por Plínio Sousa | 9 fev 2022 | TEOLOGIA
“‘Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas e, sobre as cabeças, nomes de blasfêmia’ (v. 1). ‘Vi ainda outra besta emergir da terra; possuía dois chifres, parecendo cordeiro, mas falava como dragão’ (v. 11). ‘Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis’ (v. 18)” (Apocalipse 13:1, 11, 18).
O capítulo 12 revela que o próprio diabo é a origem mais profunda do mal. Breves referências a ele já apareceram nos capítulos 2:13, 6:8 e 9:11. O diabo é o grande iniciador dos sofrimentos dos santos e das perseguições que eles sofrem; ele libera o Anticristo e o Falso Profeta[1].
Já no capítulo 13, dois terríveis aliados do dragão (Satanás) entram em cena, uma besta a emergir do mar (Anticristo), e a outra besta a emergir da terra (Falso Profeta). Segundo escreveu o estudioso do Novo Testamento e escritor de comentários bíblicos, William Hendriksen (1900 – 1982): — “A primeira é um monstro de indizível horror, a segunda tem uma aparência inofensiva e, por isso, é vista como menos perigosa do que a primeira; a primeira besta sobe do mar, a segunda, da terra; a primeira é a mão de Satanás, a segunda é a mente do diabo[2]”.
Duas bestas grotescas surgem para formar uma trindade profana com o dragão[3]. A primeira besta, que sobe do mar, serve ao dragão e exerce o seu poder; a segunda besta, que sobe da terra, é subordinada tendo como missão promover adoração à primeira besta.
No capítulo 11:7[4], a besta “sobe do abismo”, mas no capítulo 13:1[5], “sobe do mar”. O professor de Novo Testamento na “Trinity Evangelical Divinity School”, Grant R. Osborne (1942 – 2018), especialista em Hermenêutica Bíblica[6], nos Evangelhos e no Livro do Apocalipse, expõe exegeticamente que “o abismo se refere às profundezas insondáveis do mar e, assim, essas duas imagens são sinônimas[7]”.
No seu “Comentário Exegético sobre o Livro de Apocalipse”, comentando sobre o capítulo 9:1, Osborne explica que abismo “se origina da imagem inicialmente associada às profundezas impenetráveis do oceano, como se vê na expressão ‘superfície do abismo’, de Gênesis 1:2 — LXX (cf. também Gênesis 7:11; 8:2)”. Em várias passagens, o termo indica as “águas do grande abismo” (Salmos 42:7; Isaías 51:10). O abismo tornou–se uma expressão idiomática para o lugar dos mortos — “as profundezas da terra” (Salmos 63:9; 71:20). Possivelmente pelo fato de os mortos serem impuros, a palavra grega passou a ser usada para “poço” ou “prisão domiciliar” (1 Enoque 18:20), na qual anjos caídos eram aprisionados (1 Enoque 10:4 – 6; 18:9 – 16; Evangelho Apócrifo de João 5:3 – 11). No Novo Testamento, ela ocorre duas vezes fora de Apocalipse: — “para descrever o lugar dos mortos, em Romanos 10:7, e para indicar a prisão dos espíritos maus, em Lucas 8:31”. A imagem também é encontrada em 2 Pedro 2:4 e Judas 6, em que anjos são “confinado[s] nas trevas em algemas eternas, para o juízo do grande dia”. Em Apocalipse, o abismo é uma prisão fechada e, quando ela é aberta, a fumaça de seu fogo sobe (9:2) e a “besta emergirá dali no momento determinado por Deus (11:7; 17:8)”. No abismo, “Satanás será aprisionado por mil anos, e o local ficará novamente trancado durante esse tempo (20:1 – 3)”. O “poço” do abismo faz referência ao “buraco (o termo também pode indicar ‘cisterna’) que desce até a prisão propriamente[8]” — “[…] lançou–o no abismo [ἄαβισσο[9]], fechou–o e pôs selo sobre ele [Satanás]” (Apocalipse 20:3).
O versículo 1, do capítulo 13, alude a Daniel 7:3 (LXX), em que as quatro bestas do sonho de Daniel também (“ἀνέβαινον ἐκ τῆς θαλάσσης” [anebainon ek tēs thalassēs]) “subiram do mar”. Portanto, com o dragão do capítulo 12, a (“θηρίον” [thērion]) “besta[10]”, da mesma forma, está relacionada ao Leviatã, ou monstro do “mar” [θαλάσσης], do Antigo Testamento.
Grant R. Osborne, significando os termos “ὄφις” (serpente) e “δράκων” (dragão), ambos referentes à Satanás, explica a luz do capítulo 12 de Apocalipse, versículo 3, que: — “Na LXX, o dragão é, com frequência, sinônimo de ‘ὄφις’ (ophis, ‘serpente’). No Antigo Testamento, há a serpente, Leviatã, Beemote, Tanin e Raabe. Por exemplo, embora em Gênesis 3:1 – 24 a ‘serpente’ que enganou Eva seja ‘ὄφις’, em Êxodo 7:9 – 12, a ‘serpente’ [ou a ‘cobra’ na qual a vara de Arão se tornou] é chamada de ‘δράκων’, assim como no caso de ‘veneno de serpentes’ em Deuteronômio 32:33; Jó 20:16 (cf. Jó 26:13). O Leviatã é associado a Raabe em Jó 9:13; 26:12; Isaías 51:9; Salmos 89:10; e aos ‘monstros marinhos’ [Tannin] em Salmos 74:13[11]. Finalmente, ‘δράκων’ é usado para se referir ao ‘Leviatã’ que emerge das profundezas do mar em Jó 3:8; 41:1; Salmos 104:26; Isaías 27:1[12]”.
Como definiu Gregory Kimball Beale (1949), professor de Novo Testamento e de Teologia Bíblica no “Reformed Theological Seminary”, em Dallas, “a imagem do monstro marinho é usada por todo o Antigo Testamento para representar reinos ímpios que perseguem o povo de Deus[13]”.
De modo semelhante ao sentido de “abismo[14]”, definimos conceitualmente o mar como sendo “profundezas imperscrutáveis e o caos da morte”, pelo fato de que para as nações em volta da Bacia do Mediterrâneo essa era a significação. Portanto, interpretamos a figura como se segue, que o mar representa as nações e seus governantes, em que “o rumor dos povos é comparado ao rumor do mar; e o movimento das nações como o movimento de muitas águas[15]”. É expressamente o que diz o Profeta Isaías: — “Ai do bramido dos grandes povos que bramam como bramam os mares, e do rugido das nações que rugem como rugem as impetuosas águas” (17:12; cf. Isaías 57:20). Apocalipse 17:15[16] prova esse ponto. A besta que “sobe do mar” está bem associada à besta que “sobe do abismo” (11:7). “Essa última, a que ‘sobe do abismo’, é a forma final que a anterior, que ‘sobe o mar’, assume”. A besta nascida do mar simboliza o poder perseguidor de Satanás incorporado em todas as nações ao longo da História. O mar aqui, indubitavelmente, é “um símbolo da superfície agitada da humanidade não regenerada, e especialmente da caldeira fervente da vida nacional e social da qual os grandes movimentos históricos do mundo se levantam”.
Por esse motivo, Edwards utilizou–se da imagem do “mar agitado” para referir–se à condição de homens ímpios (não–regenerados): — “As almas dos ímpios são comparadas nas Escrituras com o mar agitado. Por enquanto Deus controla as iniquidades deles pelo seu imenso poder, como faz com as ondas enfurecidas do mar, dizendo: — ‘Virão até aqui, mas não prosseguirão’. Mas se Deus retirasse deles seu poder refreador, seriam todos tragados por elas[17]”.
Portanto, o “‘Leviatã’ ou o ‘dragão’ passou a representar todos os terrores do mar e, assim, a presença do mal e da morte”. Assim como o dragão que convoca essa criatura das profundezas, a primeira besta é inimiga de Deus e de seu povo. E da mesma forma que ele, a primeira besta tem (“κέρατα δέκα καὶ κεφαλὰς ἑπτά” [kerata deka kai kephalas hepta]) “dez chifres e sete cabeças”, ainda que a ordem seja inversa às “sete cabeças e dez chifres” do dragão.
Isso se dá porque as cabeças são a característica fundamental do dragão, ao passo que os chifres são a característica fundamental da besta. As coroas estão sobre as cabeças do dragão, mas aqui há (“δέκα διαδήματα” [deka diadēmata]) dez coroas “sobre os chifres” da besta. Fundamentalmente, a imagem das sete cabeças e dos dez chifres faz paralelo com a descrição do dragão, mostrando que a besta está unida a ele, ainda que tenha um papel distinto. Essa descrição inicia a outra paródia [ou grande imitação]: — “Enquanto o dragão usurpa o papel de Deus, a besta, que ‘emerge do mar’, usurpa o papel de Cristo (com a segunda besta ou o ‘Falso Profeta’, os três personagens malignos formam a falsa trindade [ou trindade satânica] em 16:13)”.
Mapa cristológico e parodial:
1 – Deus a cabeça do Filho [Cristo/Palavra] (1 Coríntios 11:3).
2 – Satanás a cabeça das bestas que “emerge do mar” (Anticristo) e da terra (Falso Profeta).
3 – Deus deu autoridade a Cristo (Mateus 11:27; Mateus 28:18; João 17:2; 1 Coríntios 15:24; Efésios 1:20; Filipenses 2:9, 10; Colossenses 2:10; 1 Pedro 3:22).
4 – O dragão “deu” autoridade para as bestas (Apocalipse 13:2, 4, 5, 7, 12).
5 – Cristo usa a Escritura exercendo o Ofício de Profeta através do Espírito Santo.
6 – O Anticristo deturpa/nega a Escritura através do “Falso Profeta[18]” [“a besta que emerge da terra”] que atua espiritualmente [através do “espírito do anticristo”][19].
7 – Cristo é morto e ressuscita para uma nova vida (Apocalipse 5:6).
8 – O Anticristo é morto e ressuscita para uma “nova vida” (Apocalipse 13:3).
9 – Cristo tem seguidores com seu Nome escrito na testa (Apocalipse 14:1).
10 – O Anticristo tem seguidores com seu nome escrito na testa (Apocalipse 13:16).
11 – Cristo possui chifres (Apocalipse 5:6).
12 – O Anticristo possui chifres (Apocalipse 13:1).
13 – Cristo tem autoridade sobre todas as “tribos, línguas, povos e nações” (Apocalipse 5:9; 7:9).
14 – O Anticristo tem autoridade sobre as “tribos, línguas, povos e nações” (Apocalipse 13:7; 17:12, 15).
15 – Cristo recebe adoração mundial (Apocalipse 5:8 – 14),
16 – O Anticristo recebe adoração mundial (Apocalipse 13:4, 8).
17 – Os crentes são marcados com o “selo” (sinal) de Cristo (Apocalipse 7:3, 4; 22:4).
18 – Os descrentes têm o “selo” (sinal) de Satanás (Apocalipse 13:16, 17).
19 – Cristo tem uma vinda ou manifestação final, embora Cristo caminhe para a vitória eterna e o Anticristo para a destruição eterna.
20 – O Anticristo tem uma vinda ou manifestação final (Apocalipse 17:7 – 18).
Segundo escreveu João o mapa proposto aqui está certo, que o engano, desde a época de João, é promovido por “muitos falsos profetas [que] se têm levantado no mundo” (1 João 4:1) atuantes pelo “espírito do anticristo que não confessa que Jesus Cristo veio em carne” (1 João 4:3). A grande problemática colocada pelo Apóstolo ocorre quando a Pessoa de Cristo é frontalmente atacada na sua humanidade (Encarnação), “todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio ‘em carne’ [Encarnação/Humanidade] não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já agora está no mundo” (1 João 4:3). Aqui, temos um Norte!
Vale ressaltar que o termo “ἀντίχριστος” (antichristos) só é empregado no Novo Testamento, nas epístolas joaninas (1 João 2:18, 22; 4:3). João foi o Apóstolo quem mais escreveu sobre a Cristologia, a Doutrina de Cristo, em termos de se revelar a união das naturezas[20], divina e humana, na Pessoa do Redentor (João 1:1, 14).
João Calvino comentando acerca de 1 João 4:3, afirma que: — “[‘E esse é o espírito do Anticristo’] que o Apóstolo acrescentou, para tornar mais detestável os impostores que nos afastam de Cristo. Já dissemos que a doutrina a respeito do reino do Anticristo era bem conhecida; para que os fiéis tivessem sido avisados sobre a futura dispersão da Igreja, para que pudessem exercer vigilância. Justamente, então, eles temeram o nome como algo básico e ameaçador. O Apóstolo diz agora que todos aqueles que depreciaram a Cristo eram membros desse reino. E ele diz que o ‘espírito do anticristo’ viria e que ele já estava no mundo, mas em um sentido diferente. Ele quer dizer que ele já estava no mundo, porque continuava em segredo sua iniquidade. Como, no entanto, a verdade de Deus ainda não havia sido subvertida por dogmas falsos e espúrios, como a superstição ainda não havia prevalecido em corromper a adoração a Deus, pois o mundo ainda não havia se afastado perfidamente de Cristo, como a tirania, oposta, para o reino de Cristo, ainda não havia se exaltado abertamente, ele diz, que viria”.
Mas antes de comentar sobre o versículo 3, João Calvino assevera um ponto importante no versículo 2[21], que “para muitos (como é habitual em coisas novas) abusaram do Nome de Cristo com o propósito de servir seus próprios erros. Alguns fizeram meia profissão de Cristo; e quando conseguiram um lugar entre seus amigos, tiveram mais oportunidade de ferir sua causa. Satanás aproveitou a ocasião para perturbar a Igreja, especialmente através do próprio Cristo; pois Ele é a pedra da ofensa, contra quem todos necessariamente tropeçam e não seguem o caminho certo, como nos é mostrado por Deus”.
Temos, portanto, neste capítulo 13, uma nova descoberta e descrição dos inimigos da Igreja, não outros inimigos além dos mencionados antes, mas descritos de outra maneira, para que os métodos de sua inimizade possam aparecer mais plenamente. Eles são representados como essas duas bestas; da primeira temos um relato (v. 1 – 10) e da segunda também (v. 11 – 18).
Pelo primeiro [relato] alguns entendem “Roma pagã”, e pelo segundo “Roma papal”; mas outros entendem que “Roma papal é representada por ambos os animais [bestas], pelo primeiro relato [referente ao Anticristo] em seu poder secular, pelo segundo relato [referente ao Falso Profeta] em seu poder eclesiástico; por esses poderes depreciam a Cristo, não mais em segredo de iniquidade, mas subvertida a religião por dogmas falsos e espúrios, com superstição, corrompem a adoração a Deus com o propósito de servir seus próprios erros — o clericalismo, o sacramentalismo, o eclesiocentrismo, a santolatria e, especialmente, a mariolatria etc. —, fazendo assim meia profissão de Cristo e ferindo deliberadamente e obstinadamente sua causa”.
O poder secular da besta que “sobe do mar”.
A primeira besta, cujos chifres representam poder, recebe sua energia de Satanás: — “O dragão deu à besta o seu poder, o seu trono e grande autoridade” (v. 1, 2).
Os diademas (v. 1) simbolizam as falsas reivindicações da besta por autoridade soberana e universal, reivindicações que se opõem ao verdadeiro “Reis dos reis e Senhor dos senhores”, que também usa “muitos diademas” (19:12, 16)[22].
É quase inacreditável que toda a terra venha a adorar o dragão e a besta: — “[…] e toda a terra se maravilhou, seguindo a besta; e adoraram o dragão porque deu a sua autoridade à besta; também adoraram a besta, dizendo: — Quem é semelhante à besta? Quem pode pelejar contra ela?” (v. 3, 4).
O versículo 4 termina com um breve hino de louvor, que consiste em duas perguntas retóricas. A primeira pergunta “Quem é semelhante à besta?” é uma paródia irônica de hinos de louvor a Deus no Antigo Testamento (Êxodo 15:11; Salmos 18:31; 89:8; Miquéias 7:18). A segunda pergunta retórica está intimamente relacionada à primeira, principalmente porque quem lutou contra Satanás no céu foi Miguel (Apocalipse 12:7), cujo nome significa “Quem é semelhante a Deus?”. A ironia é agravada com a pergunta: — “Quem pode pelejar [guerrear] contra ela?”. O poder derivado da besta procede do “dragão”, que foi derrotado e expulso do céu (12:9, 10, 12, 13) e cujo tempo é curto (12:12)[23].
Beale comenta algo parecido quanto ao uso de paródia irônica de hinos de louvor a Deus no Antigo Testamento: — “A lealdade das multidões ímpias, mencionada no versículo 3, agora se expressa em adoração ao dragão: — ‘e adoraram o dragão porque deu a sua autoridade à besta’. A frase que indica essa transferência de autoridade está baseada em Daniel 7:6, em que autoridade é dada ao terceiro animal para governar a terra e perseguir. As multidões igualmente adoram a besta por causa da sua alegada incomparabilidade. Elas proclamam em sua adoração: — ‘Quem é semelhante à besta? Quem pode pelejar contra ela?’. Suas palavras constituem uma zombaria e um uso irônico de palavras semelhantes usadas corretamente para Deus no Antigo Testamento (Êxodo 8:10; 15:11; Salmos 35:10; 71:19; 86:8; 89:8; 113:5; Isaías 40:18; Miquéias 7:18). Em todas essas passagens do Antigo Testamento, a incomparabilidade de Yahweh é contrastada polemicamente com falsos deuses e ídolos[24]”.
A “besta” se assemelha ao “dragão”, entretanto, “imita burlescamente o Cordeiro tanto na descrição física como na perversão de seu poder, incluindo a recuperação de um ferimento fatal” (v. 3). O versículo 3 aponta para um detalhe da descrição da besta. Uma de suas cabeças tem um ferimento — causado por uma espada de acordo com o versículo 14 [“àquela que, ferida à espada, sobreviveu”] —, que parecia ser mortal (“ὡς ἐσφαγμένην εἰς θάνατον” [hōs esphagmenēn eis thanaton]), literalmente, “como tendo sido abatido para morte” —, “mas […] foi curado”.
Essa ferida na cabeça da besta não é outra coisa senão aquela que Cristo infligiu na sua ressurreição e é o cumprimento de Gênesis 3:15: — “Este te ferirá a cabeça”. A menção da espada que feriu a cabeça da besta em Apocalipse 13:14 faz lembrar a profecia escatológica de Isaías 27:1: — “Naquele dia, o Senhor castigará com a sua dura espada, grande e forte, o dragão [leviatã], a serpente sinuosa, e matará o monstro que está no mar”.
O fato de Isaías 27:1 também repercutir em Apocalipse 12:3, 9 aponta para conclusão de que o golpe mortal administrado à besta veio por meio da morte e ressurreição de Cristo num cumprimento inicial das palavras do Profeta. “Que uma das cabeças da besta é descrita como golpeada de morte por causa da morte e ressurreição de Cristo é confirmado por Apocalipse 12:5, 10 – 12, juntamente com Apocalipse 1:5 e 5:9” (veja sobre 12:10 – 12, em que também outros paralelos do Novo Testamento são citados afirmando que a morte e ressurreição de Cristo derrotaram o diabo[25]). “Os efeitos dessa derrota são exercidos pela fidelidade dos seguidores de Cristo” (assim 12:11, 17; Romanos 16:17 – 20)[26].
Uma das cabeças da besta parece como golpeada de morte (não “como se ela tivesse sido morta” [“as if it had been slain”] como na NASB), mas essa ferida mortal foi curada. O uso de “como” (grego, “hōs”), como em outras partes ao longo do livro, faz parte do estilo visionário de João ao apresentar algo que ele viu (cf. 4:6; 8:8; 9:7; 15:2; 19:6). E a sua tentativa de fazer uma descrição aproximada em termos humanos do que ele contemplou na visão celestial. “A ferida era real e fatal, no entanto ela parece ter sido curada porque o inimigo é capaz de prosseguir com a sua atividade. Ela é fatal porque, a partir da ressurreição, o poder de Satanás foi fatalmente restrito e seus dias estão contados”. A cura temporária representa o fato de Deus permitir que o inimigo continue a usar seus agentes no período de três anos e meio (período milenial) até a volta de Cristo (Parusia), salvaguardando ao mesmo tempo a segurança espiritual do seu povo. A expressão como golpeada de morte é quase idêntica àquela que se refere ao Cordeiro no capítulo 5:6 (cf. 5:9, 12; 13:8), em que Cristo é descrito “como tendo sido morto” (não “de pé […] como se tivesse sido morto”, como na NASB); a descrição parodia a morte sacrificial de Cristo[27]. Isso nos alerta para o fato de que “a besta está sendo estabelecida como uma imitação satânica de Cristo[28]”.
O resultado é que a “besta” ironicamente recebe a adoração mal orientada de quem (ímpios) não conhece o verdadeiro Cordeiro. Porém, a sua blasfêmia é limitada a “42 meses” (Apocalipse 11:1, 2)[29] — “toda a História da Igreja, que mede o tempo entre a Encarnação e a Parusia[30]”. Haverá muita religião na terra, mas será sem Deus e blasfema. A primeira besta se opõe a Deus: — “‘Ela abriu a boca para blasfemar contra Deus […]’ (v. 5, 6); recebe sua energia de Satanás (v. 2); é militarmente suprema: — ‘Quem pode guerrear contra ela?’ (v. 4); possui poder de extensão mundial: — ‘Foi–lhe dada autoridade sobre toda tribo, povo, língua e nação’ (v. 7); e persegue os santos de Deus: — ‘Foi–lhe dado poder para guerrear contra os santos e vencê–los’ (v. 7)”.
Os “nomes de blasfêmia” escritos sobre as cabeças da besta representam reivindicações blasfemas de realeza terrena e divina por parte da besta numa fraca imitação da verdadeira realeza de Cristo (contraste 13:1 com 17:3 e 13:7 – 13 com 1:5; 17:14; 19:12 – 16)[31].
Em Apocalipse 13:2, o dragão que dominou o capítulo 12 transfere o seu poder, o seu trono e grande [μεγάλην – megalēn] autoridade à besta. O trono de Satanás, foi dito anteriormente, estava simbolicamente localizado em Pérgamo (2:13) e é mencionado mais tarde quando um anjo derrama a sua taça sobre o trono da besta (16:10). Essas três imagens da supremacia representam a falsa alegação do dragão quanto ao domínio real, que ele compartilha com a besta, a qual age como seu plenipotenciário[32]. Alguns relacionam esta força e influência aos hereges[33].
Quem se atreveria a negar que o cenário da História Universal está sendo rapidamente preparado por tendências que conduzirão finalmente ao governo e adoração de um tal monstro? Todos aqueles que não pertencem ao Cordeiro de Deus adorarão a besta; aqui se diz o que é a marca da besta, a falsa adoração.
Certamente, o mal é unificado contra tudo que carrega o Nome de Deus. Podemos concluir que algum tipo de sistema unificado será inaugurado pelo Anticristo que entrará em guerra contra os cristãos. A conexão muito próxima entre o dragão e a besta do mar é óbvia, no sentido de que o dragão “ἔδωκεν” (Edōken) “deu” a ela suas três posses e atributos mais essenciais. Outra imitação de Deus é vista no fato de que o dragão “deu” autoridade para a besta, já que, em outras partes do livro, é Deus quem dá autoridade para a realização de obras (ver “ἐδόθη” [edothē, o passivo divino “foi dado”] em 6:2, 4, 8, 11; 7:2; 8:2, 3; 9:1, 3, 5; 11:1, 2; 12:14; 13:5, 7, 14, 15; 16:8; 19:8; 20:4). Essa usurpação da autoridade divina é uma característica básica do dragão e da besta nesses capítulos.
O poder eclesiástico da besta que “sobe da terra”.
Enquanto a primeira besta é sem dúvida um poder secular, a segunda (v. 11), como disse Lee, “é um poder mundial espiritual, o poder da ciência e do conhecimento, das idéias, do cultivo intelectual. Ambas são inferiores, ambas são bestas, e, portanto, estão em íntima afiança. A sabedoria anticristã secular está a serviço do poder anticristão mundano” (p. 671).
Esta “outra” besta imita a descrição de Cristo como o Cordeiro com sete chifres em 5:6[34]. Ela tem[35] (“κέρατα δύο ὅμοια ἀρνίῳ” [kerata dyo homoía arniō]) “dois chifres semelhantes ao de um cordeiro” e, portanto, também corresponde à advertência de Cristo acerca dos falsos profetas em Mateus 7:15: — “os falsos profetas […] vêm a vós disfarçados em pele de ovelha, mas interiormente são lobos devoradores”. O fato de que há dois chifres na segunda besta em vez de dez, como na primeira (13:1), demonstra seu papel subordinado, mas também faz alusão a Daniel 8:3, em que o “carneiro com dois chifres” representa o império medo–persa em sua oposição a Deus. Os chifres do dragão, da besta e do falso profeta retratam o poder das forças malignas no controle deste mundo, que se opõe a Deus e à sua vontade. Portanto, essa segunda besta também (“ἐλάλει ὡς δράκων” [elalei hōs drakōn]) falava como um dragão.
A segunda besta (Falso Profeta) reforça as ordens da primeira (Anticristo), e acompanha sua obra perversa com várias formas de manifestações milagrosas (v. 12, 13). O período do “tempo dos gentios” começou com a adoração imposta de uma imagem por um poderoso governante (por Nabucodonosor em Daniel 3), e este período terminará com uma semelhante adoração imposta, desta vez em escala universal.
A imagem de idolatria do Anticristo será diferente de qualquer outro ídolo da História Humana. A Escritura com desdém denuncia ídolos como “tendo olhos, mas não vendo. Tendo ouvidos, mas não ouvindo; tendo narizes, mas não cheirando. Tendo mãos, mas não apalpando; tendo pés, mas não andando; nem som algum saindo da sua garganta” (Salmos 115:5 – 7; cf. 135:15 – 17; Isaías 46:7; Jeremias 10:05; Hebreus 2:18, 19). Contudo, em outra demonstração do seu poder para enganar, a besta que sobe da terra dará “fôlego à imagem da primeira besta” (Apocalipse 13:15), para que a imagem da besta engane de forma tal, que acontecerá através de “falsos cristos e falsos profetas [que surgirão], e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos” (Mateus 24:24).
Beale comenta o seguinte acerca do versículo 15 (“e lhe foi dado comunicar fôlego à imagem da besta, para que não só a imagem falasse”): — “Isso pode incluir referência a truques de mágica e fenômenos semelhantes atestados entre os supersticiosos, e até mesmo nas cortes dos imperadores romanos, mas os ‘sinais’ podem incluir real atividade demoníaca, já que demônios estavam por trás dos ídolos[36]”.
A expressão é uma maneira metafórica de afirmar que a segunda besta — “que tem aparência de cordeiro, mas que fala como dragão” (Apocalipse 13:11) —, era persuasiva em demonstrar que a imagem da primeira besta representava a “verdadeira divindade” (Anticristo), que está realmente por trás da imagem e faz decretos.
Como comentou Wesley em suas notas sobre o Livro do Apocalipse (capítulo 13): — “Toda a sucessão de Papas a partir de Gregório VII são, sem dúvida, anticristos, acrescentando aos seus predecessores um grau peculiar de maldade do abismo[37]”. Martinho Lutero citando a advertência de Cristo em Mateus 24 sobre os falsos profetas que realizam “sinais e prodígios, para enganar, se fosse possível, os escolhidos”, disse que os milagres não eram prova da autoridade papal. Ele disse que 2 Tessalonicenses 2:9 havia predito “que o Anticristo, pelo poder de Satanás, será poderoso em prodígios mentirosos”.
Grant R. Osborne assevera algo de suma importância para a compreensão dos sinais demoníacos que são realizados: — “Esses sinais miraculosos enganadores em Apocalipse 13:14 estão, antes de tudo, debaixo do controle divino (a repetição do passivo divino [“ἐδόθη” – edothē – “foi dado”] de 13:5 – 8 coloca a ação debaixo do controle de Deus) e, em segundo lugar, tem como seu propósito pleno ‘enganar’ os habitantes da terra. Satanás é o grande ‘enganador’ cósmico, a ‘antiga serpente’ (12:9) e o ‘que engana as nações’ (20:3, 8, 10). Deus ‘dá’ ao Falso Profeta poder para ‘iludir’ as nações com os milagres enganadores (13:14; 19:20). Em Romanos 1:24, 26, somos informados de que, por causa de sua absoluta depravação, ‘Deus os entregou [os gentios] a paixões desonrosas’. Aqui opera o mesmo princípio. Tudo o que o Anticristo e o Falso Profeta fazem está sob o controle de Deus e só ocorre com a permissão dEle. Visto que os habitantes da terra rejeitaram a oferta de salvação de Deus e recusaram-se a se arrepender (9:20, 21), ‘Deus os entregou’ ao ‘engano’ que eles mesmos já haviam escolhido. Eles preferiram adorar os mesmos poderes demoníacos que os torturaram e os mataram (9:1 – 19). Portanto, o Senhor está agora permitindo que eles experimentem a ilusão com toda a sua terrível força. Em certo sentido, Deus está ‘entregando-os a Satanás’ (cf. 1 Coríntios 5:5; 1 Timóteo 1:20). Entretanto, com base na ‘grande apostasia’ de Mateus e de 2 Tessalonicenses, comentada antes, esse engano provavelmente também inclui muitos da própria Igreja, que se unirão aos habitantes da terra[38]”.
Isso aponta novamente para a identidade da segunda besta como uma contraparte da Igreja e especialmente do Espírito que a capacita (sendo “fôlego” uma metáfora bíblica para o Espírito Santo (cf. Ezequiel 37:9 – 14). Em razão da natureza transtemporal do capítulo 13 observada até esse ponto, a imagem transcende uma referência restrita apenas a um ídolo qualquer da História e inclui qualquer substituto para a verdade de Deus em qualquer era. A descrição da besta, que faz morrer “quantos não adorem a imagem da besta”, tem por inspiração a ordem de Nabucodonosor em Daniel 3 no sentido de que todos adorem sua imagem ou serão mortos. A referência às classes de pessoas sob o controle da besta no versículo 16 é também um eco dos diversos grupos dos quais é exigido que adorem a imagem de Nabucodonosor em Daniel 3:2 – 7. À luz da exortação em 13:9, 10, a implicação é que os cristãos devem perseverar como os amigos de Daniel em meio ao fogo; e, como em Daniel 3, mas em escala aumentada, a recompensa pela persistência será a libertação do tormento eterno do fogo e a exaltação com Cristo[39].
Há uma progressão da autoridade, ao ser passada do dragão para a primeira besta (13:2, 4), depois, para a segunda besta (13:12) e, por fim, para os dez reis que servem a besta (17:12, 13). Apesar disso, Deus ainda é o verdadeiro soberano, pois o poder para conceder autoridade é, em última análise, dEle; e a autoridade do dragão é tanto temporária (13:5) quanto superada pela autoridade que Deus concede a seus anjos vingadores (14:18; 16:18), especialmente ao anjo com “grande autoridade” que destrói a grande Babilônia no capítulo 18:1[40].
O capítulo 13 conclui com uma profecia do que poderia ser chamado de ditadura econômica. O texto não diz que os homens não poderão comer se não tiverem a marca […] da besta, mas não poderão negociar sem esse sinal. Adicione a essa necessidade desesperada do mundo, em meio à carnificina da Grande Tribulação[41]. Após seu imenso sucesso em todo o mundo e depois de deixar sua fachada de bondade, o falso profeta vai causar a morte em tantos quantos não adorarem a imagem da besta. Tal como no caso à imagem de Nabucodonosor (cf. Daniel 3:6), a morte sentença será decretada para aqueles que se recusarem a adorar a imagem do Anticristo. Quem não se prostrar em terra e não adorá–la será imediatamente atirado numa fornalha em chamas.
O versículo que conclui este capítulo, no qual o número da besta é revelado como “666”, tem dado lugar a uma multidão de interpretações, e a vasta literatura. Livros inteiros têm sido escritos sobre este único texto. Lutero errou em pensar que fosse uma declaração cronológica. Acrescentando 666 ao ano 1000 ele obteve naturalmente, como resultado 1666 d.C., ano em que nada de significância profética aconteceu. Muitos têm tentado identificar esta pessoa descobrindo nomes cuja soma numérica das letras perfaz 666. Em nossa língua, por exemplo, X é igual a 10, L igual a 50 e C igual a 100. Há equivalentes semelhantes para as letras no hebraico, grego e latim (Gematria[42]). Alguns têm crido, então, que este número assim traduzido refere–se a Nero, o César do primeiro século, outros como Lateinos, significando, “o Latino” – atribuiu ao vocábulo Lateinos (latino) partindo de que: — Lambida = 30, Alfa = 1, Tau = 300, Épsilon = 5, Iota = 10, Nu = 50, Ómicron = 70, Sigma = 200, cuja soma confere a “666[43]”.
A partir daí, querem, os estudiosos anticlericais deduzir infantilmente que se tratando um homem latino, seria o Papa, sob a errada alegação e fraquíssimo argumento de que seria o “Vicarius Filii Deis” (atribuem em algarismo romano da seguinte forma): — V = 5; I = 1; C = 50; A = 0; R = 0; I = 1; U = 5; S = 0 — Vicarius; F = 0; I = 1; L = 100; I = 1; I = 1 — Filii; D = 500; E = 0; I = 1; S = 0 — Deis, (Vigário do Filho de Deus ou “Dux Cleri” [Chefe do Clero]) que em numeração latina dar–se–ia em uma soma igual ou correspondente a “666”.
Afirmamos que o Papa é o Anticristo, mas não em termos infantis, temos construído Teologia ao longo da História para este objetivo e ataque à Roma Papal[44]. Como escreveu Thomas Cranmer (1489 – 1556) sobre o Anticristo: — “Do que se segue que Roma é a sede do Anticristo, e o Papa é o próprio Anticristo. Eu poderia provar o mesmo por muitas outras escrituras, escritores antigos e fortes razões[45]”. E, mais, quando trazido em procissão à Igreja de Santa Maria, em Oxford, onde ele foi forçado a fazer uma declaração pública afirmando seu arrependimento por ter atacado a Igreja de Roma, Cranmer retirou sua declaração anterior de “arrependimento[46]” denunciou a doutrina da Igreja Católica e o Papa, dizendo: — “E sobre o Papa, eu o recuso, como inimigo de Cristo e Anticristo, com toda sua falsa doutrina”. Após isso, Cranmer foi executado na fogueira. Acredito que não há necessidade de ir mais adiante do que reconhecer que seis é o número do homem decaído e, portanto, o número da imperfeição, e que “666” é a “Trindade do Seis”. Até mesmo nesta passagem há uma trindade demoníaca — “Satanás, a besta que ‘sobe do mar’ (Anticristo[47]) e a besta que ‘sobe da terra’ (Falso Profeta)”.
A marca da besta.
O oitavo e último “ποιεῖ” (“eu faço”) no capítulo 13:12 – 16 aparece aqui, quando a segunda besta “faz” todos receberem o (“χάραγμα” [charagma]) “sinal” para identificar sua fidelidade para com o Anticristo. A ênfase está em (“πάντας” [pantas]) “todos”, significando todo ser humano, crente e descrente. As categorias sociais são detalhadas para especificar cada subgrupo da humanidade e a repetição do artigo antes de cada uma ressalta os grupos individualmente. Há três pares: — “pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos”. O primeiro par faz referência aos socialmente insignificantes e aos socialmente importantes. O segundo par é quase idêntico ao primeiro, exceto pelo fato de que muitas famílias entre a nobreza romana tinham perdido suas riquezas, mas ainda eram importantes. Esse tipo de lista de estratificação social aparece três vezes no livro (6:15; 13:16; 19:18, em todas elas há um contexto negativo, focalizando os descrentes), com “pequenos e grandes” ocorrendo em outras três passagens (11:18; 19:5; 20:12, sempre tendo um aspecto positivo, focalizando os crentes). O propósito em cada ocorrência é destacar toda a humanidade e mostrar que Deus não tem favoritos. Não há distinção entre os que têm posses e os que não as têm diante de Deus e de Satanás[48].
Duas regras derivam das exigências (ποιεῖ […] ἵνα em 13:16, 17) impostas pelas bestas: — a primeira é “dar” a cada um a marca ou o selo que indica propriedade. Alguns estudiosos[49] acreditam que essa é uma paródia do batismo como um selo dos cristãos. Mas isso depende da identificação do “selo”, em 7:1 – 8, com o batismo, o que é questionável. Certamente, isso é o equivalente satânico do “selamento” dos santos por Deus em 7:2 – 4, mais uma das “grandes imitações” que caracterizam o capítulo 13. Dois textos do Antigo Testamento estabelecem o contexto para a presente passagem. Em Deuteronômio 6:8[50], Deus disse aos israelitas para colocarem o Shemá (v. 4) em suas mãos e testas, texto–base dos “filactérios[51]”, carregados pelos judeus ortodoxos da época de Jesus e também dos dias de hoje (ainda que eles colocassem os filactérios em sua mão esquerda, não na direita, como aqui). É provável que João e seus leitores também vissem a marca da besta como uma paródia disso. Além disso, em Ezequiel 9:4[52], Javé exigiu que a letra hebraica “tau” fosse posta na testa de todos aqueles que haviam se arrependido da idolatria nacional, indicando que pertenciam ao Senhor. Em Salmos de Salomão 15:6 – 9[53], a marca do crente (sinalizando salvação) é contrastada com a marca do descrente (sinalizando destruição). Observe-se a polaridade resultante: — “crentes são marcados com o ‘selo’ de Cristo (Apocalipse 7:3, 4; 22:4), enquanto os descrentes têm o ‘sinal’ da besta (13:16, 17)”. Não há neutralidade nessa guerra: — não pertencer a Cristo equivale a pertencer à besta[54].
A segunda regra (ἵνα) é que “ninguém pode comprar ou vender” sem possuir o sinal. A pressão econômica para se conformar à vontade da besta tem precedente em outras partes de Apocalipse, por causa tanto da perseguição judaica quanto da gentílica. Como vários exegetas[55] ressaltam, o governo romano perseguiu, mas não usou sanções econômicas contra os cristãos; portanto, essa imagem de Apocalipse 13:17 é elaborada com base em perseguições locais. Nas cartas a Esmirna e Filadélfia, os cristãos haviam sido afetados pela pobreza (2:9) e tinham “pouca força” (3:8), por causa da oposição dos judeus. Em Pérgamo e Tiatira, a estrutura de guildas comerciais[56], que controlava a vida da cidade, impunha uma enorme pressão econômica sobre os cristãos para se conformarem às tradições pagãs. Em 7:16, os crentes no céu “nunca mais terão fome, nem sede” novamente e, em 21:4, Deus enxugará toda “lágrima de sofrimento”. Portanto, crentes perderão seus empregos e posses, mas Deus os recompensará por toda a perda que tiveram (Marcos 10:29 – 31). Isso era verdade no primeiro século, é verdade hoje e será verdade sob a perseguição econômica universal do Anticristo[57].
Por fim, nesse sentido, o uso de “666” como uma contraparte tríplice (666 sendo usado de forma semelhante a “santo, santo, santo”, em Apocalipse 4:8) da completude do número sete e da perfeição absoluta de “Jesus” como 888 poderia também ser intencional[58]. O Anticristo é “incompleto, incompleto, incompleto” comparado ao completamente perfeito “Jesus” (888). No final das contas, devemos continuar na incerteza quanto ao sentido real de “666”. A discussão acima é o limite ao qual podemos chegar; somente os leitores do primeiro século sabiam, ainda que seja difícil afirmar quanto disso eles sabiam.
O versículo 18 começa com uma exortação aos cristãos para que não se deixem iludir pela falsidade, porque Jesus Cristo lhes deu a capacidade de resistir a ela. Essa resposta é o ponto principal dos versículos 11 a 18: — “os santos são exortados a ter sabedoria espiritual e entendimento para perceber a natureza enganadora e imperfeita da besta como relatada nos versículos 11 a 17”. A exortação conclusiva é paralela à exortação conclusiva dos versículos 1 a 9. A exortação do versículo 18 tem sentido idêntico, com a exceção de que “a metáfora de um intelecto capaz de calcular é usada em lugar da metáfora do ouvido”. Se a exortação para exercitar o intelecto mediante o cálculo for tomada literalmente, então a exortação para “ter ouvidos para ouvir” deve, de modo absurdo, ser tomada de maneira literal como referindo-se a ouvir com ouvidos físicos[59].
O Anticristo é o supremo representante da humanidade não regenerada, caída e separada de Deus, ela é incapaz de alcançar semelhança divina, contudo, sempre parodia tentando. Os seres humanos foram criados no sexto dia, mas sem o sétimo dia do próprio descanso de Deus, que Adão e Eva foram designados a cumprir, eles seriam imperfeitos e incompletos. O 666 enfatiza que o Anticristo e seus seguidores estão aquém dos propósitos criativos de Deus para a humanidade, eles são imperfeitos e incompletos; é exatamente o que representa este número “666” — “rebelião e antipatia a tudo que provém de Deus, perfeição e completude”.
A exortação que traz a sentença “aqui está a sabedoria” deve ensinar a Igreja a se guardar de se embaraçar; certamente, não só com uma determinada pessoa da histórica da humanidade, se utilizando de fútil curiosidade e trivial especulação, mas com todos os tipos de particularidades, quando se notar hostilidade à palavra de Deus[60] ao longo do curso da História, sempre que houver conivência com aspectos do poder secular e eclesiástico, da cultura idólatra, todos eles sintetizando a humanidade caída, aqui deve se perceber que esses corações humanos pertencem à besta. A sabedoria é mais bem considerada à luz das palavras “compreensão dos sábios” e “entendimento” usadas em Daniel 11:33 e 12:10. Aqui, como lá, a Igreja deve ter uma percepção espiritual para compreender a tribulação escatológica realizada por uma figura real maligna que seduz outros para que reconheçam a sua “soberania”. A exortação semelhante no capítulo 17:9 (“Aqui o sentido, que tem sabedoria. As sete cabeças são sete montes, sobre os quais a mulher está assentada”) também envolve uma interpretação simbólica de um número.
Beale comentou que: — “João está exortando a Igreja a um discernimento espiritual e moral, e não a uma capacidade intelectual para resolver um problema matemático complexo, que tanto incrédulos quanto cristãos espirituais são mentalmente capazes de resolver[61]”.
A Igreja deve estar vigilante, porque o “espírito do anticristo” pode se manifestar nos lugares mais inesperados, como no âmbito familiar (2 Timóteo 3:1 – 5[62]) ou no seio da própria Igreja (1 João 2:18, 22; 4:1 – 3; 2 João 7). O Apóstolo João escreveu: — “Saíram dentre nós, mas não eram dos nossos; porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas todos eles saíram para que se manifestasse que não são dos nossos” (1 João 2:19). Essa é a realidade da própria Igreja de Roma. A profecia de Daniel 11:30 – 39 já advertiu que apóstatas da comunidade da aliança seriam aliados da impiedade e se infiltrariam nas comunidades cristãs, seja em famílias ou em Igrejas. Se lermos o que o Apóstolo João escreveu, teremos uma percepção espiritual verdadeira e clara, permaneceremos fiéis e seremos os vencedores da besta, da sua imagem e do número do seu nome — “Vi como que um mar de vidro, mesclado de fogo, e os vencedores da besta, da sua imagem e do número do seu nome, que se achavam em pé no mar de vidro, tendo harpas de Deus” (Apocalipse 15:2).
Os Reformadores buscaram a marca fundamental da Igreja na palavra de Deus, nós também devemos buscar. Isto é, sem a palavra de Deus, afinal, não haveria a Igreja santa (Provérbios 29:18; Isaías 8:20; Jeremias 8:9; Oséias 4:6). Jesus Cristo reúne sua Igreja (Mateus 28:19), que é edificada sobre o ensino dos Apóstolos e Profetas, por meio da Palavra e dos dois únicos sacramentos [Batismo e Ceia] (Mateus 16:18; Efésios 2:20). Por meio da Palavra, Ele a regenera (Tiago 1:18; 1 Pedro 1:23), gera a fé (Romanos 10:14; 1 Coríntios 4:15), purifica-a e santifica-a (João 15:3; Efésios 5:26). E aqueles que assim foram regenerados e renovados pela palavra de Deus, são chamados a confessar a Cristo pela Palavra (Mateus 10:32; Romanos 10:9), ouvir sua voz pela Palavra (João 10:27) e cumpri-la (João 8:31, 32; 14:23), provar os espíritos pela Palavra (1 João 4:1) e se afastar daqueles que não seguem essa doutrina (Gálatas 1:8; Tito 3:10; 2 João 9). “A Palavra é, verdadeiramente, a alma da Igreja”, como escreveu João Calvino. Todo ministério na Igreja é um ministério da Palavra. Deus dá sua Palavra à Igreja e a Igreja a aceita, preserva, ministra e ensina, reconhecendo tão–somente a sua autoridade absolutíssima, devido sua origem ser espiritual — “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21); a Igreja a confessa diante de Deus, diante uns dos outros e diante do mundo em palavras e boas obras. Em uma marca da Igreja as outras estão incluídas como aplicações específicas. Onde a palavra de Deus é corretamente pregada, ali também o sacramento é ministrado de modo puro, a verdade de Deus é confessada em harmonia com o intento do Espírito Santo e a conduta dos cristãos é moldada de forma harmoniosa com a vontade de Deus revelada somente na Escritura.
Todos aqueles que depreciam a Jesus Cristo e sua Palavra são membros do reino da trindade satânica, já foram “selados”, portanto, pertencem ao dragão, a besta e ao falso profeta, logo ao Lago de Fogo e Enxofre, não fazem e não podem fazer parte do reino de eleitos da Trindade Santa, não pertencem ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
Paz e graça.
[1] BEALE, G. K. Brado de Vitória, traduzido por Paulo Sérgio Gomes, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017, p. 228.
[2] “Mais Que Vencedores”, p. 54. William Hendriksen escreve que, Apocalipse 13, pode ser entendido como sendo: — “[…] os agentes, instrumentos ou armas que o dragão usa em seus ataques contra a Igreja”.
[3] ROTZ, Carol. Novo Comentário Bíblico Beacon – Apocalipse, Rio de Janeiro, Editora Central Gospel, 2015, p. 238.
[4] “a besta que sobe do abismo lhes fará guerra, e os vencerá, e os matará” (ACF).
[5] “e vi subir do mar uma besta” (ACF).
[6] Mais conhecido por seu conceito de “espiral hermenêutica”, denotando um “processo ascendente e construtivo de passar de uma pré–compreensão anterior para uma compreensão mais completa, e o retorno para verificar e revisar a necessidade para correção ou mudança neste entendimento preliminar” (THISELTON, Anthony C. “Hermenêutica — Uma Introdução”, 2009, p. 14). Obra notável “A Espiral Hermenêutica”.
[7] OSBORNE, Grant R. Apocalipse – Comentário Exegético, tradução de Robinson Malkomes, Tiago Abdalla T. Neto, São Paulo, Edições Vida Nova, 2014, p. 550.
[8] OSBORNE, Grant R. Apocalipse – Comentário Exegético, tradução de Robinson Malkomes, Tiago Abdalla T. Neto, São Paulo, Edições Vida Nova, 2014, p. 407.
[9] Abismo, “ἄαβισσος” (abussos), profundidade insondável, uma concepção especialmente judaica, o lar dos mortos e dos espíritos malignos.
[10] Aune (1998a: 732) defende que a forma anartra de “θηρίον” aqui significa, principalmente, que a forma articular em 11:7 é uma interpolação posterior. Essa suposição é desnecessária, pois a forma articular em 11:7 deveria ser anafórica, indicando a quarta besta de Daniel 7, ao passo que a forma anartra nesse caso tem um aspecto qualitativo, enfatizando as características da “besta” conforme enumeradas neste capítulo.
[11] Yarbro Collins, 1976:76.
[12] OSBORNE, Grant R. Apocalipse – Comentário Exegético, tradução de Robinson Malkomes, Tiago Abdalla T. Neto, São Paulo, Edições Vida Nova, 2014, p. 516. Por todo o Oriente Médio antigo, o monstro do mar simbolizava a guerra entre o bem e o mal, entre os deuses e o caos (para informação sobre paralelos ugaríticos, acádios, gregos e egípcios, ver Yarbro Collins 1976:77 – 79).
[13] BEALE, G. K. Brado de Vitória, traduzido por Paulo Sérgio Gomes, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017, p. 251.
[14] Veja o comentário de Apocalipse 9:1 por Grant R. Osborne.
[15] Ver também Klaas Schilder, op. cit., p. 141.
[16] “As águas que viste, onde se assenta a prostituta, são povos, e multidões, e nações, e línguas” (ACF).
[17] Jonathan Edwards. Sermão intitulado: — “Pecadores nas Mãos de um Deus Irado”. “Pecadores nas Mãos de um Deus Irado” foi um sermão pregado por Jonathan Edwards em 8 de julho de 1741, em Enfield, Connecticut. O sermão foi baseado em Deuteronômio 32:35, “[…] a seu tempo quando resvalar o seu pé” e proclamava a ira de Deus contra o pecado e uma petição aos ouvintes para viver uma vida santa.
[18] O “Falso Profeta” é = agente + falsa profecia.
[19] Podendo ser “agentes, instrumentos ou armas que o dragão usa em seus ataques contra a Igreja”, segundo Osborne.
[20] “Unio Personalis” ou “União Hipostática”.
[21] Três partes devem ser consideradas a partir do versículo 1: — “Primeiro, o Apóstolo João mostra um mal perigoso para os fiéis; e, portanto, ele os exorta a tomar cuidado. Segundo, o Apóstolo prescreve como eles devem tomar cuidado, isto é, fazendo uma distinção entre os espíritos. Terceiro, João aponta um erro específico, o mais perigoso para eles; portanto, os proíbe de ouvir aqueles que negaram que o Filho de Deus apareceu em carne” (João Calvino).
[22] BEALE, G. K. Brado de Vitória, traduzido por Paulo Sérgio Gomes, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017, p. 252.
[23] ROTZ, Carol. Novo Comentário Bíblico Beacon – Apocalipse, Rio de Janeiro, Editora Central Gospel, 2015, p. 241.
[24] BEALE, G. K. Brado de Vitória, traduzido por Paulo Sérgio Gomes, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017, p. 255.
[25] A morte e a ressurreição de Cristo resultaram na excomunhão de Satanás do céu. Assim como Satanás e suas hostes caíram no início da primeira criação (Isaías 14:11 – 16; Ezequiel 28:12 – 19 [possivelmente]; 2 Pedro 2:4; Judas 6), do mesmo modo ele tinha de cair no início do que a Escritura nos diz ser a segunda e nova criação (veja 1:5 e 3:14; cf. 2 Coríntios 5:14 – 17; Gálatas 6:15). A obra de Satanás sempre foi acusar os santos (Jó 1:6 – 11; 2:1 – 6; Zacarias 3:1, 2), e por essas passagens pode-se concluir que o diabo teve a permissão de Deus para acusar o seu povo de pecado. Implícita também nas acusações estava a acusação de que o próprio caráter de Deus era corrupto. Por exemplo, em Jó 1 Satanás diz a Deus que Jó não teria sido tão fiel se Deus não o tivesse subornado com tanta prosperidade. A acusação do diabo baseia-se na pressuposição correta de que a penalidade do pecado requer um juízo de morte espiritual. Até a morte de Cristo, podia parecer que o diabo tinha boas razões, uma vez que Deus introduziu todos os santos do Antigo Testamento na sua presença salvadora sem cobrar a penalidade do pecado deles, tendo Deus adiado a execução da justa punição pelo nosso pecado (Romanos 3:25). Contudo, mesmo assim a acusação feita pelo diabo era injusta, visto que os pecados a respeito dos quais ele estava acusando as pessoas e pelos quais ele queria puni-las foram instigados pelas suas enganações. E por isso que ele é chamado de sedutor e acusador nos versículos 9 e 10. Por conseguinte, em razão das injustas acusações de Satanás e da esperada morte redentora do Messias em favor do seu povo (cf. Isaías 53), os santos do Antigo Testamento foram protegidos por Deus do perigo condenatório dessas acusações.
[26] BEALE, G. K. Brado de Vitória, traduzido por Paulo Sérgio Gomes, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017, p. 253.
[27] Fiorenza, 1991, p. 55.
[28] BEALE, G. K. Brado de Vitória, traduzido por Paulo Sérgio Gomes, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017, p. 253.
[29] ROTZ, Carol. Novo Comentário Bíblico Beacon – Apocalipse, Rio de Janeiro, Editora Central Gospel, 2015, p. 239.
[30] A designação temporal de “42 meses”, o que equivale a “três anos e meio” ou “1260 dias” (quarenta e duas vezes 30 dias/mês) (11:3; 12:6), também é referida no Apocalipse como “um tempo, tempos e metade de um tempo” (12:14). A maioria concorda que não é literal (em oposição Walvoord, 1966, p. 178). No Antigo Testamento, 42 meses está sempre associado à “morte violenta” (2 Reis 2:23, 24; 10:14), de modo que pode significar “morte violenta inútil” (Ford, 1995b, p. 192). O termo lembra a estrutura de tempo da profecia de Daniel acerca da tribulação, que é diversas vezes rotulada como “um tempo, tempos e metade de um tempo” (Daniel 7:25; 12:7); uma semana (Daniel 9:27); 1.290 dias (Daniel 12:11); e 1.335 dias (Daniel 12:12). O cumprimento inicial ocorreu durante o reinado de Antíoco Epifânio 175 – 164 a.C. (como registrado em 1 Macabeus 1 — 3; 2 Macabeus 5). Em Mateus 24:15 e Marcos 13:14, o cumprimento de Daniel 9:27 (a divisão da septuagésima “sete”) está relacionado ao cerco de Jerusalém pelos romanos, que durou cerca de três anos e meio (veja Court, 1979, p. 87). Com base na semana de anos de Daniel (Daniel 9:27), alguns (Johnson, 1981, p. 503) acreditam que existam duas séries distintas de períodos de “quarenta e dois meses” no Apocalipse. A primeira (11:2; 12:6, 14) ocorre quando as duas testemunhas pregam, e a segunda (13:5 – 13) quando a perseguição é severa e o Anticristo governa (Beale, 1999, p. 566 – 567). A maioria concorda que a designação do tempo figurativo se refere a todas as passagens de Daniel, embora alguns (Beale, 1999, p. 567) admitam um aumento na intensidade da perseguição no final. Outros (Bratcher e Hatton, 1993, p .166; Mounce, 1998, p. 215) limitam a um curto período de tempo no final da História, quando o mal recebesse permissão para governar livremente. Aune (1998, p. 609) aponta que o “tempo, tempos e metade de um tempo” é propositadamente vago e que “três anos e meio” pode ser um número “redondo” por um período prolongado de tempo. Nesse caso, a designação de tempo refere-se a toda a História da Igreja, que mede o tempo entre a Encarnação e a Parusia (Beale, 1999, p. 565 – 568; Hughes, 1973, p. 123). O evento de Cristo inaugurou as hostilidades (veja 12:5, 6), e nunca houve um momento em que a Igreja tivesse uma relação pacífica com os que se opõem a esta (Sweet, 1979, p. 183). As possíveis razões para o uso de “três anos e meio” representar o tempo do mal incluem a extensão da seca nos dias de Elias (cf. Lucas 4:25; Tiago 5:17); o tempo entre a primeira revolta judaica de 66 d.C. e a queda de Jerusalém em 70 d.C. (Smalley, 2005, p. 274); o período aproximado do ministério de Jesus (Beale, 1999, p. 567); e o inverno babilônico medido em meses (Moffatt, 1908, p. 416). Todas essas associações são possíveis, mas nenhuma é convincente.
[31] BEALE, G. K. Brado de Vitória, traduzido por Paulo Sérgio Gomes, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017, p. 252.
[32] Quem tem plenos poderes.
[33] Cesário de Aries e Ecumenius em Weinrich, 2005, p. 198 – 200.
[34] Contra Mounce (1998: 255), que diz que a primeira besta imita Cristo, não a segunda. Mas não há nenhum motivo para que a segunda besta não possa também imitar Cristo, e a combinação do “cordeiro” com o “chifre” é semelhante demais a 5:6 para ser ignorada.
[35] O verbo no tempo imperfeito “εἶχεν” (eichen, estava tendo) é dramático, enfatizando a natureza progressiva do surgimento da besta.
[36] BEALE, G. K. Brado de Vitória, traduzido por Paulo Sérgio Gomes, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017, p. 264.
[37] Section 3 – Our Doctrinal Standards and General Rules.
[38] OSBORNE, Grant R. Apocalipse – Comentário Exegético, tradução de Robinson Malkomes, Tiago Abdalla T. Neto, São Paulo, Edições Vida Nova, 2014, p. 576.
[39] BEALE, G. K. Brado de Vitória, traduzido por Paulo Sérgio Gomes, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017, p. 264.
[40] BEALE, G. K. Brado de Vitória, traduzido por Paulo Sérgio Gomes, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017, p. 553.
[41] Não no sentido ensinado pelos dispensacionalistas que acreditam em uma tribulação de sete anos que está vinculada ao cumprimento de Daniel 9:24 – 27. Eu acredito que esta seja uma profecia messiânica já cumprida em Cristo. Mas haverá um aumento da tribulação (tanto em intensidade quanto em frequência) antes do tempo do fim? Eu diria que é uma possibilidade real, e a Bíblia nos adverte que podemos ser chamados a sofrer durante um tempo de “Grande Tribulação”, enquanto ao mesmo tempo nos encoraja com a promessa do Deus de graça Todo–suficiente sob as mais difíceis circunstâncias. Como Beale coloca: — “A Grande Tribulação já começou com os sofrimentos e o sangue derramado de Jesus, e todos os que seguem Ele devem igualmente sofrer através dEle”.
[42] O que é Gematria? Em hebraico, grego e latim as letras do alfabeto também funcionavam como números. As nove primeiras letras correspondiam de um a nove, o nove seguinte significava dez por noventa, e assim por diante. Gematria usava essas equivalências como um jogo de palavras codificadas, em que as palavras e os nomes eram representados pela soma de seus equivalentes numéricos. Um exemplo popular é um granito de Pompéia: — “Eu amo cujo número é 545”. O número 318 para o servo de Abraão (Gênesis 14:14), foi decifrado como Eliezer numa tradição rabínica (Aune, 1998, p. 771), porém, o trabalho de apenas um número total prova ser um enigma com uma gama de possibilidades. Adivinhar pode ser a habilidade mais útil na interpretação de tais números.
[43] MOODY, p. 50.
[44] Veja: — 1 – Abernethie, Thomas. “Abjuration of Popery” (Abjuração do Papado). 2 – Beza, Theodore. “The Pope’s Canons” (Os Cânones do Papa). 3 – Mayer, John. “An Antidote Against Popery” (Um Antídoto Contra o Papismo). 4 – Puffendorff, Samuel. “The History of Popedom” (A História do Papado). 5 – Wylie, J. A. “The Papacy is the Antichrist” (O Papado é o Anticristo). 6 – Downame, George. “A Treatise concerning Antichrist” (Um Tratado sobre o Anticristo). 7 – Rutherford, Samuel. “A Survey of the Spiritual Antichrist” (Uma Pesquisa sobre o Anticristo Espiritual). 8 – Whitby, Daniel. “The Fallibility of the Roman Church” (A Falibilidade da Igreja Romana). 9 – Knox, John. “Admonition to Flee Idolatry, Romanism and all False Worship” (Admoestação para fugir da idolatria, do romanismo e de toda a falsa adoração). 10 – Clarkson, David. “Doctrine of Justification is dangerously corrupted in the Roman Church” (A doutrina da justificação está perigosamente corrompida na Igreja Romana). 11 – Stewart, Alexander. “Roman Dogma and Scripture Truth” (O Dogma Romano e a Verdade das Escrituras). 12 – M’donald, John. “Romanism Analyzed in the Light of Scripture, Reason and History” (Romanismo Analisado à Luz das Escrituras, da Razão e da História). 13 – Webster, Daniel. “The Church of Rome at the Bar of History” (A Igreja de Roma na Perspectiva da História). 14 – Whitaker, William. “Disputations on Holy Scripture” (Disputas sobre a Sagrada Escritura). 15 – Plumer, William. “Earnest Hours” (Horas de Trabalho). 16 – Guinness, H. Grattan. “Romanism and the Reformation from the Standpoint of Prophecy” (O Romanismo e a Reforma do Ponto de Vista da Profecia). 17 – Brown, John (of Haddington). “Absurdity and Perfidy of all Authoritative Toleration of Gross Heresy, Blasphemy, Idolatry, Popery in Britain” (Absurdo e Perfídia de toda a Tolerância Autoritária de Heresia Grosseira, Blasfêmia, Idolatria e Papismo na Grã–Bretanha). 18 – Dabney, Robert L. “Attractions of Popery” (“Atrativos do Papismo). 19 – George, R. J. “Badge of Popery” (“Distintivo do Papismo”). 20 – Gavin, Anthony. “History of Popery” (História do Papismo). 21 – Fairbairn, Patrick. “Is Popery the Antichrist?” (O Papado é o Anticristo?). 22 – Wilkinson, Henry. “Pope of Rome is Antichrist” (O Papa de Roma é o Anticristo). 23 – Doolittle, Thomas. “Popery is a Novelty” (O Papado é uma Inovação). 24 – Henry, Matthew. “Popery, A Spiritual Tyran” (O Papado, uma Tirania Espiritual). 25 – Ness, Christopher. “Protestant Antidote against the Poison of Popery” (Antídoto Protestante contra o Veneno do Papado). 26 – Blakeney, R. P. “Protestant Catechism or Popery Refuted” (Catecismo Protestante ou Papado Refutado). 27 – Fleming, Robert. “Rise and Fall of the Papacy” (Ascensão e Queda do Papado). 28 – Calvin, John. “Rise of the Papacy with Proof from Daniel and Paul” (Ascensão do Papado com Provas em Daniel e Paulo).
[45] Works by Cranmer, Vol. 1, p. 6 – 7.
[46] Da qual só fez, pelo enfraquecimento pelos mais de dois anos de prisão e para evitar sua execução, o que não adiantou frente a face cruel da Igreja de Roma.
[47] O Anticristo Jesus o chamou de “o abominável da desolação” (Mateus 24:15). Paulo o chamou de “o homem da iniquidade, o filho da perdição” (2 Tessalonicenses 2:3) e também de “o iníquo” (2 Tessalonicenses 2:8). João o chamou de “o Anticristo” (1 João 2:18) e também “a besta que emerge do mar” (Apocalipse 13:1; 19:20). O Anticristo receberá o poder, o trono e grande autoridade de Satanás (Apocalipse 13:2). Será adorado (Apocalipse 13:4). Parecerá invencível (Apocalipse 13:4). Vai perseguir e matar os santos (Apocalipse 13:7). Será adorado por todos os homens, exceto aqueles cujo nome está no livro da vida (Apocalipse 13:8). O Anticristo, porém, será derrotado fragorosamente por Jesus Cristo em sua Segunda Vinda (2 Tessalonicenses 2:8). Será lançado no Lago de Fogo para sofrer eternamente (Apocalipse 19:20; 20:10). A Igreja de Cristo, porém, desfrutará das venturas eternas nos novos céus e na nova terra (Apocalipse 21:1 – 7).
[48] OSBORNE, Grant R. Apocalipse – Comentário Exegético, tradução de Robinson Malkomes, Tiago Abdalla T. Neto, São Paulo, Edições Vida Nova, 2014, p. 579.
[49] Krodel 1989: 255; Roloff 1993: 164.
[50] “Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por frontais entre os teus olhos” (ACF).
[51] Pequenas bolsas de couro contendo passagens das Escrituras.
[52] “E disse–lhe o Senhor: — Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela” (ACF).
[53] “[…] porque é o sinal de Deus sobre os justos para salvação. Fome, espada e morte estão longe dos justos; porque eles fugirão dos santos como os perseguidos da guerra. Mas eles perseguirão os pecadores e, e os atacarão; e os que cometem iniquidade não escaparão ao julgamento do Senhor. Como por experientes em guerra serão agarrados, pois a marca da destruição está sobre suas testas”. Os Salmos de Salomão são um grupo de dezoito salmos pseudepígrafos (erroneamente atribuídos a Salomão) e apócrifos do Antigo Testamento (ou seja, rejeitados pelas principais correntes cristãs). Escritos provavelmente em torno de 60 a.C., eram considerados perdidos, até que no século XVII foi encontrada uma cópia em grego, baseada num texto mais antigo em hebraico ou aramaico. Seu conteúdo é messiânico e crítico contra os sacerdotes e homens ricos, especialmente contra aqueles que entregaram o reino de Israel ao domínio do Império Romano.
[54] OSBORNE, Grant R. Apocalipse – Comentário Exegético, tradução de Robinson Malkomes, Tiago Abdalla T. Neto, São Paulo, Edições Vida Nova, 2014, p. 580.
[55] Caird 1966: 173; Johnson 1981: 532 – 533.
[56] Corporações de ofício (do latim “corpora” ou “collegia”) também chamadas guildas ou mesteirais, associações de pessoas qualificadas em um ofício (semelhante aos sindicatos) que surgiram a partir do século XII com as transformações no feudalismo na Idade Média (século V – XV) oriundas das antigas Guildas, com objetivos de: — controle econômico dos governantes (teoricamente); regulamentar as profissões e o processo produtivo artesanal nas cidades; defenderem e negociarem de forma mais eficiente, e; evitar a concorrência.
[57] OSBORNE, Grant R. Apocalipse – Comentário Exegético, tradução de Robinson Malkomes, Tiago Abdalla T. Neto, São Paulo, Edições Vida Nova, 2014, p. 581.
[58] Rowland 1999:355.
[59] BEALE, G. K. Brado de Vitória, traduzido por Paulo Sérgio Gomes, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017, p. 569.
[60] O distintivo genuíno da Igreja de Cristo é ter a palavra de Deus como regra de fé e prática.
[61] BEALE, G. K. Brado de Vitória, traduzido por Paulo Sérgio Gomes, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017, p. 570.
[62] “Saiba que nos últimos dias haverá tempos muito difíceis. Porque as pessoas só amarão a si mesmas e ao dinheiro. Serão arrogantes e orgulhosas, zombarão de Deus, desobedecerão a seus pais e serão ingratas e profanas. Não terão afeição nem perdoarão; caluniarão outros e não terão autocontrole. Serão cruéis e odiarão o que é bom, trairão os amigos, serão imprudentes e cheias de si e amarão os prazeres em vez de amar a Deus. Serão religiosas apenas na aparência, mas rejeitarão o poder capaz de lhes dar a verdadeira devoção. Fique longe de gente assim!” (NVT).
por Scott R. Swain | 23 jan 2022 | TEOLOGIA
A maioria das apresentações evangélicas da doutrina das Escrituras são implicitamente trinitárias. Eles identificam o Pai como o autor principal das Escrituras, o Filho como o assunto central das Escrituras e o Espírito como o agente imediato da inspiração profética e apostólica. “A Escritura é Deus Pai pregando a Deus o Filho por Deus o Espírito”, para usar a famosa descrição de J. I. Packer. Além disso, os evangélicos reconhecem que o Evangelho de Jesus Cristo, o assunto central das Escrituras, é implicitamente trinitário.
O Evangelho diz respeito ao amor de Deus Pai pelos pecadores eleitos, o sofrimento e a glória de Deus o Filho Encarnado e a comunhão dos santos em Deus o Espírito. O Evangelho é trinitário na sua raiz e nos seus frutos.
Por mais salutar que seja esse trinitarianismo implícito, há mais a ser dito sobre a relação entre a Trindade e as Escrituras. A Trindade não é simplesmente o autor primário da Sagrada Escritura e a estrutura orgânica do Evangelho. A Trindade é a dimensão profunda da Sagrada Escritura, seu principal assunto e fim. O livro recente de Matthew Bates, “The Birth of the Trinity: — Jesus, God, and the Spirit in New Testament and Early Christian Interpretation of the Old Testament” — “O nascimento da Trindade: — Jesus, Deus e o Espírito no Novo Testamento e a Interpretação Cristã Primitiva do Antigo Testamento”, abre uma janela esclarecedora para a dimensão trinitária de profundidade da Sagrada Escritura.
O livro de Bates se concentra na “exegese prosopológica” cristã primitiva do Antigo Testamento. A exegese prosopológica é uma “estratégia de leitura centrada na pessoa” que procura resolver as identidades ambíguas de oradores e audiências em textos do Antigo Testamento à luz da clara determinação de suas identidades no Evangelho apostólico. Como Bates demonstra, tanto o Novo Testamento quanto os primeiros intérpretes cristãos se engajaram nesse tipo de exegese. Por exemplo, Marcos 12:35 – 37[2], esclarece as identidades de orador e ouvinte no Salmos 110 como Deus Pai falando com Deus Filho a respeito de sua geração eterna e domínio messiânico. E nos esclarece que Davi ouviu essa conversa entre o Pai e o Filho “no Espírito Santo”.
A exegese prosopológica do Novo Testamento e do cristianismo primitivo ouve por acaso a história do “Deus conversacional” – falante –, à medida que se desenrola desde sua raiz na geração eterna do Filho e nomeação como Messias, através da missão encarnada do Filho, morte e ressurreição, até seu triunfo final no estabelecimento do Filho à mão direita do Pai.
No Salmos 110:3, 4, ouvimos o Pai dizer: — “[…] desde a madre da alva, tu tens o orvalho da tua mocidade[3]”, e ouvimos o Pai designar este Filho eternamente gerado como Rei–Sacerdote messiânico: — “[…] tu és um sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque” (compare com o Salmos 2:6 – 9).
No Salmos 40:6 – 8[4], ouvimos o Filho falando ao Pai do corpo que o Pai preparou para Ele e do desejo do Filho de fazer a vontade do Pai em sua missão encarnada (veja também Hebreus 10:5 – 7).
No Salmos 22, ouvimos o grito de agonia do Filho na cruz — “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que te alongas do meu auxílio e das palavras do meu bramido? Deus meu, eu clamo de dia, e tu não me ouves; de noite, e não tenho sossego” (v. 1, 2) — e ouvimos o Filho louvar o Pai no meio de uma congregação de pessoas depois de o Pai o ter ressuscitado dentre os mortos — “Então declararei o teu nome aos meus irmãos; louvar-te-ei no meio da congregação. Vós, que temeis ao Senhor, louvai-o; todos vós, semente de Jacó, glorificai-o; e temei-o todos vós, semente de Israel. Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dEle o seu rosto; antes, quando Ele clamou, o ouviu. O meu louvor será de ti na grande congregação; pagarei os meus votos perante os que o temem” (v. 22 – 25).
No Salmos 45:6, 7, nós ouvimos o Filho sendo abordado enquanto o Pai o estabelece em seu trono eterno depois que Ele cumpriu obedientemente a comissão do Pai: — “O teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo; o cetro do teu reino é um cetro de eqüidade. Tu amas a justiça e odeias a impiedade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria mais do que a teus companheiros” (conferir também Hebreus 1:8, 9).
Tal estratégia de leitura revela a dimensão trinitária de profundidade das Escrituras de pelo menos duas maneiras.
Primeiro, revela que a Sagrada Escritura não é apenas a palavra de Deus para nós; a Sagrada Escritura também é testemunha da palavra de Deus para Deus. Como é maravilhoso ler as Escrituras Sagradas como uma ocasião inspirada pelo Espírito para ouvir a conversa intratrinitária[5] de Deus!
Segundo, essa estratégia de leitura nos ajuda a ver que a grande história de amor que se desenrola nas páginas das Escrituras Sagradas não é simplesmente a história do amor de Deus pelos pecadores eleitos.
É a história do amor do Pai por seu Filho eterno e de seu desejo de torná-lo o chefe de uma humanidade redimida, e é a história do amor do Filho pelo Pai e de sua vontade de se encarnar e suportar o sofrimento — até a morte na cruz — por causa de seu zelo pela glória do Pai entre as nações (Salmos 69:9; João 2:17).
A exegese prosopológica nos ajuda a ver que a história do amor de Deus por nós é apenas uma nuance sobre o tema maior do amor do Pai pelo Filho no Espírito.
A exegese prosopológica é uma estratégia de leitura centrada na pessoa que nos ajuda a ver o assunto centrado na pessoa e o fim centrado na pessoa das Escrituras.
Ensina-nos que o propósito da revelação, e da escrituração da revelação, é desvendar a vida intratrinitária de comunicação e comunhão de Deus e nos acolher no abraço dessa vida – com grande custo para o próprio Deus trino (Mateus 11:25 – 27; 1 João 1:3, 4).
A Sagrada Escritura é o produto do Espírito Santo, que capacitou Profetas e Apóstolos a ouvir as palavras amáveis do Pai ao Filho e do Filho ao Pai, e que nos capacita a ouvir o testemunho dos Profetas e Apóstolos para que, por meio do testemunho deles, nós também possamos ter comunhão com o Pai por meio do Filho no Espírito.
Paz e graça.
[1] Scott R. Swain. “The trinitarian depth of Scripture”, Reformation21 – https://www.reformation21.org/blogs/the-trinitarian-depth-of-scrip.php Acessado em 21/01/22.
[2] “E, falando Jesus, dizia, ensinando no templo: — Como dizem os escribas que o Cristo é filho de Davi? O próprio Davi disse pelo Espírito Santo: — O Senhor disse ao meu Senhor: — Assenta-te à minha direita até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés. Pois, se Davi mesmo lhe chama Senhor, como é logo seu filho? E a grande multidão o ouvia de boa vontade”.
[3] “[…] desde o ventre, antes que a estrela da manhã aparecesse, eu te gerei”.
[4] “Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste. Então disse: — Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua Lei está dentro do meu coração.
[5] Relacionamento da Santíssima Trindade, trabalhando antes da criação, o Pai, o Filho e o Espírito Santo se direcionando na mesma essência: — Deus. Significa intimidade, igualdade face à face, além de mostrar a distinção entre Pai e Filho e Espírito Santo.
[6] Pr. Me. Plínio Sousa — Tradutor e Revisor: — notas e significações.
por Plínio Sousa | 1 nov 2021 | TEOLOGIA
Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum.
As “95 Teses” ou “Disputação do Doutor Martinho Lutero sobre o Poder e Eficácia das Indulgências” (“Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum”)[1] são uma lista de proposições para uma disputa acadêmica escrita em 1517 por Martinho Lutero, professor de Teologia moral da Universidade de Vitemberga (Wittenberg), Alemanha, as quais iniciaram a Reforma Protestante, um cisma da Igreja Católica que mudou profundamente a Europa. Tais ‘Teses’ discorrem sobre as posições de Lutero contra o que ele viu como práticas abusivas por pregadores que realizavam a venda de indulgências, que tinham por finalidade reduzir a punição temporal de pecados cometidos pelos próprios compradores ou por algum de seus entes queridos no Purgatório. Nas “Teses”, Lutero afirmou que “o arrependimento requerido por Cristo para que os pecados sejam perdoados envolve o arrependimento espiritual interior e não meramente uma confissão sacramental externa”. Ele argumentou que as indulgências levam os cristãos a evitar o verdadeiro arrependimento e a tristeza pelo pecado, acreditando que podem renunciá-lo comprando uma indulgência. Estas também, de acordo com Lutero, desencorajam os cristãos de dar aos pobres e realizarem outros atos de misericórdia, acreditando que os certificados de indulgência eram mais valiosos espiritualmente. Apesar de Lutero ter afirmado que suas posições sobre as indulgências estavam de acordo com as do papa, as ‘teses’ desafiaram uma bula pontifícia do século XIV, as quais afirmavam que o papa poderia usar o tesouro do mérito e as boas obras dos santos do passado para perdoar a punição temporal pelos pecados. As “Teses” são formuladas como proposições a serem discutidas em debate, não representariam necessariamente as opiniões de Lutero, porém ele as esclareceu posteriormente na obra “Explicações da Disputa sobre o Valor das Indulgências”.
Lutero enviou as “Teses” anexadas a uma carta a Alberto de Mainz, o Arcebispo de Mainz, em 31 de outubro de 1517, data que é considerada o início da Reforma Protestante e que é comemorada anualmente como o “Dia da Reforma Protestante”. Lutero também pode ter afixado as “Teses” na porta da Igreja do Castelo de Vitemberga (Wittenberg) e de outras Igrejas em Vitemberga, de acordo com o costume da Universidade, em 31 de outubro, ou em meados de novembro. As “Teses” foram rapidamente reimpressas, traduzidas e distribuídas por toda a Alemanha e a Europa. Iniciou-se então uma guerra panfletária com o pregador de indulgências, Johann Tetzel, contribuindo para a difusão da fama de Lutero. Os superiores eclesiásticos de Lutero o julgaram de heresia, o que culminou na sua excomunhão em 1521. Embora a publicação das “Teses” seja o início da Reforma Protestante, Lutero não considerava as indulgências tão importantes como outras questões teológicas que dividiriam a Igreja, como a “justificação pela fé” e o “livre–arbítrio”. Sua descoberta acerca destas questões viria mais tarde, sendo que ele não via a escrita das “Teses” como o ponto em que suas crenças divergiram daquelas da Igreja Católica.
A primeira ‘tese’ tornou-se famosa, ao dizer: — “Fazei penitência”, etc., o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência”. Nas primeiras ‘teses’, Lutero desenvolve a idéia de arrependimento do cristão em uma luta interna contra o pecado, invés de um sistema externo de confissão sacramental[2].
1 – Teses de 1 — 4.
1 – Ao dizer: — “Fazei penitência”, etc. (Mateus 4:17[3]), o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.
2 – Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).
3 – No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.
4 – Por consequência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.
As ‘teses’ 5 — 7 então afirmam que o papa só possui o direito de libertar as pessoas de punições que ele mesmo impôs por decisões próprias ou dos cânones, e não da culpa do pecado. O papa só possui o direito de anunciar o perdão de Deus da culpa do pecado no nome dEle[4].
2 – Teses de 5 — 7.
5 – O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.
6 – O papa não tem o poder de perdoar culpa a não ser declarando ou confirmando que ela foi perdoada por Deus; ou, certamente, perdoados os casos que lhe são reservados. Se ele deixasse de observar essas limitações, a culpa permaneceria.
7 – Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.
8 – Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.
9 – Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.
10 – Agem mal e sem conhecimento de causa, aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.
11 – Essa cizânia — falta de harmonia; desavença, rixa, discórdia — de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.
12 – Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.
13 – Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.
Nas ‘teses’ 14 — 29, Martinho Lutero desafiou as crenças comuns sobre o Purgatório. As ‘teses’ 14 — 16 discutem a idéia de que a punição do Purgatório pode ser comparada ao medo e ao desespero sentidos pelas pessoas que morrem[5]. Nas ‘teses’ 17 — 24, ele afirma que nada pode ser definitivamente dito sobre o estado espiritual das pessoas que se encontram no Purgatório, e conclui nas ‘teses’ 25 e 26 negando que o papa tenha qualquer poder sobre as pessoas no Purgatório. Nas ‘teses’ 27 — 29, ele ataca a idéia de que, assim que o pagamento é feito, a alma do ente querido do pagador é libertada do Purgatório. Ele vê isso como uma maneira de encorajar a ganância pecaminosa, e diz que é impossível ter certeza, porque somente Deus tem poder supremo em perdoar punições no Purgatório[6].
3 – Teses de 14 — 29.
14 – Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais quanto menor for o amor.
15 – Este temor e horror por si sós já bastam — para não falar de outras coisas — para produzir a pena do Purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.
16 – Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança.
17 – Parece necessário, para as almas no Purgatório, que o horror devesse diminuir à medida que o amor crescesse.
18 – Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontrem fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.
19 – Também parece não ter sido provado que as almas no Purgatório estejam certas de sua bem–aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza disso.
20 – Portanto, por remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.
21 – Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.
22 – Com efeito, ele não dispensa as almas no Purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.
23 – Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.
24 – Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriado por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.
25 – O mesmo poder que o papa tem sobre o Purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura[7] tem em sua diocese e paróquia em particular.
26 – O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.
27 – Pregam doutrina mundana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando (do Purgatório para o céu).
28 – Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, pode aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.
29 – E quem é que sabe se todas as almas no Purgatório querem ser resgatadas, como na história contada a respeito de São Severino[8] e São Pascoal[9]?
As ‘teses’ 30 — 34 tratam da desconfiança que Lutero possuía sobre os pregadores de indulgência que as ofereciam para os cristãos. Uma vez que ninguém sabe se uma pessoa está verdadeiramente arrependida, uma carta que assegura uma pessoa de seu perdão é perigosa.
4 – Teses de 30 — 34.
30 – Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.
31 – Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.
32 – Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.
33 – Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Ele.
34 – Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.
Nas ‘teses’ 35 e 36, ele ataca a idéia de que uma indulgência torna o arrependimento desnecessário. Isso leva à conclusão de que a pessoa verdadeiramente arrependida, que só pode se beneficiar da indulgência, já recebeu o único benefício que ela proporciona. Os cristãos verdadeiramente arrependidos, segundo Lutero, já foram perdoados de seus pecados e respectivas culpas[10].
5 – Teses de 35 — 36.
35 – Os que ensinam que a contrição não é necessária para obter redenção ou indulgência estão pregando doutrinas incompatíveis com o cristão.
36 – Qualquer cristão que está verdadeiramente contrito tem remissão plena tanto da pena como da culpa, que são suas dívidas, mesmo sem uma carta de indulgência.
Nas ‘teses’ 37 e 38, ele deixa explícito que as indulgências não são necessárias para que os cristãos recebam todos os benefícios proporcionados por Cristo.
6 – Teses de 37 — 38.
37 – Qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, participa de todos os benefícios de Cristo e da Igreja, que são dons de Deus, mesmo sem carta de indulgência.
38 – Contudo, o perdão distribuído pelo papa não deve ser desprezado, pois, como disse é uma declaração da remissão divina.
As ‘teses’ 39 e 40 argumentam que as indulgências tornam o verdadeiro arrependimento mais difícil. O verdadeiro arrependimento deseja a punição de Deus para com o pecado, mas as indulgências ensinam a evitar a punição, uma vez que esse é o propósito de comprar uma indulgência[11].
7 – Teses de 39 — 40.
39 – Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo (extremamente difícil) exaltar simultaneamente perante o povo a liberalidade de indulgências e a verdadeira contrição.
40 – A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências às afrouxa e faz odiá-las, ou pelo menos dá ocasião para tanto.
Nas ‘teses’ 41 — 47, Lutero critica as indulgências com base em que estas desencorajam obras de misericórdia por aqueles que as compram. Aqui ele começa a utilizar a frase “Deve-se ensinar (pregar) aos cristãos que […]” para indicar como ele acha que as pessoas devem ser instruídas sobre o valor das indulgências. Elas devem ser ensinadas que dar aos pobres é incomparavelmente mais importante do que comprar indulgências, já que a compra de uma indulgência sem dar nada aos pobres provoca a ira de Deus, e fazer boas obras torna uma pessoa melhor, enquanto a compra de indulgências não provoca este efeito.
8 – Teses de 41 — 47.
41 – Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor.
42 – Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.
43 – Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.
44 – Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.
45 – Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.
46 – Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.
47 – Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.
Nas ‘teses’ 48 — 52, Lutero discorre sobre o papel do papa, dizendo que se o papa soubesse o que estava sendo pregado em seu nome, ele “preferiria reduzir a cinzas a Basílica de São Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas[12]”.
9 – Teses de 48 — 52.
48 – Deve ensinar-se aos cristãos que, ao conceder perdões, o papa tem mais desejo — assim como tem mais necessidade — de oração devota em seu favor do que do dinheiro que se está pronto a pagar.
49 – Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.
50 – Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações (cobrança, arrecadação) dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de São Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
51 – Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto, como é seu dever, a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extorquem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de São Pedro.
52 – Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.
As ‘teses’ 53 — 55 são lamentações sobre as restrições na pregação da Palavra enquanto havia o oferecimento de indulgências[13].
10 – Teses de 53 — 55.
53 – São inimigos de Cristo e do papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais Igrejas.
54 – Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela — a Palavra.
55 – A atitude do papa necessariamente é: — se as indulgências – que são o menos importante – são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho – que é o mais importante – deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.
Lutero critica a doutrina do “tesouro do mérito”, ou “tesouro da Igreja”, que serve de base para a doutrina das indulgências, durante as ‘teses’ 56 — 66. Ele afirma que os cristãos não entendem a doutrina verdadeira e estão sendo enganados, pois, para ele, o verdadeiro tesouro da Igreja é o Evangelho de Jesus Cristo[14]. No entanto, este tesouro acaba sendo odiado “pois faz com que os primeiros sejam os últimos”, segundo palavras de Mateus 19:30 e Mateus 20:16[15]. Lutero utiliza de metáfora e de jogo de palavras para descrever os tesouros do Evangelho como redes para pescarem homens de riqueza, enquanto os tesouros das indulgências são redes para pescar a riqueza dos homens[16].
11 – Teses de 56 — 66.
56 – Os tesouros da Igreja, a partir dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.
57 – É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.
58 – Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.
59 – São Lourenço[17] disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.
60 – É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem estes tesouros.
61 – Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos especiais, o poder do papa por si só é suficiente.
62 – O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.
63 – Mas este tesouro é certamente o mais odiado, pois faz com que os primeiros sejam os últimos.
64 – Em contrapartida, o tesouro das indulgências é certamente o mais benquisto, pois faz dos últimos os primeiros.
65 – Portanto, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.
66 – Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.
Durante as ‘teses’ 67 — 80, Lutero discute ainda mais sobre os problemas causados pela forma como as indulgências estavam sendo pregadas, conforme carta que enviou ao Arcebispo Alberto. Os pregadores têm promovido indulgências como a maior das graças disponíveis na Igreja, mas na verdade só promovem a ganância. Ele aponta que os bispos foram ordenados a oferecer reverência aos pregadores de indulgência que entram na sua jurisdição, mas os bispos também são acusados de proteger o seu povo de pregadores que pregam de forma contrária à intenção do papa[18]. Ele então ataca a crença supostamente propagada pelos pregadores de que a indulgência poderia perdoar alguém que violou a Virgem Maria[19]. Lutero afirma que as indulgências não podem tirar a culpa nem do mais leve dos pecados veniais. Ele rotula várias outras supostas declarações dos pregadores de indulgência como blasfêmia: — “que São Pedro não poderia ter concedido uma indulgência maior do que a atual, e que a indulgência da cruz com as armas do papa, insignemente erguida, equivale à cruz de Cristo[20]”.
12 – Teses de 67 — 80.
67 – As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tais, na medida em que dão boa renda.
68 – Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade da cruz.
69 – Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.
70 – Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbidos pelo papa.
71 – Seja excomungado e amaldiçoado quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.
72 – Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.
73 – Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências, 74 – Muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram fraudar a santa caridade e verdade.
75 – A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes a ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.
76 – Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados venais no que se refere à sua culpa.
77 – A afirmação de que nem mesmo São Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o papa.
78 – Dizemos contra isto que qualquer papa, mesmo São Pedro, tem maiores graças que essas, a saber, o Evangelho, as virtudes, as graças da administração (ou da cura), etc., como está escrito em 1 Coríntios 12.
79 – É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insignemente erguida, equivale à cruz de Cristo.
80 – Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes sermões sejam difundidos entre o povo.
Lutero enumera várias críticas feitas por leigos contra indulgências nas ‘teses’ 81 — 91. Ele as apresenta como difíceis objeções que seus fiéis estão trazendo, invés de realizar suas próprias críticas. Como ele deveria responder àqueles que perguntam: — [1] – Por que o papa não esvazia o Purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas? O que ele deveria dizer àqueles que perguntam: — [2] – Por que se mantém as exéquias (cerimônias ou honras fúnebres) e os aniversários dos falecidos? E [3] – Por que o papa não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos? Lutero afirmou que parecia estranho para alguns que pessoas piedosas no Purgatório pudessem ser redimidas por pessoas ímpias e vivas. Lutero também menciona a questão de por que o papa, que é muito rico, requer dinheiro de crentes pobres para construir a Basílica de São Pedro. Ele afirma que ignorar estas questões significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e fazer os cristãos infelizes[21]. Ele apela ao interesse financeiro do papa, dizendo que se os pregadores limitassem sua pregação de acordo com as posições de Lutero sobre as indulgências (o que ele alegava ser também a posição do papa), as objeções deixariam de ser relevantes[22]. Lutero encerra as Teses exortando os cristãos a imitar Cristo, mesmo que traga dor e sofrimento: — “E que confiem entrar no céu antes passando por muitas tribulações do que por meio da confiança da paz[23]”.
13 – Teses de 81 — 95.
81 – Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil nem para os homens doutos defender a dignidade do papa contra calúnias ou questões, sem dúvida arguta (inteligente) dos leigos.
82 – Por exemplo: — Por que o papa não esvazia o Purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas, o que seria a mais justa de todas as causas, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da Basílica, que é uma causa tão insignificante?
83 – Do mesmo modo: — Por que se mantêm as exéquias[24] e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?
84 – Do mesmo modo: — Que nova piedade de Deus e do papa é essa que, por causa do dinheiro, permite ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, mas não a redime por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta por amor gratuito?
85 – Do mesmo modo: — Por que os cânones penitenciais, de fato e por desuso já há muito revogados e mortos, ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?
86 – Do mesmo modo: — Por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos ricos mais crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma Basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos próprios fiéis?
87 – Do mesmo modo: — O que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à plena remissão e participação?
88 – Do mesmo modo: — Que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações cem vezes ao dia a qualquer dos fiéis?
89 – Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências, outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?
90 – Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e fazer os cristãos infelizes.
91 – Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.
92 – Portanto, fora com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo “Paz, paz!” sem que haja paz!
93 – Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo “Cruz! Cruz!” sem que haja cruz!
94 – Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, sua Cabeça, através das penas, da morte e do inferno.
95 – E que confiem entrar no céu antes passando por muitas tribulações do que por meio da confiança da paz.
A intenção de Martinho Lutero.
As “95 Teses” foram escritas como proposições a serem discutidas em uma disputa acadêmica formal, embora não haja evidências de que tal evento tenha ocorrido[25]. No cabeçalho das ‘teses’, Lutero convidou estudiosos interessados de outras cidades para participarem[26]. A realização de tal debate era um privilégio que Lutero tinha como doutor e não era uma forma incomum de investigação acadêmica[27]. Lutero preparou vinte conjuntos de ‘teses’ para disputa em Vitemberga entre 1516 e 1521[28]. Andreas Karlstadt[29] havia escrito um conjunto dessas ‘teses’ em abril de 1517, e estas eram mais radicais em termos teológicos do que as de Lutero. Ele as postou na porta da Igreja do Castelo, como Lutero teria feito com as “Noventa e Cinco Teses”. Karlstadt postou suas ‘teses’ num momento em que as relíquias da Igreja foram colocadas em exibição, e isso pode ter sido considerado um gesto provocativo. Da mesma forma, Lutero publicou as “Noventa e Cinco Teses” no “Dia de Todos os Santos”, o dia mais importante do ano para a exibição de relíquias na Igreja do Castelo[30].
As ‘teses’ de Lutero tinham como objetivo iniciar um debate entre acadêmicos, e não uma revolução popular, mas há indícios de que ele viu sua ação “como profética e relevante[31]”. Nesta época, ele começou a usar o nome “Lutero” e às vezes “Eleutherius”, tradução grega para “livre”, em vez de “Luder”. Isso parece referir-se ao fato de ele estar livre da Teologia escolástica, a qual ele havia discutido contra naquele ano[32]. Mais tarde, Lutero afirmou não ter desejado que as “Teses” fossem amplamente distribuídas. Elizabeth Eisenstein[33] argumentou que sua alegada surpresa em seu sucesso pode ter envolvido um engano consigo mesmo, e Hans J. Hillerbrand[34] afirmou que Lutero certamente estava pretendendo instigar uma grande controvérsia[35]. Às vezes, Lutero parece usar a natureza acadêmica das “Teses” como um disfarce para permitir que ele possa atacar a crenças estabelecidas, sendo capaz de negar que ele pretendia atacar o ensino da Igreja. Uma vez que escrever um conjunto de ‘teses’ para uma disputa não compromete necessariamente o autor a essas opiniões, Lutero poderia negar que ele tinha as idéias mais polêmicas discorridas nas proposições[36].
O legado.
A controvérsia sobre as indulgências desencadeada pelas ‘teses’ marcou o início da Reforma Protestante, um cisma na Igreja Católica que iniciou profundas e duradouras mudanças sociais e políticas na Europa[37]. Lutero declarou posteriormente que a questão das indulgências era insignificante em relação às controvérsias que ele iria enfrentar mais tarde, como o seu debate com Erasmo de Roterdão sobre o livre–arbítrio, sendo que nem ele viu a controvérsia como importante para sua descoberta intelectual sobre o Evangelho[38]. Mais tarde, Lutero escreveria que na época em que formulou as ‘teses’ ele permaneceu um “papista”, e não parecia pensar que as ‘teses’ representariam uma ruptura com a doutrina católica estabelecida[39]. No entanto, foi fora da controvérsia das indulgências que o movimento intitulado Reforma começou, todavia, a controvérsia propeliu (empurrou) Lutero para a posição de liderança que ele iria desempenhar nesse movimento[40]. As ‘teses’ também tornaram evidente que Lutero acreditava que a Igreja não estava pregando corretamente e que isto colocava os leigos em grave perigo. Além disso, as ‘teses’ contradiziam o decreto do Papa Clemente VI, que afirmava que as indulgências são o tesouro da Igreja. Este desprezo pela autoridade papal pressagiou conflitos posteriores[41].
31 de outubro de 1517, o dia em que Lutero enviou suas ‘teses’ à Alberto, foi comemorado como o início da Reforma Protestante já em 1527, momento em que Lutero e seus amigos brindaram com um copo de cerveja para comemorar o “pisoteio das indulgências[42]”. A publicação das ‘teses’ foi estabelecida na historiografia da Reforma como o início do movimento por Filipe Melâncton[43] na obra “Historia de vita et actis Lutheri” de 1548. Durante o Jubileu da Reforma de 1617, o centenário de 31 de outubro foi comemorado com uma procissão até a Igreja de Vitemberga, onde Lutero teria afixado as ‘teses’. Uma gravura foi feita mostrando Lutero escrevendo as ‘teses’ na porta da Igreja com uma gigantesca pena, a qual penetra na cabeça de um leão que simboliza o Papa Leão X[44]. Em 1668, o dia 31 de outubro foi oficializado como o “Dia da Reforma Protestante”, um festival anual no Eleitorado da Saxônia e que se espalhou por outras terras luteranas[45].
Paz e graça.
[1] Este título se encontra na impressão do panfleto da Basileia de 1517. As primeiras cópias das “Teses” usam de um ‘incipit’ no lugar de um título que resuma o conteúdo. O cartaz de Nuremberg de 1517 introduz as “Teses” com “Amore et studio elucidande veritatis: hec subscripta disputabuntur Wittenberge. Presidente R. P Martino Lutther […]. Quare petit: vt qui non possunt verbis presentes nobiscum disceptare: agant id Uteris absentes”. Lutero usualmente as chama de “meine Propositiones” — “minhas proposições” (Cummings, 2002, p. 32). Basileia (em alemão – Basel, em francês – Bâle, em italiano – Basilea) é a terceira maior cidade da Suíça (atrás de Zurique e Genebra).
[2] Brecht, 1985, p. 192.
[3] “Desde então começou Jesus a pregar, e a dizer: — Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mateus 4:17 – ACF).
[4] Waibel, 2005, p. 43.
[5] Wengert, 2015b, p. 36.
[6] Brecht, 1985, p. 194.
[7] Pároco, vigário de freguesia, povoação, aldeia. Etimologia (Latim) “cūra” — cuidado, administração, etc..
[8] Severino nasceu no ano de 410 d.C., na cidade Roma. De família nobre, era um homem polido e falava latim como ninguém. Entretanto, preferiu a pobreza, a humildade e a caridade como opção de vida. Viveu durante as invasões bárbaras e, em meio a esse cenário, soube viver o Evangelho e semear a boa nova do reino de Deus. Em 454 d.C., Severino vai até a Nórica, perto do Rio Danúbio, fronteira com o então mundo pagão. Lá, o jovem cristão tem contato com os pagãos, acolhe-os em virtude das invasões e da destruição causada pelos bárbaros. Dessa forma, converte muitas pessoas aos Cristianismo. Sua vida itinerante fez fundar vários mosteiros. Segundo a tradição, ele possuía o dom da profecia, e salvou várias cidades dos ataques bárbaros quando antevia a destruição e alertava a população, salvando, assim, muitas vidas. Morreu em 8 de janeiro de 482. Em seu leito de morte, disse: — “Todo ser que tem vida, a deve ao Senhor!” (Salmos 150).
[9] Pascoal nasceu em Torrehermosa, no Reino de Aragão, em 24 de maio de 1540, no dia de Pentecostes, conhecido na Espanha como “Pasca do Espírito Santo”, a razão do nome “Pascoal”. Seus pais, Martinho Bailão e Isabel Jubera, eram camponeses pobres. Passou sua infância como pastor e, tendo sempre consigo um livro, implorava a todos que encontrava que lhe ensinassem o alfabeto e a ler; com o passar dos anos, passou a ler livros religiosos enquanto trabalhava no pasto. Por volta de 1564, Pascoal entrou para a ordem franciscana reformada (vide ‘Reforma Alcantarina’) como irmão leigo. Ele escolheu viver em mosteiros mais pobres pois, segundo ele, “nasci pobre e resolvi morrer pobre e penitente”. E assim viveu, na pobreza e em oração, o resto de sua vida. Pascoal era um místico e contemplativo, sofrendo frequentes visões extáticas. Frequentemente passava a noite diante de um altar em oração e, ao mesmo tempo, minimizava qualquer glória ou ganho que pudesse advir deste seu comportamento. Humilde, morreu em 17 de maio de 1592.
[10] Brecht, 1985, p. 194.
[11] Brecht, 1985, p. 195.
[12] Brecht, 1985, p. 195.
[13] Waibel, 2005, p. 44.
[14] Brecht, 1985, p. 196.
[15] Wengert, 2015a, p. 22.
[16] Brecht, 1985, p. 196.
[17] Segundo as tradições, quando o papa São Sisto se dirigia ao local da execução, São Lourenço ia junto a ele e chorava: — “Aonde vai sem seu diácono, meu pai?”, perguntava-lhe. O Pontífice respondeu: — “Não pense que te abandono, meu filho, pois dentro de três dias me seguirá”. Após a execução do papa, o Imperador ameaçou a Igreja para entregar as suas riquezas no prazo de 3 dias. Passados três dias, São Lourenço levou as pessoas que foram auxiliadas pela Igreja e os fiéis cristãos diante do Imperador. Depois, exclamou a seguinte frase que lhe valeu a morte: — “Estes são o patrimônio (riquezas) da Igreja”. O Imperador, furioso e indignado, mandou prendê-lo, e ser queimado vivo sobre um braseiro ardente, por cima de uma grelha. A tradição católica diz que o santo conservou seu bom humor mesmo enquanto era executado, dizendo aos que o queimavam: — “Podem me virar agora, pois este lado já está bem assado”. Tornou-se um mártir cristão e é considerado um servo fiel da Igreja. Santo Agostinho diz que o grande desejo que tinha São Lourenço de unir-se a Cristo fez com que esquecesse as exigências da tortura. Também afirma que Deus obrou muitos milagres em Roma por intercessão de São Lourenço.
[18] Brecht, 1985, p. 196.
[19] Hartmann Grisar, um católico romano que foi biógrafo de Lutero, concorda que “Lutero sempre acreditou na Virgindade de Maria, mesmo ‘post partum’ [pós–parto], como afirmado no Credo dos Apóstolos, apesar de, mais tarde, ele negar a ela o poder da intercessão como negou o dos santos em geral, recorrendo a muitas interpretações erradas e combateu, como extrema e pagã, a extraordinária veneração que a Igreja Católica dedica a Maria” (GRISAR, Martin Luther: His Life and Work, 1915, p. 210).
[20] Brecht, 1985, p. 197.
[21] Brecht, 1985, p. 197.
[22] Brecht, 1985, p. 198.
[23] Brecht, 1985, p. 199.
[24] As exéquias são uma celebração da liturgia da Igreja Católica, destinada aos fiéis defuntos. De acordo com o Livro de ritual das exéquias, na celebração das exéquias “a Igreja oferece pelos defuntos o Sacrifício Eucarístico, memorial da Páscoa de Cristo, eleva orações e faz sufrágios por eles, para que, pela comunhão de todos os membros de Cristo, todos aproveitem os frutos desta liturgia: — auxílio espiritual para os defuntos, consolação e esperança para os que choram a morte”.
[25] Brecht, 1985, p. 199 – 200.
[26] Leppin & Wengert, 2015, p. 388.
[27] Hendrix, 2015, p. 61.
[28] McGrath, 2011, p. 23 – 24.
[29] Andreas Rudolff Bodenstein von Karlstadt, em latim Carolstadius (1486 – 1541) foi teólogo e reformador alemão o primeiro a fundar a Teologia do batismo. Estudou Filosofia e Teologia nas Universidades de Erfurt (1499) e Colônia (1503), e tornou-se professor de Teologia da Universidade de Wittenberg (1505 – 1522) onde também foi chanceler (1511). Martinho Lutero recebeu seu diploma de doutorado em 1512 das mãos de Karlstadt em Wittenberg. Em 1515 – 1516, estudou em Roma, onde conseguiu seu diploma em direito civil e canônico (utriusque juris) na Universidade Sapienza.
[30] McGrath, 2011, p. 23 – 24.
[31] Hendrix, 2015, p. 61.
[32] Lohse, 1999, p. 101.
[33] Elizabeth Lewisohn Eisenstein (1923 – 2016) foi uma autora e historiadora americana da Revolução Francesa e início do século XIX.
[34] Hans J. Hillerbrand é professor emérito de História e Religião, Duke University, Durham, Carolina do Norte. Autor de “A Divisão da Cristandade — Cristianismo no Século XVI” e “Homens e Idéias no Século XVI” e outros.
[35] Cummings, 2002, p. 32.
[36] Cummings, 2002, p. 35.
[37] Dixon, 2002, p. 23.
[38] McGrath, 2011, p. 26.
[39] Marius, 1999, p. 138.
[40] McGrath, 2011, p. 26.
[41] Wengert, 2015a, p. XLIII – XLIV (43 – 44).
[42] Stephenson, 2010, p. 39 – 40.
[43] Filipe Melâncton (em alemão – Philipp Melanchthon — 1497 – 1560) foi um reformador, astrólogo e astrônomo alemão. Colaborador de Lutero, redigiu a “Confissão de Augsburgo” (1530) e converteu-se no principal líder do luteranismo após a morte de Lutero.
[44] Cummings, 2002, p. 15 – 16.
[45] Stephenson, 2010, p. 40.
por Plínio Sousa | 9 set 2021 | TEOLOGIA
2 Timóteo 3:1 – 5.
Sabe, porém, isto: — que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos (perigosos). Porque haverá:
1 – homens amantes de si mesmos — propriamente, um amante de si, alguém com fortíssimas inclinações narcisistas; descrevendo alguém preocupado sempre com os seus próprios desejos egoístas, que busca tão somente e ininterruptamente interesses próprios e nunca alheios,
2 – avarentos — propriamente, um amante do dinheiro, ou seja, alguém literalmente apaixonado pelo ganho pessoal — em ter dinheiro a qualquer custo, mesmo que para isso negocie os seus princípios e corrompa os seus valores (Lucas 16:14),
3 – presunçosos — propriamente, um vagabundo errante, gabando–se de qualquer um que seja tolo o suficiente para levá–lo a sério! Esse tipo de pessoa afirma muitas coisas que não pode realmente fazer, então deve sempre seguir em frente para novos ouvintes ingênuos. Tende a se concentrar na fonte da jactância vazia (do orgulho tolo); é a arrogância pecaminosa que impulsiona a sua jactância (Romanos 1:30),
4 – soberbos — propriamente, aquele que escolhe deliberadamente “brilhar demais”, tentando ser mais do que o que Deus dirige, isto é, indo além da fé que Ele transmite (Romanos 12:2, 3). É alguém desdenhoso com as coisas salutares e divinas, com as coisas de Deus (Lucas 1:51; Tiago 4:6; 1 Pedro 5:5),
5 – blasfemos — o blasfemo é alguém que inverte realidades espirituais e morais (Atos 6:11; 1 Timóteo 1:13; 2 Pedro 2:11). É alguém completamente abusivo,
6 – desobedientes a pais e mães — essa cláusula encontra–se subordinada a anterior (blasfemos), justamente por haver quebra de uma Lei moral, ou seja, a distorção da Lei de Deus que é oferta de Corbã (Marcos 7:11 – 13) e não a Lei propriamente obedecida: — “Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá. E quem amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe, certamente será morto” (Êxodo 20:12; Êxodo 21:17; Mateus 15:3, 4; Colossenses 3:20). É alguém literalmente, sem vontade de ser persuadido por Deus e que se mostra numa rebelião espiritual exteriorizada pela desobediência da Lei de Deus; alguém descrente, um desobediente contumaz porque não foi persuadido divinamente. Pode ser definido quando esse alguém começa com a decisão de rejeitar o que Deus prefere, com sua oferta de persuadir sobre sua vontade preferida (Lucas 1:17; Atos 26:19; Tito 1:16),
7 – ingratos — é alguém que “não experimentou a graça divina”. Propriamente, sem a graça, sem o favor de Deus que resulta em ingratidão, literalmente, é uma pessoa “sem graciosidades” (Lucas 6:35),
8 – profanos — é alguém “sem” reverência pelo que deve ser santificado. Propriamente, é alguém com total desrespeito pelo que é sagrado, ou seja, uma pessoa que age com desrespeito voluntariamente (e com arrogância) pelas coisas de Deus; evidenciando ser impiedoso e perverso (1 Timóteo 1:9).
9 – Sem afeto natural — é alguém desamoroso, desprovido de afeição; notemos que aqui Paulo coloca o amor como sendo de ordem natural, isto é, que Deus comunicou o amor às criaturas, mas também notemos que o pecado comunicou degenerescências às criaturas tornando essas pessoas desnaturais, isto é, anormais (Romanos 1:31),
10 – irreconciliáveis — é propriamente alguém incapaz de agradar (apaziguar) alguém; é uma pessoa implacável; o termo grego usado para “irreconciliáveis” é um adjetivo, que significa a negação de “um sacrifício de libação” comumente usado para fazer tratados e convênios (pactos), portanto, são pessoas que não podem ter uma reconciliação com Deus, visto que, são impossibilitadas pela condição que encontram–se,
11 – caluniadores — propriamente, um caluniador obstinado que procura ocasião para o engano e mentira. Um falso acusador, alguém que critica injustamente para magoar o outro malignamente e condenar para cortar uma relação. O caluniador é literalmente alguém que “confunde e conturba através de falsificações”, ou seja, faz acusações que derrubam (que destroem). Satanás é usado por Deus neste plano como um “previsível brinquedo de corda”, representando sua natureza maligna (Mateus 4:1, 5, 8, 11; 13:39; 25:41; Lucas 4:2, 3, 5, 6, 13; Efésios 4:27; 6:11; 1 Timóteo 3:6, 7, 11; Tito 2:3),
12 – incontinentes — é alguém “sem poder reinante (dominante)”, adequadamente, algo encontrado no moderado. Ou seja, é uma pessoa sem o autocontrole, a autodisciplina, a autocontenção. O incontinente é o oposto de alguém que é “estimulado e avivado a partir de dentro” (2 Timóteo 3:3) pelo fruto do Espírito Santo (Gálatas 5:22, 23),
13 – cruéis — é alguém “não domesticado”, contudo, selvagem (feroz) e animal. São pessoas brutais (Tiago 3:15),
14 – sem amor para com os bons — são os odiadores do bem; é alguém que não é um amigo ou amante do que é bom. Propriamente, descrevendo alguém que é hostil às coisas de Deus, ou seja, um oponente ativo, um inimigo do reino de Deus e dos bons (dos agentes da bondade).
15 – Traidores — é alguém que comete traição; que age traiçoeiramente e deslealmente (Lucas 6:16; Atos 7:52),
16 – obstinados — é alguém imprudente, impulsivo, apropriadamente uma pessoa obstinada; que rompe pela irresponsabilidade e precipitação em ações maldosas. Uma pessoa inebriante (tóxica) que provocada por paixões desenfreadas (erupção cutânea) rompe em desiquilíbrios animalescos,
17 – orgulhosos — é alguém com uma mentalidade nebulosa (confusa e conflituosa), ou seja, que dispõe de cegueira moral resultante de mau julgamento que traz mais perda de percepção espiritual (1 Timóteo 3:6; 6:4). Uma pessoa que pode ser definida como alguém que emite julgamentos cegos, inflados de orgulho, que no fim tornam–se insolentes e inchados de arrogância,
18 – mais amigos dos deleites do que amigos de Deus — é alguém que prioriza egoisticamente algo para si, para elevar o bom sobre o melhor, isto é, a prioridade no que é inferior (o menos importante) sobre o mais importante. É uma pessoa que não recusa–se a sucumbir, a quaisquer exigências da carne, independentemente de tal predisposição levar consequentemente à morte (Mateus 6:26, 30; 7:11; Atos 4:19; 5:14).
19 – Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela — propriamente, é alguém que nega responder interiormente às coisas de Deus, que se manifesta na piedade consagrada (reverente). É alguém que ofusca com rebeldia a “resposta piedosa do coração” que naturalmente luta em se expressar e se aproximar com reverência a Deus. Ou seja, o que Ele, Deus, chama de sagrado (digno de adoração) esse alguém age contrariamente com hostilidade e antipatia (Atos 3:12; 1 Timóteo 2:2; 1 Timóteo 4:8). É alguém que vive aparentemente “com” a piedade, contudo, se nega em vestir–se dela, isto é, se recusa a viver “sem” a eficácia dela, sem o efeito da piedade. Portanto, vive a se contradizer e recusa–se a afirmar ou confessá–la, a identificar–se com a piedade. Logo, repudia veementemente a cruz Cristo (Mateus 10:33; 26:70; Atos 3:13, 14; 7:35; 1 Timóteo 5:8; 2 Timóteo 2:12, 13). Elas têm, contudo, apenas forma de piedade, apenas a aparência externa de seguidores da doutrina e prática do Evangelho, entretanto, uma palavra forte é usada aqui — “negando” (a piedade) — o que implica em conhecer e no entanto rejeitar decisivamente a verdade.
Destes afasta–te — Evite homens como esses; evite–os. Repele–os como um bom soldado repele o inimigo.
Paz e graça.
por Louis Berkhof | 3 jan 2021 | TEOLOGIA
1 – O nome aplicado à terceira pessoa da Trindade.
Apesar de se nos dizer em João 4:24 que Deus é Espírito[1], o nome se aplica mais particularmente à terceira pessoa da Trindade. O termo hebraico com o qual Ele é designado é “Ruach”, e o grego, é “Pneuma”, ambos os quais, como o vocábulo latino “Spiritus”, derivam de raízes que significam “soprar”, “respirar”. Daí, também podem ser traduzidos por “sopro” ou “fôlego” (Gênesis 2:7; 6, 17; Ezequiel 37:5, 6), ou “vento” (Gênesis 8:1; 1 Reis 19:11; João 3:8).
O Antigo Testamento geralmente emprega o termo “espírito” sem qualificativos, ou fala do “Espírito de Deus” ou “Espírito do Senhor”, e utiliza a expressão “Espírito Santo” somente em Salmos 51:11 e Isaías 63:10, 11, enquanto que o Novo Testamento esta veio a ser uma designação da terceira pessoa da Trindade. É um fato notável que, enquanto o Antigo Testamento repetidamente chama a Deus “o Santo de Israel” (Salmos 71:22; 89:18; Isaías 10:20; 41:3; 48:17), o Novo Testamento raramente se aplica o adjetivo “santo” a Deus em geral, mas utiliza frequentemente para caracterizar o Espírito. Com toda a probabilidade isto se deve ao fato de que foi especialmente no Espírito e sua obra santificadora que Deus se revelou como Santo. É o Espírito Santo que faz sua habitação nos corações dos crentes, que os separa para Deus, e que os purifica do pecado.
2 – A personalidade do Espírito Santo.
As expressões “Espírito de Deus” e “Espírito Santo” não sugerem personalidade com a clareza que o temo “Filho” sugere. Além disso, a pessoa do Espírito Santo não apareceu de forma pessoal claramente discernível entre os homens, como aconteceu com a pessoa do Filho de Deus. Como resultado, a personalidade do Espírito Santo muitas vezes foi posta em questão e, portanto, merece atenção especial. A personalidade do Espírito foi negada na Igreja Primitiva pelos “monarquistas” e “pneumatomaquianos”.
Nesta negação eles foram seguidos pelos “socianos” dos dias da Reforma. Mas recentemente, Schleiermacher, Ritschil, os “unitários”, os modernistas dos dias atuais e todos os “sabelianos” modernos rejeitam a personalidade do Espírito Santo. Muitas vezes se diz hoje em dia que as passagens que parecem implicar a personalidade do Espírito Santo simplesmente contêm personificações. Mas as personificações certamente são raras nos escritos em prosa do Novo Testamento, e podem ser reconhecidas com facilidade. Ademais, essa explicação evidentemente não destrói o sentido de algumas passagens como, por exemplo, João 14:26; 16:7 – 11; Romanos 8:26.
A prova bíblica da personalidade do Espírito Santo é mais que suficiente.
[1] – Designativos próprios de personalidade lhe são dados.
Embora “Pneuma” seja neutro, o pronome masculino “ekeinos” é utilizado como referência ao Espírito Santo em João 16:14; e em Efésios 1:14 algumas das melhores autoridades têm o pronome relativo masculino “hos”. Além disso, é-lhe aplicado o nome “Parakletos” (João 14:26; 15:26; 16:7), termo que não pode ser traduzido por “conforto”, “consolação”, nem pode ser considerado como nome de alguma influência abstrata. Um fato que indica que se trata de uma pessoa é que o Espírito Santo, como Consolador, é colocado em justaposição com Cristo como o Consolador que estava para partir, a quem o mesmo termo é aplicado em 1 João 2:1. É verdade que este termo é seguido pelos neutros “ho” e “auto” em João 14:16 – 18, mas isto se deve ao fato de que intervém o vocábulo pneuma.
[2] – São-lhe atribuídas características de pessoa.
Como inteligência (João 14:26; 15:26; Romanos 8:16), vontade (Atos 16:7; 1 Coríntios 12:11); e sentimentos (Isaías 63:10; Efésios 4:30). Ademais, Ele realiza atos próprios de personalidade. Sonda, fala, testifica, ordena, revela, luta, cria, faz intercessão, vivifica os mortos, etc. (Gênesis 1:2; 6:3; Lucas 12:12; João 14:26; 15:26; 16:8; Atos 8:29; 13:2; Romanos 8:11; 1 Coríntios 2:10, 11).
O realizador destas coisas não pode ser um simples poder ou influência, mas tem que ser uma pessoa.
[3] – É apresentado como mantendo tais relações com outras pessoas, que implicam sua própria personalidade.
Ele é colocado na justaposição com os Apóstolos em Atos 15:28, com Cristo em João 16:14, e com o Pai e o Filho em Mateus 28:19; 2 Coríntios 13:13; 1 Pedro 1:1, 2; Judas 20, 21. Uma boa exegese exige que nestas passagens o Espírito Santo seja considerado uma pessoa.
[4] – Também há passagens em que se distingue entre o Espírito e o seu poder.
Como em Lucas 1:35; 4:14; Atos 10:38; Romanos 15:13; 1 Coríntios 2:4. Tais passagens seriam “tautológicas[2]”, sem sentido, e até absurdas, se fossem interpretadas com base no princípio de que o Espírito é pura e simplesmente um poder impessoal. Pode-se ver isto substituindo o nome “Espírito Santo” pela palavra “poder” ou “influência”.
3 – A relação do Espírito Santo com as outras pessoas da Trindade.
As primeiras controvérsias trinitárias levaram à conclusão de que o Espírito Santo, como o Filho, é da mesma essência do Pai e, portanto, é consubstancial com Ele. E a longa discussão acerca da questão, se o Espírito Santo procedeu somente do Pai ou também do Filho, foi firmada finalmente pelo Sínodo de Toledo em 589[3] d.C., pelo acréscimo da palavra “Filioque” (e do Filho) à versão latina do Credo de Constantinopla: — “Credimos in Spiritum Sanctum qui a Patre Filioque procedidit” (“Cremos no Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho”). Esta processão do Espírito Santo, resumidamente chamada “espiração”, é sua propriedade pessoal. Muito do que foi dito a respeito da “geração” do Filho também se aplica à espiração do Espírito Santo, e não é necessário repetir. Notem-se, contudo, os seguintes pontos de distinção entre ambas: — [1] – A geração é obra exclusiva do Pai; a espiração é obra do Pai e do Filho. [2] – Pela geração o Filho é habilitado a tomar parte na obra de espiração, mas o Espírito Santo não adquire esse poder. [3] – Segundo a ordem lógica, a geração precede à espiração. Devemos lembrar, porém, que isso tudo não implica nenhuma subordinação essencial do Espírito Santo ao Filho. Na espiração, como na geração, há uma comunicação da substância total da essência divina, de modo que o Espírito Santo está em igualdade com o Pai e o Filho. A doutrina da processão do Espírito Santo do Pai e do Filho baseia-se em João 15:26, e no fato de que o Espírito é chamado também o Espírito de Cristo e do Filho em Romanos 8:9; Gálatas 4:6, e é enviado por Cristo ao mundo. Pode-se definir a espiração como o terno e necessário ato da primeira e da segunda pessoa da Trindade pelo qual elas, dentro do Ser Divino, vêm a ser a base da subsistência pessoal do Espírito Santo, e propiciam à terceira pessoa a posse da substância total da essência divina, sem nenhuma divisão, alienação ou mudança. O Espírito Santo está na relação mais estreita possível com as outras pessoas. Em virtude da sua processão do Pai e do Filho, o Espírito é descrito como estando na relação mais estreita possível com as outras duas pessoas. De 1 Coríntios 2:10, 11 podemos inferir, não que se deve identificar o Espírito com a autoconsciência de Deus, mas, sim, que Ele é tão estreitamente relacionado com Deus o Pai como a alma humana o é com o homem. Em 2 Coríntios 3:17 lemos: — “Ora, o Senhor é o Espírito; e onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade”. Aí o Senhor (Cristo) é identificado com o Espírito, não quanto à personalidade, mas quanto à maneira de agir. Na mesma passagem o Espírito é chamado “o Espírito do Senhor”. A obra para a qual o Espírito Santo foi enviado à Igreja no dia de Pentecostes estava baseada em sua unidade com o Pai e com o Filho. Ele veio como o “Paráclito” para tomar o lugar de Cristo e realizar a sua obra na terra, isto é, “para ensinar, proclamar, testificar ou dar testemunho etc., como o Filho fizera”. Pois bem, no caso do Filho, esta obra de revelação estava firmada em sua unidade com o Pai. Justamente assim a obra do Espírito baseia-se em sua unidade com o Pai e com o Filho (João 16:14, 15).
Notem-se as palavras de Jesus nesta passagem: — “Ele me glorificará porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar. Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso é que vos disse que há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar”.
4 – A divindade do Espírito Santo.
Pode-se estabelecer a veracidade da divindade do Espírito Santo com base na Escritura seguindo uma linha de comprovação muito semelhante à que foi empregada com relação ao Filho: — [1] – São-lhe dados nomes divinos (Êxodo 17:7 comparar com Hebreus 3:7 – 9; Atos 5:3, 4; 1 Coríntios 3:16; 2 Timóteo 3:16; 2 Pedro 1:21). [2] – São-lhe atribuídas perfeições divinas, como onipresença (Salmos 139:7 – 10), onisciência (Isaías 40:13, 14 comparar com Romanos 11:34; 1 Coríntios 2:10, 11), onipotência (1 Coríntios 12:11; Romanos 15:19), e eternidade (Hebreus 9:14). [3] – Ele realiza obras divinas, como a criação (Gênesis 1:2; Jó 26:13; 33:4), renovação providencial (Salmos 104:30), regeneração (João 3:5, 6; Tito 3:5), e a ressurreição dos mortos (Romanos 8:11). [4] – É-lhe prestada honra divina (Mateus 28:19; Romanos 9:1; 2 Coríntios 13:13).
5 – A obra do Espírito Santo na economia divina.
Certas obras são atribuídas mais particularmente ao Espírito Santo, não somente na economia geral de Deus, mas também na economia especial da Redenção. Em geral se pode dizer que a tarefa especial do Espírito Santo consiste em levar as coisas à completação agindo imediatamente sobre a criatura e nela. “Justamente como Ele é a pessoa que completa a Trindade, assim a sua obra é a completação do contato de Deus com as suas criaturas e a consumação da obra de Deus em todas as esferas”. Ela se segue à obra do Filho, como a obra do Filho segue-se à do Pai. É importante ter isto em mente, pois, se a obra do Espírito Santo for divorciada do objetivo da obra do Filho, um falso misticismo fatalmente surgirá como resultado. A obra do Espírito inclui as seguintes ações na esfera natural:
[1] – A geração da vida.
Como o ser provém do Pai, e o pensamento vem mediante o Filho, assim a vida é mediada pelo Espírito (Gênesis 1:3; Jó 26:13; Salmos 33:6; 104:30). Com relação a isso, Ele dá o toque final à obra da criação.
[2] – A inspiração geral e a qualificação dos homens.
O Espírito Santo inspira e qualifica os homens para as suas tarefas oficiais, para trabalho na ciência e nas artes, etc. (Êxodo 28:3; 31:2, 3, 6; 35:35; 1 Samuel 11:6; 16:13, 14).
De maior importância ainda é a obra do Espírito Santo na esfera da redenção. Aqui podem ser mencionados os seguintes pontos:
[1] – O preparo e a qualificação de Cristo para a sua obra mediadora.
Ele preparou para Cristo um corpo e, assim, capacitou-o a tornar-se um sacrifício pelo pecado (Lucas 1:35; Hebreus 10:5 – 7). Nas palavras “corpo me formaste”, o escritor de Hebreus segue a Septuaginta.
O sentido é: — “Pela preparação de um corpo santo, me capacitaste a ser um sacrifício pelo pecado”. Em seu batismo Cristo foi ungido com o Espírito Santo (Lucas 3:22), e recebeu do Espírito Santo dons habilitadores sem medida (João 3:24).
[2] – A inspiração da Escritura.
O Espírito Santo inspirou a Escritura e deste modo trouxe aos homens a revelação especial de Deus (1 Coríntios 2:13; 2 Pedro 1:21), o conhecimento da obra de redenção que há em Cristo Jesus.
[3] – A formação e o aumento da Igreja.
O Espírito Santo forma e dá crescimento à Igreja, o corpo místico de Jesus Cristo, pela regeneração e pela santificação, e habita nela como o princípio da nova vida (Efésios 1:22, 23; 2:22; 1 Coríntios 3:16; 12:4 e seguintes).
[4] – Ensino e direção da Igreja.
O Espírito Santo dá testemunho de Cristo e guia a Igreja em toda verdade. E fazendo isto, Ele manifesta a glória de Deus e de Cristo, aumenta o nosso conhecimento do Salvador, livra de erro a Igreja e a prepara para o seu destino eterno (João 14:26; 15:26; 16:13, 14; Atos 5:32; Hebreus 10:15; 1 João 2:27).
Paz e graça.
[1] Pode-se entender, como muitos entendem, que em João 4:24 Jesus se refere à natureza espiritual de Deus, e não ao Ser Divino como Pessoa. Daí pode-se redigir “Deus é espírito”.
[2] Tautologia (do grego “ταὐτολογία” “dizer o mesmo”) é a denominação, na retórica, a um termo ou texto que é a mesma idéia expressa de formas diferentes, dizer a mesma coisa em termos diferentes. Vem de “tautó” (o mesmo) e “logos” (assunto). Como um vício de linguagem pode ser considerada um sinônimo de pleonasmo ou redundância.
[3] A expressão já tinha sido usada. Ver Documentos da Igreja, de Bettenson, Aste.
[4] Pr. Me. Plínio Sousa — Extraída da Teologia Sistemática de Louis Berkhof, Título do original em Inglês: — Systematic Theology.