O DÍZIMO NO ANTIGO TESTAMENTO?

O DÍZIMO NO ANTIGO TESTAMENTO?

Pergunta: — Tenho lido bastante sobre o dízimo. Penso que significa a décima parte da renda de alguém. Podeis dar-me uma breve — bem breve — história bíblica do dízimo no Antigo Testamento? Desejo especificamente saber se havia um dízimo ou três.

Resposta: — Havia três dízimos sob a Antiga Aliança: — [1] – o dos levitas, [2] – o das festas e [3] – o dos pobres. Estes eram ordenados pela Lei. Uma breve história nos ajudará a compreender sua importância.

O dízimo de Abraão a Melquisedeque é frequentemente apontado como o primeiro dízimo (cf. Hebreus 7:4 – 10). Nesse caso, o dízimo consistia em um décimo dos despojos de guerra, oferecido como tributo a Deus porque Ele concedera a Abraão vitória na batalha (Gênesis 14:18 – 24). Contudo, tratava-se de um “dízimo voluntário”. Assim, essa narrativa não parece ser um caso claro de “dízimo obrigatório”, visto que Melquisedeque inicialmente recusou o presente e Abraão objetou, afirmando que o dízimo era consequência de um voto que havia feito. Votos e ofertas voluntárias não são “dízimos” em sentido estrito, sendo regidos por diferentes leis nas Escrituras — ainda que, por vezes, correspondam a um décimo. Note-se também que o dízimo de Jacó foi igualmente voluntário (Gênesis 28:22).

O episódio do dízimo de José, em Gênesis 47:23, 24, 26, também é instrutivo como base para o dízimo posteriormente codificado na Lei. José estabeleceu que dois décimos (a quinta parte) fossem entregues a Faraó, enquanto o restante ficava com o povo. José seguiu um princípio semelhante ao de Abraão: — o dízimo incidia sobre o que Deus fazia crescer (rebanhos, colheitas), não sobre os produtos de artesãos e comerciantes. O mesmo se verificou depois na Lei de Moisés.

Como já mencionado, sob a Lei mosaica, no Antigo Testamento, havia três dízimos distintos. Alguns os entendem como sobrepostos, mas outros — como eu — os consideram separadamente:

1 – O primeiro dízimo — o dízimo dos levitas.

O primeiro dízimo era entregue aos levitas (Números 18:21). Apenas os membros da tribo de Levi podiam receber esse dízimo (a décima parte). Por sua vez, os levitas deviam dar a décima parte do dízimo recebido aos sacerdotes (Números 18:25 – 28). Diferentemente dos outros dízimos, este substituía o direito de herança na terra de Israel e provia o sustento básico dos levitas e dos sacerdotes arônicos da tribo de Levi. Este dízimo só tinha validade na Terra Prometida (Deuteronômio 12:19).

2 – O segundo dízimo — o dízimo das festas.

O segundo dízimo prescrito era o dízimo das festas (Deuteronômio 16:16). A cada ano, Israel deveria trazer seus dízimos, no plural (Deuteronômio 12:6[1]), os quais seriam separados “e consumidos” durante a festividade (Deuteronômio 12:18[2]). Assim, o primeiro e o segundo dízimo são distintos entre si, pois em Deuteronômio 12:18 o indivíduo recebia o direito de comer do segundo dízimo, especificado como parte da celebração festiva e jubilosa (Veja também Deuteronômio 14:22 – 26).

Até mesmo a história da Igreja registra essa distinção. Em Antiguidades dos Judeus, do historiador judeu Flávio Josefo (37 ou 38 – ca. 100 d.C.), lemos a seguinte declaração: — “Que se retire dos vossos frutos uma décima parte, além daquela que já destinastes aos sacerdotes e levitas. Essa vós podeis, de fato, vender no campo; mas ela deve ser usada nas festas e nos sacrifícios que se celebram na cidade santa. Pois é justo que desfruteis dos frutos da terra que Deus vos concedeu para possuir, de modo que seja para a honra daquele que os doou[3].

3 – O terceiro dízimo — o dízimo dos pobres.

O terceiro dízimo era destinado aos pobres (Deuteronômio 14:28, 29). A Igreja tem a obrigação de socorrer os necessitados (Deuteronômio 15:11; João 12:8; Atos 20:35; Gálatas 2:10; 1 Timóteo 5:3). Essa obrigação tem suas raízes no Antigo Testamento. Duas vezes (Deuteronômio 14:28; 26:12, 13), o Senhor ordena um dízimo a ser reservado e distribuído a cada terceiro ano. Este terceiro dízimo devia ser guardado localmente e armazenado em cada cidade ou povoado (Deuteronômio 14:28; 26:12), para o sustento dos levitas e dos pobres da comunidade — o estrangeiro, o órfão e a viúva.

Além disso, os cantos dos campos e os cachos de uva deixados pelos trabalhadores eram reservados aos pobres (Deuteronômio 24:17[4]; Levítico 19:9, 10[5]). Também lhes era permitido comer do que a terra produzia durante os anos sabáticos (Levítico 25:1 – 7; Deuteronômio 15:1 – 11). Josefo escreveu: — “Além daqueles dois dízimos que, como já disse, deveis pagar todos os anos — um para os levitas e outro para as festas — trareis, a cada terceiro ano, um terceiro dízimo, a ser distribuído aos que têm necessidade; também às mulheres que são viúvas e às crianças que são órfãs[6].

Outras considerações.

Não dizimar, na economia da Antiga Aliança, era considerado “roubar a Deus” (Malaquias 3:6 – 12). Tratava-se de uma violação da Aliança. Hoje, porém, os cristãos precisam perguntar: — permanecem ainda sob a Lei cerimonial do Antigo Testamento acerca dos “dízimos” (Romanos 6:14; 7:4, 6; Gálatas 5:8), ou são chamados a “dar” com alegria (2 Coríntios 9:7)?

A Igreja do Antigo Testamento foi instruída a ser um corpo doador: — a socorrer, cuidar e amar ao próximo. A Igreja do Novo Testamento encontra-se sob o mesmo mandamento. Entretanto, permanece a questão: — será que o dízimo de 10% é um requisito bíblico sob a Nova Aliança?[7]

Paz e graça.

[1] “E ali trareis os vossos holocaustos, e os vossos sacrifícios, e os vossos dízimos, e a oferta alçada da vossa mão, e os vossos votos, e as vossas ofertas voluntárias, e os primogênitos das vossas vacas e das vossas ovelhas” (ACF).

[2] “Mas os comerás perante o Senhor teu Deus, no lugar que escolher o Senhor teu Deus, tu, e teu filho, e a tua filha, e o teu servo, e a tua serva, e o levita que está dentro das tuas portas; e perante o Senhor teu Deus te alegrarás em tudo em que puseres a tua mão” (ACF).

[3] Antiguidades, Livro 4, Capítulo 8, §8.

[4] “Não perverterás o direito do estrangeiro e do órfão; nem tomarás em penhor a roupa da viúva” (ACF).

[5] “Quando também fizerdes a colheita da vossa terra, o canto do teu campo não segarás totalmente, nem as espigas caídas colherás da tua sega. Semelhantemente não rabiscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro. Eu sou o Senhor vosso Deus” (ACF).

[6] Antiguidades, Livro 4, Capítulo 8, §22.

[7] Para uma análise detalhada, consulte o artigo — “O Dízimo no Novo Testamento?”.

[8] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.

O DÍZIMO NO ANTIGO TESTAMENTO?

COBERTURA DE CABEÇA NO CULTO PÚBLICO

Introdução.

Um tema controverso, evitado por muitos pastores e concílios em nossos dias, é o uso de véus (ou coberturas de cabeça) no culto público. Há diversas razões pelas quais tal assunto é negligenciado. [1] – Muitos o consideram um “jogo perdido”, sobretudo por parte de presbitérios que desejam evitar ofender pessoas de opiniões divergentes. [2] – A passagem que trata do uso de véus é de difícil interpretação e, por isso, tem sido empregada para sustentar pontos de vista completamente distintos. [3] – O uso de coberturas na adoração pública é, na atualidade, tanto raro quanto impopular. De fato, não poucas mulheres — e até alguns homens — sentem-se profundamente ofendidos com a prática. Pastores já foram demitidos ou pressionados a renunciar unicamente pelo fato de suas esposas cobrirem a cabeça no culto. [4] – Lamentavelmente, muitos ministros, em nossa era, compreendem seu ofício não como arautos da verdade, mas como meros gestores de pessoas. Assim, doutrinas e práticas que geram controvérsia precisam ser evitadas ou reinterpretadas de forma a justificar os costumes atuais.

Ainda que o uso de véus no culto público seja controverso e impopular, há razões importantes pelas quais tal prática deve ser seriamente considerada. Uma razão evidente é que o Apóstolo Paulo dedica uma porção significativa de um capítulo em sua epístola para tratar deste tema. O Apóstolo, movido pelo Espírito, apresenta argumentos detalhados em favor do uso de coberturas. Ora, tudo quanto se encontra na palavra de Deus requer nossa mais atenta consideração. Ademais, Paulo ordena o uso de véus por parte das mulheres no culto. Caso tal prática deva ser rejeitada ou ignorada em nossos dias, é imperioso que a Igreja possua razões exegéticas claras para tanto. Como cristãos, nossa lealdade suprema não pertence ao “status quo”, nem ao espírito de nosso tempo, mas ao Senhor Jesus Cristo e à sua Palavra infalível.

Antes de adentrarmos o ensino do Apóstolo quanto ao uso do véu em 1 Coríntios 11:2 – 16, algumas considerações preliminares se fazem necessárias. [1] – O ensinamento paulino acerca das coberturas de cabeça está inserido em uma seção mais ampla da epístola que trata de desordens no culto público: — o véu das mulheres (11:2 – 16); a conduta imprópria na Ceia do Senhor (11:17 – 34); e o mau uso dos dons espirituais (12:1 – 31). Portanto, a passagem em questão não trata do uso contínuo do véu por parte das mulheres em todos os momentos, mas especificamente no contexto do culto. [2] – Embora não saibamos exatamente como Paulo tomou conhecimento do problema em Corinto, é provável que tenha sido por meio de carta (cf. 1 Coríntios 7:1). De qualquer modo, o Apóstolo considerou a questão suficientemente grave para tratá-la com detalhe. [3] – Esta seção das Escrituras parte do pressuposto de que ao menos algumas mulheres em Corinto haviam deixado de cobrir a cabeça durante o culto público. Embora não saibamos ao certo o motivo desse abandono, é possível que algumas tenham mal compreendido ou aplicado erroneamente o ensino paulino de que, em Cristo, “não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28 – ACF)[2]. O ensino do Apóstolo de que, na esfera da salvação, as distinções sociais, raciais e mesmo de gênero são irrelevantes, pode ter sido distorcido em uma negação das diferenças de função e ordem. O fato de Paulo enfatizar a ordem divina de autoridade (cf. 1 Coríntios 11:3, 7 – 9) implica que havia necessidade de correção nesse ponto. [4] – O Apóstolo inicia a seção que trata dos abusos no culto público louvando os coríntios por guardarem as tradições (v. 2). A palavra traduzida como “tradições” (παράδοσις–parádosis), ou “preceitos” (ACF), neste contexto, refere-se à palavra de Deus transmitida por Paulo. O fato de o Apóstolo oferecer louvor antes da correção tem intrigado diversos comentadores. Por que o Apóstolo começa uma seção de correção de práticas errôneas com um elogio à obediência à doutrina apostólica inspirada? Há algumas respostas plausíveis a essa questão. É possível que os abusos em Corinto tenham sido praticados por uma pequena minoria na Igreja; assim, Paulo poderia louvar o corpo principal por sua fidelidade. Outra possibilidade é que Paulo elogie os coríntios por sua fidelidade em muitas áreas antes de corrigi-los, como um estímulo à fidelidade ainda maior. Em outras palavras, ele os louva pelo bem antes de os admoestar pelo mal. O Apóstolo os corrige de maneira amorosa e delicada, como um pai trata um filho sensível.

1 – Uma declaração teológica fundamental.

Curiosamente, o Apóstolo inicia seu ensino acerca do uso do véu no culto público, não com uma repreensão ou descrição do problema, mas com uma declaração teológica fundamental: — “Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo” (v. 3). Tal afirmação serve como ponto de referência para os versículos 4 e 5. O fato de algumas mulheres em Corinto não estarem cobrindo suas cabeças durante o culto público é sintoma de um problema maior: — revela uma compreensão distorcida do significado da obra de Jesus para as relações sociais na era da Nova Aliança. Por isso, Paulo principia com uma afirmação quanto à ordem de autoridade instituída por Deus na criação. “Com a intenção de provar que é algo indecoroso a mulher se apresentar numa assembleia pública com a cabeça descoberta, e, por outro lado, que é impróprio ao homem orar ou profetizar com a cabeça coberta, ele começa destacando os arranjos divinamente estabelecidos[3]. O Apóstolo apresenta quatro gradações de autoridade que se aplicam à ordem criada: — Deus, Cristo, o homem, a mulher.

[1] – A cabeça de Cristo é Deus.

Este ponto refere-se ao fato de que, em seu estado encarnado como Mediador, Jesus assumiu voluntariamente uma posição de submissão ao Pai. Evidentemente, como segunda Pessoa da Trindade, o Filho é igual em poder e autoridade a Deus.

[2] – A cabeça de todo homem é Cristo.

Tal afirmação é verdadeira sob diversos aspectos. Como Deus e Criador, o Filho é o Senhor supremo sobre todos os homens e mulheres. Além disso, em seu ofício de Mediador divino–humano, Jesus recebeu toda autoridade no céu e na terra (Mateus 28:18). Ele é a Cabeça da Igreja e o Salvador do corpo (Efésios 1:22, 23; Colossenses 1:16).

[3] – A cabeça da mulher é o homem.

Deus estabeleceu o homem em posição de autoridade sobre a mulher. O Apóstolo explicará esse princípio com mais profundidade nos versículos 7 e 8: — “O homem é primeiro em ordem de existência, foi formado primeiro, e a mulher dele, feita para ele, e não ele para a mulher; por isso deve ser cabeça e principal […] e ela deve estar sujeita a ele em tudo quanto é natural, civil e religioso. Além disso, o homem é cabeça da mulher para prover e cuidar dela, nutri-la e amá-la, protegê-la e defendê-la de toda afronta e injúria[4].

A liderança pactual do homem sobre a mulher foi estabelecida por Deus no sexto dia da criação (Gênesis 2:18 – 25). Este princípio é ensinado por toda a Escritura. Exemplo notável se encontra em Efésios 5:23: — “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da Igreja, sendo Ele próprio o salvador do corpo” (ver também 1 Pedro 3:1, 5, 6; Romanos 7:2; 1 Coríntios 11:8, 9; 1 Timóteo 2:12, 13; 3:4, 5, 12; Isaías 54:5; Jeremias 3:20; 31:32; Oséias 2:2, 7; Números 30:3 – 15; Êxodo 22:16, 17; 21:1 – 11).

Há diversos aspectos a serem notados na declaração inicial de Paulo quanto à autoridade. Primeiro, o Apóstolo não se empenha em provar o princípio da autoridade e subordinação, mas o afirma como fato estabelecido pela ordem criada de Deus. Segundo, a estrutura de autoridade apresentada por Paulo é universal quanto ao tempo e lugar. Sendo uma ordenança da criação — isto é, um princípio fundado na realidade criada por Deus —, a liderança do homem sobre a mulher não é, de modo algum, fruto de cultura ou evolução social. A liderança pactual do homem sobre a mulher aplica-se a toda a história e a todas as culturas. Qualquer tentativa de contornar o ensino de Paulo neste ponto constitui ato de rebelião contra o próprio Deus, que estabeleceu tal estrutura de autoridade. Terceiro, a palavra traduzida como “cabeça” (κεφαλή–kephalé) significa “governante”, “líder” ou “aquele que possui autoridade sobre”. As tentativas feministas e igualitárias de esvaziar o sentido claro do texto, interpretando “kephalé” como “fonte”, já foram amplamente refutadas[5]. Quarto, a afirmação paulina quanto à autoridade do homem sobre a mulher não implica inferioridade feminina. Homens e mulheres são iguais metafisicamente — quanto ao ser, essência ou natureza —, embora diferentes em vários aspectos (por exemplo, os homens são fisicamente mais fortes; Pedro chama a mulher de vaso mais fraco — 1 Pedro 3:7). Ambos são igualmente redimidos diante de Deus, salvos e santificados da mesma forma, com igual dignidade, como filhos de Deus em Cristo (Gálatas 3:28; 1 Pedro 3:7). Portanto, as mulheres não são cidadãs de segunda classe na família, na Igreja ou na sociedade. A distinção entre homens e mulheres, segundo Paulo, refere-se à função e ao propósito: — o homem foi criado para liderar de modo amoroso — isto é, como líder servo (Mateus 20:25 – 28; Efésios 5:25 – 33); a mulher foi criada como auxiliadora, para submeter-se respeitosamente ao marido e assisti-lo na tarefa do domínio piedoso (Gênesis 2:18; 1 Coríntios 11:9; Efésios 5:22, 23). Quinto, a declaração fundamental de Paulo no versículo 3 ensina que Deus considera vergonhosa a cabeça descoberta da mulher no culto público, não por indecência ou inconformidade cultural, mas porque simboliza a usurpação da ordem criada por Deus.

Após delinear a ordem de autoridade ordenada por Deus, Paulo prossegue apresentando exemplos concretos de violações desse princípio, bem como argumentos adicionais em favor do uso do véu no culto público.

2 – Desonra e vergonha.

No argumento seguinte, Paulo apresenta uma situação hipotética no culto público a fim de tratar da aparência do homem e da mulher no ato de adoração — com cobertura (no caso dos homens) ou sem ela (no caso das mulheres): — “Todo o homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça. Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada. Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu” (1 Coríntios 11:4 – 6 – ACF).

3 – Oração e profecia.

Antes de considerarmos o argumento do Apóstolo quanto à vergonha, há certos pontos preliminares que requerem atenção. É necessário definir a referência paulina à oração e à profecia no culto público. Muitos comentaristas veem problema na menção de mulheres orando e profetizando na adoração pública, visto que, em 1 Coríntios 14:34, 35, as mulheres são ordenadas a guardar silêncio na assembleia. Ora, sendo impossível que a Escritura se contradiga, e especialmente inconcebível que o próprio Apóstolo se contradiga de forma tão clara na mesma epístola, estudiosos propõem interpretações distintas, mas plausíveis, para resolver tal aparente dificuldade. Calvino argumenta que a menção à oração e à profecia por parte das mulheres é meramente hipotética, visto que mais adiante Paulo proíbe tal prática de modo absoluto[6]. Outra possibilidade é que o Apóstolo considere a profecia — sendo revelação direta de Deus — como uma exceção ao falar comum (por exemplo, a exposição não–inspirada das Escrituras). Em outras palavras, se a profecia é o próprio Deus falando, sem mediação interpretativa, então a mulher, ao profetizar, não está exercendo autoridade sobre o homem Veja o comentário de Matthew Henry sobre esta passagem[7].

A interpretação mais adequada é que os atos de oração e profecia mencionados por Paulo representam a participação congregacional no culto público. Os estudiosos chamam de sinédoque a figura que designa a parte pelo todo — neste caso, uma parte do culto público. O comentarista John Gill oferece uma explicação elucidativa desta passagem, ao afirmar: — “Não que à mulher fosse permitido orar publicamente na congregação, muito menos pregar ou explicar a Palavra, pois tais coisas lhes eram proibidas (cf. 1 Coríntios 14:34, 35; 1 Timóteo 2:12). Antes, refere-se a toda mulher que participa no culto público com o ministro em oração, que ouve a pregação da Palavra, ou que entoa os louvores de Deus junto com a congregação[8]. De fato, embora as mulheres não ensinem nas assembleias públicas nem conduzam a oração, oram liturgicamente — isto é, em unidade com toda a congregação, como no Pai–Nosso — e entoam cânticos inspirados, que são profecias das Escrituras, especialmente quando cantam os Salmos.

A importância de compreender adequadamente o significado de oração e profecia reside no seguinte: — se o uso do véu fosse exigido apenas durante o ato específico de apresentar oração inspirada ou nova doutrina diretamente de Deus, poder-se-ia argumentar que a prática do uso de cobertura para as mulheres se restringia ao século primeiro, cessando com a morte dos Apóstolos e o fechamento do cânon. Todavia, sendo universal o uso da cobertura tanto na Igreja oriental quanto na ocidental no período pós–apostólico, revela-se extremamente improvável que o uso do véu se limitasse ao momento exato em que a oração ou o ensino divinamente inspirados eram manifestados.

4 – O que é um véu ou cobertura para a cabeça?

Quando Paulo fala em “cobertura para a cabeça”, estaria referindo-se a um pedaço de tecido — isto é, um véu — conforme a interpretação tradicional, ou estaria aludindo ao cabelo comprido? Há várias razões que indicam que a cobertura mencionada deve ser entendida como um véu ou pano. Primeiramente, as palavras e expressões que Paulo usa para descrever essa cobertura são empregadas em outros textos das Escrituras para indicar um tecido sobre a cabeça. No versículo 4, a frase incomum “κατὰ κεφαλῆς ἔχων–kata kephalēs echōn”, traduzida como “tendo a cabeça coberta” e que significa literalmente “com a cabeça coberta e o véu caindo para baixo”, é usada na Septuaginta para traduzir expressões hebraicas referentes a véus ou mantos cobrindo a cabeça. “Embora o idioma de Paulo seja singular, não carece de precedentes. Em Ester 6:12, diz-se que Hamã ‘apressou-se para sua casa, chorando e com a cabeça coberta’ (RSV). A LXX – Septuaginta [grega] traduz esta expressão como kata kephalēs (= ‘para baixo da cabeça’). De modo semelhante, Plutarco refere-se a Cipião, o Jovem, que caminhava por Alexandria ‘com o ἱμάτιον–himation para baixo da cabeça’, significando que cobria a cabeça com parte da toga para não ser reconhecido pelo povo. Quase certamente, pois, Paulo está empregando este idioma para indicar uma cobertura externa de tecido[9].

O contraste que Paulo estabelece entre homens e mulheres no versículo 5 é ainda mais claro do que no versículo 4. Aqui, o Apóstolo utiliza a expressão “tendo a cabeça descoberta”, ou literalmente “sem véu”. A palavra grega, em todas as suas formas variadas usadas ao longo desta seção (por exemplo, v. 5, akatakalyptō – “sem véu”; v. 6, ou katakalyptetai – “não está velada”; v. 6, katakalyptesthō – “seja velada”; v. 7, ouk opheilei katakalyptesthai – “não deve estar velado”; v. 13, akatakalypton – “sem véu”) refere-se claramente a uma cobertura de tecido ou véu.

Essa interpretação é sustentada pela Septuaginta (isto é, a tradução grega do Antigo Testamento concluída em 247 a.C.), a qual utiliza as várias formas de “katakalyptō” para descrever uma cobertura feita de tecido. Em Gênesis 38:4 – 15, a mesma palavra (ekalupisato, katekalupato) é utilizada para descrever Tamar cobrindo-se com um véu. É evidente que isso não se refere a uma cobertura capilar. Em Isaías 47:2, 3, lemos: — “Toma as mós e moe a farinha. Remove o teu véu (apokalypsai to katakalumma), descobre as pernas (anakalupsai tas polias) […]. A tua nudez será descoberta (anakaluphthēsetai)”. Mais uma vez, a cobertura é de tecido ou pano. A palavra “akaluptos”, ou “descoberta”, deriva da palavra “kalumna”, que significa “véu”. A palavra “kalumna” é usada dezoito vezes na tradução grega do Antigo Testamento (isto é, a Septuaginta; Êxodo 26:14; 27:16; 34:33, 34, 35; 39:20; 40:5; Números 3:25; 4:8, 10, 11, 12, 14 [duas vezes], 31; 1 Crônicas 17:5). Todas as vezes que essa palavra ocorre tanto no Antigo quanto no Novo Testamento (por exemplo, 2 Coríntios 3:13, 14, 15, 16), ela sempre se refere a um véu de tecido. Nunca é usada para descrever o cabelo. Consequentemente, a menos que o contexto imediato se refira especificamente ao cabelo, devemos sempre considerar kalumna (ou um de seus derivados) como referência a um véu de tecido usado sobre o cabelo. Segundo, a cobertura da cabeça do homem é associada à vergonha pelo Apóstolo Paulo. O pano de fundo dessa afirmação encontra-se no Antigo Testamento, onde, em tempos de tristeza ou quando os homens experimentavam vergonha, cobriam a cabeça com um véu de tecido. Em 2 Samuel 15:30, lemos: — “E Davi subiu pela subida das Oliveiras, subindo e chorando; e tinha a cabeça coberta, e ia descalço; também todo o povo que estava com ele cobriu cada um a sua cabeça, e subiram chorando” (cf. Ester 6:12). “Outro exemplo da palavra hebraica ocorre em Jeremias 14:3, 4, quando os homens se envergonham e se confundem, e cobrem as suas cabeças, por causa da seca [de chuvas] trazida pelo juízo de Deus. A única outra ocorrência veterotestamentária desta palavra na forma gramatical ‘Qal’ dá-se em Ester 7:8; parece que, em cada um desses eventos do Antigo Testamento, está em vista uma cobertura externa de pano[10]. Terceiro, a ideia de que a cobertura se refere ao cabelo e não a um véu de tecido é tornada impossível pela comparação que Paulo faz entre estar descoberta e ter cabelo curto, masculino. No versículo 5, o Apóstolo declara que estar descoberta é mau porque é vergonhoso, como ter cabelo curto (isto é, tosquiado ou rapado). Seria absurdo dizer que é errado ou vergonhoso para uma mulher ter cabelo curto no culto público porque ter cabelo curto é como ter cabelo curto. Note ainda o que o Apóstolo afirma no versículo 6: — “Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também”. Faria sentido Paulo dizer: — “Se a mulher tem cabelo curto, então que tenha cabelo curto também”? Não, de modo algum! O Apóstolo está dizendo que, se a mulher vai aparecer na Igreja sem véu ou cobertura de tecido (o que é vergonhoso), então ela deveria também cortar o cabelo curto como uma escrava ou uma lésbica. A analogia do Apóstolo só faz sentido se ele estiver comparando uma atividade vergonhosa com outro ato vergonhoso. Se ambas as atividades forem idênticas, então toda a analogia perde o sentido. Alguns cristãos tentaram contornar essa analogia definindo “tosquiar” e “rapar” de maneiras diferentes: — uma significando cabelo curto, e a outra apontando para uma cabeça calva. Esse argumento cai por terra quando observamos que Paulo usa os termos como sinônimos no versículo 6: — “tosquiada ou rapada”. A cobertura só pode referir-se a um pano ou véu; o cabelo simplesmente não serve e não pode funcionar nesse contexto. Quarto, no versículo 7, Paulo afirma que o homem não deve cobrir-se porque “[ele] é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem”. Assim, a mulher deve estar coberta. Somente a glória de Deus deve estar descoberta durante o culto. No versículo quinze, somos informados de que o cabelo comprido da mulher é a sua glória. Como somente a glória de Deus deve estar descoberta no culto público, a glória da mulher deve estar coberta. “O cabelo de uma mulher não pode ser ao mesmo tempo a glória e aquilo que cobre a glória! Nada pode ser ao mesmo tempo ‘A’ e ‘não–A’ da mesma maneira e no mesmo sentido. Paulo nos ensinou que o objeto que é a glória não pode também cobrir a glória! E ele nos ensinou que somente a glória de Deus deve ser vista no culto[11]. Obviamente, então, a glória da mulher (isto é, seu cabelo comprido) deve ser coberta com um pano ou tecido de algum tipo.

5 – É o cabelo?

Há uma objeção comum a todos os argumentos anteriores. Geralmente, ela toma a forma de uma pergunta. Paulo não diz explicitamente no versículo 15 que o cabelo é dado a ela “como cobertura”? Em outras palavras, por que uma mulher deveria usar um véu como cobertura quando Paulo diz que o cabelo longo é sua cobertura? Há várias razões pelas quais o cabelo longo não poderia ser a cobertura que Paulo exige ao longo deste capítulo. Como observado, o significado da palavra para cobertura usada nos versículos 4, 5, 6, 7 e 13 refere-se claramente a uma cobertura de pano ou véu na Escritura. Curiosamente, quando o Apóstolo se refere ao cabelo longo como uma cobertura, ele usa uma palavra grega completamente diferente (περιβόλαιον– peribolaion) para distinguir um tipo de cobertura de cabeça de outro. É notável que, quando Paulo se refere a um véu de pano neste capítulo, ele sempre usa uma forma diferente de “kalumna” (katakalupto, akatakaluptos, akatakalupto), mas assim que discute o cabelo como uma cobertura, ele introduz uma palavra grega completamente diferente (peribolaion). Paulo está fazendo uma clara distinção entre esses dois tipos de coberturas que, infelizmente, se perde na tradução. O Apóstolo não quer que confundamos a cobertura de cabelo com a cobertura de pano (o véu). Além disso, (como observado) se o cabelo longo for substituído por uma cobertura de pano nos versículos 5 e 6, as passagens não fazem sentido algum (por exemplo: — “Se ela está rapada, então que se rape”). Se a principal preocupação de Paulo no capítulo 11 é ensinar às mulheres que elas devem vir ao culto com cabelo longo, então por que não simplesmente ensinar sobre a necessidade de as mulheres terem cabelo longo o tempo todo como uma lei da natureza? Não haveria razão para ter uma discussão separada sobre cabelo longo no culto público porque o cabelo de uma mulher não é algo que pode ser removido e substituído em um momento quando se deseja. Além disso, a ideia de que a cobertura de cabeça é cabelo longo exigiria que se interpretasse a cobertura de cabeça em referência aos homens no versículo 4 como cabelo longo, o que é extremamente improvável.

A referência de Paulo ao cabelo comprido como cobertura natural aparece em meio a uma série de razões para o uso de uma cobertura de tecido no culto público. O argumento que apela ao cabelo longo toma um dos subpontos de Paulo em favor do uso do véu e o transforma na proposição principal de toda a seção. Se a única e principal preocupação de Paulo fosse simplesmente que as mulheres mantivessem o cabelo longo e os homens o cabelo curto, por que não iniciar a discussão com esse ponto? Além disso, por que Paulo usaria uma palavra referente à cobertura de tecido em todo o seu argumento e, então, empregaria uma palavra grega diferente no versículo 15, se estivesse preocupado apenas com estilos de cabelo?

Um dos maiores problemas para o argumento do cabelo longo é que cabelos curtos, em estilo masculino ou lésbico, em mulheres, e estilos longos e efeminados em homens, não constituem apenas um problema no culto público, mas uma clara violação da Lei de Deus quanto à manutenção da diferença ordenada por Deus entre os sexos. Se as mulheres estivessem tentando parecer-se com homens — o que era um comportamento comum entre lésbicas no mundo greco–romano —, Paulo teria tratado tal conduta perversa em sua seção sobre imoralidade sexual, e não como algo meramente impróprio no culto público.

É evidente, então, que o Apóstolo aponta para a natureza (ou a ordem natural), onde o cabelo comprido da mulher é uma cobertura natural, como evidência de apoio ao uso de uma cobertura de tecido no culto público. “A implicação é que, como a natureza providenciou às mulheres um adorno de cabelo, ela está destinada, não, é claro, a considerar isso como um substituto para outra cobertura, mas a usar um véu quando estiver orando a Deus na companhia de homens, sendo a natureza considerada como fornecedora da norma mesmo para tal vestimenta[12].

John Murray escreve: — “O grego do versículo 15 é certamente o grego da equivalência, como usado com frequência no Novo Testamento, e isso justificaria a tradução: — ‘o cabelo lhe é dado por cobertura’. A cobertura de cabelo comprido provida pela natureza (versículo 15) “não interfere com a exigência da cobertura adicional contemplada nos versículos 5, 6 e 13”, e de fato Paulo apela a ela como apoio à cobertura artificial. Bruce Waltke observa: — “A pressuposição é usada aqui mais próxima de seu significado original de ‘em oposição’. O cabelo comprido da mulher está ‘em oposição’ e ‘corresponde’ à cobertura desejada para a assembleia pública”. A cobertura natural do versículo 15 ‘reclama’ a cobertura cultual dos versículos 4 a 7. O ponto é que os versículos 5, 6 e 13 contemplam uma cobertura artificial que deve ser colocada nas assembleias de culto da Igreja, enquanto os versículos 14 e 15 ‘apresentam uma consideração da ordem natural em apoio àquilo que é ordenado anteriormente na passagem, mas que não é, em si mesma, equivalente a isso. Em outras palavras, o cabelo comprido é uma indicação da [natureza] quanto à diferenciação entre homens e mulheres, e assim a cobertura da cabeça exigida nos versículos 5, 6 e 13 está em conformidade com o que a ‘natureza’ ensina[13].

O estudioso grego Buchsel observou que: — “a preposição ‘anti’, que tem o significado básico de ‘em oposição a’ ou ‘no lugar de’, pode se referir a ‘um mero equivalente em estimação […] ou similaridade’[14]. Ele cita 1 Coríntios 11:15 como um exemplo de similaridade. Em outras palavras, Paulo não está dizendo que o cabelo longo da mulher é a cobertura de cabeça que ele defende no culto, mas sim que é semelhante à cobertura de pano. A natureza aponta para o uso de uma cobertura de pano no culto público. Godet escreve: — “Foi objetado, não sem um toque de ironia, que pelo próprio motivo de que a natureza dotou a mulher de tal cobertura, ela não precisa adicionar uma segunda e artificial. Mas isso é um equívoco quanto ao verdadeiro alcance do argumento do Apóstolo. Tudo é espiritual em sua visão. Ele quer dizer que a natureza, ao constituir cada um dos dois sexos como fez, deu a ambos a entender a maneira pela qual cumprirão seu destino; para o homem, será uma ação pública e independente; para a mulher, a vida no retiro doméstico e silencioso. Quem quer que tenha a menor apreciação das coisas da natureza reconhecerá a verdade profunda desse simbolismo […]. A constituição física da mulher é uma revelação da vontade do Criador a respeito dela. Não se conformar a essa indicação não é apenas ofender a propriedade social, é também transgredir a vontade do Criador[15].

Com relação ao argumento em favor do cabelo comprido como cobertura, há mais um ponto que precisa ser notado. Tem sido a experiência deste autor que virtualmente todos (pastores, presbíteros, consistórios[16], indivíduos) que argumentam que o cabelo comprido é a cobertura no culto público não exigem que as mulheres tenham cabelo comprido. Por que esse fato é importante? É importante porque revela que, ao menos para muitas pessoas, o argumento do cabelo comprido não passa de uma desculpa para evitar o verdadeiro sinal de submissão — uma cobertura de pano na cabeça. Muitos evitam essa acusação argumentando que a principal preocupação do Apóstolo nesta seção das Escrituras é ensinar aos crentes que os penteados devem ser diferentes para homens e mulheres. Em outras palavras, o comprimento é relativo. O cabelo das mulheres deve ser ao menos um pouco mais longo, ou ao menos de um estilo diferente, mais feminino, do que o dos homens. Se esta é, de fato, a intenção do Apóstolo — isto é, tratar apenas de estilos de cabelo distintos entre os sexos — então, como já observado, por que ele inseriria tal argumento em uma seção que trata especificamente do decoro e da reverência no culto público? Devemos, então, acreditar que uma inversão dos papéis sexuais quanto à aparência é permitida fora do culto público? Infelizmente, muitos pastores que hoje se debruçam sobre a exegese desta passagem bíblica mostram-se mais empenhados em justificar as conveniências das práticas eclesiásticas atuais do que em discernir com rigor o verdadeiro sentido do texto. Pastores que pregam sermões que ofendem um grande número de mulheres influenciadas pelo feminismo na Igreja geralmente sofrem algum tipo de perseguição.

6 – Desonrando a sua cabeça.

Paulo afirma que o homem que cobre a cabeça no culto público desonra a sua cabeça, e a mulher que não cobre a cabeça desonra a sua. O que significa desonrar a sua cabeça? Há, basicamente, três interpretações para esta afirmação. A primeira entende o termo “cabeça” de modo metafórico. Assim, o homem desonra sua cabeça, Jesus Cristo, enquanto a mulher desonra sua cabeça, o homem (isto é, seu marido, ou pai, ou, no caso de viúvas, os presbíteros etc.).

Em apoio a esta interpretação, Fee escreve: — “A ‘cabeça’ que seria envergonhada é a ‘cabeça’ metafórica do homem, Cristo. Vários elementos deixam isso claro: — [1] – O assíndeto[17] (ausência de partícula conjuntiva) vincula a frase de modo mais estreito possível ao versículo 3; [2] – Paulo usa o pronome pessoal ‘dele’ em vez do reflexivo ‘dele mesmo’; [3] – referir-se a si próprio dessa forma multiplicaria os usos metafóricos sem aviso prévio; [4] – caso contrário, a afirmação teológica precedente não teria lugar algum no argumento. Portanto, Paulo está afirmando que, se o homem ‘tivesse com a cabeça descoberta’ ao orar ou profetizar, traria vergonha a Cristo de alguma forma, ou ao menos à relação estabelecida pelo fato de Cristo ser a sua ‘cabeça’[18].

A segunda interpretação entende o termo “cabeça” de modo literal. Ou seja, o homem que cobre a cabeça desonra a si mesmo; a mulher que não a cobre desonra a si mesma. Charles Hodge prefere essa interpretação, fundamentando-se em três pontos: — “[1] – Na cláusula imediatamente anterior, a palavra é usada literalmente: — ‘Se ele cobrir a cabeça, desonra a sua cabeça’. [2] – Em 1 Coríntios 11:5, a mulher que se apresenta descoberta desonra a própria cabeça, ou seja, a si mesma, e não ao marido, conforme o contexto demonstra. [3] – É mais evidente que um homem que age contra sua posição desonra a si mesmo do que quem o colocou naquela posição. Por exemplo, um oficial militar de alta patente que aparecesse à frente de suas tropas trajando o uniforme de um soldado comum, em vez de sua vestimenta oficial, poderia ser mais propriamente acusado de desonrar a si mesmo do que ao seu soberano. Da mesma forma, para um homem livre apresentar-se com as vestes distintivas de um escravo era uma desonra. Assim, diz o Apóstolo, se o homem se apresenta com o sinal convencional de sujeição sobre a cabeça, desonra a si mesmo. Ora, se o homem foi designado para representar o domínio de Deus, deve portar-se conforme tal dignidade, e não aparecer com trajes femininos[19].

A terceira interpretação combina as duas anteriores. Em outras palavras, Paulo emprega deliberadamente o termo “cabeça” — ambiguamente neste contexto — porque deseja que os coríntios compreendam que a violação da ordem quanto à veste adequada no culto público traz não apenas desonra sobre si mesmo, mas também vergonha sobre aquele que é sua autoridade; isto é, sobre o Cabeça do homem ou da mulher. O homem, ao usar cobertura na cabeça durante o culto, envergonha-se ao vestir-se como mulher na assembleia, e desonra a Cristo ao ocultar a glória de Deus. A mulher, ao não usar cobertura, envergonha-se ao parecer-se com um homem, e desonra seu marido ao assumir postura que usurpa sua autoridade. “A mulher descoberta desonra a sua cabeça, porque é na cabeça que a indecência se manifesta. Além disso, ao reivindicar igualdade com o outro sexo, ela envergonha a cabeça de seu próprio sexo[20].

Isto é, a mulher sem véu desonra a sua cabeça, pois é justamente em sua cabeça que se torna visível a indecência de sua atitude. Além disso, ao reivindicar igualdade com o sexo masculino, ela desonra a autoridade própria do seu sexo, envergonhando tanto a si mesma quanto à ordem criada por Deus[21].

A terceira interpretação é a mais plausível, considerando que, imediatamente antes dos versículos 4 e 5, “cabeça” refere-se claramente à autoridade sobre o homem ou a mulher. Contudo, logo após esses versículos, torna-se evidente que a mulher sem cobertura envergonha a si mesma, pois é tida como se estivesse “tosquiada ou rapada”. Assim, a mulher que não usa véu desonra-se por apresentar-se de modo vergonhoso e traz desonra a seu marido ao usurpar-lhe a autoridade.

7 – Tosquiada ou rapada.

O argumento de Paulo em favor de uma cobertura de pano para as mulheres, nos versículos 5 e 6, baseia-se numa comparação entre estar descoberta no culto e ter a cabeça tosquiada ou rapada. O termo “tosquiada” [κείρω–keirō — tosquiar como ovelhas] refere-se ao corte de cabelo curto com tesoura ou lâmina. Já “rapada” [ξυράω–xuraō] refere-se ao corte com navalha. O ponto comum de ambos os termos é que a mulher assume uma aparência masculina.

Este argumento levanta a seguinte questão: — por que é vergonhoso para a mulher ter cabelo curto? Embora seja comum ouvir sermões que associam o cabelo curto ou rapado ao sinal de prostituição em Corinto, não há evidência literária ou arqueológica contemporânea que sustente tal interpretação[22]. Nas Escrituras, bem como em sociedades antigas e modernas (ao menos até tempos muito recentes), a cabeça tosquiada ou rapada, representa vergonha ou desonra. Em Isaías 7:20, o ato de raspar os cabelos é usado como figura de destruição de modo profundamente humilhante. Young comenta: — “Nenhuma afronta poderia ser maior do que esta. Uma teocracia tosquiada, desonrada, devastada […][23]. Era prática comum entre as nações antigas tosquiar os cabelos dos povos vencidos. A cabeça rapada ou tosquiada era sinal de vergonha e humilhação. Mulheres escravizadas frequentemente tinham a cabeça raspada[24]. Recorde-se de que, no mundo antigo, a maioria dos escravos era adquirida por meio de conquistas militares. Nas culturas grega e romana dos dias de Paulo, a parceira “masculina” ou dominante em relações lésbicas frequentemente ostentava cabelo curto, como os homens. Essa prática perversa ainda é comum entre lésbicas em nossos dias[25].

Em ambas as culturas do Oriente Médio e da Europa, o ato de tosquiar os cabelos de uma mulher também está associado ao adultério. Vincent escreve: — “Entre os judeus, uma mulher condenada por adultério tinha os cabelos tosquiados, com a seguinte fórmula: — ‘Porque te desviaste dos costumes das filhas de Israel, que andam com a cabeça coberta, por isso te sobreveio aquilo que escolheste’. Segundo Tácito, entre os germanos, uma mulher adúltera era expulsa da casa do marido com a cabeça raspada; e o Código de Justiniano (ou Codex Justinianus[26]) prescrevia essa mesma penalidade para a mulher adúltera, caso o marido se recusasse a recebê-la de volta após o prazo de dois anos[27].

Durante a Segunda Guerra Mundial, mulheres francesas que mantiveram relações com soldados alemães tiveram suas cabeças raspadas como sinal de vergonha e desonra por seu comportamento indecoroso. Acerca dos gregos, Moffat acrescenta: — “Esta era uma repreensão bem conhecida entre as mulheres gregas. Uma das comédias de Menandro tratava da afronta feita a uma moça por um amante ciumento que lhe cortou os cabelos curtos — e a cena se passava em Corinto; uma mulher raspada era desonrada, mesmo que sua cabeça fosse raspada ou cortada contra sua vontade, e muito mais ainda se ela mesma cortasse seus cabelos curtos, imitando os homens[28].

É importante enfatizar que, embora o ato de raspar ou tosquiar os cabelos de uma mulher tenha sido considerado algo humilhante — trazendo vergonha sobre ela em praticamente todas as culturas ao longo da história —, o argumento do Apóstolo não se fundamenta na cultura nem no costume. O cabelo curto na mulher é vergonhoso porque transgride a ordem natural estabelecida por Deus. Tal afirmação torna-se evidente pela declaração imediatamente anterior do Apóstolo concernente à ordem de autoridade divinamente instituída (v. 3), bem como por outros argumentos fundamentados na prioridade da criação (v. 8, 9), e pelos versículos 14 e 15, onde se assevera que o cabelo curto na mulher é contrário à natureza. Quando Deus criou Adão (homem) e Eva (mulher), Ele os distinguiu de diversas maneiras. O cabelo longo na mulher e o cabelo curto no homem é uma dessas distinções naturais. Tal ponto será tratado com maior profundidade ao considerarmos 1 Coríntios 11:14, 15. Essa distinção também deve manifestar-se no vestuário das pessoas após a queda. O Senhor declara ser uma “abominação” que mulheres se vistam como homens e vice-versa. Deuteronômio 22:5 declara: — “Não haverá traje de homem na mulher, e nem vestirá o homem roupa de mulher; porque, qualquer que faz isto, abominação é ao Senhor teu Deus”.

8 – Seja tosquiada.

Após declarar que a mulher que comparece ao culto público sem cobertura na cabeça envergonha sua cabeça — pois a cabeça descoberta é tão vergonhosa quanto estar rapada — Paulo reforça seu argumento com duas sentenças condicionais que dizem essencialmente a mesma coisa sob duas perspectivas distintas. Primeiro, ele afirma que, se a mulher se recusa a usar cobertura na cabeça, então que corte todo o cabelo. Em outras palavras, se ela não vai usar a cobertura que é apropriada — o que é vergonhoso —, então que seja coerente e torne-se ainda mais vergonhosa, cortando o cabelo para parecer-se com um homem. Para parafrasear: — “Se estás disposta a envergonhar-te recusando-te a usar o sinal de submissão que é devido, então torna tua rebeldia — e a vergonha que a acompanha — explícita, evidente e ainda mais chocante, apresentando-te na Igreja como um homem”.

Em seguida, Paulo inverte o argumento com outra sentença condicional. Se é vergonhoso para a mulher ter os cabelos cortados (isto é, “tosquiados” ou “rapados”) — o que certamente o é —, então que cubra a sua cabeça. Note que, ao final do versículo 6, o Apóstolo emite o imperativo ou mandamento: — “que ponha o véu [que se cubra]”. O uso do imperativo significa que Paulo não está apenas oferecendo um conselho amigável ou sugerindo uma questão voluntária. O Apóstolo, sob inspiração divina, ordena que as mulheres usem uma cobertura de pano na cabeça durante o culto público.

Podemos não gostar do que Paulo tem a dizer. Pode não se encaixar em nossa cultura moderna “libertada”, onde as mulheres muitas vezes querem parecer e agir como os homens. Pode não ser popular nas Igrejas evangélicas e reformadas modernas, que tristemente são frequentemente influenciadas por nossa cultura pagã e degenerada. O que importa é que Deus nos revelou sua vontade sobre essa questão em sua Palavra autoritativa. Portanto, devemos nos submeter a ela, queiramos ou não; seja popular ou não. Trata-se de um mandamento divino.

Quando Paulo chega ao fim da seção que trata dos abusos no culto público (incluindo a questão das coberturas de cabeça, capítulos 11 — 14), ele sublinha seus ensinamentos lembrando aos coríntios de sua autoridade apostólica. Ele escreve: — “Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor” (1 Coríntios 14:37). “A contínua influência de Cristo pelo Espírito sobre as mentes de seus Apóstolos, o que é uma prerrogativa divina, é aqui assumida ou afirmada[29].

O argumento do Apóstolo, até aqui, está integralmente enraizado no modo como Deus ordenou todas as coisas desde a criação. A estrutura da autoridade divina e o apelo à própria natureza não devem — nem logicamente podem — ser interpretados como meros reflexos culturais ou costumes transitórios. Trata-se de um princípio criacional, enraizado na ordem eterna e imutável estabelecida por Deus.

9 – A glória do homem.

O principal argumento do Apóstolo baseia-se na posição do homem e da mulher na criação, no que diz respeito à glória. 1 Coríntios 11:7 diz: — “O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem”. Paulo afirma que o homem está moralmente obrigado a não cobrir a cabeça porque é a imagem e glória de Deus. “O verbo ὀφείλει–opheilei [deve], que aparece novamente no versículo 10, geralmente traz conotações morais, indicando algo que deve ou não deve ser feito[30]. Por outro lado, a mulher está obrigada a usar o véu porque é a glória do homem[31].

Esta afirmação suscita a questão: — o que Paulo quer dizer com “imagem” e “glória”? O Apóstolo claramente remete ao relato da criação em Gênesis (cf. Gênesis 1:26 – 28; 2:18 – 24). No relato criacional, Gênesis 1:27, tanto o homem quanto a mulher são chamados imagem de Deus. Ambos portavam a semelhança do Criador; ambos foram criados com conhecimento, justiça e santidade. Contudo, há uma diferença entre homem e mulher. O homem é dito refletir a Deus de maneira única, que a mulher não possui. O homem é a glória de Deus em um sentido que a mulher não é. Como a Escritura distingue o homem da mulher? A resposta a esta questão é a chave para compreender o pensamento de Paulo. A principal diferença entre o homem e a mulher reside no papel ordenado do homem em exercer domínio sobre a terra. O homem reflete a Deus de modo distinto da mulher, pois detém o papel de liderança na família, na Igreja e no Estado. A mulher foi colocada por Deus em posição subordinada, em um papel de submissão ao homem. Essas diferentes funções são ilustradas no relato da criação (Gênesis 2:18 – 24), onde Adão é formado diretamente do pó da terra, e Eva é criada a partir do homem. Paulo até mesmo desenvolverá essa observação em 1 Coríntios 11:8, 9: — de Deus para o homem, do homem para a mulher. “Porque o homem não provém da mulher [mas de Deus], mas a mulher [não provém de Deus, mas] do homem” (1 Coríntios 11:8) — grifo do tradutor.

O termo “glória” não é mencionado no relato de Gênesis. Entretanto, o uso desse termo por Paulo neste contexto não é difícil de discernir. Como é que o homem é a glória de Deus? O homem é a glória de Deus não apenas porque é a coroa da criação divina, mas também porque reflete a majestade, o reinado e a soberania de Jeová como nenhuma outra criatura. Deus criou o homem diretamente do pó para governar toda a criação. Como cabeça do Pacto, ele tem a responsabilidade direta de liderança, de cumprir o mandato da dominação, de dirigir pactualmente as esferas da vida (por exemplo, a família, a Igreja, o Estado). O homem reflete o atributo divino da soberania de modo especial. Portanto, segundo o ensino inspirado de Paulo, se o homem cobre a cabeça no culto público, ele está simbolicamente negando seu lugar especial como imagem e glória de Deus. Por isso, é errado que o homem cubra a cabeça. “Por causa dessa alta dignidade, Paulo julga correto que não haja sinal algum de subordinação no homem quando ele adora[32].

A mulher, por outro lado, é a glória do homem. Foi tomada do homem para ser uma ajudadora idônea a ele. Ela é sua assistente especial na tarefa do domínio piedoso. Não reflete a glória de Deus como governante, mas reflete a glória do homem como soberano, pois serve sob sua autoridade. “Ela recebe e revela o que há de majestade nele. Ela sempre assume sua posição; torna-se rainha se ele é rei, e manifesta aos outros a riqueza e a honra que possam pertencer ao seu marido[33]. Por isso, a mulher deve adorar com a cabeça coberta.

Embora tudo isso possa parecer algo esotérico às mentes modernas, já condicionadas — em certa medida — por nossa cultura perversa, que rejeita a estrutura de autoridade ordenada por Deus, trata-se, na realidade, de um argumento simples e belo. No culto público, a glória de Deus não deve ser encoberta. O homem cristão, redimido por Cristo e, assim, restaurado à sua devida posição como homem de domínio em Cristo, deve refletir publicamente a glória de Deus durante o culto. A mulher cristã, por sua vez, deve demonstrar sua fé em Cristo e sua restauração à tarefa que Deus lhe confiou sob a autoridade do marido, cobrindo a sua cabeça no culto público.

A glória de Deus deve ser manifesta durante o culto, enquanto a glória do homem é coberta. O argumento de Paulo aqui torna claro que a questão do véu não é simplesmente uma questão de cultura ou costume. A cabeça descoberta do homem e a cabeça coberta da mulher refletem a relação horizontal entre homem e mulher estabelecida na criação, bem como a relação vertical entre o homem e a mulher redimidos e Deus durante o culto público. A restauração da relação do homem e da mulher com a criação, entre si e com Deus está em exibição nas assembleias cristãs. É algo que os anjos de Deus podem observar e do qual podem aprender.

10 – Cabeça pactual ou ordenança da criação.

O Apóstolo sustenta o argumento precedente mencionando dois fatos históricos registrados na narrativa da criação de Adão e Eva. Este versículo não apenas reforça o argumento paulino quanto à glória no versículo 7, mas também a afirmação inicial no versículo 3: — “o cabeça da mulher é o homem”. Primeiramente, Eva teve sua origem a partir de Adão. “Adão não foi de modo algum derivado (ek) de uma mulher; foi criado diretamente por Deus. O contrário é verdadeiro quanto à mulher. Eva foi derivada (ek) de Adão: — ‘osso dos meus ossos e carne da minha carne’”. Paulo faz declaração semelhante sobre a criação de Adão e Eva para provar a subordinação da mulher ao homem em 1 Timóteo 2:12, 13: — “Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva”. O Apóstolo inspirado afirma que o método divino na criação de Adão e Eva serve a um propósito distinto. Deus estava instituindo Adão e Eva como arquétipos do homem e da mulher para todas as gerações posteriores. Adão foi criado primeiro por ser o líder, o cabeça pactual da mulher. Eva foi formada a partir de Adão para estar a seu lado como adjutora idônea. Matthew Henry esclarece que tal distinção não implica inferioridade da mulher, mas aponta para uma diferença de propósito divinamente ordenada: — “Embora o homem tenha sido criado por último entre as criaturas, como o mais excelente e sublime de todas, o fato de Eva ter sido formada depois de Adão, e dele retirada, confere honra especial à mulher, como a glória do homem, conforme 1 Coríntios 11:7. Se o homem é a cabeça, ela é a coroa — a coroa de seu marido, a coroa da criação visível. O homem foi feito do pó refinado, mas a mulher, do pó duplamente refinado, afastada ainda mais da terra[34]. O homem foi criado primeiro como imagem da glória divina; a mulher, por sua vez, foi formada depois, a partir do homem, tornando-se, assim, o reflexo do próprio reflexo daquela glória original.

Em segundo lugar, Paulo refere-se ao propósito da mulher. Eva foi criada para Adão, como sua auxiliadora adequada. “[Ela] foi criada por causa dele, e não ele por causa dela[35]. “Ela foi, portanto, naturalmente feita para estar sujeita a ele, pois foi criada para ele, para seu auxílio, ajuda e consolo. E aquela que foi destinada a estar sempre em submissão ao homem não deve fazer nada nas assembleias cristãs que pareça uma pretensão de igualdade[36]. Deus poderia ter criado Adão e Eva simultaneamente e do mesmo modo. Porém, criou Adão primeiro e então tirou Eva dele para nos ensinar sobre a autoridade e a liderança pactual no matrimônio. Paulo nos mostra que a relação entre homem e mulher — onde a esposa é subordinada ao marido e a mulher é a glória do homem — funda-se em uma ordenança da criação. Essas realidades são perpétuas e devem ser refletidas no culto público. As orientações do Apóstolo quanto ao uso do véu na adoração não se apoiam em costumes, culturas ou circunstâncias passageiras, mas em dois fatos originários da criação de Adão e Eva. Por isso, o ensino paulino sobre o véu não pode ser relativizado por apelos culturais, como se ele estivesse preocupado apenas em não ofender os princípios pagãos gregos sobre a moda feminina.

11 – Por causa dos anjos.

Paulo, no versículo 10, dá uma razão adicional para as coberturas de cabeça: — “Portanto, a mulher deve ter sobre a cabeça sinal de poderio, por causa dos anjos”. Esse versículo levanta duas perguntas. O que Paulo quer dizer com “poderio [autoridade]”? (grego, “ἐξουσία–exousia” — poder, autoridade) e o que o termo “anjos” se refere? O termo poderio ou autoridade refere-se à cobertura de pano na cabeça de uma mulher, que é um sinal de que ela está sob a autoridade de seu marido. Poole escreve: — “A coisa significada aqui é posta pelo sinal, assim como o sinal é frequentemente posto pela coisa significada. Assim, a arca, que é chamada de arca da força de Deus em Salmos 132:8, é por sua vez chamada de sua força em 1 Crônicas 16:11[37]. O Apóstolo argumenta que a mulher deve ter sobre a cabeça um símbolo que denote a autoridade de seu cabeça no Pacto. O véu indica que ela submete-se com alegria e boa vontade à autoridade do homem que Deus lhe pôs por cabeça. Ela reconhece sua chefia. Curiosamente, tem sido a experiência deste escritor que as mulheres compreendem, de fato, o simbolismo do uso do véu. Esse entendimento, porém, costuma manifestar-se em ódio e desprezo pelo sinal da submissão. A razão da veemente oposição ao uso do véu não é o ódio natural a chapéus ou mantilhas, mas sim a oposição pecaminosa ao que o tecido simboliza — a subordinação da mulher. Não encontramos o espírito moderno do feminismo na piedosa Rebeca, que cobre a cabeça com seu véu na presença de Isaque como sinal de sujeição (Gênesis 24:65[38]).

A segunda palavra que precisa ser definida é “anjos”. Existem apenas duas interpretações plausíveis para esse termo neste contexto particular. Uma possibilidade é que Paulo o utilize para se referir a ministros e oficiais da igreja, que por vezes são identificados como anjos nas Escrituras (por exemplo, Apocalipse 2:1, 8, 8, 12, 3:1; 3:1, 7, 14). A interpretação mais sólida e comum é que o Apóstolo se refere aos anjos de Deus (isto é, os santos anjos), que são espíritos ministradores para o benefício dos eleitos de Deus. A Bíblia afirma repetidamente que os anjos se preocupam e agem em favor da Igreja de Cristo. Lucas nos informa (15:7, 10) que os anjos no céu celebram a conversão de todo pecador. Godet diz: — “Segundo Efésios 3:10, os santos anjos contemplam, com reverente adoração, as multiformes maravilhas operadas pelo Espírito de Deus na Igreja; conforme 1 Timóteo 5:21, eles são, juntamente com Deus e Cristo Jesus, testemunhas do ministério dos servos do Senhor; e, nesta mesma Epístola (4:9), formam, com os homens, aquele universo racional que assiste às lutas e padecimentos apostólicos. Por que, então, não estariam invisivelmente presentes nas assembleias solenes da Igreja, onde se manifestam tantas obras da graça? Como poderia uma conduta contrária à ordem divina — atentando contra o decoro sagrado, do qual os anjos são puros representantes — deixar de entristecê-los? E como não haveria tal dor e vergonha, sentidas por esses celestes espectadores, de lançar uma sombra sobre a serenidade do culto? Em Cristo, céus e terra se unem (João 1:52)[39].

Em Isaías 6:2, somos informados de que os anjos “se cobrem” ou “se velam” enquanto adoram. Também foram testemunhas da criação original do mundo (Jó 38:7), ocasião em que se estabeleceu a ordenança criacional da liderança pactual. Embora Paulo não explique em detalhes como ou por que os anjos compreenderiam que mulheres adorando com a cabeça descoberta é algo chocante e desordenado, todo o seu argumento pressupõe que assim o seja. Surge, então, a seguinte indagação: — se a questão do véu fosse meramente uma convenção cultural, faria algum sentido o argumento baseado nos anjos? Acaso os anjos se escandalizariam com a falta de elegância ou com o desrespeito a conceitos gregos, ou romanos de vestimenta apropriada? Certamente que não! Mais uma vez se percebe que Paulo não apela a normas culturais nem a circunstâncias passageiras.

Após tratar com notável minúcia da liderança pactual do homem e da subordinação da mulher — especialmente à luz da criação —, o Apóstolo interrompe-se para considerar a interdependência mútua entre o homem e a mulher. Ele escreve: — “Todavia, nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor. Porque, como a mulher provém do homem, assim também o homem provém da mulher, mas tudo vem de Deus” (1 Coríntios 11:11, 12). Por que Paulo se detém para afirmar o que é evidente — que a mulher veio do homem (Adão) e que, desde a criação, todos os homens nascem de mulher? Após declarar que a mulher é a glória do homem e foi criada por causa dele, o Apóstolo deseja evitar qualquer impressão de que a mulher exista como escrava do homem, ou que seja inferior a ele. “O que Paulo vinha dizendo poderia ser facilmente compreendido como uma subordinação indevida da mulher. Longe disso estava o seu pensamento. Há uma parceria entre os sexos, e no Senhor, um não existe sem o outro[40]. Deus estabeleceu a estrutura de autoridade da forma como o fez, não para que os homens dominem sobre as mulheres, mas para que possam servir mais eficazmente a Cristo e cumprir o mandato cultural. “O único objetivo do Apóstolo é mostrar a verdadeira natureza e os limites da subordinação da mulher ao homem[41]. Dado o grande abuso que as mulheres têm sofrido nas mãos de homens pagãos, e o fato de que até mesmo homens cristãos ainda lutam com suas naturezas pecaminosas, a admoestação de Paulo torna-se necessária. “A subordinação da esposa ao seu marido é santamente moderada em Cristo pela unidade da vida espiritual da qual ambos participam no Senhor[42].

12 – Um apelo à consciência cristã.

Após ressaltar a mútua dependência entre homem e mulher no Senhor, o Apóstolo Paulo dirige-se à consciência cristã: — “Julgai entre vós mesmos: — é decente que a mulher ore a Deus descoberta?” (v. 13). O que quer dizer Paulo com “julgai entre vós mesmos”? Acaso pretende ele afirmar que o uso do véu é mera questão de opinião pessoal ou juízo autônomo? De modo algum. Antes, trata-se de um apelo à consciência cristã — aquela que é moldada e instruída pela revelação divina nas Escrituras e pela ordem natural estabelecida por Deus na criação. Paulo acabara de expor doutrina inspirada pelo Espírito acerca da ordem de autoridade divinamente instituída, bem como do desígnio da criação. Ficara evidente que os fatos criacionais — como a forma e o propósito da criação de Adão e Eva — ensinam que é impróprio à mulher comparecer ao culto público com a cabeça descoberta. Tal impropriedade será reiterada no versículo seguinte, quando o Apóstolo volta a apelar à própria natureza, isto é, à ordem natural estabelecida por Deus desde o princípio.

Que Paulo não apela à consciência humana como um padrão independente, fica evidente pela própria forma da pergunta. A interrogação do Apóstolo é retórica e formulada de modo a exigir uma resposta negativa. Assim, Paulo não interrompe seu ensinamento sobre a cobertura da cabeça para perguntar: — “O que pensais disto?”; antes, ele afirma: — “Sabeis que é indecente, vergonhoso e errado que a mulher adore na assembleia pública com a cabeça descoberta”. A pergunta retórica serve para enfatizar que todo aquele cujo juízo se submete à palavra de Deus deve reconhecer essa verdade.

13 – O apelo de Paulo à ordem natural.

A fim de sustentar a pergunta retórica anterior, Paulo apela para a natureza, afirmando: — “Ou não vos ensina a mesma natureza que é desonra para o homem ter cabelo crescido? Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu” (v. 14, 15). A questão fulcral que emerge dessa exortação é: — qual o significado do termo “natureza”? A compreensão desse conceito exercerá influência decisiva sobre a aplicabilidade deste texto para a Igreja contemporânea. Dada a importância da palavra, procederemos à análise das interpretações mais correntes, antes de expor aquilo que julgamos ser o sentido bíblico autêntico.

Uma compreensão comum deste texto é que Paulo estaria simplesmente adotando a Filosofia grega vigente, que identificava costumes culturais como extensões da Lei Natural. Porém, essa interpretação enfrenta sérios entraves que comprometem sua validade.

Primeiramente, ignora-se o fato de que Paulo não apenas escreveu sob inspiração divina, mas também condenou a Filosofia humana em outra Epístola (cf. Colossenses 2:2 – 10, 20 – 23). Evidentemente, ele não considerava a opinião dos homens pecadores como parâmetro para estabelecer ordenanças eclesiásticas (para a Igreja).

Em segundo lugar, essa interpretação retrata Paulo como um pragmatista, preocupado não com a defesa de princípios universais decorrentes da ordem criada por Deus, mas com a simples evitação de críticas sociais. Em outras palavras, o Apóstolo estaria buscando adequar o culto público à cultura grega e romana para não ofender os pagãos, pois tal ofensa cultural poderia dificultar a propagação do Evangelho e perturbar a paz da Igreja.

Em terceiro lugar, o exemplo usado por Paulo — homens com cabelo curto e mulheres com cabelo longo — não era uma prática universal em sua época (este ponto será analisado com maior profundidade adiante). De fato, nunca houve na história um tempo em que o cabelo curto nos homens fosse um costume universal. Se Paulo estivesse, de alguma forma, acomodando meramente a cultura, então: — [1] – a universalidade do argumento paulino se desfaz; [2] – poder-se-ia esperar que ele estabelecesse regras relativas à cobertura da cabeça conforme o costume regional (por exemplo, nas regiões germânicas, um costume distinto poderia prevalecer em relação ao culto público, em contraste com as áreas gregas); [3] – o Apóstolo não poderia afirmar que a prática de participar do culto público sem cobertura da cabeça não era aceita em nenhuma Igreja cristã (1 Coríntios 11:16[43]).

Em quarto lugar, a ideia de que Paulo estaria simplesmente seguindo as práticas culturais de seu tempo — em vez de fundamentar seu argumento em algo universal e transcultural, inerente à criação — reduz o Apóstolo a um relativista cultural no que concerne ao culto público. Aceitar tal interpretação implica que esta passagem sobre a cobertura da cabeça perderia sua aplicação direta nos dias atuais, pois na cultura ocidental moderna praticamente tudo é tolerado. Há mulheres de cabelo curto em quase todas as profissões, algumas até com cortes “moicano” ou cabeça raspada. Ademais, o cabelo comprido nos homens tem sido aceito desde os anos 1960, ainda que não esteja mais na moda. Aqueles que rejeitam o uso do véu com base no argumento cultural devem responder às seguintes indagações: — se um dia quase todas as mulheres adotarem cabelo curto por ser considerado feminino e elegante na sociedade, será que as Igrejas deveriam exigir o cabelo curto para evitar conflito com o costume vigente? E quanto aos missionários que atuam em culturas estranhas? Se certa cultura considera um disco labial feminino como símbolo de submissão, as autoridades eclesiásticas deveriam impor seu uso no culto público? A resposta a essas perguntas é clara. Uma vez que se vincula o mandamento do Apóstolo a convenções culturais, todo o texto passa a ser determinado pela cultura. Para o cristão, a cultura deve estar submetida à Lei de Deus revelada nas Escrituras, jamais o contrário.

14 – O argumento cultural.

Outra visão — que guarda certa afinidade com a anterior — admite que Paulo, ao longo do capítulo 11, de fato apela para a ordem criada por Deus, mas sustenta que a manifestação cultural dessa ordem para homens e mulheres não é fixa nem imutável. Em outras palavras, o véu de tecido seria uma expressão cultural de uma verdade universal, exigida apenas nas culturas que reconhecem o véu como símbolo da submissão da esposa ao marido ou, mais amplamente, da subordinação da mulher ao homem. O cerne deste argumento é que os véus eram necessários na cultura paulina, mas não o seriam em nossa cultura atual, visto que seu uso e significado teriam se perdido. Essa interpretação é muito comum entre estudiosos evangélicos contemporâneos. Embora supere a visão anterior — que via Paulo como mero repetidor da Filosofia grega —, ainda assim padece de muitos dos mesmos problemas. Observemos, pois, algumas objeções a essa interpretação.

Primeiramente, essa visão parte da premissa não comprovada, nem historicamente, nem textualmente, de que Paulo estaria reforçando um costume grego. Seria, pois, prática universal entre as mulheres gregas ou romanas o uso público do véu, como supõe a argumentação cultural? Se se provar que tal costume não era comum entre gregas e romanas, nem em contextos públicos, nem em rituais religiosos, toda a argumentação cultural desmorona. Após um estudo exaustivo sobre as práticas dominantes referentes à cobertura da cabeça na época de Paulo, o estudioso alemão Oepke conclui, em essência, que o Apóstolo estava impondo um costume bíblico aos gregos, em desacordo com seus hábitos costumeiros. Observe as conclusões deste estudo, onde se lê: — “Antes se afirmava entre os teólogos que Paulo simplesmente estava endossando a lei não escrita do sentimento helênico e helenístico sobre o que era apropriado. Contudo, essa visão é insustentável. De fato, o véu não era desconhecido na Grécia. Era usado em parte como adorno e em parte em ocasiões especiais, como em encontros para casamento, no luto (cf. também Penélope) e no culto às divindades ctônicas (na forma de uma veste lançada sobre a cabeça). Mas é totalmente errado dizer que as mulheres gregas eram obrigadas a usar véu em público. Plutarco pode parecer sugerir isso […]. Mas a primeira passagem refere-se ao costume romano, sobre o qual Plutarco talvez não estivesse bem informado, e a segunda reflete costumes lacônicos especiais. As passagens contrárias são tantas e tão inequívocas que não podem ser anuladas por duas afirmações do sábio de Chairóneia que não são categóricas e que talvez tenham sido motivadas por uma tendência especial. A inscrição dos mistérios de Andânia (Ditt. Syll., 736), que dá uma descrição exata das mulheres participando da procissão, não menciona o véu. De fato, a ordem cultual de Lycosura parece proibi-lo. Imperatrizes e deusas, mesmo as que mantêm sua dignidade, como Hera e Deméter, são retratadas sem véu, enquanto as hetairas às vezes usam capuzes. Helena aparece diante de Paris com a parte superior do corpo descoberta, mas com véu. Na época de Tertuliano, as judias eram proeminentes nas ruas do Norte da África porque usavam véus (De Corona, 4, ed. F. Oehler, I [1853], 424 ff.; De Oratione, 22 [CSEL, 20, 193]). Portanto, o uso do véu não era um costume geral; era judaico. Se o uso do véu pelas mulheres judias era comum no Ocidente, podemos presumir que era uma regra aceita no Oriente. O judeu considerava típico das mulheres gentias andarem descobertas (Nu. r., 9 on 5:18, Str.–B., III, 429). Contudo, embora o costume fosse aplicado com particular rigor pelos judeus, era mais oriental do que distintamente judaico. A cidade natal de Paulo, Tarso, é uma fronteira. Evidências do uso do véu em Tarso são fornecidas por Dião Crisóstomo (Or., 33, 46) e moedas com a imagem de Tyche de Tarso. Há exceções, mas Tarso é mais rigoroso do que o restante da Ásia Menor. Em geral, pode-se dizer que a etiqueta quanto ao véu se torna mais rigorosa quanto mais se avança para o Oriente. Essa regra é claramente confirmada pelas disposições de um antigo código assírio: — mulheres casadas e viúvas devem usar véu em locais públicos. Por outro lado, a cabeça da prostituta, aqui equiparada à escrava, deve permanecer descoberta sob ameaça de severas penalidades. Quando um homem desejava tornar legítima uma esposa, exigia-se um ato especial de velamento. Paulo, portanto, estava tentando introduzir nas congregações em solo grego um costume que correspondia à sensibilidade oriental e especialmente judaica, e não grega. Em princípio, a exigência deveria se estender a todas as mulheres em todas as situações. Na prática, porém, Paulo aplica isso às mulheres casadas nas Igrejas e, num primeiro momento, restringe-o à esfera da vida que está diretamente sob a jurisdição da congregação, isto é, o culto divino[44].

McKnight observa que William Ramsay, reconhecido especialista na cultura grega do tempo de Paulo, está de acordo: — “Historicamente, o uso de cobertura na cabeça era um costume comumente observado em público por mulheres de origem judaica, mas não pelas gregas. A cobertura usada pelas judias, segundo muitos comentaristas, era provavelmente uma grande peça de tecido — como um xale ou manto — um artigo comum de vestuário que podia servir como véu sempre que se mostrasse apropriado. Quanto à diferença entre os costumes gregos e judaicos, Dião Crisóstomo (escrevendo em 110 d.C.) observou que não havia nada de verdadeiramente ‘grego’ nos habitantes de Tarso (cidade grega de Paulo); contudo, encontrou algo digno de louvor: — agradou-lhe sobremaneira o modo extremamente modesto de vestir das mulheres de Tarso, que saíam sempre com o rosto profundamente velado. ‘E isso apesar do fato de tal prática ser totalmente distinta dos costumes gregos’ (The Cities of St. Paul, William Ramsay, p. 202). Em outras palavras, o uso de cobertura na cabeça não era o costume em outras cidades, e especialmente não nas cidades de tradição grega[45].

Se fosse de fato costume das mulheres gregas ou romanas usarem coberturas sobre a cabeça em público ou em seus ritos religiosos, então o argumento cultural poderia ser compreensível. Contudo, o ensino do Apóstolo Paulo contrasta diretamente com as práticas greco–romanas daquela época[46]. O Apóstolo não estava honrando a prática grega, tampouco instruindo que as mulheres usassem véus no culto público por receio de ofender os costumes daquela sociedade. Ao contrário, o ensino inspirado de Paulo — se considerado dentro do contexto cultural vigente — teria sido ofensivo à sensibilidade grega, sendo visto como uma prática distintamente judaica ou oriental. É claro, pois, que Paulo impôs uma prática bíblica sobre uma cultura pagã. A ideia de que ele estaria apenas seguindo costumes helênicos, em vez de dirigi-los com autoridade apostólica, carece de qualquer fundamento sólido. Isso significa, portanto, que as culturas modernas — americanas, europeias, africanas ou asiáticas — devem submeter-se às diretrizes de 1 Coríntios 11, independentemente de sua aceitabilidade cultural. A Escritura é a norma reguladora da cultura, não o contrário. Ademais, a experiência deste autor testifica que as mulheres modernas, inclusive nos Estados Unidos, compreendem intuitivamente o significado simbólico e teológico da cobertura da cabeça. Tal compreensão é uma das razões pelas quais o véu é tão fortemente odiado e combatido por feministas de todas as vertentes.

Segundo, o exemplo dado por Paulo — de que o cabelo comprido em homens é contrário à natureza — não seria aceito por muitos gregos. Como observa Moffat: — “Seus ouvintes gregos devem ter acolhido com simpatia um apelo à natureza. Mas ficariam surpresos ao serem questionados se o cabelo longo não era vergonhoso para os homens. E os heróis espartanos de longas madeixas nos tempos antigos? E os filósofos contemporâneos, que usavam cabelos longos como sinal de ascetismo, ou para demonstrar desprezo pelo mundo? Ora, ‘o grego usa cabelo longo porque é grego, e não bárbaro’, como protestava o moralista Apolônio (Epist. viii.). Paulo, porém, considerava isso efeminado, e louvava as tranças femininas (1 Pedro 3:3) não apenas como glória, ou ornamento, mas como uma espécie de cobertura. A implicação é que, assim como a natureza deu à mulher um véu de cabelo, ela está destinada, não, é claro, a considerar isso como substituto de uma cobertura adicional, mas a usar um véu quando ora a Deus em companhia de homens, sendo a natureza considerada como fornecendo a norma até mesmo para tal vestimenta[47].

Ao tratar dos estilos capilares antigos, Aune escreve: — “O cabelo comprido era frequentemente considerado pelos gregos como sinal de afeminamento no homem (H. Herter, “Effeminatus”, RAC 4:629) ou de laxismo moral na mulher (Ps. Phocylides 212). Contudo, as modas mudam: — os homens gregos, em tempos, apreciavam cabelos longos (Herodotus 1.82; Plutarch Lysander 1; co. Plato Phaedo 89 B–C), embora, no século V a.C., apenas os espartanos mantivessem esse costume (Aristophanes Aves 1281–82; Philostratus Vita Apoll. 8.7). Os romanos usavam cabelo comprido até o século III a.C., depois do qual consideravam o cabelo longo bárbaro ou antiquado (Juvenal 5.30). Os gauleses usavam cabelos compridos, e por isso a Gália Setentrional era chamada ‘Gallia Comata’ — ‘Gália dos cabelos longos’. Apollonius de Tyana, seguindo a prática dos filósofos, mantinha os cabelos desgrenhados (Philostratus Vita Apoll. 8.7). Guerreiros partas ostentavam cabelos longos (Plutarch Crassus 24.2), e muitos intérpretes entendem o exército demoníaco de gafanhotos como uma imagem mito–poética da ameaça parta (veja Excursus 16A: Rome and Parthia)[48].

O ensino de Paulo de que o cabelo comprido no homem é vergonhoso não foi universalmente aceito no mundo antigo, tampouco o é nos dias atuais.

A única posição coerente, tanto no contexto amplo quanto no específico do texto, é que a “natureza” refere-se à ordem criada por Deus, e que as distinções entre os sexos, instituídas no princípio, são universais e obrigatórias. Assim, o uso do véu pelas mulheres no culto público não repousa em costumes locais ou temporais, mas na própria criação. Tal interpretação é inevitável por diversas razões. Em primeiro lugar, o termo grego “φύσις–phusis” (“natureza”) nas Escrituras jamais designa costumes culturais relativos, mas princípios morais estabelecidos na criação. Paulo afirma: — “Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza [phusis]” (Romanos 1:26). O comportamento homossexual, diz o Apóstolo, é contra a natureza, isto é, contra a ordem original de Deus no ato criador. O conceito da Lei natural nas Escrituras não é opinião humana sobre o mundo pós–queda, tampouco princípio extraído fora da revelação escrita; e, obviamente, jamais contraria a Escritura. Lei natural e Lei escrita ensinam a mesma verdade. Paulo parte do pressuposto de que as diferenças visíveis entre homem e mulher são fatos evidentes da ordem criada, não porque fossem opinião dos gregos ou romanos, mas porque assim o declara a infalível palavra de Deus. O Senhor condena o uso de vestes transvestidas, o estilo unissex ou a inversão de papéis homossexuais como “abominação” (Deuteronômio 22:5) — uma afronta perversa contra a ordem divina. Do mesmo modo, a inversão voluntária dos penteados é igualmente abominável.

Quando Paulo formula a pergunta histórica sobre a “natureza” ensinar que o cabelo longo no homem é desonroso (note-se que o Apóstolo emprega o mesmo termo grego — “ἀτιμία–atimía” — em Romanos 1:26 para descrever a vileza do comportamento homossexual), ele está refletindo o ensino da Lei de Deus. Sabemos que o cabelo longo nos homens não era aceitável na era da Antiga Aliança por meio de um exemplo histórico. Quando Deus quis distinguir os nazireus dos demais homens israelitas, ordenou que deixassem crescer os cabelos (Números 6:5). O nazireu era imediatamente reconhecido em Israel como um homem que vivia em separação singular para com Deus, por seus cabelos mais longos do que o comum[49]. Quando o Senhor deseja enfatizar a natureza aterradora e perversa das bestas que saem do abismo, está escrito: — “[…] tinham cabelos como cabelos de mulheres, e os seus dentes eram como de leões” (Apocalipse 9:8). O cabelo longo dessas bestas serve para acentuar sua malignidade, perversão e oposição à ordem natural.

Em segundo lugar, se se admitir a interpretação de que, ao falar de “natureza”, Paulo está se referindo aos costumes gregos e romanos — e que, sendo os costumes mutáveis, os imperativos do Apóstolo acerca do véu podem ser descartados ou reinterpretados de forma completamente distinta —, então se está definindo a Lei natural de modo relativista. Tal concepção é inteiramente contrária às Escrituras, que ensinam que Deus tem uma só Lei, um único padrão ético, comunicado ao homem de duas maneiras: — por meio da Escritura e por meio da natureza (Salmos 19, cf. v. 2, 3, 8, 9). É por isso que as nações pagãs são frequentemente condenadas por Deus por transgredirem os preceitos éticos revelados em sua Lei (inclusive os casos morais), ainda que não possuíssem a revelação escrita. A revelação natural da Lei de Deus jamais deve ser contraposta à sua revelação especial. Tampouco deve ser tratada como uma norma relativista, sujeita às mutações das concepções humanas corrompidas do que é certo ou errado. Compreendendo-se, pois, o modo pelo qual a Escritura define a natureza em relação à conduta cristã, todas as tentativas de relegar o uso do véu à categoria do lava–pés ou da saudação oriental (como “saudai-vos uns aos outros com ósculo santo”) caem por terra.

Em terceiro lugar, o apelo de Paulo à natureza como realidade da ordem criada por Deus harmoniza-se perfeitamente com o contexto imediato. O Apóstolo já tratara da ordem de autoridade instituída por Deus (1 Coríntios 11:3), da ignomínia de a mulher estar descoberta no culto (v. 6), da criação do homem e da mulher com seus respectivos propósitos (v. 7 – 9), bem como da consideração devida à presença dos anjos (v. 10). O recurso à natureza — conforme definida biblicamente — resume, reforça e culmina todos os argumentos anteriores fundamentados na realidade da criação, isto é, naquilo que Deus estabeleceu desde o princípio. A razão pela qual a mulher foi criada com forma e aparência distintas — como os longos e formosos cabelos, seu véu natural — é que ela possui um chamado singular da parte de Deus. Tal vocação deve manifestar-se no culto público por meio do uso do véu. A ideia de que Paulo define natureza como costume mutável e arbitrário mina, em vez de sustentar, os argumentos precedentes do Apóstolo baseados na criação e em sua ordem. Algo que está sujeito a mudanças e que pode ter significações distintas conforme tempo e lugar não pode servir de fundamento para a conduta no culto público. Este ponto é tristemente confirmado por muitas Igrejas evangélicas e reformadas contemporâneas, que, valendo-se do argumento do costume, ignoram ou anulam o ensino paulino ao longo de todo o capítulo. Em outras palavras, um argumento decisivo a favor do uso do véu, conforme exposto pelo Apóstolo, tem sido pervertido em argumento contrário.

15 – O apelo à prática universal da Igreja.

Paulo conclui sua discussão sobre o uso do véu no culto público com um apelo à autoridade apostólica e à prática universal da Igreja: — “Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem as Igrejas de Deus” (1 Coríntios 11:16). Há diversos pontos importantes a serem observados a respeito deste versículo.

A discussão de Paulo acerca do uso do véu começa e termina com um apelo à autoridade apostólica (v. 2, 16). Embora o Apóstolo fundamente o uso do véu com argumentos cuidadosos, extraídos tanto da revelação geral quanto da especial, ele relembra aos coríntios sua autoridade singular como Apóstolo inspirado. Com efeito, Paulo enfatiza essa autoridade apostólica ao empregar o pronome “nós”“nós não temos tal costume”. No contexto, o “nós” refere-se a todos os Apóstolos. Os ensinamentos inspirados e autoritativos do Apóstolo, os quais foram inscritos para nosso proveito, são fundamentais para a Igreja e vinculantes para todos os tempos (Efésios 2:20). O apelo de Paulo à autoridade apostólica visa encerrar completamente qualquer debate adicional sobre o uso do véu. Em essência, o Apóstolo declara: — “Vede, se alguém quiser contender quanto a este assunto (isto é, contra o uso do véu no culto público), saiba que não está apenas contradizendo a mim, mas a todos os Apóstolos. Estamos unânimes neste ponto — e não apenas nós, mas todas as Igrejas de Jesus Cristo”. Hodge comenta: — “Com tais pessoas [isto é, os contenciosos perturbadores], todo argumento é inútil. A autoridade é o único fim da controvérsia com tais perturbadores da paz. A autoridade aqui invocada é a dos Apóstolos e das Igrejas. A primeira é decisiva, porque os Apóstolos foram investidos de autoridade não apenas para ensinar o Evangelho, mas também para organizar a Igreja e decidir tudo quanto diz respeito às ordenanças e ao culto cristão. A autoridade das Igrejas, embora não coercitiva, é, todavia, grande. Ninguém está justificado — salvo por fundamentos claramente escriturísticos e por necessidade de obedecer a Deus antes que aos homens — a afastar-se dos usos estabelecidos da Igreja em matérias de interesse público[50].

Qualquer pessoa podia adentrar uma Igreja cristã do primeiro século, fosse na Ásia Menor, na Palestina, na Grécia ou em Roma, e ali observar uma lição viva sobre a liderança pactual e a família cristã. Tristemente, o contrário se verifica em nossos dias. A decadência moderna pode ser observada na maioria das Igrejas a cada santo dia do Senhor, pois a ordem apostólica raramente é obedecida. O feminismo e uma exegese negligente e aduladora dos homens contribuíram para a disseminada desobediência à autoridade apostólica nos tempos atuais. O único remédio para tamanha rebelião contra este imperativo bíblico (cf. 1 Coríntios 11:6b) é o arrependimento.

Note-se também que, ao contrário das Igrejas reformadas modernas, que ensinam e praticam a diversidade quanto a esta questão, Paulo exige uniformidade de doutrina e prática. O Apóstolo declara que, se alguém se mostrar contencioso (isto é, inclinado a disputas ou argumentações dissensiosas) acerca deste assunto, deve cessar tal atitude e submeter-se à autoridade apostólica e à prática universal da Igreja. Paulo reconhece que há pessoas na Igreja que discordam de seu ensino sobre o uso do véu. Ele admite que alguns podem até se indignar com sua doutrina. Todavia, esse reconhecimento não o conduz a agir como um burocrata eclesiástico moderno, sem firmeza, que procura agradar a todos em questões controversas. Pelo contrário, Paulo apoia-se na verdade inspirada de sua argumentação e exige uniformidade de doutrina e prática neste ponto. A verdadeira unidade bíblica se edifica sobre o ensino das Escrituras. Uma unidade duradoura somente se alcança quando os crentes se submetem à autoridade da palavra de Deus.

A ideia moderna de que a unidade se alcança por meio do compromisso, permitindo práticas e doutrinas mutuamente contraditórias na Igreja, é rejeitada por Paulo. O Apóstolo inspirado sabe que seus argumentos em favor do uso do véu no culto não se baseiam em costumes contemporâneos, mas na verdade bíblica e em realidades criacionais que perdurarão enquanto durar a presente dispensação terrena. A liderança pactual do marido sobre sua esposa, bem como o propósito da mulher, permanecem os mesmos hoje como eram quando Paulo escreveu este capítulo (1 Coríntios 11:7, 8, 9). O belo cabelo da mulher ainda lhe é dado como véu natural, como sua glória, assim como no passado (1 Coríntios 11:14, 15). A ordem divina de autoridade, do Pai para Cristo, e do homem para a mulher, evidentemente, jamais foi revogada (1 Coríntios 11:3). Os anjos de Deus ainda observam o culto público do Senhor, como o faziam no primeiro século (1 Coríntios 11:10). Quando consideramos a argumentação cuidadosa do Apóstolo, seu raciocínio brilhante, analogias sublimes e autoridade como mestre inspirado, podemos compreender seu dogmatismo e recusa em ceder neste ponto. Para Paulo, permitir diversidade de ensino ou prática nesse assunto seria admitir que toda a sua argumentação estava errada. Para os eclesiásticos modernos, permitir diversidade de prática nesse ponto é, implicitamente, negar a perspicuidade da Escritura e a autoridade apostólica. Crentes modernos que professam crer na inspiração e autoridade da Escritura, mas que querem contender com o Apóstolo Paulo acerca de seu ensino sobre os véus, devem arrepender-se e submeter-se ao mandamento inspirado do principal Apóstolo de Cristo: — “[…] que ponha o véu” (1 Coríntios 11:6).

Além disso, note-se que o “costume” (“nós não temos tal costume” — v. 16) ao qual Paulo se refere é a prática de mulheres frequentarem o culto descobertas (isto é, sem usar um véu de tecido sobre a cabeça). Este ponto é importante, pois a declaração de Paulo tem sido usada por alguns exegetas para anular o ensino de todo o capítulo.

Antes de considerarmos as razões pelas quais o “costume” referido é o não uso do véu pelas mulheres, é imprescindível estabelecer uma tradução correta da afirmação do Apóstolo. Praticamente todas as traduções modernas (NASB, NEB, RSV e NIV) traduzem “τοιαύτην–toiautēn” como “outro” (“não temos outro costume”). Talvez a razão para essa frequência na má tradução seja o receio dos intérpretes de apresentar um verso que contrarie o contexto imediato. Em outras palavras, reconhecem o absurdo de Paulo dizer: — “não temos costume de as mulheres usarem véu em culto público”, logo após ordenar que as mulheres cubram a cabeça, seguido de diversas razões que exigem o uso do véu (o absurdo é válido tanto para quem entende véu como pano quanto como o próprio cabelo comprido). Contudo, seguindo as regras ordinárias do grego, “toiautēn” significa “tal”, e não “outro”. Clark observa: — “Das versões em inglês, somente a KJ e a ARV de 1901 traduzem o grego corretamente. As demais estão claramente erradas; “ἡμεῖς τοιαύτην συνήθειαν οὐκ ἔχομεν–hēmeis toiautēn synētheian ouk echomen” só pode significar: — “Não temos tal costume”. Traduções estrangeiras mantêm a melhor erudição da KJ e da ARV[51].

Tendo esclarecido a tradução correta da segunda parte do versículo 16, retornemos ao sentido adequado do termo “costume”. Sobre este, há três principais interpretações:

[1] – O costume referido seria o uso do véu no culto. Esta visão entende a expressão “não temos tal costume” como uma ab–rogação total do uso do véu, como se os argumentos precedentes que o ordenam fossem insuficientes ou culturalmente condicionados. Tal interpretação é manifestamente absurda. A ideia de que Paulo, após dedicar a maior parte do capítulo a justificar o uso do véu pelas mulheres, pudesse então afirmar que os Apóstolos e todas as Igrejas rejeitam tal prática, implicaria uma negação tácita da inspiração verbal. Qualquer interpretação que apresente Paulo contradizendo-se explicitamente na mesma página, comprometendo sua integridade moral como se zombasse dos coríntios, deve ser rejeitada por todo cristão que crê na Bíblia.

[2] – Outra interpretação é que o costume refere-se à prática da contenda (por exemplo, Calvino, de Wette, Meyer e Edwards). Embora não contrarie o ensino de Paulo como a anterior, esta também não é a interpretação mais plausível. Ser contencioso é uma falha ou vício, não um costume. Ademais, seria necessário que Paulo explicasse que nenhum Apóstolo defende contendas nem que nenhuma Igreja institucionalmente as aceita? Evidentemente, não.

[3] – A única interpretação que faz justiça ao contexto e se mostra coerente é que o “costume” referido seja o das mulheres comparecerem ao culto público sem véu. O único costume em questão, que fundamenta toda a passagem, é este: — a mulher que assiste ao culto sem estar coberta. Godet afirma: — “Paulo quer dizer que nem ele, nem os cristãos por ele formados, nem, em geral, qualquer uma das Igrejas de Deus — quer as que ele não fundou, quer as que são propriamente suas — permitem tal procedimento em seus usos e costumes eclesiásticos; cf. 1 Coríntios 14:36, 37, onde a ideia aqui simplesmente indicada é desenvolvida. A prova material dessa afirmação de Paulo encontra-se nas representações cristãs descobertas nas Catacumbas, onde os homens sempre aparecem com os cabelos cortados curtos, e as mulheres com a ‘palla[52]’, um lenço que cai sobre os ombros[53]. Charles Hodge concorda. Ao criticar a interpretação de que “costume” significaria o hábito de ser contencioso, ele escreve: — “A única justificativa para tal entendimento é a afirmação de Paulo: — ‘não temos tal costume’, que, segundo alguns, não poderia referir-se ao costume das mulheres comparecerem sem véu. Mas por que deveria ser assim? Os Apóstolos e as Igrejas formavam uma unidade indivisível — nem as Igrejas, nem seus guias infalíveis aprovavam tal prática. Ademais, no contexto, nenhum outro costume é mencionado além daquele que Paulo vem discutindo. ‘Se alguém parecer contencioso’ não constitui um costume, tampouco aponta para algo a que a expressão ‘tal costume’ possa naturalmente se referir[54].

Consideremos mais uma vez a plenitude do argumento do Apóstolo em 1 Coríntios 11:16. Paulo afirma que todos os Apóstolos concordam que as mulheres devem cobrir suas cabeças no culto público; que em toda Igreja — seja na África, Ásia ou Europa, seja entre judeus, gentios, gregos ou bárbaros — as mulheres adoram a Cristo com a cabeça coberta. Tal declaração explica por que, ao longo da história da Igreja, em todas as suas ramificações — Ortodoxa Oriental, Católica Romana, Protestante (Luterana, Episcopal, Reformada), Copta etc. — até cerca dos anos 1960, as mulheres adoravam com suas cabeças cobertas. O testemunho da história da Igreja só se explica se a prática universal da Igreja apostólica foi que as mulheres cobrissem a cabeça com um véu de pano durante o culto público. A triste verdade é que o uso do véu foi abandonado porque: — [1] – pastores não pregavam todo o conselho de Deus; [2] – chapéus e lenços tornaram-se fora de moda; [3] – as Igrejas foram infectadas pelo egalitarianismo[55] e feminismo. Lamentavelmente, quando a prática antibíblica das mulheres adorarem com a cabeça descoberta se espalhou, pastores e mestres defenderam o costume corrente, ao invés de chamar a Igreja ao arrependimento. Seria prudente que os homens da Igreja contemporânea reconsiderassem sua ampla deserção a uma ordenança apostólica que foi prática universal da Igreja cristã por dois milênios. Teriam, porventura, esses homens modernos descoberto algo que escapou ao olhar penetrante de Paulo, de Agostinho, de Anselmo, de Calvino, de Hodge e de John Murray? Certamente que não![56]

Conclusão.

Ainda que o uso de véus no culto público não possua o mesmo peso que os santos mistérios da Trindade, das duas naturezas de Cristo ou da justificação pela fé somente, contudo, não é de menor relevância, por diversas razões:

[1] – É ordenado pela Escritura e, por isso, não pode ser descartado como uma receita malsucedida. Quando Deus se pronuncia sobre um assunto, nosso dever é crer e obedecer, quer nos agrade, quer não.

[2] – Em nossos dias, quando o matrimônio e a vida familiar atingem níveis alarmantes de ruína, toda doutrina e prática que sustente a liderança pactual do homem e a submissão da esposa requer nossa mais zelosa adesão. O uso do véu representa o ensino de Deus acerca do matrimônio. Por conseguinte, não devemos escarnecer ou aborrecer esta prática bíblica, mas abraçá-la de todo o coração.

[3] – A cultura contemporânea, especialmente na América, torna-se cada vez mais pagã, hedonista e anticristã. Toda prática bíblica que distingue o povo de Deus do espírito desta era e oferece um testemunho contra ela deve ser acolhida pelos fiéis. Certamente não agimos como sal e luz diante de uma cultura ímpia quando rejeitamos imperativos bíblicos concernentes à liderança pactual e, em seu lugar, imitamos o mundo.

[4] – Um problema recorrente nas Igrejas ao longo dos últimos cem anos tem sido a intrusão de princípios igualitaristas e feministas em suas crenças e práticas. Um modo excelente de conter tão pernicioso sincretismo é obedecer aos preceitos bíblicos que o feminismo abomina — como o uso do véu. A melhor defesa é uma ofensiva fiel.

Que o Senhor nos conceda retornar ao ensino dos Apóstolos neste ponto, para que as famílias sejam fortalecidas e os anjos devidamente instruídos.

Apêndice — Os Pais da Igreja sobre o uso do véu.

1 – Paedagogus, O Instrutor, Livro 2, Capítulo 11.

Ainda que possas com grande propriedade usar a linguagem dirigida àquele que disse: — “Teu braço é formoso; sim, mas não é para o olhar público. Teus quadris são formosos; porém, foi a resposta, somente para meu marido. E teu rosto é belo. Sim; mas somente para aquele que me desposou”. Contudo, não desejo que mulheres castas concedam ocasião para tais elogios àqueles que, por meio dos elogios, procuram motivos para censura; e não somente porque é proibido expor o tornozelo, mas porque também foi ordenado que a cabeça seja coberta e o rosto velado; pois é maldição que a beleza seja armadilha para os homens[57].

2 – Fragmentos de Clemente de Alexandria, Livro 4. A Coroa, Capítulo 4.

Se, por estas e outras normas semelhantes, exigires mandamento expresso das Escrituras, não o encontrarás. Apresentar-se-á a ti a tradição como sua origem, o costume como seu sustentáculo, e a fé como seu guardião. Que a razão confirma a tradição, o costume e a fé, tu mesmo perceberás, ou aprenderás de quem o saiba. Enquanto isso, crerás haver uma razão digna de submissão. Acrescento um exemplo a mais, para mostrar-te como se dava entre os antigos. Entre os judeus, era tão comum às mulheres cobrirem a cabeça com véu que assim se reconheciam. Pergunto, neste caso, onde está a lei? Deixo de lado o Apóstolo. Se Rebeca, ao avistar de longe seu prometido, baixou imediatamente o véu, essa modéstia particular não poderia instituir lei, ou o teria feito somente para aqueles que possuem a mesma razão que ela. Que as virgens sejam veladas, e só quando estão para se casar, e não antes de reconhecerem o esposo destinado. Se Susana, sujeita a ser descoberta em seu julgamento, serve como argumento para o uso do véu pelas mulheres, digo que o véu era voluntário. Ela veio acusada, envergonhada pela desonra, ocultando justamente sua beleza, pois já temia agradar. Não creio que, querendo atrair, andasse velada pelas ruas do marido. Mesmo admitindo que estivesse sempre velada, peço que mostres a lei do traje para este e quaisquer outros casos. Se não a encontrares, segue que a tradição concedeu ao costume esta forma, buscando depois autorização apostólica pela correta interpretação da razão. Estes exemplos mostram claramente que podes defender até mesmo a observância da tradição não escrita, fundada no costume; testemunho legítimo da tradição, quando confirmado pelo uso contínuo e prolongado. Mesmo em assuntos civis, o costume é aceito como lei quando falta preceito legal expresso; e pouco importa se depende da escritura ou da razão, pois esta é o fundamento da lei. Contudo, dirás: — se a razão é base da lei, tudo que for justificado por ela será lei; ou crês que todo crente pode criar e estabelecer lei, desde que conforme a Deus, útil à disciplina e promotora da salvação, quando o Senhor diz: — “Mas por que não julgais vós mesmos o que é justo?”. E não apenas para sentenças judiciais, mas para toda decisão que nos cabe, o Apóstolo acrescenta: — “Se de alguma coisa ignorais, Deus vo-lo há de revelar”. Ele mesmo costumava aconselhar, mesmo sem mandamento do Senhor, falando como possuidor do Espírito de Deus, que guia em toda a verdade. Assim, seu conselho, validado pela razão divina, tornou-se equivalente a mandamento divino. Por isso, inquira com zelo este mestre, preservando o respeito pela tradição, seja qual for sua origem; não te detenhas no autor, mas na autoridade, especialmente no costume, que devemos reverenciar para não faltar intérprete. E se a razão é dom de Deus, aprenderás não apenas se deves seguir o costume, mas o porquê[58].

3 – Fragmentos de Clemente de Alexandria, Livro 4 — A Coroa, Capítulo 14.

Muito menos convém ao cristão colocar sobre sua cabeça o serviço da idolatria — ou melhor, diria, sobre Cristo mesmo, pois Cristo é a Cabeça do homem cristão — (sua cabeça) é tão livre quanto o próprio Cristo, sem obrigação de cobrir-se, quanto mais de cingir-se com uma faixa. Mas até mesmo aquela cabeça que deve estar velada — refiro-me à da mulher —, já ocupada por essa própria ordenança, não está livre para ostentar também uma coroa. A ela cabe o peso da própria humildade. Se não deve aparecer com a cabeça descoberta por causa dos anjos, quanto mais ofenderá os anciãos celestiais, que talvez estejam então coroados nas alturas, ao colocar uma coroa sobre si. Pois que é a coroa na cabeça da mulher, senão beleza tornada sedução? Sinal de lascívia manifesta, abandono notório da modéstia, incêndio aceso da tentação. Assim, a mulher, instruída pela prudência apostólica, não se adornará com excessos, para que também não se veja coroada com nenhuma primorosa disposição dos cabelos. Que espécie de coroa, pergunto-vos, recebeu Ele — o que é Cabeça do homem e glória da mulher, Cristo Jesus, Esposo da Igreja — em favor de ambos os sexos? Uma de espinhos, penso eu, e de abrolhos — figura dos pecados que o solo da carne produziu para nós, mas que o poder da cruz removeu […].

4 – Tertuliano – Parte Quarta, Livro 2, Seção 3 — Sobre o Uso do Véu pelas Virgens (Mulheres).

[1] – Jerônimo — Carta 38.

Em tempos passados, nossa estimada viúva era sumamente exigente no vestir, passando dias inteiros diante do espelho a corrigir minúcias. Agora, ousadamente, diz: — “Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (2 Coríntios 3:18). Noutros tempos, criadas lhe arranjavam os cabelos, e sua cabeça, sem culpa alguma, era forçada a ornamentos ondulados. Agora, deixa os cabelos em paz, e seu único adorno é o véu. Antes, até o mais macio leito de penas lhe parecia áspero, e mal repousava sobre montes de almofadas. Agora, ergue-se pronta para a oração; sua voz aguda clama aleluia antes de todas, e é a primeira a louvar o Senhor[59].

[2] – Dois Livros Sobre o Arrependimento — §69.

Que o próprio costume nos sirva de mestre. A mulher cobre o rosto com o véu para que, em público, sua modéstia permaneça resguardada. Para que seu semblante não encontre com facilidade o olhar de um jovem, seja velada com o véu nupcial, a fim de que, mesmo em encontros fortuitos, não se exponha à ferida — seja do outro, seja de si mesma — pois ambas, de fato, recairiam sobre ela. Ora, se ela cobre a cabeça com o véu para não ver nem ser vista inadvertidamente (pois, estando velada a cabeça, oculta-se o rosto), quanto mais deve cobrir-se com o véu da modéstia, para que tenha, mesmo em meio à multidão, seu próprio lugar secreto.

[3] – Santo Ambrósio — Livro 1, Capítulo 12.

“Que véu poderia cobrir-me com maior dignidade”, disse ela, “do que o altar, que consagra os próprios véus? Véu nupcial mais honroso não há, sobre o qual Cristo, Cabeça de todos, é diariamente consagrado[60]”.

Paz e graça.

[1] Por Brian Schwertley (2008).

[2] A interpretação ortodoxa padrão de Gálatas 3:28 (a qual foi sustentada pelos Reformadores e universalmente aceita até que a Igreja fosse influenciada pelo feminismo no século XIX) é que o versículo fala da unidade entre homem e mulher como beneficiários da graça de Deus em Cristo (veja Martin Luther, Commentary on Galatians (Cambridge: James Clarke, [1575] 1978), 342 – 343; John Calvin, Commentary on Galatians (Grand Rapids: Baker, 1981), 112; John Gill, Exposition of the New Testament, 9:25; Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible, 6:663; James W. Porteous, The Government of the Kingdom of Christ (Edinburgh, 1873), 168; Ernest DeWitt Burton, Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Galatians (Edinburgh, T&T Clark, 1980), 206 – 207; Otto Schmoller, Lange’s Commentary on the Holy Scriptures: — The Epistle of Paul to the Galatians ([1870] 1978) 2:88; R. C. H. Lenski, Interpretation of St. Paul’s Epistles to the Galatians, Ephesians and Philippians (Minneapolis: Augsburg, [1937] 1961), 188 – 189; Ronald Y. K. Fung, Epistle to the Galatians (Grand Rapids: Eerdmans, 1988), 175 – 176.

[3] John Calvin, Commentary on the Epistles of Paul the Apostle to the Corinthians (Grand Rapids: Baker, 1981), 1:353.

[4] John Gill, Exposition of the New Testament (Streamwood, IL: Primitive Baptist Library, [1809] 1979), 2:683.

[5] See Wayne Gruden, “The Meaning of Kephale (Head): A Response to Recent Studies” in John Piper and Wayne Gruden, ed., Recovering Biblical Manhood and Womanhood: A Response to Evangelical Feminism (Wheaton: Crossway Books, 1991), 425 ff.

[6] Calvino escreve: — “Parece, contudo, supérfluo que Paulo proíba a mulher de profetizar com a cabeça descoberta, enquanto em outro lugar ele proíbe totalmente que as mulheres falem na Igreja (1 Timóteo 2:12). Portanto, não lhes seria permitido profetizar mesmo com a cabeça coberta, e assim não haveria propósito em discutir aqui a questão do véu. Pode-se responder que o Apóstolo, ao condenar aqui uma prática, não elogia a outra. Pois, quando os repreende por profetizar com a cabeça descoberta, não lhes concede permissão para profetizar de outra forma, mas apenas adia a condenação desse vício para outra passagem, a saber, no capítulo quatorze” (Comentário à Primeira Epístola aos Coríntios, 11:356; cf. Charles Hodge, 1 and 2 Corinthians [Carlisle, PA: Banner of Truth, (1857) 1959], 208 – 209).

[7] Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible, 6:561.

[8] John Gill, An Exposition of the New Testament, 2:684.

[9] Gordon Fee, The First Epistle to the Corinthians (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), 506 – 507.

[10] Sherman Isbell, Authority and the Woman’s Head: — Notes on 1 Corinthians 11:2 – 16 (1995), unpublished paper.

[11] Richard Bacon, Paul’s Discourse on the Use of Head coverings in Public Worship: An Exposition of 1 Corinthians 11:2 – 16 (First Presbyterian Church of Rowlett, TX: 1997), Internet article.

[12] James Moffat, The First Epistle of Paul to the Corinthians (London: Hadder and Stoughton, 1938), 154.

[13] John Murray, “The Use of Head Coverings in the Worship of God”, A personal letter written on November 16, 1973, published in Presbyterian Reformed Magazine, Winter 1992.

[14] Buchsel, “anti” in Gerhard Kittel, ed., Theological Dictionary of the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1964), 1:372.

[15] Frederic Louis Godet, Commentary on First Corinthians (Grand Rapids: Kregel [1889] 1977), 557 – 558.

[16] Na Tradição Reformada, especialmente na presbiteriana e continental (como a reformada holandesa), “consistório” é o nome dado ao conselho de presbíteros que governa uma igreja local. Refere-se ao Conselho Presbiteriano local, e “consistórios” é sua tradução para o contexto reformado continental — ambas designações para o corpo de presbíteros que pastoreiam a Igreja local sob Cristo, o Cabeça da Igreja — nota do tradutor.

[17] Assíndeto é uma figura de linguagem ou recurso estilístico que consiste na omissão deliberada das conjunções entre palavras, frases ou orações, de modo a conferir maior rapidez, intensidade ou ênfase ao discurso. Em vez de ligar termos por meio de conectivos como “e”, “ou”, “mas”, eles são justapostos diretamente. Exemplo clássico: — “Vim, vi, venci.” (Júlio César) — onde as conjunções que poderiam ligar as ações são suprimidas. No estilo erudito e bíblico, o assíndeto pode sugerir força e vigor na narrativa, aproximando o texto do ritmo poético e da eloquência da Escritura Sagrada — nota do tradutor.

[18] Gordon D. Fee, The First Epistle to the First Epistle to the Corinthians, 506.

[19] Charles Hodge, 1 and 2 Corinthians (Carlisle, PA: Banner of Truth, [1857] 1958), 208.

[20] Archibald Robertson and Alfred Plummer, First Epistle on St. Paul to the Corinthians (Edinburgh: T&T Clark, [1911] 1978), 230.

[21] Grifo do tradutor.

[22] Veja Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians, 511.

[23] Edward J. Young, The Book of Isaiah (Grand Rapids: Eerdmans, 1965), 1:298.

[24] Veja A. T. Robertson, Word Picture in the New Testament (Grand Rapids: Baker, 1951), 4:160.

[25] Fee, 511, footnotes 80 and 81.

[26] Trecho da Novella 134.10 do Código de Justiniano. Texto original (em latim, adaptado da edição de Schoell e Kroll, Corpus Juris Civilis): — “Si adulterii crimen evidenter fuerit comprobatum, poena a Constantino constituta adhibeatur, et complices atque ministri tam nefarii criminis eadem poena plectantur. […] Mulier vero adultera competenti poena subiaceat et in monasterio includatur. Si maritus intra biennium eam recipere voluerit, liceat ei id facere et cum ea convivere, nec matrimonium propter id quod interim accidit dissolvatur. Post biennium vero (si non recepta fuerit), aut si maritus fuerit antequam eam receperit, capillis tonsis habitum monachalem induat et in monasterio reliquam vitam degat”. Tradução para o português: — “Se o crime de adultério for claramente comprovado, a punição estabelecida por Constantino será aplicada, e os cúmplices e assistentes desse crime ímpio sofrerão a mesma pena. […] A mulher adúltera deverá sofrer a penalidade apropriada e ser confinada em um mosteiro. Se o marido desejar aceitá-la de volta dentro de dois anos, ele tem o direito de fazê-lo e de viver com ela, e o casamento não será afetado pelo que ocorreu nesse meio–tempo. Quando esse prazo passar (e ela não for readmitida), ou se o marido morrer antes de aceitá-la de volta, seus cabelos deverão ser cortados, ela deverá assumir o hábito monástico e viver no mosteiro pelo resto da vida”. Resumo das penalidades (conforme Novella 134.10): — [1] – Confinamento imediato em mosteiro: — Após a condenação por adultério, a mulher é imediatamente enviada a um mosteiro como punição inicial. [2] – Possibilidade de readmissão: — O marido tem até dois anos para decidir readmiti-la. Se o fizer, o casamento permanece válido, sem consequências legais adicionais. [3] – Punição definitiva (se não readmitida): — Caso o marido não a aceite de volta em dois anos, ou se ele morrer antes disso: — [a] – Seus cabelos são cortados (capillis tonsis), o que implica a raspagem da cabeça, uma prática comum para marcar a entrada na vida monástica e simbolizar humilhação e penitência. [b] – Ela assume o hábito monástico (habitum monachalem induat), formalizando sua condição de monja. [c] – Ela permanece no mosteiro pelo resto da vida (in monasterio reliquam vitam degat), sem possibilidade de retorno à vida secular — nota do tradutor.

[27] Marvin, R. Vincent, Word Studies in the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, [1887] 1946), 3: 247.

[28] Moffat, 151.

[29] Charles Hodge, 1 and 2 Corinthians, 307.

[30] Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians, 514, footnote 8.

[31] No versículo 7, Paulo emprega uma figura de linguagem (uma elipse), na qual a obrigação da mulher em 7b é intencionalmente omitida por estar implícita como o oposto da obrigação do homem no culto público.

[32] Leon Morris, The First Epistle of Paul to the Corinthians (Grand Rapids: Eerdmans, 1958), 153.

[33] Charles Hodge, 1 and 2 Corinthians, 210.

[34] Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible (McLean, VA: McDonald Publishing House, n. d.), 1:19.

[35] Charles Hodge, 1 and 2 Corinthians, 210.

[36] Matthew Henry, 6:562.

[37] Matthew Poole, A Commentary on the Holy Bible, (Carlisle, PA: Banner of Truth, 1963 [1685]), 3:578.

[38] “E disse ao servo: — Quem é aquele homem que vem pelo campo ao nosso encontro? E o servo disse: — Este é meu senhor. Então tomou ela o véu e cobriu-se” (ACF).

[39] Frederic Louis Godet, Commentary on First Corinthians, 553.

[40] Leon Morris, 1 Corinthians, 155.

[41] Charles Hodge, 1 and 2 Corinthians, 212.

[42] Godet, 553.

[43] “Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem as Igrejas de Deus” (ACF).

[44] Oepke, “Kalupto” in Gerhard Kittle, ed., Theological Dictionary of the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1965), 3:562 – 563. Emphasis added.

[45] Clyde McKnight, Concerning The Head Covering, Internet article.

[46] Havia no mundo greco–romano um culto no qual tanto homens quanto mulheres cobriam a cabeça durante o sacrifício pagão. Esta prática, contudo, não influenciou em nada o ensino do Apóstolo sobre o culto público. Os homens judeus começaram a cobrir a cabeça no serviço público das sinagogas provavelmente algumas gerações após o encerramento do cânon das Escrituras do Novo Testamento. Os sacerdotes que ministravam no serviço do templo cobriam a cabeça durante suas ministrações. Esta prática, porém, não deve ser considerada uma contradição ao ensino de Paulo em 1 Coríntios 11 porque: — [1] – o dever sacrificial dos sacerdotes era cerimonial; [2] – os sacerdotes não adoravam num culto público com suas famílias, mas serviam a Deus sozinhos como uma classe especial separada; [3] – o turbante na cabeça do sacerdote tem um significado completamente diferente do véu na cabeça da mulher; [4] – os sacerdotes usavam um uniforme especial. “Essencialmente, um uniforme chama atenção para o ofício ou função da pessoa, em oposição à sua personalidade individual. Ele enfatiza seu trabalho em vez de seu nome” (G. J. Wenham, The Book of Leviticus [Grand Rapids: Eerdmans, 1979], p. 138). Sobre as vestes do sumo sacerdote, Wenham acrescenta: — “Ao vestir estas roupas, ele assumia para si toda a honra e glória do sumo sacerdócio […]. Suas vestes gloriosas simbolizavam o significado de seu ofício. Provavelmente também havia significado simbólico atribuído aos itens individuais da veste sacerdotal, mas isso agora nos escapa” (Ibid., p. 139). Kellogg escreve: — “As vestes oficiais do sumo sacerdote o marcavam […] como o servo do Deus do tabernáculo, cuja libré ele trajava. Pois aquelas cores, em suas diversas modulações de luz, possuíam todas uma referência simbólica ao Deus da luz, Criador do universo, do qual o tabernáculo mosaico era um tipo” (S. H. Kellogg, The Book of Leviticus [Minneapolis, MN: Klock and Klock, 1978, 1899], p. 193).

[47] James Moffatt, The First Epistle of Paul to the Corinthians (London: Houghter and Stoughton, 1958), 154.

[48] David E. Aune, Revelation 6 – 16 (Nashville: Thomas Nelson, 1998), 532.

[49] A proibição de Deus aos homens que fazem o voto de nazireado de cortarem o cabelo (Números 6:5) levanta uma questão óbvia quanto à declaração de Paulo sobre o cabelo comprido ser vergonhoso e contrário à ordem criada. Se é errado ou vergonhoso para um homem ter cabelo comprido, como então Deus poderia ordenar aos nazireus que deixassem crescer o cabelo? Há várias razões pelas quais o voto nazireu não deve ser usado para contrariar o ensino de Paulo em 1 Coríntios 11. Primeiro, era bem sabido pelos israelitas que o voto nazireu era extraordinário e que o cabelo comprido do nazireu nada tinha a ver com efeminação. O cabelo comprido simbolizava um aumento do poder do Espírito, o qual aumentava a fé, a virtude e a graça. O cabelo apontava para uma maior consagração a Deus. Segundo, Deus, que estabeleceu a ordem natural das coisas, tem o direito de fazer exceções à ordem normal das coisas; nós não temos. Terceiro, há elementos positivos quanto à aparência que Deus pode ou poderia alterar, sem que isso contradiga de modo algum a Lei moral. Deus criou Adão e Eva com uma diferença na aparência. Eva tinha cabelo comprido e belo, e Adão, cabelo curto. Jeová poderia ter feito a diferença na cor do cabelo (por exemplo, homens com cabelo preto; mulheres com cabelo rosa), mas Ele escolheu o comprimento do cabelo como diferença. Assim, embora em circunstâncias normais os homens devam ter cabelo curto, exceções podem ser feitas para os nazireus e para aqueles que não podem cortar o cabelo por razões de saúde. Este ponto, contudo, não significa que possamos anular o mandamento de Paulo por causa de costumes ou opiniões pessoais.

[50] Charles Hodge, 1 and 2 Corinthians, 214.

[51] Gordon Clark, First Corinthians (Jefferson, MD: The Trinity Foundation, 1991 [1975]), 178.

[52] Uma “palla” era um tipo de manto ou xale usado por mulheres na Antiguidade — no mundo romano e grego —, especialmente por matronas (mulheres casadas e de posição respeitável). Era uma peça de vestuário longa e retangular, normalmente colocada sobre os ombros e enrolada ao redor do corpo e, muitas vezes, também usada para cobrir a cabeça em público, funcionando como sinal de posição, respeito e proteção legal. A “palla” simbolizava modéstia, decoro e respeito diante da presença pública, especialmente em contextos formais ou religiosos — nota do tradutor.

[53] Frederic Louis Godet, Commentary on First Corinthians (Grand Rapids: Kregel, 1977 [1889]), 560.

[54] Charles Hodge, em sua obra 1 and 2 Corinthians, p. 214, sustenta esta interpretação correta. Leon Morris também a corrobora, afirmando: — “Paulo não pretende entrar em disputas com aqueles inclinados a batalhas verbais (‘contenciosos’, ‘φιλόνεικος–philoneikos’, é quem ama a contenda). Tais indivíduos prolongam argumentos indefinidamente. Diante dessa atitude, Paulo recorre ao costume universal. ‘Não temos tal costume’, ou seja, o costume de mulheres orarem ou profetizarem com a cabeça descoberta. A quem exatamente se refere o ‘nós’ não é claro, mas a adição ‘nem as Igrejas de Deus’ demonstra que o hábito descrito é comum a todas as Igrejas cristãs” (1 Corinthians, Grand Rapids: Eerdmans, 1958, p. 136). Alfred Plummer concorda, escrevendo: — “Existem pessoas tão afeitas à disputa que contestam até as conclusões mais evidentes; e os coríntios eram assim. Porém, o Apóstolo não lhes dá ocasião. Se questionarem o decoro e a natureza neste assunto, pode-se dizer que os mestres não possuem costume algum que permita às mulheres aparecerem sem véu — algo desconhecido nas congregações cristãs. É possível que ‘hēmeis’ se refira apenas a ele mesmo, mas provavelmente significa que não conhece Apóstolo algum que permita tal prática” (First Epistle of St. Paul to the Corinthians, Edimburgo: T and T Clark, 1978 [1911], p. 235).

[55] No âmbito teológico e eclesiástico, o termo “egalitarianismo” refere-se à visão que sustenta a igualdade funcional entre homens e mulheres no exercício de ministérios e liderança dentro da Igreja, negando distinções de posições baseadas no sexo. Essa perspectiva contrasta com a visão complementarista tradicional reformada, que reconhece diferenças de papéis e funções, mas iguais valor e dignidade entre os gêneros — nota do tradutor.

[56] Alguns que rejeitam a submissão ao ensino de Paulo sobre o véu de cabeça apegam-se à palavra “costume” em 1 Coríntios 11:16 para alegar que se trata de uma prática cultural, temporária e contingente. Tal argumento deve ser veementemente rechaçado pelos seguintes motivos. [1] – A argumentação paulina, que sustenta o imperativo “que ela esteja coberta”, não pode ser reduzida a mera aprovação de um costume local e passageiro. A invocação da ordenança da criação referente à cabeça da Aliança, do propósito do homem e da mulher, do testemunho da natureza e da revelação geral, bem como da observação dos anjos, torna tal entendimento manifestamente absurdo. [2] – A afirmação de que em toda Igreja, em toda parte, não se permite que a mulher adore com a cabeça descoberta prova o caráter transcultural do uso do véu. Cumpre lembrar que as mulheres gregas não tinham costume de cobrir a cabeça em seus rituais. [3] – A palavra grega para costume, “συνήθεια–sunétheia”, usada no versículo 16, designa a prática habitual das Igrejas, e não um mero costume superficial, como um festival local ou efêmero. O estudioso Paul K. Jewett (que certamente não é simpatizante da autoridade do Pacto nem da ortodoxia presbiteriana) concorda: — “Portanto, a observação do Apóstolo (v. 16) de que as Igrejas de Deus não têm tal costume (sunétheia) de as mulheres desvelarem suas cabeças durante o culto público não pode significar que ele considerasse toda a questão como um mero costume. Embora se possa argumentar isso, não se pode dizer que esse seja o sentido do texto. Muito pelo contrário, esse costume particular, no pensamento de Paulo, fazia parte da tradição apostólica que ele lhes havia transmitido e à qual estavam vinculados. Este é, de fato, o tom com que ele inicia toda a discussão, elogiando-os por guardarem firmemente as tradições (paradosis) ‘assim como foram entregues a vós’ (v. 2)” (Man as Male and Female [Grand Rapids: Eerdmans, 1975], 118).

[57] Schaff, P. The Ante–Nicene Fathers. electronic ed. Garland, TX: Galaxie Software, 2000.

[58] Schaff, P. The Ante–Nicene Fathers. electronic ed. Garland, TX: Galaxie Software, 2000.

[59] Schaff, P. The Nicene and Post-Nicene Fathers Second Series Vol. VI. Oak Harbor: Logos Research Systems, 1997.

[60] Schaff, P. The Nicene and Post-Nicene Fathers Second Series Vol. X. Oak Harbor: Logos Research Systems, 1997.

[61] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.

O DÍZIMO NO ANTIGO TESTAMENTO?

UMA PRAGA DOUTRINÁRIA DO SÉCULO XXI — O ARMINIANISMO

O panorama do pensamento religioso moderno, em particular a Igreja do século XXI, enfrenta um dilema desafiador. Que poderia ser esta aberração doutrinária e de onde ela se origina?

O Apóstolo Paulo ordena em Tito 3:10, 11: — “Ao homem herege, depois de uma e outra admoestação, evita-o, sabendo que esse tal está pervertido, e peca, estando já em si mesmo condenado”.

Como disse John Owen: — “Uma Igreja não pode envolver em sua comunhão Agostinho e Pelágio, Calvino e Armínio[2].

O sistema doutrinário conhecido como Arminianismo enquadra-se neste aviso paulino. Ele procede das crenças do Pelagianismo e do Semi–Pelagianismo, os quais vêm influenciando sutilmente a doutrina da Igreja há mais de um quarto de milênio (Judas 1:4[3]). Figuras bem conhecidas, como Charles Grandison Finney (1792 – 1875) e John Wesley (1703 – 1791), carismáticos como eram, difundiram essa doutrina e ressuscitaram o engano pelagiano, lançando novamente a Igreja de Cristo em turbulência. Se pudéssemos retroceder no tempo, ao período em que o discurso teológico entre o Arminianismo e as Igrejas reformadas dos Países Baixos estava em seu auge, encontraríamos indivíduos que propagavam com fervor doutrinas divergentes do Evangelho de Jesus Cristo.

O Sínodo de Dort (também conhecido como o Sínodo de Dordt ou Sínodo de Dordrecht), um sínodo internacional que teve lugar em Dordrecht, na Holanda, de 1618 a 1619 pela Igreja Reformada Holandesa, enfrentou o Arminianismo quando este se manifestou por meio dos ensinamentos diretos de Jacó Armínio (1560 – 1609) e de seus seguidores, os Remonstrantes. Dort declarou que, em reação aos Artigos e Opiniões arminianas e remonstrantes, Armínio e os Remonstrantes: — “fazem ressurgir do inferno o erro pelagiano[4]. Afirmaram que o Arminianismo “engana os simples[5], “é uma invenção do cérebro humano[6], é um “erro pernicioso[7], “cheira a Pelágio[8], “se opõe a toda a Escritura[9], é “erro grosseiro[10], “milita contra a experiência dos santos e é contrário à Escritura[11], “contradiz a Escritura[12], “tenta dar ao povo o veneno mortal do Pelagianismo[13], “contradiz o Apóstolo” e “contradiz o Salvador[14], “é um insulto à sabedoria de Deus[15], “se opõe aos claros testemunhos da Escritura[16], “é um ensino inteiramente pelagiano e contrário a toda a Escritura[17]. Os cristãos devem saber que “a Igreja primitiva já condenou esta doutrina há muito tempo nos pelagianos[18], “é evidentemente pelagiana[19], e “anula a própria graça da justificação e regeneração[20].

Os professores ortodoxos, teólogos e ministros da Holanda e da Inglaterra buscaram incessantemente suprimir o ensino dos arminianos e proibir o exercício daquela fé que firmemente condenavam como herética. Isso conseguiram fazer com notável eficácia mediante a convocação do Sínodo de Dort. Por essas razões, o Arminianismo sempre foi considerado não somente erro, mas heresia.

Os arminianos de hoje não são, necessariamente, da mesma estirpe dos antigos. O arminianismo histórico pode, de fato, ser visto como uma distorção doutrinária. Todavia, o arminianismo contemporâneo é mais intricado; mescla uma miríade de perspectivas teológicas, formando uma espécie de guisado teológico pútrido. É importante reconhecer que os arminianos modernos podem sustentar crenças drasticamente distintas de seus predecessores históricos. Ainda assim, permanecem em erro.

Hoje, impõe-se avaliar cada Igreja “arminiana” caso a caso, pois a compreensão teológica na cristandade do século XXI revela-se, em grande parte, difusa, ambígua e, por vezes, contraditória.

Deve-se agir com cautela ao se categorizar todos os que se identificam como “arminianos”, pois muitos sequer compreendem plenamente o termo, quanto menos aderem rigorosamente às suas implicações históricas. Ao se indagar uma congregação sobre a diferença entre arminianismo e calvinismo, é provável que se receba uma variedade de respostas — muitas delas afastadas da compreensão teológica acurada. Ainda assim, há aqueles que perseveram em sua lealdade ao Arminianismo histórico, sustentando e mantendo, inclusive, numerosos portais eletrônicos dedicados ao enaltecimento e à difusão de tal doutrina. Como afirmou outrora John Owen, tais indivíduos trazem à luz “as profundezas e astúcias de Satanás”.

Ao lidarmos com tais divergências teológicas, é imprescindível que abordemos cada “arminiano” individualmente, discernindo suas perspectivas particulares. Suas crenças podem inclinar-se à heresia danosa ou revelar apenas uma alma em luta por compreender a graça divina e a queda humana. Todavia, em toda interlocução, cumpre aos que se identificam como calvinistas manter-se equânimes, mansos, caridosos e firmes na proclamação da graça de Deus revelada em Jesus Cristo.

Charles Spurgeon observou acertadamente: — “Frequentemente se afirma que as doutrinas profundas que prezamos e encontramos na Escritura são imorais. Pergunto: — Quem teria a audácia de fazer tal afirmação, considerando que os indivíduos mais santos foram seus defensores? Desafio qualquer um que rotule o Calvinismo como uma religião imoral a refletir sobre o caráter de Agostinho, Calvino ou Whitefield, que em várias épocas foram os principais defensores do sistema da graça, ou mesmo os Puritanos, cujas obras estão repletas dessas doutrinas”.

Por que, então, os calvinistas continuam a ser vistos como em grave erro, enquanto os arminianos são tidos por ortodoxos? A resposta reside no declínio do pensamento crítico e no aumento da suscetibilidade à desinformação. As pessoas tendem a aceitar falsidades com facilidade, à semelhança de Eva no Jardim do Éden, permitindo que tais ideias errôneas infestem a Igreja até cumprirem seu tempo.

Ao longo dos séculos, defensores da verdade ergueram-se contra as heresias teológicas — mesmo durante a Idade das Trevas, notória pelo obscurantismo intelectual. Atualmente, a ousadia de proclamar a verdade bíblica esmaece, e muitos titubeiam em refutar tais equívocos. John Owen, em sua magna obra “The Death of Death in the Death of Christ”, exortou os fiéis a combaterem os erros difundidos por Armínio, Pelágio e seus seguidores. Todavia, tais clamores frequentemente ecoam em ouvidos surdos. É imperioso que homens resolutos se levantem em defesa da verdade, mesmo ante as mais duras adversidades.

Sistemas teológicos desviantes, como o Arminianismo e o Pelagianismo, não conduzem ao encontro do Cristo bíblico. Ao contrário, obstruem tal busca, pois aqueles que aderem a tais doutrinas arriscam tornar-se “filhos da perdição duas vezes”, como os que as propagam. A sinceridade não assegura a verdade. Arminianos sinceros, porém teologicamente equivocados, podem ser mais devastadores para a Igreja do que sinceros budistas.

O Arminianismo[21] revela-se especialmente pérfido ao revestir-se tão habilmente com a linguagem cristã que muitos são seduzidos a crer em sua veracidade. É uma obra–prima de engano, semeada por Satanás, que gera confusão generalizada e perpetua falsas doutrinas.

Palavra do Dr. C. Matthew McMahon.

Aos que ainda não se debruçaram sobre os fundamentos do Arminianismo, é compreensível que surja a indagação: — por que se considera tal sistema um desvio doutrinário?

Contudo, embora este portal — A Puritan’s Mind — não contenha todas as respostas, busco oferecer mais artigos e reflexões que possam auxiliar o peregrino espiritual na busca pelo Cristo bíblico.

Compreendo que alguns arminianos possam sentir-se inquietos com este conteúdo. Se assim for, recorde as palavras de 2 Timóteo 2:24 – 26, que exortam à mansidão, paciência e humildade no ensino, esperando que Deus conceda arrependimento para o pleno conhecimento da verdade. Assim como Jesus fez com o jovem rico, o verdadeiro amor revela-se no compartilhar da verdade, ainda que esta provoque dor. Almejo, pois, fortalecer a fé e conduzir os errantes de volta a Cristo, na esperança de que Deus lhes conceda arrependimento. Aos que se dispõem a ouvir, o próprio Salvador promete: — “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem” (João 10:27). Em tua jornada, jamais esqueças de considerar primeiramente a Providência divina. O ensino contido em Rute 2:2, 3[22] revela como Deus ordena todas as coisas para o cumprimento do seu eterno propósito.

Paz e graça.

[1] “A 21st Century Doctrinal Plague — Arminianism” por Dr. C. Matthew McMahon.

[2] Introdução à obra “Uma Exposição do Arminianismo”.

[3] “Porque se introduziram furtivamente alguns, os quais já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (ACF).

[4] Sínodo de Dort, Cânon 2, Artigo 3, na Rejeição dos Erros.

[5] Cânon 1, Artigo 1.

[6] Cânon 1, Artigo 2.

[7] Cânon 1, Artigo 3.

[8] Cânon 1, Artigo 4.

[9] Cânon 1, Artigo 5 e Cânon 3, Art. 4.

[10] Cânon 1, Artigo 6.

[11] Cânon 2, Artigo 1.

[12] Cânon 2, Artigo 4.

[13] Cânon 2, Artigo 6.

[14] Cânon 2, Artigo 7.

[15] Cânon 3, Artigo 1.

[16] Cânon 4, Artigo 4.

[17] Cânon 3, Artigo 7.

[18] Cânon 3, Artigo 9.

[19] Cânon 5, Artigo 2.

[20] Cânon 5, Artigo 3.

[21] Para uma análise mais profunda de suas raízes históricas e de sua disseminação insidiosa, recomendo a leitura do artigo que traduzimos deste mesmo autor: — “O Cativeiro Pelagiano da Igreja”. Trata-se de uma exposição lúcida das continuidades entre o Arminianismo e os erros antigos de Pelágio, que ainda assombram a cristandade.

[22] “E Rute, a moabita, disse a Noemi: — Deixa-me ir ao campo, e apanharei espigas atrás daquele em cujos olhos eu achar graça. E ela disse: — Vai, minha filha. Foi, pois, e chegou, e apanhava espigas no campo após os segadores; e caiu-lhe em sorte uma parte do campo de Boaz, que era da família de Elimeleque” (ACF).

[23] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.

O DÍZIMO NO ANTIGO TESTAMENTO?

O CATIVEIRO PELAGIANO DA IGREJA

1 – A história da heresia.

“O erro se espalha de uma pessoa para outra. É como a peste, que infecta tudo ao seu redor. Satanás, ao infectar uma pessoa com o erro, infecta a muitos outros! O erro de Pelágio se espalhou rapidamente para a Palestina, África e Itália (Thomas Watson)[2].

Junto com Pelágio, os evangélicos[3] hoje acreditam que a salvação é pelo caráter[4]. Eles creem que os homens, pela fé, antes que Deus efetue uma mudança em sua natureza, devem exercer sua vontade em direção ao que é bom e crer nas promessas de Deus sem coerção, porque são capazes de fazê-lo. Isso é o que Pelágio acreditava: — um notório herege (heresiarca) do século V, condenado pelos concílios, sínodos, teólogos e pastores de sua época, e por sínodos e concílios subsequentes. Pode-se dizer que a Igreja evangélica hoje está cativa pela Teologia herética de Pelágio, embora não tenha consciência disso. Mas afirmar essa acusação não é suficiente para que se acredite nela. Isso deve ser comprovado. Primeiro, é importante delinear o contexto histórico da vida de Pelágio e sua interação eclesiástica. Em segundo lugar, será útil delinear e refutar sua doutrina e os efeitos subsequentes do semipelagianismo. Em terceiro lugar, haverá uma análise do evangelicalismo e sua continuação do pelagianismo e semipelagianismo. Por fim, haverá uma breve conclusão sobre as descobertas.

2 – A história do Pelagianismo e do Semipelagianismo.

Primeiro, historicamente, Pelágio é conhecido no cenário histórico como um monge britânico de olhos azuis, com o sobrenome Morgan, cuja fama emergiu em Roma no início do século V. Ele estudou a Teologia grega, especialmente a da Escola Antioquena, e demonstrou cedo grande zelo pela melhoria de si mesmo e do mundo[5]. Warfield diz: — “Ele também era constitucionalmente avesso à controvérsia; e embora, em seu zelo pelos costumes cristãos e em sua convicção de que nenhum homem tentaria fazer o que não estivesse persuadido de ter poder natural para realizar, propagasse diligentemente suas doutrinas em particular, foi cuidadoso para não despertar oposição e estava contente em progredir silenciosamente e sem discussão aberta[6]. Isso, no entanto, não duraria muito. Pelágio, já avançado em idade, demonstrou que suas habilidades exegéticas eram bastante superficiais, como aparece em seu “Comentário sobre as Epístolas de São Paulo[7], escrito e publicado no ano 409 d.C. Nesta obra, Pelágio expõe a essência de seu sistema; não, porém, como fruto de labor exegético sóbrio, mas de forma indireta, como reação às doutrinas prevalentes de sua época, buscando introduzir uma inovação. Empenhou-se, com quietude e diligência, na reforma dos costumes decadentes de Roma e atraiu à vida monástica — bem como às suas concepções — o advogado Celéstio, homem de origem distinta, embora obscura em outros aspectos. A Pelágio cabe o papel de autor moral do sistema; a Celéstio, o de seu artífice intelectual[8].

Foi por intermédio deste homem — mais jovem, mais arguto na disputa, mais apto à controvérsia e mais rigorosamente coerente que seu mestre — que a questão alcançou proeminência. Por sua atuação, a controvérsia irrompeu na esfera pública, vindo a receber, então, seu primeiro exame eclesiástico e sua rejeição formal[9].

A acusação de Paulino consistia em sete pontos, nos quais afirmava que Celéstio ensinava as seguintes heresias: — [1] – Adão foi criado mortal, e teria morrido ainda que não tivesse pecado. [2] – A queda de Adão prejudicou somente a ele, não ao gênero humano. [3] – As crianças nascem na mesma condição em que Adão se encontrava antes da queda. [4] – O gênero humano não morre em consequência da queda de Adão, nem ressuscita em virtude da ressurreição de Cristo. [5] – Crianças não batizadas, bem como outros, são salvas. [6] – A Lei, assim como o Evangelho, conduz ao reino dos céus. [7] – Mesmo antes de Cristo, houve homens sem pecado[10]. As proposições principais eram a segunda e a terceira, intimamente ligadas entre si, e que mais tarde se tornariam o ponto nevrálgico da controvérsia. Celéstio respondeu com evasivas, alegando tratar-se de questões especulativas das escolas, que não tocavam a substância da fé, e que, sobre tais pontos, havia variadas opiniões dentro da própria Igreja. Recusando-se a retratar-se dos erros que lhe foram imputados, foi, por sentença sinodal, excluído da comunhão da Igreja[11].

Apenas dois fragmentos dos autos do sínodo acerca dessa investigação chegaram até nós; todavia, é manifesto que Celéstio se opôs às acusações e recusou-se a rejeitar qualquer das proposições que lhe foram imputadas, excetuando apenas aquela que tratava da salvação dos infantes que morrem sem o batismo — sendo esta a única que comportava alguma defesa plausível. No tocante à transmissão do pecado, limitou-se a afirmar que se tratava de uma questão ainda aberta na Igreja, e que ouvira ambas as opiniões da parte de dignitários eclesiásticos — de modo que, segundo ele, o tema requeria investigação e não deveria servir de fundamento para uma acusação de heresia. O resultado natural foi que, ao recusar-se a condenar as proposições que lhe foram atribuídas, Celéstio foi ele próprio condenado e excomungado pelo sínodo[12]. Pouco depois, partiu para Éfeso, onde obteve a ordenação que antes buscara, sendo ali feito presbítero. As doutrinas pelagianas encontraram numerosos aderentes, inclusive na África e na Sicília. Santo Agostinho escreveu diversos tratados em refutação a elas já nos anos de 412 e 415 d.C..

Enquanto isso, Pelágio vivia tranquilamente na Palestina, quando, no verão de 415 d.C., um jovem presbítero espanhol chamado Paulo Orósio (c. 385 d.C.) chegou com cartas de Agostinho para Jerônimo de Estridão (c. 347 – 420 d.C.). No final de julho daquele ano, foi convidado a participar de um sínodo[13] diocesano presidido por João II de Jerusalém (c. 356 – 417 d.C.). Ali, foi interrogado acerca de Pelágio e Celéstio, narrando o processo que culminara na condenação deste último no sínodo de Cartago, bem como as refutações literárias de Agostinho dirigidas a Pelágio. Pelágio foi então convocado, e os procedimentos passaram a consistir num exame de seus ensinamentos[14]. A principal questão levantada foi sua afirmação acerca da possibilidade de o homem viver sem pecado neste mundo. Logo em seguida, dois bispos da Gália — Heros de Arles (408 a 412 d.C.) e Lázaro de Aix (falecido em 441 d.C.) — que então se encontravam na Palestina, apresentaram uma acusação formal contra Pelágio ao metropolita Eulógio de Cesareia. Este, por sua vez, convocou um sínodo de quatorze bispos, que se reuniu em Lida (Dióspolis), em dezembro daquele mesmo ano (415 d.C.), para o julgamento da causa[15].

Talvez nenhuma farsa eclesiástica maior tenha sido encenada do que a exibida por este sínodo. Quando chegou o momento, os acusadores foram impedidos de estar presentes devido a uma doença, e Pelágio enfrentou apenas a acusação por escrito. Pelágio escapou da condenação apenas ao custo de renegar Celéstio e seus ensinamentos, dos quais ele próprio havia sido o verdadeiro pai, e de levar o sínodo a acreditar que ele estava anatematizando as mesmas doutrinas que ele mesmo proclamava. Warfield diz: — “Realmente não há possibilidade de duvidar, como qualquer um verá ao ler os procedimentos do sínodo, que Pelágio obteve sua absolvição aqui por meio de uma ‘condenação mentirosa ou uma interpretação enganosa’ de seus próprios ensinamentos; e Agostinho está perfeitamente justificado em afirmar que a ‘heresia não foi absolvida, mas o homem que negou a heresia’, e que ele mesmo teria sido anatematizado se não tivesse anatematizado a heresia[16].

Pelágio logo publicou uma obra “Em Defesa do Livre–Arbítrio”, na qual celebrou sua absolvição e “explicou suas explicações” no sínodo. No entanto, os sínodos do Norte da África enviaram uma carta ao Papa Inocêncio I, buscando seu apoio para condenar Pelágio por sua heresia. Agostinho, junto com outros quatro bispos, acrescentou uma terceira carta, instando Inocêncio a examinar os ensinamentos de Pelágio. Os africanos, incluindo Agostinho, defenderam a necessidade da graça interior, rejeitaram a teoria pelagiana sobre o batismo infantil e declararam Pelágio e Celéstio excomungados até que retornassem à ortodoxia. O estudioso bíblico Jerônimo se juntou a Agostinho na condenação de Pelágio, chamando-o de “cão corpulento […] abatido pelo peso do mingau”. Inocêncio morreu, e Zózimo o substituiu, sendo mais simpático a Celéstio. Zózimo apoiou Celéstio, escrevendo uma carta dura e arrogante à África, proclamando Celéstio “católico” e exigindo que os africanos comparecessem em Roma dentro de dois meses para sustentar suas acusações, ou as abandonassem. Após a chegada dos documentos de Pelágio, Zózimo enviou outra carta (setembro de 417 d.C.), na qual, com a aprovação do clero, declarou Pelágio e Celéstio ortodoxos, repreendendo severamente os africanos por seu julgamento precipitado[17].

Os bispos africanos reuniram-se, em 418 d.C., em Cartago e declararam: — “somos auxiliados pela graça de Deus, por meio de Cristo, não apenas para conhecer, mas para fazer o que é correto, em cada ato individual, de modo que sem a graça somos incapazes de ter, pensar, falar ou fazer qualquer coisa relacionada à piedade”. Essa declaração fez Zózimo hesitar. Por fim, Pelágio e Celéstio foram condenados como hereges e forçados ao exílio. Os bispos exilados foram expulsos de Constantinopla por Ático (em 424 d.C.); diz-se que foram condenados em um sínodo cilício em 423 d.C., e em um sínodo antioqueno (em 424 d.C.). O fim estava próximo. A heresia pelagiana foi oficialmente condenada no Concílio de Éfeso em 431 d.C., um ano após a morte de Agostinho. Então, o famoso segundo Sínodo de Orange reuniu-se sob a presidência de Cesário naquela antiga cidade em 3 de julho de 529 d.C., elaborando uma série de artigos moderados que receberam a ratificação de Bonifácio II no ano seguinte, condenando a heresia pelagiana e o semipelagianismo[18], consolidando completamente o agostinianismo.

É igualmente importante destacar a natureza histórica do semipelagianismo e seu mais ardente defensor, Jacobus Arminius (Jacó Armínio). Por meio do arminianismo, o pelagianismo é mantido vivo. Jakob Hermanszoon (James Harmensen) nasceu em 1560. Este era seu nome de origem holandesa, mas ele é mais conhecido por seu nome latinizado – Jacobus Arminius (1560 – 1609). Quando ainda era um jovem adolescente, trabalhando como servo em uma hospedaria pública, um patrono notou sua inteligência e agudo intelecto para alguém tão jovem, e, como resultado, esse patrono decidiu oferecer-lhe a oportunidade de estudar na Universidade de Utrecht. Ele apoiou Armínio até sua morte, e então outro patrono continuou a financiar sua educação. Armínio pôde então frequentar a Universidade de Marburg, em Hesse, e, finalmente, a Universidade de Leiden. Ele foi até enviado a Genebra enquanto Teodoro Beza (1519 – 1605) presidia lá, mas se entregou à insubordinação e a um espírito de autossuficiência. Ele falava privadamente com outros estudantes contra os professores de lá e acabou sendo expulso da universidade. Após deixar Genebra, ele viajou pela Itália e depois retornou a Genebra, onde já contava com um grande número de seguidores. Ao retornar, como resultado de sua popularidade, o povo decidiu nomeá-lo ministro de Amsterdã.

Após servir como ministro por algum tempo, Armínio foi chamado para lecionar na Universidade de Amsterdã, sob a condição de que aderisse à Confissão Belga. Armínio prometeu lealdade à confissão ao assumir o cargo de professor. Um dos artigos da Confissão Belga afirma o seguinte: — “Artigo 16 – Cremos que Deus, quando o pecado do primeiro homem lançou Adão e toda a sua descendência na perdição (Romanos 3:12), mostrou-se como Ele é, a saber: — misericordioso e justo. Misericordioso, porque Ele livra e salva da perdição aqueles que Ele, em seu eterno e imutável conselho (João 6:37, 44; João 10:29; João 17:2, 9, 12; João 18:9), somente pela bondade, elegeu (1 Samuel 12:22; Salmos 65:4; Atos 13:48; Romanos 9:16; Romanos 11:5; Tito 1:1) em Jesus Cristo, nosso Senhor (João 15:16, 19; Romanos 8:29; Efésios 1:4, 5), sem levar em consideração obra alguma deles (Malaquias 1:2, 3; Romanos 9:11 – 13; 2 Timóteo 1:9; Tito 3:4, 5). Justo, porque Ele deixa os demais na queda e perdição, em que eles mesmos se lançaram (Romanos 9:19 – 22; 1 Pedro 2:8)”. Esse tipo de ensino, um ensino reformado sólido no estilo de João Calvino (1509 – 1564) e, posteriormente, de François Turrettini (1623 – 1687), era ao que Armínio jurou lealdade, embora, na realidade, não acreditasse nisso. Ele foi um indivíduo escandaloso, de mente dupla e obscura.

Após um ou dois anos, ele foi considerado um homem escandaloso. Era sua prática ensinar as doutrinas da graça em conformidade com a Confissão Belga em sala de aula, mas, ao mesmo tempo, distribuía manuscritos confidenciais privados entre seus alunos[19]. Por meio dessa “duplicidade”, ele conseguia manter sua popularidade, enquanto, simultaneamente, contaminava os estudantes sob sua tutela com os mesmos erros do “arminianismo” nos quais ele realmente acreditava.

Os Estados Gerais dos Países Baixos enviaram representantes das Igrejas para interrogar Armínio e apurar a veracidade dos rumores sobre suas crenças. O processo envolveria um debate público, cujos resultados seriam apresentados ao Sínodo Nacional para decidir sobre possíveis medidas eclesiásticas. Armínio negou os rumores (o que, na verdade, era uma mentira para encobrir seu comportamento controverso) e aceitou reunir-se com o conselho sob uma condição: — que, caso encontrassem algo errado, não o denunciassem ao Sínodo. Que estratagema era esse? Percebendo sua recusa sutil, os deputados recusaram-se a prosseguir com a discussão, considerando que Armínio não agia com honestidade ou integridade. Mais tarde, convocaram-no para um conselho com Classis, um teólogo reformado, mas ele se recusou a participar de um sínodo aberto. Essa permaneceu sua postura daí em diante. Sua estratégia consistia em conquistar o apoio de figuras seculares do estado e da universidade antes de divulgar publicamente suas ideias “novas e radicais”. Isso é significativo, pois o arminianismo, assim como seu predecessor pelagianismo, é visto como a salvação do homem secular. Quando uma heresia emerge, raramente é franca e aberta em seus estágios iniciais. Grupos heréticos quase nunca se mostram honestos e transparentes até que ganhem força suficiente para assegurar alguma popularidade: — assim como ocorreu com Pelágio, o mesmo se deu com Armínio[20].

O objetivo de Armínio era unir todos os cristãos, exceto os papistas, sob uma forma comum de irmandade doutrinária. Se esse era realmente o caso, por que era tão difícil para ele ser “julgado” teologicamente em um fórum aberto? Sua agenda e motivos revelam que seu objetivo era verdadeiro, mas não para o bem da Igreja. Em suas visões (consideradas não ortodoxas e heréticas), ele concordava substancialmente com as cinco doutrinas estabelecidas por seus predecessores, mas de maneira mais refinada. Ele morreu em 1609, antes que pudesse ser levado publicamente a um sínodo. Muitos esperavam que, com a morte de Armínio, o arminianismo desaparecesse rapidamente. Infelizmente, sua doutrina contagiante já havia influenciado muitos estudantes mais jovens, e logo surgiu um grupo chamado os Remonstrantes.

Em 1610, os Remonstrantes se organizaram em um grupo e apresentaram uma “Remonstrância” aos Estados Gerais da Holanda, Dinamarca, Bélgica e Países Baixos. A palavra “Remonstrância” significa “oposição ou objeção vigorosa”. Esses homens estavam convencidos de que deveriam continuar os ensinamentos de Armínio de forma precisa e ordenada. Seu objetivo era conquistar o favor do governo e garantir proteção contra as censuras eclesiásticas às quais se sentiam expostos. Eles tentaram fervorosamente promover um homem chamado Conrad Vorstius (1569 – 1622), um herói de seu novo partido, para ocupar a cadeira de Teologia em Leiden. Quando o rei Jaime I (o mesmo rei Jaime da Inglaterra) descobriu isso, ele exortou os Estados Gerais, por meio de uma carta, a não admitirem um homem com tais erros e inimigo do Evangelho. Vorstius foi impedido, por pouco, mas outro, Simão Episcópio (1583 – 1643), surgiu logo depois. O arminianismo estava se espalhando rapidamente nessa época.

Por mais que hoje alguns considerem deplorável a interferência do Estado nos assuntos da Igreja, nos tempos antigos a prática era bem diferente. O príncipe Maurício de Orange, líder da região na época, opunha-se ao trabalho dos Remonstrantes e desejava a convocação de um Sínodo Nacional contra eles. Como resultado da determinação do príncipe Maurício em erradicar o arminianismo dos Países Baixos, em 13 de novembro de 1618, um concílio nacional foi iniciado na cidade de Dordrecht (também abreviada como “Dort” ou “Dordt”). O sínodo reuniu 39 pastores e 18 presbíteros governantes das Igrejas belgas, além de 5 professores da Universidade da Holanda. Havia também delegados de Igrejas reformadas de toda a região. Pelo menos 4 pastores e 2 presbíteros de cada província participaram do sínodo: — homens da França, Suíça, República de Genebra, Bremen e Emden, além de diversos deputados da Igreja belga, alguns puritanos ingleses, como Joseph Hall (1574 – 1656) e John Davenant (1572 – 1641), e delegados da Escócia. Com uma assembleia tão sublime, Joseph Hall foi levado a dizer que “não havia lugar sobre a terra tão semelhante ao céu como o Sínodo de Dordrecht, e onde ele estaria mais disposto a habitar”.

O Sínodo de Dort foi convocado para examinar a Remonstrância dos arminianos, bem como sua conduta cristã. Tanto sua doutrina quanto seu comportamento estavam “em julgamento”. Ambos eram extremamente importantes, uma vez que um escândalo já havia recaído sobre Armínio, e esses homens estavam propagando os mesmos ensinamentos. É lamentável, mas os Remonstrantes consideraram-se maltratados por causa disso e não compareceram às reuniões, exceto para apresentar suas proposições na forma de cinco artigos no início. O concílio durou mais de um ano.

Após a conclusão do Sínodo em 1619, os participantes emitiram a seguinte censura por decisão unânime – pois examinaram séria e responsavelmente os princípios arminianos, “condenando-os como erros pestilentos e contrários às Escrituras” e declararam que aqueles que os sustentavam e divulgavam eram “inimigos da fé das Igrejas belgas e corruptores da verdadeira religião”. Eles também depuseram os ministros arminianos, excluíram eles e seus seguidores da comunhão da Igreja, suprimiram suas assembleias religiosas e, com o apoio do governo civil, que ratificou todas as suas decisões, enviaram vários clérigos desse grupo e seus adeptos para o exílio[21]. Não os trataram como réprobos, mas como indivíduos sob disciplina eclesiástica.

3 – A Teologia pelagiana e semipelagiana.

A Teologia de Pelágio, ao contrário de algumas tentativas modernas de suavizá-la, não é difícil de compreender. “A essência da Teologia de Pelágio era o desenvolvimento ético do homem, como os gregos o ensinavam, resultando finalmente na perfeição, alcançada simplesmente por suas próprias capacidades naturais[22]. Calvino, de forma mais direta, afirma: — “Ainda assim, essa timidez não impediu Pelágio de surgir com a ficção profana de que Adão pecou apenas para sua própria perda, sem prejudicar sua posteridade. Por meio dessa sutileza, Satanás tentou encobrir a doença e, assim, torná-la incurável. Mas quando foi demonstrado pelo claro testemunho da Escritura que o pecado foi transmitido do primeiro homem a toda a sua posteridade (Romanos 5:12), Pelágio argumentou que ele era transmitido por imitação, não por propagação[23]. Pelágio insistia que a tendência ao pecado é uma escolha livre do homem, e não herdada de Adão. Seguindo esse raciocínio, não há necessidade de graça divina; o homem deve simplesmente decidir fazer a vontade de Deus. O próprio Pelágio disse: — “Eu afirmei isso em prol do livre–arbítrio. Deus é seu auxiliador sempre que ele escolhe o bem; o homem, no entanto, quando peca, é o único responsável, pois age sob a direção de um livre–arbítrio[24]. Pelágio acreditava que o objetivo moral da vida era a perfeição sem pecado e que tal perfeição poderia ser alcançada sem a ajuda de uma graça especial ou adicional. A lógica que ele usava era que mandamentos bíblicos como “Sede, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mateus 5:48) implicam “a capacidade do ouvinte de obedecer ao mandamento”. Além disso, Pelágio ensinava que os pecadores morrem por seus próprios pecados, não pelo pecado de Adão. O único remédio para os pecadores é a justificação pela fé[25]. Pelágio disse: — “Nós distinguimos três coisas, organizando-as em uma certa ordem graduada. Colocamos em primeiro lugar a ‘capacidade’; em segundo, a ‘vontade’; e em terceiro, a ‘atuação’. A ‘capacidade’ situamos em nossa natureza, a ‘vontade’ em nosso arbítrio, e a ‘atuação’ no efeito. A primeira, isto é, a ‘capacidade’, pertence propriamente a Deus, que a concedeu à sua criatura; as outras duas, isto é, a ‘vontade’ e a ‘atuação’, devem ser atribuídas ao homem, porque elas fluem da fonte da vontade. Portanto, por sua vontade e por realizar uma boa obra, o louvor pertence ao homem; ou melhor, tanto ao homem quanto a Deus, que lhe concedeu a ‘capacidade’ para sua vontade e obra, e que sempre, por meio da ajuda de sua graça, auxilia até mesmo essa capacidade[26].

Os princípios centrais da doutrina de Pelágio sobre o pecado são resumidos por Celéstio: — “O pecado de Adão prejudicou apenas a ele, não a raça humana” e “a Lei conduz ao reino, assim como o Evangelho[27]. Em outras palavras, Pelágio defendia que, ao seguir os mandamentos bíblicos, “se quisermos, podemos”. O Catecismo Racoviano[28] (predominante entre os unitarianos ingleses e americanos dos séculos XVIII e XIX) delineia a doutrina de Pelágio ao adotar os seguintes pontos: — [1] – O pecado de Adão afetou apenas ele mesmo. [2] – As crianças nascem no mesmo estado moral em que Adão foi criado. [3] – Todo homem possui a capacidade de pecar ou de se arrepender e obedecer quando quiser. [4] – A responsabilidade é exatamente proporcional à capacidade; e as exigências de Deus são ajustadas às diversas capacidades (morais e constitucionais) e circunstâncias dos homens[29].

As diferenças entre o agostinianismo e o pelagianismo são evidentes. Em relação ao pecado original, o agostinianismo ensina que, pelo pecado de Adão, no qual todos os homens pecaram juntos, o pecado e todas as outras punições positivas do pecado de Adão vieram ao mundo. Por meio disso, a natureza humana foi corrompida tanto física quanto moralmente em todas as faculdades de seu ser. Todo homem nasce com uma natureza já tão corrompida que ela não pode fazer nada além de pecar. Isso não significa que os homens são tão maus quanto poderiam ser, mas que são total e completamente afetados em todas as áreas de seu ser – mente, emoções, vontade, corpo e espírito. A propagação dessa condição de sua natureza ocorre por concupiscência. O pelagianismo, por outro lado, ensina que, por sua transgressão, Adão prejudicou apenas a si mesmo, não sua posteridade. Os homens não são pecadores por causa de Adão. Os homens são pecadores porque pecam. Em relação à sua natureza moral, todo homem nasce exatamente na mesma condição em que Adão foi criado. Portanto, não há pecado original.

Em relação ao livre–arbítrio, o agostinianismo ensina que, pela transgressão e pecado de Adão, a liberdade (liberum arbitrium) da vontade humana foi completamente perdida. Em seu estado corrupto atual, o homem só pode querer e fazer o mal. O pelagianismo, por outro lado, ensina que a vontade do homem é livre. Todo homem tem o poder de querer e fazer o bem, assim como o contrário. Portanto, depende de suas próprias ações se ele será bom ou mau. O homem, assim, torna-se a medida de si mesmo.

Em relação à graça, o agostinianismo ensina que, se o homem, em seu estado atual, deseja e faz algo bom, isso é apenas obra da graça de Cristo nele, operando esse bem. É uma operação interior, secreta e maravilhosa de Deus sobre o homem. É uma obra que precede e também acompanha. Pela graça precedente (ou regeneradora), o homem alcança a fé, por meio da qual ele obtém uma percepção do bem e recebe o poder para desejar o bem. Ele precisa da graça cooperante para a realização de cada ato bom individual. Como o homem nada pode fazer sem a graça, também nada pode fazer contra ela. Ela é irresistível. Como o homem por natureza não tem mérito algum, nenhuma consideração pode ser dada à disposição moral do homem na concessão da graça, mas Deus age segundo sua própria vontade livre. O pelagianismo ensina que, embora pelo livre–arbítrio, o qual é um dom de Deus, o homem tenha a capacidade de desejar e fazer o bem sem a ajuda especial de Deus, ainda assim, para facilitar sua realização, Deus revelou a Lei; para facilitar ainda mais, a instrução e o exemplo de Cristo o auxiliam; e, para uma realização ainda mais fácil, até mesmo as operações sobrenaturais da graça lhe são concedidas. A graça, no sentido mais limitado (influência graciosa), é dada apenas àqueles que a merecem pelo uso fiel de seus próprios poderes. No entanto, o homem ainda pode resisti-la.

Em relação à predestinação e à redenção, o agostinianismo ensina que, desde a eternidade, Deus fez um decreto livre e incondicional para salvar alguns (ainda que esse número não seja necessariamente “pequeno”) da “massa de perdição”, corrompida e sujeita à condenação. Aqueles que Ele predestinou para essa salvação, concede os meios necessários para esse fim. Quanto aos demais, que não pertencem a esse número de eleitos, Ele os deixa em seus pecados e decreta condená-los ativamente por isso. Quanto à redenção, Cristo veio ao mundo e morreu apenas pelos eleitos. Cristo não oferece expiação àqueles que não salva. O pelagianismo ensina que o decreto de eleição e reprovação de Deus fundamenta-se na presciência. Em outras palavras, àqueles que Deus previu que guardariam seus mandamentos, Ele predestinou à salvação (o que, na realidade, se baseia em obras). Aos outros, que Ele não previu que chegariam à fé, deixou à condenação. Quanto à expiação, a redenção de Cristo constitui uma expiação geral por todos os homens. No entanto, apenas aqueles que de fato pecaram necessitam de sua morte expiatória. Todos, contudo, por sua instrução e exemplo, podem ser conduzidos a uma perfeição e virtude superiores[30].

O pelagianismo assumiu forma mais sutil nos ensinos de Jacó Armínio. Armínio, o mais proeminente de sua estirpe, é conhecido como um semipelagiano[31]. É impossível chamá-lo de semiagostiniano, pois sua doutrina não é uma forma atenuada dos ensinos de Agostinho, mas uma forma modificada dos pensamentos de Pelágio. As modificações são sutis, porém significativas. Os semipelagianos creem que a queda no Éden afetou toda a descendência de Adão, mas não de forma total. Os homens estão “doentes pelo pecado”, mas “não mortos no pecado”. Agostinho ensinava que os homens estão “mortos em delitos e pecados”, conforme Romanos 1 — 3 e Efésios 2. Já o semipelagianismo sustenta que os homens estão “de certo modo vivos”, nunca totalmente mortos, o que torna suas vontades livres suficientemente capazes de escolher entre o bem e o mal — à semelhança de Pelágio. Os semipelagianos também acreditam em uma “expiação geral” (como Pelágio), mas sustentam que todos os homens necessitam dessa expiação (um pelagianismo modificado). Ainda que Cristo tenha morrido por todos os homens, abrindo-lhes um caminho, a eficácia de sua morte “não é aplicada” até que o homem, por seu próprio “livre–arbítrio” (liberum arbitrium), escolha aceitar essa expiação. Os homens são livres, e não necessariamente vinculados a coisa alguma além de sua vontade neutra e desejos, que podem optar tanto pelo bem quanto pelo mal[32].

Em oposição ao pelagianismo e ao semipelagianismo, o agostinianismo segue a exposição bíblica da doutrina do homem[33]. Há dois aspectos para entender o pecado que devem ser notados. O primeiro é em termos do pecado original (o primeiro pecado no Jardim) e o segundo é a consequência desse pecado original, chamada de depravação total. O Breve Catecismo de Westminster, na pergunta 15, indaga: — “Qual foi o pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados?”. Essa questão gira em torno do primeiro pecado cometido – o pecado original de Adão. A resposta é: — “O pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados foi o ato de comerem o fruto proibido (Gênesis 3:6 – 8)”. A consequência de comer esse fruto proibido foi quebrar a Aliança com Deus. Adão transgrediu a Lei de Deus e mergulhou toda a humanidade no pecado. Esse pecado é imputado a toda a sua descendência e também é rotulado como a imputação do “pecado original”.

Como resultado da imputação do pecado, todos os homens estão infectados pelo pecado e corrompidos em todas as faculdades de seu ser. Isso é chamado de depravação total. Os efeitos do pecado são biblicamente evidentes, e as perguntas 18 e 19 do Breve Catecismo de Westminster apresentam claramente o quadro bíblico: — a pecaminosidade do estado em que o homem caiu consiste na culpa do primeiro pecado de Adão, na falta da justiça original e na corrupção de toda a sua natureza, o que é comumente chamado de Pecado Original; juntamente com todas as transgressões reais que procedem dele (Romanos 5:19; Romanos 3:10; Efésios 2:1; Salmos 51:5; Mateus 15:19, 20). A depravação total, portanto, é um rótulo para a completa miséria em que os homens caíram. Toda a humanidade, por sua queda, perdeu a comunhão com Deus, está sob sua ira e maldição, e assim ficou sujeita a todas as misérias desta vida, à própria morte e às dores do inferno para sempre (Gênesis 3:8, 24; Efésios 2:3; Gálatas 3:10; Romanos 6:23; Mateus 25:41).

A Depravação Total não é depravação absoluta ou completa. Os homens não são tão vis quanto poderiam ser. Em Gênesis 20:6, por exemplo, Abimeleque é restringido pela mão de Deus para não tocar Sara, esposa de Abraão. Os homens têm uma certa limitação ao pecado que Deus impõe sobre eles. Ele permite que vão apenas até certo ponto (1 Tessalonicenses 2:16). Contudo, devido à imputação do pecado original de Adão a toda a sua posteridade, os homens são incapazes de agradar a Deus de qualquer forma e, ao contrário, são propensos ao mal em todas as áreas das faculdades de seu ser. O Sínodo de Dort afirma: — “um tronco corrupto produziu uma descendência corrupta[34]. Turretini assevera, corretamente, que há uma “desordem universal em sua natureza […][35]. Ele diz: — “Os homens não são apenas desprovidos de justiça, mas também cheios de injustiça[36]. William Ames afirma que, desde a Queda, há a “[…] corrupção total do homem […][37]. William Perkins define assim: — “Pecado original, que é a corrupção gerada em nossa primeira concepção, pela qual toda faculdade da alma e do corpo está inclinada e disposta para o mal[38]. Perkins prossegue explicando que a mente do homem recebeu de Adão: — [1] – “Ignorância”, isto é, uma falta, ou melhor, uma privação do conhecimento nas coisas de Deus, seja no que concerne à sua verdadeira adoração, seja à felicidade eterna; [2] – “Impotência”, pela qual a mente, por si só, é incapaz de compreender as coisas espirituais, mesmo quando ensinadas; [3] – “Vaidade”, em que a mente toma a falsidade por verdade e a verdade por falsidade — uma inclinação natural a conceber e desejar somente o que é mau[39].

A depravação total torna os homens incapazes de fazer o bem. Ames afirma: — “A escravidão ao pecado consiste no fato de o homem estar tão cativado pelo pecado que não tem poder para se libertar dele […] pelo contrário, ele prefere se deleitar nele[40]. Mas o que exatamente é essa escravidão? Ames diz que “o início da morte espiritual, na forma de uma realização consciente, é a escravidão espiritual[41]. O Sínodo de Dort oferece uma resposta abrangente: — “[…] todos os homens são concebidos em pecado e são, por natureza, filhos da ira, incapazes de realizar o bem salvífico, propensos ao mal, mortos em pecado e escravizados a ele; e, sem a graça regeneradora do Espírito Santo, eles não são capazes nem desejam retornar a Deus, reformar a depravação de sua natureza ou se dispor à reforma[42]. Diferentemente de Pelágio, que ensinava que o homem é bom, e do semipelagianismo, que ensinava que o homem está doente, o agostinianismo, junto com a Bíblia, ensina que o homem está morto em pecado. Christopher Love diz: — “[…] ele está espiritualmente morto. Por exemplo, você sabe que um homem morto não sente nada. Faça o que quiser com ele, ele não o sente. Assim, um homem que está espiritualmente morto não sente o peso de seus pecados, embora sejam um fardo pesado que o pressiona para o abismo do inferno. Ele é um estranho à vida de piedade, sem sensibilidade, entregue a um senso reprovável, de modo que não sente o peso e o fardo de todos os seus pecados[43]. Os Cânones do Concílio de Orange (que se reuniu para condenar os primórdios do semipelagianismo) condenam: — “qualquer um [que] nega que é o homem inteiro, isto é, corpo e alma, foi ‘mudado para pior’ pelo pecado de Adão, mas acredita que a liberdade da alma permanece intacta e que apenas o corpo está sujeito à corrupção, está enganado pelo erro de Pelágio e contradiz a Escritura que diz: — ‘A alma que pecar, essa morrerá’ (Ezequiel 18:20); e, ‘Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis?’ (Romanos 6:16)[44].

As Escrituras estão repletas de referências ao estado do homem como alguém morto em pecado e escravizado a ele: — Gênesis 6:5; Gênesis 8:21; Jeremias 17:9; Salmos 51:5; Romanos 3:10 – 18; Isaías 64:6; Ezequiel 11:19; Colossenses 2:13; Efésios 2:1, 5. Três pontos principais podem demonstrar a posição bíblica de forma sucinta: — [1] – O homem caído não pode fazer ou realizar qualquer bem aos olhos de Deus (Mateus 7:17, 18; 1 Coríntios 12:3; João 15:4, 5; Romanos 8:7, 8). [2] – O homem caído não pode compreender ou apreender o bem do Evangelho ou das Escrituras (Atos 16:14; Efésios 4:18; 2 Coríntios 3:12 – 18; João 1:11; João 8:43; Mateus 13:14; 1 Coríntios 1:18, 21; 1 Coríntios 2:14). [3] – O homem caído não deseja nem tem quaisquer desejos voltados para o que é bom aos olhos de Deus (Mateus 7:18; João 3:3; João 8:43; João 15:5; João 6:64, 65; Ezequiel 11:19; Efésios 2:1, 5). Como John Owen afirma: — “Mas objetar-se-á — como tem sido feito contra esta doutrina desde os dias de Pelágio — ‘Que tal suposição torna vãs e inúteis todas as exortações, mandamentos, promessas e ameaças — que compõem todo o modo da comunicação externa da vontade de Deus para conosco; pois, com que propósito se exortam cegos a verem ou mortos a viverem, ou se prometem recompensas a eles com base nisso? Se alguém assim tratasse pedras, não seria isto vão e ridículo, justamente por causa de sua impotência em corresponder a tais propostas de nossa parte? E o mesmo se supõe aqui com relação aos homens, quanto à sua capacidade nas coisas espirituais’[45].

4 – O cativeiro pelagiano e semipelagiano da Igreja evangélica.

A Igreja evangélica, de maneira geral, está atualmente cativa dos ensinamentos de Pelágio. Este, que já havia contaminado a Igreja em seu próprio tempo, estende seus tentáculos doutrinários através dos séculos, sob formas cismáticas variadas. Pelágio envenenou a doutrina de homens das mais diversas cores teológicas ao longo da história. Por exemplo, o teólogo neo–ortodoxo Heinrich Emil Brunner (1889 – 1966), seguindo Karl Barth (1886 – 1968), diz: — “O pecado original não se refere à transgressão de Adão na qual todos os seus descendentes participam; mas afirma o fato de que os descendentes de Adão estão envolvidos em sua morte, porque eles próprios cometem pecado[46]. A Igreja Ortodoxa Oriental ensina que, “embora Adão e Eva tenham se rebelado e caído da graça, seu pecado não foi transmitido aos seus descendentes, exceto no que diz respeito à tentação e à moralidade[47]. A Teologia do Processo ensina que a salvação é, na melhor das hipóteses, a conquista da “autorrealização ou autointegração[48]. A Teologia da Libertação ensina algo semelhante. Gustavo Gutiérrez–Merino Díaz (1928 – 2024), um proeminente teólogo da libertação latino–americano, disse, seguindo a visão de Karl Rahner sobre o pecado original: — “as pessoas são salvas se se abrirem para Deus e para os outros, mesmo que não estejam claramente conscientes de que o estão fazendo[49]. A Teologia Feminista diz o mesmo quando Dorothee Steffensky–Sölle (1929 – 2003) escreve: — “De acordo com uma compreensão cristã do mundo, os pecados não são coisas específicas que fazemos como indivíduos – a violação de normas sexuais, por exemplo. São estruturas de poder que governam sobre nós, algo ao qual estamos subjugados, do qual temos que ser libertados. Não se trata primariamente de uma questão de violação de mandamentos individuais[50]. Carismáticos, Teologia da Prosperidade, o Movimento Vineyard, Teologia da Nova Era e aqueles que defendem uma Teologia da Esperança, todos concordam sobre essa questão — o pecado de Adão não nos afeta como seres inerentemente maus. Em vez disso, é retraduzido em uma Teologia de Opressão, doença, necessidade ou ideologias semelhantes.

Adentrando a cultura moderna, observa-se que a maioria dos evangélicos segue o esquema arminiano em sua Teologia Sistemática, sendo, ademais, pelagiana em diversos de seus pressupostos, embora acreditem que seguem o que a Igreja “sempre acreditou”. Não há setor do evangelicalismo que tenha escapado dessa tendência. Ela se estende desde púlpitos presbiterianos por todo o país, até carismáticos, interdenominacionais, batistas e a toda e qualquer heresia ramificada do cristianismo ortodoxo. A maioria dos pregadores mais populares da atualidade está infectada com traços de pelagianismo: — ligue nas estações de rádio “cristãs” hoje por cinco minutos e você ouvirá heresias ecoando pelas ondas do rádio.

A seguir, são citações diretas e exemplos extraídos de sermões, livros, palestras, seminários e similares que demonstram, brevemente, a tendência no evangelicalismo moderno que segue inclinações e doutrinas pelagianas. Robert J. “Bob” Coy, pastor da “Calvary Chapel Fort Lauderdale”, disse: — “Podemos decidir andar fora da soberania de Deus […]” “Deus nos aceitará porque cremos […][51]. Isso nega abertamente a depravação total do homem e apela ao pelagianismo modificado de Armínio. Charles Ward “Chuck” Smith (1927 – 2013), o “líder” não denominacional de Coy no movimento Calvary Chapel, disse: — “Cremos que Jesus Cristo morreu como propiciação (uma satisfação da justa ira de Deus contra o pecado) ‘por todo o mundo’[52]. Isso, novamente, segue a doutrina de Pelágio e o ensino posterior da Remonstrância de Armínio. É um eco contemporâneo do pregador do século XVIII, John Wesley (1703 – 1791), quando ele disse: — “Deus amou tanto o mundo — isto é, todos os homens sob o céu; até mesmo aqueles que desprezam seu amor, e por essa causa finalmente perecerão. Caso contrário, não crer não seria pecado para eles. Pois em que deveriam crer? Deveriam crer que Cristo foi dado por eles? Então Ele foi dado por eles[53]. Seguindo essa tendência semipelagiana, em 24 de junho de 2001, o Dr. Norman Geisler declarou, de forma semelhante, visões falsas e enganosas sobre a salvação do púlpito da Calvary Chapel em Ft. Lauderdale, Flórida. O Dr. Geisler declarou que a ortodoxia encontrada na posição reformada da salvação considerava o Soberano Senhor sobre o destino da humanidade como um “estuprador divino”. Ao final de sua diatribe, um pastor da Calvary Chapel instruiu potenciais convertidos: — “Jesus deu nove passos em sua direção, agora você precisa dar um passo em direção a Ele[54].

Billy Graham, o célebre “evangelista”, afirmou: — “Creio que todos os que amam Cristo, ou o conhecem, estejam conscientes disso ou não, são membros do Corpo de Cristo[55]. Novamente, a tendência em negar a queda, expressa nessa fraseologia, fala por si mesma. Em setembro de 1993, Graham realizou uma cruzada em Columbus, Ohio. Em entrevista televisiva pré–cruzada, disse (referindo-se ao povo de Columbus): — “Vocês são bons demais, não precisam de evangelismo […]. Na verdade, foi isso que nos impediu de vir [a Columbus] por tanto tempo[56]. Curtis Mitchell, que documentou as pregações de convite de Graham, afirma que as seguintes palavras são típicas: — “Vou pedir que você venha à frente. Lá em cima – cá embaixo – quero que você venha. Venha agora mesmo – rapidamente. Se você está com amigos ou parentes, eles esperarão por você. Não deixe a distância te afastar de Cristo. É um longo caminho, mas Cristo foi até a cruz porque te amou. Certamente você pode dar esses poucos passos e entregar sua vida a Ele […][57]. Expressões semelhantes de pelagianismo e semipelagianismo podem ser encontradas em autores e obras contemporâneas, como “What Love is This?” de Dave Hunt, e “Chosen But Free” de Norman Geisler[58].

Muitos líderes carismáticos, em nossos dias, têm contaminado o evangelicalismo com a Teologia pelagiana e semipelagiana. Robert Schuller Harold (1926 – 2015), um pelagiano moderno que segue as mesmas posições de Charles Finney[59] (1792 – 1875), afirmou: — “Pecado é qualquer ato ou pensamento que priva a mim ou a outro ser humano de sua autoestima[60]. Ele declara ainda: — “A Cruz santificará a sua busca pelo ego, assim como o fez com Jesus[61]. Schuller escreveu: — “Não creio que algo tenha sido feito em nome de Cristo, sob a bandeira do cristianismo, que se tenha mostrado mais destrutivo para a personalidade humana — e, por conseguinte, mais contraproducente para a obra de evangelização — do que a estratégia, muitas vezes grosseira, rude e anticristã, de tentar conscientizar as pessoas de sua condição perdida e pecaminosa (cf. Romanos 1:18 — 3:20)[62]. Ele também declara que deseja “convencer você, leitor, de que você pode, se acreditar que pode […] ao reconhecer as admiráveis possibilidades inerentes à mente[63].

Seguindo Schuller, a quem admira, o cristianismo popular de Rick Warren também revela tendências pelagianas. Sua esposa, Kay, ao comentar sobre uma conferência da qual participaram — na qual Schuller foi um dos oradores — declarou: — “Ficamos cativados por seu [de Schuller] apelo positivo aos incrédulos. Nunca mais olhei para trás[64]. Warren declara: — “[…] qualquer pessoa pode ser ganha para Cristo, se você descobrir as necessidades sentidas do coração dela[65]. Segundo ele, tudo o que se deve fazer é sussurrar uma doce oração a Jesus, e a salvação será assegurada: — “sussurre em silêncio a oração que mudará sua eternidade: — ‘Jesus, eu creio em ti e te recebo’[66].

Montanhas de ideias pelagianas assombram descaradamente o ministério de Thomas Dexter Jakes. Ele diz: — “As Escrituras ensinam que receber Cristo como seu Salvador pessoal não faz necessariamente de você um filho de Deus, mas se você escolher fazer isso, o poder (autoridade) e o direito de fazê-lo estão presentes. […] Apenas ser salvo não faz de você um filho de Deus, […] somente aqueles que estão dispostos a serem guiados pelo Espírito realmente realizam e manifestam a filiação de Deus[67].

Bill Hybels, o pastor que popularizou o “Movimento Seeker–Sensitive” (ou simplesmente “Seeker Movement”) por meio da Willow Creek Community Church, afirmou: — “Somos um povo faminto por amor, com partes quebradas que precisam do tipo de reparo que somente Ele pode dar a longo prazo. Precisamos trazer nossa quebrantação à luz de sua graça e verdade[68]. Isto é semipelagianismo. Os homens não estão apenas quebrados pelo pecado, nem padecem unicamente de um coração ferido; estão mortos em seus delitos e pecados — “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo […]” (Efésios 2:1, 2). Bill Bright, ex–líder e fundador dos “Navigators” e da “Campus Crusade for Christ” ou “Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo” (hoje conhecida como “Cru”), formulou as conhecidas “Quatro Leis Espirituais”. Ele diz: — “Lei 3: — Aceitamos Cristo por um Convite Pessoal. Jesus declarou: — ‘Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei até ele, e com ele cearei, e ele comigo’ (Apocalipse 3:20). Receber a Cristo, segundo esta concepção, consiste em voltar-se para Deus e afastar-se de si mesmo (isto é, arrepender-se), confiando que Cristo entrará em nossa vida, perdoará os nossos pecados e nos transformará na espécie de pessoa que Ele deseja que sejamos. Concordar meramente, em termos intelectuais, que Jesus Cristo é o Filho de Deus e que morreu na cruz pelos nossos pecados não é suficiente. Tampouco é suficiente ter uma experiência emocional. Aceitamos Jesus Cristo pela fé, mediante uma decisão consciente da vontade”.

Não apenas é uma exegese horrível de Apocalipse 3:20 (a qual é frequentemente usada por pregadores para se referir a pecadores, quando, na verdade, se refere à Igreja), mas Bright enfatiza que “nós” devemos receber Cristo, e “nós” devemos nos voltar para “convidar pessoalmente” Cristo para nossas vidas. Isso contradiz flagrantemente o ensino da Bíblia, onde o Espírito de Deus deve primeiro transformar o coração para tornar os homens espiritualmente renovados, de modo que possam vir a Ele como resultado da graça, não do poder pessoal (cf. João 3:1 – 3). O grande movimento ecumênico conhecido como “Promise Keepers”, pelo próprio nome, atribui aos homens caídos a capacidade de “cumprir promessas”. Oficialmente, eles dizem: — “Desde a descrença e desobediência de Adão e Eva, todos os humanos falharam em obedecer às duas principais leis de Deus resumidas pelo Senhor Jesus Cristo. Falhamos em amar a Deus com todo o nosso ser e falhamos em amar nosso próximo como a nós mesmos. As pessoas tornaram-se escravas do egoísmo e estão alienadas de Deus e umas das outras[69]. Onde está o pecado em tudo isso? Eles empregam termos como “descrença”, “desobediência”, “falharam em obedecer”, “escravos do egoísmo”, “alienados”, mas não “pecado”. Isso soa mais como jargões psicológicos para evitar ofender alguém, do que uma postura teológica sobre a doutrina do pecado. Verdadeiramente, o evangelicalismo não se parece em nada com o cristianismo de outrora. Em vez disso, ele tombou em veneração a Pelágio, e depois a Armínio.

Conclusão.

Inúmeras outras citações poderiam ser apresentadas para demonstrar a Teologia pelagiana e semipelagiana que permeia o evangelicalismo moderno globalmente. Seria desnecessário continuar listando nomes como Max Lucado, Chuck Swindoll, Charles Stanley, Benny Hinn, Kenneth Copeland, Louis Palau, ou qualquer figura da Trinity Broadcast Network, que, a cada domingo, disseminam doutrinas pelagianas e semipelagianas, poluindo as ondas de rádio com seus diversos graus de teologias horríveis. John Owen afirmou com razão que a Igreja de Jesus Cristo “não pode acolher em sua comunhão Agostinho e Pelágio, Calvino e Armínio[70]. Isso é simplesmente impossível. Não se pode conciliar a ortodoxia reformada com ensinamentos pelagianos ou semipelagianos. O pastor, ao pregar, faz uma escolha tácita: — ou ele se alinha com o Apóstolo Paulo ou com Pelágio. Pode não empregar os mesmos termos, mas seu conteúdo, sua intenção e seu efeito não raros se equiparam — e por vezes ultrapassam — os próprios erros de Pelágio e Armínio. Em vez de lutar contra essas ideias espúrias, os evangélicos hodiernos seguem, bovinamente, o rebanho ao momento da refeição — alimentam-se do que lhes é oferecido do púlpito sem qualquer esforço de Bereano exame ou vigilante discernimento. Preferem a embriaguez emocional do carisma a se debruçarem sobre as páginas da Escritura em labor exegético. E assim, precipitam-se de cabeça no abismo da doutrina pelagiana, a qual é, nas palavras do Apóstolo, “outro evangelho” — ou melhor dizendo, nenhum evangelho (cf. Gálatas 1:6 – 9). Universidades cristãs inteiras e escolas teológicas, outrora zelosas da verdade apostólica, renderam-se à sedução deste humanismo religioso disfarçado. John Owen, com clarividência profética, já advertia em seu tempo: — “Muitos em nossos dias condenarão tanto Pelágio quanto a doutrina que ele ensinava, nas palavras em que ele a expressava; e, no entanto, abraçarão e aprovarão as próprias coisas que ele pretendia afirmar[71]. Ora, se isto era verdadeiro há quatro séculos, é hoje ainda mais alarmante. Contudo, há uma diferença crucial. Hoje, os homens não negam Pelágio. Simplesmente não o conhecem. A ignorância teológica é tamanha que a maioria dos pastores sequer sabe o que é o pelagianismo ou o semipelagianismo. Acreditam e pregam essas doutrinas sem ter ciência do solo teológico em que pisam. Estão enredados em uma tradição, mas não a reconhecem como tal. Proclamam as teses de Pelágio e Armínio com fervor, mas com os olhos vendados e as Escrituras fechadas. A Igreja evangélica contemporânea, por conseguinte, está cativa. O “cativeiro babilônico” de outrora cedeu lugar ao “cativeiro pelagiano” dos últimos dias. E quem tiver ouvidos para ouvir, ouça. É impossível negar o grau avassalador em que a Igreja está sob o antigo cativeiro pelagiano.

“Nenhum homem, senão os pelagianos, arminianos e seus semelhantes, ensina que, se alguém empregar ao máximo suas habilidades naturais, e com sinceridade despertar-se para buscar a graça da conversão e a Cristo, sabedoria de Deus, certamente e sem falhar encontrará o que busca. [1] – Porque nenhum homem — nem mesmo o de natureza mais refinada e amável [doce] — pode mover a graça de Cristo, nem com o suor de sua moeda conquistar o reino da graça ou da glória, seja por mérito de condignidade ou de congruidade. Como está escrito: — ‘Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece’ (Romanos 9:16). ‘Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos’ (2 Timóteo 1:9). Veja ainda: — Efésios 2:1 – 5; Tito 3:3 – 5; Ezequiel 16:4 – 10. [2] – Porque não há a menor sombra de compromisso ou promessa de Deus que diga: — ‘Faze isto pela força da natureza, e a graça vos será concedida’ (Samuel Rutherford)[72].

Paz e graça.

[1] Por Dr. C. Matthew McMahon.

[2] Watson, Thomas, The Lord’s Prayer (Banner of Truth Trust, Carlisle: 1993), 279.

[3] Em termos gerais, o termo moderno “evangélicos” refere-se àqueles que adotaram uma postura mais inclusivista diante do liberalismo, e que, movidos por um espírito ecumênico, empenham-se em promover a unidade eclesiástica à custa da verdade. Como fruto de um amplo e indistinto eclesiocentrismo, suas formulações teológicas visam agradar às massas, sendo compostas, em grande parte, por sermões brandos, desprovidos de imperatividade quanto aos mandamentos de Deus e da veemência necessária contra o pecado.

[4] Anderson, Archer, John Calvin, A Prophet of God, Bibliotheca Sacra Volume 91 (October, 1934; 2002), 478.

[5] Schaff, Phillip, History Christian Church, vol. 3 (Eerdman’s Publishing Company, Grand Rapids: 1994), 597.

[6] Warfield, B.B. Introductory Essay On Augustine And The Pelagian Controversy, Nicene, Post Nicene Fathers, Volume 5 (Henrickson Publishers, Peabody: 1995), 10.

[7] Há três obras de Pelágio impressas entre os escritos de Jerônimo (edição de Vallarsius, vol. XI): — a saber, a Exposição sobre as Epístolas de Paulo, redigida antes de 410 d.C. (ainda que algo interpolada, especialmente em Romanos); a Epístola a Demétrio, de 413 d.C.; e a Confissão de Fé, de 417 d.C., endereçada a Inocêncio I. Fragmentos abundantes de outras obras (Sobre a Natureza, Em Defesa do Livre–Arbítrio, Capítulos, Cartas a Inocêncio) são citados nas refutações de Agostinho; bem como de certos escritos de Celéstio (por exemplo, suas Definições, Confissão a Zózimo), e dos escritos de Julião. Neste contexto também se incluem as “Collationes Patrum” de Cassiano e as obras dos demais escritores semipelagianos.

[8] Schaff, History, 598. Cumpre ao leitor atentar para o desdobramento da doutrina pelagiana por meio de seus discípulos, Fausto Socino e Lélio Socino, no século XVI.

[9] Warfield, Introductory Essay, 10.

[10] Schaff, History, 599.

[11] Ibid.

[12] Warfield, Introductory Essay, 19.

[13] Provavelmente, o “Concílio de Dióspolis” (também conhecido como Concílio de Lida ou Sínodo de Dióspolis). Foi um concílio cristão que ocorreu em 415 d.C. O principal objetivo do concílio era discutir a doutrina de Pelágio, herege que defendia que os seres humanos nascem sem pecado original e podem alcançar a graça divina por meio da sua própria vontade. O concílio decidiu pela absolvição de Pelágio das acusações de heresia — nota do tradutor.

[14]  Warfield, Introductory Essay, 21.

[15] Ibid.

[16] Warfield, Introductory Essay, 22.

[17] Warfield, Introductory Essay, 23.

[18] Enquanto a controvérsia pelagiana estava no auge, João Cassiano, de origem síria e educado na Igreja Oriental, após se mudar para Marselha, na França, com o objetivo de promover os interesses do monasticismo naquela região, começou a divulgar um sistema de doutrina que ocupava uma posição intermediária entre os sistemas de Agostinho e Pelágio. Esse sistema, cujos defensores foram chamados de massilianos, por causa dos ensinamentos de seu líder, e posteriormente de semipelagianos pelos escolásticos, é, em seus princípios essenciais, semelhante ao sistema conhecido como arminianismo. Fausto, bispo de Priez, na França, de 427 a 480 d.C., foi um dos mais destacados e bem-sucedidos defensores dessa doutrina, que foi permanentemente aceita pela Igreja Oriental e, por um tempo, amplamente disseminada também na Igreja Ocidental, até ser condenada pelos sínodos de Orange e Valença, em 529 d.C.

[19] Isso é atestado por Samuel Miller, Thomas Scott e por muitos escritores holandeses da época que trataram do assunto.

[20] Veja também as evidências históricas concernentes a Ário, Amyraut, os Socinianos e os Unitários.

[21] See Thomas Scott where he points out in his introductory essay to Dort’s articles this fact, The Articles of the Synod of Dordt (Sprinkle Publications, Harrisonburg: 1993), 2ff.

[22] Wylie, J.A. History of the Scottish Nation (Ages Software, Albany:1997), 328.

[23] Calvin, John, Institutes of the Christian Religion, 2:1:5

[24] Citado em Agostinho, “Sobre os Procedimentos de Pelágio”, cap. 5, em “A Select Library of the Nicene and Post–Nicene Fathers of the Christian Church”, Primeira Série, ed. Philip Schaff, 14 vols. (Grand Rapids: Eerdmans, 1979 – 1987 [1886 – 1889]), vol. 5, p. 185.

[25] Jaroslav Pelikan, The Christian Tradition, 1:313 – 314.

[26] Citado em Agostinho, “Tratado sobre a Graça de Cristo e sobre o Pecado Original”, cap. 5 “Relato do próprio Pelágio sobre as Faculdades, citado” (NPNF, 5:219).

[27] Pelikan, Jaroslav, The Christian Tradition, vol. 1 (University of Chicago Press; Chicago: 2003), 314 – 316.

[28] O Catecismo Racoviano é o texto publicado pela Irmandade polonesa que resume e ordena seus ensinos, geralmente conhecidas como socinianismo segundo o nome de seu pensador principal, o teólogo italiano Fausto Socino (1539 – 1604). Considera-se a primeira obra teológica sistêmica do antitrinitarismo — nota do tradutor.

[29] Hodge, A.A. Outlines of Theology, Index created by Christian Classics Foundation. (electronic ed. based on the 1972 Banner of Truth Trust reproduction of the 1879 ed. Christian Classics Foundation, Simpsonville: 1997), 97 – 103.

[30] Wiggers, G.F. Historical Presentation of Augustinianism and Pelagianism, Translated by Rev. Ralph Emerson (np, nc: nd), 268 – 270.

[31] João Cassiano (c. 360 – 435 d.C.) ou “Cassiano de Marselha” foi um semipelagiano do século V, mas não era uma figura popular e não conseguiu reunir muitos seguidores. Outro, chamado Jérôme–Hermès Bolsec, viveu em Genebra por volta de 1552 e propagou o semipelagianismo. Ele ensinava as mesmas doutrinas, mas não foi ouvido devido ao seu estilo de vida imoral. Um terceiro homem, chamado Corvinus, tentou agitar a Holanda em 1560 com as mesmas ideias, mas isso nunca se concretizou plenamente até Armínio.

[32] Arminius, James, The Works of James Arminius, vol. 3 (Baker Book House, Grand Rapids: 1991), Translated by Nichols, 190.

[33] Convém observar que “agostinianismo” e “calvinismo” são sinônimos.

[34] Articles of the Synod of Dordt, Head of Doctrine 3/4:2.

[35] Turretin, Francis, Institutes of Elenctic Theology (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1992), 1:638.

[36] Turretin, Institutes, 1:637.

[37] Ames, William, The Marrow of Theology (Grand Rapids, Baker Book House: 1983), 120.

[38] Perkins, William, The Foundations of The Christian Religion, A Golden Chain Concerning Salvation and Damnation (John Legate, Cambridge: 1608), Chapter 12.

[39] Ibid.

[40] Ames, 119.

[41] Ibid.

[42] Articles of the Synod of Dordt, Head of Doctrine 3/4:3.

[43] Love, Christopher, unpublished sermon, Man’s Miserable Estate — www.apuritansmind.com/ChristopherLove.htm

[44] The Canons Of The Council Of Orange, 529 AD.

[45] Owen, John, The Works of John Owen, vol. 3 (Banner of Truth Trust, Carlisle: 1994), 356.

[46] Brunner, Emil, The Christian Doctrine of Creation and Redemption, Dogmatics vol. 2, trans. Olive Wyon (Philadelphia: Westminster Press: 1952), 104.

[47] Smith, David L., A Handbook of Contemporary Theology (Baker Book House, Grand Rapids: 1992), 111.

[48] Ibid., 163.

[49] Gutierrez, Gustavo, A Theology of Liberation, rev. ed. (Mary–knoll, New York, Orbis Books: 1988), 25.

[50] Soelle, Dorothy, Choosing Life (SMC Press, London: 1981), 39 – 40.

[51] cf. Sun Sentinel weekly column on Religious Issues.

[52] Smith, Chuck, Calvinism, Arminianism & The Word Of God, A Calvary Chapel Perspective (Calvary Press, online em — www.calvarychapel.com/library/smith-chuck/books/caatwog.htm Esta citação é característica dos flagrantes ensinamentos pelagianos e semipelagianos do movimento Calvary, que combinam um pelagianismo modificado e um carisma do movimento Vineyard em seu sistema teológico como um todo.

[53] Wesley, John, Notas explicativas de Wesley sobre o Novo Testamento (Schmul Publishers, Salem: 1976), p. 219.

[54] Sunday Evening Service, Calvary Chapter, Ft. Lauderdale, June 24, 2001.

[55] May 31, 1998 television interview with Robert Schuller, as reported in the May–June 1997, Foundation magazine.

[56] September 1, 1993, Columbus Dispatch.

[57] Mitchell, Curtis, Those Who Came Forward (The World’s Work Ltd., 1966), 32. Emphasis mine.

[58] Para uma refutação digna da Teologia Semipelagiana de Hunt e Geisler, veja-se as obras de James White, The Potter’s Freedom e Debating Calvinism.

[59] Finney disse: — “A depravação moral é o próprio pecado, e não a causa do pecado”, Finney, Charles, Finney’s Systematic Theology (Minneapolis: Bethany, 1976), p. 172. Os homens nascem então justos e só se tornam pecadores à medida que pecam. Schuller segue Finney, que segue Pelágio.

[60] Schuller, Robert, Self–Esteem: The New Reformation (Waco: Word Books, 1982), 14.

[61] Ibid., 74 – 75.

[62] Schuller, Robert, Christianity Today, A Letter to the Editor, October 5, 1984.

[63] Smith, Handbook, 189.

[64] Stafford, Tim, A Regular Purpose–Driven Guy: Rick Warren’s Genius is in Helping Pastors See the Obvious (Christianity Today, November 8, 2002).

[65] Warren, Rick, The Purpose Driven Church (Zondervan, Grand Rapids: 1995), 219.

[66] Warren, Rick, The Purpose Driven Life (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2002), 58.  Emphasis his.

[67] Jakes, T.D., PFO Quartely Journal, The Harvest, 46 – 47.

[68] Entrevista com o Dr. G.A. Pritchard — http://www.reformed-churches.org.nz/resources/fnf/a47.htm

[69] http://www.promisekeepers.org/faqs/core/faqscore22.htm

[70] Owen, Works, vol. 10, 22.

[71] Owen, Works, vol. 5, 370.

[72] O texto a seguir, na íntegra, pode ser encontrado em A Puritan’s Mind — https://www.apuritansmind.com/puritan-favorites/samuel-rutherford/preparations-before-conversion/

[73] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.