitos para se impor à confiança da Igreja, quanto ao Texto Sagrado. Em contraste, no Egito a Igreja era fraca, herética, não se usava Grego, não havia nenhum Autógrafo (fatalmente o texto ali existente sempre seria de segunda mão, no mínimo), grassava uma mentalidade alegorista – enfim, o Egito seria um dos últimos lugares onde procurar um texto bom.

Aí houve a campanha de Diocleciano (303 d.C.), visando destruir os MSS do Novo Testamento sendo que a perseguição mais ferrenha se deu exatamente na região Egea, teria sido uma oportunidade perfeita para os tipos de texto existentes no Egito e na Itália conquistarem espaço maior no fluxo da transmissão do texto, fossem considerados aceitáveis ou viáveis. Mas não aconteceu; os grandes pergaminhos ℵ, B e D não têm “filhos” [D tem um, copiado 300 anos depois] – ninguém quis copiar semelhante texto.

Aliás, podemos deduzir que a campanha de Diocleciano teve um efeito purificador na transmissão. A grosso modo, os MSS menos preciosos e respeitados seriam os primeiros a serem entregues à destruição; já os exemplares mais cotados e respeitados seriam protegidos a qualquer custo, e uma vez que a perseguição passou serviriam de base para suprir as Igrejas com cópias boas novamente. O movimento Donatista girou em torno da punição merecida pelas pessoas que entregaram seus MSS (entre outras coisas). Obviamente muitos não entregaram, e os que sim entregaram foram

É geralmente reconhecido por eruditos de todas as linhas teóricas que a partir do século IV o fluxo da transmissão do texto foi tranquilamente dominado por um tipo de texto, geralmente conhecido por “Bizantino” em nossos dias. “Bizantino” porque esse Império abrangeu exatamente a região Egea, a região que reunia todas as qualificações necessárias para garantir a transmissão fiel do texto. Até hoje as “Igrejas Ortodoxas” do Oriente utilizam esse tipo de texto.

Lá pelo século IX houve um “movimento” (parece que foi mais ou menos espontâneo) no sentido de mudar o estilo de grafia de letras maiúsculas (unciais) para cursivas (minúsculas). Os exemplares antigos eram copiados na nova “roupagem” e aparentemente grande número desses antigos foram destruídos ou reciclados (daí os “palimpsestos”).

Dos MSS gregos existentes hoje (do Novo Testamento), uns 95% trazem o texto “Bizantino” e os outros 5% são um tanto heterogêneos (o erudito Frederic Wisse fez uma comparação minuciosa de 1.386 MSS gregos nos capítulos 1, 10 e 20 de Lucas e chegou à conclusão de que apenas oito deles representavam o tipo de texto egípcio, geralmente chamado “Alexandrino” em nossos dias – oito contra 1.375!).

Cabem aqui algumas ressalvas.

A mera antiguidade dum MS não garante nada quanto a sua qualidade. Aliás, devemos perguntar: — “como poderia um MS sobreviver fisicamente durante mais de 1.500 anos?”. Teria que ficar no desuso e ainda num clima seco. Como todos os MSS mais antigos estão cheios de erros cabais, tudo indica que foram reprovados no seu tempo – certo é que não foram copiados, a julgar pelos MSS existentes.

Como é que não dispomos de MS tipicamente “Bizantino” de antes do século V? Qualquer MS digno de uso seria usado e gasto por esse uso (eu sozinho já desgastei várias Bíblias). Assim, seria estranho encontrar um MS bom com tanta idade. Os MSS fidedignos foram intensamente usados e copiados, e acabados, mas o texto (ou redação) que traziam foi preservado através das sucessivas gerações de cópias.

A idéia de que teria havido um congresso ou concílio no século IV que “normalizou” o texto do Novo Testamento carece de qualquer sustentação histórica. No caso da Vulgata Latina, que na hipótese seria análogo (o papa tentou impor a nova tradução), não resultou o consenso que existe entre os MSS “Bizantinos”.

Como é que a grande maioria dos eruditos dos últimos cem anos  tem  preferido  o  texto  “Alexandrino”  e desprezado o texto “Bizantino”? A resposta está nas pressuposições e no terreno espiritual — por exemplo, nenhum dos cinco redatores responsáveis pelo texto eclético ora em voga acredita que o Novo Testamento seja inspirado por Deus, e o próprio Senhor Jesus adverte que a neutralidade no terreno espiritual não existe (Lucas 11:23). Resumindo, os livros neotestamentários foram reconhecidos como “Bíblia” desde o início, e através das décadas e dos séculos as gerações sucessivas de crentes zelaram pela transmissão fiel desses livros. O texto nunca se “perdeu”; nos primeiros 200 anos era sempre possível constatar a exata redação de qualquer livro. A preservação divina operou durante os séculos todos de tal modo que ainda hoje podemos ter certeza razoável, com base em critérios objetivos, da exata redação original do Novo Testamento, creio — Veja o resumo abaixo.

E daí? Daí, uma preservação tamanha, uma preservação semelhante, abrangendo tantos séculos de transmissão a mão, e passando por tantas tribulações – uma preservação assim é simplesmente miraculosa; é uma prova aparente da atuação divina, que vale dizer também que Deus abonou a escolha da Igreja, o Cânon.

Ao meu ver, o argumento mais contundente e convincente a favor do exato Cânon que a Igreja vem defendendo através dos séculos é exatamente a preservação miraculosa desse Cânon. Essa preservação é igualmente um forte argumento a favor da inspiração do texto. É o argumento lógico.

Se o Criador fosse dar uma revelação a nossa raça, deveria também preservá-la. Constatamos que Ele a preservou, com efeito. Porque Ele cuidou tanto de preservar esse texto, e só esse texto? Presumivelmente porque Ele tinha interesse especial nesse texto.

Conclusão.

Eu, pelo menos, não hesito em afirmar que podemos confiar no exato Cânon que recebemos como herança da comunidade da fé através dos séculos. Assim faço por entender que o próprio Criador, mediante a sua preservação singular, tanto abona como garante esse Cânon.

Resumo.

Resumindo, com base nas evidências até aqui disponíveis, afirmo o seguinte:

A redação original do Novo Testamento nunca se “perdeu”, e a sua transmissão através dos anos foi basicamente normal, sendo reconhecida como matéria inspirada desde o começo.

Esse processo normal resultou em linhas de transmissão.

A fim de delinear tais linhas, manuscritos devem ser agrupados empiricamente com base num perfil/mosaico de variantes em comum.

Tais grupos ou famílias devem ser avaliados por independência e credibilidade.

O maior grupo que é claramente definido é a “Família 35”.

A “Família 35” é demonstravelmente independente de todas as outras linhas de transmissão no Novo Testamento inteiro, capa a capa.

A “Família 35” é demonstravelmente antiga, remontando ao século III, no mínimo.

Os representantes da “Família 35” vêm de toda a área mediterrânea; a distribuição geográfica é quase total.

A “Família 35” não é uma “recensão”; o seu arquétipo não foi bolado em algum lugar ou momento subsequente aos Autógrafos.

A “Família 35” é uma entidade com definição objetiva/empírica no Novo Testamento inteiro; tem um perfil/mosaico demonstrável de Mateus 1:1 a Apocalipse 22:21.

A forma do arquétipo da “Família 35” é demonstrável – já foi demonstrado (ver o apêndice B em “Qual o texto original do Novo Testamento?” – Texto III).

O Texto Original é o arquétipo máximo; daí, qualquer candidato a texto original também precisa ser um arquétipo – isto é, um arquétipo real, verdadeiro, de fato e objetivamente verificável. Só existe um: — “Família 35”.

Que Deus tem interesse na preservação do texto bíblico é evidente: — entendo que passagens tais como 1 Crônicas 16:15, Salmos 119:89, Isaías 40:8, Mateus 5:18, Lucas 16:17 e 21:33, João 10:35 e 16:12, 13, 1

Pedro 1:23 – 25 e Lucas 4:4 podem razoavelmente ser interpretadas como representando uma promessa que as Escrituras (até o til) serão preservadas para o uso do homem (havemos de viver a partir de “cada palavra de Deus”), e até o fim do mundo (“para mil gerações”), mas nenhuma idéia foi dada de exatamente como Deus se propunha a fazê-lo. Havemos de deduzir a resposta a partir do que Ele tem feito – descobrimos que Ele de fato fez!

Esse interesse se reflete na “Família 35”; ela se caracteriza por uma transmissão incrivelmente cuidadosa (contrastando-se com outras linhas de transmissão). Tenho em mãos cópias perfeitas do arquétipo da Família 35 para a maioria dos livros do Novo Testamento (21); tenho em mãos cópias feitas a partir de exemplar perfeito (presumido) para outros quatro (4);  ao  passo  que  continuo  cotejando manuscritos, espero acrescentar os dois que faltam (Mateus e Atos), mas para eles também a forma do arquétipo é demonstrável.

Se Deus estivesse preservando a redação original em alguma outra linha de transmissão, em vez da “Família 35”, seria essa linha menos cuidadosa? Creio que não. Daí, qualquer linha de transmissão caracterizada por confusão interna fica desqualificada – isto inclui todas as outras linhas de transmissão que vi até aqui.

Afirmo que Deus utilizou a “Família 35” para preservar a exata redação original do texto neotestamentário.

Conclusão.

Afirmo que Deus preservou a exata redação original do Novo Testamento e que podemos saber, como de fato sabemos, qual ela é. Esta redação é reproduzida exatamente na minha edição do texto em grego (que também traz um aparato crítico totalmente novo). Meu texto está livremente disponível em www.walkinhiscommandments.com

Paz e graça.

[1] Uma discussão detalhada se encontra no meu livro “Qual o Texto Original do Novo Testamento?”.

[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisão.

DANIEL 9:27

APÊNDICE — A SALMODIA EXCLUSIVA E A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

A expressão cântico de Salmos na Confissão de Fé de Westminster se refere ao “saltério canônico”; ou, é um termo genérico que inclui composições humanas não inspiradas? Na Confissão de Fé[2], nós lemos a respeito do culto religioso: — “A leitura das Escrituras com temor divino; a sã pregação, e a consciente atenção à palavra, em obediência a Deus, com entendimento, fé, e reverência; o cântico de salmos com graça no coração; bem como a devida administração e digna recepção dos sacramentos instituídos por Cristo; são todas partes do culto comum oferecido a Deus”.

De acordo com a confissão, o que é que os cristãos devem cantar durante o culto comum oferecido a Deus? Eles devem cantar Salmos. A pergunta que sempre surge quanto a essa seção da confissão é: — “o termo salmos refere-se ao Livro dos Salmos, canções religiosas em geral, inclusive hinos criados pelos homens, ou a todos os cânticos inspirados da Escritura?”. Os defensores do culto neopresbiteriano gostam de apontar o fato de que a palavra “salmos” não possui inicial maiúscula, como se isso provasse que ela é usada num sentido um tanto vago e genérico. O problema desse argumento é o simples fato de que os autores dos Padrões de Westminster apenas usavam a inicial maiúscula com a palavra salmos quando era utilizada como o título de todo o livro. Observe a seguinte citação do Diretório para o Culto Público a Deus: — “Também recomendamos a leitura mais frequente dessa Escritura, de modo que aquele que a lê deve decidir o que é melhor para a edificação de seus ouvintes, como por exemplo, o livro dos Salmos e semelhantes. Quando o ministro que estiver lendo julgar necessário expor alguma parte daquilo que é lido, que não seja feito até que se conclua [a leitura] de todo o capítulo ou salmo […]. Após a leitura da palavra (e o cântico do salmo), o ministro que irá pregar […]. É dever dos cristãos louvar a Deus publicamente, com o cântico de salmos em conjunto com a congregação, e também particularmente em família. Ao cantar salmos, a voz deve ser harmônica e solenemente impostada; mas a preocupação maior deve ser cantar com entendimento e com graça no coração, louvando ao Senhor. Para que toda a congregação possa participar conjuntamente, todo aquele que sabe ler deve ter um livro de salmos; e todos os demais, não impedidos pela idade ou por outro motivo, devem ser exortados a aprenderem a ler. Mas presentemente, quando muitos na congregação não sabem ler, é conveniente que o ministro, ou outra pessoa apropriadamente indicada por ele ou outro oficial regente, leia o salmo, linha após linha, antes do seu cântico[3].

A citação acima prova que a palavra salmo ou salmos não se refere a cânticos de louvor de um modo geral, inspirados ou não, mas ao “Livro dos Salmos” em particular. Um exame adicional às “Atas da Assembleia de Westminster” [Minutes of the Westminster Assembly] prova que o único livro de cânticos aprovado pela assembleia para o culto público era a versão do Livro de Salmos do Sr. Rouse. O Sr. Reynolds fez um relatório quanto a uma resposta aos Lordes sobre os Salmos do Sr. Barton. Ela foi lida e debatida […]. Esta [é] a resposta à Câmara dos Comuns.

“O Sr. Reynolds fez um relatório quanto a uma resposta aos Lordes sobre os Salmos do Sr. Barton. Ela foi lida e debatida […]. Esta [é] a resposta à Câmara dos Comuns. À ordem — Considerando que a Nobre Câmara dos Comuns havendo, por ordem datada de 20 de novembro de 1643, apresentado os Salmos organizados pelo Sr. Rouse à consideração da Assembleia de Teólogos, esta Assembleia fê-los serem cuidadosamente analisados, e como estão agora modificados e corrigidos, os tem aprovado de fato, e humildemente considera que é útil e proveitoso para a Igreja que sejam autorizadas para o canto público. [1] – À ordem — Que a comissão que analisou cuidadosamente os Salmos deve levar esta [resposta] à Nobre Câmara dos Comuns. [E que] Dr. Temple, Dr. Smith, Dr. Wincop levem a resposta à Câmara dos Lordes[4].

Uma nota de rodapé nos informa qual foi a resposta da Câmara dos Lordes.

[1] – A Câmara resolveu em conclusão “que este Livro de Salmos organizado pelo Sr. Rouse, e cuidadosamente analisado pela Assembleia de Teólogos, seja imediatamente impresso” — Journals of House of Commons [Diários da Câmara dos Comuns], volume IV, p. 342[5].

Os únicos debates que ocorreram na Assembleia de Westminster referentes ao cântico de louvor foram sobre se outras traduções do Livro dos Salmos deveriam ou não ser cantadas nas Igrejas. A Assembleia somente autorizou a versão de Rouse porque “ajustava-se exatamente ao texto original” e por causa da uniformidade e da edificação.

“A Comissão elaborou uma resposta a Câmara dos Lordes sobre os Salmos do Sr. Barton. Ela foi lida e posta em discussão. Resolve sobre a questão. Que seja transcrita e enviada aos Lordes como a resposta da Assembleia à sua ordem. O Sr. Carter Jr. registra seu dissentimento ao voto de enviar esta resposta aos Lordes. [1] – Esta resposta não foi inserida nas Atas, mas foi preservada nos Diários da Câmara dos Comuns, como segue: — À EXCELENTÍSSIMA CÂMARA DOS LORDES REUNIDA NO PARLAMENTO. Esta Assembleia de Teólogos recebeu, em 9 de abril desta Nobre Câmara uma Notificação datada de 20 de março de 1646 — para lhes responder formalmente por que não se deve autorizar nas Igrejas, e aos que desejarem, o uso e o cântico da tradução dos Salmos do Sr. Barton, bem como de qualquer outra tradução — à qual respeitosamente responde o seguinte: — Considerando que em 14 de novembro de 1645, em obediência a uma ordem dessa Nobre Câmara referente aos Salmos do sobredito Sr. Barton, já havíamos lhes recomendado uma tradução dos Salmos em versos produzida pelo Sr. Rouse, e detidamente analisada e corrigida pelos mesmos doutos cavalheiros; a Comissão da Assembleia entendendo que [esta] seria muito útil à edificação da Igreja por ajustar-se tão exatamente ao texto original, e considerando que já existem diversas outras traduções dos Salmos; entendeu despretensiosamente que se fosse concedida às pessoas a liberdade de cantar na Igreja cada uma das traduções que desejassem, pois, de fato, diversas traduções poderiam vir a ser utilizadas ao mesmo tempo em uma única congregação, isso poderia vir a ser uma grande desordem e obstáculo à edificação — Diários da Câmara dos Comuns, volume VIII, p. 283, 284[6].

O último debate relativo ao uso ou não da tradução dos Salmos do Sr. Barton (ou de qualquer outra versão exceto a de Rouse) ocorreu na manhã da quarta-feira de 22 de abril de 1646[7]. Conforme se observa na citação acima, ficou resolvido que seria permitida nas Igrejas somente a versão do Sr. Rouse. Apenas seis meses depois, na manhã da sexta-feira de 30 de outubro de 1646, o capítulo XXI, “Do Culto Religioso”, foi votado e aprovado pela Assembleia[8]. A idéia (que é muito comum hoje) de que a palavra “salmos” no capítulo relativo ao culto religioso inclui hinos não–inspirados é claramente falsa. Será que os puritanos e presbiterianos, na sua insistência quanto ao cântico exclusivo de salmos, extrapolaram os Padrões de Westminster, conforme afirma Frame? Não, absolutamente não! “Se os neopresbiterianos quiserem incluir hinos e corinhos de acampamento em seus atos de culto, os seus concílios apóstatas certamente o aprovarão”. Eles, entretanto, deveriam ser abertos e honestos em admitir que, nesse assunto, são anticonfessionais. Em sua Exposição da Confissão de Fé (1845) Robert Shaw ensina que “o cântico de salmos” na Confissão de Fé significa salmos bíblicos.

“O cântico de salmos. Isso foi ordenado, no Antigo Testamento, como uma das partes do culto ordinário a Deus, e é diferenciado do culto cerimonial (Salmos 69:30, 31). Não foi revogado no Novo Testamento, antes pelo contrário, foi confirmado (Efésios 5:19; Colossenses 3:16). É sancionado pelo exemplo de Cristo e seus apóstolos (Mateus 26:30; Atos 16:25). Os salmos de Davi foram, segundo o propósito de Deus, criados especialmente para o uso da Igreja no exercício do público louvor, na dispensação anterior, e são igualmente apropriados ao uso da Igreja na presente dispensação. Embora os apóstolos insistam na abolição das práticas rituais, eles jamais insinuam que os salmos de Davi não sejam apropriados para o culto evangélico; se tivessem a intenção de exclui-los da era do Novo Testamento, é de se imaginar que um outro saltério fosse providenciado em seu lugar. No Livro dos Salmos há várias passagens que parecem indicar que o Espírito tencionava que fossem utilizados pela Igreja em todas as épocas. Diz Davi: — “Exaltar-te-ei, ó Deus meu e Rei; bendirei o teu nome para todo o sempre” (Salmos 145:1)[9].

Esta questão não está apenas clara no ensinamento da Confissão de Fé e do Diretório do Culto Público, mas é fato histórico que os presbiterianos da Escócia, Irlanda e América do Norte adotavam “Cântico Exclusivo de Salmos” até a última parte do século dezoito. O que é particularmente interessante, ao considerarmos o abandono do cântico exclusivo do saltério pelas maiores denominações presbiterianas no século dezoito, é que ela não foi posta de lado como o resultado de um minucioso estudo e contestação da parte de pastores, doutores e teólogos. O afastamento de diversas denominações presbiterianas do Cântico Exclusivo dos Salmos (isto é, do culto bíblico) deveu-se basicamente a três razões.

[1] – Diversas Igrejas presbiterianas perderam o entendimento bíblico do Princípio Regulador do Culto e por isso só o aplicavam ao ato de culto público. Reuniões “particulares”, culto familiar e particular eram consideradas áreas da vida que estavam fora alcance do rígido parâmetro da aprovação divina. Praticamente todas as inovações dos séculos dezoito e dezenove penetraram nas Igrejas através de práticas que foram arbitrariamente colocadas para fora da “Sola Scriptura[10] (por exemplo, Culto Familiar, Escola Dominical, reuniões de avivamento, etc.).

[2] – Muitos presbiterianos foram influenciados pelo sentimentalismo do reavivamento pietista que varreu as colônias durante o século dezoito. Ao longo desse período várias famílias e pastores começaram a usar a “Imitação dos Salmos de Davi[11]de Isaac Watts, em lugar do saltério (1650) cuidadosamente traduzido e empregado pelos presbiterianos daqueles dias. A versão dos salmos de Watts era um afastamento radical do Cântico Exclusivo de Salmos, sendo muito mais que uma paráfrase dos Salmos. Em muitas ocorrências equivalia a hinos não–inspirados vagamente baseado nos Salmos. Não se deve esquecer jamais que Isaac Watts, no prefácio de seu “Hinos e Canções Espirituais[12], admitia abertamente que considerava os Salmos de Davi como falhos, “contrários ao Evangelho” e capazes de fazer os crentes “falarem falsamente a Deus”. A versão dos Salmos de Watts foi aceita por muitas famílias e diversos ministros, e foi uma pedra de passagem para a clamorosa hinologia do hinário de Watts.

[3] – As inovações do século dezoito não teriam se enraizado se os presbitérios das colônias tivessem feito seu trabalho e disciplinado os ministros que haviam corrompido o culto a Deus e se apartado da Escritura e dos Padrões de Westminster. Havia uma certa indisposição em fazer da pureza do culto uma questão de disciplina. Ocorreram várias disputas a respeito da versão de Watts de 1752 até 1780. O resultado, entretanto, era sempre o mesmo. O presbitério ou sínodo envolvido recusava tomar atitudes decisivas, permitindo, dessa forma, que as imitações de Watts permanecessem. Como resultado, os que não desejavam se contaminar separaram-se em grupos presbiterianos bíblicos menores. O declínio foi codificado em 1788 quando se adotou um novo diretório para o culto que modificava a declaração de “cântico de salmos” do diretório de 1644 para “por cântico de salmos e hinos”. Michael Bushell nos chama a atenção para que aprendamos com os erros e os pecados da PCUSA (Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América). Ele escreve: — “Debaixo das influências pietistas e humanistas que integravam e acompanhavam o Grande Despertamento, a Igreja presbiteriana americana chegou, por fim, à conclusão de que a paz da Igreja seria melhor alcançada se se permitisse uma considerável diversidade nas práticas de culto das Igrejas sob o seu cuidado. A prática de culto da Igreja presbiteriana foi, com efeito, desatrelada dos laços da Escritura e deixada à vontade para seguir o seu próprio rumo. Foi essa situação, mais que qualquer outra, que conduziu a Igreja presbiteriana finalmente à apostasia modernista. Se uma Igreja não mantiver o seu culto puro e bíblico, se não preservar zelosamente pela sua prática, quando o seu povo se apresenta diante de Deus em louvor e adoração conscientes, então não se deve esperar que ela preserve por muito tempo a sua pureza doutrinária. Não é de causar o menor espanto que os homens tenham tão pouco respeito intelectual pelas Escrituras, quando, dia após dia, desprezam os seus claros mandamentos quanto à maneira que o seu Autor deve ser adorado. O culto da Igreja presbiteriana nesse país é determinado agora pelos ditames das conveniências, e não pelas demandas das Escrituras, e, nesse campo, não há basicamente qualquer diferença entre as Igrejas Liberais e as Evangélicas, não pelo menos quanto à forma exterior. Aos nossos irmãos das várias comunhões reformadas que discordam disso, gostaríamos de fazer esta simples pergunta: — “Se o Princípio Regulador não fosse ensinado na Escritura que diferença ele faria no seu culto?”. A resposta, na maior parte dos casos, seria, “muito pouco”. Também perguntaríamos a esses nossos irmãos se têm procurado aplicar conscientemente o Princípio Regulador à sua prática de culto. Desconfiamos que a maioria das pessoas em nossas Igrejas reformadas jamais ouviram falar do princípio regulador, e muito menos em procurar aplica-lo. As nossas Igrejas reformadas herdaram um padrão de pensamento que encoraja virtualmente qualquer prática de culto desde que não ofenda as pessoas erradas. Estas são palavras ásperas, mas estamos totalmente convictos de que são exatas[13].

Se as “conservadoras” Igrejas Presbiterianas de hoje que crêem na Bíblia pensam estar sendo fiéis a seus próprios padrões, elas devem primeiro retornar a uma interpretação e aplicação estritas do Princípio Regulador do Culto. Uma tal interpretação fará as Igrejas Reformadas retornarem ao Livro de Cânticos inspirado por Deus — os Salmos.

Paz e graça.

[1] SCHWERTLEY, Brian, Salmodia Exclusiva: uma defesa bíblica, p. 56 – 62.

[2] XXI:V.

[3] Westminster Confession of Faith, 376, 393.

[4] Alex F. Mitchell e John Struthers, eds., Minutes if the Sessions of the Westminster Assembly of Divines While Engaged in Preparing Their Directory of Church Government, Confession of Faith, and Catechisms — November 1644 to March 1649 — from Transcripts of the Originals Procured by a Committee of General Assembly of the Church of Scotland, Edmonton, AB, Canada: Still Waters Revival Books, 1991 [1874], 163.

[5] Ibid..

[6] Ibid., 221 – 222.

[7] Ibid., 221.

[8] Ibid., 298.

[9] Robert Shaw, An Exposition of the Confession of Faith, Edmonton, AB, Canada: Still Waters Revival Books, 1845, 224, 225. O pastor presbiteriano ortodoxo G. I. Williamson concorda: — “Um outro elemento do culto verdadeiro é “o cântico de salmos, com gratidão no coração”. Será observado que a confissão não reconhece a legitimidade do uso de hinos modernos no culto a Deus, mas apenas os Salmos do Antigo Testamento. De modo geral não se compreende hoje que as Igrejas Presbiterianas e Reformadas usavam originalmente apenas os Salmos inspirados, hinos, e cânticos do Saltério Bíblico no culto divino, mas este é o caso. A Assembleia de Westminster não apenas expressou a convicção de que apenas os Salmos deveriam ser cantados no culto divino, mas a colocou em prática ao preparar uma versão metrificada do saltério para ser usada nas Igrejas. Este não é o lugar para tecer considerações sobre esta questão, mas devemos lembrar a nossa convicção de que a confissão está correta nesse ponto. Cremos que ela está certa porque jamais ficou provado que Deus ordenou à sua Igreja que cantasse as composições não–inspiradas em vez de, ou juntamente com os cânticos inspirados, hinos e salmos do saltério no culto divino” (The Confession of Faith for Study Classes, Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed, 1964, 167).

[10] “Somente a Escritura”.

[11] Psalms of David Imitated, 1719.

[12] Hymns and Spiritual Songs, 1707.

[13] Michael Bushell, The Songs of Zion, 210 – 211. Para uma discussão mais completa sobre o abandono da Salmodia Exclusiva pela PCUSA, vide Bushell, 198 – 212. O abandono do Cântico Exclusivo de Salmos por outras denominações presbiterianas e pelas Igrejas reformadas holandesas é discutido nas páginas 212 – 220. Para o aprofundamento da leitura sobre a PCUSA e os salmos de Watts, vide Charles Hodge, The Constitutional History of the Presbyterian Church in the United States of America, Philadelphia: Presbyterian Board of Publications, parte 2, 244 – 306 — Reimpresso em 1980 por The American Presbyterian Press, 1459 Boston Neck Road, Saunderstown, RI 02874.

[14] Pr. Me. Plínio Sousa — Nota: — revisor e significações.

DANIEL 9:27

O SER DE DEUS

Até aqui nós discutimos a natureza da revelação que Deus nos deu em sua graça, fizemos algumas considerações sobre como a revelação veio à existência, e como, sob a normativa direção dos credos e das confissões, nós a temos conhecido. Também vimos o conteúdo da revelação e mostramos como essa revelação age na mente e no coração, no entendimento e na vida. Se nós estivemos olhando o edifício da revelação pelo lado de fora e tivemos alguma noção de sua arquitetura, nós vamos agora entrar no santuário para contemplar todo o tesouro de sabedoria e conhecimento contido nele e vamos deleitar nossos olhos nesse banquete. Não é necessário afirmar que nós podemos desenvolver o rico conteúdo dessa revelação de várias formas, e podemos colocar diante de nós seus vários modelos. Nós não vamos discutir cada uma dessas formas e modelos. Nós vamos limitar a discussão a dois métodos nos quais o conteúdo da doutrina cristã pode ser tratado, e frequentemente é. Em primeiro lugar, nós podemos ir direto ao cristão que, com a verdadeira fé em seu coração, que aceita o conteúdo da revelação, e então perguntar a ele de que forma ele chegou ao conhecimento da verdade, de quais pontos esse conhecimento consiste, e que fruto esse conhecimento tem produzido em seu pensamento e em sua vida. Esse é o ponto de vista assumido pelo nosso Catecismo de Heidelberg. O narrador desse catecismo é o cristão. Ele dá um abrangente e claro registro daquilo que na vida e na morte é seu único conforto e dos vários pontos que é necessário conhecer se quiser viver e morrer abençoadamente nesse conforto. Esse é um bonito método de tratamento. Ele relata a verdade imediatamente a toda a vida cristã, resguarda-a contra todos os argumentos acadêmicos e especulações inúteis, e em sua aproximação de toda doutrina aponta diretamente para o que é de valor para a mente e para o coração. Que benefício e conforto você recebe por crer em tudo isso? Que eu sou justificado diante de Deus em Cristo e um herdeiro da vida eterna. Mas há também outra forma pela qual as verdades da fé podem ser consideradas. Nós não estamos limitados ao método de voltar ao cristão e perguntar-lhe em que ele crê. Nós podemos também nos colocarmos na posição do cristão e assim tentar dar a nós mesmos e aos outros um registro baseado na Escritura do conteúdo de nossa fé. Dessa forma nós não vamos deixar que o desenvolvimento de nossa confissão seja determinado pelas questões que nos são dirigidas sobre ela. De acordo com esse segundo método nós mesmos vamos expor positivamente o conteúdo de nossa fé. Em vez disso nós tentamos traçar que ordem está objetivamente presente nas verdades da fé, como estão elas relacionadas umas às outras e qual é o princípio governante de todas elas. Essa é a ordem seguida na Confissão de Fé Reformada. Nessa Confissão o cristão também é o narrador, mas ele não espera que as perguntas lhe sejam impostas. Em vez disso ele mesmo explica o conteúdo de sua fé. Ele crê com seu coração e confessa com sua boca que Deus fala às Igrejas em sua Palavra através de seu Espírito. Esses dois métodos de tratamento, evidentemente, não são opostos um ao outro. Eles se completam entre si e são ambos de grande valor. Para as Igrejas Reformadas e também para as Escolas Cristãs Reformadas, é um privilégio inavaliável que nós possuamos a Confissão de Fé paralelamente ao Catecismo, e o Catecismo paralelamente à Confissão de Fé.

O que os dois juntos nos dão é o objetivo e o subjetivo, o teológico e o antropológico.

Eles estão mesclados e o coração e a mente são reconciliados através deles. Dessa forma a verdade de Deus se torna uma bênção tanto para a mente quanto para a vida. Que esses dois métodos de organização do conteúdo da revelação não são opostos, mas complementares e se equilibram um ao outro, é fartamente provado pelo fato de que, não apenas no Catecismo, mas também na Confissão de Fé, é o cristão quem fala. Em ambos o cristão não está isolado, mas é um companheiro de todos os seus irmãos e irmãs. É a Igreja, o corpo dos crentes, que se expressa nele. Todos nós cremos com o coração e confessamos com a boca — tais são as palavras de abertura da Confissão e assim ela continua, e assim ela termina. É uma verdadeira confissão cristã contendo o sumário da doutrina de Deus e da eterna salvação das almas.

A doutrina de Deus e a doutrina da eterna salvação das almas não são duas doutrinas independentes que nada têm a ver uma com a outra. Pelo contrário, elas estão inseparavelmente relacionadas uma com a outra. A doutrina de Deus é ao mesmo tempo a doutrina da eterna salvação das almas, e a segunda está incluída na primeira. O conhecimento de Deus na face de Jesus Cristo, seu Filho, essa é a vida eterna (João 17:3). Esse conhecimento de Deus é diferente em tipo, mas não em grau daquele que nós obtemos na vida diária ou na escola. E um tipo peculiar de conhecimento. Ele difere em princípio, objeto e efeito de todo tipo de conhecimento, como já mostramos no capítulo 2[2]. “Esse conhecimento está ligado à mente e também ao coração. Ele não nos torna mais “estudados”, mas ele nos torna mais sábios, melhores e mais felizes”. Ele nos torna abençoados e nos dá a vida eterna, no porvir e aqui e agora. As três coisas que é necessário que nós conheçamos não terminam aqui. Nós devemos ser abençoados também na morte. Esse é o nosso fim, e nós devemos, também na vida, ser abençoados. Aquele que crê no Filho tem a vida (João 3:16). Abençoados são os puros de coração, pois possuem a promessa de que verão a Deus (Mateus 5:8), pois foram salvos na esperança (Romanos 8:24).

Uma vez que tenhamos recebido o princípio da vida eterna em nossos corações, nós não podemos fazer outra coisa senão conhecer mais sobre aquele — Deus — que nos concede essa vida. Mais e mais nós olhamos para aquele que é a fonte de nossa salvação. Do conforto que nós desfrutamos em nossos corações, e do benefício e do fruto que o conhecimento de Deus produz em nós mesmos e em nossas vidas, nós sempre voltamos ao culto do Ser Eterno. E então, nós descobrimos que Deus não existe para nós, mas nós existimos para Ele. Nós não estamos ignorando nossa salvação, estamos apenas afirmando que essa salvação é um meio para que Ele seja glorificado.

O conhecimento de Deus nos deu vida, e a vida que foi dada nos conduz de volta ao conhecimento de Deus. Em Deus nós encontramos todo o nosso bem estar e toda a nossa glória. Ele se torna o objeto de nosso culto, o tema de nossa canção, a força de nossa vida. De Deus, através de Deus e para Deus são todas as coisas — essa se torna a escolha de nosso coração e o tema de nosso trabalho. Nós mesmos e todas as criaturas ao nosso redor nos tornamos meios para que Ele seja glorificado. A verdade é que nós amamos primeiramente porque Ele nos deu vida, e depois disso Ele se tornou cada vez mais e mais querido a nós, por causa de si mesmo, por causa do que Ele nos revela a respeito do seu ser eterno. Toda a doutrina de fé, no todo ou em partes, torna-se uma proclamação de louvor a Deus, uma exibição de suas excelências, uma glorificação de seu nome. O Catecismo nos conduz à Confissão de Fé. Quando nós tentamos refletir sobre o significado do fato de nós, criaturas pobres, fracas e pecadoras, termos conhecimento do Deus infinito e eterno, uma profunda reverência e uma timidez santa apertam nossos sentimentos. Será verdade que na mente escurecida de um ser humano culpado, alguma luz pode cair daquele que nenhum homem pode ver, que mora em luz inacessível (1 Timóteo 6:16), que é pura luz e em quem não há escuridão (1 João 1:5)? Há muitas pessoas e ainda haverá muitas outras, que dão uma resposta negativa a essa questão. Mas a negação da cognoscibilidade[3] de Deus pode ter sua origem em dois tipos de atitudes mentais.

Hoje em dia esse temperamento cético é o resultado de argumentos científicos puramente abstratos e racionalistas. Os céticos dizem que o conhecimento que está disponível à mente humana é limitado aos fenômenos empiricamente observáveis, eles argumentam que é uma contradição afirmar, por um lado, que Deus tem personalidade, mente e vontade, e, por outro lado, afirmar que Ele é infinito, eterno e absolutamente independente. A esses céticos nós prontamente replicamos que de fato não pode haver conhecimento de Deus na mente do homem, a menos que Deus, de uma forma geral na natureza e na história, ou de uma forma especial em seu Filho, revele-se a si mesmo.

“Portanto, se Deus revelou-se a si mesmo, segue-se que Ele pode ser conhecido na medida em que se revelou”.

Mas se alguém afirmar que de nenhuma forma e por nenhum meio Ele se revelou, a implicação é que o mundo tem existido eternamente paralelo a Deus e independente dEle, e que Deus não poderia revelar-se nele ou através dele. E essa implicação considerada em toda a sua profundidade seria que nós nunca poderíamos falar sobre Deus, pois essa palavra seria apenas um som vazio, que não possui fundo ou base na realidade. O assim chamado agnosticismo — “a doutrina da incognoscibilidade de Deus” — tornar-se-ia, na prática, idêntica ao ateísmo — “a negação da existência de Deus”. Mas essa negação da cognoscibilidade de Deus, também pode surgir de um profundo senso de pequenez e nulidade combinado com a infinita grandeza e a majestade esmagadora de Deus. Nesse sentido, o reconhecimento de que nós nada sabemos e de que o conhecimento de Deus é maravilhoso demais para nós, tem sido a confissão de todos os santos. Nos pais e mestres da Igreja a afirmação geralmente é que, refletindo sobre Deus, o homem poderia na análise final dizer melhor o que Deus não é do que o que Deus é. “Calvino em algum lugar admoesta seus leitores a não tentar, por sua própria força, descobrir os segredos de Deus, pois esses mistérios transcendem nossa frágil capacidade de conhecimento”. Apesar dessa humilde confissão da sublime majestade de Deus e da pequenez do homem, poder, em um certo sentido, ser chamada de negação da cognoscibilidade de Deus, parece que, a fim de evitarmos um entendimento equivocado, e de acordo com o ensino da Palavra de Deus, nós devemos fazer distinção entre a cognoscibilidade de Deus e a sua insondabilidade. Certamente não há livro no mundo que, na mesma extensão e da mesma forma que a Sagrada Escritura, sustente a absoluta transcendência de Deus sobre todas as criaturas e ao mesmo tempo sustente o íntimo relacionamento entre a criatura e seu Criador.

Logo na primeira página da Bíblia, a absoluta transcendência de Deus sobre todas as suas criaturas chama nossa atenção. Sem esforço ou fadiga Ele chama o mundo à existência somente através de sua palavra. Os céus por sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de sua boca, o exército deles (Salmos 33:6). Pois Ele falou, e tudo se fez; Ele ordenou, e tudo passou a existir (Salmos 33:9). Segundo a sua vontade Ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa lhe deter a mão e dizer: — “Que fazes?” (Daniel 4:35). “Eis que as nações são consideradas por Ele como um pingo que cai de um balde, e como um grão de pó na balança; as ilhas são como pó fino que se levanta. Nem todo o Líbano basta para queimar, nem todos os seus animais, para um holocausto. Todas as nações são perante Ele como coisa que não é nada; Ele as considera menos do que nada, como um vácuo. Com que comparareis a Deus? Ou que coisa semelhante confrontareis com Ele?” (Isaías 40:15 – 18). “Pois quem nos céus é comparável ao Senhor? Entre os seres celestiais, quem é semelhante ao Senhor?” (Salmos 89:6). Não há nome pelo qual Ele verdadeiramente possa ser chamado: — seu nome é maravilhoso[4]. Quando Deus fala a Jó de dentro de um redemoinho e coloca a magnitude de suas obras diante dele, Jó humildemente curva sua cabeça e diz: — “Sou indigno; que te responderia eu? Ponho a mão na minha boca” (Jó 40:4). Deus é grande, e nós não podemos compreendê-lo (Jó 36:26). Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: — é sobremodo elevado, não o posso atingir (Salmos 139:6). Contudo, esse mesmo Deus exaltado e sublime mantém um íntimo relacionamento com todas as suas criaturas, até mesmo com a menor e mais miserável. O que as Escrituras nos dão não é um conceito abstrato de Deus, como o que os filósofos nos dão. A Escritura coloca diante de nós o Deus vivo e deixa que nós o vejamos pelas obras de suas mãos. Nós temos que levantar nossos olhos e ver que Ele fez todas as coisas. Todas as coisas foram feitas pela sua mão, criadas por sua vontade e por seu ato. E todas elas são sustentadas pelo seu poder. Portanto todas as coisas apresentam o selo de suas excelências e a marca de sua bondade, sabedoria, e poder. E dentre todas as criaturas somente o homem foi criado à sua imagem e semelhança. Somente o homem é chamado de geração de Deus (Atos 17:28). Por causa desse relacionamento íntimo, Deus pode ser chamado em termos de suas criaturas, e podemos falar dEle antropomorficamente. A mesma Escritura que fala de modo mais exaltado da incomparável grandeza e majestade de Deus, ao mesmo tempo fala dEle em figuras e imagens refulgentes. Ela fala de seus olhos e ouvidos, de suas mãos e pés, de sua boca e de seus lábios, de seu coração e de suas entranhas. Ela descreve todos os tipos de atributos de Deus — de sabedoria e conhecimento, vontade e poder, justiça e misericórdia, e descreve também suas emoções, tais como, alegria e pena, ira, zelo e ciúme, arrependimento, ódio e raiva. A Escritura fala de Deus pensando e observando, ouvindo e vendo, lembrando-se e esquecendo-se, cheirando e provando, sentando-se e levantando-se, visitando e abandonando, abençoando e castigando. A Escritura compara Deus com o sol e com a luz, com uma fonte e com uma nascente, com uma rocha e com um refúgio, com uma espada e com um escudo, com um leão e com um juiz, com um marido e com um pastor, com um homem e com um pai. Em resumo, tudo o que pode ser encontrado em todo o mundo na forma de suporte, e abrigo e socorro é original e abundantemente encontrado em Deus. De Deus toda a família, tanto no céu como sobre a terra, toma o nome (Efésios 3:15). Ele é o Sol e todas as criaturas são seus raios. É importante, portanto, na questão do conhecimento de Deus, manter esses dois tipos de afirmações concernentes ao ser divino e fazer justiça tanto a um quanto ao outro, pois se nós sacrificamos a absoluta transcendência de Deus sobre todas as suas criaturas, nós caímos no politeísmo (a religião pagã de muitos deuses) ou no panteísmo (a religião na qual tudo é Deus), duas religiões que, de acordo com a lição da história, estão intimamente relacionados um com o outro e facilmente pode-se passar de um para o outro. E se nós sacrificamos o íntimo relacionamento de Deus com suas criaturas nós caímos na esteira do Deísmo — “crença em Deus sem auxílio de uma revelação” — ou no ateísmo — “a negação da existência de Deus —, duas religiões que, assim como as outras duas, possuem muitas características em comum uma com a outra. A Escritura apega-se aos dois grupos de características (transcendência e relacionamento), e a Teologia cristã tem seguido essa norma. Deus realmente não tem um nome de acordo com o qual nós possamos conhecê-lo verdadeiramente, e Ele se chama e nos deixa chamá-lo por muitos, muitos nomes. Ele é o infinitamente exaltado, e ao mesmo tempo é aquele que vive com todas as suas criaturas. “Em certo sentido nenhum dos seus atributos pode ser compartilhado, e em outro sentido eles podem ser compartilhados”. Nós não podemos sondar esses atributos com nossa mente. Não existe algo como um conceito adequado de Deus. Ninguém pode dar uma definição, uma delimitação de Deus que seja adequada ao seu ser. O nome que expresse plenamente o que Ele é não pode ser encontrado. Mas um grupo de características como as que foram dadas acima não entra em conflito com o que Ele é. Precisamente porque Deus é o “Alto e Exaltado”, e vive na eternidade, Ele também mora com aqueles que são contritos e abatidos de espírito (Isaías 57:15). Nós sabemos que Deus não se revela para que nós formulemos um conceito filosófico de Deus a partir de sua revelação, mas para que nós aceitemos o Deus vivo e verdadeiro como nosso Deus, e que o reconheçamos e o confessemos. Essas coisas são escondidas dos sábios e entendidos, mas são reveladas aos pequeninos (Mateus 11:25). O conhecimento que nós obtemos de Deus através de sua revelação é, portanto, um conhecimento de fé. “Ele não é adequado, no sentido de que não é equivalente ao ser de Deus, pois Deus é infinitamente exaltado acima de todas as suas criaturas”. Tal conhecimento não é puramente simbólico — ou seja, formulado em expressões arbitrariamente formadas e que não correspondem à realidade; em vez disso esse conhecimento é ectípco (ectípco – “uma impressão”) ou analógico (analogia – “correspondência ou similaridade em forma”) porque é baseado na semelhança e no relacionamento que, não obstante a absoluta majestade de Deus, existe entre Deus e todas as obras de suas mãos.

“O conhecimento que Deus dá de si mesmo na natureza e na Escritura é limitado, finito, fragmentário, mas é verdadeiro e puro”.

Assim é Deus, e Ele se revelou em sua Palavra e especificamente em e através de Cristo; e só Ele preenche as necessidades de nosso coração.

O esforço de se levar em conta todos os dados das Sagradas Escrituras quanto sua doutrina a Deus e manter tanto sua transcendência quanto seu relacionamento com suas criaturas, levaram a Igreja Cristã a fazer distinção entre dois grupos de atributos do ser divino. Esses dois grupos receberam vários nomes desde os tempos da Igreja primitiva.

“A Igreja Romana ainda prefere falar em atributos negativos e positivos, os luteranos falam em atributos inativos e operativos e a Igreja Reformada fala em atributos incomunicáveis e atributos comunicáveis”.

Todavia, no fundo, essa divisão é equivalente em todas essas Igrejas. O objetivo de cada uma delas é insistir na transcendência de Deus — “sua distinção e sua elevação sobre todo o mundo” — e em sua imanência — “seu contato e sua habitação no mundo”. Os nomes Reformados de atributos incomunicáveis e atributos comunicáveis fazem mais justiça ao seu propósito do que os nomes dados pelos católicos e pelos luteranos. A insistência sobre o primeiro grupo de atributos livra-os do politeísmo e do panteísmo; e a insistência sobre o segundo grupo protege-os contra o deísmo[5] e o ateísmo. Apesar de todas as nossas designações para esses atributos serem inadequadas, não há objeções convincentes para que deixemos de usar os termos Reformados. O que nós devemos fazer é nos lembrarmos que os dois grupos de atributos, “incomunicáveis e comunicáveis”, não ficam um ao lado do outro em total separação. A força da distinção não deve ser perdida, e a verdade dessa distinção é que Deus possui todos os seus atributos incomunicáveis em um sentido absoluto e infinito e, portanto, “incomunicável grau”. É verdade que o conhecimento de Deus, sua sabedoria, sua bondade, sua justiça e outros atributos do mesmo tipo, possuem certas características em comum com aquelas mesmas virtudes que existem em suas criaturas, mas elas são peculiares a Deus de uma forma independente, imutável, eterna, onipresente, simples — ou, em uma palavra, em uma forma absolutamente divina. Nós, como seres humanos, podemos fazer distinção entre o ser e os atributos de pessoas. Um ser humano pode perder seu braço ou sua perna, ou, em um estado de sono ou doença, perder a consciência, sem deixar de ser humano. Mas em Deus isso é impossível. “Seus atributos coincidem com seu ser. Todo atributo é seu ser. Ele é sabedoria, verdade, santidade, justiça e misericórdia. Portanto Ele é, também, a fonte de todos os atributos do homem”. Ele é tudo o que Ele possui e é a fonte de tudo o que suas criaturas possuem. Ele é a abundante fonte de todos os bens.

Os atributos incomunicáveis de Deus são aquelas virtudes ou excelências que demonstram que tudo o que existe em Deus, existe em uma forma absolutamente divina, e, portanto, não pode ser compartilhada com suas criaturas. Esse grupo de atributos afirma a absoluta exaltação e incomparabilidade de Deus, e tem sua expressão máxima no nome “Elohim”, ou “Deus”. De fato o nome deus é também aplicado às criaturas na Bíblia. As Escrituras mencionam não apenas os ídolos dos pagãos como deuses, como por exemplo quando nos proíbe de ter qualquer outro deus diante do Deus vivo (Êxodo 20:3). Elas também designam Moisés como deus para Aarão (Êxodo 4:16) e para Faraó (Êxodo 7:1), e falam dos juízes como deuses entre os homens (Salmos 82:1, 6); e Cristo apela a essa designação dos Salmos em sua própria defesa (João 10:33 – 35). Contudo esse uso da linguagem é derivado, imitativo. O nome de deus original e essencialmente pertence somente a Deus. E com esse nome que nós sempre associamos a idéia de um ser pessoal, mas que também é poderoso acima de todas as suas criaturas e de tipo eterno.

O mesmo acontece com os atributos incomunicáveis que Ele possui. Eles são peculiares e próprios somente dEle, não são encontrados nas criaturas, e não podem ser compartilhados com elas, pois todas as criaturas são dependentes, mutáveis, compostas e sujeitas ao tempo e ao espaço. “Mas Deus é independente no sentido de que Ele não é determinado por nada e tudo é por Ele determinado” (Atos 17:20; Romanos 11:36). Ele é imutável, pois Ele permanece o mesmo para sempre, enquanto que todos os tipos de variações e mudanças são próprios das criaturas e do relacionamento que elas mantêm com Deus (Tiago 1:17). Ele é simples, não composto, completamente livre de toda composição de espírito e matéria, pensamento e extensão, ser e propriedades, razão e vontade, componentes de qualquer espécie e tudo o que Ele tem é pura verdade, vida e luz[6]. Ele é eterno, pois transcende o tempo e penetra todos os momentos do tempo com sua eternidade (Salmos 90:2). E Ele é onipresente, pois transcende todo o espaço e ainda preenche todos os pontos do espaço com seu poder e com sua força sempre presente[7]. Nos tempos modernos há poucos observadores que negam todo o mérito religioso desses atributos incomunicáveis e nada vêem neles, além de abstrações metafísicas. Mas o oposto é provado pelo fato de que qualquer sacrifício dessas distinções, imediatamente abre a porta para o panteísmo ou o politeísmo. Se Deus não é independente e imutável, eterno e onipresente, simples e livre de composição, então Ele é puxado para o nível da criatura e identificado com o mundo em sua totalidade ou com uma de suas forças. O número está sempre aumentando daqueles que trocam o Deus da revelação por uma imanente força mundial ou daqueles que confessam o politeísmo em vez de um único e verdadeiro Deus. Está claro que a unidade e a indivisibilidade de Deus estão diretamente relacionadas com os seus atributos incomunicáveis[8]. Deus é o único Deus somente se ninguém e nada puder ser o que Ele é paralelamente a Ele ou sobre Ele. E somente se Ele for independente, imutável, eterno e onipresente Ele pode ser o Deus de nossa fé incondicional, de nossa absoluta confiança, e de nossa perfeita salvação.  Entretanto, nós precisamos de algo mais do que esses atributos incomunicáveis. Que bem nos faria saber que Deus é independente e imutável, eterno e onipresente, se nós não soubéssemos que Ele é compassivo, gracioso e muito misericordioso? É verdade que os atributos incomunicáveis nos falam da forma pela qual tudo o que está em Deus existe nEle; mas eles nos deixam nas trevas a respeito do conteúdo do ser divino. Isso não acontece com os atributos comunicáveis. Eles nos mostram que esse Deus que é tão infinitamente exaltado e sublime também mora com suas criaturas, e possui todas as virtudes que em uma forma derivada e limitada também são próprias das suas criaturas. Ele não é apenas um Deus de longe, mas também de perto. Ele não é apenas independente e imutável, eterno e onipresente, mas também sábio e poderoso, justo e santo, gracioso e misericordioso. Ele é não apenas “Elohim”, mas também “Jeová”. Assim como os atributos incomunicáveis são bem expressos no nome “Elohim”, assim também os atributos comunicáveis são bem expressos no nome “Jeová”. A derivação e o significado original desse nome não são do nosso conhecimento. Muito provavelmente ele existiu por algum tempo antes de Moisés — como parece ser sugerido pelo nome próprio Joquebede, mas nesse tempo Deus ainda não tinha ainda se feito conhecido por esse nome ao seu povo. Ele se revela a Abraão como “El Shadai”, o Deus Todo–poderoso (Gênesis 17:1; Êxodo 6:2), que domina todas as forças da natureza e faz com que elas sirvam à sua graça. Mas agora que centenas de anos se passaram e Deus parece ter se esquecido de seu pacto com os patriarcas e sua promessa a eles, então Ele se faz conhecido a Moisés como “Jeová”, ou seja, como o Deus que é o mesmo que apareceu aos patriarcas, que é fiel ao seu pacto, que cumpre sua promessa, e que, através dos séculos, se mantém sempre ao lado de seu povo. O significado de “Jeová”, então, é: — “Eu sou o que sou — Eu serei o que serei — e esse nome revela a fidelidade imutável de Deus em seu relacionamento com Israel”. Jeová é o Deus do pacto que, de acordo com seu amor soberano, escolheu seu povo e fez dele propriedade sua. Dessa forma, enquanto o nome “Elohim”, Deus, aponta para o ser eterno, em sua soberana elevação sobre o mundo, o nome “Jeová”, Senhor, afirma que esse mesmo Deus tem voluntariamente se revelado ao seu povo como um Deus de santidade, graça e fidelidade. Toda a questão religiosa de Israel, desde os tempos antigos até os nossos dias, está relacionada, em sua essência, com a questão de quem é Deus. Os pagãos e muitos filósofos antigos e modernos dizem que “Jeová” é apenas o Deus de Israel — um Deus, limitado, nacional e pequeno. Mas Moisés e Elias e todos os profetas, Cristo e todos os seus discípulos, tomam a posição oposta e dizem que só o Senhor, que firmou um pacto com os patriarcas e com o povo de Israel, é o único, eterno e verdadeiro Deus, e que não há outro além dEle (Isaías 43:10 – 15; 44:6). Portanto Jeová de fato é o verdadeiro e característico nome de Deus (Isaías 42:8; 48:12). O Deus do pacto que de forma tão condescendente veio para o seu povo e que mora com aqueles que são contritos e humildes de espírito é, ao mesmo tempo, o “Alto e Sublime” (Isaías 57:15). Como podemos ver, esses dois tipos de atributos não entram em conflito um com o outro. Nós podemos dizer que cada atributo ilumina e reforça os outros. Considere, por exemplo, o amor de Deus. Nós não poderíamos falar sobre ele se o atributo que o homem chama de amor não fosse, em um certo sentido, uma impressão, imagem, ou semelhança do amor que existe em Deus. Há uma certa correspondência entre o amor divino e o amor humano, ou então tudo o que nós estamos falando sobre o amor de Deus é um som vazio. Contudo essa similaridade não significa identidade. O mais puro e mais forte amor entre os homens é apenas um fraco reflexo do amor que existe em Deus. Podemos aplicar aqui o que aprendemos sobre os atributos incomunicáveis de Deus. Com eles nós aprendemos que o amor de Deus transcende o amor de suas criaturas, pois o amor de Deus é independente, imutável, simples, eterno e onipresente. Ele não depende de nós, nem é despertado por nós, mas flui, livre e puro, das profundezas do ser divino. Ele não conhece variação, não aumenta nem diminui, não aparece nem desaparece, e não há nem mesmo sombra de mudança nEle. Ele não é meramente uma propriedade do ser divino isolada de outras propriedades ou atributos, e nunca entra em conflito com eles, mas coincide com o ser divino. Deus é amor, completa e perfeitamente, e com todo o seu ser, Deus é amor. Esse amor não é sujeito ao tempo e ao espaço, mas está acima tanto de um quanto de outro, e vem da eternidade para o coração dos filhos de Deus. Tal amor é absolutamente digno de confiança. Nossa alma pode descansar nele em qualquer necessidade, inclusive na morte, e se tal Deus de amor é por nós, quem será contra nós? E o mesmo pode ser dito de todos os atributos comunicáveis. Há nas criaturas de Deus uma vaga semelhança do conhecimento e da sabedoria, da bondade e da graça, da justiça e da santidade, da vontade e do poder que são próprios de Deus. Tudo o que é transitório é uma imagem. O visível veio a existir das coisas que não parecem (Hebreus 11:3). Todos esses atributos estão presentes em Deus de forma original, independente, imutável, simples e infinita. “Sabei que o Senhor é Deus; foi Ele quem nos fez, e dEle somos; somos o seu povo e rebanho do seu pastoreio” (Salmos 100:3). Os atributos comunicáveis são tão numerosos que é impossível enumerá-los e descrevê-los aqui. Se nós quiséssemos tratar deles adequadamente nós teríamos que fazer uso de todos os nomes, imagens e comparações que as Sagradas Escrituras usam para nos dar uma idéia de quem e de que Deus é para suas criaturas e, especificamente, para seu povo. As Escrituras, como nós indicamos de passagem, mencionam os órgãos do corpo de Deus, tais como olhos e ouvidos, mãos e pés. Ela transfere para Deus características humanas, tais como emoções, paixões, decisões e ações. Ela se refere a Ele com os nomes de ofícios e vocações como as que são encontradas entre os seres humanos, chamando-o de rei, legislador e juiz, guerreiro e herói, marido e pastor, homem e pai. A Escritura usa todo o mundo orgânico e inorgânico para fazer com que Deus seja real para nós, e compara-o com um leão, uma águia, um sol, um fogo, uma fonte, um escudo, e assim por diante. E todas essas formas de expressão constituem forma de ajudar-nos a conhecer Deus e dar-nos uma profunda impressão da auto suficiência de seu ser. Nós, seres humanos, precisamos de todo o mundo ao nosso redor para nossa existência física e espiritual, pois nós somos pobres e fracos em nós mesmos e nada possuímos. Mas tudo isso de que nós precisamos, tanto para alma quanto para o corpo, tanto para o tempo quanto para a eternidade, está, sem exceção, disponível para nós — original, perfeito e infinito — em Deus. Ele é o mais alto bem e a fonte de todos os bens. A primeira coisa que a Sagrada Escritura quer nos dar, ao fazer uso de todas aquelas descrições e nomes do ser divino, é uma noção inerradicável do fato de que “Jeová”, o Deus que se revelou a Israel e em Cristo, é o Deus vivo e verdadeiro. Os ídolos dos pagãos e os ídolos dos filósofos (panteísmo, politeísmo, deísmo e ateísmo) são obras das mãos dos homens: — “eles não podem falar, nem ver, não podem ouvir nem provar, nem andar”. Mas o Deus de Israel está no céu e faz tudo o que deseja. Ele é o único Deus (Deuteronômio 6:4), o único Deus verdadeiro (João 17:3), o Deus vivo[9]. As pessoas querem tratar Deus como se Ele fosse um Deus morto, pois assim poderiam fazer com Ele o que bem quisessem. Mas a mensagem da Escritura revela que isso é errado. Deus existe. Ele é o verdadeiro Deus que está vivo, agora e por toda a eternidade. E horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo (Hebreus 10:31). Sendo o Deus vivo, que é a pura vida e a fonte de toda vida (Salmos 36:9; Jeremias 2:13), Ele é também Espírito (João 4:24), sem corpo, muito embora todos os tipos de órgãos sejam atribuídos a Ele (Deuteronômio 4:12, 16). Portanto nenhuma imagem, semelhança ou similitude pode ser feita dEle (Deuteronômio 4:15 – 19). Ele é invisível[10]. Como Espírito Ele tem consciência, perfeito conhecimento de si mesmo (Mateus 11:27; 1 Coríntios 2:10), e em si mesmo Ele também tem conhecimento de tudo o que existe e acontece no tempo, e nada pode ser escondido dEle, por menor que seja[11]. Por ser Espírito Ele tem vontade, e por meio dela Ele faz tudo o que lhe agrada (vontade secreta ou conselho)[12], e determina qual deve ser a norma que governará sua conduta (vontade revelada ou mandamento)[13]. E, finalmente, como Espírito Ele tem poder, por meio do qual, apesar de toda e qualquer oposição, Ele executa o que tinha planejado e por isso nada é impossível para Ele[14]. Mas esse conhecimento ou consciência, essa vontade e poder, não são arbitrários. Eles são eticamente determinados em todas as suas partes. Isso se expressa na sabedoria que nas Sagradas Escrituras é atribuída a Deus[15], e por meio da qual Ele organiza e dirige todas as coisas de acordo com o propósito que Ele determinou para elas na criação e na recriação[16]. Essa realidade moral encontra sua maior expressão, por um lado, na bondade e na graça, e, por outro lado, na santidade e na justiça que são atribuídas a Deus. Ele não é apenas o todo sábio e o todo poderoso; Ele é também o todo bom e o único bom (Mateus 5:45), Ele é perfeito e a fonte de tudo o que é bom em suas criaturas (Salmos 145:9). Essa bondade de Deus se espalha por todo o mundo (Salmos 145:9; Mateus 5:45), mas varia de acordo com os objetos aos quais é dirigida, assumindo várias formas. Ela é chamada longanimidade ou paciência quando é manifestada ao culpado (Romanos 3:25), graça quando é manifestada àqueles que recebem o perdão de pecados (Efésios 2:8) e amor quando Deus, movido por sua graça em direção às suas criaturas, dá-se por elas (João 3:16; 1 João 4:18). Ela é chamada misericórdia quando essa bondade de Deus é manifesta àqueles que desfrutam de seu favor[17], e agrado ou bem querer quando a ênfase recai sobre o fato de que a bondade e todos os seus benefícios são dádivas[18].

A santidade e a justiça de Deus caminham de mãos dadas com a sua bondade e com a sua graça. Deus é chamado o Santo não apenas porque Ele é exaltado sobre todas as suas criaturas, mas especialmente porque Ele é separado de tudo o que é pecaminoso e impuro no mundo. Portanto, Ele exige que seu povo, que pela sua livre graça Ele escolheu para que fosse seu, seja santo[19], e Ele se santifica a si mesmo nesse povo através de Cristo (Efésios 5:26, 27), pois apesar de Cristo ter santificado a si mesmo por seu povo e em lugar dele, esse povo pode ser santificado na verdade (João 17:19). E a retidão e justiça de Deus estão intimamente relacionadas com a sua santidade, pois, sendo o Santo, Ele não pode ser amigo do pecado. Ele abomina o pecado (Salmos 45:7; Jó 34:10), levanta-se contra ele (Romanos 1:18), é zeloso de sua honra (Êxodo 20:5) e, portanto, não pode inocentar o culpado (Êxodo 25:5, 7). Sua natureza santa requer também que, fora de si mesmo, no mundo de suas criaturas, Ele mantenha a justiça e, de forma imparcial, retribua a cada um segundo as suas obras (Romanos 2:2 – 11; 2 Coríntios 5:10). Hoje em dia há aqueles que tentam fazer com que outras pessoas acreditem que Deus não se importa com os pensamentos e atos pecaminosos do homem. Mas o Deus vivo e verdadeiro que as Escrituras nos apresentam pensa muito diferente sobre isso. Sua ira contra o pecado é terrível, e Ele pune o pecador tanto temporalmente quanto eternamente por meio de um justo julgamento (Deuteronômio 27:26; Gálatas 3:10). Mas Ele não apenas pune os incrédulos de acordo com sua justiça. E um ensino notável das Escrituras que de acordo com essa mesma justiça Ele conceda salvação aos santos. De fato, esses santos são pecadores também, e em nada são melhores do que os outros. Mas enquanto o incrédulo oculta os seus pecados ou os encobre, os santos os reconhecem e confessam. Essa é a distinção entre eles. Apesar de serem pessoalmente culpados e impuros, eles estão do lado de Deus e contra o mundo. Eles podem, portanto, apelar à promessa do “Pacto da Graça”, à verdade da Palavra de Deus, à justiça que Deus realizou em Cristo. Em termos dessa justiça nós podemos dizer, corajosa e reverentemente, que Deus é obrigado a perdoar os pecados de seu povo e dar-lhe vida eterna[20]. E se Deus deixa que seu povo espere por Ele e prova sua fé por um longo tempo, segue-se que em sua perfeita redenção a integridade e a fidelidade de Deus são demonstradas mais gloriosamente[21]. O Senhor aperfeiçoará aqueles que pertencem a seu povo, pois sua misericórdia dura para sempre (Salmos 138:8). O Senhor é misericordioso e gracioso, longânimo e abundante em bondade e verdade[22]. “Uns confiam em carros, outros, em cavalos; nós, porém, nos gloriaremos em o nome do Senhor, nosso Deus”[23]. Esse Deus é o nosso Deus para todo o sempre; Ele será o nosso guia até à morte (Salmos 48:14). Ele é um Deus abençoador e glorioso (1 Timóteo 6:15; Efésios 1:17).

“E feliz é o povo cujo Deus é o Senhor” (Salmos 33:12).

Paz e graça.

[1] BAVINCK, Hermann, Teologia Sistemática, Fundamentos Teológicos da Fé Cristã, p. 139 – 154, SOCEP, 2001.

[2] Cf. O CONHECIMENTO DE DEUS

[3] Cf. A COGNOSCIBILIDADE DE DEUS

[4] Gênesis 32:29; Juízes 13:18; Provérbios 30:4.

[5] Deísmo é a crença em um Deus superior e que sua existência pode ser provada pela razão e a observação do mundo físico. Os deístas normalmente não acreditam que Deus interfere em nosso mundo. O Deísmo rejeita a divindade de Jesus e a inspiração divina da Bíblia. O Deísmo ensina que tudo deve ser avaliado pela razão. Assim, rejeita tudo que não tem explicação racional. Os deístas acreditam que existe evidência racional para a existência de um deus ou algo superior a nós. A ordem e a extrema complexidade do universo não podem ser frutos do caos e do acaso. Um mundo tão inteligente exige um Criador inteligente — eles negam a imanência de Deus. Em suma, Deísmo é a doutrina que afirma que não se pode provar que Deus exista, mas que se Ele existir, Ele nada tem a ver com o mundo, nem nós com Ele. Não haveria nenhum relacionamento entre Deus e o mundo, caso Deus existisse.

[6] Salmos 36:9; João 5:26; 1 João 1:5.

[7] Salmos 139:7; Atos 17:27, 28.

[8] Deuteronômio 6:4; Marcos 12:29; João 17:3.

[9] Deuteronômio 5:26; João 3:10; Daniel 6:27; Atos 14:15; 2 Coríntios 6:16; 1 Timóteo 3:15; 6:17.

[10] Êxodo 33:20; João 1:18; 6:46; 1 Timóteo 6:16.

[11] Isaías 46:10; Jeremias 11:20; Mateus 10:30; Hebreus 4:14.

[12] Salmos 115:3; Provérbios 21:1; Daniel 4:35.

[13] Deuteronômio 29:29; Mateus 7:21; 12:50.

[14] Gênesis 18:14; Jeremias 22:37; Zacarias 8:6; Mateus 19:26; 1 Timóteo 6:15.

[15] Provérbios 8:22 – 31; Jó 28:20 – 28; Romanos 16:27; 1 Timóteo 1:17.

[16] Salmos 104:24; Efésios 3:10; Romanos 11:33.

[17] Gênesis 39:21; Números 14:19; Isaías 54:10; Efésios 2:7.

[18] Mateus 11:26; Lucas 2:14; 12:32; 2 Tessalonicenses 1:11.

[19] Êxodo 19:5, 6; Levítico 11:44, 45; 1 Pedro 2:9.

[20] Salmos 4:2; 7:10; 31:2; 34:22; 35:24; 51:16; 103:17; 1 João 1:9.

[21] Gênesis 24:27; 32:10; Josué 21:45; 2 Samuel 7:28; Salmos 57:3; Salmos 105:8.

[22] Êxodo 34:6; Salmos 86:15; 103:8; 145:8.

[23] Salmos 20:7; Jeremias 9:23; 1 Coríntios 1:31; 2 Coríntios 10:17.

[24] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.