por Brian M. Schwertley | 26 maio 2025 | TEOLOGIA
1 – Introdução.
Nos dias atuais, quando cristãos professos consideram inovações, acomodações culturais e a modernização do culto público a Deus como boas e necessárias para fins de entretenimento, relevância e crescimento da Igreja, um trecho das Escrituras que precisa ser considerado é Levítico 10:1 – 6 (ACF): — “E os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o Senhor, o que não lhes ordenara. Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor. E disse Moisés a Arão: — Isto é o que o Senhor falou, dizendo: — ‘Serei santificado naqueles que se chegarem a mim, e serei glorificado diante de todo o povo’. Porém Arão calou-se. E Moisés chamou a Misael e a Elzafã, filhos de Uziel, tio de Arão, e disse-lhes: — ‘Chegai, levai a vossos irmãos de diante do santuário, para fora do arraial’. Então chegaram, e os levaram nas suas túnicas para fora do arraial, como Moisés lhes dissera. E Moisés disse a Arão, e a seus filhos Eleazar e Itamar: — ‘Não descobrireis as vossas cabeças, nem rasgareis vossas vestes, para que não morrais, nem venha grande indignação sobre toda a congregação; mas vossos irmãos, toda a casa de Israel, lamentem este incêndio que o Senhor acendeu’”.
Este trecho é fundamental, pois nos orienta sobre como devemos nos aproximar do único Deus verdadeiro, infinitamente justo e santo, de forma geral, e nos ensina, de maneira particular, como adorar a Yahweh no culto. Antes de discutirmos os detalhes específicos desta seção das Escrituras, é necessário considerar algumas questões introdutórias.
2 – Ocasião e contexto.
Primeiro, a ocasião e o contexto deste incidente são significativos. Em Levítico 8, Arão e seus filhos foram separados e ordenados para seu ofício sacerdotal especial. Isso foi um evento público, realizado em estrita conformidade com o mandamento de Deus em Êxodo 29. Toda a congregação se reuniu diante do recinto da tenda da congregação, onde estava o grande altar de bronze, para assistir ao serviço de ordenação e à consagração do tabernáculo. Arão e seus filhos foram lavados com água, vestidos com suas vestes sacerdotais especiais e ungidos com óleo. Tudo isso foi seguido por uma oferta de santificação–purificação. Wenham explica: — “Se Deus estivesse presente nos sacrifícios oferecidos pelo sacerdote, seu santuário precisava ser purificado da poluição do pecado, especificamente das poluições introduzidas pelos próprios sacerdotes. Para esse fim, o primeiro sacrifício foi uma oferta de purificação em nome de Arão e seus filhos: — eles impuseram as mãos sobre o novilho (Levítico 8:14). O sacrifício segue exatamente as instruções em Êxodo 29:10 – 14, e é muito semelhante ao ritual estabelecido para a oferta de purificação de um sacerdote em Levítico 4. Aqui, no entanto, Moisés oficia no lugar dos sacerdotes, que ainda não foram ordenados, e o sangue é aplicado ao altar de holocaustos, em vez de no véu e no altar de incenso (Levítico 4:6, 7)[2]”.
A oferta pelo pecado, na qual Arão e seus filhos impuseram as mãos sobre um novilho, simbolizava a imputação de seu pecado e culpa a Cristo, a verdadeira e perfeita oferta pelo pecado. Isso foi seguido por um holocausto que simbolizava o holocausto que Jesus suportou como resgate pelo pecado. Identificando-se com o animal limpo, abatido e consumido, eles estavam dedicando-se publicamente ao serviço de Deus por meio do sacrifício perfeito que viria. Tudo isso foi seguido por uma oferta pacífica, com parte do sangue da vítima sacrificial aplicado na orelha direita, no polegar direito e no dedo grande do pé direito, bem como nas vestes de Arão e seus filhos (Levítico 8:23, 24, 30). “O sangue indica (Êxodo 24) que, no Pacto, Israel se tornou o povo de Deus. Assim, aqui o sangue liga Deus e Arão, mostrando de maneira visível que ele é agora o homem de Deus, seu representante especial entre Israel[3]”.
R.K. Harrison explica a importância desta cerimônia: — “A aplicação do sangue em partes específicas dos corpos de Arão e seus filhos foi um gesto altamente simbólico, relacionado diretamente ao sacerdote e seu trabalho. De maneira simbólica, todo o corpo foi consagrado ao serviço do Senhor, e, ao aceitar a aplicação, o sacerdote reconhecia as obrigações inerentes ao simbolismo. Doravante, ele deveria ouvir cuidadosamente os pronunciamentos de Deus para proclamá-los corretamente. Suas mãos deveriam ser dedicadas inteiramente às coisas relacionadas ao trabalho do Senhor, para não ser tentado a realizar atos malignos. Seus pés deveriam ser sempre direcionados de tal maneira que estivessem continuamente andando nos caminhos do Senhor. O uso do sangue neste ritual separava o sacerdote das preocupações mundanas e o dedicava completamente ao serviço de Deus[4]”.
Há uma ênfase aqui no fato de que o papel do sacerdote é puramente ministerial. Os ouvidos devem ouvir o que Deus autorizou ou ordenou. As mãos devem realizar obedientemente tudo o que Deus requer. Os pés devem andar em todos os mandamentos de Deus. O papel do sacerdote e, por implicação, de todos os ministros e presbíteros, não é de criatividade ou inovação, mas de total submissão. Deus é tão santo e perfeito em todos os seus atributos que só pode ser servido e adorado conforme Ele requer em sua revelação especial — a palavra de Deus.
Não devemos nos aproximar de Deus, seja na salvação, no culto ou na ética, de forma autônoma, como criadores independentes do que pensamos que Deus gosta ou considera aceitável. Devemos ouvir exatamente o que Ele diz e obedecer. Não devemos acrescentar nem subtrair coisa alguma do que Ele ordenou (cf. Êxodo 20:4, 5; Deuteronômio 4:2; 12:32; 1 Crônicas 15:15; 2 Crônicas 29:25; Jeremias 7:31; 19:5; Mateus 15:1 – 3, 8, 9; Colossenses 2:8, 20 – 23). Como oficiais ordenados que estavam entre o povo e Deus no culto cerimonial do Antigo Pacto, os sacerdotes tinham uma responsabilidade especial de ensinar ao povo completa obediência e submissão. Qualquer criatividade pessoal, autonomia ou invenção humana nas esferas de salvação, culto ou ética é uma traição ao ofício sacerdotal e ao propósito principal de seu ministério.
3 – Continuação do contexto.
Em Levítico 8:36, lemos que “Arão e seus filhos fizeram todas as coisas que o Senhor havia ordenado pela mão de Moisés”. Até então, tudo bem. Eles se submeteram a tudo o que Deus lhes ordenou para a consagração. Ficaram no tabernáculo por sete dias e fizeram exatamente o que Deus lhes exigiu. Ao fim dos sete dias de ordenação, estando agora Arão e seus filhos plenamente consagrados ao seu ofício especial, foi convocado um serviço especial no oitavo dia (o primeiro dia de uma nova semana), para que dessem início ao exercício de sua obra mediadora. Este serviço é descrito em Levítico 9. Arão e seus filhos obedeceram fielmente a Deus e realizaram suas tarefas sacerdotais como ordenado. Nadabe e Abiú auxiliaram seu pai em algumas das tarefas sacrificiais (Levítico 8:9, 13, 18), exceto em certas coisas reservadas exclusivamente ao sumo sacerdote. O procedimento culminou em Levítico 9:22 – 24 (ACF): — “Depois Arão levantou as suas mãos ao povo e o abençoou; e desceu, havendo feito a expiação do pecado, e o holocausto, e a oferta pacífica. Então entraram Moisés e Arão na tenda da congregação; depois saíram, e abençoaram ao povo; e a glória do Senhor apareceu a todo o povo. Porque o fogo saiu de diante do Senhor, e consumiu o holocausto e a gordura, sobre o altar; o que vendo todo o povo, jubilaram e caíram sobre as suas faces”.
O fogo que saiu do Senhor e consumiu o sacrifício nos lembra do fogo que caiu do céu para consumir o sacrifício de Gideão (Juízes 6:20, 21), Elias (1 Reis 18:38) e Salomão na dedicação do templo (2 Crônicas 7:1, 2). Deus estava mostrando ao povo que o pecado e a culpa foram removidos, o sacrifício foi aceito e, assim, a ira de Deus foi removida. Deus estava reconciliado com o povo por meio do Cordeiro que viria, e assim o Senhor pôde aparecer como um amigo e pai amoroso para o povo. Isso é demonstrado pela teofania e pela bênção falada de Arão ao povo (por exemplo, Números 6:22 – 26). O povo respondeu com um grito de alegria e reverência. Além disso, caíram sobre seus rostos (Levítico 9:24), um ato de grande humildade e homenagem.
A importância do fogo que sai de Deus no caso de julgamento é encontrada em Deuteronômio 4:24, que será citado em Hebreus 12:29. No contexto, lemos: — “Guardai-vos e não vos esqueçais da Aliança do Senhor vosso Deus, que tem feito convosco, e não façais para vós escultura alguma, imagem de alguma coisa que o Senhor vosso Deus vos proibiu. Porque o Senhor teu Deus é um fogo que consome, um Deus zeloso” (ACF). Hebreus fala de servir a Deus com reverência e temor porque “nosso Deus é um fogo consumidor” (v. 29).
Há duas lições a aprender com tais passagens:
[1] – O fogo é usado para simbolizar a presença de Deus, talvez com ênfase na santidade, pureza e aversão de Deus ao pecado. Quando Deus fez ou estabeleceu o Pacto com Abraão, e o patriarca cortou os pedaços e os arrumou, “eis que um forno de fumaça e uma tocha de fogo passaram por aquelas metades” (Gênesis 15:17). Yahweh apareceu a Moisés na sarça ardente (Êxodo 3:2) e a Israel na coluna de fogo e fumaça (Êxodo 13:21; 14:24). Quando o Pacto foi feito com Israel no Monte Sinai, “o Senhor descera sobre ele em fogo” (Êxodo 19:18). O fato de que um fogo deveria ser mantido aceso no altar e não podia apagar simbolizava Deus como um fogo consumidor (Levítico 6:12, 13). Em Isaías 6:3, 4, após os serafins exclamarem uns aos outros no templo celestial, “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória […] a casa se encheu de fumaça”. Após Manoá (o pai de Sansão) oferecer um cabrito ao Senhor, quando a chama subiu do altar para o céu, “o anjo do Senhor subiu na chama do altar; o que vendo Manoá e sua mulher, caíram em terra sobre seus rostos” (Juízes 13:20). O fogo de julgamento contra o pecado é direcionado à vítima inocente. Portanto, a ira ou furor de Deus contra aquele que faz a oferta com fé é propiciado ou apaziguado. Podemos nos aproximar do Deus verdadeiro e vivo somente por meio de Cristo, tanto para estabelecer uma relação pactual amigável quanto para oferecer um culto aceitável. O fogo do juízo e a maldição da Lei de Deus, que trazem o holocausto, são lançados sobre Jesus no lugar daqueles que nEle creem e confiam em sua perfeita redenção (expiação vicária).
[2] – O fogo é o símbolo supremo do castigo de Deus contra o pecado. Deus fez chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra (Gênesis 19:24 – 28). Somos informados que esse fogo veio “do Senhor desde os céus” (v. 24). Quando Deus julgou o Egito, enviou fogo à terra (relâmpagos): — “[…] havia saraiva, e fogo misturado entre a saraiva” (Êxodo 9:24). Quando o povo no deserto carecia de fé e reclamava contra Yahweh, a “ira de Deus se acendeu”. “E aconteceu que, queixou-se o povo falando o que era mal aos ouvidos do Senhor; e ouvindo o Senhor a sua ira se acendeu; e o fogo do Senhor ardeu entre eles e consumiu os que estavam na última parte do arraial” (Números 11:1). Quando Corá e duzentos e cinquenta líderes da congregação se revoltaram contra Moisés e Arão (bem como contra o sistema civil e religioso de governo que Deus havia instituído) e reclamaram da liderança de Moisés e de sua situação no deserto (Números 16:1 – 14), Corá, Datã e Abirão foram engolidos pela terra: — “Então saiu fogo do Senhor, e consumiu os duzentos e cinquenta homens que ofereciam o incenso” (Números 16:35). Nadabe e Abiú foram consumidos por fogo por usarem fogo não autorizado ou não ordenado. Os duzentos e cinquenta rebeldes foram consumidos por fogo por usurparem o ofício sacerdotal, como se o homem pecador tivesse autoridade para instituir seus próprios ofícios ou formas de governo eclesiástico.
Em Deuteronômio 32:22, na Canção de Moisés, o grande líder e profeta nos diz o que acontecerá quando Israel provocar a ira de Deus por sua idolatria flagrante: — “Porque um fogo se acendeu na minha ira, e arderá até ao mais profundo do inferno, e consumirá a terra com a sua colheita, e abrasará os fundamentos dos montes”. O fogo divino da ira de Deus, acendido por pecados habituais e desafiadores, não conhece limites em sua força destrutiva. Alcança os frutos da terra, as profundezas dos montes e até mesmo os domínios sombrios dos mortos incrédulos. A ira de Deus contra o pecado e a rebelião é algo terrível e impressionante. Só podemos entendê-la se meditarmos na santidade e justiça infinitas de Deus. A ira e o julgamento de Deus são necessários devido à santidade e pureza de sua natureza.
Por meio de Jeremias, Deus advertiu os judeus a se arrependerem: — “[…] para que o meu furor não venha a sair como fogo, e arda de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras” (Jeremias 4:4). Em Jeremias 15:14, Deus acrescenta: — “E te farei passar aos teus inimigos numa terra que não conheces; porque o fogo se acendeu em minha ira, e sobre vós arderá”. Em Ezequiel, lemos sobre “o fogo do meu furor” (Ezequiel 22:21). Em Sofonias 1:18, o profeta advertiu o povo, dizendo: — “pelo fogo do seu zelo toda esta terra será consumida”. Naum falou, dizendo: — “A sua cólera se derramou como um fogo” (Naum 1:6). O inferno é comparado a Tofete (Jeremias 7:31 – 33) ou Geena, onde o verme não morre, e o fogo não se apaga (Isaías 66:24; cf. Ezequiel 20:47; Marcos 9:43 – 49), o lugar onde os pecadores impenitentes são lançados em uma fornalha de fogo (Mateus 13:40, 41). Haverá choro e ranger de dentes (Mateus 13:42). A punição final é ser lançado, corpo e alma, no lago de fogo (Apocalipse 20:15), pois a fumaça de seu tormento sobe para sempre (Apocalipse 14:11; 19:3). Jesus disse: — “Toda árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo” (Mateus 7:19).
Tudo isso nos dá um pano de fundo para o julgamento de Nadabe e Abiú por fogo da presença de Deus. Em Levítico 8, eles foram consagrados para fazer exatamente como o Senhor lhes ordenou. Em Levítico 9, sua ordenação é celebrada quando o sacrifício, que representa a morte expiatória de Jesus Cristo, é realizado pelo sacerdote e aceito por Deus. O Senhor, por meio do fogo, consumiu o holocausto e a gordura no altar (Levítico 9:24). Se confiamos em Cristo e em sua obra de redenção, o abate, o julgamento e o fogo da ira que merecemos são colocados sobre o Salvador. Os que não creem estão desprovidos de qualquer refúgio contra a santa e justa ira de Deus que se acende contra o pecado. Eles devem esperar apenas “uma certa expectação horrível de juízo, e ardor de fogo, que há de devorar os adversários” (Hebreus 10:27). Tudo isso flui da santidade e justiça de Deus.
4 – Posição e reputação.
A posição ou reputação anterior de Nadabe e Abiú são notáveis. Esses homens eram líderes religiosos altamente privilegiados devido à sua posição como primeiro e segundo filhos de Arão, o sumo sacerdote (Êxodo 6:23). Nadabe era a próxima pessoa na linha para se tornar o sumo sacerdote após a morte de seu pai. Sua posição eminente pode ser vista em Êxodo 24 durante a confirmação do Pacto. Deus disse a Moisés: — “Depois disse a Moisés: — Sobe ao Senhor, tu e Arão, Nadabe e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel; e adorai de longe” (Êxodo 24:1). Então, em Êxodo 24:9, 10, lemos: — “E subiram Moisés e Arão, Nadabe e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel. E viram o Deus de Israel, e debaixo de seus pés havia como que uma pavimentação de pedra de safira, que se parecia com o céu na sua claridade”. Arão e seus dois filhos mais velhos foram chamados a subir a montanha por causa de seu futuro chamado como sacerdotes. Havia três níveis distintos de aproximação: — [1] – Moisés; [2] – Arão, Nadabe e Abiú, bem como os setenta anciãos; [3] – bem abaixo, onde o povo foi mantido atrás de limites estabelecidos para sua própria segurança (Êxodo 19:12, 21). Aqui, Deus convoca Moisés e os líderes — tanto religiosos quanto civis — a subirem ao monte para adorá-lo e contemplar a sua glória. Nadabe e Abiú receberam o privilégio sublime de presenciar a presença especial de Deus, fazendo-o na qualidade de representantes entre Deus e o povo. A impressionante santidade do Senhor não anula seu propósito de estabelecer intimidade e proximidade com seu povo pactual. Essa comunhão, porém, foi firmada com base na expiação pelo sangue — ou seja, na mediação do Messias que haveria de vir (cf. Êxodo 24:4 – 6, 8). As estipulações deste Pacto — compreendendo os deveres éticos, cerimoniais, governamentais e cultuais — fluem da relação sacrificial estabelecida por meio da oferta vicária e sangrenta. Nadabe e Abiú deveriam estar plenamente conscientes de que os termos do Pacto, sobretudo aqueles relativos à salvação e ao culto, não eram deixados à imaginação humana, mas prescritos. Moisés escreve as palavras da Aliança e, mais uma vez, as lê em voz alta ao povo. Nadabe, Abiú, os anciãos e toda a congregação sabiam com clareza o conteúdo daquilo a que se obrigavam mediante juramento solene.
O Pacto é uma relação de amor e compromisso, um tratado entre Deus e Israel. É estabelecido com base no sangue de animais limpos derramado em sacrifício vicário, que simboliza a morte sacrificial de Cristo. As leis de Deus reveladas a Moisés são as instruções deste Pacto. O Pacto é de graça, pois somente Cristo pode remover o pecado, a culpa e a inimizade entre Deus e o homem pecador. A Lei do Pacto é para a santificação do homem e a manutenção deste Pacto. Quando não há fé, o povo corre para ídolos e quebra a Lei do Pacto.
A posição de Nadabe e Abiú agrava grandemente seu pecado ao oferecer fogo estranho, pois, como líderes religiosos de alto nível, tinham a responsabilidade de conhecer a verdade e ensiná-la e obedecê-la fielmente como exemplos e mediadores para o povo. Se os homens da Igreja têm a capacidade de decretar ritos e cerimônias na Igreja, como os artigos anglicanos ensinam e os evangélicos assumem, então certamente Nadabe e Abiú, com sua grande posição de autoridade na Igreja, teriam o direito de usar fogo e oferecer incenso da maneira que escolhessem. Mas eles não tinham. Eles tinham o dever de ensinar Israel no caminho da santidade, obedecendo às instruções de Deus e não adicionando ou subtraindo da Lei do Pacto de Deus.
5 – Identificação e natureza do pecado.
O pecado de Nadabe e Abiú é descrito em Levítico 10:1: — “E os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o Senhor, o que não lhes ordenara”. O pecado é especificamente identificado como fogo estranho. A palavra “estrangeiro” (זוּר–zûr) refere-se a algo que é estranho, profano ou não autorizado. É usada para descrever a mulher adúltera (ou seja, a mulher não legalmente autorizada a ter relações com o marido de outra mulher; Provérbios 2:16; 5:3, 20; 6:24; 7:5). Também é usada para descrever homens que não são sacerdotes legais e autorizados (Êxodo 30:33; Levítico 22:12; Números 16:40). O que o tornava estranho, profano ou não autorizado é declarado claramente no final do versículo: — “o que Ele (Yahweh) não lhes ordenara”. Em outras seções das Escrituras, aprendemos que o incenso prescrito só deveria ser queimado usando fogo ou brasas retiradas do altar. Em Levítico 6:13, aprendemos que os sacerdotes deveriam manter o fogo no altar queimando perpetuamente: — “O fogo arderá continuamente sobre o altar; não se apagará”. Em Levítico 16:12, 13, lemos qual fogo deveria ser usado para queimar o incenso santo no Dia da Expiação: — “Tomará também o incensário cheio de brasas de fogo do altar, de diante do Senhor, e os seus punhos cheios de incenso aromático moído, e o levará para dentro do véu. E porá o incenso sobre o fogo perante o Senhor, e a nuvem do incenso cobrirá o propiciatório, que está sobre o testemunho, para que não morra”. Além disso, quando Moisés ordenou a Arão que queimasse incenso e fizesse expiação para deter a praga do julgamento de Deus, ele disse em Números 16:46: — “Toma o teu incensário, e põe nele fogo do altar, e deita incenso sobre ele, e vai depressa à congregação, e faze expiação por eles; porque grande indignação saiu de diante do Senhor; já começou a praga”. As brasas no altar eram brasas santas especiais, pois o fogo havia se originado diretamente de Deus (sinal visível de sua aprovação e presença gloriosa). O fogo havia descido originalmente do céu sobre o altar. Sabemos que o incenso está associado à oração nas Escrituras. O porquê das brasas ter que vir do altar nunca é especificado. Provavelmente tem a ver com o fato de que nossas orações não podem ser reconhecidas e aceitas sem a obra redentora de Cristo. Quando a praga foi detida em Números 16, a expiação teve que ser feita, e então o incenso foi lançado sobre as brasas santas, formando uma nuvem densa. Arão, como um tipo de Cristo, fica entre os vivos e os mortos e coloca uma cobertura (kipper) sobre o povo para protegê-lo da ira de Deus. Jesus expia nossos pecados por sua morte sacrificial, intercede à destra de Deus por nós, e nossas orações são recebidas em nome de Cristo.
Este incidente gerou muita especulação devido à severidade de sua punição. Alguns argumentam que esses homens estavam bêbados, com base em Levítico 10:9, 10: — “Não bebereis vinho nem bebida forte, nem tu nem teus filhos contigo, quando entrardes na tenda da congregação, para que não morrais; estatuto perpétuo será isso entre as vossas gerações; e para fazer diferença entre o santo e o profano e entre o imundo e o limpo”. Segundo a tradição rabínica antiga, Nadabe e Abiú cometeram um sacrilégio ao oficiarem no tabernáculo enquanto estavam intoxicados. Há dois problemas sérios com essa interpretação. [1] – Quando o Espírito Santo especificou a natureza de seu pecado, nada é dito sobre embriaguez ou insinceridade. Eles foram julgados por Deus por inventarem ou criarem uma prática relacionada ao culto a Deus. Fizeram algo não autorizado ou ordenado por Deus. A ideia de que estavam bêbados é pura especulação. Se estivessem bêbados, isso teria sido observável e registrado por Moisés. O julgamento sobre eles foi severo, indicando que Deus realmente queria que Israel (e nós) aprendesse uma lição crucial sobre como se aproximar de Yahweh no culto. Se a lição específica aqui fosse não beber ou ficar bêbado antes de assistir, ou conduzir o culto, então Deus não nos diria isso claramente neste trecho para que todos pudéssemos entendê-lo imediatamente? O ponto ou lição óbvia que ele nos diz explicitamente é: — Eles fizeram algo “que Ele não havia ordenado” (Levítico 10:1). A razão pela qual os homens da Igreja frequentemente especulam sobre embriaguez é o simples fato de que rejeitam a razão clara (inequívoca) dada pelo próprio Yahweh: — Não foi ordenado, autorizado ou prescrito. Eles entendem que, se aceitarem a razão dada pelo texto, devem abandonar todas as suas invenções, inovações e tradições humanas no culto. Tal arrependimento radical e obediência estrita e fiel eles não estão dispostos a fazer. [2] – Uma das razões pelas quais os sacerdotes não deveriam beber bebidas alcoólicas, para serem sóbrios e atentos, está relacionada ao seu ministério de ensino. Não há indicação de que Nadabe e Abiú estavam ensinando durante as festividades. O desenvolvimento de um caráter bíblico disciplinado para conduzir o culto e o ensino é necessário, independentemente de suas ações presunçosas, antibíblicas e descuidadas naquele dia. Embora beber bebidas alcoólicas seja explicitamente proibido ao conduzir seu ministério no tabernáculo, não ignoremos o ensino claro de nosso texto: — Eles fizeram algo na esfera do culto que não foi ordenado por Deus.
Outro argumento é que Nadabe e Abiú ofereceram incenso estranho ou não autorizado, pois a Bíblia ordena uma receita específica para o incenso santo usado no templo e proíbe explicitamente o uso de qualquer outro tipo de incenso (Êxodo 30:34 – 38). Esse argumento é facilmente refutado se considerarmos as seguintes observações. [1] – A queima de incenso nas Escrituras nunca é chamada de oferta de fogo. O propósito do incenso é produzir fumaça, as brasas apenas permitem que o incenso queime. Se o problema fosse incenso estranho, então Moisés teria dito incenso estranho, não fogo estranho. [2] – Que o fogo não autorizado era o problema é indicado pelo julgamento deles: — Eles “ofereceram fogo estranho (ou não autorizado) perante o Senhor, o que não lhes ordenara. Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor” (Levítico 10:1, 2). Mesmo uma criança lendo este trecho concluiria que o julgamento correspondeu ao pecado. A maneira pela qual Deus os julgou (por fogo) indica a justa desaprovação de Deus ao uso de fogo não autorizado e não ordenado no culto sagrado.
Há uma lição aqui que é inconfundível se alguém tem ouvidos para ouvir. Enquanto em Levítico 9 contemplamos as grandes bênçãos e benefícios associados a se aproximar de Deus no culto exatamente como Ele ordenou, Levítico 10 nos ensina, solenemente, que Deus não aceita culto inventado, criado, concebido ou inovado pela mente do homem. De fato, é cristalino a partir desta seção das Escrituras que Deus não apenas se recusa a aceitar culto inventado ou inovado, bem como todas as tradições humanas no culto, mas odeia tal culto com um santo ódio. Yahweh, o Deus verdadeiro e vivo a quem servimos por meio de Cristo, não aceita culto voluntário ou culto criado pela mente de homens finitos e pecadores. Deus é tão santo quesó aceita culto que se origina por seu Espírito Santo.
Este ensino é tido como radical em nossos dias, e a imensa maioria dos homens da Igreja — e mesmo muitos cristãos — não está disposta a aceitá-lo; contudo, não há em nosso texto qualquer traço de ambiguidade, obscuridade ou dificuldade. Todo culto que vem da mente do homem é rejeitado, pecaminoso e odiado por Deus. Por que algo tão claro e óbvio é rejeitado por tantas Igrejas e cristãos professos? A resposta está em uma maneira de pensar baseada no humanismo e pragmatismo. A visão comum hoje é que, se um crente é sincero no que ele concebe, e a prática não é explicitamente condenada na Bíblia, então Deus aceitará essa prática e colocará sua aprovação e bênção sobre ela. Além disso, nos dizem, as pessoas amam essas inovações e tradições humanas. Elas atraem muitas pessoas que, de outra forma, não viriam.
Há muitos problemas com tal pensamento.
[1] – A noção de que inovações em Teologia, ética e na forma de se achegar a Deus quanto à salvação são claramente erradas e perigosas, mas que invenções na forma de cultuá-lo seriam boas e aceitáveis, contradiz frontalmente a própria natureza de Deus.
Uma vez que Deus é absolutamente santo e justo; é um fogo consumidor e habita em luz inacessível; a ideia de que podemos criar nossas próprias maneiras de adorar a Deus é absurda à primeira vista. Quando uma pessoa na terra se aproxima de um rei ou rainha em sua corte, ela é obrigada a seguir um certo protocolo. Não deve entrar vestindo bermudas, mascando chiclete ou fumando um cigarro, e é obrigada a se dirigir ao rei ou à rainha de maneira respeitosa. Praticamente todos sabem disso e reconhecem que o respeito pela autoridade, ou por aqueles no poder, exige isso. No entanto, quando se trata de se aproximar de Yahweh no culto, enquanto Ele está sentado em seu trono com o Cordeiro cercado por miríades de santos anjos, nos dizem que praticamente qualquer coisa serve. É óbvio que aqueles que rejeitam o Princípio Regulador do Culto estão considerando o culto de uma perspectiva humanística, antropocêntrica, arbitrária, egoísta e pragmática.
[2] – Não há nada em nosso texto que indique qualquer insinceridade ou motivos malignos por trás da inovação dos filhos de Arão.
Lendo o contexto e a história anterior de Nadabe e Abiú, temos todas as razões para acreditar que eles tinham boas intenções com suas ações naquele dia. Após um serviço de ordenação tão glorioso e uma demonstração tão impressionante do fogo flamejante de Yahweh consumindo o sacrifício que eles acabaram de testemunhar, por que, raciocinaram eles, seria errado, como exemplo de nosso amor, reverência e adoração, oferecer algum incenso com este fogo comum na presença imediata de Deus? Eles haviam sido recentemente consagrados. Estavam vestindo suas vestes sacerdotais especiais. O dia, de fato, era santo. Eles estiveram perto de Deus na montanha, pois o próprio Deus os convidou a subir. O que, pensaram eles, poderia haver de errado com algumas pequenas variações da Lei designada de Deus quanto ao culto de Yahweh? Mas todo esse pensamento humanístico e pragmático não teve efeito algum sobre o Senhor. Deus considerou toda essa sinceridade humanística como pecaminosa e maligna. Portanto, “saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor” (Levítico 10:2). É estranho e ilógico como muitas igrejas reformadas corrompidas, bem como grande parte do evangelicalismo moderno, tratam a questão do culto. Não consideram aceitáveis inovações teológicas, ainda que seus proponentes ocupem posições de autoridade e sejam sinceros em suas convicções. Tais inovações doutrinárias são prontamente rejeitadas — como, de fato, devem ser. Se alguém acrescenta algo arbitrário à ética revelada nas Escrituras, pastores e presbíteros reformados prontamente rejeitam tais adições como humanismo ou legalismo. E se homens da Igreja introduzem acréscimos à doutrina da salvação, tais pessoas são — com razão — imediatamente condenadas e, se necessário, disciplinadas. No entanto, quando se trata do culto ao Deus infinito, santo, único e verdadeiro, Criador de todo o universo, aí sim parece haver lugar para a preguiça, o humanismo, as inovações e as tradições humanas, como se fossem perfeitamente aceitáveis. Aqueles que rejeitam a lição de Nadabe e Abiú são culpados de seguir o mesmo pensamento que os filhos de Arão (uma espécie de pragmatismo humanístico). A permissão de inovações no culto, de acordo com nosso texto e a analogia das Escrituras, revela: — [A] – Uma lamentável ausência do devido senso da majestade, glória e santidade de Yahweh, com quem temos de lidar. Trata-se de uma omissão indesculpável. [B] – Uma falta de consciência apropriada acerca de nossa própria pecaminosidade, corrupção inerente e vileza moral. Não apenas há entre nós e Deus uma distância infinita em natureza e condição — pois somos criaturas finitas e pecadoras —, mas, em virtude dos remanescentes do pecado que ainda habitam em nós, não temos absolutamente nenhum direito de determinar os meios, métodos ou elementos pelos quais nos aproximamos de Deus no culto. [C] – Uma ousadia orgulhosa, carnal e mundana ao nos arrogarmos o direito de inventar deveres sagrados. Quando fixamos nossos olhos em quem Deus é — um fogo consumidor — e em quem nós somos — criaturas caídas, resgatadas unicamente pela graça soberana —, deveria brotar em nós um temor reverente, inseparável de toda aproximação dEle no culto. Contemplar como Deus tratou o culto humanista, pragmático e inventado deveria mover nossas almas a uma postura de profunda cautela, precisão e vigilância espiritual nessa área santa.
[3] – A ideia de que os homens podem criar o que desejarem no culto a Deus, desde que não seja expressamente condenado pelas Escrituras, é inviável historicamente e é uma negação implícita da uniformidade bíblica do culto que é necessária para uma compreensão escriturística da unidade da Igreja.
Se o conteúdo e os elementos do culto forem determinados pelos homens — limitados apenas por proibições explícitas —, então o pragmatismo, a opinião humana, a tradição e a popularidade inevitavelmente expulsarão, com o tempo, o culto bíblico. A história da Igreja, desde a era apostólica até o surgimento do catolicismo romano, atesta de forma contundente essa verdade. O culto simples e regulado da Igreja apostólica, com o passar do tempo, degringolou em pompa vazia, rituais cerimoniais e idolatria manifesta, como se vê no sistema romano. Os Apóstolos de Cristo jamais reconheceriam o culto romano como cristão; antes, o condenariam como idolatria pagã disfarçada de fé. Da mesma forma, à medida que Igrejas reformadas e presbiterianas passaram a redefinir ou abandonar a sola Scriptura, e especialmente o Princípio Regulador do Culto, seu culto afastou-se gradualmente do modelo bíblico — derrapando rumo a uma complexidade humanista e a uma estética moldada pela aceitação popular e mundana.
O Princípio Regulador é necessário e requerido, porque as Escrituras são perfeitas e suficientes, e o homem é caído, pecador e corrupto. Portanto, o homem não deve ser considerado digno de confiança para determinar o que Deus deseja no culto. Deus não precisou fornecer à Igreja do Antigo Testamento uma longa lista de fogos proibidos para uso no culto. Bastou-lhe designar um único tipo de fogo — o que procedia de sua presença —, e isso foi suficiente. O ensino explícito de nosso texto é claro e solene: — tudo quanto Deus não ordena no culto, Ele proíbe. A maioria dos cristãos professos hoje se ofende com esse princípio bíblico crucial e faz tudo o que pode para contorná-lo e evitar suas implicações. Mas Deus, sendo absolutamente santo e justo, não tem o direito de determinar como e com quais elementos e conteúdo o adoramos? Dada a doutrina da sola Scriptura e a da perfeição e suficiência das Escrituras, faz sentido que Deus permita autonomia humana no culto, que Ele fique impressionado com nossas invenções manchadas pelo pecado e centradas em nós mesmos? S.H. Kellogg resume belamente nossas observações até agora. Ele escreve: — “Esta, portanto, é a primeira lição desta trágica ocorrência. Lidamos com um Deus extremamente zeloso, que será adorado conforme sua vontade, ou de modo algum. E não podemos reclamar. Se Deus é o ser que as Sagradas Escrituras nos ensinam, deve ser seu direito inalienável determinar e prescrever como será servido. A segunda lição, quase igualmente clara, é que, para Deus, a intenção de fazer o bem, embora possa atenuar, não justifica a desobediência quando Ele já revelou sua vontade. Ninguém pode imaginar que Nadabe e Abiú tinham más intenções; ainda assim, por seu pecado, morreram. Além disso, somos aqui impressionantemente ensinados que, com Deus, uma alta posição não confere imunidade quando alguém peca; muito menos uma alta posição na Igreja. Pelo contrário, quanto maior a exaltação em honra e privilégio espiritual, mais rigorosamente um homem será responsabilizado por cada falha em honrar aquele que o elevou[5]”.
Note que homens em altas posições na Igreja não podem tornar santo o que é profano por argumentos inteligentes, votação majoritária ou decreto de um bispo. Uma oferta autônoma é uma oferta mundana e pecaminosa. Quando humanos, à parte da revelação de Deus e, portanto, à parte da autoridade divina, impõem suas próprias ideias, tradições ou invenções ao culto de Deus, eles não exaltam Deus, que nunca ordenou tais coisas. Pelo contrário, exaltam o homem e impõem uma forma de tirania religiosa sobre o rebanho. Quando simplesmente seguimos o que Deus ensinou, ordenou ou autorizou em sua Palavra, retemos a simplicidade do culto evangélico e vivemos sob a liberdade do Senhor — livres das doutrinas, mandamentos e ordenanças de homens pecadores e arrogantes. Portanto, nossa Confissão de Fé nos instrui sabiamente, dizendo: — “Deus sozinho é o Senhor da consciência, e a deixou livre das doutrinas e mandamentos dos homens que são, em qualquer coisa, contrários à sua Palavra; ou além dela, em questões de fé e culto. De modo que acreditar em tais doutrinas, ou obedecer a tais mandamentos, por consciência, é trair a verdadeira liberdade de consciência […]” (XX.2). Sobre boas obras, a Confissão diz: — “Boas obras são apenas aquelas que Deus ordenou em sua santa Palavra, e não aquelas que, sem a autorização dela, são concebidas pelos homens, por zelo cego, ou sob qualquer pretexto de boas intenções” (XVI.1). Sobre o culto, a Confissão diz: — “Mas o caminho aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo, e tão limitado por sua própria vontade revelada, que Ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens, ou as sugestões de Satanás, sob qualquer representação visível, ou qualquer outro caminho não prescrito nas Sagradas Escrituras” (XXI.1).
6 – O julgamento de Deus sobre o pecado de Nadabe e Abiú.
A seriedade de seu pecado é indicada pela punição, que foi imediata e mortal. Levítico 10:2 diz: — “Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor”. A frase “saiu fogo de diante do Senhor” é exatamente a mesma usada para descrever o que Deus fez aos sacrifícios que haviam sido oferecidos anteriormente. O fogo de julgamento que consumiu o sacrifício substitutivo agora é direcionado aos sacerdotes que ofereceram fogo estranho. Esse fogo veio diretamente de diante do Senhor. Saiu de cima do propiciatório, através do Lugar Santo e então atingiu ambos os inovadores sob sua nuvem de fumaça profana. Eles ofereceram fogo não autorizado (isto é, não ordenado), portanto, quase instantaneamente foram mortos por fogo. O fogo saiu como um relâmpago e os matou no local onde ofereceram fogo estranho. Quando os homens se aproximam de Deus da maneira que Ele prescreveu, o sacrifício é consumido como um sinal de que seu pecado é removido e, assim, o povo é abençoado. Mas quando os homens se aproximam de Deus com suas próprias ideias sobre religião no culto, eles são amaldiçoados por desobediência, autonomia humana e culto voluntário.
Este foi um julgamento público, terrível e assustador de Deus que, de uma perspectiva humana, parece muito severo. Mas devemos comparar este incidente, em certo grau, com o que ocorreu com Ananias e Safira logo após o estabelecimento do Novo Pacto. O Pacto Mosaico acabara de ser estabelecido. A Lei de Deus estava sendo escrita. O sacerdócio arônico acabara de entrar oficialmente em vigor. As instruções para a bênção do Pacto envolviam uma obediência sincera e habitual a tudo o que Deus havia ordenado, sem adicionar ou subtrair (Deuteronômio 4:2; 12:32). O povo havia prometido publicamente obedecer à Lei do Pacto duas vezes (Êxodo 19:8; 24:7). No entanto, aqui, logo após sua ordenação, Nadabe e Abiú estão adicionando sua própria cerimônia ou procedimento inventado ao culto de Deus que não havia sido ordenado. Yahweh estava fazendo, neste caso, um exemplo público de juízo. Esses homens agiram em seu ofício como sacerdotes. Estavam vestindo suas vestes oficiais ou uniformes sacerdotais. Conduziram sua inovação diante do santuário à vista de todo o povo. Se as ações desses homens não fossem tratadas imediatamente e com firmeza, toda a congregação do Senhor teria concluído que o culto voluntário ou inovações humanas no culto são aceitáveis e agradáveis a Deus. Portanto, Yahweh não apenas os atinge imediatamente, mas o faz de maneira chocante e dramática, projetada para identificar seu pecado. Eles foram mortos por fogo, e Moisés instruiu Arão e todo o povo que isso ocorreu porque o fogo que eles usaram não havia sido autorizado ou ordenado por Deus. Tenha em mente que, quando Deus estava no meio de estabelecer as regras ou princípios relacionados ao que é permitido no culto para todas as gerações futuras, Nadabe e Abiú estavam ensinando por exemplo público exatamente o oposto. Rushdoony chama suas ações de sacrilégio. Ele escreve: — “Aqui temos um exemplo de sacrilégio. Sacrilégio é o roubo direcionado contra Deus; é uma tentativa de violar sua soberania e apropriar-se do que pertence a Deus para o serviço do homem, ou de misturar as prerrogativas de Deus com a vontade humana. Deus não apenas reivindica nossas primícias e dízimos, mas também a nós mesmos e nossa vontade como seus para comandar. Somos propriedade e posse de Deus; fomos criados para seus propósitos, e não para os nossos. Não nos é dito que Nadabe e Abiú fizeram o que Deus havia proibido, mas o que ele não havia ordenado. Recebemos as leis da santidade, e nada que possamos fazer ou adicionar à Palavra–Lei de Deus pode aumentar nossa santidade; a autonomia, literalmente autolei, apenas nos torna profanos[6]”.
Essa ira pública vindicou a honra e santidade próprias de Deus. O Senhor é desonrado pelo culto humanístico centrado no homem. A nuvem de incenso que deveria ter sido um aroma agradável era um fedor profano e maligno porque foi acesa por brasas não autorizadas. O Senhor a quem servimos é um fogo consumidor.
Pode a reforma vir quando o culto de Deus é tratado como um show da Broadway e os homens veem o culto como algo que deve agradar o homem pecador? Se os homens considerassem o Nome de Deus como santo, encheriam o culto com truques humanísticos e nonsense[7] que agrada aos pagãos? No céu, os anjos entendem a santidade de Deus. Lá, sua reverência por Yahweh é total. Os anjos mais próximos de Deus devem cobrir seus rostos por causa da imensa glória do Senhor, mas os homens vêm a Deus no culto hoje com shows de marionetes, grupos de teatro, pastores comediantes e bandas de rock. Não há preocupação com o que agrada a Deus, mas apenas com o que agrada aos homens. O culto ordenado por Deus nas Escrituras é descartado como lixo sem valor, enquanto os homens se parabenizam por suas inovações inteligentes que enchem os bancos. Quando os homens declaram suas invenções carnais como santas e agradáveis a Deus, embora tais coisas não sejam ordenadas e, portanto, obviamente não possam ser santas, eles, em princípio, estão participando de uma espécie de idolatria. Eles honram a criatura em vez do Criador. Sempre mantenha em mente a santidade de Deus, sua gloriosa transcendência. Ele habita em luz inacessível. Você realmente acredita que tal ser fica impressionado com suas invenções humanísticas em relação ao culto? Se estudarmos cuidadosamente as Escrituras e meditarmos em oração sobre a majestade incompreensível e a santidade tremenda de Deus, então o buscaremos unicamente como Ele mesmo ordenou.
A severa punição aqui é destinada a nos ensinar a levar a sério o princípio ou regra principal de Deus para o culto a si mesmo. Isso é absolutamente fundamental para manter a pureza do culto e a fidelidade pactual ao longo do tempo. Uma vez que o Princípio Regulador do Culto é permitido ser violado, nada impede que uma montanha de corrupções entre com o passar do tempo. A Igreja de Cristo é uma instituição muito antiga, com quase 2000 anos. Se algo não ordenado por Deus passa a ser aceito a cada vinte anos, então, ao longo dos séculos, centenas de inovações que Deus abomina serão permitidas e florescerão livremente. Pense na Igreja papal, por exemplo. Eles têm uma montanha de tradições humanas corrompendo seu culto: — água benta, fazer o sinal da cruz, genuflexão, orações pelos mortos, bem como orações a Maria e aos santos; o uso de incenso, instrumentos musicais, dias santos criados pelo homem, a proibição de carne, celibato, extrema–unção, a missa, relíquias, velas, cruzes, sete sacramentos, penitência, confissão a um sacerdote, peregrinações, purgatório, limbo, o papado e a prelazia. Embora algumas dessas coisas sejam claramente proibidas, muitas só podem ser condenadas pelo Princípio Regulador do Culto.
7 – Continuação do julgamento e suas implicações.
Infelizmente, Israel não aprendeu a lição deste julgamento chocante por fogo. Eles sincretizaram seu culto com paganismo quase imediatamente e se enredaram com idolatria. O reino do norte adotou ritos sagrados não ordenados, dias santos não autorizados e um novo sacerdócio não levítico (completamente inventado). Deus destruiria o reino do norte em 722 a.C. A história do Antigo Testamento, bem como a história da Igreja cristã, nos ensina de modo claro e repetido que a natureza pecaminosa — mesmo entre o povo professamente de Deus — é fortemente inclinada às inovações e tradições humanas. Há em nós uma tendência remanescente ao culto voluntarista que deve ser vigorosamente combatida e sufocada em sua raiz. Igrejas reformadas que quebraram seus pactos e corromperam seu culto com entulho papista — como os dias santos não ordenados; métodos cerimoniais do culto judaico já ab–rogados, como o uso de instrumentos musicais no culto público; e hinos não–autorizados de composição humana e não–inspirada — defendem suas corrupções com paixão e até com ira, dizendo: — “Como ousas exigir prova nas Escrituras? Quem pensas que és para desafiar nossas tradições estimadas?”. Devemos compreender com clareza: — corrupções ou permissões de tradições humanas no culto caminham lado a lado com o abandono progressivo da doutrina bíblica de que os mestres e governantes da Igreja têm somente autoridade ministerial, e não legislativa. Pois, se os homens podem inventar elementos, conteúdos, cerimônias ou dias santos relacionados ao culto, então por que não aplicar também o pragmatismo humano e suas inovações à ética cristã e à disciplina eclesiástica?
A destruição de Israel e o cativeiro babilônico curaram a nação do sincretismo com o culto baalita e a idolatria, mas seu amor pela autonomia humana simplesmente tomou outras direções. Na época em que nosso Senhor andou na terra, o povo estava sobrecarregado com uma massa de tradições rabínicas adicionadas à Lei (uma sobreposição autônoma e humanística sobre a ética e o culto bíblicos) que fazia os homens desconsiderarem e não obedecerem aos mandamentos de Deus (Mateus 15:6). Aprenda a lição da história: — “Todo culto voluntário, em toda a sua infinita variedade de formas, tende a confundir a consciência, ao confundir os mandamentos de Deus com as práticas e tradições dos homens; e toda a história, não menos da Igreja do que de Israel, mostra que a tendência de todo esse culto voluntário é à subversão tanto da moralidade quanto da religião, ocasionando, muitas vezes, uma total incompreensão quanto ao que realmente é a essência da religião agradável a Deus[8]”.
O Senhor enfatizou esse julgamento pela remoção pública dos corpos mortos. Os dois homens agora eram cadáveres que profanavam o lugar santo. A natureza sobrenatural e dirigida por Deus do julgamento é ainda mais indicada pelo fato de que as vestes sacerdotais foram deixadas sem qualquer marca de queimadura. As roupas ou uniformes foram ordenados, mas os homens eram culpados, e o fogo atingiu apenas os culpados. Os primos de Arão, Misael e Elzafã (Levítico 10:4), foram instruídos a remover os corpos mortos e levá-los para fora do acampamento. Seus corpos mortos eram sinais do julgamento que vem sobre a autonomia humana e a quebra do Pacto — “Um profeta poderia ter apontado Israel adiante, daquela cena triste, para o dia vindouro de vergonha e vingança. ‘Eles sairão, e olharão os cadáveres dos homens que transgrediram contra mim. Pois seu verme não morre, e seu fogo não se apaga. Eles serão uma abominação para toda a carne’” (Isaías 66:24)[9].
Tais julgamentos instantâneos são raros nas Escrituras, onde o pecador culpado não é confrontado por outros crentes ou autoridades da Igreja e dado a oportunidade de buscar a Deus em oração, arrepender-se e confessar, dizendo: — “Senhor, pequei. Reconheço meu pecado e o abandono; tem misericórdia de mim”. Seu pecado foi tão sério e público que foram instantaneamente atingidos com morte súbita.
8 – A razão de Deus por trás deste julgamento especial.
Em Levítico 10:3, somos informados da explicação de Deus para a severidade e imediatismo do julgamento: — “E disse Moisés a Arão: — ‘Isto é o que o Senhor falou, dizendo: — Serei santificado naqueles que se chegarem a mim, e serei glorificado diante de todo o povo’”. Este foi um julgamento triste e devastador para Arão, que acabara de perder seus filhos primogênito e segundo nascido. Logo após esse julgamento, Moisés e Arão se aproximaram dos corpos mortos e olharam para eles. Moisés, o grande líder e profeta que frequentemente recebia revelações diretas de Deus, disse a Arão e ao povo como Deus queria que interpretassem o que acabara de ocorrer. O ponto que Yahweh faz é iluminador. Deus deve ser buscado apenas por meio da forma que Ele mesmo instituiu, ordenou e autorizou, pois Ele é santo. Entre os pagãos, o conceito de santidade era externo e quase mecânico. Os sacerdotes pagãos podiam fazer o que quisessem porque haviam sido separados ritualmente para seus deveres. Mas o conceito bíblico de santidade inclui a perfeição ética de Deus. Por Deus ser absolutamente santo, perfeito, transcendente e justo, Ele é a fonte da verdadeira ética, doutrina e culto, não o homem finito e pecador. Ir além da palavra de Deus e criar suas próprias regras de abordagem no culto é não honrar, reverenciar ou obedecer a Deus. Buscar melhorar o culto de Deus, adicionando inovações humanas a ele, é desonrar o que Deus ordenou como insuficiente e imperfeito. É agir como Eva em sua desobediência no jardim, abraçando a autonomia humana ou autolei.
Um dos propósitos centrais do culto bíblico é glorificar a Deus e proclamar ao mundo a sua transcendência e unicidade. Já o culto humanístico — ao acrescentar ou retirar da palavra de Deus — opera em sentido oposto, obscurecendo sua glória e profanando sua santidade. Ele honra e glorifica o homem pecador. Tal filosofia humanística é a principal fonte do farisaísmo e do romanismo. O povo pactual deve ser humilde e depender exclusivamente de Deus para ética, culto e doutrina. Por sua obediência habitual à Lei moral de Deus e uma obediência cuidadosa e exata ao se aproximar de Yahweh no culto (fazendo apenas o que Ele ordenou ou autorizou), o povo pactual deve reconhecer e declarar a santidade de Deus perante o mundo. A obediência é um sinal de fé. Ela revela uma satisfação, contentamento, confiança e aprovação do culto evangélico puro, simples e verdadeiro. Calvino escreve: — “Se refletirmos quão santa é a coisa que é o culto de Deus, a enormidade da punição de forma alguma nos ofenderá. Além disso, era necessário que sua religião fosse sancionada em seu próprio início; pois se Deus tivesse permitido que os filhos de Arão transgredissem com impunidade, eles teriam depois negligenciado descuidadamente toda a Lei. Esta, portanto, foi a razão para tamanha severidade, para que os sacerdotes vigiassem ansiosamente contra toda profanação[10]”.
Jeremiah Burroughs captura belamente o ponto da declaração de Moisés a Arão: — “‘Arão, embora eu reconheça que a mão de Deus pesa sobre você hoje, é justo que você se submeta a Ele. É apropriado que Deus seja glorificado, independentemente do que lhe aconteça. Você é precioso para Deus, mas o Nome de Deus é ainda mais precioso para Ele do que você. Independentemente das vidas de seus filhos, é justo que Deus seja honrado e seu Nome santificado, não importa o que ocorra com seus filhos ou seus consolos; portanto, que seu coração se aquiete. Você sofreu uma grande perda e aflição, mas Deus recebeu glória. Deus glorificou a si mesmo’. Como Deus glorificou a si mesmo? De maneira significativa, pois, por meio desse julgamento, Deus realizou um ato que fez todo o povo da terra temê-lo, levando-os a adorá-lo com toda reverência. Todo o povo da terra, ao ver e ouvir sobre esse julgamento, aprenderá para sempre a temer e reverenciar esse Deus. Eles dirão: — ‘Como nos apresentaremos diante desse Deus santo? Precisamos ter cuidado em sua presença e adorá-lo conforme Ele deseja ser adorado’. É como se Moisés dissesse: — ‘Esta honra que Deus obteve, gravando-se nos corações do seu povo por este meio, deves considerá-la bem maior do que as vidas de teus filhos, sejam eles quem forem’. Esse é o propósito do discurso de Moisés a Arão[11]”.
A Lei do Pacto era clara. Tudo feito no culto tinha que ser ordenado. Não há nada ambíguo ou difícil sobre a sola Scriptura, ou o Princípio Regulador do Culto. Quando Nadabe e Abiú ofereceram fogo estranho ou não autorizado, eles estavam violando a Lei do Pacto e agindo publicamente em claro desafio a Deus. Adicionar suas próprias ideias, elementos ou conteúdo ao culto de Deus é um ato de rebelião flagrante, pois, não apenas é uma clara violação do que Deus ordenou, mas também é uma negação implícita da santidade e glória única de Deus. O que Yahweh nos diz por meio de Moisés é que a maneira como nos aproximamos dEle no culto não é arbitrária, mas está enraizada na sua própria natureza. Se o culto fosse puramente circunstancial e, portanto, pudesse ser moldado pela cultura de alguém ou pelas tradições queridas de alguém, então Deus obviamente não se ofenderia com invenções humanas. Além disso, se alguém pensa que a punição de Deus sobre Nadabe e Abiú foi muito severa ou dura, então ele não entende da santidade e justiça de Deus. R.C. Sproul explica: — “Como conciliamos esta narrativa com o que Gênesis ensina anteriormente sobre o caráter da justiça de Deus? Gênesis afirma que o juiz de todos fará o que é certo (Gênesis 18:25). A suposição básica de Israel é que os julgamentos de Deus são sempre de acordo com a justiça. Sua justiça nunca é injusta, nunca caprichosa, nunca tirânica. É impossível para Deus ser injusto, porque sua justiça é santa[12]”.
A principal aplicação do ensino de Deus por meio de Moisés em Levítico 10:3 é dada ao sacerdócio ou à liderança eclesiástica. Os homens que são santos e separados para Deus para ofertar e ensinar são julgados por um padrão muito alto. Espera-se que executem as instruções de Deus referentes ao culto exatamente como foram ordenadas por Ele, sem desviar para a direita nem para a esquerda. Devem cumprir fielmente cada jota e cada til da Palavra inspirada, sem negligenciar nenhum preceito, tampouco inventar novos modos, caminhos, tradições ou formas de culto. Deus exige uma obediência pronta, sincera e integral aos seus mandamentos, sem diluir ou obscurecer o que foi revelado por meio de invenções humanas ou por ignorância voluntária.
O Antigo Testamento está repleto de severas advertências que reforçam este princípio com firmeza inexorável. Em Números 20, Moisés foi proibido de entrar na terra prometida porque, ao ser ordenado por Deus que falasse à rocha diante de Israel para dela sair água, preferiu golpeá-la com a sua vara. Na palavra de Deus: — “Porquanto não crestes em mim, para me santificardes diante dos filhos de Israel, por isso não introduzireis esta congregação na terra que lhes tenho dado” (Números 20:12). Moisés deixou de cumprir a ordem divina, substituindo-a por sua própria ação ou julgamento, ato que revela a raiz do problema: — a falta de fé e a recusa em honrar a santidade do Senhor. Essa advertência ecoa com vigor em todo o desígnio do culto. Outro exemplo pungente é Uzá, amigo do rei Davi, que ao tentar estabilizar a Arca de Deus estendeu a mão e tocou-a, sendo mortalmente ferido por isso (2 Samuel 6:7). Embora piedoso, Uzá tornou-se exemplo público de desobediência, por ignorar a palavra do Senhor e o procedimento ordenado por Moisés (1 Crônicas 15:13 – 15). Este episódio revela o Princípio Regulador do Culto: — Nele não há espaço para pragmatismo, inovação ou concessão aos caprichos humanos. O que aos olhos humanos possa parecer correto ou desejável é irrelevante diante da ordem sagrada. Tradição e criatividade humanas jamais podem ser fonte legítima de autoridade no culto divino. Tudo o que não se fundamenta nas Escrituras é profano, inaceitável e pecaminoso. Como afirma a Confissão Belga: — “Devemos nos satisfazer com as ordenanças que Cristo e os Apóstolos nos ensinaram” (Artigo 35). Assim, rejeitamos todas as invenções humanas e quaisquer leis que o homem queira introduzir no culto de Deus, que prendam e imponham as consciências de qualquer forma.
9 – Implicações para hoje.
A implicação de tudo isso, para os nossos dias, é manifesta e incontornável. Todos os ministros e presbíteros devem manter-se vigilantes contra qualquer inovação no culto que ouse adentrar a Igreja do Senhor. Como supervisores do rebanho de Deus, cumpre-lhes zelar para que somente o que foi ordenado por Ele seja praticado no santo ajuntamento. Os primeiros presbiterianos dos tempos da Primeira e da Segunda Reforma foram diligentes e fiéis nesse dever sagrado. Com zelo piedoso, purgaram da Igreja todas as tradições pagãs e romanistas que haviam-se infiltrado ao longo dos doze séculos anteriores.
Práticas como o uso de incenso e de instrumentos musicais — ambos elementos levíticos e cerimoniais, próprios da antiga dispensação — foram abolidas. Dias santos forjados por mãos humanas, tais como a Quaresma, o Natal, a Páscoa, a Quarta-feira de Cinzas e outros, foram rejeitados como invenções não ordenadas por Deus; e qualquer um que os praticasse era submetido à disciplina eclesiástica. Ritos supersticiosos como o sinal da cruz e o uso da água benta foram deixados para trás, como sombras profanas que não têm lugar no culto espiritual da Nova Aliança.
A rejeição de toda tradição humana no culto divino encontra clara expressão no “First Book of Discipline (Primeiro Livro de Disciplina)” (1560), que condena a missa, a invocação dos santos, a veneração de imagens e a observância de todos os dias santos e festas “que os papistas inventaram”, bem como “toda honra a Deus não contida em sua santa Palavra”. Essas vitórias foram solenemente ratificadas no “National Covenant (Pacto Nacional)” de 1580, com o intuito de consolidar as conquistas reformadas e de preservá-las intactas para as gerações futuras, contra toda forma de regressão ou corrupção. A Segunda Reforma, em 1638, concordou com as reformas anteriores e na Assembleia Geral de Glasgow, aboliu totalmente a prática do calendário cristão ou dias santos criados pelo homem “porque não são ordenados nem garantidos pelas Escrituras” (Ato sessão 17). A posição da Igreja Escocesa e dos puritanos na Inglaterra é bem representada pelas respostas às perguntas 107 e 108 no Catecismo Maior de Westminster: — “Os pecados proibidos no Segundo Mandamento consistem em todo planejamento, aconselhamento, ordenação, uso ou, de qualquer modo, aprovação de qualquer culto religioso que não tenha sido instituído pelo próprio Deus. Os deveres requeridos neste mandamento abrangem a recepção, observância e manutenção puras e integrais de todo culto religioso e ordenanças conforme Deus as estabeleceu em sua Palavra; em particular, a oração e ação de graças em nome de Cristo; a leitura, pregação e escuta da Palavra; a administração e recepção dos sacramentos; o governo e disciplina da Igreja; o ministério e sua sustentação; o jejum religioso; o juramento pelo nome de Deus e a confissão de votos a Ele; assim como a desaprovação, detestação e oposição a todo culto falso; e, conforme o lugar e chamado de cada um, a remoção desse culto e de todos os monumentos de idolatria”.
A aplicação do caso de Nadabe e Abiú, feita pelo próprio Deus, suscita uma questão grave e pertinente: — Estarão os presbíteros e pastores presbiterianos e reformados modernos firmes como guardiães do culto puro, conforme a clara exigência da Palavra divina em nossos dias? Com poucas exceções — como a Igreja Presbiteriana Livre da Escócia, a Igreja Livre Continuada, o Presbitério Reformado (Steelitas), a Igreja Presbiteriana de Westminster e algumas Igrejas reformadas independentes — a resposta é negativa. O Princípio Regulador do Culto foi em grande parte abandonado, cedendo lugar a um culto de vontades humanas e pragmatismo — como se observa na Igreja Presbiteriana Ortodoxa, na Igreja Presbiteriana na América e nas diversas comunhões reformadas conservadoras holandesas e alemãs — ou mantido de forma inconsistente, como na Igreja Presbiteriana Reformada da América do Norte. Em termos gerais, pode-se afirmar que as Igrejas presbiterianas “conservadoras” contemporâneas têm demonstrado maior zelo em preservar tradições humanas e inovações recentes do que em sustentar exclusivamente o que Deus ordenou. Hoje, não há um real esforço para aplicar o Princípio Regulador do Culto, pois, no culto público, a sola Scriptura foi substituída pelo pragmatismo e pelo apego às tradições humanas. Por isso, o culto na vasta maioria das Igrejas reformadas não difere substancialmente das práticas de Igrejas evangélicas arminianas, que jamais conheceram o Princípio Regulador.
Em tais Igrejas, a grande parte dos fiéis se satisfaz plenamente com suas tradições humanas e corrupções não ordenadas. Ademais, quando surge um homem de Deus que se opõe ao culto de vontades humanas e busca restaurar os padrões da Confissão de Westminster e dos Pactos, é tratado como insensato e iludido.
O culto nas Igrejas reformadas encontra-se, assim, comprometido e corrompido; tais acréscimos humanos foram tolerados por tanto tempo que já não são mais considerados pecado por muitos presbiterianos professos. Contudo, essa postura frouxa, profana, autônoma e pagã diante do culto deve ser veementemente rejeitada.
O episódio do fogo estranho, ou não autorizado, nos ensina que Yahweh, nosso Deus da Aliança, infinitamente santo, cuida profundamente de como nos aproximamos dEle no culto. Ele é zeloso de seu santo nome e rejeita enfaticamente tudo que não está autorizado pela Escritura.
A atitude moderna para com o culto não é reverente, respeitosa ou fiel; tem muito em comum com a abominável Igreja papal. Se os líderes eclesiásticos não cumprirem uma das tarefas mais essenciais do seu ministério — guardar com zelo a pureza do culto —, a Igreja inevitavelmente derivará rumo a Roma.
Diante de nós está a escolha decisiva: — autonomia humana ou teonomia divina.
Paz e graça.
[1] Por Brian Schwertley (2021).
[2] Gordon J. Wenham, The Book of Leviticus (Grand Rapids: Eerdmans, 1979), p. 141.
[3] Ibid., 143.
[4] R.K. Harrison, Leviticus: An Introduction and Commentary (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1980), p. 100.
[5] S.H. Kellogg, The Book of Leviticus (Minneapolis: Klock & Klock, [1899] 1978), p. 240 – 241.
[6] R.J. Rushdoony, Leviticus (Vallecito, CA: Ross House Books, 2005), p. 95 – 96.
[7] Algo sem sentido, absurdo, tolice, disparate.
[8] S.H. Kellogg, The Book of Leviticus, p. 245 – 246.
[9] Andrew Bonar, A Commentary on Leviticus (Carlisle, PA: Banner of Truth, [1846] 1989), p. 197.
[10] John Calvin, (Grand Rapids: Baker, 1980), 3:431.
[11] Jeremiah Burroughs, Gospel Worship or The Right Manner of Sanctifying the Name of God in General (Ligonier, PA: Soli Deo Gloria [1648] 1990), p. 10 – 11.
[12] R.C. Sproul, The Holiness of God (Wheaton, IL: Tyndale, 1985, 98), p. 103 – 104.
[13] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.
por Brian M. Schwertley | 24 maio 2025 | TEOLOGIA
Introdução.
Em 2001, a “Banner of Truth Trust” publicou um pequeno livreto de Iain H. Murray intitulado “O Saltério Deve Ser o Único Hinário da Igreja?”. Neste livreto, Murray busca responder à questão de “se os cristãos e as Igrejas têm liberdade para decidir sobre o material que usam para esse propósito [louvor congregacional], ou se há um princípio que os obriga a usar apenas um livro, a saber, o Livro dos Salmos (isto é, o Saltério em forma métrica)[2]”. Neste livreto, Murray tenta provar que a posição de Salmodia Exclusiva é antibíblica e que o uso de hinos não–inspirados é permitido e até superior aos Salmos[3]. Antes de analisarmos os argumentos específicos de Murray, alguns comentários gerais são necessários.
Primeiro, consideramos Iain H. Murray um querido irmão em Cristo, embora acreditemos que a posição que ele defende sobre essa questão é antibíblica e não confessional. Murray é um excelente estudioso e historiador que fez uma grande contribuição para a causa da fé reformada nos tempos modernos (este autor possui vários livros escritos por Murray).
Segundo, para aqueles familiarizados com o debate sobre Salmodia Exclusiva, Murray não oferece nada de novo, exceto algumas citações interessantes de puritanos que acreditavam que hinos não–inspirados eram lícitos. Ele retoma argumentos antigos que já foram amplamente refutados[4] e os reformula cuidadosamente.
Terceiro, embora Murray reconheça sua adesão ao Princípio Regulador do Culto, ele frequentemente argumenta como se esse princípio não existisse. De fato, o livreto não contém nenhuma prova bíblica de que hinos não–inspirados foram alguma vez ordenados por Deus ou usados pela Igreja de Deus antes do fechamento do cânon. Seu argumento básico para o uso de hinos é duplo: — alguns puritanos acreditavam que era permitido, e os Salmos são simplesmente inadequados ou insuficientes para o culto do Novo Concerto.
O primeiro argumento de Murray diz: — “Onde está a prova nas Escrituras de que Deus designou os cento e cinquenta Salmos de Davi para o culto público da igreja do Antigo Testamento?[5]”. Murray prossegue apontando que, embora alguns Salmos tenham sido escritos para o culto público, outros foram originalmente compostos para uso em oração e ensino. Ele diz: — “Que todos os Salmos foram alguma vez usados no templo em culto, ou que todos foram dados para louvor congregacional, é simplesmente uma suposição que não repousa em nenhuma evidência[6]”.
Embora esse argumento pareça inteligente, ele deve ser rejeitado porque não reconhece a diferença necessária e óbvia entre todos os diversos Salmos divinamente inspirados, como originalmente compostos, e a organização e colocação providencial posterior dos vários Salmos no Saltério completo por Jeová. Não há dúvida de que certos Salmos surgiram diretamente de experiências pessoais, orações e assim por diante, que eram poesias hebraicas divinamente inspiradas. Talvez houvesse até uma coleção inicial de Salmos davídicos que eram explicitamente definidos como orações (veja Salmos 72:20)[7]. Cinco Salmos são referidos como orações em seus títulos (17, 86, 90, 102, 142). Há também Salmos que não contêm louvor direto ou mesmo endereço direto a Deus (por exemplo, 1, 2). Mas o fato de certos Salmos terem sido originalmente compostos como orações em tempos de necessidade ou crise, ou que outros tenham a mera aparência de serem declarações poéticas didáticas de doutrina, ética ou história da salvação, significa que Deus mesmo não pode tomar esses poemas divinamente inspirados, sejam eles, canções deliberadas de louvor, orações ou declarações de doutrina, e colocá-los em um livro que é o hinário da Igreja após sua conclusão? Para que o argumento de Murray tenha algum peso, é preciso ignorar o fato de que Deus mesmo organizou todo o material inspirado no Saltério e o intitulou: — “O Livro dos Louvores” (hebraico, סֵפֶר תְּהִלִּים–Sephir Tehillim), ou como a Septuaginta grega o traduziu: — “O Livro dos Salmos”.
Uma vez que Deus, o Espírito Santo, organizou todos os diversos materiais no Livro do Louvor e o cânon do Antigo Testamento foi concluído, os judeus tinham um manual de louvor definitivo e inspirado. Eles entendiam que seu hinário era um produto da inspiração divina e nunca tentaram fazer adições não–inspiradas a ele. Compreendiam que as canções de louvor vinham do próprio Deus por meio do dom profético e, portanto, não produziram hinários não–inspirados. O fato de Deus requerer inspiração divina para canções de culto e de Ele ter organizado 150 obras inspiradas separadas em um hinário ou manual de louvor nos ensina que cantar Salmos é o equivalente musical à leitura das Escrituras no culto público. Aparentemente, Deus, em seu soberano prazer, quis ser adorado apenas com canções de louvor que fossem perfeitas e não contaminadas por defeitos e pecados humanos. Qualquer um que pense que pode escrever melhores canções do que o Espírito Santo não conhece a perfeição e a riqueza do Saltério, nem as implicações completas da enganosa natureza do pecado no coração humano.
Embora alguns estudiosos modernos possam pensar que o título “O Livro dos Louvores” é arbitrário, insignificante e talvez até inadequado porque o livro contém tanto material diverso (por exemplo, profecias, ensino, orações etc.), eles devem ignorar o fato de que o próprio Cristo usou o título. Jesus disse: — “Visto como o mesmo Davi diz no livro dos Salmos” (Lucas 20:42 – ACF). A palavra inspirada usada por nosso Senhor, “psalmon” (ou psalmois, Lucas 24:44), derivada de “psalmos”, denotava originalmente a música de um instrumento de cordas ou uma canção cantada com acompanhamento musical. Portanto, tanto Jesus quanto Pedro (veja Atos 1:20[8]) identificam todo o Livro dos Salmos como um hinário ou um livro projetado por Deus para ser cantado. Dado o título do Livro dos Salmos e a confirmação explícita desse título pelo Novo Testamento, a afirmação de Murray de que não há evidências de que o livro como um todo foi dado por Deus para louvor congregacional é incrível. Além disso, dado o fato de que o Livro dos Salmos é claramente projetado para ser cantado como louvor; que os crentes são repetidamente ordenados a louvar a Jeová com o canto de Salmos (por exemplo, Salmos 81:2; 95:1, 2; 98:4, 5; 100:2; 105:2 etc.); e que há muitos exemplos históricos inspirados do uso de Salmos (ou seus equivalentes inspirados) no culto público (Êxodo 15:1; 2 Samuel 1:18; 1 Crônicas 16; 2 Crônicas 5:13; 20:21; 23:13; 29:30; Esdras 3:11; Salmos 30:4; 137:1 e seguintes; Mateus 26:30 etc.), a afirmação de Murray de que não há evidências de que o Saltério foi projetado para o culto público é desconcertante. Como observa Bushell: — “O Senhor nos deu nas Escrituras um livro inteiro de Salmos inspirados e então nos ordenou a ‘cantar Salmos’. Independentemente da questão de se podemos ou não cantar outras canções no culto, não é o auge da tolice e impiedade, por assim dizer, olhar para o Senhor e insistir que não temos obrigação de cantar os Salmos específicos que Ele foi gracioso o suficiente para colocar em nossas mãos? Argumentaríamos que a inclusão de uma coleção de canções no cânon das Escrituras, sem quaisquer limites demonstráveis para seu uso, constitui um mandamento divino para usar todo esse livro em serviços de culto. Se o Senhor nos entrega um livro de Salmos, como Ele fez, e nos ordena a cantar Salmos, não temos o direito, sem instruções adicionais, de excluir certos Salmos daqueles que são disponibilizados para a Igreja[9]”.
Se Murray não acha que a colocação de um hinário inspirado no meio do cânon é significativa ou que sua designação por Deus como um “Livro de Louvor” indica uma autorização divina para seu uso no culto público, então (se consistente) ele também poderia argumentar que o cânon completo das Escrituras não nos dá nenhuma indicação específica de que os 66 livros canônicos devem ser usados para a leitura das Escrituras no culto público. Tal raciocínio, é claro, é absurdo.
Outro argumento baseia-se no desrespeito (intencional ou não) completo à sola Scriptura ou ao Princípio Regulador do Culto. (Ou seja, a doutrina bíblica de que todos os elementos ou partes do culto devem ter prova bíblica ou autorização divina antes de serem permitidos no culto a Deus; veja Gênesis 4:3 – 5; Levítico 10:1, 2; Deuteronômio 4:2; 12:32; 2 Samuel 6:3 – 7; 1 Crônicas 15:13 – 15; Números 15:39, 40; 1 Reis 12:32, 33; Jeremias 7:24, 31; 19:5; Mateus 15:3, 9; 28:20; João 4:24; Colossenses 2:20 – 23 etc.) Murray escreve: — “Argumentar que, porque temos apenas um ‘Livro de Louvores’ inspirado, nada de composição meramente humana deve ser musicado para o louvor de Deus, é, portanto, fazer uma dedução que vai além do que as Escrituras realmente dizem[10]”. Esse argumento é enganoso e falacioso, pois simplifica excessivamente e deturpa a maneira como os defensores da Salmodia Exclusiva argumentam. Aqueles que defendem canções inspiradas no culto não oferecem um argumento tão unilateral. Eles não dizem simplesmente: — “A Bíblia tem um hinário inspirado, portanto, hinos feitos pelo homem são proibidos”. Pelo contrário, eles apontam que não apenas a Bíblia tem um hinário inspirado e suficiente, mas não há nenhuma evidência bíblica de que Deus tenha autorizado canções não–inspiradas para o culto a Jeová. Não há mandamentos divinos sobre canções feitas pelo homem no culto. Não há exemplos históricos dos santos de Deus usando hinos não–inspirados em toda a Bíblia, e não há deduções genuínas ou sólidas das Escrituras que possam ser feitas para canções não–inspiradas no culto público. Os defensores da Salmodia Exclusiva não precisam encontrar um mandamento explícito proibindo hinos não–inspirados no culto, nem precisam fazer tal dedução. O Princípio Regulador já fez isso essencialmente. O que Murray precisa fazer é parar com as cortinas de fumaça e ofuscações e ir diretamente às Escrituras e demonstrar que Deus autorizou hinos não–inspirados para o elemento de canto no culto público. Em seu livreto, ele nunca faz isso. Em vez disso, ele recorre à história da Igreja e cita seletivamente puritanos ou presbiterianos que concordam com ele.
O próximo argumento de Murray baseia-se no desrespeito aos diferentes elementos do culto público. Ele escreve: — “Em nenhum lugar nas Escrituras é apresentada a ideia de que o louvor falado deve ser restrito às palavras da Bíblia, palavras designadas pelo Espírito Santo; por que, então, o louvor cantado deveria ser diferente? Além disso, como já foi dito, o Livro dos Salmos contém muitas orações. Ele poderia ser chamado de Livro de Orações, bem como de Livro de Louvores. Nesse aspecto, não há nada comparável a ele em outras partes das Escrituras, mas ninguém sustenta que as orações da Igreja devam ser sempre restritas às palavras inspiradas que Deus nos deu[11]”. Essa argumentação deve ser rejeitada por várias razões.
Primeiro, mais uma vez, Murray escreve como se o Princípio Regulador do Culto não existisse. A questão não é se há uma declaração explícita ou “a ideia” de que hinos não–inspirados são proibidos pelas Escrituras. A questão que precisa ser respondida é: — O uso de hinos não–inspirados é autorizado por Deus para uso no culto público? A resposta para essa pergunta é não. Eles não são. Em toda a Bíblia, não há imperativos divinos ou mandamentos explícitos para canções não–inspiradas no culto. Além disso, se alguém estudar cuidadosamente as Escrituras, verá que a inspiração divina era um pré–requisito para escrever canções de culto para a Igreja (veja Êxodo 15:20, 21; Juízes 5; 2 Samuel 23:1, 2; 2 Reis 23:2; 1 Crônicas 25:1 – 7; 2 Crônicas 29:25 – 30; 34:30; 35:15; os títulos dos Salmos 39, 62, 77; Atos 1:16 etc.). A Bíblia ensina que a composição de hinos para o culto público exigia um dom profético. Não era para qualquer um que decidisse compor uma canção. Além disso, não há um único exemplo histórico registrado nas Escrituras de uma canção não–inspirada no culto público, nenhum! Se nosso irmão nos mostrar nas Escrituras que hinos não–inspirados foram ordenados por Deus ou usados no culto público antes do fechamento do cânon das Escrituras, abraçaremos de bom grado a hinódia não–inspirada. Enquanto isso, manteremos firme a vontade revelada de Deus.
Segundo, Murray recorre ao velho argumento contra a Salmodia Exclusiva de que, uma vez que somos autorizados a criar nossas próprias orações, também deveríamos poder criar nossas próprias canções de culto. Embora ninguém negue que louvor, orações, leitura da Bíblia e pregação possam, às vezes, ter coisas em comum, a tentativa de Murray de apagar a distinção entre oração e canto de louvor como elementos distintos do culto público é antibíblica e não confessional. Na Confissão de Fé de Westminster: — oração, leitura das Escrituras, canto de salmos, pregação e recepção dos sacramentos são todos descritos como “partes” ou elementos separados do culto público. Cada elemento distinto do culto é até mesmo comprovado pela confissão.
A razão pela qual a Confissão faz essas distinções é simples. A Bíblia nos diz quais são os elementos distintos do culto (por exemplo, pregação – Mateus 26:13; Marcos 16:15; Atos 9:20; 17:10; 20:8; 1 Coríntios 14:28; 2 Timóteo 4:2; leitura da palavra de Deus – Marcos 4:16-20; Atos 1:13; 13:15; 16:13; 1 Coríntios 11:20; 1 Timóteo 4:13; Apocalipse 1:13; oração a Deus – Deuteronômio 22:5; Mateus 6:9; 1 Coríntios 11:13 – 15; 1 Tessalonicenses 5:17; Filipenses 4:6; Hebreus 13:18; Tiago 1:5; o canto de Salmos – 1 Crônicas 16:9; Salmos 95:1, 2; 105:2; 1 Coríntios 14:26; Efésios 5:19; Colossenses 3:16) e estabelece regras diferentes para cada elemento específico do culto. Por exemplo, às mulheres é concedido o direito de entoar louvores na Igreja (Efésios 5:19; Colossenses 3:16; Tiago 1:5 etc.); contudo, não lhes é permitido exercer o ofício da pregação (1 Coríntios 14:34, 35; 1 Timóteo 2:11 – 14), tampouco dirigir a oração pública, ler as Escrituras em público ou administrar os sacramentos. Isso significa que o Princípio Regulador (ou seja, sola Scriptura na esfera do culto público) deve ser cuidadosamente aplicado pela Igreja a cada elemento separado. Se não for isso o que o Rev. Murray deseja que façamos, então o resultado inevitável será o caos litúrgico nas Igrejas. Se alguém ignora o fato de que o canto de louvor é um elemento separado do culto e afirma que o Livro dos Salmos pode ser tratado como um livro de orações da mesma maneira que um manual de louvor, então, logicamente, poderia eliminar o elemento de canto de louvor na Igreja e substituí-lo por oração corporativa. Murray, é claro, rejeitaria tal movimento; mas quando sua posição é levada ao seu fim consistente, esse seria o resultado.
Além disso, um exame cuidadoso das Escrituras revela que a Bíblia de fato nos diz o conteúdo apropriado e autorizado de cada elemento. Enquanto o dom profético ou inspiração divina (como observado acima) era necessário para escrever canções de louvor para o culto público, a Bíblia autoriza o uso de nossas próprias palavras não–inspiradas na oração, desde que sigamos o padrão ou modelo dado por Cristo (cf. Mateus 6:9). Deus promete a seu povo que o Espírito Santo os assistirá quando formarem suas orações (cf. Zacarias 12:10; Romanos 8:26, 27). Portanto, quando Murray essencialmente pergunta: — “Se podemos criar nossas próprias palavras na oração, então por que não podemos também criar nossas próprias canções de culto?”, a resposta é simples. Deus autoriza nossas próprias palavras na oração, mas tem um requisito diferente para o louvor[12].
O próximo argumento de Murray baseia-se no fato de que “a poesia hebraica […] é muito diferente da nossa[13]”. Consequentemente, “deve haver um forte argumento para dizer que as Igrejas que cantavam os Salmos estavam mais corretas[14]”. Murray prossegue explicando que, uma vez que cantar os Salmos provavelmente não seria edificante hoje, os Salmos precisam ser colocados em métrica inglesa. Isso, Murray afirma, envolveria adicionar palavras aos Salmos que não estão lá. Esse argumento, em sua essência, é que uma verdadeira Salmodia Exclusiva não é viável hoje devido às grandes dificuldades em transformar a poesia hebraica em poesia inglesa cantável. Em outras palavras, se os Salmos métricos são traduções infiéis, por que não ser totalmente consistente e ter paráfrases soltas deliberadas e até mesmo novas canções completamente? Esse argumento, em diferentes variações, é bastante comum.
Há várias razões pelas quais esse argumento deve ser rejeitado. Primeiro, esse argumento (mesmo que aceitemos todas as pressuposições de Murray) não refuta de forma alguma a Salmodia Exclusiva. No máximo, provaria que as Igrejas precisam ser muito cuidadosas e exatas ao traduzir os Salmos em métrica. Se tal tarefa é impossível, o que Murray implica (a propósito, não é impossível), então as Igrejas devem aprender a cantar os Salmos sem métrica (há Igrejas que já aprenderam a fazer isso a partir da Nova Versão King James). Se um cristão reformado está verdadeiramente convencido de que os Salmos métricos são inerentemente defeituosos e, portanto, infiéis ao mandamento de cantar Salmos, então, em vez de recorrer a paráfrases grosseiras e composições não–inspiradas, as quais são ainda mais infiéis, ele deveria cantar a fraseologia original a partir de uma tradução literal.
Segundo, a lógica do argumento de Murray é seriamente falha. O argumento de Murray assume que, se uma paráfrase menor dos Salmos é errada, então paráfrases grosseiras e hinos não–inspirados são, portanto, corretos. Esse tipo de lógica é como afirmar que, uma vez que a raiva injustificada no coração é errada, a violência física e o assassinato são justificados. Ou, se o grupo A está fazendo algo errado, o grupo B também pode fazer algo ainda pior. Se há Igrejas que estão usando traduções infiéis dos Salmos ou versões métricas que são paráfrases soltas, então a única solução bíblica é arrepender-se e usar uma tradução fiel.
Murray em seguida, volta sua atenção para saber se pode ser provado que a Salmodia Exclusiva pode ser aplicada à era do Novo Concerto. Ele escreve: — “Se pudesse ser provado que o Saltério sozinho era o louvor autorizado da Igreja do Antigo Testamento, ainda seria uma proposição completamente diferente estabelecer que ele deve permanecer o único manual para o Novo[15]”. Murray então apela a Efésios 5:19 e 1 Coríntios 14:26. Ele aponta que, de todos os comentaristas de que tem conhecimento, nenhum toma a posição de que Efésios 5:19 se refere ao Saltério do Antigo Testamento. Ele também cita Charles Hodge em 1 Coríntios 14:26 (“Cada um de vós tem um salmo”) que diz: — “tal canção dada por inspiração, e não um dos Salmos de Davi[16]”.
Em relação à argumentação de Murray, temos duas considerações. Primeiro, a passagem de 1 Coríntios 14:26 pode de fato ensinar que, antes do fechamento do cânon do Novo Testamento, algumas pessoas na Igreja que tinham o dom da profecia recebiam novas canções divinamente inspiradas pelo Espírito Santo. Tal interpretação certamente se encaixa no contexto onde Paulo está discutindo o uso adequado dos dons revelatórios. Mas perguntamos: — Essa interpretação desaprova a ideia de que apenas canções divinamente inspiradas são permitidas no culto público? Não, de forma alguma! Na verdade, ela suporta a posição de que a inspiração divina era um pré–requisito para escrever canções de culto para a Igreja. Portanto, no máximo, poder-se-ia recorrer a 1 Coríntios 14:26 como um possível texto de prova para justificar a inclusão, no culto público, daquelas poucas canções de adoração inspiradas que, embora encontradas nas Escrituras, não foram reunidas por Deus no Livro dos Salmos. Além disso, se a Igreja apostólica tinha algumas novas canções de culto divinamente inspiradas, isso não afeta esse debate porque: — [a] – como observado, Murray está argumentando por composições não–inspiradas; [b] – os dons revelatórios cessaram e, portanto, não há homens qualificados para compor novas canções inspiradas; e [c] – não há canções inspiradas do Novo Concerto que sobreviveram.
O fato de que a Igreja apostólica não produziu um hinário de canções inspiradas ou não–inspiradas para o culto público é notável. O período de atividade revelatória durou pelo menos quarenta anos. Se hinos estavam sendo compostos, copiados e distribuídos para todas as diferentes Igrejas (o que se poderia esperar se a posição de Murray fosse verdadeira), então haveria muitos hinos sobreviventes do primeiro século. Mas não há nenhum, nem mesmo um. Se a hinódia floresceu na Igreja apostólica, como muitos supõem, é de fato notável que nenhum hino tenha sido descoberto desse período. Também é notável que o Novo Testamento não contenha hinos[17].
Em segundo lugar, a passagem de Efésios 5:19 (cf. Colossenses 3:16) tampouco sustenta o uso de hinos não–inspirados no culto. Pelo contrário, trata-se de um excelente texto de prova em favor da utilização do Saltério no culto do Novo Concerto. Ainda que uma exegese longa e minuciosa dessa passagem ultrapasse os limites deste ensaio, algumas observações se mostram dignas de nota.
[1] – As palavras “salmos, hinos e cânticos espirituais” são melhor definidas não pelo uso moderno ou pela literatura pagã antiga, mas examinando como essas palavras são usadas no contexto do culto na palavra de Deus. Na tradução grega do Antigo Testamento (a Septuaginta), quando se fala de culto, as palavras “salmo” (psalmos), “hino” (humnos) e “cântico” [espiritual] (odee) nunca, jamais são usadas para descrever hinos não–inspirados, mas são sempre usadas para descrever as canções no Saltério ou seus equivalentes inspirados. A palavra “psalmos” ocorre 78 vezes nos Salmos (67 vezes nos títulos dos Salmos). O termo “humnos” é encontrado em 13 Salmos (em 6 títulos) e “odee” é encontrado em 45 Salmos (36 títulos). “Em 2 Samuel, 1 e 2 Crônicas e Neemias, há cerca de 16 exemplos nos quais os Salmos são chamados de ‘hinos’ (humnoi) ou ‘cânticos’ (odai) e o canto deles é chamado de ‘hinódia’ (humneo, humnodeo, humnesis)[18]”. Além disso, nos títulos dos Salmos, é comum encontrar esses termos combinados. Nos títulos dos Salmos, 12 vezes “salmo” e “cântico” são combinados. Duas vezes, “salmo” e “hino” são colocados juntos. Um título de Salmos (76)[19] até combina todos os três (“salmo, hino e cântico”), como em Efésios 5:19 e Colossenses 3:16. Portanto, comparando Escritura com Escritura, temos uma sólida garantia exegética para interpretar “hinos” e “cânticos espirituais” da mesma maneira que “salmos”, porque todos os três termos são repetidamente usados nas Escrituras para descrever os Salmos do Saltério canônico.
[2] – A expressão “salmos, hinos e cânticos espirituais” era um método literário triádico comum para expressar um pensamento ou objeto importante: — o Livro dos Salmos. A Bíblia contém muitas dessas expressões triádicas (por exemplo, Êxodo 34:7, “iniquidade e transgressão e pecado”; Deuteronômio 5:31; 6:1, “mandamentos e estatutos e juízos”; Deuteronômio 6:5, “coração […] alma […] e força”; Mateus 22:37, “coração […] alma […] e mente” (cf. Marcos 12:30; Lucas 10:27); Atos 2:22, “milagres e prodígios e sinais”; Efésios 5:19; Colossenses 3:16, “salmos e hinos e cânticos espirituais”). Quando os propagadores de hinos não–inspirados se agarram à palavra “hino” como se ela autorizasse as canções de Watts ou Wesley (ambos hereges), eles estão agarrando palhas.
[3] – Na passagem paralela, Colossenses 3:16, o contexto imediato indica que os três termos usados por Paulo descrevem uma parte da Palavra infalível de Deus. O Apóstolo diz: — “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente” (Colossenses 3:16). A expressão “palavra de Cristo” é sinônima da “palavra de Deus”. O Filho de Deus pré–encarnado foi o Autor dos Salmos (cf. 1 Pedro 1:11).
[4] – A gramática da passagem também indica que os três termos usados por Paulo descrevem apenas canções inspiradas pelo Espírito. No grego, o adjetivo “espiritual” (ou seja, do Espírito, dado pelo Espírito, ou determinado pelo Espírito Santo [isto é, “inspirado” ou “sopradas por Deus”]) pode se aplicar a todos os três substantivos anteriores. A palavra “pneumatikos” [“espiritual”] qualifica todos os três dativos e é feminina em gênero devido ao gênero do substantivo mais próximo a ela (cânticos). Isso significa que todos os três termos “salmos, hinos e cânticos” são “espirituais” ou inspirados pelo Espírito Santo[20]. Pessoas que apelam a Efésios 5:19 como um texto de prova para hinos não–inspirados no culto público não seguiram princípios sólidos de interpretação bíblica.
A próxima seção de Murray, que começa com o título: — “O Princípio Regulador”, está realmente mal rotulada; pois, após um comentário errôneo sobre o Princípio Regulador[21], Murray passa quase 9 páginas discutindo história da Igreja. O propósito dessa seção é refutar a afirmação dos defensores da Salmodia Exclusiva de que “as melhores Igrejas reformadas e autores” acreditavam que hinos não–inspirados no culto público não eram autorizados. Há várias observações e comentários que precisam ser expressos em relação a essa seção.
Primeiro, a menos que alguém seja católico romano ou um “Steelite[22]”, a história da Igreja não pode resolver controvérsias em doutrina, ética ou culto (leia a Confissão de Fé de Westminster 1:10). Murray até reconhece esse fato na página 20. É bastante estranho que, em um livreto de apenas 32 páginas, Murray passe nove páginas citando seletivamente puritanos e presbiterianos que podem ter considerado hinos não–inspirados como permitidos. Dado o fato de que Murray é um excelente historiador, isso é talvez compreensível. No entanto, mais uma vez, apontamos que o livreto é quase desprovido de exegese e não contém nenhuma prova real das Escrituras de que hinos não–inspirados são autorizados por Deus.
Segundo, a maneira como Murray apela à história da Igreja é frequentemente muito enganosa. Essa afirmação será demonstrada pelas seguintes observações.
[A] – Os puritanos tinham divergências em várias questões (batismo, governo da Igreja, erastianismo[23], justificação desde a eternidade, o magistrado civil e a lei bíblica etc.), e não é difícil para um historiador com acesso a uma boa biblioteca reunir citações seletivamente para dar uma imagem unilateral e distorcida. Os defensores da Salmodia Exclusiva nunca afirmaram que todas as Igrejas reformadas ou puritanos aderiam à Salmodia Exclusiva[24]. Mas, ao contrário da seção histórica de Murray, pode ser provado que era a posição dominante dos presbiterianos desde o período da primeira reforma na Escócia até a segunda metade do século XVIII. A Salmodia Exclusiva também era a posição do Sínodo de Dort (1618 – 1619), um grande sínodo reformado internacional[25].
[B] – É bem conhecido por historiadores que Calvino limitou as canções usadas no culto público aos Salmos e algumas versões métricas de porções das Escrituras. Não há evidências históricas de que Calvino realmente escreveu “Eu te saúdo, que és meu seguro Redentor”, ou que isso foi cantado nas Igrejas reformadas naquela época. Calvino pode não ter sido um defensor consciente da Salmodia Exclusiva como muitos que o seguiram. Mas é desonesto apresentá-lo como um apoio à hinódia não–inspirada. Curiosamente, a mesma autora (Louise F. Benson) que Murray citou para demonstrar que Calvino não era um defensor da Salmodia Exclusiva escreveu em uma obra diferente: — “O hino de composição humana, que havia conquistado com tanta dificuldade um lugar restrito na liturgia da Igreja Latina, que havia se desenvolvido tão fenomenalmente na Reforma Alemã, agora está excluído do culto reformado. As canções inspiradas das Escrituras, substancialmente o Saltério do Antigo Testamento, fornecem o assunto exclusivo de louvor[26]”.
Quanto à questão de se Calvino tinha uma posição principiológica contra hinos não–inspirados no culto público, os comentários de Bushell são acertados. Ele escreve: — “É um fato histórico inegável que canções não–canônicas foram excluídas dos cultos em Genebra e que essa situação decorreu da influência e do desejo de Calvino. É improvável que ele tivesse seguido tal curso de ação, a menos que sentisse que isso era exigido pelas Escrituras, considerando especialmente a importância que ele atribuía ao canto congregacional […]. Há também o fato de que, ao longo de sua longa história de desenvolvimento, o Saltério de Genebra nunca incluiu um único hino[27]”. A única vez que Calvino falou especificamente sobre essa questão por escrito, ele disse: — “[…] Ninguém pode cantar o que é digno de Deus a menos que o tenha recebido diretamente dEle. Assim, após buscarmos em todas as direções, procurando aqui e ali, não encontraremos canções mais excelentes ou adequadas ao nosso propósito do que os Salmos de Davi, inspirados e compostos por ele pelo Espírito Santo. Ao cantá-los, temos a certeza de que Deus colocou essas palavras em nossas bocas, como se Ele mesmo estivesse cantando em nós para exaltar sua glória. [A Igreja] deve, portanto, habituar-se a entoar esses cânticos divinos e celestiais ao lado do bom rei Davi[28]”.
[C] – As inferências de Murray sobre a Igreja escocesa do período da primeira reforma são completamente injustificadas. Ele escreve: — “O Saltério Escocês de 1564, que permaneceu em uso geral até a época da Assembleia de Westminster, foi baseado em grande parte no trabalho de Sternhold e Hopkins. Embora suas versões geralmente se mantivessem mais próximas do original do que as paráfrases, elas claramente não foram compostas com a convicção de que nada além do texto bíblico pudesse ser introduzido[29]”. Em relação a essa afirmação, fazemos as seguintes observações. Realmente não há como Murray saber se esses homens acreditavam no uso de hinos não–inspirados no culto público, a menos que ele possa produzir uma declaração nesse sentido. Além disso, quaisquer que fossem os pensamentos desses homens, a Igreja da Escócia como um todo era contrária aos hinos não–inspirados e não permitia seu uso no culto público. Se a Igreja da Escócia não tinha nada contra hinos não–inspirados, o que Murray implica, então por que eles não usaram hinos, adotaram o uso de um hinário ou designaram membros do Presbitério para produzir hinos para uso público?
[D] – Os Padrões de Westminster, que são o auge da Reforma Protestante e dos credos reformados, tomam explicitamente uma posição de Salmodia Exclusiva tanto na Confissão de Fé (“A leitura das Escrituras com temor piedoso; a pregação sadia, e a audição conscienciosa da palavra […]; o canto de salmos com graça no coração […] são todas partes do culto religioso ordinário de Deus” [21:5]) quanto no Diretório para o Culto Público de Deus (“Após a leitura da palavra, (e o canto do salmo), o ministro que deve pregar […]. É dever dos cristãos louvar a Deus publicamente, cantando Salmos juntos na congregação, e também privadamente na família. Ao cantar Salmos, a voz deve ser ordenada de maneira afinada e grave; mas o principal cuidado deve ser cantar com entendimento, e com graça no coração, fazendo melodia ao Senhor. Para que toda a congregação possa participar disso, todos que sabem ler devem ter um livro de Salmos; e todos os outros, incapacitados por idade ou de outra forma, devem ser exortados a aprender a ler. Mas, por enquanto, onde muitos na congregação não sabem ler, é conveniente que o ministro, ou alguma outra pessoa adequada designada por ele e pelos outros oficiais governantes, leia o salmo, linha por linha, antes do canto[30]”). Essas citações provam que a palavra salmo ou Salmos não se refere a canções de culto em geral, sejam inspiradas ou não–inspiradas, mas ao Livro dos Salmos em particular.
Aqueles que argumentam que a palavra “salmo” nos Padrões de Westminster é apenas um termo geral para qualquer canção de culto, seja inspirada ou não–inspirada, são facilmente refutados pela leitura das Atas das Sessões da Assembleia de Westminster de Divinos[31]. Esta obra demonstra, sem sombra de dúvida, que: — hinos não–inspirados nunca foram sequer considerados pela assembleia; e nenhum ministro ou representante jamais reclamou, ou argumentou, que hinos não–inspirados deveriam ser incluídos no culto público. As únicas questões principais de debate foram se outras traduções dos Salmos em métrica seriam permitidas além do Saltério de Rouse; e houve alguma discussão sobre a questão de entoar os Salmos linha por linha[32].
Após o declínio no presbiterianismo escocês e americano no século XVIII (ou seja, uma perda de ênfase e entendimento do Princípio Regulador do Culto e a influência negativa do revivalismo sentimental pietista), as paráfrases de Watts e depois os hinos não–inspirados fizeram muitas incursões nos grandes corpos presbiterianos. A Salmodia Exclusiva foi oficialmente (ou seja, constitucionalmente) abandonada pela PCUSA em 1788, quando seu novo diretório para o culto mudou a declaração no diretório original (1644), “Canto de Salmos”, para “cantando Salmos e hinos”. O livro de Watts, Hinos, foi oficialmente sancionado pela PCUSA em 1802. O primeiro hinário presbiteriano oficial não apareceu até 1831[33].
Concluímos esta breve seção histórica com um lembrete de que a melhor maneira de verificar a posição dos presbiterianos sobre Salmodia Exclusiva e hinos não–inspirados no passado não é citar as opiniões de alguns ministros aqui e ali; mas, sim, olhar para a discussão corporativa de sínodos, assembleias gerais ou conselhos.
A última seção do livreto de Murray é chamada “o caso positivo para hinos”. Murray escreve: — “Acredito que pode ser argumentado a partir do Novo Testamento não simplesmente que o caso para hinos é deixado em aberto, mas há boas razões para acreditar que o louvor da Igreja não foi destinado a ser deixado exatamente onde estava na antiga dispensação[34]”. Nesta seção, Murray dá várias razões pelas quais ele acredita que os hinos são essencialmente superiores ao Livro dos Salmos. Consideraremos brevemente cada argumento.
Primeiro, após notar muitas das diferenças entre as administrações do Antigo e do Novo Concerto, Murray escreve: — “Toda a verdade evangélica pode ser encontrada no Saltério, mas não no grau em que agora é conhecida”. Se por isso Murray está argumentando que o Saltério é insuficiente porque todos os detalhes minuciosos sobre Cristo e o Evangelho não são encontrados dentro dele, então respondemos com as seguintes observações.
[A] – Embora o Saltério não revele todos os detalhes e doutrinas do Novo Testamento — tampouco do Antigo, pois os Salmos não narram minuciosamente a história de Israel, nem expõem toda a Lei divina ou os escritos dos profetas —, ele nos oferece um quadro amplo e suficiente do que é necessário para o nosso louvor, quando integrado aos demais elementos do culto.A verdade é que nenhum elemento do culto público foi projetado por Deus para nos dizer tudo no culto, independentemente dos outros elementos. Embora os Salmos estejam cheios de rica doutrina e ensino, seu propósito central é o louvor. Eles não foram projetados para substituir a leitura das Escrituras ou o sermão.
Além disso, o Saltério revela um retrato tão claro de Cristo e sua obra que qualquer sugestão de que eles são inadequados em sua exposição da obra de Cristo está errada. Isso mostra ou uma falta de entendimento sobre seu conteúdo, ou é simplesmente uma tentativa de formar uma desculpa para o homem adicionar ao que Deus nos deu para o louvor. Os Salmos ensinam a divindade de Cristo (Salmos 45:6; 110:1), sua filiação eterna (Salmos 2:7), sua encarnação (Salmos 8:5; 40:7 – 9), seus ofícios mediadores como Profeta (Salmos 40:9, 10), Sacerdote (Salmos 110:4) e Rei (Salmos 2:7 – 12; 22:18; 45:6; 72; 110:1). Os Salmos fornecem detalhes inspirados pelo Espírito sobre a traição de Cristo (Salmos 41:9), sua agonia no jardim (Salmos 22:2), seu julgamento (Salmos 35:11), sua rejeição (Salmos 22:6; 118:22), sua crucificação (Salmos 22; 69), seu sepultamento e ressurreição (Salmos 16:9 – 11), sua ascensão (Salmos 24:7 – 10; 47:5; 68:18), e sua segunda vinda e julgamento (Salmos 50:3, 4; 98:6 – 9). Eles também nos falam da vitória do reino de Cristo (Salmos 2:6 – 12; 45:6 e seguintes). Alguns Salmos revelam tanta informação vital sobre a Pessoa e Obra de Cristo que são chamados de Salmos messiânicos (Salmos 2, 8, 16, 22, 40, 45, 69, 72, 110)[35].
[B] – Embora o Saltério não seja exaustivo em nos dizer tudo no Antigo ou Novo Testamento, também não são os hinários não–inspirados. De fato, o Livro dos Salmos é muito mais rico, melhor e mais doutrinariamente completo e equilibrado do que qualquer hinário moderno. Os escritores de hinos historicamente evitaram os aspectos judiciais do caráter de Deus em favor do amor e da felicidade celestial. Eles evitaram os importantes aspectos imprecatórios do louvor que, ao contrário de Murray, não são inadequados na era do Novo Concerto. Os hinos não contêm advertências contra confiar em príncipes (Salmos 146:3, 4) e certamente não enfocam a doutrina da criação de uma maneira que se aproxime do Saltério (por exemplo, veja Salmos 146:6). Os hinários não contêm as muitas antíteses entre os justos e os ímpios que são encontradas no Saltério. Tampouco contêm declarações tão surpreendentes sobre a santa Lei de Deus como encontrado no Salmos 119. Tais exemplos poderiam ser multiplicados extensivamente. Uma vez que é impossível colocar toda a história bíblica, profecia e doutrina em um manual de louvor, isso levanta uma questão importante. Quem você acha que deve decidir o que pertence ao manual de louvor da Igreja – Deus ou o homem pecador?
Murray se recusa a reconhecer que a história da hinologia é uma história de declínio. É apenas uma questão de curso para seres humanos pecadores negligenciarem doutrinas impopulares em seus hinários. Mesmo que um hinário produzido humanamente não contivesse doutrinas não–ortodoxas, ainda seria grosseiramente desequilibrado teologicamente ao enfatizar doutrinas populares enquanto ignora os ensinamentos menos populares. Talvez, porque as canções de louvor estão nos lábios do povo de Deus semana após semana e dia após dia, uma razão pela qual Deus limitou seu uso a canções divinamente inspiradas foi para nos proteger de nós mesmos; para garantir que o culto não se tornasse centrado no homem, desequilibrado ou mesmo herético[36].
Segundo, Murray acha que é inadequado usar apenas a terminologia do Antigo Concerto no louvor do Novo Concerto. Ele escreve: — “É então crível que a linguagem do louvor cristão deva ser confinada às palavras de uma era de muito menos luz e privilégio?[37]”. Há vários problemas com essa pergunta.
[A] – Embora os Salmos contenham alguns louvores expressos na terminologia das sombras do Antigo Concerto das coisas porvir, grande parte do livro é fácil de entender e poderia ter sido escrito em qualquer dispensação. Além disso, com o cânon do Novo Testamento completo, entendemos plenamente o significado desses conceitos. De fato, o Saltério foi menos útil e muito mais difícil como um manual de louvor para os santos do Antigo Testamento do que para os do Novo. Os próprios Apóstolos não entenderam como Jesus de Nazaré cumpriu muitas das profecias do Antigo Testamento até que Cristo se manifestasse a eles após a ressurreição (Lucas 24:44 – 49; João 20:19 – 31). Argumentar que o Saltério é insuficiente, precisamente no momento em que se tornou mais relevante e útil, carece de evidências bíblicas sólidas e de bom senso.
[B] – O fato de que Murray não gosta da realidade de que Deus escolheu reunir o hinário inspirado da Igreja antes da morte e ressurreição de Cristo é irrelevante. Murray e outros podem não gostar da realidade de que o Saltério contém muita terminologia do Antigo Testamento que deve ser vista através das lentes do Novo Testamento. Mas perguntamos, como isso prova a autorização divina para o uso de hinos não–inspirados? O fato de que algo não parece certo para nós ou que preferiríamos que algo fosse feito de maneira diferente não cumpre o requisito de prescrição divina para uma nova prática de culto. Murray ainda deve demonstrar a partir das Escrituras que o uso de hinos não–inspirados no culto público é ordenado, ou ele deve encontrar exemplos históricos do uso de hinos não–inspirados no culto público nas Escrituras. Seu livreto não contém tal argumentação.
Terceiro, Murray continua sua linha anterior de argumentação com a afirmação de que “é difícil, e às vezes impossível, fazer da linguagem de Davi e Asafe a expressão mais apropriada da experiência cristã[38]”. Murray apoia essa afirmação com duas linhas de raciocínio.
[A] – A primeira (seguindo Watts) é a ideia de que os Salmos imprecatórios, como escritos e intencionados, são inadequados para o louvor do Novo Concerto[39]. Esse argumento deve ser enfaticamente rejeitado porque essas orações pela destruição dos ímpios impenitentes foram escritas pelo Espírito Santo e estão enraizadas na natureza e caráter santo e justo de Deus. Como Senhor Soberano, Deus possui o direito de erradicar e destruir todos os seres malignos de sua criação. Se essas canções imprecatórias são inadequadas ou imorais para uso na era do Novo Concerto, elas também seriam erradas para uso na era do Antigo Concerto. A natureza e o caráter de Deus, bem como sua Lei moral, nunca mudam. As visões de Isaac Watts sobre essa questão são praticamente blasfemas.
[B] – A segunda linha de argumentação de Murray é talvez a mais surpreendente e absurda de todo o livreto. É aqui que Murray tenta demonstrar que há hinos não–inspirados que “expressam melhor os sentimentos do crente a Cristo crucificado” do que o Salmos 22. Murray pode preferir os hinos que cita ao Salmos 22, mas quem é ele para decidir o que outros cristãos pensam sobre o Salmos 22? É assim que o culto da Igreja do Novo Concerto deve ser decidido: — por sentimentos pessoais, impressões subjetivas, sentimentalismo e emocionalismo? É essa exaltação dos sentimentos subjetivos dos crentes que é responsável pela substituição das canções inspiradas, majestosas, desafiadoras e intelectuais do Saltério por canções pop carismáticas modernas e mantras ao estilo hippie. Além disso, ao contrário dos sentimentos subjetivos de Murray, não há hinos não–inspirados que cheguem perto do Salmos 22. Como observa Spurgeon: — “Para expressões de lamento que surgem de profundezas indizíveis de angústia, podemos dizer deste salmo, ‘não há nenhum como ele’. É a fotografia das horas mais tristes do Senhor, o registro de suas palavras moribundas, o lacrimatório de suas últimas lágrimas, o memorial de suas alegrias expirantes […]. Diante de nós, temos uma descrição tanto da escuridão quanto da glória da cruz, os sofrimentos de Cristo e a glória que seguirá. Ó, por graça para nos aproximarmos e vermos essa grande visão! Devemos ler reverentemente, tirando os sapatos dos pés, como Moisés fez na sarça ardente, pois se há solo sagrado em algum lugar nas Escrituras, é neste salmo[40]”.
Além disso, ao cantarmos o Salmos 22, podemos cantar com uma fé completa nesta descrição de Cristo crucificado, pois estamos cantando as próprias palavras de Deus. Mas, mesmo na escolha de hinos supostamente melhores de Murray, não podemos cantar com esse tipo de fé porque esses hinos são escritos por homens pecadores e falíveis. John W. Keddie escreve: — “O próprio Iain Murray menciona alguns hinos bem conhecidos que ele considera superiores aos Salmos ao falar da cruz (p. 25). Ele menciona ‘When I Survey the Wondrous Cross (Quando Eu Contemplo a Cruz Maravilhosa)’ de Cowper. No entanto, podemos perguntar: — Onde a Bíblia fala da cruz como ‘maravilhosa’? Por que Cowper não escreveu, ‘Quando Eu Contemplo a Cruz Amaldiçoada’ (em termos de Gálatas 3)? ‘O Sacred Head! Sore Wounded (Ó Cabeça Sagrada, Ferida ou Ó Cabeça Sagrada, Ensanguentada)’ de Paul Gerhardt também é mencionado. Mas por que foi considerado necessário em alguns hinários mudar o título para, ‘O Sacred Head Once Wounded (Ó Cabeça Sagrada, Outrora Ferida ou Ó Cabeça Sagrada, Antes Ferida)’? E novamente, em ‘And Can It Be’ de Charles Wesley, a imagem é exuberante e a música que a acompanha pode ser comovente. Mas olhe para o verso 3 e pergunte: — Cristo realmente se esvaziou de tudo exceto amor? O que isso significa? De onde Wesley tirou essa ideia [herética]?[41]”.
Quarto, Murray em seguida apresenta um argumento baseado na falta de certas expressões nos Salmos encontradas no Novo Testamento. Ele cita James Hamilton dizendo: — “Nunca lhe ocorre, como um estranho teste de espiritualidade, que você cantaria cânticos por cinquenta anos sem jamais mencionar Emanuel, a Rocha dos Séculos, o Cordeiro de Deus, a Ressurreição e a Vida? Não é um estranho sinal de crescimento na graça e de preparação para o céu, que você tenha estado cantando todo esse tempo sem ainda ter chegado ao nome de Jesus?[42]”. Embora esse seja um argumento muito comum contra a Salmodia Exclusiva, na realidade, é nada mais do que um apelo ao sentimentalismo sem fundamento bíblico. Esse ponto será demonstrado pelas seguintes observações.
[A] – A Bíblia não nos ordena a garantir que todas as diferentes designações para Deus ou Jesus sejam incluídas em nossas canções de louvor. Se o fizesse, a objeção de Murray seria significativa. Além disso, há nomes bíblicos para Cristo no Antigo Testamento que nem mesmo são explicitamente identificados ou usados no Novo Testamento (por exemplo, Jehovah Tzidkenu, [cf. Jeremias 23:5, 6]). Essa realidade, no entanto, não significa que o Novo Testamento é de alguma forma insuficiente e precisa ser suplementado pelo homem.
[B] – O argumento de Murray pressupõe que o culto a Jesus Cristo seja de alguma forma insuficiente ou inferior se tais designações bíblicas não forem usadas. Mas essas designações e a palavra “Jesus” não são intrinsecamente sagradas, místicas ou santas. Não servimos ou adoramos essas palavras, mas sim a Pessoa que essas palavras representam ou apontam. Portanto, se as ideias que essas palavras representam são encontradas no Saltério (e certamente estão), então a objeção de Murray não passa de um apelo inteligente às nossas emoções. Respeitamos todas as diferentes designações para Deus e Cristo nas Escrituras e não as usamos de maneira irreverente por causa da Pessoa por trás do nome.
Na Bíblia, a expressão “em nome” não se refere a um poder mágico conectado aos sons das sílabas, mas a um reconhecimento ou confirmação da pessoa que é nomeada. Quando Paulo diz: — “que ao nome de Jesus todo joelho se dobre” (Filipenses 2:10), ele se refere a um reconhecimento do poder, autoridade e majestade da Pessoa teantrópica, não das sílabas. “Ao nome de Jesus; não ao som da palavra, mas à autoridade de Jesus; todos devem prestar homenagem”. Como Calvino observa: — “[…] Paulo fala de toda a dignidade de Cristo, restringir seu significado a duas sílabas seria como alguém examinar atentamente as letras da palavra Alexandre, para encontrar nelas a grandeza do nome que Alexandre [o Grande] adquiriu para si mesmo. Tal sutileza, portanto, não é sólida, e o artifício é alheio à intenção de Paulo. Mas pior que ridículo é o comportamento dos sofistas sorbonistas[43], que inferem desta passagem que devemos dobrar os joelhos sempre que o nome Jesus for pronunciado, como se fosse uma palavra mágica, na qual toda virtude estivesse incluída no som dela. Paulo, ao contrário, fala da honra que deve ser prestada ao Filho de Deus — não a meras sílabas[44]”.
[C] – O próprio Jesus Cristo considerava perfeitamente aceitáveis os sinônimos bíblicos para o culto público. Observe a fórmula batismal dos próprios lábios do nosso Senhor: — “batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28). As únicas pessoas de que este autor tem conhecimento que exigem o uso da palavra “Jesus” durante o batismo são os antitrinitarianos do grupo “Somente Jesus”. Cristo nos ensina que não precisamos dizer a palavra “Jesus” para que o batismo seja bíblico. Uma referência à segunda pessoa da Trindade é suficiente. Portanto, seguindo o próprio raciocínio do nosso Senhor, as abundantes referências do Saltério à pessoa e à obra de Cristo são perfeitamente aceitáveis como louvor do Novo Testamento.
[D] – Os autores do Novo Testamento, escrevendo sob inspiração divina, substituíram a palavra grega “kurios” (“Senhor”) pela palavra hebraica que significa o nome do Pacto de Deus (Yahweh ou Jeová) ao citar passagens do Antigo Testamento (por exemplo, Mateus 3:3; Isaías 40:3; Atos 2:20, 21; Joel 2:31, 32; Marcos 1:3; Isaías 40:3; Atos 2:25; Salmos 16:8; Atos 2:34; Salmos 68:18 etc.). Ao fazer isso, eles seguiam geralmente a tradução grega do Antigo Testamento (a LXX), comumente usada pelos judeus de língua grega de sua época. Se havia algo especial ou único sobre a palavra Jeová em si, em vez da verdade ou significado por trás da palavra, então tal substituição teria sido antibíblica. Se sabemos que a palavra Senhor no Saltério se refere a Jesus Cristo, então cantar essa palavra é tão honroso quanto pronunciar a palavra “Jesus” em si.
[E] – Aqueles que apelam à ideia de que devemos cantar o nome de Jesus são inconsistentes. O mediador divino–humano nunca foi chamado de Jesus. Seu nome era Yehoshua, não Jesus. Não conhecemos hinos não–inspirados que falem de Yehoshua (com exceção do movimento judaico messiânico). Pode-se objetar dizendo, “Sim, mas Jesus é uma transliteração da palavra grega Iesous, a qual é uma transliteração da palavra hebraica Yehoshua. Portanto, a palavra inglesa Jesus representa Yehoshua”. Esse ponto é verdadeiro. No entanto, não prova que a palavra “Jesus” “é mais importante ter nos lábios do que outros nomes pelos quais Deus se faz conhecido[45]”. Quando os cantores de Salmos louvam o Redentor cantando as canções inspiradas das Escrituras, eles estão adorando Jesus Cristo da maneira que Ele ordenou. Isso é o que agrada a Deus. Não há evidências de que Deus prefira o nome de Jesus sobre outras designações. O argumento do “nome de Jesus” é uma suposição sem evidências.
[F] – O nome Jesus ou Yehoshua significa “Jeová é salvação”. Esse nome foi dado por um anjo a Maria para indicar a missão da criança. “Você chamará seu nome JESUS, pois Ele salvará seu povo de seus pecados” (Mateus 1:21). O propósito do nome é nos ensinar sobre o papel de Cristo como o redentor dos eleitos de Deus. Os Salmos nos ensinam sobre o papel de Cristo como Salvador? Sim, eles o fazem abundantemente (por exemplo, Salmos 2:7 – 12; 8:5; 16:9 – 11; 22; 24:17 – 10; 35:11; 40:7 – 9; 41:9; 45:6 e seguintes; 47:5; 50:3, 4; 68:18; 69; 72; 110 etc.). Dado o fato de que o Saltério nos dá um quadro claro de Cristo e sua obra redentora, a ideia de que devemos cantar o nome de Jesus para adorá-lo adequadamente simplesmente não é verdade. Mais uma vez, deve-se enfatizar que é o que o nome representa ou aponta que é importante. Uma vez que alguém entende as riquezas doutrinárias contidas no Saltério, ele entenderá que o argumento do “nome de Jesus” é realmente apenas uma desculpa para se afastar do manual de louvor todo suficiente que Deus nos deu – os Salmos.
Quinto, o argumento final de Murray baseia-se em sua interpretação da história da Igreja. Ele escreve: — “Acredito que há uma confirmação da história do argumento de que as maiores bênçãos da era do Novo Testamento justificam formas adicionais de louvor. Não é acidental que as eras que foram mais ricas na produção de hinos espirituais tenham sido aquelas em que houve uma nova medida do Espírito dada às Igrejas[46]”. Há vários problemas com essa afirmação.
[A] – Simplesmente não é verdade. A Igreja apostólica, que estabeleceu Igrejas cristãs por todo o Império Romano, não produziu hinos ou hinários. A reforma sob João Calvino, que produziu a maior escola para Cristo naquela época em todo o mundo e alcançou a mais completa reforma da doutrina, culto e governo da Igreja, não produziu novos hinos ou hinários. Poderíamos adicionar o trabalho surpreendente de João Knox e Andrew Melville; o avivamento abalador do mundo de 1638 e homens como George Gillespie, Samuel Rutherford e Robert Baillie. Houve também o trabalho da Assembleia de Westminster de Divinos, que produziu a melhor confissão da Igreja que o mundo já viu. Mais uma vez, Murray está apresentando uma interpretação muito tendenciosa e unilateral da história da Igreja.
[B] – Murray essencialmente ignora o fato de que o revivalismo dos séculos XVIII e XIX foi uma mistura que frequentemente produziu frutos podres. O revivalismo de homens como John e Charles Wesley com sua mistura de Teologia corrupta e hinos não–inspirados foi parte da queda da religião evangélica nas Ilhas Britânicas e nos Estados Unidos. Os hinos frequentemente se tornam pequenos cavalos de Troia, expondo as pessoas ao pietismo antibíblico, arminianismo, conceitos humanísticos de amor e justiça, conceitos distorcidos dos atributos de Deus, conceitos feministas modernos da Igreja e da família e até conceitos coloniais/racistas da Grã–Bretanha. Por exemplo, uma vez que a Igreja Presbiteriana nos EUA se desvinculou do Princípio Regulador ou sola Scriptura no culto, era apenas uma questão de tempo para essa Igreja se mover em direção ao arminianismo, prelacismo[47] no culto e modernismo. Ao contrário das afirmações de Murray, poderia ser demonstrado que a autonomia humana no culto (ou seja, culto da vontade) historicamente levou à exaltação da vontade humana na salvação e na ética. Em resumo, o uso de hinos não–inspirados tem sido um desastre para as Igrejas reformadas.
De fato, pode-se argumentar que o uso de hinos não–inspirados e o conceito muito frouxo (e realmente inexistente) de autorização divina no qual a hinódia se baseia é diretamente responsável pela ampla tomada da “música cristã contemporânea” (ou seja, culto “pop” carismático–arminiano) em praticamente todas as denominações reformadas que outrora aderiam à velha hinódia não–inspirada. Mesmo em muitas Igrejas onde esse novo chamado “culto celebrativo” não tomou completamente os hinos tradicionais, a prática é geralmente um culto misturado com um pouco disto e um pouco daquilo. Essa realidade histórica demonstra que aqueles que semeiam o vento colherão o redemoinho. Quando as Igrejas reformadas permitiram a autonomia humana no culto, contrária à Bíblia e seus padrões, elas liberaram o monstro da tradição humana que agora não podem conter. A única solução para esse problema muito sério é voltar a uma interpretação confessional estrita do Princípio Regulador e do Saltério inspirado suficiente que Deus nos deu tão graciosamente.
Conclusão.
Após uma análise cuidadosa do livreto de Iain H. Murray, concluímos com algumas somas e observações importantes. Primeiro, Murray nunca produziu qualquer evidência de que hinos não–inspirados tenham sido autorizados por Deus. Ele não apresenta um único mandamento, exemplo histórico inspirado ou inferência lógica sólida a esse respeito. Em vez disso, Murray recorre principalmente a um apelo a certos indivíduos na história da Igreja que concordam com ele, e ele confia em argumentos baseados em sentimentalismo e emoção. Segundo, Murray apresenta uma visão muito unilateral e tendenciosa da história da Igreja. Ele cita seletivamente certos puritanos e ignora a decisão da Assembleia de Westminster sobre essa questão, que é explícita e inegável. Terceiro, as tentativas de Murray de argumentar a partir das Escrituras são ou completamente falaciosas, ou, no máximo, autorizariam apenas as poucas canções inspiradas nas Escrituras que estão fora do Saltério canônico. Dadas essas e outras considerações, pedimos a nosso querido irmão que se arrependa do declínio apresentado em seu livreto e, em vez disso, levante a bandeira da verdade em oposição às corrupções generalizadas no culto encontradas nas chamadas Igrejas reformadas de nossos dias.
Paz e graça.
[1] Por Brian Schwertley (2007).
[2] Iain H. Murray, Should the Psalter be the Only Hymnal of the Church? (Carlisle, PA: Banner of Truth, 2001), 4 – 5.
[3] Murray afirma: — “É difícil, e por vezes impossível, fazer com que a linguagem de Davi e Asafe seja a expressão mais apropriada da experiência cristã” (23).
[4] É notável que, em sua lista de “publicações recentes” favoráveis à Salmodia Exclusiva (ver nota 3), Iain Murray omita a obra moderna mais significativa sobre o tema: — The Songs of Zion: A Contemporary Case for Exclusive Psalmody, de Michael Bushell (Pittsburgh, PA: Crown & Covenant, [1977] 1980, 93).
[5] Iain H. Murray, 6.
[6] Ibid., 7.
[7] Curiosamente, o Salmos 72 é identificado como um Salmos de Salomão, não de Davi. Seja o que for que Salmos 72:20 signifique, não pode indicar que todos os Salmos anteriores a este foram escritos por Davi.
[8] “Porque no livro dos Salmos está escrito: — Fique deserta a sua habitação, e não haja quem nela habite, e: — Tome outro o seu bispado” (ACF). Este versículo é uma citação dos Salmos 69:25 e 109:8, aplicando-se à queda de Judas Iscariotes.
[9] Michael Bushell, The Songs of Zion, 14 – 15. Curiosamente, vários estudiosos do Antigo Testamento referem-se ao Livro dos Salmos como o hinário do Segundo Templo (por exemplo, veja A. F. Kirkpatrick, The Book of Psalms [Grand Rapids: Baker, (1902) 1982], xv).
[10] Iain Murray, 8.
[11] Ibid.
[12] Murray rejeita o ensino da Confissão de Fé de que as Escrituras definem até mesmo o conteúdo de cada elemento distinto do culto. Ele escreve: — “O Princípio Regulador controla quais devem ou não ser as partes do culto: — é o louvor cantado que é autorizado como uma parte, não as próprias palavras de que essa parte deve ser composta” (p. 11, ênfase adicionada). O problema com a afirmação de Murray é que ela contradiz explicitamente as Escrituras. A leitura das Escrituras requer a leitura exclusivamente da Bíblia, não dos Apócrifos. A pregação exige a exposição das Escrituras (Marcos 4:34; Lucas 24:27; Atos 2:14 – 40; 17:3; 18:26; 28:23 etc.), não dos Pais da Igreja ou do Bhagavad Gita. A oração requer seguir o padrão de Cristo com nossas próprias palavras ou petições não–inspiradas (Mateus 6:9). E o canto de louvor exige canções escritas pelo Espírito Santo (1 Crônicas 6:39; 15:17; 16:5 e seguintes; 25:1 – 7; 2 Crônicas 25:1 – 7; 29:25 – 30 etc.). Bushell escreve: — “Claramente, se a pregação, o canto e o ensino requerem autorizações distintas quanto a quem pode realizar esses atos no culto, então também requerem autorizações distintas quanto ao seu conteúdo verbal. Observações semelhantes podem ser feitas sobre o paralelo frequentemente mencionado entre oração e canto. Argumenta-se que, uma vez que nossas orações contêm palavras não–canônicas, nossas canções também podem contê-las. Mas ninguém argumentaria que, por orarmos no culto, não precisamos cantar no culto (tomando essas palavras aqui como geralmente entendidas), ou que, por termos um hinário para uso no culto, seria, portanto, permitido ter um livro de orações. O paralelo simplesmente não pode ser mantido consistentemente. O problema com toda essa linha de raciocínio é que ela abstrai os termos ‘oração’, ‘ensino’, ‘pregação’ e ‘canto’ de seu contexto escriturístico e os trata como nada mais que fenômenos linguísticos, em vez de aspectos vivos do culto bíblico. Tal procedimento é inválido e não pode deixar de levar a conclusões errôneas. Cantar, pregar e ensinar pressupõem um conteúdo e um contexto. Não se pode fazer justiça a esses conceitos sem manter seu contexto em mente” (The Songs of Zion, 49 – 50).
[13] Iain H. Murray, 9.
[14] Ibid., 10.
[15] Ibid.
[16] Charles Hodge, A Commentary on Ephesians (Carlisle, PA: Banner of Truth, [1856] 1964), 304.
[17] O único recurso de um defensor de hinos não–inspirados em relação a 1 Coríntios 14:14 – 26 seria argumentar que essa passagem evidencia a insuficiência do Saltério para o culto público do Novo Pacto. No entanto, a possível inferência de insuficiência não justifica nem fornece autorização divina para hinos não–inspirados. O fato de que a Igreja apostólica não produziu um hinário inspirado ou não–inspirado para suplementar o Saltério indica que, mesmo que essas fossem novas canções inspiradas, elas não foram destinadas ao uso perpétuo na Igreja. Uma vez que os dons carismáticos foram projetados para auxiliar a Igreja antes da conclusão do cânon do Novo Testamento, essas canções proféticas podem ter sido uma medida temporária, pois as Igrejas do Novo Pacto, em sua infância, não teriam capacidade de interpretar e compreender adequadamente os Salmos sem o cânon do Novo Testamento. Há também a possibilidade distinta de que essas profecias fossem cantadas apenas por indivíduos e nunca destinadas ao uso corporativo. Não se deve descartar a possibilidade de que a palavra “salmo” em 1 Coríntios 14:14 – 26 refira-se exclusivamente aos Salmos do Antigo Testamento, uma interpretação comum. Seja qual for a visão adotada, essa passagem não fornece autorização divina para os hinários modernos não–inspirados.
[18] Michael Bushell, 86.
[19] O título do Salmos 76 combina precisamente dois dos três termos usados por Paulo em Efésios 5:19 e Colossenses 3:16 — e o contexto e a tradição litúrgica o ligam intimamente ao terceiro. Eis a forma do título, conforme a ACF: — “Ao músico–mor sobre Neguinote, Salmo de Asafe, Cântico” e conforme a ACR: — “Salmo e Cântico de Asafe para o cantor–mor, sobre Neguinote”. Em hebraico: — לַמְנַצֵּחַ בִּנְגִינוֹת מִזְמוֹר לְאָסָף שִׁיר – Lammenatzeach binneginot, mizmor leAsaf, shir. Analisemos os termos: — מִזְמוֹר (mizmor) — traduzido como “Salmo” (do grego ψαλμός–psalmos); שִׁיר (shir) — traduzido como “Cântico” (do grego ᾠδή–ōdē). O termo “Hino” (ὕμνος–hymnos) não aparece explicitamente neste título, mas é amplamente reconhecido que “hino” é uma das formas de cântico sacro presentes nos Salmos, especialmente nas porções laudatórias e celebrativas (como o Halel: — Salmos 113 — 118). Portanto, o título do Salmos 76 combina “salmo” (mizmor) e “cântico” (shir) — e como os títulos e o conteúdo dos Salmos abrangem o gênero “hino” (hymnos), podemos entender que essa tríade paulina encontra eco na estrutura do Saltério. Isso reforça o argumento de que Efésios 5:19 e Colossenses 3:16 não introduzem gêneros extra–canônicos de música, mas referem-se aos próprios termos usados nos títulos hebraicos dos Salmos, traduzidos na Septuaginta como: — “ψαλμοί (psalmoi) — Salmos, ὕμνοι (hymnoi) — Hinos, ᾠδαί (ōdai) — Cânticos”. Logo, há sim uma correspondência clara, especialmente em títulos como o do Salmos 76, com a tríade inspirada de cânticos prescrita por Paulo para o culto cristão — nota do tradutor.
[20] See John Murray, “Song in Public Worship” in Worship in the Presence of God, (eds. Frank J. Smith and David C. Lachman, Greenville Seminary Press, 1992), 188. For the New Testament meaning of pneumatikos see B. B. Warfield, The Presbyterian Review, 1:561 (July 1880). For a more detailed exegesis of Eph. 5:19 which refutes Iain H. Murray’s view see: Michael Bushell, The Songs of Zion, 83 – 93.
[21] Iain Murray afirma que o Princípio Regulador não se estende ao conteúdo do louvor. Essa afirmação foi refutada acima na seção número 3. Observe que a afirmação de Murray não é acompanhada por nenhuma evidência de apoio.
[22] Steelite é um termo que, no contexto eclesiástico reformado, especialmente no presbiterianismo histórico escocês, refere-se a uma tradição específica de Igrejas que seguem estritamente os princípios e práticas do Covenanters — um ramo do presbiterianismo que busca permanecer fiel aos padrões e votos dos Pactos nacionais e solenes da Escócia do século XVII, particularmente: — [1] – A Confissão de Fé de Westminster (1646); [2] – o Juramento do Pacto Nacional (1638), e [3] – o Pacto Solene e Nacional (Solemn League and Covenant, 1643). Origem do nome “Steelite”: — O nome “Steelite” deriva de David Steele (1803 – 1887), um ministro presbiteriano escocês que emigrou para os Estados Unidos. Ele liderou um grupo que se separou da Reformed Presbyterian Church (Covenanter), acusando-a de comprometer-se com práticas modernas e de abandonar princípios históricos fundamentais, como: — [1] – O testemunho fiel contra as heresias públicas da sociedade civil e da Igreja visível; [2] – a exclusividade de Salmos inspirados no culto público, sem instrumentos; [3] – a não–participação em eleições civis, sob a alegação de que os governos modernos não reconhecem formalmente a autoridade de Cristo Rei. David Steele e seus seguidores mantiveram uma postura de separação estrita, o que deu origem à designação “Steelite” — um termo originalmente pejorativo, mas que passou a identificar esse ramo específico do presbiterianismo Covenant estrito. Características dos Steelites — [1] – Exclusivo uso do Saltério no culto (sem hinos humanos); [2] – rejeição de instrumentos musicais no culto público; [3] – forte ênfase na continuidade do testemunho reformado escocês; [4] – crítica ao ecumenismo e à apostasia das Igrejas presbiterianas modernas; [5] – rejeição da participação política em regimes que não reconhecem explicitamente o senhorio de Cristo sobre as nações. Situação atual — Os steelites existem ainda hoje em pequenos grupos, principalmente nos EUA, Canadá e algumas partes da Escócia. Eles são considerados por muitos como ultraconservadores ou separatistas, mas eles se veem como os últimos fiéis portadores do testemunho reformado histórico, especialmente da tradição dos mártires Covenanters — nota do tradutor.
[23] O erastianismo é uma visão teológica e política que defende a supremacia do Estado sobre a Igreja em questões eclesiásticas, incluindo doutrina, disciplina e governo da Igreja. O termo deriva do nome de Thomas Erastus (1524 – 1583), um médico e teólogo suíço que argumentou que o Estado, e não a Igreja, deveria ter a autoridade final sobre assuntos religiosos, especialmente na aplicação de disciplina e na administração de assuntos eclesiásticos. Ele escreveu 100 teses (mais tarde reduzidas para 75) nas quais argumentava que os pecados cometidos pelos cristãos deveriam ser punidos pelo Estado e que a Igreja não deveria reter os sacramentos como forma de punição. Elas foram publicadas em 1589, após sua morte, com o título “Explicatio gravissimae quaestionis” — nota do tradutor.
[24] Após 1696, a hinodia ganhou aceitação entre os dissidentes [isto é, vários independentes] e, eventualmente, entre os anglicanos. Os Salmos métricos cederam lugar, em grande parte, a paráfrases de Salmos usadas como hinos (particularmente aquelas de Isaac Watts) ou a cânticos não métricos. O primeiro material adicional para o culto permitido em muitas Igrejas escocesas foi a Escritura metrificada no estilo do livro de 1650 [o Saltério de Rous]: — As Paráfrases Escocesas (1781). Hinos modernos [não–inspirados] foram introduzidos pela Igreja do Alívio no final do século XVIII, mas não se tornaram amplamente difundidos no presbiterianismo escocês até aproximadamente entre 1850 e 1875 (J. S. Andrews, “Psalms, Psalter”, em, org. ed. Nigel M. de S. Cameron, Dictionary of Scottish Church History and Theology [Downer’s Grove, IL: Intervarsity Press, 1993], 683).
[25] “O Grande Sínodo foi convocado pelos Estados Gerais da Holanda em 13 de novembro de 1618. Entre os 84 delegados holandeses estavam 18 comissários seculares. Também participaram 27 delegados de vários estados alemães, Suíça, Inglaterra e Escócia” (David N. Steele, Curtis C. Thomas, S. Lance Quinn, The Five Points of Calvinism [Phillipsburg, NJ: Presbyterian & Reformed, (1963) 2004], 4).
[26] Louise F. Benson, The Hymnody of the Christian Church (Richmond: John Knox Press, 1956), 86, as quoted in Bushell, 178.
[27] Michael Bushell, 179 – 180. A única possível exceção a isso foi a primeira edição do Saltério de Genebra (1542), que incluía o Credo dos Apóstolos, o qual, pelo menos nos primeiros dias de Genebra sob Calvino, era cantado apenas antes da celebração da Ceia do Senhor. Com relação a essa exceção, considere o seguinte: — Primeiro, ele era cantado como uma confissão. Segundo, naquela época, tanto católicos romanos quanto protestantes acreditavam que o Credo havia sido composto pelos Apóstolos. Calvino o considerava apostólico (ver Institutas II.16.18 e Tratados Teológicos, 92). Portanto, embora não fosse uma porção das Escrituras, não era visto como um hino não–inspirado. Terceiro, ele foi removido da versão final e autorizada do Saltério (1562). Para uma discussão detalhada, veja Bushell, 179 – 181.
[28] Do Epistre ua lecteur em La forme des priers et chants ecclesiastiques (1543), em Calvino, Opera, Vol. VI, pp. 171ss., em Bushell, 181-182. “Os Salmos, na visão de Calvino, são tão superiores aos hinos humanos que colocar estes últimos ao lado dos primeiros só poderia ser um ato de impiedade” (Ibid., 182).
[29] Iain Murray, 13.
[30] To read the Westminster Directory of Worship on this issue see: Westminster Confession of Faith (Glasgow: Free Presbyterian Publications, [1646] 1958, 76, 94), 376, 393.
[31] Alex F. Mitchell and John Struthers, eds., Minutes of the Sessions of the Westminster Assembly of Divines While Engaged in Preparing Their Directory for Church Government, Confession of Faith, and Catechisms (November 1644 to March 1649) from Transcripts of the Originals Procured by a Committee of the General Assembly of the Church of Scotland (Edmonton, AB, Canada: Still Waters Revival Books, 1991 [1874]).
[32] Ibid., see 163, 221, 222, 298.
[33] Para uma discussão mais aprofundada sobre o abandono da Salmodia Exclusiva pela PCUSA, consulte Bushell, 198 – 212. O abandono da Salmodia Exclusiva por outras denominações presbiterianas e Igrejas reformadas holandesas é abordado nas páginas 212 a 220. Para leituras adicionais sobre a PCUSA e os Salmos de Watts, veja Charles Hodge, The Constitutional History of the Presbyterian Church in the United States of America (Filadélfia: Presbyterian Board of Publications, 1851), parte 2, 244 – 306.
[34] Iain Murray, 20.
[35] Para uma excelente discussão sobre a suficiência do Saltério, consulte Michael Bushell, 10 – 52.
[36] Não se pode confiar ao homem a responsabilidade de selecionar cânticos de louvor para os lábios do povo de Deus semana após semana, como evidencia o Trinity Hymnal, o hinário oficial da Igreja Presbiteriana Ortodoxa (OPC), uma denominação reformada considerada “conservadora”. Muitos o consideram o melhor hinário já produzido. Contudo, de suas 742 seleções, apenas uma minoria são Salmos. Dos 150 cânticos inspirados do Saltério, pelo menos 50 foram completamente omitidos, e a maioria dos demais aparece como paráfrases imprecisas ou hinos vagamente baseados nos Salmos. “Se considerarmos apenas as seleções classificadas como traduções métricas de um salmo ou parte de um salmo, apenas 41 salmos estão representados neste hinário […] [e a maioria] desses salmos é apresentada de forma incompleta. Os 150 Salmos do Saltério inspirado contêm 2.461 versos. Rejeitando hinos que alegam uma conexão superficial com algum salmo ou paráfrases repletas de interpolações humanas como representantes da palavra de Deus, resta muito pouco. As 41 porções de salmos, que são traduções métricas dos originais, contêm apenas 370 versos, o que significa que impressionantes 85% do Saltério foram eliminados” (Louis F. DeBoer, Hymns, Heretics and History: A Study in Hymnody [Sanderstown, RI: American Presbyterian Press, 2004], 150 – 151). Tragicamente, os editores do Trinity Hymnal, guiados pela sabedoria humana, não apenas negligenciaram o que Deus ordenou, mas também julgaram prudente incluir hinos populares compostos por hereges, como unitaristas, católicos romanos, arminianos e feministas. Assim, os líderes da OPC e de outras denominações reformadas, como a PCA, são diretamente responsáveis por expor famílias do pacto a ideias heréticas semana após semana. A história da Igreja demonstra que hinos não–inspirados consistentemente suplantaram os Salmos. Esses hinos têm sido profundamente prejudiciais ao povo de Deus, pois, sem perceber, as pessoas saturam suas mentes com doutrinas falsas e filosofias perigosas ao cantá-los repetidamente.
[37] Iain H. Murray, 23.
[38] Ibid.
[39] Murray parece ter uma profunda afinidade por Isaac Watts e, claramente, foi influenciado pelos argumentos de Watts contra a Salmodia Exclusiva. Portanto, é crucial compreender que Isaac Watts foi um herege perigoso. Essa afirmação é sustentada por várias observações: — [1] – Watts é considerado o pai do dispensacionalismo moderno, pois acreditava que o Novo Testamento ensina uma ética nova, diferente e superior à do Antigo Testamento. Ele também faz declarações sobre os Salmos que questionam sua inspiração divina, como, por exemplo: — “mas encontramos uma linha seguinte que pertence tão particularmente a uma ação ou hora da vida de Davi, ou Asafe, que interrompe nosso cântico no meio; nossas consciências temem que possamos falar uma falsidade a Deus […]” (do prefácio de Watts, Hymns and Spiritual Songs). Watts considerava alguns Salmos tão contrários ao espírito cristão que omitiu Salmos inteiros e excluiu seções de outros. Como Louis F. DeBoer escreve: — “Nenhum crítico infiel de alta crítica e nenhum crítico textual racionalista ousou tomar liberdades tão extensas com a palavra de Deus quanto Watts presumiu fazer sob o pretexto de ‘cristianizar os Salmos’” (Hymns, Heretics and History, 63). [2] – Embora Watts se considerasse trinitariano, seus escritos sobre o tema são heréticos. Após examinar cuidadosamente várias citações de publicações de Watts sobre esse tópico, DeBoer conclui: — “Por fim, Watts era arianista ou unitarista? Estritamente falando, a resposta é não. Ele sempre se considerou trinitariano, e suas visões nunca coincidiram plenamente com as definições padrão de nenhum desses erros. Contudo, sua redefinição da Trindade, embora única, constituiu basicamente uma nova variante de arianismo/unitarismo. Ao negar que o Espírito e o Filho fossem plenamente e eternamente Deus no mesmo sentido que o Pai, ele era essencialmente unitarista. Ao propor que o Filho era algum tipo de ser criado divinizado, mais que mero homem, ele era essencialmente arianista. E, ao reduzir o Espírito a nada mais que uma força divina, ele concordava com ambos. Não importa como se considere, Watts era um herege em relação à Trindade” (Ibid., 101).
[40] Charles H. Spurgeon, The Treasury of David: An Expository and Devotional Commentary on the Psalms (Grand Rapids: Baker, [1882-1887] 1983), 1:365.
[41] John W. Keddie, Uma Análise do Panfleto: O Saltério — O Único Hinário? (Artigo na Internet: http://www.reformed.com/pub/psalter.htm), p. 3. Murray também argumenta que os hinos não–inspirados são superiores aos Salmos na questão da certeza da salvação (p. 25). Essa declaração é notável, dado as grandes afirmações nos Salmos que ensinam que Deus preserva o seu povo. Por exemplo, Salmos 37:28 diz: — “Porque o Senhor ama a justiça e não desampara os seus santos; eles são preservados para sempre, mas a descendência dos ímpios será exterminada”. Salmos 121:3, 7, 8 diz: — “Não deixará vacilar o teu pé; aquele que te guarda não tosquenejará […]. O Senhor te guardará de todo o mal; guardará a tua alma. O Senhor guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre” (cf. Salmos 12:7, 17:8 etc.).
[42] James Hamilton, The Psalter and the Hymn Book, 16 – 17, as quoted in Iain H. Murray, 26.
[43] O termo “sorbonista” deriva de Sorbona, a famosa universidade de Paris fundada no século XIII por Robert de Sorbon, conhecida por sua faculdade de Teologia. No contexto histórico, os sorbonistas eram teólogos escolásticos associados à Sorbona, frequentemente ligados à Igreja Católica Romana e à Teologia medieval. Eles eram conhecidos por debates teológicos rigorosos, mas, no período da Reforma (século XVI), foram criticados por reformadores como João Calvino por sua adesão à tradição católica e por argumentos considerados excessivamente especulativos, sofistas ou legalistas — nota do tradutor.
[44] João Calvino, Comentário sobre Filipenses, 61. John Gill concorda: — “[…] pois no mero nome não pode haver algo que comande tal respeito peculiar; era um nome comum entre os judeus. Além disso, as palavras não devem ser traduzidas como ‘em’, mas ‘no nome de Jesus’; ou seja, em razão do poder, autoridade e dignidade de Jesus, exaltado à destra de Deus, toda criatura deve se sujeitar a Ele” (An Exposition of the New Testament [Streamwood, IL: Primitive Baptist Library, 1979 (1809)], 135, 136). Além disso, se Deus estava tão preocupado com o uso e a pronúncia de palavras específicas durante o culto público, por que Ele permitiu que a pronúncia correta do nome mais significativo de Deus nas Escrituras, “YHWH” (comumente pronunciado como Iavé ou Jeová), que aparece 5.321 vezes na Bíblia, fosse perdida para sempre pela humanidade?
[45] Richard Bacon, Review of Crampton (Rowlett, TX: FPCR, 1996), see http://www.fpcr.org/blue_banner_articles/crampton.htm.
[46] Iain H. Murray, 27.
[47] O prelacismo é uma visão eclesiástica que defende a supremacia ou autoridade de prelados (bispos ou outros líderes eclesiásticos de alto escalão) no governo da Igreja. O termo deriva de “prelado” (do latim praelatus, “colocado acima”), que se refere a figuras como bispos, arcebispos ou outros clérigos com autoridade hierárquica. O prelacismo é frequentemente associado a sistemas eclesiásticos episcopais, como o da Igreja Católica Romana ou da Igreja Anglicana, onde os bispos têm autoridade centralizada sobre clérigos e congregações — nota do tradutor.
[48] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.
por Wes Bredenhof | 28 ago 2024 | TEOLOGIA
Na primeira parte, comecei a argumentar que o escolasticismo reformado não deve ser descartado de imediato. Nos últimos anos, tem havido uma renovada apreciação por esse método e pela teologia que ele produziu. Da última vez, mencionei cinco aspectos pelos quais eu pessoalmente valorizo o escolasticismo reformado:
1 – A melhor Teologia começa com uma exegese sólida.
2 – A importância da História.
3 – A importância do sistema.
4 – A arte de formular boas perguntas.
5 – Uso de definições precisas.
Hoje, concluirei com os últimos cinco aspectos:
6 – Fazendo distinções.
Distinguir entre diferentes doutrinas e seus elementos é um marcador–chave da Teologia fiel. As Escrituras nos ensinam a distinguir. Além disso, a Igreja cristã há muito tempo reconheceu que aquele que ensina bem deve distinguir bem. A escolástica reformada se destacou na ciência das distinções teológicas. Os teólogos escolásticos reformados fizeram boas distinções nos níveis mais amplos. Por exemplo, Ursinus escreveu em seu comentário sobre o Catecismo de Heidelberg: — “A doutrina da Igreja consiste em duas partes: — a Lei e o Evangelho; no qual compreendemos a soma e a substância das Sagradas Escrituras”. Mas eles também fizeram distinções muito mais sutis. Benedict Pictet (1655 – 1724), por exemplo, escreveu sobre as maneiras pelas quais devemos pensar no amor de Deus. O amor de Deus pode ser distinguido em duas dimensões: — “O amor que existe entre as pessoas da Trindade (ad intra) e o amor que Deus manifesta em relação às criaturas (ad extra)”. Com relação ao seu amor por suas criaturas, isso é ainda mais distinguido: — “[1] – o amor universal de Deus por todas as coisas, [2] – o amor de Deus por todos os seres humanos, tanto eleitos quanto réprobos, e [3] – o amor especial de Deus por seu povo” (Mark Jones, Antinomianism, p. 83). Apoiadas pelo ensino das Escrituras, tais distinções podem ser bastante úteis para uma Teologia clara e descomplicada.
7 – O valor da lógica e do rigor analítico.
Bons teólogos usam a lógica para promover as reivindicações da verdade da palavra de Deus. Nossas confissões reformadas fazem o mesmo. No entanto, achamos que essa ferramenta é usada de forma mais eficaz pelos escolásticos reformados. Um exemplo clássico é encontrado no argumento de John Owen (1616 – 1683) sobre a intenção da expiação de Cristo. Utilizando um silogismo robusto fundamentado na exegese bíblica, Owen elaborou um argumento à prova de falhas [“caso hermético[2]”] a favor da expiação definida, ou seja, a posição bíblica de que Cristo morreu exclusivamente pelos eleitos. Intimamente relacionada ao uso da lógica está a análise rigorosa. Os escolásticos reformados entenderam como chegar a todos os ângulos de um tópico específico. Em seu “Syntagma”, Amandus Polanus von Polansdorf (1561 – 1610) ilustrou isso quando discutiu a doutrina da criação. Usando os dados bíblicos, ele discutiu as causas eficientes, materiais e formais da criação, bem como o propósito e os efeitos da criação. No final da discussão, você tem a impressão de que todos os aspectos concebíveis foram abordados completamente e exaustivamente.
8 – A necessidade de engajamento polêmico.
Como em nossos dias, os escolásticos reformados encontraram desafios à fé. Católicos romanos, anabatistas, socinianos, arminianos (remonstrantes) e outros precisavam ser abordados. Não era suficiente simplesmente fazer declarações positivas de fé — os erros também precisavam ser abordados com firmeza. Portanto, na maioria das obras escolásticas, você encontrará engajamento polêmico em vários graus. Muitas obras desse período são exclusivamente dedicadas à polêmica. Por exemplo, Samuel Des Marets or Desmarets (1599 – 1673) pegou sua caneta contra Isaac La Peyrère (1596 – 1676) e seus argumentos a favor dos pré–adamitas[3]. As “Institutas de Teologia Elêntica” de François Turrettini (1623 – 1687) foram elaboradas com a ideia de que a Teologia é melhor compreendida no contexto da polêmica — o termo “Elenctica” no título deriva de uma palavra grega[4] que significa “reprovar ou corrigir”. Os escolásticos reformados não tinham receio de apenas defender a fé, mas também de atacá-la quando necessário. Muitos em nossa época mais sensível poderiam aprender algo com essa atitude!
9 – Espaço para a diversidade teológica (dentro dos limites confessionais).
Ninguém deve ter a impressão de que o escolasticismo reformado foi um movimento monolítico. Sim, pode-se argumentar razoavelmente que havia muitas doutrinas fundamentais sobre as quais havia um amplo consenso. Esse consenso foi definido principalmente pelas confissões reformadas. No entanto, dentro desses limites, pode-se encontrar certamente uma quantidade significativa de diversidade. Por exemplo, há a questão de saber se cada crente individual tem um anjo da guarda. Essa questão não é abordada nas Três Formas de Unidade. Um escolástico reformado como Gisbertus Voetius (1589 – 1676) seguiu a orientação de João Calvino (1509 – 1564) e de outros ao considerar a existência dos anjos da guarda como, no melhor dos casos, incerta. No entanto, Voetius também mencionou que outros teólogos escolásticos reformados, como Girolamo Zanchi (1516 – 1590), Johann Heinrich Alsted (1588 – 1638) e Daniel Chamier (1564 – 1621), afirmaram a posição antiga sobre os anjos da guarda. Essas duas visões podem coexistir entre os teólogos reformados? Por que não?
10 – Há um tempo e um lugar para a erudição.
Os melhores escolásticos reformados compreendiam uma das distinções mais importantes: — entre o púlpito e o ensino acadêmico [cátedra], ou entre o livro destinado ao fiel comum [membro comum da Igreja] e aquele voltado para estudantes de Teologia [ou para outros teólogos]. Em termos mais técnicos, eles entendiam a diferença entre o popular e o acadêmico. Certamente, nem todos os escolásticos reformados entenderam ou empregaram essa distinção, mas os melhores o fizeram. Considere Gisbertus Voetius, por exemplo. Ele foi um dos mais notáveis entre os escolásticos reformados. Seus escritos acadêmicos refletem seu grande aprendizado, abrangência de estudo e habilidades eruditas. No entanto, o mesmo Voetius escreveu um livro calorosamente pastoral intitulado “Deserção Espiritual” (em tradução para o inglês). Antes de se tornar professor de Teologia, Voetius havia sido pastor e compreendia que havia um tempo e um lugar para o método escolástico. O púlpito não era esse lugar, assim como um livro escrito em holandês para membros comuns da Igreja. Comunicar-se efetivamente no nível do indivíduo comum, ao mesmo tempo, em que se pode teologizar com os melhores teólogos — esse é um objetivo que a maioria dos escolásticos reformados almejava alcançar. É algo a se buscar também atualmente.
Paz e graça.
[1] Ten Things I Learned from Reformed Scholasticism (2) By Rev. Wes Bredenhof — https://yinkahdinay.wordpress.com/2016/04/25/ten-things-i-learned-from-reformed-scholasticism-2/ — Acessado em 2016.
[2] O termo se refere a um “argumento hermético” ou “razão hermética”, que se relaciona com o conceito de um argumento extremamente bem construído e fechado, semelhante ao conceito de um “argumento irrefutável”. Em geral, “hermético” deriva do termo “hermetismo”, que se refere a algo fechado ou isolado, como um recipiente hermético que não permite a entrada ou saída de ar. Aplicado ao contexto argumentativo ou lógico, isso pode sugerir um argumento ou caso que é meticulosamente construído e não deixa brechas para objeções ou refutações — nota do tradutor.
[3] A hipótese “pré–adamita” ou “pré–adamismo” é a crença teológica de que os humanos (ou criaturas inteligentes, mas não humanas) existiram antes do personagem bíblico Adão. O pré–adamismo é, portanto, distinto da crença abraâmica convencional de que Adão foi o primeiro humano. “Pré–adamita” é usado como um termo, tanto para aqueles humanos (ou animais semelhantes a humanos) que se acredita existirem antes de Adão, quanto para os crentes ou proponentes dessa hipótese — nota do tradutor.
[4] O termo “Elenctica” deriva do grego “ἐλεγχτικός” (elegktikos), que significa “reprovador” ou “corretivo”. Este termo é relacionado a “ἐλεγχμός” (elegchmos), que significa “refutação” ou “repreensão”. Em Teologia, refere-se a uma abordagem que envolve a correção e a refutação de erros doutrinários. Em 2 Timóteo 3:16, 17: — “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e plenamente habilitado para toda boa obra”. Aqui, o conceito de “repreender” (ou “reprovar”, no sentido de correção) é expresso, que está relacionado à função de um ensino “elegktikos”. Em Tito 1:9: — “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que também seja capaz de exortar com a sã doutrina e de convencer os que o contradizem”. Neste versículo, o ato de “convencer” inclui a ideia de refutar e corrigir erros doutrinários, que se alinha com a ideia de “elegktikos” — nota do tradutor.
[5] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.
por Wes Bredenhof | 28 ago 2024 | TEOLOGIA
Embora com menos frequência do que antes, ainda vejo, ocasionalmente, a palavra “escolástico” sendo usada pejorativamente – em outras palavras, como um termo depreciativo. Quando alguém é rotulado como “escolástico”, há uma presunção de que ele esteja entre os “vilões” da história da Teologia. Isso é semelhante ao uso da palavra “puritano” para algumas pessoas, que a consideram um insulto. Se alguém é chamado de “puritano” ou “puritânico” [rigorista], é visto, no mínimo, com desconfiança. O mesmo ocorre com “escolástico” – uma palavra carregada de conotações negativas que imediatamente lança uma sombra sobre a pessoa assim qualificada.
Em determinado período, essas ideias eram amplamente aceitas. No entanto, nas últimas duas ou três décadas, a forma como o escolasticismo é discutido passou por uma mudança significativa, influenciada especialmente por estudiosos como Richard A. Muller (1948), David Curtis Steinmetz (1936 – 2015) e Willem J. van Asselt (1946 – 2014). Atualmente, reconhece-se amplamente que o escolasticismo era um método de ensino da Teologia – não possuía um conteúdo específico em si. Existiram escolásticos medievais, escolásticos católicos romanos, escolásticos luteranos e escolásticos reformados. Cada grupo utilizou o método escolástico para ensinar a Teologia que consideravam correta.
Minha apreciação por esse método de ensino se aprofundou durante minha pesquisa de doutorado sobre a Confissão Belga. O escolasticismo medieval está presente no pano de fundo da Confissão Belga, especialmente em sua estrutura (veja o capítulo 4 de “For the Cause of the Son of God – Pela Causa do Filho de Deus”). Já o escolasticismo protestante é ainda mais evidente no contexto dos Cânones de Dort. Embora os Cânones em si não sejam escolásticos — e isso tenha sido uma escolha deliberada — eles carregam as marcas de homens que se beneficiaram desse método. Não é de se estranhar. Muitos dos delegados do Sínodo de Dort eram teólogos que utilizavam o método escolástico ou pastores que haviam recebido sólida formação escolástica.
Também obtive benefícios ao estudar este método. Embora considere que a adoção do método escolástico no contexto contemporâneo não seja apropriada, há ainda muito a ser apreendido com ele, especialmente na maneira como foi aplicado pelos teólogos reformados no período pós–Reforma. Permita-me expor dez ensinamentos que extraí da escolástica reformada.
1 – A melhor Teologia começa com uma exegese sólida.
Os escolásticos reformados enfrentam frequentemente o estigma de serem vistos como meros “textualistas”. Embora suas obras teológicas citem amplamente as Escrituras, nem sempre se debruçam profundamente sobre discussões exegéticas nesses textos (existem exceções). Contudo, isso não implica que a exegese estivesse ausente – bem pelo contrário!
Na realidade, muitos teólogos escolásticos, antes de se dedicarem à produção de obras teológicas, elaboraram extensos estudos exegéticos.
Apenas sobre o livro de Romanos, a “Post–Reformation Digital Library” lista 236 títulos. Embora nem todos sejam de autoria reformada, muitos o são. O estudo bíblico profundo constituiu a base para a Teologia reformada ensinada através do método escolástico.
2 – A importância da História.
Vivemos numa era frequentemente indiferente à história. Como método nas mãos dos teólogos reformados, o escolasticismo trabalhava com os pensamentos e conclusões de autores já falecidos há muito tempo. Por exemplo, ao folhear uma página aleatória de um importante texto escolástico frequentemente denominado “The Leiden Synopsis”, encontro Antonius Thysius[2] (1565 – 1640) discutindo o significado de ser criado à imagem de Deus. Ele se refere à visão de Tertuliano e de outros, segundo a qual “o homem inteiro é propagado a partir do homem inteiro”. Mais adiante na mesma página, ele interage com outro Pai da Igreja, Orígenes. O fato de estarem tão profundamente familiarizados com esses Pais da Igreja evidencia que suas discussões se situavam em um nível distinto em relação a muitas das nossas atualmente.
3 – A importância do sistema.
Embora não tenham sido os primeiros a reconhecer isso, os escolásticos reformados sustentavam que a Teologia bíblica é um sistema interconectado. Nesse sistema, todas as partes se relacionam de alguma forma com as demais. Além disso, a maioria desses teólogos compreendia claramente que existe uma “lógica” intrínseca à Teologia cristã. Assim, ao consultar um texto como o “Syntagma Theologiae Christianae” de Amandus Polanus, pode-se esperar que ele inicie com questões preliminares (prolegômenos), avance para a doutrina das Escrituras, depois para a doutrina de Deus, e aborde a criação, o pecado, a redenção e, por fim, a doutrina das últimas coisas. Esse padrão tem sido adotado por muitos teólogos sistemáticos desde então.
4 – A arte de formular boas perguntas.
Para se alcançar respostas precisas e úteis, é imprescindível formular boas perguntas. Os teólogos escolásticos reformados eram notáveis pela sua habilidade em criar questões que direcionavam para respostas esclarecedoras. Esse processo constituía um aspecto requerido do método escolástico de formação. As questões eram elaboradas em forma de tese ou interrogativa. Embora o Catecismo de Heidelberg não seja um documento escolástico, o comentário de Zacharias Ursinus (1534 – 1583) sobre o Catecismo se insere claramente nesse contexto. Ao tratar da Pergunta e Resposta 21 sobre a fé verdadeira, Ursinus delineia seis perguntas–chave que ajudam a esclarecer essa doutrina:
1 – O que é a fé?
2 – Quantos tipos de fé são mencionados nas Escrituras?
3 – Em que a fé se diferencia da esperança?
4 – Quais são as causas eficientes da fé justificadora?
5 – Quais são os efeitos da fé?
6 – A quem é concedida?
Esse método também foi aplicado por François Turrettini (1623 – 1687) em suas “Institutas de Teologia Elêntica”, bem como por muitos outros teólogos.
5 – Uso de definições precisas.
Os teólogos utilizam frequentemente os mesmos termos com significados distintos. Por exemplo, um teólogo católico romano pode empregar o termo “justificação” de uma maneira que difere substancialmente do uso feito por um teólogo reformado. Portanto, é fundamental definir com precisão os termos relevantes. No tocante à justificação, Petrus van Mastricht (1630 – 1706) serve como um exemplo elucidativo. Em sua obra “Theoretico–Practica Theologia” (6.6), ele inicia com uma análise exegética abrangente dos textos pertinentes (ver ponto 1 acima) e, em seguida, procede a uma discussão dogmática fundamentada nessa análise. Dentro desse contexto, ele oferece uma definição precisa de justificação: — com base na justiça de Cristo, Deus absolve os crentes de todos os seus pecados e os declara justos para a vida eterna. Van Mastricht afirma que a justificação inclui a imputação dos nossos pecados a Cristo e da justiça dEle a nós. Ele não assume a definição desse termo–chave, mas a torna compreensível claramente e avança com base nela.
Paz e graça.
[1] Ten Things I Learned from Reformed Scholasticism (1) By Rev. Wes Bredenhof — https://yinkahdinay.wordpress.com/2016/04/19/ten-things-i-learned-from-reformed-scholasticism-1/ — Acessado em 2016.
[2] Antonius Thysius foi um teólogo reformado holandês, professor na Universidade de Harderwijk e na Universidade de Leiden — nota do revisor.
[3] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.
por Plínio Sousa | 22 ago 2024 | TEOLOGIA
A compreensão da graça divina para bebês que morrem precocemente e indivíduos que nascem com deficiência intelectual severa.
“E, ainda que a consciência nos condene, Deus é maior que nossa consciência e sabe todas as coisas” (1 João 3:20).
O Apóstolo João afirma: — “Deus é maior do que a nossa consciência”. A palavra de Deus, que nos absolve, deve prevalecer sobre a palavra de nossa consciência, que nos condena. No entanto, bebês que morrem precocemente e pessoas com deficiência intelectual severa não têm uma consciência que os condena. Como, então, pode Deus ser maior sobre suas consciências, se eles não possuem uma consciência que os condena? A resposta é que Deus salva soberanamente, sendo Ele “maior” do que as potências da consciência de bebês que morreram precocemente e que, por essa razão, não desenvolveram suas consciências pessoais, e de deficientes intelectuais severos, que não podem desenvolver plenamente suas consciências pessoais. Entende-se por ato a realização plena de uma ação e por potência a capacidade latente para tal ação. Dessa forma, a soberania divina transcende as capacidades latentes da consciência humana. Para ilustrar, considere o seguinte: — um estudante tem a capacidade latente[1] de se tornar médico, o que é um exemplo de potência, pois ele possui o potencial para seguir a carreira. Quando o estudante se forma e começa a exercer a medicina, ele realiza plenamente essa capacidade, o que representa o ato de se tornar médico. Da mesma forma, um pedaço de madeira possui a capacidade latente de se transformar em uma cadeira, sendo moldado e trabalhado. Quando a madeira é efetivamente transformada em uma cadeira, a capacidade latente foi concretizada. Adicionalmente, uma semente possui a capacidade latente de crescer e se transformar em uma árvore. Quando a semente germina e se desenvolve em uma árvore completa, a capacidade latente foi plenamente realizada. Deste modo, a soberania divina transcende as capacidades latentes da consciência humana, pois Deus opera além das potências da consciência, realizando a salvação de maneira soberana e completa.
Segundo o Apóstolo da graça, Paulo, “Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5:8). Isto é, sem a consciência de nossa condição pecaminosa. O verbo συνίστησι[2] contém mais de um significado; o mais adequado aqui é o que denota “confirmação”. O propósito do Apóstolo não é despertar-nos para ações de graças, mas estabelecer a confiança e a segurança de nossas almas. Deus, portanto, “confirma”, ou seja, declara que seu amor por nós é muitíssimo sólido e verdadeiro, visto que não poupou a Cristo, seu próprio Filho, por amor aos ímpios; adultos que ainda não possuem consciência de seus pecados pessoais conforme demonstra o contraste entre os termos pecadores e justificados.
O termo “pecadores” (como em muitas outras passagens) refere-se a “aqueles que são completamente corruptos e entregues ao pecado”. Como afirma o Apóstolo João: — “Deus não ouve a pecadores” (João 9:31), isto é, o ímpio e o culpado que tem plena consciência de suas transgressões e não realiza conscientemente a vontade de Deus, o que João contrasta com o homem “temente a Deus que faz conscientemente a sua vontade”. Este contraste se torna ainda mais claro a partir da comparação que se segue imediatamente: — “Muito mais agora, sendo justificados por seu sangue”. Ao contrastar esses dois elementos e ao referir-se àqueles que foram libertados da culpa de seu pecado como sendo justificados — o que implica necessariamente que são santificados e têm consciência de atos bons e maus — conclui-se que o termo pecadores se refere àqueles que são condenados por suas ações conscientes e perversas.
Paulo esclarece ainda mais ao dizer que Deus amou o bebê Jacó e odiou o bebê Esaú, conforme registrado: — “Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, permanecesse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama, Deus)” (Romanos 9:11, 12). A ênfase em “nem tendo feito bem ou mal” sublinha a ausência de consciência sobre atos do bem e do mal.
O versículo 16 sustenta essa salvação sem consciência com base no “compadecimento divino”, uma vez que não há obras conscientes realizadas para a salvação de Jacó ou a condenação de Esaú: — “Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” (Romanos 9:16). Em outras palavras, não depende do desejo consciente do homem, nem do esforço consciente para obter a salvação, visto que Jacó e Esaú ainda não haviam nascido, mas de Deus, que salva por sua Graça Onipotente (que se compadece). A eleição de Deus não se baseia em obras conscientes, mas na sua própria vontade e em seu gracioso plano de redenção. Lembrando que, mesmo Deus odiando o bebê Esaú, Ele não o condenou sem que ele crescesse e, conscientemente, se rebelasse contra Ele com profunda obstinação e desprezo, sendo “imoral e profano” (Gênesis 25:29 – 34; Hebreus 12:16, 17[3]). Deus não condena sem que o homem tenha plena consciência de seus pecados pessoais.
Somente aqueles que são assediados e condenados por sua própria consciência não podem escapar do julgamento de Deus. Por isso, bebês e pessoas com deficiência intelectual estão isentos desse julgamento.
Se a consciência nos acusa por um pecado de nosso conhecimento ou por negligenciarmos um dever conhecido, a condenação divina também recairá sobre nós. Portanto, é imperativo que nossa consciência esteja bem informada e que seja ouvida e atendida com a devida diligência. Em contrapartida, se considerarmos a proposição oposta, é igualmente verdade que, para um indivíduo que não possui consciência e, por implicação, não tem consciência de um pecado ou de um dever negligenciado, Deus não o condena, uma vez que não há uma parte ativa dentro desse indivíduo que possa ser responsabilizada.
O que o Apóstolo João pretende transmitir é que aquele que se encontra atormentado e condenado por sua própria consciência não pode escapar do juízo divino. Assim, aqueles que, como os bebês e as pessoas com deficiência intelectual severa, carecem de uma consciência ativa que lhes permita ser atormentados ou condenados conscientemente, podem, por causa dessa ausência, ser poupados do juízo divino.
A Escritura às vezes associa a consciência do homem à condenação e, outras vezes, à salvação. Ela afirma que é possível que o homem seja salvo sem plena consciência (1 Coríntios 4:4[4]), mas jamais condena o homem sem que ele tenha consciência.
Há anos estudo o papel da consciência na salvação e condenação do homem e, com base no que encontrei nas Escrituras Sagradas, posso afirmar com convicção, respaldado por numerosas evidências, que Deus, sendo perfeitamente justo, jamais, condenará alguém sem que essa pessoa tenha consciência do seu pecado individual. As Escrituras oferecem diversas passagens que sustentam essa verdade. A consciência pode estar ligada tanto à condenação quanto à salvação, com a orientação luzente de que os homens devem buscar uma consciência purificada da culpa do pecado. No entanto, para bebês e pessoas com deficiência intelectual severa, essa realidade não se aplica da mesma forma.
O caráter misericordioso e compassivo de Deus sugere que a graça onipotente também é aplicada a bebês e deficientes intelectuais severos (Mateus 18:14; Romanos 5:18, 19). Na verdade, Jesus Cristo chamou as crianças para si, assumindo ativamente um papel no bem–estar delas no reino dos céus, disse Jesus: — “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas” (Mateus 19:14). Não podemos afirmar que as crianças são colocadas aqui como um “padrão falso” para o comportamento daqueles que pertencem ao reino dos céus, nem considerar que são meramente um “padrão temporário” para este mundo. Afinal, como afirmam as Escrituras, “quem pertence ao reino dos céus não pertence a este mundo” (Efésios 2:19; Filipenses 3:20; Hebreus 11:13; 1 Pedro 2:11).
Mais adiante, o evangelista registra algo intrigante em seu Evangelho sobre as crianças e criancinhas de peito: — “Vendo, então, os principais dos sacerdotes e os escribas as maravilhas que fazia, e os meninos clamando no templo: — ‘Hosana ao Filho de Davi’, indignaram-se, e disseram-lhe: — ‘Ouves o que estes dizem?’. E Jesus lhes disse: — ‘Sim; nunca lestes: — Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?’” (Mateus 21:15-16). Como pode Deus tirar de “criancinhas de peito” o perfeito louvor? A citação que Jesus faz de Salmos 8:2 para justificar o louvor das criancinhas de peito é notável e espantosa, pois o salmo 8 declara que Deus ordenou o culto para si mesmo dos lábios das criancinhas de peito.
Segundo João Calvino, no Salmo 8:2, Davi “apresenta a prova do tema que tentara discursar[5], declarando que a providência de Deus, a fim de fazer-se conhecida pelo gênero humano, não espera que os homens cheguem à maturidade, mas ainda na aurora da infância emite tanta glória quanto é suficiente para refutar todos os ímpios que, por seu profano desprezo a Deus, gostariam de extinguir seu próprio Nome[6]”. O comentário de Calvino é igualmente intrigante, destacando que “na aurora da infância, emite-se tanta glória quanto é suficiente para refutar todos os ímpios”.
Ao citar a primeira frase do salmo 8 — “da boca das crianças e dos que mamam” — em Mateus 21:16, Jesus justifica ser adorado como Messias pelos mais jovens, incluindo até aqueles que ainda não possuem consciência, como as criancinhas de peito, enquanto os mais velhos, “os principais dos sacerdotes e os escribas”, praticam conscientemente a impiedade. Dessa forma, todos os ímpios são “refutados” por seu profano desprezo a Deus e pelo desejo de extinguir seu Santo Nome, mesmo através de criancinhas de peito. Assim, Deus é mais glorificado em sua providência quando, “na aurora da infância, emite tanta glória quanto é suficiente para refutar todos os ímpios”.
No entanto, surge uma dúvida: — admitimos que algumas crianças, como Jesus no Templo (Lucas 2:46, 47, 49), são capazes de refutar ímpios, mas como podem criancinhas de peito, que ainda não têm consciência, realizar tal feito?
A resposta bíblica é esclarecedora: — Jeremias, ainda no ventre de sua mãe, foi escolhido e separado para ser Profeta para as nações, com o objetivo de refutar os ímpios (Jeremias 1:5, 10). Da mesma forma, João Batista, que foi grande Profeta diante do Senhor, foi cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe, capacitado para refutar os ímpios (Lucas 1:15; Mateus 3:1 – 12; Lucas 3:1 – 18). O Apóstolo Paulo, separado desde o ventre de sua mãe e chamado pela graça onipotente de Deus, também foi escolhido como Apóstolo diante do Senhor para refutar os ímpios (Gálatas 1:15; Atos 9:15).
Calvino conclui: — “Davi, portanto, tem toda razão ao declarar que, mesmo que as línguas de todos os que atingem a maturidade ficassem em silêncio, os balbucios ininteligíveis das criancinhas seriam suficientemente capazes de celebrar os louvores de Deus. Ele quer dizer que esses balbucios são como campeões invencíveis de Deus, capazes de dispersar e desbaratar todo o exército dos ímpios que desprezam a Deus e se entregam à impiedade”.
Isso destaca que Deus é glorificado em sua bondade para com o homem, mesmo na ausência de plena consciência. Através das ações e do louvor dos “inocentes”, como as crianças e criancinhas de peito, Deus manifesta sua glória e sua providência, reafirmando sua majestade e sua graça de alcançar e glorificar seu Nome, independentemente da compreensão humana.
Deste modo, podemos afirmar que a incapacidade de um bebê ou de uma pessoa com deficiência intelectual severa de articular a fé em Jesus Cristo não impede que Deus, em sua justiça e graça, lhes conceda a salvação. Em sua infinita misericórdia e providência, Deus pode atrair esses indivíduos para si, fundamentado no sacrifício perfeito de Cristo.
A certeza da salvação dos eleitos fundamenta-se na graça onipotente, que, sustentada pela obediência ativa e satisfação realizadas por Cristo, opera a regeneração, a qual precede o ato de crer em Cristo para justificação. A fé, por si só, não é a causa da salvação, mas sim a causa instrumental pela qual recebemos a perfeita justiça de Jesus Cristo. O ato de crer, enquanto fundamento da salvação e baseado meramente em confissão, é imperfeito devido à nossa dívida e condição caída, não podendo ser a causa eficiente da salvação. A santificação, sendo um fruto da justificação e, portanto, subsequente a ela, também não pode ser a causa eficiente da salvação, além de ser contaminada pela nossa pecaminosidade contumaz. Nem a regeneração, nem a justificação alteram nossa condição pecaminosa.
Diante de Deus e de sua Lei, somos simultaneamente justos e pecadores (simul iustus et peccator): — pecadores devido à transgressão do primeiro Adão e aos nossos pecados pessoais, que nos resultam em dívida adâmica e morte pessoal. No entanto, somos justos pela perfeita obediência ativa e passiva do segundo Adão, Jesus Cristo. Por meio dEle, somos identificados como mortos, sepultados e ressuscitados, recebendo a imputação de sua justiça que paga nossa dívida adâmica. Assim, somos justificados pela fé. Importante destacar que é somente após crer em Cristo que a eterna justiça é imputada a nós, libertando-nos da dívida condenatória contraída pelo primeiro Adão.
Para aqueles que não conseguem compreender a gravidade de seu pecado pessoal, a dívida adâmica e a beleza da justiça e do pagamento proporcionado pela obra redentora de Deus em Jesus Cristo, devido às limitações mentais severas ou morte precoce, o caráter de Deus sugere que Ele proverá meios para a salvação desses indivíduos. Embora a maioria das pessoas salvas tenha pelo menos alguma compreensão, ainda que não plena, do pecado adâmico e pessoal, do arrependimento, da redenção em Cristo e da vida eterna, reconhecemos que aqueles com capacidade mental limitada – como bebês e indivíduos com deficiência intelectual severa – podem ser salvos pela Graça Onipotente, mesmo sem ter tal entendimento ou percepção da doutrina da graça.
O raciocínio é simples: — ninguém que é salvo possui pleno conhecimento, nem pode tê-lo, sobre as obras de Deus, que opera pelo seu poder, providência e graça. Portanto, a ausência de conhecimento pleno, demonstrada por um conhecimento parcial, ou a ausência total de conhecimento, demonstrada pela falta de consciência, não pode ser a causa eficiente nem da salvação (pelo conhecimento parcial salvífico) nem da condenação (pela ausência total de consciência do conhecimento salvífico), conforme afirmado em Efésios 2:5, 9, “pela graça somos salvos, não vindo das obras a salvação”. Assim, bebês que falecem precocemente e pessoas com deficiência intelectual severa, que não têm acesso a um conhecimento salvífico – pleno o que é impossível ou mínimo que exige uma consciência ativa – não podem ser condenados por falta desse entendimento. Portanto, eles podem ser salvos pela graça de Deus, da mesma forma que são aqueles que possuem algum nível de conhecimento.
Cada uma dessas pessoas — seja um bebê que morre precocemente ou um indivíduo com deficiência intelectual severa — é incapaz de compreender as verdades espirituais e por isso não comete atos conscientes de pecado, pois não entende os conceitos de vício e virtude e não pode escolher entre o pecado e a obediência devido à ausência de consciência.
Deus acolhe essas almas preciosas que morrem precocemente no céu, onde desfrutarão dos prazeres de seu poder glorioso, e nunca as destina a uma eternidade de dor e sofrimento no inferno, afastadas de sua presença e comunhão. Da mesma forma, Ele confirma a salvação daqueles que nascem com deficiência intelectual severa, permitindo-lhes experimentar os cuidados de sua providência na terra e garantindo, como Destinador, que também não sejam reservados para uma eternidade de sofrimento no inferno. Assim, Deus é glorificado tanto no céu, por seu poder ao salvar os infantes que morrem, quanto na terra, por sua providência ao cuidar dos deficientes severos que vivem, e em toda parte, no céu e na terra, por sua infinita graça onipotente.
Nossa consciência não pode ser verdadeiramente pacificada até ser profundamente purificada, como afirma Hebreus 10:22: — “Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência”. Essa purificação, que exige um processo consciente de reflexão sobre vícios e virtudes, ocorre através da santificação pelo estudo da palavra de Deus (João 17:17). Isso pressupõe a existência de uma consciência em ato e ativa, capaz de identificar e purificar uma má consciência de maneira consciente. No entanto, bebês que morrem e pessoas com deficiência intelectual severa não possuem a capacidade de compreender o que é um “verdadeiro coração” e “inteireza de fé” para que seus corações sejam purificados da má consciência. Como, então, pode haver uma consciência pacificada se não há a possibilidade de uma má consciência ser identificada e, portanto, purificada?
A pacificação da consciência, como descrita em Hebreus 10:22, requer um processo consciente de purificação da má consciência. No entanto, para aqueles que não têm a capacidade de reconhecer a má consciência, como bebês que morrem precocemente e pessoas com deficiência intelectual severa, surge a questão: — como pode haver verdadeira pacificação?
A resposta está na ação graciosa de Deus. Em sua infinita graça onipotente, Deus aplica a purificação do sangue de Jesus Cristo a esses indivíduos, mesmo que eles não tenham consciência de sua condição diante dEle e de sua Lei. A pacificação da consciência para tais seres é fundamentada na justiça de Cristo, que garante a salvação com base na perfeita obra redentora do Salvador. Assim, a salvação desses indivíduos não depende da sua compreensão, seja ela parcial ou completa, mas da aplicação da justiça de Cristo, que transcende a necessidade de consciência ativa.
Ouvir a consciência e comprovar a conversão pela santificação e sinceridade, que são distintivos da predestinação (Efésios 1:4), é a essência da “inocência cristã” [purificação] e a maneira de garantir a certeza da eleição e salvação. Essa sinceridade consciente nos livra de grande transgressão e nos torna “inocentes” [purificados], como Davi escreveu: — “Então serei sincero, e ficarei limpo de grande transgressão” (Salmos 19:13b). No entanto, bebês e pessoas com deficiência intelectual não têm a consciência da “grande transgressão” para agir com sinceridade diante de Deus, confessar seus pecados e, assim, se livrar da condenação e receber a purificação. Portanto, a ausência de consciência impede que eles sejam condenados pela impossibilidade de exercer tal sinceridade consciente. Deus é justo e não condenará aqueles que são impossibilitados, pela ausência de consciência, de demonstrar sinceridade diante dEle.
Antes de apresentar os argumentos sobre o papel da consciência na salvação e condenação do homem, é essencial entender que a consciência é “o aguilhão de Deus em nós”; ela mantém um pacto eterno com Deus e, nesse pacto, jamais será infiel a Ele. É como se a consciência dissesse a Deus:
[1] – Eu sempre estarei do teu lado.
[2] – Eu serei a tua fiel registradora.
[3] – Eu sempre alertarei quando o pecador for tentado e rebaterei quando o SENHOR for ofendido.
[4] – Eu serei tua testemunha e censurarei todo pecado.
[5] – Eu conduzirei esse pecador nos teus caminhos e jamais permitirei que o pecado encontre abrigo nesta pobre alma.
Este “aguilhão” não pode exercer sua função em bebês e pessoas com deficiência intelectual, pois eles não têm uma consciência ativa.
O Apóstolo Paulo afirma: — “Porque, quando os gentios, que não têm Lei, fazem naturalmente as coisas que são da Lei, não tendo eles Lei, para si mesmos são Lei; os quais mostram a obra da Lei escrita em seus corações, testificando juntamente a ‘sua consciência’, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Romanos 2:14, 15).
Podemos observar a função da consciência nos gentios, que “ora acusa-os, ora defende-os”. Assim, entendemos que o homem é condenado por desprezar a voz da consciência, que distingue pensamentos corretos e errados, que produz pensamentos certos e condena pensamentos errados. A consciência opera tanto pela Revelação Geral (Romanos 1:19 – 32; Salmos 19:1 – 14) quanto pela Revelação Especial (João 3:18, 19), tornando os homens indesculpáveis diante de Deus e de sua Lei. No entanto, o homem sempre tem uma percepção consciente da distinção entre pensamentos corretos e errados (Salmos 14:1; Romanos 3:10 – 20).
Bebês e pessoas com deficiência intelectual, por não terem a capacidade de discernir conscientemente essa Lei, não podem ser condenados.
As Escrituras indicam que somente aqueles que têm conhecimento do bem e do mal — independentemente da idade — têm a responsabilidade de se arrepender (Gênesis 2:17[7]; Deuteronômio 1:39[8]; Isaías 7:15[9]).
Bebês e pessoas com deficiência intelectual não possuem esse conhecimento.
Em Deuteronômio 1:39, Deus disse ao seu povo: — “Os seus filhos são crianças e não sabem a diferença entre o que é certo e o que é errado. E vocês estavam pensando que eles iam cair nas mãos dos inimigos. Mas eles, os seus filhos, entrarão na Terra Prometida. Eu lhes darei essa terra, e eles serão donos dela”. Como as crianças não haviam participado do surto pecaminoso de seus pais, foram poupadas para receber o privilégio que seus pais incrédulos perderam. Por não possuírem consciência, essas crianças, assim como bebês e pessoas com deficiência intelectual, foram poupadas de uma condenação terrena. Da mesma forma, podemos confiar que também são isentos de uma condenação eterna. Deus é misericordioso e não condenará aqueles que são impossibilitados, pela ausência de consciência, de demonstrar sinceridade ou rebelião diante dEle.
Os caminhos de Deus não são como os dos homens. Conforme Isaías 55:8, 9: — “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos”. Se os pensamentos de Deus são mais altos do que os dos homens conscientes, o que dizer de bebês e pessoas com deficiência intelectual que não têm pensamentos conscientes?
Não há razão para duvidar da sua vontade de perdoar generosamente (cf. Isaías 55:12). Embora os caminhos do homem perverso e seus pensamentos malignos possam parecer imperdoáveis, os pensamentos e caminhos de Deus em perdoar não são limitados pela medida dos caminhos e pensamentos humanos. Isso é evidente, como demonstrado em Salmos 25:11[10] e Romanos 5:19, 20[11]. Assim, também podemos afirmar que, se há perdão para homens que, mesmo conscientes, pensam perversamente, certamente há perdão para bebês e deficientes intelectuais que não possuem consciência perversa.
Há também o que foi dito pelo Profeta Isaías, que “homem comerá manteiga e mel, quando souber rejeitar o mal e escolher o bem” (Isaías 7:15). Mas se bebês e deficientes intelectuais não têm a capacidade de rejeitar o mal e escolher o bem, sendo faculdades da consciência, Deus os privaria da “manteiga e mel”? Certamente, não, como demonstrado em Deuteronômio 1:39. Por essa razão, podemos afirmar que Deus também não os privaria da salvação, a qual é uma bênção ainda mais importante do que as bênçãos terrenas.
Conforme 2 Samuel 12:23, o rei Davi demonstrou confiança na salvação de seu filho, dizendo: — “Porém, agora que está morta [a criança] […]. Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei a ela [falecerei], porém ela não voltará para mim [não voltará a viver]”. As palavras de Davi revelam não apenas a permanência da morte da criança, mas também sua esperança de uma futura comunhão com seu filho pelo caminho da morte. Mesmo reconhecendo que os bebês (e deficientes intelectuais) são pecadores desde o ventre (Salmos 51:5), pela reação de Davi, podemos acreditar que Deus tem um lugar reservado para eles no céu.
Alguns argumentam que a passagem de 2 Samuel 12:23 não trata necessariamente da salvação da criança, mas que o rei Davi apenas quis dizer que “a criança não podia retornar à vida e à atividade, e que ele, eventualmente, se juntaria ao seu filho na morte”. Embora não neguemos essa interpretação, isso não exclui a possibilidade de considerar o destino da criança no céu, já que ela morreu.
Concordo que o texto reflete o reconhecimento de Davi de que ele também iria ao túmulo, uma realidade inevitável para todos. No entanto, a reação pacífica de Davi à morte de seu bebê, que não possuía consciência do pecado, mesmo tendo sido formado em iniquidade e concebido em pecado (Salmos 51:5), em contraste com a dor imensa e desesperadora que ele expressou em 2 Samuel 18:33[12] pela morte de seu filho adulto, Absalão, que tinha plena consciência do pecado, sugere fortemente duas coisas: — sua esperança em relação aos bebês que morrem na infância e seu desespero porque Absalão morreu em sua impiedade conscientemente.
As consciências de muitas pessoas em um grupo produzem um testemunho mútuo, e os julgamentos de valores coletivos se espalham entre elas. As decisões resultantes podem tanto reprovar quanto defender os membros do grupo. Embora os autores inspirados não descrevam explicitamente todo o conteúdo desse padrão interior, eles asseguram sua existência. Sabemos que tanto a consciência quanto a razão podem distinguir o que é certo do que é errado. Quando os homens reagem corretamente a esse padrão, tornam-se praticantes obedientes da Lei que Deus coloca em seus corações. No entanto, esse fenômeno não ocorre em bebês e deficientes intelectuais, uma vez que eles não têm a capacidade de discernir entre atitudes boas e más. Portanto, podemos deduzir que “onde não há Lei, também não há transgressão” (Romanos 4:15). Isso reforça a ideia de que, sem a capacidade de entender e aplicar a Lei, bebês e deficientes intelectuais não podem ser considerados transgressores, estando assim “isentos” de condenação. Deus, em sua justiça perfeita, não pode declarar o homem condenado até que ele tenha consciência do pecado. Deus é justo, e sua justiça assegura que ninguém será condenado sem o devido conhecimento do erro e da oportunidade de arrependimento.
Em 1 Timóteo 1:5, a Escritura declara: — “Ora, o intuito da presente admoestação visa ao amor que procede de um coração puro, de ‘consciência boa’ e de fé sem hipocrisia”. A admoestação está diretamente relacionada à fonte do autor, que inclui um coração puro, uma boa consciência e uma sã doutrina, e esse processo ocorre conscientemente.
Se considerarmos o oposto dessa sentença, podemos afirmar, com a mesma verdade, uma sentença negativa (para a condenação): — um coração impuro, uma má consciência e uma doutrina corrompida. Apenas aqueles com consciência ativa podem alcançar esse estado de obstinação. Por isso, as Escrituras afirmam: — “O deus deste mundo cegou a mente (consciência) dos que não creem [conscientemente], para que não consigam ver a luz das boas–novas, não entendendo esta mensagem a respeito da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2 Coríntios 4:4). Satanás ataca a consciência dos homens ímpios e a segurança dos crentes com falsos argumentos, mas não pode fazer o mesmo com bebês e deficientes intelectuais, pois eles não possuem consciência [entendimento] para serem atacados dessa maneira.
Jesus Cristo afirmou que “a menos que [os homens] se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no reino dos céus” (Mateus 18:3). Da mesma forma, Deus não destruiu Nínive porque, como Ele mesmo declarou, havia na cidade “mais de cento e vinte mil seres humanos que não sabem nem discernir entre a mão direita e a esquerda” (uma metáfora que pode ser aplicada para crianças pequenas ou deficientes intelectuais), tampouco “entre o bem e o mal” [eles não têm consciência do pecado] (Jonas 4:11). Essa falta de discernimento, associada à “inocência”, incluindo a dos animais, levou Deus a mostrar sua misericórdia para com a cidade. Isso destaca a compaixão de Deus até mesmo para com aqueles que não têm plena consciência do pecado e não possuem intelecto, como os animais.
Deus explicou a razão pela qual Nínive não deveria ser destruída, mencionando que a cidade tinha mais de 120 mil “criancinhas” — pessoas que não sabiam discernir entre a mão direita e a mão esquerda. Se Deus poupou a Nínive, preservando a vida mortal daqueles que não tinham plena capacidade de discernimento, seria razoável pensar que Ele também pouparia as almas imortais dos bebês e deficientes intelectuais que morreram. Não se trata apenas de argumentar; é uma questão de compreender a natureza de Deus. Se Deus descartasse bebês ou deficientes intelectuais, então Ele não seria o Deus que eu adoro e creio — o Deus Justo e Justificador, que salva graciosamente pecadores conscientes do pecado e condena pecadores conscientes do pecado. Deus é misericordioso e não condenará aqueles que são impossibilitados, pela ausência de consciência, de demonstrar sinceridade diante dEle.
Jonas revela algo notável para o entendimento da consciência humana no âmbito da salvação: — a preocupação de Deus não se limita apenas aos homens de Nínive, que, apesar de inconscientes do pecado, carregam a sua imagem, mas também se estende até mesmo a animais mortais, que claramente não possuem consciência nem imortalidade. O SENHOR diz: — “[…] além de muitos animais inocentes”. Se Deus poupou misericordiosamente até mesmo animais que não possuem a sua imagem, é razoável acreditar que Ele também faz provisões para as almas imortais dos bebês e deficientes intelectuais no âmbito da salvação? A resposta é um sonoro: — Sim!
Seriam esses animais mais importantes que bebês e deficientes intelectuais? A resposta é um sonoro: — Não!
Concordo com as palavras de Spurgeon: — “Se tivéssemos um Deus cujo nome era Moloque, se Deus fosse um tirano arbitrário, sem benevolência ou graça, poderíamos supor algumas criancinhas sendo lançadas no inferno, mas nosso Deus, que dá sustento aos filhos dos corvos quando clamam, certamente, não achará nenhum regozijo no clamor e gritos das criancinhas lançadas para longe da sua presença”.
É uma visão profundamente consoladora, Spurgeon capta bem a essência da natureza benevolente e graciosa de Deus, contrastando-a com qualquer concepção de divindade que seja injusta ou cruel. A compreensão de Deus como um ser que se importa com todas as suas criaturas, incluindo os mais vulneráveis, reflete a profunda misericórdia e justiça divina.
Spurgeon conclui seu pensamento: — “Lemos dEle que Ele é tão bondoso que cuida dos bois, que não teria atada a boca do boi que trilha o cereal. Sim, Ele cuida do passarinho no seu ninho e não deixaria morrer a mãe deles, enquanto aninhando estar os seus pequenos. Ele deu mandamentos e ordenanças até para as criaturas irracionais. Ele providencia comida para o animal mais bruto, e também não negligencia nenhuma minhoca mais do que um anjo, e podemos nós crermos que, com tal bondade universal quanto essa, que Ele lançaria a alma da criancinha, digo eu, seria contrário a tudo que temos lido e crido dEle, que a nossa fé enfraqueceria diante de uma revelação que afirmaria um fato tão singularmente excepcional ao grau usual de seus outros feitos. Temos aprendido humildemente a submeter-nos à sua vontade e não nos atreveremos a criticar ou acusar o SENHOR de tudo, nós confiamos que Ele é justo em tudo que Ele quer fazer. Portanto, qualquer coisa revelada por Ele, aceitaremos, mas Ele nunca pediu, e Ele nunca pedirá de nós, tão desesperada fé quanto imaginar a bondade de Deus na miséria eterna de uma criancinha lançada no inferno”.
Bebês que morrem e deficientes intelectuais que nascem sem a capacidade de responder à mensagem do Evangelho têm sua salvação assegurada, não porque sejam isentos de pecado, mas porque são abrangidos pela justiça e misericórdia de Deus. Eles são salvos pelos méritos de Jesus Cristo, que os regenera e justifica pelo seu sangue, que os redimiu eternamente.
Todos que forem eternamente condenados o serão porque conscientemente rejeitaram a Jesus Cristo e a Deus que o enviou (João 17:3).
Caim poderia ter superado seu pecado confessando-o, mas, dominado pela ira e culpado por sua consciência, sucumbiu. Ele abafou a voz de sua consciência e, guiado por intenções malignas, assassinou seu irmão Abel (Gênesis 4:8 – 16).
Enquanto a consciência continua a infligir o castigo divino, muitos, conscientemente, oram, ouvem, leem e toleram seu pecado. No entanto, mesmo após receber a graça e misericórdia de Deus, ao amanhecer do dia seguinte, retornam a pecar conscientemente, desprezando a Deus. Hoje confessamos nossos pecados com sinceridade e consciência, mas amanhã repetimos os mesmos pecados com plena consciência. Prometemos evitar o pecado agora, mas, em pouco tempo, agimos como se nada tivesse sido prometido, também conscientemente.
Aqui estão duas razões para confiar na eleição de bebês que morrem e deficientes intelectuais:
[1] – Deus reserva sua ira para aqueles que, conscientes, não têm desculpa.
Em Romanos 1, o Apóstolo Paulo afirma que Deus revela sua ira contra aqueles para quem “está bem claro” conhecer a respeito de Deus (Romanos 1:19), aos quais Ele “mostrou” o que pode ser conhecido sobre si mesmo (Romanos 1:19). Eles “perceberam claramente” seu poder eterno e natureza divina através da criação: — “Os seres humanos podem ver tudo isso nas coisas que Deus fez” (Romanos 1:20). Apesar de conhecerem a Deus, eles suprimem sua glória e domínio, “sabendo quem Deus é” (Romanos 1:21). Por isso, são considerados “indesculpáveis” (Romanos 1:20). Em outras palavras, Deus derrama sua ira sobre aqueles que possuem a capacidade de compreender sua verdade, mas optam por rejeitá-la.
A aplicação da revelação da ira de Deus mencionada em Romanos 1 não se estende a bebês e deficientes intelectuais. Esses indivíduos não têm a capacidade de perceber ou compreender a verdade de Deus de maneira consciente e intencional. Portanto, não se aplicam a eles os mesmos princípios de responsabilidade e condenação que se aplicam àqueles que têm plena capacidade de compreensão e, ainda assim, rejeitam a revelação divina.
Romanos 1 sugere que Deus concede uma “isenção” ou “garantia” àqueles que não possuem capacidade cognitiva, como bebês e deficientes intelectuais, para compreender e desonrar conscientemente a sua revelação. Assim, tais indivíduos não estão sujeitos ao mesmo julgamento eterno reservado àqueles que têm a capacidade de compreender e rejeitar a Deus conscientemente.
Há essa “isenção” porque indivíduos com capacidades intelectuais severamente limitadas não têm a habilidade de perceber, compreender e honrar a Deus. Assim, eles não podem desonrá-lo conscientemente, pois não têm a capacidade de reconhecê-lo e rejeitá-lo obstinadamente. A ausência de percepção e compreensão resulta em uma falta de responsabilidade consciente diante de Deus.
Considere novamente o texto de João 9:41, onde Jesus diz aos líderes judeus: — “Se vocês fossem cegos, não teriam culpa; mas agora que vocês dizem: — ‘Nós vemos’, sua culpa permanece”. Isso nos ajuda a compreender que a falta de percepção e compreensão está diretamente ligada à responsabilidade diante de Deus. A ausência de capacidade para perceber e compreender implica uma ausência de culpa, conforme evidenciado nas Escrituras.
[2] – Deus julga as pessoas pelo pecado consciente e individual.
Embora o pecado de Adão seja imputado a toda a humanidade (Romanos 5:12 – 14), essa imputação não serve como base para o castigo eterno individual de Deus. As Escrituras ensinam que Deus pune os pecadores com base nos pecados que cometem individualmente.
A morte universal dos seres humanos é uma evidência do julgamento de Deus sobre todos devido ao pecado de Adão. No entanto, o castigo eterno é reservado apenas para aqueles que cometem pecado voluntariamente (2 Coríntios 5:10; Apocalipse 20:12 – 15).
Deuteronômio 1:35 – 39 revela que Deus pune as pessoas por pecados pessoais e individuais.
Além disso, Deuteronômio demonstra claramente que há momentos em que uma pessoa pode estar temporariamente incapaz de distinguir entre o certo e o errado. O Profeta Isaías confirma essa realidade ao escrever: — “Antes que o menino saiba recusar o mal e escolher o bem […]” (Isaías 7:14 – 16). Essas passagens sugerem que existe um estado no qual a pessoa não é capaz de distinguir entre o certo e o errado. Como resultado, Deus não impõe a essas pessoas o mesmo padrão que usa para aqueles que desobedecem voluntariamente (Romanos 1). Quando esse estado de incapacidade se estende por toda a vida, como ocorre com deficientes intelectuais, não há pecado individual que Deus possa punir eternamente.
A consciência, internamente, é como mil testemunhas e testemunhará contra o pecador. Contudo, como bebês e deficientes intelectuais não a possuem, não haverá nem mesmo uma testemunha para os condenar.
Ninguém obtém absolvição diante do Senhor sem primeiro comparecer e responder conscientemente às acusações contra si. Esse processo é essencial para o pecador buscar a Cristo; a Lei foi dada para esse fim, sendo trazida à consciência com esse propósito, conforme Gálatas 3:24[13].
Bebês e deficientes intelectuais não podem comparecer e responder conscientemente às acusações da Lei contra si mesmos, e, por isso, não podem ser condenados. A constante sensibilidade da consciência em relação ao pecado, às tentações e à aparência do mal é um sinal positivo da salvação, como se vê em Atos 24:16: — “E por isso procuro sempre ter uma ‘consciência sem ofensa’, tanto para com Deus como para com os homens”. Mas, por não possuírem essa consciência, bebês e deficientes intelectuais são salvos, sendo absolvidos graciosamente. O responsável por essa salvação é Deus, o juiz de todos, que age por sua graça. A regeneração de um pecador é um ato divino, independente da vontade do homem. A forma e a causa motivadora para a salvação de bebês e deficientes intelectuais são: — a graça e a justiça de Deus. Essa salvação é concedida gratuitamente, sem que eles tenham feito algo para merecê-la ou obtê-la, e provém do favor imerecido de Deus para com criaturas que não são dignas e merecem condenação. Mesmo reconhecendo que bebês e deficientes intelectuais são pecadores, afirmamos que não são pecadores imperdoáveis.
Embora uma pessoa possa demonstrar um nível maior de santificação do que outra, aos olhos de Deus, todos os crentes são igualmente salvos, pois a salvação não admite graus. Da mesma forma, bebês que morrem precocemente e deficientes intelectuais, que não têm a oportunidade de experimentar a santificação através da verdade da Palavra, não são privados da salvação. Isso ocorre porque a salvação é um ato exclusivamente divino. Portanto, bebês e deficientes intelectuais, embora não possam participar da causa instrumental da fé devido à falta de consciência, podem receber a salvação pela graça de Deus. A Escritura afirma que somos justificados pela fé (Romanos 5:1), mas também nos consola com a verdade de que somos salvos pela graça.
Os arminianos afirmam que a própria fé, ou o ato de crer, é aceito como nossa justiça justificadora. Em contraste, nossa Confissão ensina que Deus não nos justifica “imputando a própria fé, o ato de crer, como nossa justiça”. A fé, enquanto um ato realizado por nós, é uma obra de obediência à Lei, assim como qualquer outra ação; portanto, ser justificado pelo ato de fé seria ser justificado por uma obra. Isso é contrário às declarações explícitas das Escrituras, que excluem todo tipo de obra do âmbito da justificação (Gálatas 2:16).
Em oposição às más interpretações papistas e arminianas da relação entre fé e justificação, nossa Confissão ensina que “a fé, recebendo e descansando em Cristo e sua justiça, é o único instrumento de justificação”. Alguns distorcem esse ensino, como se a fé fosse o instrumento que Deus utiliza para justificar. Contudo, a intenção nunca foi afirmar que “a fé é instrumento por parte de Deus, mas sim por parte de nós”. Sendo assim, como bebês e deficientes intelectuais não podem crer, eles são salvos pela regeneração e pela justiça de Deus em Cristo Jesus.
O ponto de vista reformado foi bem expresso por Thomas Watson (1620 – 1686), que afirmou: — “Não é o batismo que faz de alguém um cristão; muitos não passam de pagãos batizados. A parte essencial da religião está na nova criatura[14]”. Ser regenerado é mais importante do que ser religioso. Watson reconhecia que, a menos que nos tornemos novas criaturas, a obediência religiosa que prestamos não será aceita[15].
A Confissão de Fé de Westminster (CFW) apresenta a doutrina da regeneração como o chamado eficaz dos eleitos (8.8; 10.1) e também a regeneração de crianças eleitas que morrem na infância (10.3).
A fé não é justiça. A justiça é o cumprimento da Lei, e Cristo cumpriu perfeitamente a Lei, “para que nEle fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21).
É a graça de Deus, e deve ser uma grande graça, pois é a graça de um Deus santo, justo e poderoso; a graça daquele Deus que pode fazer todas as coisas.
Essa salvação é perfeitamente compatível, pois a justiça de Deus e sua Lei são honradas de maneira mais sublime pela obediência e morte de Cristo do que poderiam ser pela obediência ou morte do próprio homem justificado. Mesmo que bebês que morrem fossem precocemente ressuscitados e chegassem à fase adulta para obedecer à Lei, ou que deficientes intelectuais fossem curados milagrosamente e respondessem ao Evangelho, a obediência e a morte de Cristo conferem maior honra a Deus e à sua Lei do que as falhas e a limitada obediência desses indivíduos.
Por fim, pela obediência e morte de Cristo, a Lei e a justiça de Deus são honradas tanto ativamente quanto passivamente. Se Adão tivesse permanecido fiel e sido justificado por suas obras, a Lei teria sido glorificada apenas ativamente. Se os justificados tivessem sido condenados e sofrido eternamente por seus pecados, a Lei e a justiça de Deus teriam sido glorificadas apenas passivamente. No entanto, por meio da fiança do Mediador, Jesus Cristo, a Lei e a justiça são glorificadas de ambas as formas. Cristo obedeceu [ativamente e passivamente[16]] a todos os mandamentos da Lei em todos os seus detalhes e sofreu a ira e a maldição de Deus até o máximo, algo que nenhuma criatura poderia ter suportado; e fez isso com uma paciência, submissão e resignação que estão além das capacidades de qualquer ser criado, conforme Isaías 53:7[17].
O significado do episódio do cego de nascença para aqueles com deficiências congênitas (João 9:1 – 3).
O episódio do cego de nascença, conforme descrito em João 9:1 – 3, oferece uma perspectiva profunda sobre a intervenção divina na vida daqueles que nascem com malformações ou condições congênitas, o que pode ser implicitamente aplicado também aos indivíduos com deficiência intelectual. Além disso, esse relato oferece importantes nuances para a compreensão da doutrina da salvação gratuita. Quando os discípulos questionam Jesus, dizendo: — “Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?”, Jesus responde: — “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus”.
Essa resposta de Jesus desvia o foco da culpa ou pecado e destaca a soberania divina, mostrando que certas condições não são necessariamente resultado direto do pecado, mas podem servir a um propósito maior dentro do plano redentivo de Deus (Êxodo 4:11), como é o caso da morte precoce de bebês ou do nascimento de pessoas com deficiência intelectual.
Esse texto se relaciona diretamente com a questão da salvação de bebês que falecem precocemente e, de forma mais específica, com a consideração de pessoas com deficiência intelectual como eleitas por Deus. Assim como no caso do cego de nascença, Deus pode ter um propósito redentor e glorioso na vida daqueles que, aos olhos do mundo, parecem frágeis ou espiritualmente desfavorecidos, como bebês que morrem ou deficientes intelectuais. A salvação não depende de habilidades intelectuais ou da capacidade de compreender plenamente as verdades espirituais do Evangelho, mas da graça onipotente de Deus, que opera de maneiras misteriosas e insondáveis, contudo, sempre de modo eficaz, justo e suficiente.
No relato de João 9, o cego de nascença é descrito como um mendigo (v. 8), o que era uma condição comum para aqueles que enfrentavam dificuldades físicas na época. Mendigos costumavam se reunir nas portas do Templo, buscando esmolas dos adoradores, como vemos em Atos 3:1 – 3. Assim, é provável que esse episódio tenha ocorrido nas proximidades do Templo, logo após o debate entre Jesus e os fariseus, registrado no capítulo 8 de João.
É importante notar que o capítulo 8 de João apresenta um episódio singular nas Escrituras, em que Deus em Cristo concede perdão gratuitamente, sem que a mulher adúltera faça um pedido explícito e consciente de perdão a Cristo. Quando Jesus pergunta à mulher: — “Ninguém te condenou?” e ela responde “Ninguém, Senhor”, Ele declara: — “Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais [santifique-se]” (v. 11). Nesse contexto, Jesus perdoa a mulher — “eu não te condeno” — sem que ela clame diretamente por misericórdia, evidenciando a graça soberana e onipotente de Deus em perdoar. Isso demonstra que o perdão divino pode alcançar até mesmo aqueles que não têm plena consciência de sua necessidade de perdão e de sua condição diante de Deus e de sua Lei (v. 10, 11).
Por que não podemos aplicar necessariamente esse preceito a bebês que morrem precocemente e a pessoas com deficiência intelectual, considerando que eles possam ser perdoados gratuitamente, mesmo que, assim como a mulher adúltera, não tenham plena consciência de sua condição de devedores diante de Deus e de sua Lei?
Há uma conexão simbólica interessante entre esses dois episódios, ambos envolvendo a interação de Jesus com a terra. No capítulo 8, durante o confronto com os fariseus que buscavam condenar a mulher adúltera, Jesus se inclina e escreve com o dedo na terra. No capítulo 9, Ele cospe na terra, faz lodo com a saliva e aplica-o nos olhos do cego de nascença. Esses gestos aparentemente simples — “escrever” e “cuspir” na terra — podem carregar significados espirituais profundos. Eles não apenas refletem a soberania de Cristo sobre a criação, mas também simbolizam a ação divina de moldar e restaurar o ser humano, tanto física quanto espiritualmente.
No primeiro caso, vemos a condenação dos fariseus hipócritas que, mesmo “redarguidos da consciência” (v. 9), rejeitam a Cristo posteriormente (v. 13). No entanto, também há o perdão gratuito de Jesus à mulher adúltera (v. 11), demonstrando a graça soberana de Deus.
No segundo caso, a salvação é manifesta através da cura do cego de nascença. Essa cura não é apenas um “sinal de redenção[18]”, mas também expõe a cegueira espiritual dos fariseus, que, apesar de testemunharem a obra de Cristo, conscientemente a rejeitam e blasfemam contra ela (v. 16, 24, 29 – 34).
Em ambos os episódios, Jesus demonstra sua autoridade ao reivindicar sua divindade, tanto para perdoar quanto para curar, revelando que Ele é a fonte de salvação. Mesmo diante da fraqueza e limitação humana, a graça de Deus pode se manifestar poderosamente. Ao expor a cegueira espiritual daqueles que se recusam conscientemente a crer, Jesus nos ensina que a verdadeira visão não é apenas física, mas espiritual, e que é Ele quem ilumina os corações para enxergarem a verdade.
No versículo 39, Jesus afirma: — “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem, vejam; e os que veem, sejam cegos”. A seguir, no versículo 40, os fariseus que o acompanhavam perguntam sarcasticamente: — “Também nós somos cegos?”. Eles não fazem uma pergunta sincera, mas desafiam Jesus, acreditando que, como líderes espirituais, “veem” a verdade divina com clareza.
Jesus responde no versículo 41: — “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: — ‘Vemos’, por isso o vosso pecado permanece”. A resposta é incisiva: — se os fariseus fossem espiritualmente cegos, ou seja, ignorantes da verdade, não seriam culpados de pecado, pois a rejeição da verdade requer conhecimento consciente dela. No entanto, como afirmam que “veem”, ou seja, que compreendem a verdade, mas ainda assim rejeitam a Jesus, seu pecado “permanece”. Eles se tornam culpados de um pecado grave porque, apesar de terem acesso à luz da verdade, a recusam conscientemente.
Esse princípio não se aplica a bebês ou pessoas com deficiências intelectuais, pois estes não têm a capacidade de rejeitar conscientemente a luz da Revelação Geral ou Especial. Como não possuem a mesma responsabilidade moral, não podem ser condenados pelo mesmo tipo de pecado consciente que Jesus aponta nos fariseus.
A expressão “ver” [“Vemos”] sugere uma “não crença” consciente, que, por sua vez, condena o homem, conforme expresso na afirmação de Jesus: — “Como agora dizeis: — ‘Vemos’ [negligenciando conscientemente aquele que pode perdoar pecados concedendo visão salvadora], por isso o vosso pecado permanece [o que os torna condenados diante de Deus e de sua Lei]”. Essa declaração destaca que a rejeição consciente da verdade de Deus leva à condenação.
Em contraste, “não ver” refere-se à ausência de consciência do pecado, o que implica salvação gratuita por Deus em Cristo. Como Jesus diz: — “Se fôsseis cegos [não podendo perceber conscientemente seus pecados], não teríeis pecado [não estariam condenados diante de Deus e de sua Lei]”. Esse contraste evidencia que Deus não pode condenar o homem sem que ele tenha plena consciência de sua condição pecaminosa. A consciência do pecado é essencial para a responsabilidade diante de Deus, e aqueles que não têm essa consciência, como bebês ou pessoas com deficiências intelectuais, não estão sob a mesma condenação.
Podemos aplicar essa sentença aos bebês que morrem precocemente e aos deficientes intelectuais severos? A resposta é afirmativa. Eles não têm a capacidade de “ver” conscientemente seus pecados e, por essa razão, são graciosamente salvos por Deus em Cristo Jesus, nossa justiça. Isso reflete a profunda misericórdia e justiça divina, demonstrando que a salvação não depende da capacidade de perceber ou compreender, seja parcial ou completamente, o pecado, mas é um ato soberano da graça de Deus.
Quando os discípulos perguntam: — “Quem pecou?” (v. 2), essa pergunta reverbera uma crença comum entre os judeus daquela época, semelhante ao pensamento dos amigos de Jó, de que todo infortúnio temporal seria uma punição direta de Deus por algum pecado específico. No caso de uma doença congênita, alguns poderiam pensar que o pecado havia sido cometido no ventre materno ou pelos pais, cujas ações pecaminosas teriam resultado no sofrimento de seu filho. No entanto, Jesus refuta essas explicações, considerando-as inadequadas (v. 3), ao afirmar que nem o homem, nem seus pais pecaram de maneira a causar a cegueira, mas que essa situação existia para que as obras de Deus se manifestassem nele.
Quem pecou, este bebê ou seus pais, para que ele morresse tão precocemente? Quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse com essa deficiência intelectual severa? Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi assim para se manifestarem neles as obras de Deus, especialmente as obras da providência e da graça.
Isso não implica que Jesus negue a possibilidade de que certas provações possam ser usadas por Deus para punir ou corrigir pecados específicos, como ocorreu com Davi após seu adultério e assassinato (2 Samuel 12:11 – 14). Tampouco Cristo refuta a doutrina do Pecado Original (Romanos 5:12 – 21), que ensina que o sofrimento é uma consequência coletiva do pecado e da rebelião de Adão. No entanto, Jesus adverte contra a presunção de julgar o sofrimento de outros como punição direta por pecados individuais (Mateus 7:1). A pergunta feita a Jesus apresenta um falso dilema, oferecendo apenas duas possibilidades para as aflições do homem: — seus próprios pecados ou os pecados de seus pais. No entanto, Jesus apresenta uma terceira alternativa, demonstrando que o sofrimento nem sempre está ligado a um pecado específico, mas pode servir a um propósito maior no plano de Deus (v. 3).
Um adendo importantíssimo.
Para pessoas com deficiência intelectual que adquiriram essa condição devido a acidentes, doenças ou outras causas, acredito que sua condição pré-existente será um fator determinante na sua sentença, seja para salvação ou condenação. Isso reflete a compreensão de que a responsabilidade moral e a capacidade de discernir são consideradas ao avaliar a situação espiritual e o destino eterno dessas pessoas.
Ou seja, se a pessoa era ímpia antes do acidente ou doença que resultou na deficiência intelectual, “sua condenação foi confirmada”, assumindo que Deus não quis salvá-la antes do evento que a deixou nessa condição. Por outro lado, se a pessoa era cristã antes do acidente ou doença que resultou na deficiência, “sua salvação foi confirmada”, já que Deus decidiu poupá-la do sofrimento consciente associado à sua condição de pecador diante dEle e dos outros — uma grande angústia para os verdadeiros filhos de Deus, mesmo quando já estão salvos.
Isso pode ser visto como uma forma de conforto glorioso, já iniciado e experimentado aqui na Terra, além de ser uma manifestação da ação soberana de Deus em confirmar a salvação dos eleitos. Assim como Deus confirmou a condição dos anjos, distinguindo os eleitos dos anjos caídos, Ele também confirma a salvação de seus escolhidos.
Considerações finais.
Jesus Cristo verá o fruto do trabalho de sua alma e ficará plenamente satisfeito; nada menos do que isso o satisfará. O poder e a beleza da preciosa redenção abrangem a salvação de uma vasta multidão, incluindo bebês que morrem precocemente, seja por aborto espontâneo, aborto provocado, doença ou qualquer outra circunstância, assim como indivíduos com deficiência intelectual severa, que nasceram assim devido ao pecado de Adão. Em sua justiça e misericórdia, Deus, em Cristo, os salvará.
Suponhamos que uma mulher tenha sofrido um aborto espontâneo ou que seu filho tenha nascido com deficiência intelectual severa. Com base na compreensão da graça e justiça divina, podemos afirmar com confiança que essas crianças estão salvas. A natureza da redenção de Cristo e o caráter misericordioso de Deus asseguram que, mesmo na ausência de compreensão plena do Evangelho, essas crianças são abrangidas pela graça salvadora. Portanto, é razoável acreditar que tanto a criança, que foi abortada, quanto a que nasceu com deficiência intelectual severa, estão sob a graça de Deus e são incluídas entre os eleitos.
Essa é minha crença, fundamentada nas palavras de Jesus: — “Deixai os meninos, e não os estorveis de vir a mim; porque dos tais é o reino dos céus” (Mateus 19:14). Acredito que está dentro do desígnio de Deus redimir aqueles que não têm capacidade para discernir entre a mão direita e a esquerda, como mencionando em Jonas 4:11. A infância e a deficiência intelectual é um dos sinais dessa incapacidade. Jesus os toma para si.
Isso é extremamente confortador para aqueles que enfrentam a experiência traumática de perder um filho precocemente ou para os pais de uma criança com deficiência intelectual severa, onde surgem dúvidas como: — Como meu filho entenderá o Evangelho? Como posso instruí-lo sobre o que Deus preceitua, ameaça e promete? Ele já está condenado por não poder crer, conforme escrito por Marcos e João? Se ele morrer, estará condenado? São muitas as aflições de uma família nessas condições.
Enquanto escrevia este texto, eu me recordava de meus filhos, ainda com poucos meses de vida, dormindo serenamente. Ao observá-los, via em seus rostos o verdadeiro semblante de filhos de Deus. Embora eu não afirme que eles sejam isentos de pecado, definitivamente não posso conceber, nem apoiar a ideia de que Deus os lançaria ao mais profundo abismo, onde, em meio às trevas e tormentos, eles gemeriam em sofrimento eterno sem sequer poder falar. Acredito firmemente que Deus os ama como um pai ama seus filhos.
Se Deus não ama uma criancinha de meses, seja viva ou falecida, ou indivíduos com deficiência intelectual (pois Deus é Senhor), então eu também duvidaria de seu amor por mim, mesmo com todos os meus erros. O amor de Deus por mim é uma realidade indiscutível, e nada pode anulá-lo, assim como sua graça não pode ser substituída por recursos humanos. Se Deus me amou uma vez, Ele me amará para sempre — e, com certeza, também cuidará de minhas crianças, estejam vivas ou falecidas, bem como dos filhos de outras pessoas, incluindo bebês falecidos precocemente ou deficientes intelectuais. Deus é infinitamente bom, amoroso e misericordioso para com todos os seus.
O Antigo Testamento nos assegura que Deus “juntará os carneirinhos, os carregará no colo e guiará com carinho as ovelhinhas que estão amamentando” (Isaías 40:11). Com base nesta promessa, creio que Deus cuida de todas as criancinhas, sejam elas vivas ou falecidas, ou nascidas com deficiência intelectual, com a mesma ternura e amor que Ele demonstra em sua Palavra.
Paz e graça.
[1] O termo “latente” refere-se a algo que está presente, mas ainda não se manifestou ou se desenvolvido completamente. É uma capacidade ou potencial que existe, mas ainda não foi realizado ou ativado. Em outras palavras, algo latente é oculto ou não visível, mas pode se tornar ativo ou evidente quando certas condições são atendidas. Por exemplo, uma semente tem a capacidade latente de se transformar em uma árvore.
[2] Hodge, “tornar conspícuo”.
[3] O autor da Epístola aos Hebreus menciona Esaú como um exemplo de alguém que, apesar de buscar a bênção com lágrimas, não a encontrou devido à falta de arrependimento genuíno. Essa falta de arrependimento está ligada ao seu desprezo pelas bênçãos espirituais e à disposição de sacrificar algo de grande valor, como a bênção da primogenitura, por um prazer momentâneo, como um prato de pão e guisado de lentilhas (Gênesis 25:29 – 34). O trecho de Hebreus destaca a seriedade do pecado de Esaú e sua falta de reconhecimento da gravidade de suas ações. Essa rejeição é evidenciada pela eterna reprovação divina, em que “Deus odiou a Esaú” e não quis “se compadecer” dele (Romanos 9:11 – 16).
[4] “Porque em nada me sinto culpado; mas nem por isso me considero justificado, pois quem me julga é o Senhor” (ACF).
[5] A doutrina que se propusera ilustrar neste Salmo é a excelência do Nome de Deus, ou seu poder, sua bondade e outras perfeições como manifestadas em sua providência e governo do mundo; e isso o salmista declara no primeiro versículo. Ele, pois, procede a estabelecer e a ilustrar esta doutrina: — [1] – Do caso das crianças; [2] – Dos céus estrelados; e [3] – De preocupar-se Deus com o homem e de visitá-lo, não obstante sua indignidade, pecaminosidade e miséria.
[6] “Qui voudroyent que son nom fust totalement aboli de la memoire des hommes” – v.f. “Que gostariam que seu nome fosse totalmente extinto da memória dos homens”.
[7] “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (ACF).
[8] “E vossos meninos, de quem dissestes: — Por presa serão; e vossos filhos, que hoje não conhecem nem o bem nem o mal, eles ali entrarão, e a eles a darei, e eles a possuirão” (ACF).
[9] “Manteiga e mel comerá, quando ele souber rejeitar o mal e escolher o bem” (ACF).
[10] “Por amor do teu nome, Senhor, perdoa a minha iniquidade, pois é grande” (ACF).
[11] “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos. Veio, porém, a Lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça” (ACF).
[12] “Então o rei se perturbou, e subiu à sala que estava por cima da porta, e chorou; e andando, dizia assim: — Meu filho Absalão, meu filho, meu filho, Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!” (ACF).
[13] “De maneira que a Lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados” (ACF).
[14] Thomas Watson, A plea for the godly, Pittsburgh: Soli Deo Gloria, 1993, p. 287.
[15] Watson, A plea for the godly, p. 288.
[16] A obediência ativa de Cristo refere-se ao cumprimento perfeito da Lei de Deus por parte de Cristo durante Sua vida na Terra. Isso inclui a observância de todos os mandamentos e preceitos da Lei Mosaica. A obediência passiva de Cristo refere-se à sua submissão à vontade de Deus, incluindo o sofrimento e a morte na cruz. Esta obediência é chamada de “passiva” porque envolve a aceitação de condições impostas, em vez de ações proativas.
[17] “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim Ele não abriu a sua boca” (ACF).
[18] O verdadeiro milagre é a salvação — No Novo Testamento, especialmente no Evangelho de Lucas, encontramos trechos significativos sobre a natureza da salvação. Em vez de dizer: — “A tua fé te curou”, como seria comum em relatos onde há cura, Lucas registra Jesus afirmando: — “A tua fé te salvou” (Lucas 7:50; 8:48; 17:19; 18:42). Apesar de ocorrerem curas nesses casos, como entender essa afirmação de Jesus? O foco está claramente na salvação, mesmo quando há cura. A fé que Jesus elogia vai além da crença na possibilidade de um milagre; ela implica uma confiança em Jesus, independentemente de receber ou não o milagre. Por isso, Tiago afirma que “a oração da fé salvará o doente e, se houver cometido pecado, ser-lhe-ão perdoados”, o que sugere que “a cura é um sinal da fé salvadora que Cristo aprova”. Assim, a cura indica o perdão divino. Jesus previu uma fé que transcende a expectativa de um milagre; a fé que Cristo aprova é centrada exclusivamente nEle, e não na possibilidade de receber algo. No caso do homem paralítico, a concessão do perdão dos pecados por Cristo antes da cura física demonstrou que o perdão dos pecados era a justificação, e a cura física serviu como um símbolo da santificação (Marcos 2:7).