ADORAÇÃO EVANGÉLICA

ADORAÇÃO EVANGÉLICA

Ou a maneira correta de santificar o nome de Deus em geral.

“E falou Moisés a Arão: — Isto é o que o Senhor disse: — Mostrarei a minha santidade naqueles que se cheguem a mim e serei glorificado diante de todo o povo. Porém Arão se calou” (Levítico 10:3).

Moisés dirigiu essas palavras a seu irmão Arão, na tentativa de aquietar e confortar-lhe o coração, que, sem dúvida alguma, estava extremamente atribulado pela grande e lamentável aflição que lhe sobreveio com a morte incomum de seus dois filhos, Nadabe e Abiú. O que aconteceu foi o seguinte: — depois que os filhos de Arão foram consagrados à função sacerdotal, vindo eles a exercer sua função no primeiro dia depois da sua consagração para oferecer incenso a Deus, ousaram oferecer incenso com fogo estranho, com fogo diferente daquele que Deus havia indicado. “À vista disso, o fogo da ira de Deus desceu sobre eles e os fulminou no próprio santuário diante de todo o povo”. Era uma ocasião solene, o início da sagrada consagração do sacerdócio. Diante disso, o espírito de Arão não podia estar senão excessivamente atribulado ao ver seus dois filhos assim fulminados. Nesse momento, Moisés se aproxima dele e diz: — “E falou Moisés a Arão: — Isto é o que o Senhor disse: — Mostrarei a minha santidade naqueles que se cheguem a mim e serei glorificado diante de todo o povo”. Arão, ouvindo isso, guardou silêncio. Em outra ocasião, lemos que desceu fogo do céu como expressão de misericórdia para consumir os sacrifícios, mas o fogo agora desceu do céu como expressão de juízo para consumir os que sacrificavam, Nadabe e Abiú.

Eles eram filhos de Arão, os filhos de um homem piedoso, filhos do sumo sacerdote. Arão tinha também outros filhos, além de Nadabe e Abiú. Eleazar e Itamar eram também seus filhos, porém mais novos. Nadabe e Abiú eram seus filhos mais velhos e foram fulminados na flor da idade. Eles tinham acabado de ser consagrados para a função de sacerdotes, conforme lemos em Levítico 8. Eram famosos entre a nação e diante de todo o povo de Israel, dois homens a quem Deus tinha honrado grandemente até aquele momento, conforme se pode ver no início de Êxodo 24.

Nadabe e Abiú eram homens de alta reputação e renome, a quem Deus havia anteriormente honrado. Quando Deus chamou Moisés e Arão para se chegarem a Ele com os anciãos, Ele destacou Nadabe e Abiú dentre os restantes, ao mencionar o nome deles. Ele disse: — “Sobe ao Senhor, tu, e Arão, e Nadabe, e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel”. Somente Moisés e Arão, Nadabe e Abiú são designados por nome, e depois Deus faz menção de forma geral aos setenta anciãos. Mas cita Moisés, Arão, Nadabe e Abiú, como se estes fossem os quatro homens eminentes e de renome entre todo o povo de Israel. Ele não designa por nome nenhum dos setenta anciãos, mas menciona os dois, Nadabe e Abiú, lado a lado com Moisés e Arão. Por essa razão, sabemos que esses dois que foram consumidos por causa do “fogo estranho” eram homens de renome e recém–consagrados para a sua função.

Pergunta: — “Qual foi o pecado deles?” — Resposta: — “O pecado deles foi oferecer fogo estranho, pois o texto diz que ofereceram fogo estranho, que Deus não lhes havia ordenado”.

Mas será que Deus alguma vez havia proibido isso?

Onde é que se pode achar que Deus alguma vez os proibiu de oferecer “fogo estranho”, ou tenha indicado que deveriam oferecer “unicamente um tipo de fogo”? Não existe nenhum texto bíblico, do início do Livro de Gênesis até o Livro de Números, em que Deus tenha dito isto de forma expressa: — “Não oferecereis fogo de nenhum outro tipo que não seja este”. E mesmo assim eles foram consumidos pelo fogo vindo de Deus por terem oferecido fogo estranho. Posso ver que, em Êxodo 30:9, eles foram proibidos de oferecer “incenso estranho”, mas não vejo ali que tenham sido proibidos de oferecer “fogo estranho”. Em Levítico 6:13, e em diversos versículos nesse capítulo, vemos que Deus indicou que “eles deveriam conservar constantemente o fogo do altar, para que estivesse sempre queimando e nunca se apagasse”. Parece que era intenção de Deus que eles usassem daquele fogo, e daquele fogo somente. Deus queria que eles percebessem a sua intenção. “Ele enviou do céu fogo sobre o altar”. Bem no final do capítulo 9, Deus mandou fogo do céu e lhes ordenou que conservassem constantemente esse fogo no altar para que nunca se apagasse. Parece que Deus queria que eles percebessem a sua intenção, que, pelo fato de Ele ter feito descer fogo do céu sobre o altar e ter ordenado que o conservassem constantemente, queria que compreendessem que qualquer incenso ou sacrifício que se fosse oferecer a Ele teria de ser oferecido com aquele fogo e nenhum outro. Apesar disso, deve-se notar que, embora Deus jamais tenha lhes dito diretamente nestas palavras: — “Deveis usar unicamente este fogo e nenhum outro”, Ele queria que eles tivessem entendido a sua vontade. Por essa razão, o pecado deles consistiu em “oferecer fogo estranho”. Nesse momento, desce fogo do Senhor e os consome. Algumas pessoas pensam que esse fogo saiu do altar, mas é evidente que não podia ser algum fogo comum o que consumiu Nadabe e Abiú naquele momento, pois lemos no versículo seguinte que os corpos de Nadabe e Abiú não foram consumidos pelo fogo. Não, nem mesmo as suas vestes. Eles foram mortos pelo fogo, mas as suas vestes ficaram intactas. Por isso, não foi um fogo comum. Foi um fogo celestial que os fulminou e matou, pois é isso que o texto nos diz nos versículos 4 e 5: — “Chegai, tirai vossos irmãos de diante do santuário, para fora do arraial. Chegaram-se, pois, e os levaram nas suas túnicas para fora do arraial, como Moisés tinha dito”. De forma que suas vestes e corpos não foram consumidos, mas eles foram mortos pelo fogo. Eles foram surpreendidos por uma morte súbita, e isso na presença do Senhor; um tipo de morte com que Deus nunca antes havia ameaçado na Escritura. Em momento nenhum, Deus tinha ameaçado os sacerdotes dizendo: — “Se oferecerdes fogo estranho, certamente sereis consumidos pelo fogo”. Apesar disso, Deus os matou com fogo. Eles não tiveram tempo de buscar a Deus; não, eles não tiveram nem tempo de dizer: — “Senhor, tem piedade de mim!”. Não tiveram tempo nem de dizer que iriam se corrigir. Diante desse juízo severo, o coração de Arão não tinha alternativa a não ser a de estar muito atribulado. Sim, e desse modo também o espírito de Moisés, pois era tio deles. Sem dúvida nenhuma, estavam aflitos em extremo. Mas Moisés, sendo irmão de Arão, e vendo seu espírito (sem dúvida nenhuma) extremamente atribulado, debaixo de uma calamidade tão triste, vendo que sobre os filhos de um homem piedoso como Arão sobreviera juízo tão lamentável, vem e fala com o irmão de modo a confortá-lo, e se esforça para sustentar-lhe o espírito. Como ele faz isso? Ele não o faz como em geral fazemos com nossos irmãos: — “Ah, você deve se conformar com isso!”. Não; ele vem, aplica a palavra de Deus e mostra como Deus precisa ser santificado. Fazendo isso, ele consegue aquietar o coração de Arão, seu irmão. Moisés disse: — “Isto é o que o Senhor disse”. Ele procura sustentar o coração do irmão mediante aquilo que Deus disse. Mas onde encontramos o registro de que Deus tenha dito isso? É difícil encontrar em qualquer texto bíblico essas palavras pronunciadas antes deste acontecimento, e por essa razão Agostinho acredita que foi uma palavra que Deus tinha falado, mas não tinha sido registrada por escrito. Eles a possuíam pela transmissão oral, por tradição, assim como acontecia com muitas outras coisas, como a profecia de Enoque, mencionada pelo apóstolo Judas. Não a encontramos escrita no Livro de Deus, mas mesmo assim o apóstolo a menciona, de modo que, de fato era transmitida de boca em boca. Sim, e também encontramos isso no Novo Testamento. Paulo afirma que Cristo disse: — “Mais bem-aventurado é dar que receber”. Não encontramos registro dessas palavras nos Evangelhos. É isso que o Senhor disse, embora não o encontremos escrito, se o procurarmos de Gênesis até nosso texto em Levítico. Por outro lado, embora isso não estivesse registrado em termos expressos, alguma coisa foi registrada com o mesmo propósito e efeito. Parece-nos que, em Êxodo 29:43, existe uma referência ao assunto. Temos, ali, um texto bíblico que se aproxima do nosso texto mais que qualquer outro: — “Ali, virei aos filhos de Israel, para que, por minha glória, sejam santificados”. Isso é o mesmo que dizer: — “Serei santificado naqueles que se chegarem a mim. Naqueles que chegarem para me adorar em meu tabernáculo, serei santificado em todas as coisas que dizem respeito à minha adoração. Certamente, serei santificado ali”.

“Serei santificado” ou “serei glorificado”. É a mesma palavra que encontramos na oração dominical: — “Santificado seja teu nome”. A única diferença é que aqui, no Antigo Testamento, a palavra está no hebraico, e ali, no Novo Testamento, em grego. Mas, se traduzirmos esta palavra para o grego, teremos de traduzi-la pela mesma palavra que Cristo usou quando ensinou seus discípulos a orar — “Santificado seja teu nome”. Glorificado e santificado são uma coisa só. “Senhor, que fique evidente que teu nome é santo”.

“Serei santificado” — ou seja — “Farei com que seja evidente que meu nome é santo. Farei meu povo e todo o mundo saber que eu sou um Deus santo”.

Esse é o significado de “Serei santificado”“Todo o mundo me conhecerá como um Deus santo”.

“Serei glorificado diante de todo o povo”. É isso que diz a parte final do versículo. É como se Deus dissesse: — “Eu considero como minha glória ser manifesto como santo diante de todo o mundo”. “Serei santificado”.

Isto é: — “Quero que meu povo se comporte e se mostre de tal maneira que fique evidente que conhecem a minha santidade, para que, por meio do seu proceder, eu seja visto como um Deus santo. Serei santificado por eles; caso contrário, se eles não santificarem ativamente meu nome, ou seja, se não se comportarem de modo a manifestar a glória da minha santidade, eu serei santificado sobre eles. Eu me comportarei e me mostrarei para com eles de tal modo que, por meio das minhas ações entre eles, se torne visível o Deus santo que sou”.

Assim, Deus é santificado de duas formas. Uma é pela santidade do seu povo na sua conduta para com Ele, mostrando a glória da santidade de Deus. Vemos isso em 1 Pedro 3:15: — “santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração”. Os santos santificam a Deus em seu coração quando temem a Deus como um Deus santo, e o reverenciam e amam como um Deus santo. Eles o santificam em suas vidas quando mostram a glória da santidade de Deus. Aí, então, Deus é santificado. Mas, se não fizermos isso, Deus santifica a si mesmo com juízos sobre aqueles que não santificam o seu nome mediante comportamento de santidade. Vemos isso em Ezequiel 28:22: — “Assim diz o Senhor Deus: — Eis-me contra ti, ó Sidom, e serei glorificado no meio de ti; saberão que eu sou o Senhor, quando nela se executar juízos e nela me santificar”. Isso é a mesma coisa que dizer: — “serei glorificado diante de todo o povo”. E, em Ezequiel 38:16, 23, encontramos versículos que têm o mesmo propósito: — “e subirás contra o meu povo de Israel, como nuvem, para cobrir a terra. Nos últimos dias, hei de trazer-te contra a minha terra, para que as nações me conheçam a mim, quando eu tiver vindicado a minha santidade em ti, ó Gogue, perante elas […]. Assim, eu me engrandecerei, vindicarei a minha santidade e me darei a conhecer aos olhos de muitas nações; e saberão que eu sou o Senhor”.

Deus está dizendo: — “É por meio da execução de juízos que me santificarei; dessa forma é que serei santificado naqueles que se chegarem a mim”.

“Naqueles que se chegarem a mim!”.

Pode-se dizer aqueles que se aproximam, que chegam perto, ou seja, especialmente os sacerdotes que se aproximam de Deus (Ezequiel 42:13). Eles se aproximam de Deus de maneira especial, mas o texto se refere, no geral, a todos os que lidam com a adoração a Deus. “Todo aquele que vier a mim preste atenção nisso. Eles precisam santificar meu nome; precisam conduzir-se de tal maneira, quando me adoram, que mostrem que meu nome é santo. De outra sorte, eu me manifestarei contra eles em forma de juízo; pois mostrarei que sou um Deus santo. De um modo ou de outro, obterei a glória da minha santidade naqueles que se aproximam de mim”. É como se Deus dissesse: — “Entre os homens acontece diferente: — eles sempre favorecem aqueles que lhes são chegados; mas comigo não é assim”. Os homens são mais propensos a relevar as transgressões daqueles que lhes são chegados do que as transgressões dos que não são tão chegados. Suponhamos que um estranho cometesse uma ofensa. Seríamos severos com ele. Mas suponhamos que fosse um dos nossos filhos ou parentes, como agiríamos? Será que não vemos que os homens favorecem seus parentes antes que os estranhos, embora a ofensa seja a mesma? Mas Deus diz: — “Não é assim que eu faço”. Suponhamos que seja alguém da nossa própria família. Não estaremos prontos a desculpá-lo? Suponhamos que tenha sido nosso próprio filho que tivesse cometido essa transgressão. Oh! A quantos amigos não recorreríamos para livrá-lo do castigo! Embora os homens façam isso quando a situação diz respeito aos seus, embora sejam amargos e severos para com os estranhos, não é assim que Deus age.

“Prestem atenção, todos os que estão próximos de mim. Eu serei santificado por meio deles. Serei santificado naqueles que se achegam a mim”. À vista disso, quando Moisés disse que Deus seria santificado naqueles que se achegam a Ele, era como se ele tivesse dito: — “Arão, embora eu reconheça que hoje a mão de Deus pesou sobre ti, convém te submeteres a Deus. Convém que Deus seja glorificado, não importa o que aconteça contigo. Tu és precioso a Deus, mas o nome de Deus é mais precioso para Ele do que tu. Não importa como tenha sido a vida dos teus filhos, convém que Deus seja honrado e o seu nome santificado, não importa o que aconteça aos teus filhos ou ao teu bem–estar; por isso, aquieta o teu coração. Tiveste uma grande perda e sobre ti veio grande aflição, mas Deus recebeu glória. Deus glorificou a si mesmo”.

Pergunta: — “Como Deus glorificou a si mesmo?”. Resposta: — “Em grande parte, ao exercer juízo, Deus fez algo que levou todo o povo da terra a temê-lo, levou-os a adorá-lo com toda a reverência”.

Todo o povo da terra, vendo um juízo como este e ouvindo falar dele, aprenderá para sempre a temer e a reverenciar este Deus. Eles dirão: — “Como é que nos apresentaremos diante deste Deus santo? Precisamos tomar cuidado na sua presença e adorá-lo de acordo com a forma que Ele deseja ser adorado”. É como se Moisés dissesse: — “A honra que Deus recebe dessa forma no coração do seu povo pode ser considerada como benefício maior do que a vida dos teus filhos, quem quer que sejam eles”. Esse é o objetivo das palavras que Moisés dirigiu a Arão. Com respeito a tudo isso, diz o texto: — “Arão se calou”. Ele guardou silêncio. Pode ser que antes disso ele estivesse expressando verbalmente seu sofrimento e aflição, mas agora ele ficou quieto e não tinha nada a dizer. Por meio do seu silêncio, ele reconheceu que seus filhos lhe eram caros, mas convinha que Deus fosse glorificado, não importando o que viesse a acontecer a seus filhos. Por isso, Arão se calou. Mas a expressão traduzida como “se calou” significa mais do que mero silêncio, pois os hebreus têm outra palavra que significa o simples silêncio referente à fala. Esta expressão significa que “o coração parou, de maneira que não avançou na tribulação de espírito”, um silêncio no próprio coração. Houve uma parada, um refreamento dos impulsos do coração. Encontramos a mesma palavra sendo usada nas Escrituras quando Josué disse para o sol: — “Sol, detém-te em Gibeão” (Josué 10:12). É a mesma palavra que foi aqui traduzida: — “Arão se calou”. Ou seja, ele foi impedido de continuar sendo afligido ou atormentado, de ser perturbado. Apesar do seu coração estar sendo forte e violentamente abalado, agora as palavras de Moisés o refrearam, detendo-lhe o coração, de maneira maravilhosa, do mesmo modo que fez o sol quando Josué ordenou que ficasse parado. É como se o Senhor tivesse dito ao seu coração: — “Arão, teu coração encontra-se violentamente comovido, mas leva em conta que eu tenho de ser santificado naqueles que se achegam a mim, e deixa que parem e se aquietem todos esses sentimentos fortes do teu coração”. Dessa maneira, vemos o significado das Escrituras e o seu propósito. Neste texto bíblico, encontramos três pontos especiais e dignos de atenção: — “[1] – Na adoração a Deus, há uma aproximação dEle; [2] – Quando nos aproximamos de Deus, devemos ter o cuidado de santificar-lhe o nome; [3] – Se não santificarmos o nome de Deus quando nos aproximarmos dEle, então com certeza Deus santificará seu próprio nome sobre nós”.

Estes são os três pontos que pretendo tratar, especialmente o segundo. Sei que em outra ocasião, em um sermão, falei a respeito dessas palavras, mas agora pretendo mostrar não apenas de modo geral como devemos santificar o nome de Deus na adoração, mas também nos atos específicos de adoração: — “santificar seu nome ao orar, ao receber a Ceia, ao ouvir a Palavra, nos vários aspectos importantes da adoração em que seu nome deve ser santificado”.

Em tudo isso você se aproxima de Deus. E com esse propósito, concentrei meus pensamentos neste texto bíblico. Mas antes de tratar desses três grandes pontos, que são os pontos principais das palavras dirigidas a você, devo fazer outras observações que se encontram, por assim dizer, aqui e ali, espalhadas, que são de grande utilidade e nos ajudarão a usar melhor esse texto bíblico nos outros pontos, que vou expor mais adiante.

1 – Na adoração a Deus, não se deve oferecer nada além daquilo que Ele mesmo ordenou.

Qualquer coisa que inserirmos na adoração a Deus precisa ter autorização da palavra de Deus. As palavras de Moisés foram proferidas por ocasião do juízo de Deus sobre os filhos de Arão por oferecerem “fogo estranho”. Eles ofereceram fogo que Deus não havia ordenado. Por isso digo que todas as coisas na adoração a Deus precisam ter autorização da palavra de Deus. “É necessário que seja algo ordenado; não é suficiente que não seja proibido”.

“Eu suplico por sua atenção a isso”.

Não é suficiente dizer que alguma coisa não é proibida, e qual é o mal que tem isso? Mas é necessário que tenha sido ordenado. Reconheço que, em assuntos civis e naturais, isso pode ser suficiente. Se for apenas de acordo com as regras da prudência e não é proibido na palavra de Deus, podemos fazer uso disso nas coisas civis e naturais. Mas quando se trata de assuntos da religião e da adoração a Deus, precisamos de um mandamento ou algo extraído da palavra de Deus em que Ele manifesta sua vontade, quer seja um “mandamento direto”, quer seja “comparando uma coisa com a outra”, ou por meio de “inferências claras do que está escrito”. Quando se trata da adoração a Deus, precisamos basear-nos naquilo que Ele ordena. Talvez alguém pense: — “Que mal havia em esses sacerdotes, ao oferecerem incenso ao Deus verdadeiro, fazerem uso de fogo estranho?”. Mas não havia mandamento para o fazerem, e por essa razão não foi aceito. É verdade que existem certas coisas na adoração a Deus que são ajudas naturais e administrativas, e nessas não é necessário que haja um mandamento. Por exemplo, quando vamos adorar a Deus, a congregação se reúne. Ela precisa de um lugar apropriado para se abrigar das intempéries do tempo. Mas isso é apenas um aspecto natural, enquanto eu uso o lugar de adoração como ajuda natural, não preciso de mandamento nenhum. “Mas se eu quiser colocar algo em um lugar além do que lhe diz respeito, por sua própria natureza, aí preciso procurar um mandamento; porque, se considero um lugar mais santo do que outro, ou penso que Deus deve aceitar adoração em um lugar e não em outro, isso é fazer com que o lugar da adoração se eleve acima da posição que por natureza possui”. Assim, se qualquer coisa criada é elevada com fins religiosos acima da posição que possui por natureza, se não tenho nenhum texto bíblico que me autorize, estarei sendo supersticioso.

Essa é uma regra muito útil para ajudar você.

“Se você faz uso com fins religiosos de qualquer coisa criada além daquilo que ela é em sua própria natureza, se não tem uma autorização da palavra de Deus (qualquer que seja a forma em que apareça, desde que seja plausível), esse uso é supersticioso”.

Havia um lugar que era considerado santo, mas isso tinha sido determinado por Deus. Também com respeito ao vestuário, para usar o que é decente, basta a luz da razão. Mas se eu atribuir ao vestuário qualquer coisa que estiver além da própria natureza dele, como se faz com a sobrepeliz, ora essa! Será que ela possui alguma propriedade a mais em sua própria natureza? Ou isso não é apenas uma instituição humana? “Ora, quando alguém, por iniciativa própria, atribui um aspecto religioso a uma coisa, sem autorização da parte de Deus, isso é superstição!”. Todos nós precisamos ser adoradores obedientes, de boa vontade, e não adoradores obstinados, voluntariosos. Temos de vir de bom grado adorar a Deus, mas não devemos adorá-lo de acordo com nossa própria vontade. Por isso, o que quer que façamos na adoração a Deus, se não temos autorização para fazê-lo, teremos de calar a boca quando nos for perguntado: — “Quem te mandou trazer isso que tens nas mãos?”. Em Mateus 15:9, lemos o seguinte: — “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens”. Em vão! É coisa vã adorar a Deus quando se conta apenas com um mandamento de homem para essa adoração. Se você quer adorar a Deus, é necessário um mandamento de Deus para fazê-lo. Isaías 29:13 mostra como o Senhor se aborrece com todo homem que ensina a temê-lo com seus próprios preceitos: — “Este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu”. Prestemos atenção! Se essas coisas são assim, que o Senhor tenha misericórdia de nós neste assunto. Há razões para você ser humilhado, acredito que cada um de nós, em maior ou menor grau; esta congregação tem muitos motivos, e a maioria das outras congregações a quem se tem ensinado o temor de Deus por meio de preceitos de homens. Quanta coisa não tem sido acrescentada na adoração a Deus, coisas para as quais não se pode encontrar base na Palavra! Grande parte das coisas são apenas invenções de homens. Mas agora foram banidas essas coisas, porque as pessoas investidas de autoridade as baniram, e você se submeteu a elas. Mas não é suficiente que você se submeta apenas porque as autoridades querem assim. “É preciso que se humilhe diante de Deus por causa de toda a tua adoração arbitrária e obstinada, por causa de tua aquiescência a qualquer coisa que diz respeito à adoração a Deus que foi ensinada por preceitos dos homens”. Veja como Deus foi severo com Nadabe e Abiú, simplesmente porque usaram fogo diferente daquele que Deus tinha indicado, embora não houvesse mandamento direto contra fazerem isso. Se o Senhor tem poupado a você e não manifestou nenhum descontentamento, você tem motivo para reconhecer a misericórdia dEle e “se humilhar por toda a sua falsa adoração”. É certo que Deus espera que todo este país se humilhe por causa da sua adoração arbitrária, caso contrário, estamos semeando entre espinhos. Toda a reforma que se processa em nosso meio não tem sentido se não existe humilhação por causa de nossa falsa adoração. Não é suficiente que passemos agora a praticar a verdadeira adoração a Deus; precisamos ser humilhados por causa da nossa adoração falsa. E esta é a primeira observação que fazemos: — “na adoração a Deus, não pode haver nada senão aquilo que Deus ordena”.

2 – Na questão da adoração, Deus insiste em coisas pequenas.

Essas coisas parecem insignificantes e pequenas demais para nós, mas Deus insiste nelas quando o assunto é adoração, pois não há outra coisa em que se manifeste mais a prerrogativa de Deus do que na adoração. Os príncipes insistem muito em suas prerrogativas. “Ora, Deus escreveu a lei da adoração natural em nosso coração”. Mas existem outras coisas na adoração a Deus que não estão escritas em nosso coração, coisas que dependem unicamente da vontade de Deus revelada em sua Palavra, coisas que não seriam deveres se não tivessem sido reveladas nela. E elas são de natureza tal que não vemos razão nenhuma para existirem a não ser isto: — “Deus quer que seja assim”. Existem muitos tipos de cerimônia para manifestar honra aos príncipes que não têm razão alguma de ser, mas são praticados unicamente por serem instituições civis assim ordenadas. “Desse modo, Deus ordena algumas maneiras de honrá-lo que a criatura não entende, para as quais não vê razão de existir, mas são executadas apenas porque a vontade de Deus é que o sejam”. Deus insiste muito em coisas pequenas, mesmo que os homens pensem não fazer diferença entre usar este ou aquele fogo e se perguntem: — “E daí? Este fogo não queima tão bem quanto aquele outro?”. Mas Deus insiste no assunto. E foi assim também com a arca. Quando Uzá apenas tocou a arca, que estava caindo porque os bois tropeçaram, nós pensamos que não foi uma coisa grande; “mas um toque na arca lhe custou a vida”. Não existe nada pequeno na adoração a Deus; Ele insiste firmemente no assunto. “Quando se trata do sábado, o assunto se refere à adoração a Deus”. O que é que tem um pobre homem juntar uns poucos gravetos no sábado? Mas Deus trata o assunto com firmeza. E assim também quando os homens de Bete–Semes só espiaram dentro da arca, isso custou a vida de uns cinquenta mil e setenta homens[2]. Quando se trata de algo santo, referente à sua adoração, Ele não permitirá abusos de forma alguma. Aprendamos a prestar atenção às pequenas coisas que se referem à adoração a Deus, e a não pensar: — “Puxa! Como essa gente é detalhista e preocupada com esse tipo de coisa sem importância!”. Se você ainda não é diligente nesse assunto, é porque ainda não compreende a natureza da adoração ao Criador. Deus é bom e mesmo assim insiste em coisas pequenas quando se trata da sua adoração.

3 – Não há privilégios nem posições entre os homens que consigam protegê-los da correção de Deus.

Em primeiro lugar, Moisés, o homem de Deus, era tio deles. Arão, esse grande instrumento da glória de Deus, era pai deles. Eles eram homens recentemente consagrados à função de sacerdotes. Eram homens famosos, sobre quem Deus tinha colocado muita glória, mas, como se arriscaram a ofender a Deus nesse pequeno ponto, a ira de Deus desceu sobre eles e os matou instantaneamente. Tomemos cuidado, então, para não nos arriscarmos, pensando que seremos poupados porque já prestamos algum serviço no passado. Se os maiores não são poupados em consideração a todos os seus privilégios, como é que nós, pobres vermes, nos atrevemos a nos arriscar provocando a ira de Deus? Você que é uma criatura sem valor e de nenhuma utilidade neste mundo tem o atrevimento de provocar o Senhor, que irou-se com homens tão úteis e que fizeram grandes trabalhos, ao ponto de derramar, de repente, a sua ira sobre eles?

“Se víssemos um príncipe não poupando seu auxiliar favorito ou executando os nobres que estão perto dele, se o víssemos tirando a vida deles por causa de uma ofensa (por menor que parecesse aos nossos olhos), como então isso não faria tremer o pobre povo quando fizesse alguma coisa que merecesse a ira do seu príncipe?”. Está vendo? Nem todos os privilégios e grandezas exteriores juntos pouparão alguém do golpe da justiça de Deus. Eles não deveriam poupar o homem do golpe da justiça humana. É verdade que, entre os homens, as pessoas pobres vão para a prisão quando cometem alguma transgressão, mas os homens importantes escapam da pena. Mas com Deus não é assim, pois Nadabe e Abiú eram homens importantes e famosos.

4 – Quanto maior é a importância ou o cargo das pessoas, maior é o perigo que correm se não agirem corretamente.

Vemos isso no fato que Nadabe e Abiú eram os dois filhos mais velhos de Arão, e as Escrituras dizem que Eleazar e Itamar, os outros dois filhos de Arão, escaparam e não foram consumidos. Por quê? Porque os dois filhos mais velhos ocupavam a função e o privilégio de vir e oferecer o incenso e — ocupando cargo mais elevado que os mais novos, mas não agindo com o cuidado que lhes era devido — o Senhor os matou, ao passo que os mais jovens foram poupados. Dessa maneira, muitas vezes, aqueles que se encontram em condição inferior, escapam, ao passo que os que ocupam condição mais elevada são fulminados. Que as pessoas que estão nalguma condição mais elevada tomem cuidado, pois o perigo que correm é maior. “E você, que está em condição inferior, não tenha inveja daqueles que estão em posição mais elevada, pois talvez você esteja mais seguro em sua condição inferior do que aqueles que estão numa posição mais alta”.

5 – O início de coisas muito importantes às vezes é marcado por grandes dificuldades e perturbações.

Faço esta observação com base no fato de Nadabe e Abiú terem sido fulminados bem no início do seu sacerdócio. Suponha que fosse instituída uma nova função pública na comunidade, função que se ocupasse do bem público da nação, e bem no início da instituição dessa função ocorresse um desastre que repercutisse em todo o país, como se Deus do céu tivesse feito alguma coisa contra os que ocupavam essa função. Imagine que na primeira vez que os juízes se dirigissem à tribuna, Deus os fulminasse do céu ali mesmo. Isso seria uma poderosa razão para ofuscar a glória e a honra dessa função. Assim, qualquer pessoa seria levada a pensar que isso foi uma razão enorme para ofuscar para sempre a glória e a honra do sacerdócio. Mas Deus não se preocupa com isso. Muitas vezes, o início de coisas grandes é ofuscado por acontecimentos tristes; por isso, não nos escandalizemos ao ver algo triste acontecer no princípio de coisas importantes. Pois, embora aconteçam coisas tristes no início, Deus pode fazer prosperar essas coisas importantes assim como o fez com o sacerdócio.

6 – Aqueles que assumem posições públicas, especialmente posições relacionadas com a adoração a Deus, precisam ter muito temor de Deus já no início quando começam a exercer essas funções.

Isso seria um bom tema se eu fosse pregar a um grupo de ministros. Vemos que o Senhor matou Nadabe e Abiú por causa dessa pequena falta (pequena aos nossos olhos) logo depois que foram consagrados. Isso é um assunto que diz respeito especialmente aos ministros, e por isso vou deixá-lo de lado.

7 – A sétima observação é muito apropriada e útil para todos nós: — é propósito de Deus que todos reconheçamos a sua vontade, mesmo nas declarações da sua Palavra que não são muito claras.

Ainda que Ele não declare a sua vontade de maneira plena e em termos claros, se existe alguma coisa em sua Palavra por meio da qual podemos entender a vontade de Deus, Ele espera que a entendamos por meio da sua Palavra. Se não o fizermos, será por nossa própria conta e risco.

Objeção: — Você pode argumentar: — “Como é que eles podiam saber que a vontade de Deus era que não oferecessem um fogo qualquer, mas apenas o fogo do altar?”. Resposta: — Eles deveriam ter raciocinado da seguinte forma: — “Não é verdade que Deus fez descer fogo do céu sobre o altar, e não é verdade que ele ordenou que esse fogo fosse preservado no altar para o seu serviço? Então, com certeza, deve ser a vontade de Deus que façamos uso deste fogo, em vez de oferecer outro fogo qualquer”. Deus esperava que eles raciocinassem assim, mas pelo fato de não terem percebido a vontade de Deus raciocinando desse modo, a mão de Deus pesou sobre os dois. Eles pecaram; pode ter sido por ignorância, mas foi por sua própria conta e risco. Se os dois desconheciam a vontade de Deus quando era possível conhecê-la, apesar de estar revelada apenas de modo implícito e ter de ser entendida por meio da comparação de vários textos bíblicos, isso era por conta e risco deles mesmos. Esse é um ponto muito necessário para nós, pois o vão coração do homem, quando Deus exige alguma coisa que não convém aos seus próprios fins, discorda e se indispõe contra essa exigência. “Onde é que está escrito?”, dirá ele. “Você pode me apresentar um texto bíblico específico sobre esse assunto? Só creio se você me apresentar algum texto específico provando isso”. E assim ele permanecerá até que sejam apresentados vários textos bíblicos que proíbam tal coisa ou ordenem que se faça outra. Mas irmãos, se vocês são do tipo de gente que não evita nada nem passa a fazer nada se não tiver por base palavras claras das Escrituras, é possível que, por conta própria, estejam avançando em direção a perigos e a pecados terríveis. Saibam que Deus revelou grande parte da sua vontade de maneira que só é possível conhecê-la juntando as peças aqui e ali. E Deus espera de vocês o seguinte: — “mediante o exame das Escrituras, se uma coisa mais do que outra parecer a sua vontade, vocês devem seguir o caminho que mais parece ser a vontade de Deus”. Já temos dito que, em matéria de adoração, precisamos de ordem vinda da palavra de Deus, mas isso não significa que em tudo precisamos de uma ordem direta, expressa. Como acontece muitas vezes em certas pinturas, a grande arte consiste na fusão de perspectivas. Vocês não têm como dizer que a beleza se encontra neste ou naquele traço, pois ela reside no conjunto. É a fusão das perspectivas que produz a beleza da tela. Assim também nas Escrituras, não há como dizer que este ou aquele traço prova o todo, mas coloquemos todos juntos e surgirá então uma figura da vontade de Deus. Podemos discernir que a vontade dEle é esta e não aquela, e nossa obrigação é seguir este caminho. É possível que Nadabe e Abiú tenham visto que deveriam usar o fogo do altar em vez de outro fogo qualquer, mas se atreveram a usar fogo estranho porque não tinham uma Palavra expressa. Você pode ver que tudo aconteceu por conta e risco deles mesmos. “Oh, tome cuidado para não resistir e lutar contra aquilo que é ordenado simplesmente porque não o vê expresso de maneira clara!”. O Senhor ordenou as coisas assim, especialmente no Novo Testamento, para a normatização da Igreja. Você não encontrará mandamentos explícitos para uma grande quantidade de coisas, e também nem sempre achará um exemplo claro. Mas compare uma coisa com outra, e aquilo que parece mais próximo da mente de Deus deve ser suficiente para nos compelir a andar segundo o que parece mais de acordo com o que está nas Escrituras. “Um coração humilde chegará logo a esse entendimento; outro homem, não”.

“É fácil perceber que, em coisas que ajudam as pessoas a alcançar seus próprios objetivos, não se faz necessário grande esforço para persuadi-los, embora um ou outro possa levantar alguma objeção. Facilmente poderia provar isso, mas não considero o púlpito um lugar apropriado para lidar com coisas desse tipo”.

As pessoas concordam com coisas que as ajudam a alcançar seus próprios objetivos e caminhos, mas outras coisas, que crucificam a carne, que se opõem à frouxidão e trazem os homens sob o governo de Cristo, contra essas coisas elas se posicionam. Eles precisam de instruções claras e específicas, ordens específicas e claras da Palavra, tim–tim por tim–tim, caso contrário, não se submeterão de maneira alguma. Esse é um ponto que, se Deus fixasse em nosso coração, seria de grande proveito. Um coração gracioso enxergará a verdade por meio de uma pequena fenda. Mas é de surpreender o trabalho que dá a convencer um homem a respeito de algum aspecto da vontade de Deus, antes que seja humilhado, e como é fácil convencer um homem depois que já foi humilhado.

8 – Os pecadores podem se deparar com alguns juízos de Deus que nunca foram anunciados em sua Palavra.

Em lugar nenhum, Deus tinha feito a ameaça: — “Eu consumirei com fogo do céu todo aquele que oferecer fogo estranho”. Eles se depararam com um juízo que não tinha sido prenunciado. Considere isso! Pode ser que você fique com medo, quando apresentamos claramente, por meio da Palavra, como Deus fala contra este e aquele pecado. Mas fique sabendo que, se você se aventura nos caminhos do pecado, talvez se depare com juízos horríveis, que Deus nunca sequer mencionou. Juntamente com todos os juízos que aparecem anunciados no Livro de Deus, você pode dar de encontro com juízos jamais ouvidos, inesperados. Assim como Deus tem misericórdias muito além daquelas que claramente revelou em sua Palavra — “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” — assim Deus tem juízos muito além dos que estão pronunciados em sua Palavra. Às vezes, quando os ministros de Deus expõem as ameaças que se encontram na palavra de Deus, você pensa que são terríveis; mas fica sabendo que Deus, no tesouro dos seus juízos, tem coisas mais terríveis do que aquilo que Ele jamais revelou em sua palavra. Por isso, aprenda a tremer não apenas diante do que está revelado na palavra de Deus contra o seu pecado, mas diante do que ainda se pode descobrir, na infinita justiça, poder e sabedoria de Deus, para ser executado contra os pecadores. Pois vocês que são pecadores, e especialmente se são pecadores ousados e arrogantes, podem esperar se deparar com qualquer mal que uma sabedoria infinita é capaz de criar e que um poder infinito é capaz de fazer desabar sobre vocês. Você comete este e aquele pecado. Talvez não saiba de nenhuma ameaça específica de juízo contra esse pecado, mas pensa da seguinte maneira: — “Eu, que estou provocando a Deus com meus pecados, o que é que posso esperar que me aconteça? Por mais que eu pense que não, a infinita sabedoria de Deus vai descobrir o que estou fazendo e trará sobre mim o juízo que me cabe”. Leve isso em consideração e tome cuidado com o pecado.

9 – Com algumas pessoas, Deus logo aplica o seu juízo.

Pode acontecer de Ele poupar a outros por longo tempo, mas com respeito a você, talvez diga: — “Você não pecará duas vezes”. Se você se arrisca a uma primeira vez, pode ser que Deus puna com a morte. Foi isso que Ele fez com Nadabe e Abiú, pois tinham acabado de ser consagrados. Segundo os comentaristas bíblicos, eles estiveram em consagração por sete dias, e esse foi o primeiro dia em que se apresentaram para exercer seu ofício. E em seu primeiro ato, Deus os fulminou. Que isso nos faça tremer. O Senhor age rápido com alguns, ao passo que é paciente com outros, mas não tome liberdades pelo fato de Ele ter sido paciente com os outros. Talvez Ele remova você ao primeiro pecado, e com prontidão exerça juízo contra você.

10 – A santidade de um dever não livrará nunca a pessoa que deixa de exercê-lo de maneira adequada.

O sacerdócio era um dever santo. Eles eram verdadeiros sacerdotes de Deus, e vieram para oferecer incenso ao Deus verdadeiro. O incenso que ofereceram era do tipo certo. Só houve o seguinte desvio: — “eles não traziam o fogo que Deus queria que trouxessem”. Por esse desvio, Deus os atacou, todo o bem que havia naquele dever não os livrou do que aconteceu. Considerem isso, vocês que executam vários deveres santos. Guardem-se de achar que possuem a liberdade de se desencaminhar de alguma maneira. Não pensem que, pelo fato de os deveres serem realmente bons e santos, e que, pelo fato de executar esses deveres, vocês podem se arriscar a misturar as coisas. “Guardem-se de misturar qualquer mal, de cometer qualquer desvio em alguma coisa santa”. Mesmo que vocês tenham executado mil tarefas santas, isso não é nenhum salvo–conduto para se conduzir mal na execução dessas mesmas tarefas.

11 – O Senhor é terrível em seu santuário.

É o que está no Salmos 68:35: — “Ó Deus, tu és tremendo nos teus santuários”. Quando temos de lidar com Deus, quem consegue permanecer diante deste Deus santo? “Nosso Deus é um fogo consumidor”. O Senhor se manifesta aqui de modo pavoroso, a ponto de fulminar com fogo esses dois sacerdotes, como em Ezequiel 9:6, onde Deus diz: — “Começai pelo meu santuário”. Deus é terrível para com aqueles que se atrevem a se aproximar dEle com más intenções ou são profanos quando o fazem. Ele é terrível para com aqueles que estão perto dEle. Deus quer que cada um de nós trema na sua presença.

12 – Com muita frequência, os juízos de Deus estão estreitamente relacionados aos pecados dos homens.

Aqui, eles pecaram com fogo e pelo fogo foram consumidos. Eles transgrediram por meio de fogo estranho, e Deus os fulminou com fogo estranho. Muitas vezes, os juízos de Deus correspondem à maneira como os homens cometem seus pecados. Assim como aqui o juízo ocorreu por meio de fogo, noutra ocasião vemos que ocorreu por meio de água. Faraó peca ao jogar os filhinhos do povo de Israel na água, e Deus o lança no mar. “Se queres afogar os outros na água, providenciarei bastante água para ti”, disse Deus. E assim acontece também aqui: — “Se vocês querem se envolver com fogo estranho, fogo estranho terão”, disse Deus. Muitas vezes, Deus exerce juízos para com os pecadores para que a sua justiça se torne mais evidente. Deus, com frequência, faz com que as próprias coisas em que pecamos sejam, elas mesmas (ou alguma outra coisa do mesmo tipo), os verdugos da sua ira. Foi isso o que aconteceu com os judeus. Eles venderam Cristo por trinta moedas de prata, e depois trinta deles foram vendidos por um centavo. E assim também a história de Adoni–Bezeque, no primeiro capítulo do livro de Juízes. Ele tinha sido cruel a ponto de cortar os dedos polegares das mãos e dos pés de setenta reis. E assim aconteceu também com ele mesmo. É comum acontecer aos homens de espírito cruel e furioso se deparar também com homens de espírito cruel e furioso. Vamos aplicar isso de maneira específica. Vocês que são filhos teimosos com seus pais, se Deus permitir que continuem vivendo, é provável que se deparem com a mesma atitude em seus filhos. E quando vocês, que são pais, se deparam com um filho teimoso, devem refletir: — “Não é justo que Deus me trate assim?”. E vocês que são empregados empedernidos com seus patrões, quando tiverem seus próprios empregados, eles também serão assim com vocês. Talvez vocês tenham sido infiéis com seus líderes. Quando vocês estiverem em posição de liderança, é certo que agirão dessa mesma maneira com vocês. Você deve se humilhar e dizer: — “Deus é justo por permitir que isso aconteça, que Ele me castigue da mesma maneira como procedi”.

13 – Eles ofereceram fogo estranho.

Tomemos cuidado, todos nós, com esse assunto de trazer fogo estranho em nosso serviço a Deus. Pergunta: — “O que significa trazer fogo estranho em nosso serviço a Deus?”. Resposta: — “Conheço vários autores que discorrem sobre o assunto. Ambrósio disse que esse fogo estranho são as paixões e a avareza”. Quero que vocês considerem o seguinte: — acima de qualquer outro fogo estranho, tomem cuidado com o fogo estranho da paixão e da ira, especialmente na adoração a Deus. Em toda e qualquer ocasião em que perceberem seu coração irritado e inflamado pela ira, quando estiverem para adorar a Deus, lembrem-se dessa passagem bíblica. Nadabe e Abiú foram consumidos por Deus, com fogo vindo da parte dEle, por terem ido à presença de Deus com fogo estranho. Talvez seu coração arda em amor quando você vem à presença de Deus. Ore com fervor, pois é isso que as Escrituras ordenam. Precisamos, de fato, ser inflamados em oração pelo Espírito Santo em nosso coração, mas com certeza não devemos ir com o fogo da paixão ou da ira. “[…] levantando mãos santas, sem ira e sem contenda” (1 Timóteo 2:8). Se vocês têm estado exacerbados e o coração de vocês têm se inflamado desse modo, acalmem o coração antes de orar. E assim também, quando vierem ouvir a palavra de Deus, se o coração estiver inflamado de paixão, certifiquem-se de aquietá-lo antes de virem para ouvir a palavra de Deus. “[…] acolhei, com mansidão, a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma” (Tiago 1:21). Quando vocês vierem participar da Ceia do Senhor, guardem-se de fazê-lo com ira e malícia, pois, se o fizerem dessa maneira, estarão oferecendo fogo estranho. Isso é algo que deve ser levado em consideração, especialmente pelos ministros que vão pregar. Eles devem tomar cuidado para não trazerem fogo estranho ao púlpito, ou seja, ousarem apresentar seus próprios sentimentos e paixões. Fui persuadido com respeito a essa prescrição antes mesmo de saber qualquer coisa sobre pregação. O homem designado para revelar a ira de Deus precisa calar a sua própria ira. Essa é, com certeza, uma prescrição para todos os pregadores, pois o Senhor envia seus pregadores para tornar conhecida a sua ira contra os pecados dos homens; mas quanto mais tornam conhecida a ira divina, mais devem calar a sua própria. E assim, quando eles, da maneira mais clara possível, manifestarem a ira de Deus, mais será aceita a pregação deles. Agora, é verdade que um coração carnal pode estar sempre pronto a pensar que, quando um pregador fala com zelo verdadeiro por Deus, está se dirigindo especificamente a Ele. Acautelem-se contra isso. Acredito que vocês tenham tido pouca ocasião de ser tentados nesse sentido neste lugar, mas uma coisa eu sei: — “é dever dos ministros de Deus se certificar de não apresentar senão o fogo do Espírito de Deus, o fogo que retiraram do altar, sendo a língua deles tocada por uma dessas brasas”. Eles não devem vir com suas próprias paixões para promover a justiça de Deus. Não, a ira do homem não produz a justiça de Deus.

Paz e graça.

[1] BURROUGHS, Jeremiah, Adoração Evangélica — Ou a maneira correta de santificar o nome de Deus em geral — Traduzido do original em inglês: — Gospel Worship – Or The Right Manner of Sanctifying the Name of God in General, p. 13 – 41.

Jeremiah Burroughs (Burroughes, 1600 – 1646) foi um Congregacionalista Inglês e um conhecido pregador puritano. Atuou como pastor em Stepney e Cripplegate, em Londres. Ele era um membro da Assembléia de Westminster, e um dos poucos que se opôs a maioria Presbiteriana. Enquanto um dos mais distinguidos dos Independentes Inglês, ele foi um dos mais moderados, agindo sempre de acordo com o lema em sua porta de estudo (em latim e grego): — “varietas Opinionum et opinantium – ασυστατα unitas non sunt” — “Diferença de crença e de unidade dos crentes não são incompatíveis”.

[2] N. do E.: King James Version e Almeida Corrigida e Revisada — Corrigida Fiel.

[3] Pr. Dr. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.

ADORAÇÃO EVANGÉLICA

A ETERNA GERAÇÃO DO FILHO

“Proclamarei o decreto: — o Senhor me disse: — Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Salmos 2:7).

“E nós vos anunciamos que a promessa que foi feita aos pais, Deus a cumpriu a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus; como também está escrito no salmo segundo: — Meu filho és tu, hoje te gerei” (Atos 13:32, 33).

“Porque, a qual dos anjos disse jamais: — Tu és meu Filho, hoje te gerei? E outra vez: — Eu lhe serei por Pai, e Ele me será por Filho?” (Hebreus 1:5).

1 – Exegético explicativo.

Há atualmente, aqueles que negam a doutrina da geração eterna do Filho, Jesus Cristo. Outros, realizam más análises textuais, isolando-as e criando assim confusões acerca do que de fato é o ensino da geração eterna do Filho.

Com o objetivo de sermos fiéis ao analisarmos os textos acima mencionados, devemos atentar primeiramente para a “exegese prosopológica” cristã primitiva do Antigo Testamento. A exegese prosopológica é uma “estratégia de leitura centrada na pessoa” que procura resolver as identidades ambíguas de oradores e audiências em textos do Antigo Testamento explicadas à luz da clara determinação de suas identidades no Evangelho apostólico.

Por exemplo, Marcos 12:35 – 37[1], esclarece as identidades de orador e ouvinte no Salmos 110 como “Deus Pai falando com Deus Filho a respeito de sua geração eterna e domínio messiânico. E nos esclarece que Davi ouviu essa conversa entre o Pai e o Filho ‘no Espírito Santo’”.

Outro exemplo, é que no Salmos 109:3, 4, ouvimos o Pai dizer: — “No dia de teu nascimento, já possuis a realeza no esplendor da santidade; semelhante ao orvalho, eu te gerei antes da aurora[2], e ouvimos o Pai designar este Filho eternamente gerado como Rei–Sacerdote messiânico: — “[…] tu és um sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque” (compare com o Salmos 2:6 – 9).

No Salmos 40:6 – 8[3], ouvimos o Filho falando ao Pai do corpo que o Pai preparou para Ele e do desejo do Filho de fazer a vontade do Pai em sua missão encarnada (veja também Hebreus 10:5 – 7).

Deste modo, o Salmos 2:7 textualmente expressa a glória eterna de Cristo como Filho de Deus, infinitamente acima dos anjos, que foi publicamente declarada quando Deus o levantou dos mortos e o exaltou como Rei. As passagens de Atos 13:32, 33 e Hebreus 1:5, 6, expressamente revelam a plenitude daquilo que foi revelado ocultamente no salmo segundo. Por essa razão, o Apóstolo Paulo diz que Cristo é “Declarado Filho de Deus em poder, […] pela ressurreição dentre os mortos” (Romanos 1:4), perceba que Paulo diz que Cristo como Filho de Deus foi “declarado” (ὁρίζω) publicamente por ocasião da ressurreição — “pela ressurreição dentre os mortos” —, claramente constitui-se a mensagem do Evangelho, que anteriormente é colocada como sendo “O mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos; aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória” (Colossenses 1:26, 27). Na Bíblia, um “mistério” (mystḗrion) não é algo incognoscível. Pelo contrário, é o que só pode ser conhecido por meio da revelação, ou seja, porque Deus o revela.

Por esse motivo, Salmos 2:7 à luz de Atos 13:32, 33 revela apenas “o mistério que esteve oculto” na expressão “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei”. Vale sublinhar, que foi algo profetizado sobre a vitória que o Messias haveria de ter sobre a rebelião das nações (v. 8).

No dia em que o Senhor o ungiu e o designou como Rei, Ele o “gerou” como Filho e lhe deu o direito de governar o mundo. Com relação a Davi, isso se refere ao decreto de Deus em 2 Samuel 7 — “e confirmarei o trono do seu reino para sempre […] teu trono será firme para sempre” (v. 13, 16) — e, com relação ao Messias, de quem Davi era um tipo, ele é interpretado como se referindo à eternidade (veja Hebreus 1:5; 5:5; cf. 1:2, 3), na qual Cristo, como o Filho, é gerado pelo Pai, isto é, na qual Ele é gerado como esplendor da glória de Deus e a imagem expressa de sua natureza (Colossenses 2:9). Além disso, de acordo com o texto de Atos 13:33 e de Romanos 1:4, Ele provou ser o Filho de Deus com “poder pela ressurreição dentre os mortos”. Em Miquéias 5:2 — “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são ‘desde os tempos antigos’, ‘desde os dias da eternidade’” —, encontramos uma idéia semelhante. Aquele que há de reinar sobre Israel, e é proveniente da pequena cidade de Belém, já existia “desde os tempos antigos”. Seu reinado da parte de Deus tem origem nos “dias antigos” (que pode ser igualmente traduzido por “os dias da eternidade”).

Por conseguinte, observamos que Mateus outorga escrituristicamente, à luz do contexto do salmo segundo, especialmente, o versículo 8[4], que Jesus reconheceu este poder quando comissionou os discípulos a fazerem discípulos de todas as “nações” (Mateus 28:18 – 20). Portanto, claramente, a interpretação de Atos 13:32, 33 — vinculada ao Salmos 2:7, 8 —, não é que a “filiação eterna de Cristo veio a plena floração em sua ressurreição”, mas que “Ele é publicamente ‘declarado’ como sendo o Filho de Deus eternamente gerado”.

O verbo “ὁρίζω” (horízō) traz a idéia de “apontar” ou “declarar”, isto é, “Cristo é publicamente ‘declarado’ como sendo o Filho de Deus eternamente gerado”. O verbo “horízō” se vincula com “horos”, que significa “fronteira”, e “horion”, que significa “região”. Originalmente, significava “estabelecer limites” (limitar fronteiras), e, portanto, podemos deduzir como sendo “a idéia de estabelecer limites[5]”; “horízō”, aqui, é “declarar publicamente algo que foi decretado de antemão, ‘pela ressurreição (de Cristo) dentre os mortos’ (cf. Romanos 1:4; Atos 13:32, 33), outrora profetizado como o Messias que haveria de vir da descendência de Davi, ‘segundo a carne’, tendo vitória sobre a rebelião das nações (cf. Romanos 1:3), recitando o decreto da glória eterna do Filho de Deus exaltado como Rei sobre toda a terra (Salmos 2:8) e como Redentor de todos aqueles ‘bem–aventurados que nEle confiam (Salmos 2:12), e que proclamam a mensagem do Evangelho, afirmando que por Ele ‘é justificado todo aquele que crê’” (Atos 13:39).

Vale ressaltar, que em Romanos 1:3, 4, parece que Paulo cita um credo cristão primitivo, para mostrar que está vinculado com a tradição dos Pais. Neste credo, o modo humano da existência de Jesus — isto é, “da descendência de Davi, segundo a carne” — se contrasta com o modo divino de sua existência — isto é, “designado Filho de Deus, em poder, segundo o Espírito de santidade”. A palavra “designado” sugere um avanço: — “Jesus é o Messias davídico”, mas muito mais também: — “é o Filho eternamente gerado de Deus ‘em poder’”. Além disto, sugere uma sequência no tempo, isto é, “nasceu como homem, mas, pela ressurreição, foi designado Filho de Deus”. Muitos estudiosos alemães vêem nesta sequência uma cristologia primitiva, de adoção, porque “na Igreja mais primitiva, o messiado de Jesus datava da ressurreição[6], como alguns, atualmente, tentam suscitar equivocadamente. Devemos nos lembrar, porém, que o Apóstolo Paulo não indica em lugar algum que ele pensasse que Jesus fosse instalado como Filho na sua ressurreição, pela primeira vez (cf. Romanos 8:3). Sustenta que Jesus era o Filho de Deus desde toda a eternidade. É por isso que, o teólogo alemão e estudioso do Novo Testamento, Karl Ludwig Schmidt (1891 – 1956) argumenta que “horízō não tem o significado aqui de ‘instituir’ ou ‘designar’, e, sim, o de ‘determinar de antemão’[7]. O. Michel tem razão, sem dúvida, ao escrever no seu comentário sobre Romanos, “Paulo aqui se ocupa com uma verdade dupla, com sua compreensão de Jesus tanto no seu aspecto humano como no divino[8]. Portanto, podemos afirmar que a ressurreição é uma revelação da filiação divina, ou como declaramos: — “da eterna geração do Filho”.

Embora Jesus seja o eterno e divino Filho de Deus (Marcos 1:11; João 3:16), a declaração da sua filiação redentora, profetizada em Salmos 2:7, lhe foi conferida no tempo, quando Ele completou a sua obra messiânica (culminada pela ressurreição). Por essa razão, os crentes não se tornam divinos e nem participam na eterna e divina filiação de Cristo, mas a sua adoção como filhos de Deus significa que eles participam da filiação redentora de Cristo através de sua união com o “Autor da salvação deles” (Hebreus 2:10; cf. Hebreus 3:14; Romanos 8:29). Como escreveu o Reformador e teólogo francês, João Calvino (1509 – 1564), comentando o Salmo 2:7: — “Isso o Apóstolo (usando Hebreus 1:5) sábia e diligentemente considera, ao informar-nos que tal linguagem jamais foi usada em relação a qualquer dos anjos. Davi, individualmente considerado, era inferior aos anjos, mas até onde representava a Pessoa de Cristo, ele é com sobejas razões preferido muito acima deles. Pela expressão, Filho de Deus, neste lugar, não devemos, pois, entender um filho entre muitos, e, sim, seu Filho Unigênito, o único a possuir a preeminência no céu e na terra”. Calvino também explica a expressão “hoje te gerei” à luz de Atos 13:32, 33, da qual, robustece o aclaramento da correlação entre a ressurreição e a interpretação do salmo segundo; quando Deus diz, “eu te gerei”, escreve Calvino: — “[…] Davi foi gerado por Deus quando claramente se manifestou a escolha dele para ser rei. As palavras, neste dia, portanto, denota o tempo dessa manifestação; pois que se tornou notório que ele se fez rei por nomeação divina, ele surgiu como aquele que havia sido finalmente gerado de Deus, já que uma honra tão imensurável não poderia pertencer a uma pessoa isoladamente. A mesma explicação das palavras deve aplicar-se a Cristo. Não se diz que Ele é gerado em qualquer outro sentido, senão que o Pai testifica dEle como sendo seu próprio Filho. Esta passagem, estou consciente, tem sido explicada por muitos como se referindo à eterna geração de Cristo; e das palavras, ‘neste dia’, arrazoam ingenuamente como se denotassem um ato eterno sem qualquer relação a tempo. Paulo, porém, que é o mais fiel e melhor qualificado intérprete desta profecia, em Atos 13:33, chama nossa atenção para a manifestação da glória celestial de Cristo, da qual temos falado. A expressão, ‘ser gerado’, não implica, portanto, que Ele, então, ‘começou a ser o Filho de Deus’, mas que sua existência então se fez manifesta ao mundo. Finalmente, esse ‘gerar’ não deve ser inferido do amor mútuo que existe entre o Pai e o Filho; apenas significa que, aquele que esteve oculto desde o princípio no secreto seio do Pai, que mais tarde esteve obscuramente representado sob a Lei, se fez notório como o Filho de Deus a partir do tempo quando se manifestou com marcas autênticas e evidentes de Filiação, segundo o quê se encontra expresso em João 1:14: — ‘E vimos sua glória, glória como do Unigênito do Pai’. Entretanto, devemos, ao mesmo tempo, ter em mente o que Paulo ensina (Romanos 1:4), ou seja, que Ele foi declarado Filho de Deus, ‘com poder’, quando ressuscitou dos mortos e, portanto, o que aqui está expresso é principalmente uma alusão ao dia da ressurreição. Porém, seja qual for o tempo específico aqui aludido, o Espírito Santo realça o solene e oportuno tempo de sua manifestação, justamente como Ele posteriormente faz nestas palavras: — ‘Este é o dia que o Senhor fez; regozijemo-nos e alegremo-nos nEle’ (Salmos 118:24)”. Então, podemos afirmar, peremptoriamente, segundo Calvino, que “ser gerado, não implica, portanto, que Ele, então, ‘começou a ser o Filho de Deus’ (mediante a ressurreição), mas que sua existência (eterna) então se fez manifesta ao mundo (publicamente); a ressurreição, portanto, é o ato divino de declarar publicamente que Cristo é o eterno Filho de Deus”.

Outrossim, declarações semelhantes que se expressam em linguagem diferente ocorrem frequentemente no Novo Testamento, como sendo a sua exaltação a consequência da sua obediência no sofrimento, e consiste na sua designação como soberano, não somente sobre a comunidade dos crentes como também sobre o universo inteiro. Por exemplo, Romanos 1:4: — “designado (horisthentos) Filho de Deus” (verbo “horízō”) e 1 Timóteo 3:16: — “recebido (anelēmphthē) na glória”. Nesta exaltação de 1 Timóteo 3:16 Jesus é “vindicado[9]”, porque em Romanos 1:4 Jesus é anunciado publicamente como sendo verdadeiramente o Filho eternamente gerado “em Deus”.

O texto de Romanos 3:25, 26[10], bem no início, nos diz que foi a vontade de Deus expor publicamente o seu Filho na cruz do Calvário. Deus o ergueu em um madeiro como maldito para que todos o vissem (cf. Gálatas 4:4). De acordo com o texto de Romanos 3, Deus escolheu esse lugar dos mais públicos para o sacrifício de seu justo Filho para que viesse a vindicar a si mesmo ao demonstrar de uma vez por todas que Ele é um Deus justo.

Concluímos, que a passagem de Atos 13:33 é outro caso ambíguo das Escrituras. Num primeiro olhar, a citação de Salmos 2:7 parece dar a entender que Jesus foi “gerado” como Filho de Deus por ocasião da ressurreição. Contudo, podemos concordar com o que escreveu o estudioso escocês e Professor Emérito de Exegese do Novo Testamento na Universidade de Aberdeen, Ian Howard Marshall (1934 – 2015): — “Sustentar que tanto o desenvolvimento do conceito no sermão do Apóstolo Paulo quanto a analogia com Sabedoria 2:13 – 18[11] mostram que Salmos 2:7 não foi empregado para estabelecer a filiação divina de Jesus com base na ressurreição, e sim para demonstrar que, por ocasião da ressurreição, Deus confirmou a justiça de seu Filho obediente. Desse modo, a passagem associa a filiação à obediência do Jesus terreno, não ao fato da ressurreição. Concluímos, portanto, que não existe no Novo Testamento nenhum dado concreto para a idéia de que Jesus assumiu seu papel de Filho de Deus apenas na ressurreição[12].

Devemos concordar com a belíssima contribuição que faz Ian Howard Marshall, discorrendo exegeticamente a interpretação tendo em conta o texto, contexto e correlações veterotestamentárias. Sendo esse o sentido original de interpretação dos textos[13] acima mencionados, portanto, o único entendimento reputado e ratificado pelos precedentes bíblicos.

O teólogo reformado holandês, Herman Bavinck (1854 –1921), escreveu que: — “[…] no caso de Cristo, o nome — ‘Filho de Deus’ — certamente adquire um significado muito mais profundo. De fato, como mediador e rei, Ele é às vezes chamado de ‘Filho de Deus’ em um sentido teocrático (Lucas 1:35). Nem mesmo nesse caso, porém, a idéia adocionista de que, de acordo com sua natureza divina, Cristo é Filho por geração, e, de acordo com sua natureza humana, Ele é Filho por adoção (como é ensinado pelos adocionistas e remonstrantes)[14], tem algum apoio na Escritura. Entretanto, Cristo não foi primeiro adotado no tempo – como um rei em Israel – para ser o Filho de Deus. Ele também não é chamado de Filho de Deus por causa de seu nascimento sobrenatural, como os socinianos ensinaram e Hofmann[15] ainda tenta argumentar. Ele tampouco tem esse nome em um sentido ético como outros também acreditam[16]. Ele também não se tornou Filho de Deus como resultado de sua mediação e ressurreição, uma interpretação em apoio da qual João 10:34 – 36; Atos 13:32, 33; Romanos 1:4 são citados. Mas Ele é o Filho de Deus em um sentido metafísico: — ‘por natureza e desde a eternidade’. Ele é exaltado muito acima dos anjos e dos profetas (Mateus 13:32; 21:27; 22:2) e mantém uma relação exclusiva com Deus (Mateus 11:27). Ele é o Filho amado em quem o Pai se apraz (Mateus 3:17; 17:5; Marcos 1:11; 9:7; Lucas 3:22; 9:35), o Filho Unigênito de Deus (João 1:18; 3:16; 1 João 4:9 e seguintes), o próprio Filho de Deus (Romanos 8:32), o Filho eterno (João 17:5, 24; Hebreus 1:5 e seguintes; 5:5, 6), a quem o Pai concedeu ter vida em si mesmo (João 5:26). Ele é igual ao Pai em conhecimento (Mateus 11:27), honra (João 5:23), poder criador e recriador (João 1:3; 5:21, 27), atividade (João 10:28 – 30) e domínio (Mateus 11:27; Lucas 10:22; 22:29; João 16:15; 17:10) e foi condenado à morte precisamente por causa de sua filiação (João 10:33; Mateus 26:63 e seguintes)[17].

2 – A eterna geração do Filho.

A eterna geração do Filho é espiritual, ela não cria divisão e separação. Portanto, a analogia humana mais notável é pensamento e discurso. Assim como a mente humana objetiva a si mesma em palavras, assim também Deus expressa todo o seu ser no “Logos” (Colossenses 1:19; 2:9). Para Deus, gerar é falar e, logicamente, seu discurso é eterno. Por essa razão, afirmamos que o Filho é gerado do próprio ser do Pai. Desde a eternidade o Filho é “verdadeiro Deus de verdadeiro Deus”.

Como escreveu o Doutor da Igreja, Atanásio de Alexandria (296 – 373 d.C.): — “Assim, olhando o céu, e vendo sua ordem, sua beleza e a luz dos astros, é possível formar uma idéia do ‘Logos’ que é o Autor desta ordem; igualmente, quando se pensa no ‘Logos’ de Deus, é necessário pensar também em Deus seu Pai: — procedente dEle, o Logos é com razão chamado intérprete e mensageiro do Pai; e isto também pode-se vê-lo segundo o que sucede em nós. Efetivamente, quando o homem produz o seu verbo, concebemos que a fonte deste verbo é o espírito; e, portanto, nossa atenção a este verbo, nosso raciocínio vê o espírito do qual é o sinal. Com mais forte razão, e por uma consideração que a supera incomparavelmente, vendo o poder do Verbo, concebemos uma idéia do seu bom Pai, como disse o próprio Salvador: — “Quem me vê, vê também o Pai” (João 14:9)[18].

A geração do Filho não pode ocorrer no tempo: — “o Filho não tem início, mas existe eternamente com Deus — ‘o Verbo estava com Deus’ (João 1:1)”. Portanto, a geração do Filho de Deus só pode ser geração eterna. Assim como é da natureza da luz brilhar, de forma que ela não pode existir sem brilhar, assim também “o Pai não pode existir sem o Filho; assim como não há Salvador fora de Deus (Isaías 43:11), podemos deduzir logicamente pelo texto de Isaías que não há o Filho fora do Pai, porque o Filho é o Salvador”. Como escreveu Orígenes de Alexandria: — “Não houve tempo em que o Filho não existia[19]. Ele é eterno. O Pai não é Pai antes da existência do Filho, mas mediante a existência do Filho. Não há separação: — “o Pai não existe sem o Filho e o Filho não pode existir sem o Pai”. O Pai e o Filho têm todos os atributos divinos em comum, co–iguais e co–eternos, como afirma a Escritura — “o Filho e o Pai são um” (João 10:30), com isso afirma-se a “unidade da Divindade”.

Não é juntamente, mas em Deus, que adoramos o Filho. O Filho tem a mesma sabedoria, verdade e razão que o Pai. Como expressa a Confissão de Fé de Westminster (II.3): — “Na unidade da Divindade há três Pessoas de uma mesma substância, poder e eternidade — Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, o Pai não é de ninguém – não é nem gerado, nem procedente; o Filho é eternamente gerado do Pai; o Espírito Santo é eternamente procedente do Pai e do Filho[20].

Ser gerado não significa provir da vontade do Pai, mas da substância do Pai. Em consequência, o Filho de Deus não pode ser chamado apenas criatura do Pai, visto que tem com Ele a plenitude da Divindade. Deus sendo espírito é indivisível, sua geração, portanto, “é comparada com a irradiação da luz do sol, ou exteriorização do pensamento que vem da alma”, como escreveu Atanásio. Pai e Filho são dois, mas têm a mesma natureza. Quando Jesus diz: — “O Pai é maior do que eu” (João 14:28), não revela, como dizia Ário[21], a superioridade do Pai sobre o Filho nem deve ser entendida no sentido subordinacionista, mas significa: — “o Pai é a origem, o Filho, a derivação[22], como explica Atanásio. Como Deus não é um princípio sem vida, mas de vida eterna, a “geração” e a “existência” do Filho também são eternas. Nem para o Pai nem para o Filho houve um tempo em que Ele não existia. Esse Filho não pode ser uma criatura e não foi gerado pela vontade de Deus, mas é gerado de dentro de seu ser. Portanto, a distinção entre Ser (essência[23]) e Pessoa (subsistência[24]) e entre as pessoas entre si se esgotou em suas relações recíprocas no fato de ser Pai, Filho e Espírito, nas seguintes propriedades: — “paternidade” (não–geração), “filiação” (geração) e “santificação” (procedência), é o que afirmamos e ensinamos como doutrina da Igreja.

3 – Filho — geração ou filiação.

Não há minimamente a possibilidade de não se conhecer profundamente essa doutrina, porque a qualificação especial da segunda Pessoa da Trindade é a filiação, e essa é a nossa confissão de fé — “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mateus 16:16). Nas Escrituras, Cristo recebe variados nomes que indicam sua relação com o Pai, tais como: — “Verbo (João 1:1, 2), Sabedoria (Provérbios 8:22 – 36; cf. 1 Coríntios 1:24, 30; Colossenses 2:3), Logos (1 João 1:1), o Primogênito (Colossenses 1:15), o Unigênito e único Filho (João 3:16), a imagem de Deus, imagem, substância, a expressão (cf. Hebreus 1:3; Colossenses 1:19)”.

A doutrina da “geração eterna”, assim chamada pela primeira vez pelo teólogo Orígenes de Alexandria (185 – 253 d.C.), foi baseada nesses nomes e em uns poucos textos citados acima. Ao usar esses termos, estamos, é claro, falando numa linguagem humana e, portanto, imperfeita e limitada, o que deve nos deixar cautelosos. Porém, sem passarmos por irrefletidos no momento de perscrutarmos o sentido original dos textos, nem de sermos acusados de desajuizados quando o expormos e nem colocados como pertencentes ao grupo dos negligentes e maus teólogos (teologastros!). Temos o direito de usarmos essa linguagem simples, contudo, temos igualmente o dever de sermos fiéis as Escrituras Sagradas. Pois, assim como a Bíblia fala analogicamente do ouvido, do olho e da boca de Deus (antropomorfismos[25]), assim também a geração humana é uma analogia e imagem do ato divino pelo qual o Pai concede ao Filho “ter vida em si mesmo”. No entanto, quando recorremos a essa imagem, devemos ter o cuidado de remover todas as associações com a imperfeição e a sensualidade.

A geração de um ser humano é imperfeita e defeituosa — não podemos entender pelos mesmos termos tal doutrina sem se extirpar os vícios aparentes e ocultos. Um marido precisa de uma esposa para gerar um filho, por exemplo. Nenhum homem jamais pode comunicar plenamente sua imagem, toda a sua natureza a um filho ou mesmo a muitos filhos. Um homem se torna pai apenas no curso do tempo e depois deixa de ser pai, e um filho logo se torna totalmente independente e autoconfiante em relação ao seu pai. Mas não é assim com Deus. “A geração ocorre também no ser divino”. A fecundidade de Deus é um bonito tema, que frequentemente reaparece nos Pais da Igreja. Aprendemos que a substância pode ser referida a Deus enquanto significar existir por si mesmo. Assim, sendo um em três pessoas, Deus é “um conjunto de relações intradivinas (ou intratrinitárias) que brotam de sua ‘autofecundidade’”. Deus não é uma substância abstrata, fixa, monadária, solitária, mas “uma plenitude de vida”. É próprio da sua natureza (οὐσία) ser gerativo (aquele que gera) e frutífero. Deus é capaz de expansão, desdobramento e comunicação. Aqueles que negam essa produtividade fecunda não levam a sério o fato de que Deus é uma plenitude infinita de vida bem–aventurada. Todas essas pessoas caem em um conceito deísta abstrato de Deus ou, para compensar essa esterilidade ao modo panteísta, incluem a vida do mundo no ser divino. Sem a Trindade, nem mesmo o ato da criação é concebível. Pois, se Deus não pode se comunicar, Ele é uma luz escura, uma fonte seca, incapaz de se manifestar para se comunicar com suas criaturas. Não obstante, essa geração deve ser concebida em termos divinos (eternos)[26].

Em primeiro lugar, ela é espiritual. Os arianos, opondo-se à idéia de geração divina, objetaram que toda geração necessariamente traz consigo separação e divisão, paixão e emanação. Isso seria correto se a geração fosse física, sensual e referente à criatura. No entanto, ela é espiritual, divina, e, portanto, simples, sem divisão ou separação. Ela ocorre sem fluxo ou divisão. Embora dê origem a distinção e distribuição no ser divino, ela não cria divergência e divisão[27].

Atanásio escreve: — “Como Deus é simples, o Pai do Filho é indivisível e sem paixão, pois, embora, no caso dos seres humanos, falemos de fluxo e influxo, não podemos atribuir essas coisas a algo que é incorpóreo[28]. A confissão de fé de Westminster (II.1) expõe assim: — “Há um só Deus vivo e verdadeiro, o qual é infinito em seu ser e perfeições. Ele é um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões; é imutável, imenso, eterno, incompreensível — onipotente, onisciente, santíssimo, completamente livre e absoluto, fazendo tudo para a sua própria glória e segundo o conselho da sua própria vontade, que é reta e imutável”. Como mencionado acima, a analogia mais notável da “geração divina” é a do pensamento e a do discurso, e a própria Escritura sugere isso quando chama o Filho de “Logos” (Discurso, Palavra, Razão). Assim como a mente humana se objetiva no discurso, assim também Deus expressa todo o seu ser no “Logos” (Jesus Cristo). Mas aqui, também, devemos observar a diferença. Os seres humanos precisam de muitas palavras para expressar suas idéias. Essas palavras são sons e, portanto, são materiais, relacionadas ao sentido. Elas não têm existência por si mesmas. No entanto, quando Deus fala, Ele se expressa totalmente na Pessoa única do “Logos”, a quem Ele também “concedeu ter vida em si mesmo” (João 5:26[29]; João 14:6; 11:25), Jesus é a própria vida (ressurreição) e sabedoria (verdade).

Em segundo lugar, portanto, a “geração divina” implica que o Pai gera o Filho do ser do Pai, “Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, e não feito, consubstanciai ao Pai”, como diz o símbolo niceno. Os arianos, em contraste, argumentavam que o Filho tinha sido produzido pela vontade do Pai a partir do nada. Isso, porém, não é geração, mas criação, como João Damasceno (675 – 749 d.C.) salienta. Criação é “trazer à existência a partir de fora, não a partir da substância do Criador, algo criado e feito totalmente dessemelhante (em substância)”, enquanto “gerar” significa “produzir, da substância do gerador, uma geração semelhante em substância ao gerador[30]. O Filho não é uma criatura, mas é Deus sobre todos, bendito para sempre (Romanos 9:5). Portanto, Ele não foi produzido pela vontade do Pai a partir do nada (criatura) e no tempo (pela ressurreição como alguns afirmam equivocadamente, nem pode, pois é eterno). Em vez disso, “Ele é gerado a partir do ser do Pai na eternidade”. Assim, em vez de interpretar “geração” como uma obra real, um desempenho, do Pai, devemos atribuir ao Pai uma “natureza gerativa (autofecunda)”. Isso não significa dizer, é claro, que a geração é uma emanação inconsciente e desprovida de vontade, que ocorre independente da vontade e do poder do Pai. Ela não é um ato de uma vontade decretiva antecedente de Deus, como a criação, mas um ato que é tão divinamente natural para o Pai que sua “vontade concomitante (coexistente)” tem prazer perfeito nela. Ela é uma manifestação daquilo que é verdadeiramente expressivo de sua natureza e essência, e, logo, também de seu conhecimento, vontade e poder, de fato, de todas as suas virtudes[31].

Em terceiro lugar, portanto, a Igreja confessa sua crença no caráter eterno dessa geração. Os arianos diziam que houve um tempo em que o Filho não existia. Eles recorriam especialmente às palavras “o Senhor me produziu” ou “me criou”, em Provérbios 8:22, e enfatizavam a antinomia entre os termos “eterno” e “geração”. Entretanto, se o Pai e o Filho tiverem esses nomes em um sentido metafórico, como a Escritura inquestionavelmente ensina, segue-se que a geração em questão tem de ser eterna. Pois, se o Filho não for eterno, é claro que Deus também não é eterno como Pai. Nesse caso, Ele era Deus antes de ser Pai, e somente mais tarde – no tempo – se tornou Pai. Assim, “a rejeição da geração eterna do Filho envolve não somente uma injustiça à divindade do Filho, mas também à do Pai”. Isso o torna mutável, priva-o de sua natureza divina, da eternidade de sua paternidade e deixa sem explicação como Deus pode verdadeira e propriamente ser chamado de “Pai” no tempo se a base para que isso seja feito não está eternamente presente em sua natureza[32]. “Devemos, por isso, conceber essa geração como sendo eterna no verdadeiro sentido da palavra”. Ela não é algo que foi completado e terminado em algum ponto da eternidade, mas um ato imutável de Deus, sempre completa e eternamente contínua. “Assim como é natural para o sol brilhar e para uma fonte jorrar sua água, assim também é natural para o Pai gerar o Filho”. O Pai não é e nunca foi não–gerativo: — Ele gera eternamente. “O Pai não gerou o Filho por um ato singular e depois o libertou de sua ‘gênese’, mas gera-o perpetuamente[33]. Para Deus, “gerar” é falar, e seu falar é eterno, como já afirmado aqui.

4 – A centralidade do artigo II – Credo Apostólico — Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor.

Não é somente necessário crerem os cristãos que existe um só Deus, e que Ele é Criador do céu, da terra e de todas as coisas (artigo I – Credo Apostólico), mas também é necessário crerem que Deus é Pai e que Jesus Cristo é seu verdadeiro Filho. Esse mistério não é um mito, mas uma verdade certa e comprovada pela palavra de Deus no monte santo da Transfiguração, conforme a afirmação de Pedro: — “Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade. Porquanto Ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da magnífica glória lhe foi dirigida a seguinte voz: — Este é o meu Filho amado, em quem me tenho comprazido. E ouvimos esta voz dirigida do céu, estando nós com Ele no monte santo” (2 Pedro 1:16 – 18). O próprio Jesus Cristo muitas vezes chama a Deus como seu Pai, e, também, denominava-se Filho de Deus. Os Apóstolos e os santos Pais colocaram entre os artigos de fé que Jesus Cristo é Filho de Deus, quando definiram este artigo do credo: — “E em Jesus Cristo seu Filho”, isto é, Filho de Deus. Mas existiram alguns heréticos que acreditaram de um modo perverso nessa verdade de fé. Fotino[34] (376 d.C.), um deles, declarou que Jesus Cristo não é Filho de Deus senão como os outros homens bons o são, os quais, por viverem bem, merecem ser chamados filhos de Deus por adoção, enquanto fazem a vontade de Deus. Do mesmo modo, dizem eles, Jesus Cristo, que viveu bem e fez a vontade de Deus, mereceu ser chamado de Filho de Deus. O mesmo herético queria que Cristo não tivesse existido antes da Virgem Maria, mas que só começasse a existir quando nela foi concebido. Cometeu Fotino dois erros: — “um, porque não disse que Ele era Filho de Deus segundo a natureza; o outro, porque disse que Ele começou a existir, conforme todo o seu ser, no tempo, enquanto a nossa fé afirma que Ele é por natureza Filho de Deus e eterno”. Ora, essas duas verdades encontram-se claramente expressas na Sagrada Escritura, opostas que são ao que ele afirma. Jesus Cristo é uma Pessoa com duas naturezas, Ele é plenamente Deus e plenamente homem, como escreveu João: — “O Verbo se fez carne”. O Verbo não se uniu a uma pessoa humana (não há base na Escritura para afirmar personalidade dupla em Cristo), o Verbo assumiu a natureza humana sem abandonar a divina.

Contra o primeiro erro, declara a Escritura que Jesus Cristo não só é Filho de Deus, mas também Filho Unigênito[35]: — “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” (João 1:18). Contra o segundo, é-nos revelado: — “Disse–lhes Jesus: — Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” (João 8:58). Ora, é certo que Abraão existiu antes da Virgem Maria. Em outras palavras, antes de Maria e Abraão existirem, eu já existia — portanto, incriado e eterno Jesus é. Por esse motivo, os santos Pais acrescentaram, em outro símbolo[36], contra o primeiro erro: — “Filho de Deus Unigênito”; e, contra o segundo: — “nascido do Pai antes de todos os séculos”.

Sabélio[37] (215 d.C.), embora tivesse dito que Cristo existiu antes da Virgem Maria, afirmou que a Pessoa do Pai outra não era que a do Filho, e que o próprio Pai se encarnou. Desse modo, a Pessoa do Pai seria a mesma que a do Filho. Mas isso é um erro, porque destrói a Trindade das Pessoas. Contra esse erro, há a autoridade do Apóstolo João, que nos relatou as palavras do próprio Cristo: — “E, se na verdade julgo, o meu juízo é verdadeiro, porque não sou eu só, mas eu e o Pai que me enviou” (João 8:16). Ora, é evidente que ninguém pode ser enviado por si mesmo. Eis porque Sabélio errou. Acrescentou-se por isso, no símbolo dos Pais: — “Deus de Deus, Luz de Luz”; isto é, “Deus Filho de Deus Pai; Filho que é Luz, Luz que procede do Pai, que também é Luz”. É nessas verdades que devemos crer.

Ário[38] (256 – 336 d.C.), embora tivesse afirmado que Jesus Cristo existira antes da Virgem Maria e que era uma a Pessoa do Pai, outra, a do Filho, atribuiu, ao ser de Cristo, três erros: — “primeiro, que Cristo foi criatura; segundo, que Ele foi feito por Deus como a mais nobre das criaturas, não desde a eternidade, mas no tempo; terceiro, que não havia uma só natureza de Deus Filho com Deus Pai, e, por esse motivo, Cristo não era verdadeiro Deus”. Tais afirmações são evidentemente errôneas, visto que são contrárias à autoridade da Escritura. É-nos revelado no Evangelho de João: — “Eu e o Pai somos um” (João 10:30), isto é, pela natureza (unidade na Divindade). Ora, como o Pai sempre existiu, do mesmo modo o Filho; como o Pai é verdadeiro Deus, assim também o Filho. Em oposição à afirmação de Ário, isto é, que Cristo é criatura, está declarado no símbolo dos Pais: — “gerado, não feito (não criado)”. Contra o erro propalado de que Ele não era da mesma substância do Pai, foi acrescentado no símbolo: — “consubstancial com o Pai”. Está, pois, esclarecido por qual razão devemos crer que Jesus Cristo é o Filho Unigênito de Deus, e verdadeiro Filho de Deus; que sempre existiu com o Pai; que uma é a Pessoa do Filho, outra, a do Pai; que Ele tem uma só natureza com o Pai.

Cremos nessas verdades, aqui, pela fé; conhecê-las-emos, porém, na vida eterna, por uma perfeita visão. Para nossa consolação, acrescentemos algumas palavras a essas verdades. Devemos saber que há diversos modos de geração, conforme a diversidade dos seres[39]. “A geração em Deus é diferente da geração nos outros seres”. Por isso, não podemos chegar a conhecer a geração de Deus, a não ser por meio da geração de criaturas que mais se aproximam de Deus e que mais se assemelham a Ele.

Ora, como foi dito, nada se assemelha tanto a Deus, como a alma humana. Há, na alma, uma espécie de geração, quando o homem conhece alguma coisa pela própria alma, que se chama conceito intelectivo (fundado na inteligência). Esse conceito (efeito da concepção) tem a sua origem da própria alma, como de um pai. Chama-se verbo (isto é, palavra) da inteligência ou do homem.

“A alma, portanto, gera o seu verbo, pelo conhecimento”.

O Filho de Deus, também, nada mais é que o Verbo de Deus, não como se fosse um verbo (uma palavra) já pronunciado exteriormente, porque assim seria transitório, mas como um verbo (uma palavra) concebido no interior. Eis porque o próprio Verbo de Deus possui uma só natureza de Deus, e é igual a Deus. O bem–aventurado João, quando falou do Verbo de Deus, destruiu as três heresias acima definidas: — “a de Fotino (notório por negar a encarnação de Cristo), quando disse: — No princípio era o Verbo; a de Sabélio (notório por opôs-se a doutrina da Igreja, a Trindade, onde há três ‘pessoas’ no Ser Divino, quando disse: — e o verbo estava em Deus; e a de Ário (notório por negar a consubstancialidade entre Deus Filho [Jesus] e Deus Pai), quando disse: — e o Verbo era Deus”. Mas o Verbo (a Palavra) existe diversamente em nós e em Deus. “Em nós, o verbo é um acidente; em Deus, o Verbo de Deus mais identifica-se com o próprio Deus, pois nada há em Deus que não seja essência de Deus”.

A geração do Filho é geração eterna.

Paz e graça.

[1] “E, falando Jesus, dizia, ensinando no templo: — Como dizem os escribas que o Cristo é filho de Davi? O próprio Davi disse pelo Espírito Santo: — O Senhor disse ao meu Senhor: — Assenta-te à minha direita até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés. Pois, se Davi mesmo lhe chama Senhor, como é logo seu filho? E a grande multidão o ouvia de boa vontade” (ACF).

[2] Tradução da BC. Antes da aurora significa “antes da origem dos tempos” (eternidade).

[3] “Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste. Então disse: — Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua Lei está dentro do meu coração” (ACF).

[4] “Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua possessão” (Salmos 2:8).

[5] No século V a.C., se acha frequentemente em Ésqu. e Hdt. Em Sof., os deuses estabelecem leis, e em Eur. determinam o destino humano. Platão e Dem. transferem a força espacial de horízō para relacionamentos temporais. Mais tarde, isto ocorre também em Josefo. O verbo composto aphorizō (de Sof. e Platão em diante), tem o sentido, primeiramente de “separar”, e, depois, de “escolher”, “determinar”.

[6] R. Bultmann, Theology of the New Testament, I, 1952, p. 27.

[7] “Theological Dictionary of the New Testament” (TDNT), V, p. 453.

[8] KEK 412, 1963, p. 40.

[9] O Dicionário Webster’s define “vindicação” como a defesa de qualquer coisa; uma justificação contra a negação ou a censura, ou contra objeções ou acusações.

[10] “Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que Ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3:25, 26).

[11] “Ele se gaba de conhecer a Deus, e se chama a si mesmo Filho do Senhor! Sua existência é uma censura às nossas idéias basta sua vista para nos importunar. Sua vida, com efeito, não se parece com as outras, e os seus caminhos são muito diferentes. Ele nos tem por uma moeda de mau quilate, e afasta-se de nossos caminhos como de manchas. Julga feliz a morte do justo, e gloria-se de ter Deus por Pai. Vejamos, pois, se suas palavras são verdadeiras, e experimentemos o que acontecerá quando da sua morte, porque, se o justo é Filho de Deus, Deus o defenderá, e o tirará das mãos dos seus adversários”.

[12] “É contra todo o sentido do Novo Testamento atribuir a origem da filiação de Cristo à sua ressurreição” (Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible [1871]. Comentário editado por Robert Jamieson [Gênesis — Ester], A. R. Fausset [Jó — Malaquias; Coríntios — Apocalipse] e D. Brown [Mateus — Romanos] e publicado pela primeira vez em 1871. Robert Jamieson [1802 – 1880] foi ministro da Igreja da Escócia e autor religioso, que serviu como moderador da Assembleia Geral — O moderador da Assembléia Geral é o presidente de uma Assembléia Geral, o mais alto tribunal de uma Igreja presbiteriana ou reformada — em 1872, Andrew Robert Fausset [1821 – 1910] foi um clérigo anglicano irlandês, agora conhecido como comentarista bíblico e David Brown [1803 – 1897] era filho de um livreiro que foi duas vezes reitor da cidade. Ele era um ministro da Igreja Livre da Escócia que serviu como moderador da Assembléia Geral [1885 – 1886]. Ele foi co–autor do Comentário “Jamieson–Fausset–Brown [JFB] sobre a Bíblia inteira).

[13] Salmos 2:7; Atos 13:32, 33; Hebreus 1:4, 5.

[14] Cf. Möller, “A doptianism us”, in PRE3, I, 180 – 186; Catecismo Racoviano; Confissão Remonstrante, art. 3; *Apol. Conf. Art. 3; P. van Limborch, Theol. christ., II, 17, 10; *B. S. Cremer, cf. Archief voor nederlandsche Kerkgeschiedenis, VIII, 419 – 428.

[15] J. C. K. von Hofmann, Der Schriftbeweis, I, 116 e seguintes.

[16] B. Weiss, Lehrbuch der biblischen Theologie des Neuen Testaments, §17; A. Ritschl, The Christian Doctrine of Justification and Reconciliation (Clifton, N. J.: Reference Book Publishers, 1966), II, 59; J. H. Scholten, De Leer der Hervomde Kerk in Hare Grondbeginselen, 2a. ed., 2 vols. (Leiden: P. Engels, 1850 – 1851), II, 206.

[17] Herman Bavinck. Dogmática Reformada — Deus e a criação, Editora Cultura Cristã, 2003, p. 282 – 283.

[18] Contra os Pagãos, p. 55.

[19] De princ. I, 2, 2, 4; Contra Celsus, VIII, 12.

[20] Mateus 3:16, 17; 28, 19; 2 Coríntios 13:14; João 1:14, 18; 15:26; Gálatas 4:6.

[21] Heresiarca do século IV, fundador da doutrina Arianista, tida como heresia. O Arianismo foi uma visão cristológica antitrinitária sustentada pelos seguidores de Ário, herege de Alexandria nos primeiros tempos da Igreja primitiva, que negava a consubstancialidade entre Jesus e Deus Pai, que os igualasse. Jesus então, seria subordinado a Deus Pai, sendo Ele (Jesus) não o próprio Deus em si e por si mesmo. Segundo Ário, só existe um Deus e Jesus é seu filho e não o próprio Deus.

[22] Sobre a Encarnação, 3,3; 4.

[23] Na Teologia trinitária, resumindo, essência é: — “[…] uma realidade perfeitamente individualizada, única e idêntica para as três pessoas da Trindade”.

[24] A Trindade é substância individual de natureza racional, então dela não se pode dizer que é uma só pessoa. Pessoa não deve ser colocado na individualidade, mas na existência. Sendo assim, pessoa é o modo de existir, distinto de outros. Isso permite dizer que Deus não é uma pessoa, mas o Pai é uma Pessoa, o Filho é uma Pessoa e o Espírito Santo é uma Pessoa — distintos enquanto pessoas, unos em essência e substância. Afirmaram que a palavra “pessoa” indica mais que um papel, mas a plena e concreta realidade da natureza divina, a idéia de subsistência. “Pessoa” pode ser aplicado à Trindade dado que não deve ser entendido com relação à aplicabilidade com a pessoa humana, mas entendido a partir de Deus, da “[…] relação de autodoação total ao outro, já que a pessoa divina nada mais é do que relação”.

[25] O Antropomorfismo é um conceito filosófico e teológico que está associado as formas humanas, ou seja, ele atribui características, sejam físicas, sentimentos, emoções (Antropomorfismo está associado ao conceito também de “Antropopatia” – este significa a atribuição de sentimentos humanos à Deus), pensamentos, ações ou comportamentos humanos a Deus. Do grego, o termo “antropomorfismo” é a junção dos termos “anthropo” (homem) e “morfhe” (forma).

[26] Herman Bavinck. Dogmática Reformada — Deus e a criação, Editora Cultura Cristã, 2003, p. 316.

[27] Herman Bavinck. Dogmática Reformada — Deus e a criação, Editora Cultura Cristã, 2003, p. 316.

[28] Atanásio, Defence of the Nicene Definition, 11; idem, against the Arians, I, 16, 28 e seguintes.

[29] “Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo” (ACF).

[30] João Damasceno, The Orthodox Faith, I, 8; cf. Atanásio, Defence of the Nicene Definition, 13 – 26; idem, Against the Arians, I, 5, 6.

[31] Herman Bavinck. Dogmática Reformada — Deus e a criação, Editora Cultura Cristã, 2003, p. 316 – 317. Atanásio, “Against the Arians”, III, 59 – 67; Gregório de Nazianzo, “Theologica Orations”, III, 6 e seguintes; Cirilo de Alexandria, “De trin.”, II. Nota do organizador: — não está claro se Bavinck está se referindo ao tratado “Thesaurus de sancta et consubstantiali Trinitate”, de Cirilo (PG 75:9 – 656) ou ao “Sancta et consubstantiali Trinitate” (PG 75:657 – 1124). De acordo com Quasten (Patrology, III, 126), o terceiro tratado trinitário em Migne, “De sancta et vivifica trinitate” (PG 75:1147 – 90), “não é de Cirilo, mas de Teodoreto de Chipre”. Conferir “Patrology”, III, 546; Hilário, “De trinitate”, III, 4; Agostinho, “The Trinity”, XV, 20; P. Lombardo, “Sent.”, I, dist. 6, 7; Tomás de Aquino, “Summa theol.”, I, q. 41, art. 2.

[32] Atanásio, Defence of the Nicene Definition, 26 e seguintes; idem, On the Opinion of Dionysius, 14 e seguintes; idem, Against the Arians, I, 12 e seguintes; Basílio, Against Eunomius, II, 14 e seguintes; idem, On the Spirit, 14 e seguintes; Gregório de Nazianzo, Theological Orations, III, 3 e seguintes.

[33] Orígenes, S.P.N. Cyrilli archiepiscopi Alexandrini Homiliae XIX in Ieremiam prophetam, IX, 4; idem, On First Principles, I, 2, 2.

[34] Fotino (376 d.C.) foi um heresiarca cristão e um bispo de Sirmio, na província romana da Panônia, notório por negar a Encarnação de Jesus Cristo.

[35] Algumas vezes o Novo Testamento se refere a Cristo como o “Unigênito” (monogenés) do Pai (João 1:14, 18; 3:16). Mas a palavra “μονογενής”, que é derivada de duas palavras gregas (“μόνος” [mono] — “um” e “γένος” [genos] — “tipo”) significa “um de um tipo”, e tem a ver com a “exclusividade” de Jesus Cristo.

[36] Sendo a fé, por parte do homem, primeiramente um ato de conhecimento da inteligência, devem ter sentido as palavras que exprimem as suas verdades. Por isso a Igreja, desde os tempos Apostólicos, exigia, dos que procuravam o batismo, inteligência das palavras da fé, que eram definidas. Para que essa finalidade fosse alcançada, formularam–se sínteses das verdades fundamentais da fé com palavras de sentido preciso, compreensível e tradicional. Eram os símbolos da fé. A palavra “símbolo”, que primitivamente, na língua grega, significava um objeto que se dividia em duas partes, como contra–senha para identificação posterior, na tradição católica designava o resumo das verdades da fé que identificavam a religião de Jesus Cristo. Como começava pela palavra “credo”, esta tornou–se sinônimo de símbolo. Na antiguidade o credo era unido ao ritual do catecumenato, isto é, na preparação para o batismo: — os “electi” (eleitos) acabavam a sua preparação recebendo os ensinamentos do Símbolo da Fé (“Traditio Symboli” – “entrega de símbolo”), e depois deviam recitá–lo diante do bispo (“redditio symbolo” – “devolução do símbolo”). Os símbolos mais importantes são os seguintes: — [1] – Símbolo dos Apóstolos — É o mais antigo Símbolo da Igreja, chamado por Tertuliano de “Regula Fidei”, cujas origens vêm dos tempos dos Apóstolos, conforme a tradição. A sua mais primitiva fórmula, baseada nas Escrituras, seria a seguinte: — “Creio no Pai Todo–Poderoso; em Jesus Cristo, nosso Salvador; no Espírito Santo Paráclito, na Santa Igreja e na remissão dos pecados”. Como se vê, nele estavam contidos os mistérios da Trindade, da Encarnação e da Redenção. A fórmula atual do símbolo tem suas origens no século III. Consta de 12 artigos; [2] – Símbolo de Santo Atanásio: — É uma profissão de fé mais ampla, atribuída a Santo Atanásio, mas provavelmente foi transmitida por Santo Ambrósio (século IV) que a recebera da tradição. Procura definir com bastante exatidão o mistério da Santíssima Trindade; [3] – Símbolo de Nicéia: — Elaborado e aprovado no Concílio Ecumênico de Nicéia. O Concílio de Nicéia foi convocado pelo Imperador Constantino para pôr fim à heresia do Arianismo. Presidiu–o o bispo Ósio e os representantes do Papa Silvestre. Participaram dele mais 300 bispos. Na sessão de 19 de junho de 325 d.C., foi aprovado o “Símbolo de Nicéia”, onde é definido que o Filho é da mesma natureza do Pai: — “Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus do verdadeiro Deus, gerado, não criado, da idêntica natureza do Pai”; [4] – Símbolo Niceno–Constantinopolitano: — Elaborado e aprovado no Concílio Ecumênico de Constantinopla, reunido nesta cidade no ano de 381 d.C., reproduz o Símbolo de Nicéia, fazendo alguns acréscimos, principalmente com relação à Terceira Pessoa da Trindade: — “e (nós cremos) no Espírito Santo, Senhor e vivificador, procedente do Pai, que é adorado e glorificado juntamente com o Pai e o Filho, procedente do Pai, que é adorado e glorificado juntamente como Pai e o Filho, e que falou pelos Profetas”. É na Igreja Oriental a fórmula única de profissão de fé. Há outras profissões de fé na Igreja antiga, uma mais, outras menos desenvolvidas, mas todas concordes no sentido das palavras e nos mistérios da fé.

[37] Sabélio (século II) não aceitava a Trindade em Deus, mas confundia as Pessoas numa só unidade em Deus. Para ele, as Pessoas são modos em que Deus se manifesta. A sua heresia é denominada “Monarquianismo Modalista”, e, também, “Patripassionismo”, ou, ainda, “Sabelianismo”. Admitia três manifestações de Deus: — como Pai, na Criação e Legislação; como Filho, na Redenção, e, como Espírito Santo, na Obra de Santificação.

[38] O Arianismo foi a mais perigosa heresia dos primitivos tempos do Cristianismo. Foi seu criador um sacerdote de Alexandria, chamado Ario (336 d.C.). Ensinava ele um certo “Subordicianismo”, heresia mais antiga, que afirmava ser o Filho subordinado ao Pai, negando–lhe, desse modo, identidade de natureza. Para Ário, o Filho era um ser divino de segunda ordem, o qual, por ser desprovido dos atributos absolutos da divindade, podia realizar a criação e a redenção. Há na doutrina de Ário dependência da mentalidade neoplatônica reinante no seu tempo. O Arianismo ensinava que “houve um tempo em que o Verbo não era”, e “Ele (o Verbo) provém do não ser”. Portanto, a Segunda Pessoa seria uma criatura. Condenada a heresia pelo Concílio de Nicéia, não cessou a sua obra deletéria nos meios cristãos, tomando novo alento com os dois Imperadores Arianos Constâncio (337 – 361 d.C.) e Valente (364 – 378 d.C.). O Imperador Teodório, o Grande (379 – 395 d.C.), reafirmando a ortodoxia católica, conseguiu atenuar os males do Arianismo, que por mais de 50 anos dilaceraram a Igreja. Foi definitivamente condenado pelo Concílio de Constantinopla, de 381 d.C., após polêmicas violentas, lutas e separações entre os católicos. Se a Tradição ortodoxa teve a seu lado grandes doutores da Igreja como Atanásio, Basílio, Gregório de Lauzianze e grandes bispos, os Arianos conseguiram envolver muitos bispos e católicos nas suas ambíguas e imprecisas fórmulas heterodoxas. A heresia tomou tal proporções nos meios católicos que Jerônimo chegou a descrever a situação com essas palavras: — “Lastimou–se todo o orbe (o mundo) e admirou–se porque estava Ariano”. O orbe simboliza o domínio de Cristo (a cruz) sobre o mundo (o orbe), literalmente sujeito por um governante terreno (ou, por vezes, de um ser celestial como um anjo). Quando é seguro pela própria figura de Cristo, o objeto é conhecido no Ocidente como “Salvator Mundi” (Salvador do Mundo).

[39] Tomás de Aquino esclarece–nos como a possessão do Verbo na Trindade é uma geração, donde a Segunda Pessoa denominar–se também Filho. No texto latino a palavra e o conceito são expressos pelo mesmo termo — “verbum” — podendo–se então mais de perto seguir o pensamento do Doutor Angélico. Define Tomás de Aquino “geração”, conforme realiza–se nos seres vivos, como sendo a “origem de um ser vivo, de um princípio vivo conjunto”. Aplica a definição à possessão da Segunda Pessoa: — “Portanto a possessão do Verbo em Deus tem a formalidade de uma geração. Ele procede à semelhança de ação inteligível, que é uma operação vital; de um princípio vivo conjunto, como foi dito anteriormente (isto é, da inteligência divina), e de modo semelhante, porque o conceito intelectivo (fundado na inteligência) é semelhante coisa conhecida; e na mesma natureza, porque em Deus ser e conhecer são a mesma realidade. Por conseguinte a processão (que o Filho provém do Pai) do Verbo em Deus chama–se “geração”, e o próprio Verbo procedente chama–se Filho” (Suma Teológica. I:7, 2; cf. I:27, 1; cf. I:34, 2).  A questão é tratada com notável clareza na Suma Teológica em linguagem teológica, da qual neste sermão percebe–se a influência.

ADORAÇÃO EVANGÉLICA

LEIA CORRETAMENTE!

Identifique-se com que espécie de leitura é a sua, para que assim, tenha um maior aproveitamento enquanto leitor; não se pode embaralhar a essência com o método, mutuamente.

Primeiro, lê-se para se ter uma formação e ser alguém.

As leituras de profundidade requerem docilidade e acatamento; docilidade, no sentido em que aqui emprego a palavra, quer dizer, da maneira mais específica e particular, “qualidade de quem demonstra obediente compreensão” e a palavra acatamento, “particularidade de quem contém brandura no modo de se perceber necessitado da compreensão a partir do outro”. Quando estamos em meio a formação intelectual e que por essa razão devemos adquirir quase que tudo formando assim um cabedal de conhecimento, não é hora para termos iniciativas precipitadas — eis aqui uma tentação comum àqueles que estão no processo de formação da intelecção, ao quererem a todo custo serem percebidos por suas insciências banhadas com boçalidade.

A título de exemplo, falando de homens casados. Se todas as suas ‘verdades’ não passaram pelo crivo da funda verdade conjugal encontrada nas Escrituras — “E serão os dois uma só carne; e assim já não serão dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem[1] —, como intelectual cristão, não se pode considerá-lo. É revelado que “Não é bom que o homem esteja só”, logicamente essa palavra compreende absolutamente tudo acerca do homem, em termos de economia, isto é, na estruturação dos elementos de um todo. Como escreveu João Calvino: — “Não é bom que o homem esteja só. Então, Moisés explica o desígnio de Deus em criar a mulher, a saber, para que houvesse seres humanos na terra a cultivarem uma sociedade mútua entre si. No entanto, pode se levantar uma dúvida se esse desígnio deve se estender à descendência, pois as palavras simplesmente significam que, posto que não era conveniente ao homem viver sozinho, então lhe seria criada uma esposa que pudesse ser sua auxiliadora. Eu, entretanto, entendo que o significado é o seguinte: — que Deus, de fato, já no início da sociedade humana, projeta incluir outros seres humanos, cada um em sua própria posição. Portanto, o ponto de partida envolve um princípio geral: — que o homem foi formado para ser um animal social. Ora, a raça humana não podia existir sem a mulher; e, portanto, na conjunção dos seres humanos, esse sacro laço é especialmente notável, pelo qual o esposo e a esposa são combinados em um só corpo e uma só alma, como a própria natureza ensinou Platão, e outros da mais sólida classe de filósofos, a falar. Mas ainda que Deus declarasse, no que respeita a Adão, que não lhe seria proveitoso viver sozinho, contudo não restrinjo a declaração unicamente à sua pessoa, mas, antes, a considero como sendo uma lei comum da vocação do homem, de modo que cada um deve recebê-la como dita a si próprio: — que a solidão não é boa, excetuando somente aquele a quem se abstém, por um privilégio especial. Muitos creem que o celibato lhes traz vantagem e, por isso, se abstêm do casamento, para não virem a ser miseráveis. Não foram somente os escritores pagãos que definiram que, para viver uma vida feliz, não se deve ter esposa, mas o primeiro livro de Jerônimo, contra Joviniano, está repleto de petulantes reprimendas, pelas quais ele tenta fazer com que o santo matrimônio seja, ou odioso, ou infame. Que os fiéis aprendam a confrontar essas ímpias sugestões de Satanás com a declaração de Deus, pela qual ele ordena ao homem a vida conjugal, não para sua destruição, e sim para sua salvação[2].

Aquele que, se desenvolvendo inteligentemente (e espiritualmente), quando casado, sem o auxílio divino, dispensado e outorgado unicamente na pessoa da mulher (Gênesis 2:18), fere gravemente o empreendimento intrínseco da formação, do qual não se pode abjurar. Se desenvolver intelectualmente (e espiritualmente), para o homem casado, agindo sem a mulher, que foi dada por Deus, é fazer com que haja separação entre o cérebro e o pensamento, ou melhor, é dicotomizar a inteligência daquilo que é verdadeiro, já que aquilo que foi ‘ajuntado’ pela verdade, não pode ser separado pelo não acatamento[3].

Contudo, claramente se há incompatibilidade em sua determinação, e há, o homem só num certo grau a ‘separará’, ainda que, apenas no campo dos juízos e dos discursos, e por esse motivo, entrega-se à burrice contumaz todos que se comportam desse modo, desenvolvem apenas o pensamento sem a verdade; é a imitação do pensamento. O filósofo e teólogo francês, Antonin Dalmace Sertillanges, escreveu acerca do crivo da formação tendo a mulher como partícipe em todo o processo de intelecção do homem como um consagrado intelectual: — “[…] é preciso regrar-se de modo a estar tanto quanto possível nas imediações de pessoas superiores. A isso também a mulher do intelectual deve estar atenta. Que ela não abra a porta de sua casa às cegas; que seu tato seja tal qual um crivo; em vez da companhia das altas rodas, que ela estime a das almas elevadas; às pessoas que pretensamente têm muito espírito, que ela prefira pessoas de grande peso, instruídas e de juízo firme, sabendo-se que no mundo se passa tanto mais facilmente por espirituoso quanto mais radicalmente se deu cabo de sua inteligência[4]. Com o que Calvino escreveu, complemento o pensamento da mulher quanto ‘idônea’: — “No hebraico, temos (כְּנֶגְדּֽוֹ׃)[5] que significa ‘como que oposto a’ ou ‘em oposição a’. A letra (כְּ) é usada para indicar uma semelhança. Embora alguns rabinos creiam que aqui ela está como uma afirmativa, contudo a tomo em seu sentido geral, indicando um tipo de contraparte equivalente, pois lemos que a mulher deve ser ‘oposta a’ ou ‘em oposição a’ o homem, porque ela lhe corresponde. Mas parece-me que se acrescenta a partícula de semelhança por ser uma forma de linguagem tomada do uso comum. Os tradutores gregos traduziram fielmente o sentido de “kat’ auton”; e Jerônimo por “A qual lhe seja igual”, pois a intenção de Moisés era destacar alguma igualdade. E daqui se refuta o erro de alguns que pensam que a mulher foi formada apenas para a propagação, e que restringem a palavra “bom”, recém–mencionada, à geração de uma descendência. Não creem que uma esposa fosse pessoalmente necessária a Adão, porquanto até aqui ele era isento de luxúria, como se ela lhe fosse dada simplesmente como companheira de quarto, e não, antes, para que ela fosse inseparável companheira de sua vida. Portanto, a letra (כְּ) é importante, ao mostrar que o casamento se estende a todas as partes e utilidades da vida. É frívola a explicação dada por outros, como se fosse dito: — ‘Que ela esteja pronta à obediência’, pois a intenção de Moisés era expressar muito mais que isso […][6].

Certamente, o primeiro relacionamento do graduando intelectual não é com a leitura, como a grande maioria pensa (razão de terem em suas prateleiras seus primeiros ídolos); aquela que o qualificará segundo o que ele é, sem prejudicar suas necessidades, sua intelectualidade (isto é, inteligência–verdade) e seus deveres de homem, é a sua mulher (esposa), e depois seus iguais criados à imagem de Deus[7]. Foi mencionado relacionamento, contudo, preferiria dizer cooperação acerca dos iguais, pois se relacionar é apenas com a esposa, mas sabemos que com os iguais é o cooperar serventemente, dado que sem serventia não se pode agir intelectualmente, pois o intelectual cristão pertence sempre a outrem e sempre a seu tempo.

Ó, Senhor! Se soubéssemos unir-nos ou entreajudar-nos intelectualmente, ao invés de lermos tão superficialmente como ermitões acadêmicos ou desvalidos teologastros, quão ‘grande’ verdadeiramente seríamos!

Quer se trate de uma primeira formação, quer de uma cultura geral ou ainda que se esteja abordando uma nova disciplina, um problema até então deixado de lado, deve-se acreditar nos autores lidos e consultados para esse fim, seja ele qual for, muito mais do que criticá-los, e acompanhá-los em sua própria caminhada mais do que utilizá-los segundo os seus próprios interesses, que podem ser petulantes e miseráveis. Passar para a ação cedo demais, se precipitar, prejudica a aquisição dos tesouros da ciência; é sensato primeiramente submeter-se num primeiro momento àqueles que lhes servem porções da verdade, que lhes servem na ‘mesa do saber, o pão fragmentado’. “É preciso acreditar em seu mestre”, diz Santo Tomás de Aquino, retomando Aristóteles. Ele próprio acreditou e se saiu muitíssimo bem. Santo Tomás de Aquino é um exemplo de docilidade. “Assim como a arte de comandar só se aprende na obediência, também assim o domínio do pensamento só se obtém pela disciplina”, diz Sertillanges. Sabemos que ninguém é infalível, mas o aluno o é ainda bem menos que o mestre e, se ele recusar a submissão obediente no processo de aprendizagem, para cada vez que ele estiver com a razão, outras vinte verdades lhe escaparão, pois ele terá sido vítima das aparências da intelectualidade que ainda não se formou. Mas vale ressaltar um bom conselho, é de se esperar a sensatez elementar de escolher com extremo cuidado os mentores[8] em quem teremos de confiar no processo de aprendizado e formação. Aconselhamos um autor para as doutrinas superiores; não se pode trancar-se nelas; porém três ou quatro autores que se conhecerá a fundo para a cultura geral, mais três ou quatro para a especialidade e por volta da mesma quantidade para cada problema que se apresentar, é o que basta, treze ou catorze autores. Recorrer-se-á a outras fontes para ‘informar–se’, somente, não para ‘formar-se’, e a sua atitude espiritual não será mais a mesma certamente; não há corrida para se ler mais (pelo contrário, deve-se ler pouco), mas para se criar o caminho preferível para mais máximas e prolóquios de vida. Contudo, muito e pouco se opõem apenas se considerados num mesmo campo do saber; é fundamental muito naquilo que é essencial, pois a obra intelectual no geral é vastíssima e profundíssima; mas ler pouco e conscientemente, com relação ao dilúvio de escritos cuja mais ínfima das especialidades basta para abarrotar as bibliotecas e as almas, não se deve ler ‘muito’ para o abarrotamento da alma pela qual advém a faculdade de raciocinar e apreender, se deve ler ‘pouco’ requer penetração, continuidade e esforço metódico, no intuito duma plenitude que responda ao apelo do Espírito e aos recursos que lhe aprouve comunicar-nos. “A ‘paixão’ da leitura, da qual muitos se orgulham como de uma valiosa qualidade intelectual, é, na verdade, uma tara; ela não difere em nada das demais paixões que dominam a alma, entretêm nela a perturbação, nela lançam e entrecruzam correntes confusas e esgotam-lhe as forças”, diz Sertillanges. Portanto, deve-se ter cuidado quanto a leituras vagas e dos pequenos trabalhos desordenados, porque a vocação intelectual não se satisfaz desse modo. 

“Os atletas da inteligência, como os atletas do desporto, têm de prever privações, longos treinos e tenacidade (persistência) por vezes sobre–humana”, depreende Sertillanges.

Segundo, lê-se em vista de um dever.

As leituras que aproveitam as oportunidades exigem bom domínio mental. Aquele que lê com vistas a um trabalho está com o espírito dominado pelo que ele tenciona fazer, portanto, aqui, conceituo aquilo que podemos classificar como leituras tencionadas para o dever, para a tarefa; o intelectual não mergulha na correnteza, ele enche seu cantil nela; ele fica na margem, conserva sua liberdade de movimentos, reforça a cada empréstimo tomado a outros sua própria ideia em vez de afogá-la nas ideias alheias, e sai de sua leitura enriquecido, não despojado, o que ocorreria se a fascinação da leitura prejudicasse a determinação de fazê-la em razão de sua serventia; ele também não é inconsequente, é dominador, podemos dizer que no máximo antecipado ou prudente no campo das ideias; prende-se numa espécie de miradouro, concebe vislumbres e cria dali em diante suas ferramentas de trabalho; é um modo de leitura sóbrio, temperante, não inconstante, tampouco vacilante!

Deve-se ler sempre inteligentemente, não impetuosamente ou partidariamente. Uma leitura desordenada enfraquece a alma como um veneno debilita o corpo, em vez de nutri-la, tal leitura entreva a intelecção.

Terceiro, lê-se como treinamento para o trabalho e para o bem.

As leituras de formação ou destreza pedem empenho incomensurável, a escolha, além de nossas regras gerais, deve se basear na experiência específica de cada um. O que deu certo para você uma vez, provavelmente dará certo novamente, mas não deve ser uma regra; devido ao pragmatismo — sendo geralmente ideias que pregam que a validade de uma doutrina é determinada pelo seu bom êxito prático —, ter facetas muitas vezes do obscurantismo. Uma influência pode se desgastar com o passar do tempo, porém, de início, ela fica reforçada; o hábito a acentua. Nessas observações já se inclui um princípio, o qual é o da escolha. “Quanto discernimento”, dizia Nicole, “deve-se empregar no que serve de alimento a nosso espírito e que deve ser a semeadura de nossos pensamentos! Pois o que lemos hoje com indiferença despertará quando for a ocasião e nos fornecerá, até sem que percebamos, pensamentos que serão fonte de nossa salvação ou de nossa perdição. Deus desperta os bons pensamentos para nos salvar; Satanás desperta os maus pensamentos cujas sementes ele encontra em nós (mesmos)[9]. Logo, é preciso escolher, significando duas coisas: — “escolher os livros e escolher nos livros”.

Quanto a se escolher as obras (os livros), as compilações, seguem-se conselhos–guias: — não se confiar nas propagandas interesseiras, lucrativas, e endossar títulos provocantes. Ter conselheiros dedicados e conhecedores, é sempre o melhor caminho; saciar a sede unicamente nas fontes primárias e não ter relacionamentos senão com a elite dos pensadores, dos espíritos elevados; busque sempre a fina flor nos jardins do saber! No que se refere a ‘escolher nos livros’, esse é o dever seguinte a ‘escolher os livros’, lembrem-se dessa ordem: — “os […]” e “nos […]”. Onde nem tudo tem valor equivalente! Como escreveu Sertillanges: — “Nem por isso assumam a postura de juízes; sejam, antes, para com seu autor, um irmão, na verdade, um amigo, e um amigo inferior, já que, sob certos aspectos, pelo menos, o tomam por guia. O livro é um ancião; deve-se honrá-lo, dirigir-se a ele sem orgulho, escutá-lo sem prevenção, tolerar seus defeitos, procurar o grão na palha. Mas vocês, formandos da leitura e da intelecção, são homens livres; mantenham-se responsáveis: — resguardem-se o suficiente para preservar sua alma e, caso necessário, defendê-la”.

Quarto, lê-se por ser uma distração.

As leituras para distrair-se, para o prazer ou para oferecer alento diante do dissabor, dependem da liberdade. Nos momentos de depressão intelectual (ou espiritual) seus autores prediletos, suas páginas estimulantes, tê-los sempre à mão, sempre prontos para inocular-lhes uma nova vitalidade, é um método de grandiosíssimo valor e de inteligência ímpar. Existem pessoas a quem a peroração da “Oração Fúnebre ao Grande Condé” deu novo impulso por anos a fio, toda vez que sua inspiração esmorecia. A peroração (síntese) da “Oração” inclui em particular esta passagem: — “Venham e vejam o que nos resta de um nascimento tão augusto, de tanta grandeza, de tanta glória. Lance os olhos para todos os lados: — isso é tudo o que a magnificência e a piedade podem fazer para homenagear um herói: — títulos, inscrições, marcas vazias do que não é mais; figuras que parecem chorar em torno de um túmulo e imagens frágeis de uma dor que o tempo leva com tudo o mais; colunas que parecem querer levar ao céu o magnífico testemunho do nosso nada; e, finalmente, nada falta em todas essas honras, exceto aquele a quem elas são dadas. […] Aqui está o que nos levou nas chances; sob ele foram formados tantos capitães renomados que seus exemplos elevados às primeiras honras de guerra; sua sombra ainda poderia ter vencido batalhas; e agora em seu silêncio seu próprio nome nos anima”.

Outros, na parte espiritual, não resistem a tal e tal capítulo da “Imitação de Cristo”, como eu, que sempre vislumbro o sentido último das coisas celestiais, salutares, nas doces palavras do místico. “De que serve a sutil especulação sobre questões misteriosas e obscuras, de cuja ignorância não seremos julgados? Grande loucura é descurarmos as coisas úteis e necessárias, entregando-nos, com avidez, às curiosas e nocivas. ‘Temos olhos para não ver’ (cf. Salmos 113:13)”. Ou quando ensina sobre o que verdadeiramente importa para a vida, “Ó, Deus de verdade, fazei-me um convosco na eterna caridade! Enfastia-me, muita vez, ler e ouvir tantas coisas; pois, em vós, acho tudo quanto quero e desejo. Calem-se todos os doutores, emudeçam todas as criaturas em vossa presença; falai-me vós só”. Ou, ainda, quando conclui humildemente seu empenho com docilidade quelhe é própria, “Ah! Se se empregasse tanta diligência em extirpar vícios e implantar virtudes como em ventilar questões, não haveria tantos males e escândalos no povo, nem tanta relaxação nos claustros. Decerto, no dia do juízo, não se nos perguntará o que lemos, mas o que fizemos; nem quão bem temos falado, mas quão temos honestamente vivido. Dize-me: — Onde estão agora todos aqueles senhores e mestres que bem conheceste, quando viviam e floresciam nas escolas? Já outros possuem suas prebendas, e nem sei se porventura deles se lembram. Em vida pareciam valer alguma coisa, e hoje ninguém deles fala. Oh! Como passa depressa a glória do mundo! Oxalá a sua vida tenha correspondido à sua ciência; porque, destarte, terão lido e estudado com fruto. É verdadeiramente sábio aquele que faz a vontade de Deus e renuncia à própria vontade”.

Finalmente, diligencia e postula ao leitor, assim, como eu faço a você: — “Concedei-me, Senhor, que eu saiba o que devo saber, ame o que devo amar; fazei-me louvar o que mais vos agrada, estimar o que vós apreciais, desprezar o que a vossos olhos é abjeto. Não me deixeis julgar pelas aparências, nem criticar pelo que ouço de homens inexperientes, mas dai-me o discernimento certo das coisas visíveis e das espirituais, e sobretudo, o desejo de conhecer sempre vossa vontade (verdade)”.

Considerações finais.

Permitir-se obstinar em conceitos ínfimos ou amarrar-se por percepções e opiniões limitadas aceitando que o espírito se empedre em estruturas livrescas, criando em si o endurecimento do coração e o entorpecimento da mente, é uma marca indelével de inferioridade que contradiz claramente a vocação intelectual e a predisposição espiritual, isto é, a predileção para a verdade e inteligência.

Só se é realmente um leitor e intelectual se se pode dizer: — “Para mim, o viver é a verdade” (veja Filipenses 1:21). 

Apêndice — Dezesseis conselhos de Tomás de Aquino para adquirir o tesouro da ciência.

Como me perguntaste, João, caríssimo irmão em Cristo, como deves estudar para adquirir o tesouro da ciência, eis os conselhos que te dou a esse respeito[10].

1 – Escolhas entrar no mar pelos regatos (córregos), não diretamente, pois é pelo que é fácil que convém chegar ao mais difícil. Este é, portanto, o meu conselho, e uma instrução para ti.

2 – Quero que sejas lento para falar e lento para dirigir-te ao parlatório (conversa).

3 – Guarda a pureza de consciência.

4 – Nunca deixes de dedicar-te à oração.

5 – Frequenta com amor tua cela[11], se queres ser introduzido na adega de vinhos[12].

6 – Mostra-te amável com todos.

7 – Não te preocupes com as ações dos outros.

8 – Não sejas familiar demais com ninguém, pois o excesso de familiaridade engendra o desprezo e dá ocasião para afastar-se do estudo.

9 – Não te envolvas de maneira alguma com as palavras e ações dos leigos.

10 – Evita sobretudo os passeios inúteis.

11 – Não deixes de imitar a conduta dos santos e dos homens de bem.

12 – Não consideres de quem ouves as coisas, mas tudo o que se disser de bom, confia-o à tua memória.

13 – Tudo que leres e ouvires, põe em prática, para o compreenderes.

14 – Esclarece tuas dúvidas.

15 – Esforça-te para armazenar tudo que puderes na biblioteca do teu espírito, como quem enche um vaso.

16 – Não busques o que está acima de ti.

Se seguires este caminho, enquanto tiveres vida, produzirás e multiplicarás folhas e frutos úteis na vinha do Senhor dos Exércitos. Se praticares estes conselhos, poderás alcançar o que desejas. Adeus.

Paz e graça.

[1] Veja Marcos 10:8, 9 e Efésios 5:22 – 33.

[2] João Calvino, Comentário de Gênesis, p. 63 – 64.

[3] Lembrando que a palavra acatamento sugere aqui, “particularidade de quem contém brandura no modo de se perceber, necessitando da compreensão a partir do outro”.

[4] A. D. Sertillanges. A Vida Intelectual — seu espírito, suas condições, seus métodos, Capítulo III — A Organização Da Vida, É Realizações Editora, 2016, p. 60.

[5] Strong 5048 — kə–neḡ–dōw.

[6] João Calvino, Comentário de Gênesis, p. 66.

[7] Veja Gênesis 1:26 – 28.

[8] Pessoa que inspira, estimula, cria ou orienta (ideias, ações, projetos, realizações, etc.).

[9] Nicole, Essais de Morale Contenus en Divers Traités — Ensaios de Moral Constantes de Diversos Tratados, t. II. Paris, 1733, p. 244.

[10] A. D. Sertillanges. A Vida Intelectual — seu espírito, suas condições, seus métodos, Kírion, 2019, p. 217.

[11] Nos conventos, aposento de um religioso. Ou seja, quartinho, aposentos, alcova, esconderijo.

[12] O celeiro de vinhos (ou adega de vinhos) de que aqui se fala, alusivamente ao Cântico dos Cânticos e ao comentário de São Bernardo, é o abrigo secreto da verdade, cujo cheiro atrai de longe a Esposa, isto é, a alma ardente; é o refúgio da inspiração, o lar do entusiasmo, do gênio, da invenção, da busca calorosa, é o palco dos jogos do espírito e de sua sábia embriaguez. Para ingressar nessa morada, deve-se deixar de lado as banalidades, deve-se praticar o retiro, cuja cela monástica é o símbolo. “Nas celas, como ao longo dos grandes corredores”, escreve Paul Adam, “o silêncio assemelha-se a uma pessoa magnífica, trajada da brancura das paredes, a velar”. Que está ela a velar, senão a prece e o trabalho? Sejam, pois, lentos para falar e lentos para ir ao local onde se fala porque muitas palavras fazem o espírito esvair-se como água.

ADORAÇÃO EVANGÉLICA

UM PASTOR DEVERIA ENCORAJAR E FOMENTAR A FIM DE QUE CRISTÃOS AMBICIONEM O DINHEIRO?

A riqueza torna o homem insensato, pois quem quiser viver feliz deve viver segundo a fé e a razão, não segundo a riqueza, pois é-nos advertido demasiadamente que “[…] os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína” (1 Timóteo 6:9).

Todos os homens que fazem do cristianismo um comércio para servirem aos seus próprios interesses neste mundo se decepcionarão amargamente — “tentação, laço, concupiscências loucas e nocivas, perdição e ruína é o que esses homens irão receber por quererem ser ricos” — contudo, aqueles que consideram a fé como sua vocação, terão a promessa da vida presente e a recompensa da vindoura.

O que 1 Timóteo define como verdadeira felicidade são virtudes nutridas diariamente; a ordem é que persigamos, continuamente indo atrás da “justiça, da piedade, da fé, do amor, da paciência e da mansidão” (1 Timóteo 6:11). Aqueles que são piedosos serão certamente felizes neste mundo e no mundo porvir. Eles terão o suficiente se se contentarem neste mundo com a sua situação, seja lá ela qual for, de acordo com a sua capacidade. De fato, todas as pessoas verdadeiramente piedosas estão contentes! 

Vigor e intensidade são sugeridas na fuga das coisas que afastam da fé, como o dinheiro, pois é-nos dito: — “ó homem de Deus, foge destas coisas”, mesmo quando estivermos em meio aos maiores apertos da vida. 

Não poderemos estar mais empobrecidos do que quando viemos a este mundo, em que viemos nu — “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei” (Jó 1:21). Jó quer dizer que, o homem ainda que possuidor de muito dinheiro, terá apenas uma muda de roupa para envolver o seu corpo morto, um caixão (talvez, porque existem mortes que não há nem mesmo essa possibilidade), e uma sepultura, é tudo aquilo que o homem mais rico desse mundo é capaz de ter com toda a sua riqueza quando “nu voltar”. 

A natureza se contenta com pouco, por que o homem que recebeu a graça de Deus não deve se contentar com menos? As coisas necessárias da vida limitam os desejos dos cristãos, e deve ser assim. A que pecados os homens são levados por amor ao dinheiro! As pessoas podem ter dinheiro e não amá-lo, mas se o amarem, serão impulsionados a todos os males. Esse é o perigo! 

1 – Os que querem ser ricos caem:

[1] – “em tentação” — Ambos os sentidos podem ser aplicados simultaneamente. O sentido positivo de teste e o sentido negativo de tentação são funções do contexto (Mateus 6:13; 26:41; Lucas 8:13; 1 Coríntios 10:13; Gálatas 4:14).

[2] – “em laço” — Propriamente, armadilhas nas quais os pássaros são atraídos e capturados (Provérbios 6:5; 7:23; Salmos 91:3; 124:7); aqui, usado figurativamente, expressando a dramaticidade de uma armadilha moral que rouba alguém de suas liberdades espirituais – que o Senhor deseja dar (Lucas 21:34, 35; 1 Timóteo 3:7). Quer dizer, tudo o que traz perigo, perda e destruição, perigo esse mortal, perda repentina e destruição inesperada (Romanos 11:9; Salmos 68:23), porque sabemos que pássaros e animais são pegos sempre de surpresa (Lucas 21:35). São seduções ao pecado pelas quais o diabo mantém um preso (2 Timóteo 2:26; 1 Timóteo 3:7) e também são as fascinações e seduções do pecado (1 Timóteo 6:9; Provérbios 12:13; 29:6). Nos escritos gregos, por exemplo, o substantivo “παγίς” (pagis) que é usado aqui para “laço”, também significa as armadilhas do amor — que quase sempre envolve a atração e a excitação por riquezas (heranças) por meio de crimes hediondos (e/ou passionais); provocado sempre pela cólera, paixão desenfreada, que é diametralmente oposta a razão e a fé que “tendo [nós] já feito boa confissão [e] diante de muitas testemunhas” (1 Timóteo 6:12).

Não podemos olhar ao redor sem que observemos muitas provas deste fato, especialmente em uma época de prosperidade material, de grandes consumos desnecessários e de despesas supérfluas, de inversão de valores (imoralidades) e de profissão irreverente de fé, omissa e relaxada.

[3] – “e em muitas concupiscências loucas e nocivas” — Propriamente dito, é o mesmo que afirmar que leva homens a não pensar, ou melhor, a não raciocinar através de um assunto com a lógica apropriada que o assunto exige — são loucos em suas análises e prejudiciais em suas decisões (Lucas 12:20). O que descreve agir de um modo sem consciência, sem inteligência e sentido (completamente sem idéias)! Ser louco e nocivo é pensar de um modo simplesmente estúpido e imprudente (Lucas 24:25; Romanos 1:14; Gálatas 3:1, 3; Tito 3:3); é possuir uma sabedoria “[que] não vem dos céus, mas é terrena; não é celestial, mas demoníaca” (Tiago 3:15); é ser servo de um ídolo [Mamom] “que nada é no mundo” (1 Coríntios 8:4), e sabemos que “ninguém pode servir a dois senhores” (Mateus 6:24), cujos interesses e ordens são diretamente contrários um ao outro. Uma vez que, o amor colocado em um (no dinheiro) “é a raiz de toda a espécie de males, de desvio da fé e de muitas dores” (1 Timóteo 6:10). Contudo, o amor posto no outro (em Deus) é a fonte de vida “com abundância” (João 10:10), na qual há coisas acrescentadas a essa vida (Mateus 6:33), “há fartura de alegrias” (Salmos 16:11) e há amor eterno (Jeremias 31:3).

Por fim, é auscultar cuidadosamente a respeito da resposta implícita que as Escrituras emitem acerca do dinheiro: — “que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Marcos 8:36).

Aqui, o contraste está entre o “mundo” e a “alma”. Este princípio aplica-se a esfera física (terrena) como também a espiritual. Quer dizer, que valor há em obter-se tudo o que o mundo oferece se uma pessoa morre e não pode desfrutá-lo? Ou, qual a virtude de se amontoar um mundo de possessões terrenas durante alguns poucos anos, se isso significa perder a vida eterna que somente há em Deus na Pessoa de Cristo? “Pois a redenção da sua alma é caríssima” (Salmos 49:8) e nem todo dinheiro desse mundo não pode pagar! O dinheiro pode ser esse agente de perdição! Os que querem ser ricos, são semelhantes “a sepultura; a madre estéril; a terra que não se farta de água; e o fogo; nunca dizem: — Basta!” (Provérbios 30:16), de acordo com o seu contexto essa é a ênfase nociva.

Todos os tipos de iniquidades e vícios, de uma ou de outra forma, nascem do amor ao dinheiro ou do acúmulo do dinheiro, podendo esse acúmulo revelar onde estar o seu coração. “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Mateus 6:21).

Nos versículos 9 e 10 Paulo desenvolve a idéia da loucura de se concentrar na acumulação de riqueza como um fim em si mesmo. A tradução do estudioso William Hendriksen (op. cit.) parece a preferível: — “Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro”. Nessa cobiça – referindo-se ao dinheiro – alguns se desviaram da fé. Amor ao dinheiro é idolatria (Colossenses 3:5; Efésios 5:5; 1 João 2:15), como mencionado acima, e afasta da verdadeira esperança o cristão.

O bom combate cristão envolve o se apegar modelando-se à fé e a sua transmissão a outrem, não ao dinheiro ou à sua acumulação. No contexto de 1 Timóteo 6:9, o bom combate se relaciona intimamente com o “[se apegar] a boa milícia da fé, tomando posse da vida eterna” (1 Timóteo 6:12); mais uma vez, a ênfase é: — “não milite pelo dinheiro, porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé!”.

Consequentemente, aqueles que desejam “ser ricos” são submergidos “na perdição e ruína”, isto é, propriamente afirmar a decadência e a desmoralização com os seus resultados completos e devastadores. Contudo, não tem por implicação a extinção (aniquilação). Pelo contrário, enfatiza a consequente perda que vai à absoluta destruição. Ora essa, é ser completamente e finalmente cortado da relação com Deus em Cristo — é estar como dissociado e excluído do que poderia ou deveria ter sido (João 11:50; Atos 5:37; 1 Coríntios 10:9, 10), um filho adotivo salvo.

A sequência de declínio, exclusão e condenação, notamos claramente em Judas, quando ele diz: — “Ai deles! Pois seguiram o caminho de Caim [declínio], buscando o lucro, caíram no erro de Balaão [exclusão] e foram destruídos na rebelião de Corá [condenação]” (Judas 1:11).

Caim é o pecador arquetípico e o instrutor de outros no pecado; a tradição exegética judaica tornou Balaão proverbial por causa de sua avareza. Por isso, os falsos mestres com seu desejo de lucro são comparados a ele (Judas 1:11). De acordo com Números 31:16, Balaão também era culpado por levar outros a pecar, isto é, a serem avarentos e iníquos; Corá, juntamente com Datã e Abirão, liderou 250 homens na rebelião contra a autoridade de Moisés e de Arão (Números 16), representantes da palavra de Deus. A revolta de Corá e o castigo divino resultante, permitem uma comparação apropriada com o desprezo dos falsos mestres à autoridade das Escrituras Sagradas.

Neste fim, devo ressaltar que duas partes de declarações se seguem, e elas estão no versículo 18, é um claro indicativo de como usar a riqueza. 

“Que façam bem, enriqueçam em boas obras” são paralelos; “repartam de boa mente, e sejam comunicáveis” (isto é, generosos em dar e prontos a repartir – sendo liberais ou repartidores) também são paralelos.

Assim, encarando e usando a riqueza, a pessoa entesoura para si um bom fundamento e alcança a vida eterna, é isso que Jesus ensina acerca do “ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam” (Mateus 6:20). É caridade!

Conclusão.

Concluo afirmando, tendo as Escrituras Sagradas como fundamento, que nenhum pastor deveria fomentar que cristãos buscassem o dinheiro (a quererem ser ricos), como vimos aqui, isto é muitíssimo temerário e incauto! Antes, o pastor, deveria buscar fomentar nos cristãos que fossem satisfeitos na gloriosa Pessoa do Redentor e em sua gloriosa obra de redenção, glorificando-o por isso, e alegrando-se nEle para sempre.

Aqui tentei mostrar a loucura de se colocar as esperanças, a paz e os desejos neste mundo, que é temporário e caótico, tendo o dinheiro como sinédoque. É preciso se contentar com o alimento e abrigo que da parte de Deus recebemos.

“Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas. Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6:25, 31 – 33).

Amém!

Paz e graça.

ADORAÇÃO EVANGÉLICA

A BATALHA DO CRENTE CONTRA AS ARTIMANHAS DE SATANÁS

Calvino advertiu os crentes sobre as armadilhas de Satanás, dizendo: — “Tudo o que as Escrituras ensinam sobre os demônios têm o objetivo de nos levar a nos precaver contra seus estratagemas e maquinações e também a nos equipar com as armas que são fortes e suficientemente poderosas para derrotar esses inimigos poderosíssimos[2]. Os puritanos levavam esse conselho a sério. William Spurstowe (1605 – 1666) advertiu: — “Satanás está cheio de artifícios e procura encontrar maneiras de enganar, mediante as quais busca incansavelmente a destruição irremediável das almas dos homens[3]. Thomas Brooks (1608 – 1680) afirmou: — “Cristo, as Escrituras, vossos próprios corações e as artimanhas de Satanás são as quatro coisas mais importantes que devem ser estudadas e examinadas antes e acima de qualquer outra[4].

A batalha espiritual nos chama a sermos vigilantes porque o principal meio que Satanás tem para destruir as pessoas é o engano (Gênesis 3:1 – 5, 13; João 8:44; 2 Coríntios 11:3; 1 Timóteo 2:14; Apocalipse 12:9). Spurstowe escreveu: — “Devemos estar ainda mais vigilantes, pois temos de lidar com um tipo de serpente que consegue esconder seu veneno mortal debaixo de uma pele bela e lustrosa[5]. Spurstowe lembrou que Satanás também representa perigo para os eleitos: — “Se não para apagar a luz deles, pelo menos (Satanás tenta) ofuscar seu brilho; se não para causar um naufrágio, pelo menos provocar uma tempestade; se não para impedir o final feliz deles, pelo menos de atormentá-los em seu caminho[6].

Satanás prepara cuidadosamente suas tentações de acordo com as características de cada pessoa. William Jenkyn (1613 – 1685) afirmou: — “Ele tem uma maçã para Eva, uma uva para Noé, uma muda de roupa para Geazi e uma bolsa para Judas[7]. Spurstowe lembrou que “Satanás tenta um jovem com desejos sexuais, tenta um homem de meia idade com uma ambição de honra e grandeza e um idoso, com avareza e rabugice[8]. Gurnall afirmou que nenhuma atriz “possui tantos trajes para subir ao palco quanto as formas de tentação que o Diabo tem[9].

Spurstowe catalogou muitos estratagemas de Satanás. Seguem alguns daqueles estratagemas, bem como soluções oferecidas por Spurstowe e outros autores puritanos.

Estratagema 1.

Satanás leva os homens de pecados menores para maiores. Em geral as pessoas pensam nos pecados menores como algo nada mais sério do que um resfriado. Mas Spurstowe advertiu que “pequenos pecados são como a tinta de fundo que é pintada num poste ou coluna para prepará-lo para receber aquelas outras cores que serão pintadas por cima”. Pequenos pecados exaurem nosso temor de Deus e nosso ódio ao pecado. Levam-nos a pecados maiores à medida que tentamos encobrir nossas faltas[10].

Solução.

Spurstowe advertiu: — “Prestai atenção para que não deis lugar ao Diabo” (Efésios 4:27). Se você deixar a cabeça da serpente entrar em sua casa, logo o corpo inteiro dela virá atrás[11]. Se o Diabo faz pouco caso do pecado, olhe para o que cada pecado merece e veja-o como a coisa odiosa que Deus menospreza. Gurnall afirmou: — “Há uma fagulha do inferno em cada tentação[12]. Brooks escreveu: — “O menor dos pecados é contrário à Lei de Deus, à natureza de Deus, ao ser de Deus e à glória de Deus[13]. Também lembrou: — “Há mais mal no menor dos pecados do que na maior das aflições[14].

Estratagema 2.

 

O Diabo impele persistentemente os homens a um pecado específico. Coloca pensamentos maus dentro da mente (João 13:2). Influencia o entendimento com argumentos e promessas (1 Reis 22:21; Mateus 4:9). Com persistência insiste até que os homens sucumbam, como Dalila fez com Sansão (Juízes 16:16)[15]. Mas ele consegue insinuar tais idéias com tanta sutileza que elas parecem ser nossos próprios pensamentos. Pensando assim, Pedro agiu por seus próprios impulsos e se tornou emissário de Satanás a Cristo (Mateus 16:22, 23)[16].

Solução.

Rejeite as promessas do pecado. Brooks afirmou: — “Satanás promete o melhor, mas entrega o pior; promete honra e entrega desgraça; promete prazer e entrega dor; promete lucro e entrega prejuízo; promete vida e entrega a morte. Mas Deus paga conforme promete, pois todos os seus pagamentos são feitos em ouro puro[17].

Para aqueles que preferem a paz com o pecado à guerra contra o Diabo, Rutherford escreveu: — “A guerra contra o Diabo é melhor do que a paz com o Diabo […]. Quando o cachorro é mantido do lado de fora, ele uiva para voltar a entrar[18]. Spurstowe atestou: — “Precisamos de determinação, pois aquele que deseja ser cristão precisa contar com oposição; não devemos imaginar que consigamos sair do Egito sem o faraó nos perseguir[19]. Para aqueles já esgotados pelas tentações, Brooks afirmou: — “Lembrai-vos disto: — vossa vida é breve, vossos deveres são muitos, vosso auxílio é grande e vossa recompensa é certa. Portanto, não desanimeis, permanecei firmes e persisti fazendo o bem, e o céu os recompensará por tudo[20]. Para aqueles que estão perdendo a esperança devido à pressão de dúvidas demoníacas, os puritanos citavam com frequência Romanos 16:20: — “E o Deus de paz em breve esmagará Satanás debaixo dos vossos pés”. Permaneça firme e Satanás fugirá[21].

Estratagema 3.

Satanás faz uma retirada estratégica por determinado tempo para nos afastar de nossa posição de força e segurança (Josué 8:15). Ele permite que tenhamos uma vitória momentânea para que “o coração se encha de orgulho”. Ele nos embala em “um espírito de segurança” e “uma autoconfiança tola[22].

Solução.

Spurstowe afirmou que podemos vencer o Diabo por meio de “sobriedade e vigilância cristãs” (1 Pedro 5:8). Os cristãos neste mundo não devem viver como homens ricos na corte de um rei, mas como soldados no campo de batalha — “é uma guerra sem trégua[23].

Estratagema 4.

Satanás veste o mal com aparências falsas (Isaías 5:20). Ele tinge o pecado com cores de virtudes, de maneira que a avareza se torna frugalidade, e a indiferença adquire a aparência de moderação. Com desprezo, fala mal da bondade, tal qual um rosto amável que é visto num espelho quebrado[24]. Satanás faz um esforço especial para dar uma idéia equivocada de Deus. Charnock escreveu: — “Satanás pinta Deus com suas próprias cores, apresenta-o como alguém invejoso e maldoso como ele próprio[25]. Spurstowe advertiu que Satanás atrai os homens para o erro doutrinário por meio de falsos mestres (2 Tessalonicenses 2:1, 2; 2 Pedro 2:1). A falsa doutrina procede do Diabo (Gálatas 3:1; João 8:44)[26].

Solução.

Devemos amar a verdade da Bíblia. Segundo Spurstowe: — “A verdade é o alimento da alma[27]. Brooks afirmou: — “Um homem pode legitimamente vender sua casa, terras e jóias, mas a verdade é uma jóia que supera a tudo em valor e não deve ser vendida[28]. Spurstowe escreveu: — “Ao resistir às tentações, segui o modelo de Cristo […]. Observai a arma que Cristo escolheu para derrotá-lo e para resistir a todas as suas tentações. Com seu poder podia ter com facilidade repreendido e silenciado Satanás, assim como fez com o vento e as ondas, mas o fez pela Palavra[29]. Por isso, estude as Escrituras e obtenha “traquejo na Palavra”, a fim de aplicá-la bem[30]. Se os poderes de Satanás são tão impressionantes como as muralhas de Jericó, conscientize-se de que pregadores das Sagradas Escrituras são as trombetas de Deus para lançar por terra o reino do Diabo[31].

Estratagema 5.

Satanás seduz os homens com coisas legítimas. Com essa manobra, um ribeiro tranquilo levará mais barcos até a cachoeira do que corredeiras barulhentas. Spurstowe nomeou essas coisas legítimas como caçar, beber, treinar falcões, divertir-se, comer e até mesmo trabalhar arduamente. Essas coisas tornam-se pecaminosas “quando não têm limites e não estão de acordo com as normas e a permissão da Palavra[32]. Richard Gilpin (1625 – 1700) afirmou que os “prazeres do mundo” são “a grande máquina satânica” de tentação[33].

Solução.

Gilpin exortou os que possuem pouco a estarem satisfeitos com isso e não almejarem riquezas, pois, “ao contrário do que muitos sonham, o mundo não é uma coisa tão desejável”. Os que têm abundância também devem ter cuidado, “pois andam no meio de armadilhas[34]. Spurstowe urgiu (pediu) cautela no uso de coisas que podem se revelar tentações. Afirmou: — “Tende cuidado para não vos arriscardes com situações que deem ocasião ao pecado ou que vos levem à beira das tentações […]. Nossos corações são pólvora e, portanto, temos de ter cuidado com fagulhas[35].

Estratagema 6.

Os anjos caídos exaltam novas revelações e milagres ao mesmo tempo que rejeitam as Escrituras e os ministros comuns estabelecidos pela Igreja. Satanás pode aparecer como “anjo de luz” que afirma revelar novas verdades (2 Coríntios 11:14). Novas revelações apelam ao orgulho das pessoas, pois fazem com que pensem que estão mais próximas de Deus do que os demais[36].

Solução.

Edwards advertiu que nem todas as experiências procedem de Cristo, mesmo que não se possa explicá-las como meras influências humanas. Ele afirmou: — “Há outros espíritos que têm influência nas mentes dos homens além do Espírito Santo. Somos orientados a não crer em todos os espíritos, mas a testar os espíritos para saber se procedem de Deus (1 João 4:1). Há muitos espíritos falsos que estão extremamente ocupados com os homens e com frequência se transformam em anjos de luz, e, de muitas e impressionantes maneiras e com grande sutileza e poder, imitam as operações do Espírito de Deus[37]. Edwards incluiu nessa classe de experiências os falsos consolos e alegrias, pavores e êxtases[38]. Spurstowe afirmou que o Diabo emprega “sinais, maravilhas e milagres enganadores” para fortalecer seus servos no mundo (Mateus 24:24; Apocalipse 13:13)[39]. Outros puritanos advertiram que o Anticristo ou o “homem do pecado” virá “por meio da força de Satanás com todo o poder, sinais e falsos milagres” (2 Tessalonicenses 2:9). Thomas Manton (1620 – 1677) lembrou que a maioria daqueles acontecimentos são “meras fábulas, embustes infames e falsificações”. Disse que outros podem acontecer “por meio de ilusões diabólicas, podendo haver aparições, visões e assombrações, pois Satanás se manifestará para manter a credibilidade de seus ministros”. Mas a Bíblia diz que mesmo acontecimentos verdadeiramente sobrenaturais devem ser rejeitados, caso nos afastem do Deus verdadeiro[40].

Estratagema 7.

Os demônios surpreendem ou chocam as pessoas com tentações. Levam-nas a pensar que ninguém mais experimentou tais tentações antes delas. Ou nos atraem para pecados que jamais havíamos imaginado que nos fascinariam. Ou fomentam a vergonha para que não contemos a ninguém sobre nossas lutas[41].

Solução.

Spurstowe escreveu: — “Presumi que estais propensos a todo tipo de pecado; não confieis nada à vossa constituição ou temperamento”. Ele citou 1 Coríntios 10:13, que diz: — “Não veio sobre vós nenhuma tentação que não fosse humana”. Nenhum de nós está livre de tentações nem enfrenta tentações ímpares. Portanto, os crentes que são tentados a pecar são encorajados a conversar com cristãos sábios e experientes, “que vão orar por nós e não zombar de nós[42].

Estratagema 8.

O Diabo nos incentiva a enfrentá-lo com amuletos e objetos sagrados. Mas as Escrituras escritas em jóias ou roupas não são nada em comparação com as Escrituras escritas em nosso coração. Satanás não fica perturbado com água benta e palavras mágicas, embora às vezes lhes conceda um falso êxito a fim de estimular a superstição[43].

Solução.

Spurstowe escreveu: — “Não penseis que essas coisas assustarão o Diabo; em vez disso, erguei os olhos para Deus[44]. Ele instou: — “Sede abundantes na oração”; e citou Bernardo de Claraval, que afirmou: — “As tentações de Satanás são ofensivas a nós, mas nossas orações são mais ofensivas a ele[45].

Estratagema 9.

Satanás ataca a consciência e a segurança dos crentes com argumentos falsos. Ele pode usar um silogismo falso como: — “Este pecado não pode permanecer num verdadeiro filho de Deus. Mas permanece em ti. Portanto, não és um verdadeiro filho de Deus”. Ele insta os crentes a julgarem a si mesmos com base em padrões falsos[46].

Solução.

Spurstowe afirmou que a conversão verdadeira não é determinada pelo fato de ainda haver pecado em nós, mas se o pecado reina em nós. Ele atestou: — “Não devemos pôr o peso de nossa confiança em nossa própria justiça, como se ela pudesse suportar a severidade do julgamento divino”. Assim, nossa conversão não depende da perfeição de nosso trabalho, mas da sinceridade de nossos esforços por alcançar a perfeição[47]. Somente Cristo obedece com perfeição.

Estratagema 10.

O tentador seduz as pessoas com a promessa de que podem se arrepender facilmente depois de pecarem[48].

Solução.

Brooks escreveu: — “O arrependimento é uma obra poderosa, uma obra difícil, uma obra que está acima de nossa capacidade […]. O arrependimento é uma flor que não cresce no jardim da natureza[49]. O arrependimento é uma graça magnífica da parte de Deus. Devemos reconhecer seu grande valor e desenvolvê-lo, sem pensar nele como algo garantido.

Estratagema 11.

O Diabo procura fazer com que nosso chamado como cristãos entre em choque com nosso chamado a uma atividade profissional em particular. Ele nos insta a fazermos devocionais quando devíamos estar trabalhando e a trabalharmos quando devíamos estar adorando a Deus[50].

Solução.

Spurstowe convocou os crentes “à diligência e à dedicação em vosso chamado”, da mesma maneira como um pássaro está muito mais seguro contra um ataque quando está voando do que quando está sentado numa árvore[51]. Benjamin Wadsworth (1670 – 1737) afirmou: — “Se não estais fazendo alguma obra para Deus, se não estais bem empregado em alguma coisa boa, o Diabo estará pronto para vos empregar[52]. Os puritanos também recomendavam a guarda do dia do Senhor como equilíbrio entre trabalho e adoração.

O Catecismo Maior (pergunta 121) afirma que um dos motivos de o Decálogo dizer “Lembra-te do dia de sábado” é que “Satanás se esforça com seus instrumentos para apagar a glória e até mesmo a memória dele, a fim de introduzir toda irreligiosidade e impiedade”.

Estratagema 12.

Satanás leva os homens de um extremo ao outro. Ele empurra o pêndulo dos crentes do pecado da arrogância para o desespero com o pecado, da negligência com os deveres religiosos para “um rigor tão tirânico que faz muitos gemerem sob seu peso”. Ele leva os homens a reagirem contra uma heresia, mediante a aceitação do erro contrário[53]. O maligno agrava as feridas causadas pelo Espírito Santo. Ele apanha situações de convicção legítima de pecado e acrescenta-lhes “pavor e terror”, a fim de instigar os crentes a resistir ao remédio do Evangelho, em vez de receber o consolo correto[54].

Solução.

Spurstowe afirmou: — “A fé deixa de lado ambos os extremos e recebe a Deus de acordo com as normas da Palavra[55]. Brooks lembrou que devemos considerar solenemente “que Deus é tão justo quanto misericordioso”. Por isso, não devemos abusar de sua misericórdia, para não desencadear o seu juízo sobre nós[56]. Por outro lado, precisamos crer na sinceridade e fidelidade de Deus em suas promessas do Evangelho de misericórdia ao crente arrependido para não desonrarmos a bondade de Deus.

Charnock indagou: — “Qual é o motivo de não irmos até Ele quando nos chama, mas de imaginarmos secretamente que Ele tem uma atitude malévola, que não é sincero no que fala, mas quer zombar de nós, em vez de nos receber?[57].

Conclusão: — vitória garantida!

O mais importante é que, num mundo de anjos e demônios, os puritanos conduziam o crente para Cristo, que é o capitão vitorioso contra todas as forças do mal e o Senhor dos exércitos dos céus. John Downame (1652) escreveu: — “Se de fato considerássemos apenas a força de nossos inimigos e nossas próprias fraquezas, poderíamos muito bem ficar desanimados de encarar esse combate, mas, se erguermos os olhos para nosso grandioso capitão Cristo, cujo amor por nós não é menor do que seu poder — sendo infinitos tanto um quanto outro — não há motivo para duvidar […]. Ele já venceu nossos inimigos […]. Nosso Salvador despojou principados e poderios e os exibiu publicamente, triunfando sobre eles na cruz (Colossenses 2:15)[58].

Os puritanos afirmavam que Cristo era a semente (descendência) da mulher que “feriu” a cabeça de Satanás (Gênesis 3:15) com sua morte expiatória (Hebreus 2:14), sua ressurreição vitoriosa (Salmos 68:18) e seu juízo final (cf. Apocalipse 20 — 21). No dia do juízo, Satanás e sua semente (descendência) serão expulsos para sempre. Nunca mais Satanás perturbará a semente da mulher. O Vencedor, Cristo Jesus, apanhará a antiga serpente e a jogará no abismo. O esmagamento da cabeça de Satanás estará, então, completo. O acusador dos irmãos não mais acusará. A Igreja militante se tornará a Igreja triunfante. Todo o mal estará para sempre do lado de fora das muralhas dos céus, e todo o bem estará do lado de dentro. Soli Deo gloria!

Paz e graça.

[1] BEEKE, Joel R. e JONES, Mark. Título do original: A Puritan theology: doctrine for life, Título português: Teologia Puritana — Doutrina para a vida, Edições Vida Nova, São Paulo, Capítulo 12, p. 295 – 303.

[2] John Calvin, Institutes of the Christian Religion, edição de John T. McNeill, tradução para o inglês de Ford Lewis Battles, Philadelphia, Westminster Press, 1960, 1.14.13 — Edições em português: — João Calvino, As institutas, tradução de Waldyr Carvalho Luz, São Paulo, Cultura Cristã, 2006, 4 volumes, e A Instituição da Religião Cristã, tradução de Carlos Eduardo Oliveira; José Carlos Estêvão, São Paulo, Editora UNESP, 2008, 2 volumes.

[3] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 6.

[4] Brooks, Precious remedies, in: Works, 1:3.

[5] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 14.

[6] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 21.

[7] Citado em The golden treasury of Puritan quotations, compilação de I. D. E. Thomas, Chicago, Moody, 1975, p. 76.

[8] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 61.

[9] Gurnall, The Christian in complete armour, 1:382.

[10] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 36 – 42.

[11] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 92.

[12] Gurnall, The Christian in complete armour, 2:76.

[13] Brooks, Precious remedies, in: Works, 1:19.

[14] Brooks, Precious remedies, in: Works, 1:23. Acerca da idéia puritana sobre a maldade do pecado, veja o capítulo 13 deste livro e também William Bridge, The sinfulness of sin, in: The works of the Rev. William Bridge (1845; reimpr., Beaver Falls: Soli Deo Gloria, 1989), 5:3 – 20; Jeremiah Burroughs, The evil of evils (1654; reimpr., Morgan: Soli Deo Gloria, 1992); Edward Reynolds, The sinfulness of sin, in: The whole works of the right Rev. Edward Reynolds (1826; reimpr., Morgan: Soli Deo Gloria, 1996), 1:102 – 353; Ralph Venning, The sinfulness of sin (reimpr., Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1993).

[15] Spurstowe, The wiles of Satan, 42 – 43. Sobre as insinuações de Satanás no coração do crente, veja também Thomas Goodwin, A child of light walking in darkness, in: Thomas Smith, org., The works of Thomas Goodwin, 1861 – 1866; reimpr., Grand Rapids, Reformation Heritage Books, 2006, 3:256 – 287.

[16] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 62.

[17] Brooks, Heaven on earth, in: Alexander B. Grosart, org., The works of Thomas Brooks, 1861 – 1867; reimpr., Edinburgh, Banner of Truth Trust, 2001, 2:322.

[18] Rutherford, The trial and triumph of faith, p. 403.

[19] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 83.

[20] Brooks, Precious remedies, in: Works, 1:7.

[21] Edward K. Trefz, “Satan in Puritan preaching”, The Boston Public Library Quarterly 8, n. 3, 1956, p. 152.

[22] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 47 – 49.

[23] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 80 – 81.

[24] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 56 – 60.

[25] Charnock, The existence and attributes of God, in: Works, 2:365.

[26] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 63, 66.

[27] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 67.

[28] Brooks, Precious remedies, in: Works, 1:9.

[29] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 84.

[30] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 87.

[31] Christopher R. Reaske, “The Devil and Jonathan Edwards”, Journal of the History of Ideas 33, n. 1, 1972, p. 129.

[32] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 60 – 61.

[33] Gilpin, Satan’s temptations, p. 438.

[34] Gilpin, Satan’s temptations, p. 443-4.

[35] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 92 – 93.

[36] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 67 – 68.

[37] Jonathan Edwards, The works of Jonathan Edwards, vol. 2, John E. Smith, org., Religious Affections, New Haven,Yale University Press, 1959, p. 141.

[38] Edwards, Religious affections, in: Works, 2:142.

[39] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 68 – 69.

[40] Thomas Manton, Eighteen sermons on the second chapter of the Second Epistle to the Thessalonians, in: The works of Thomas Manton, reimpr., Vestavia Hills, Solid Ground Christian Books, 2009, 3:67.

[41] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 69 – 70, 75.

[42] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 70, 75.

[43] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 72.

[44] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 72.

[45] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 90 – 91. Sua citação de Bernardo ilustra o uso frequente que os puritanos fazem dos autores cristãos patrísticos e medievais.

[46] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 73.

[47] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 73.

[48] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 76.

[49] Brooks, Precious remedies, in: Works, 2:31.

[50] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 76 – 77.

[51] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 94.

[52] Citado em Trefz, “Satan in Puritan preaching”, p. 153.

[53] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 78 – 79.

[54] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 76.

[55] Spurstowe, The wiles of Satan, p. 79.

[56] Brooks, Precious remedies, in: Works, 1:28.

[57] Charnock, The existence and attributes of God, in: Works, 2:369.

[58] Downame, The Christian warfare, p. 14.

[59] Pr. Dr. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.