SOLA SCRIPTURA — ASPECTOS

SOLA SCRIPTURA — ASPECTOS

1 – A autoridade da Escritura.

O princípio regulador da Escritura alicerça-se no fato de que a Bíblia é única. Somente a Bíblia é a palavra de Deus. A Confissão de Westminster declara que: ― “a autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou Igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu Autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a Palavra de Deus” (I.IV). A Escritura é inspirada por Deus. É, portanto, a verdade, e tem a autoridade do próprio Deus. Somente ela, entre todos os livros, possui absoluta autoridade. Só há um Deus — a Trindade ontológica que é transcendente, que criou todas as coisas e que dá sentido à realidade. Do mesmo modo, só existe hoje uma única direção verbal ou fonte escrita da revelação divina. Só existe um único livro que nos declara a mente e a vontade de Deus. Por ser inspirada pelo próprio Deus, a Escritura é auto–autenticada e absoluta. A sua autoridade não depende da Igreja, nem de provas empíricas ou de filosofia humana. À Igreja, e a todos os homens, exige-se que a ela se submetam sem quaisquer reservas ou evasivas, pois ela é a própria voz do Onipotente. Por ser a palavra de Deus, a Escritura é a autoridade final e definitiva para todos os assuntos de fé e de vida. A Bíblia é o único padrão absoluto e objetivo, pelo qual a ética, a doutrina, o governo da Igreja e a adoração devem ser julgados. A Confissão de Westminster afirma que: ― “o Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura” (I.X). Homens pecadores e falíveis podem e recebem autoridade delegada por Deus, mas somente Deus, que é o Soberano absoluto e Criador de todas as coisas, tem o direito à sujeição da fé e da obediência dos homens.

2 – A suficiência e perfeição da Escritura.

A compreensão da suficiência, perfeição ou completude da Escritura (que é um dos principais aspectos do entendimento reformado de Sola Scriptura) nos conduzirá a um entendimento mais profundo da conexão inseparável que existe entre o Princípio Regulador da Escritura e o Princípio Regulador do Culto (PRC). Por perfeição da Escritura queremos dizer que a Bíblia é completamente suficiente para aquilo que foi por Deus designada. “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Timóteo 3:16, 17). Robert Shaw escreveu: ― “A Escritura é apresentada como perfeita, apropriada para atender a toda necessidade, Salmos 19:8, 9; é suficiente para que o homem de Deus seja perfeito, e pode tornar o crente sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2 Timóteo 3:15 – 17). Tão completa é a Escritura que o seu Autor proíbe peremptoriamente (absolutamente) que a ela se acrescente ou se diminua qualquer coisa (Deuteronômio 4:2; Apocalipse 22:18, 19). A. A. Hodge escreveu: ― “a Escritura ensina de fato um perfeito sistema de doutrina e todos os princípios necessários à regulamentação prática das vidas dos indivíduos, das comunidades, e das Igrejas. Quanto mais diligentes forem os homens no estudo da Bíblia, e mais frequentemente puserem em pratica as suas instruções, tanto menos lhes será possível crerem que, qualquer item da regra perfeita, é incompleta quanto àquilo que o homem deve crer a respeito de Deus, e dos deveres todos que Deus requer do homem”. Quando discutimos a Escritura como a revelação inspirada e final de Deus, que é suficiente e completa para a salvação, servir a Deus, fé e prática, não queremos dizer que não existam verdades que possam ser apreendidas fora dela. Dissemos anteriormente que certas coisas sobre Deus e sobre nós mesmos são entendidas através da revelação natural. Além disso, a Bíblia não é necessária para a prática da lógica elementar, da matemática simples e de observações básicas e superficiais. As conquistas de cientistas, engenheiros, artistas, arquitetos, médicos e de outros incrédulos no mundo são a prova disso. Entretanto, até mesmo nestas áreas da vida chamadas de seculares, os não–crentes, para fazerem alguma coisa, têm de conduzir os seus assuntos em conformidade com as pressuposições bíblicas. Noutras palavras, a Bíblia não apenas nos ensina sobre Deus, sobre nós mesmos, redenção e ética, ela é também o fundamento de todo o entendimento. Sem a revelação divina o homem não pode realmente entender nem dar a explicação de nada. Van Til escreveu: ― “Assim, pois, a Bíblia, como a inspirada e infalível revelação de Deus ao homem pecaminoso, está diante de nós como a luz em torno da qual todos os fatos do universo criado precisam ser interpretados. Tudo relativo a existência finita, natural e redentiva, funciona conforme um plano todo–inclusivo que está na mente de Deus. Nesse âmbito da atividade de Deus, seja qual for a percepção que o homem venha a alcançar, ele só a obterá observando todos os seus objetos de pesquisa à luz da Escritura. Para irradiarmos a verdadeira religião precisaremos ter como nosso princípio que é necessário começar com o ensinamento celestial e que é impossível ao homem obter a mínima porção que seja da justa e sã doutrina sem ser um discípulo da Escritura”. Além disso não existe no universo uma área de neutralidade ética. Até mesmo nas áreas que a Bíblia não trata diretamente, tal como engenharia estrutural e construção de foguetes, ela fala indiretamente. Tudo o que há na vida deve ser vivido para a glória de Deus, até mesmo as mais terrenas atividades devem ser conduzidas de acordo com os princípios gerais da Palavra de Deus. Por perfeição e suficiência da Escritura as confissões reformadas querem dizer que, para o homem, a Bíblia é um guia tão completo e perfeito quanto a tudo o que Deus requer que creiamos (salvação, doutrina, estatutos, etc.) e façamos (ética, santificação, ordenanças do culto, governo da Igreja, etc.) que ela não precisa de nenhuma complementação da parte do homem. As confissões reformadas enfatizam que a Bíblia não é uma regra entre tantas nem a melhor ou principal delas. Ela é a única regra de fé e de prática. A Primeira Confissão Helvética diz: ― “A Escritura Canônica […] contém perfeitamente toda a piedade e boa ordenação da vida” (Artigo 1). A Confissão Belga afirma: ― “Cremos que as Sagradas Escrituras contêm totalmente à vontade Deus […] todo modo de adoração que Deus requer de nós está nela amplamente escrito […]” (Artigo 7). A Segunda Confissão Helvética declara: ― “E nesta Santa Escritura, a Igreja universal de Cristo tem todas as coisas referentes à fé salvadora plenamente expostas, e também os moldes de uma vida aceitável a Deus […]” (1:2). O Breve Catecismo de Westminster afirma: ― “A palavra de Deus, que se acha nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos, é a única regra para nos dirigir na maneira de o glorificar e gozar” (Resposta da Pergunta 2). O Catecismo Maior ensina: ― “As Escrituras Sagradas – o Antigo e o Novo Testamento – são a palavra de Deus, a única regra de fé e de obediência” (Resposta da Pergunta 3). A Confissão de Fé de Westminster diz: ― “Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dEle e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela […]” (I.VI, ênfase acrescentada). Falando positivamente, a Bíblia é a única regra de fé e obediência. Falando negativamente, é expressamente proibido aos homens, em qualquer hipótese, acrescentarem as suas próprias idéias, doutrinas e/ou preceitos à Escritura. A Confissão Francesa diz: ― “E vendo que é a suma de toda a verdade, contendo tudo aquilo que se requer para a adoração a Deus e nossa salvação, afirmamos que não é lícito ao homem, não, nem mesmo aos anjos, acrescentar ou subtrair qualquer coisa a ou desta palavra, ou alterar nela o mínimo que seja” (Artigo 5). A Confissão Belga afirma: ― “é ilícito a quem quer que seja, mesmo um apóstolo, ensinar outra coisa além do que agora somos ensinados nas Sagradas Escrituras: — nem um anjo vindo do céu, como disse o apóstolo Paulo. Pois desde que é proibido acrescentar ou subtrair qualquer coisa da Palavra de Deus, fica, portanto, assim evidente que a sua doutrina é a mais perfeita e completa em todos os aspectos. Nem consideramos de valor equivalente às divinas Escrituras qualquer escritura de homens, por mais santos que tenha sido; nem devemos considerar costume, ou grande multidão, ou antiguidade, ou sucessão de eras e pessoas, ou concílios, decretos, ou estatutos, como de igual valor à verdade de Deus, pois a verdade está acima de tudo; porque todos os homens são, em si mesmos, mentirosos e mais vãos que a própria vaidade. Portanto rejeitamos de todo coração tudo que discordar dessa infalível regra que nos foi ensinada pelos apóstolos […]” (Artigo 7). A Segunda Confissão Helvética assevera: ― “e quanto a isso é expressamente ordenado por Deus que nada seja acrescentado ou retirado dela – isto é, das Sagradas Escrituras (Deuteronômio 4:2, Apocalipse 22:18, 19)”. A Confissão de Fé de Westminster diz: ― “À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens” (I.VI). O fato de a Bíblia ser suficiente, perfeita e completa torna em anti–bíblica e tola todas as tentativas de complementar seus ensinamentos, quanto a fé e à ética, com idéias e regras da mente do homem. Contra os entusiastas do espiritualismo, os carismáticos, os adivinhos e todos os falsos profetas, a Confissão de Fé de Westminster declara que: ― “à Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito”. Contra os papistas e todos os que intrometem tradições humanas nos preceitos, nas ordenanças, no culto ou governo da Igreja, as confissões reformadas condenam o acréscimo ― “por tradições dos homens à Palavra de Deus”. A doutrina da perfeição e suficiência das Escrituras protege os crentes da tirania das exigências humanas. A ninguém (seja bispo, pai da Igreja, sínodo ou concílio) é permitido subjugar a consciência dos homens com qualquer doutrina ou exigência. Tudo deve estar embasado na Escritura, seja por um mandamento direto, ou por boa e necessária inferência. Por isso a Confissão de Fé de Westminster declara que: ― “só Deus é Senhor da consciência, e a deixou livre das doutrinas e mandamentos humanos que, em qualquer coisa, sejam contrários à sua Palavra, ou que, em matéria de fé ou de culto, estejam fora dela. Assim, crer em tais doutrinas ou obedecer a tais mandamentos, por motivo de consciência, é trair a verdadeira liberdade de consciência […]” (XX.II). Quanto às boas obras, a Confissão diz: ― “As boas obras são somente aquelas que Deus ordena em sua santa Palavra, não as que, sem a autoridade dela, são aconselhadas pelos homens movidos de um zelo cego, ou sob qualquer outro pretexto de boa intenção” (XVI.I). Quanto ao culto, diz a Confissão: — “mas, o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo, e é tão limitado pela sua vontade revelada, que Ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens, ou sugestões de Satanás, nem sob qualquer representação visível, ou de qualquer outro modo não prescrito nas Escrituras” (XXI.I).

3 – A completude e finalidade da Escritura.

Quando as confissões reformadas afirmam a perfeição e suficiência da Escritura, e a Confissão de Westminster fala contra as novas revelações do Espírito, elas estão ensinando a completude e fechamento da Escritura. Por Escritura queremos dizer o cânon completo (os 66 livros do Antigo e do Novo Testamentos), a palavra de Deus escrita. No ponto atual da história da salvação (após a obra redentiva de Cristo ter sido concluída, após a pessoa e obra de Cristo ter sido explicada pelos profetas e apóstolos do Novo Testamento e o governo, culto e doutrina da Igreja da Nova Aliança terem sido completamente definidos pelo Espírito Santo na Escritura) o processo revelacional cessou. A Escritura não poderia estar completa senão após Jesus ter concluído a sua obra na Terra. Tudo na Escritura está, de algum modo, relacionado à pessoa e obra de Jesus Cristo. Ele é descrito como o ápice e a conclusão de Deus falando ao homem (Hebreus 1:1, 2). Nosso Senhor disse aos seus discípulos que lhes seria conveniente que Ele fosse, porque após a sua ascensão Ele enviaria o Espírito Santo para guiá-los a toda verdade (João 16:7, 13 – 15). Inspirados pelo Espírito Santo, os apóstolos e profetas do Novo Testamento deram-nos o fundamento (o cânon do Novo Testamento) sobre o qual construir as Igrejas da Nova Aliança (Efésios 2:20, 21). É fato histórico que a revelação divina cessou com a morte do último apóstolo. Ao longo da história, aqueles que afirmaram ter revelações diretas de Deus (por exemplo, os Montanistas, os profetas de Zwickau, os Irvingitas, os modernos carismáticos, etc.) foram sempre falsos profetas. Cristo e os apóstolos predisseram o surgimento dos falsos profetas e advertiram-nos para não seguirmos às suas revelações mentirosas (cf. Mateus 7:15 – 23; 24:11; 2 Pedro 1 e seguintes; 2 Tessalonicenses 2:9 – 11; etc.). O fato de que a revelação cessou e de que a Escritura foi criada por Deus como totalmente suficiente às nossas necessidades (2 Timóteo 3:16, 17) significa que se quisermos conhecer a mente e a vontade de Deus, a nossa única fonte de conhecimento será a Bíblia. John Murray escreveu: — “Para nós a Escritura tem um lugar e uma função exclusivos como o único modo de revelação que permanece existindo. Os que estão particularmente envolvidos nessa discussão tem por certo que a Escritura não continua a ser escrita, que ela é um cânon fechado. Admitindo-se isto, precisamos então considerar aquilo que os nossos oponentes não estão dispostos a admitir, isto é, que este é o conceito de Escritura ensinado e pré–suposto por nosso Senhor e seus apóstolos, e insistir que é essa concepção que deve ser aplicada ao cânon da Escritura como um todo. Como não temos mais profetas, nem o nosso Senhor está presente conosco como com os discípulos, nem temos meios de revelação como nos dias apostólicos, a Escritura em sua totalidade é, segundo o conceito de nosso Senhor e seus apóstolos, a única revelação da mente e da vontade de Deus a nós disponível. É isso que significa o encerramento da Escritura para nós; ela é a única Palavra revelacional de Deus que ainda vigora”.

Paz e graça.

[1] Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, 1ª Edição — Março de 2001, Traduzido do original em inglês: Sola Scriptura and the Regulative Principle of Worship de Brian M. Schwertley, Editora Os Puritanos, p. 12 – 16.

[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.

SOLA SCRIPTURA — ASPECTOS

CHARLES HADDON SPURGEON

O pregador do povo.

As Escrituras contêm a mensagem gloriosa de Redenção e Salvação, uma mensagem da qual o mundo precisa desesperadamente ouvir. Por volta de meados do século XIX, a difícil vitória da Reforma estava sendo celebrada na Inglaterra, em todo lugar havia um grande interesse em ouvir a palavra de Deus, no enorme Tabernáculo Metropolitano de Londres, Charles Haddon Spurgeon pregou sermões inflamados a multidões abundantes que somavam mais de 6 mil por vez.

Charles Spurgeon foi certamente um dos maiores proclamadores do Evangelho do mundo, ele foi uma revolução na cidade de Londres e foi chamado de o “Príncipe dos Pregadores”, Spurgeon desenvolveu um segmento internacional com seus sermões dominicais impressos na íntegra na segunda–feira seguinte em jornais americanos.

Proclamação – Pregando a uma nação sedenta.

Dr. Bill Jones diz, “na sua essência a proclamação significa simplesmente comunicação”, em nosso contexto, a palavra de Deus, a mensagem do Evangelho, as boas novas a maior quantidade de pessoas. Mesmo hoje no mundo tão científico onde há tantas maneiras de se comunicar, o método mais eficaz sempre se volta para um homem de Deus proclamando a Palavra de Deus ao povo de Deus, ou pessoas que precisam conhecer a Deus. Sabemos que ninguém foi mais dedicado de que Charles Haddon Spurgeon que viveu no século XIX, ele foi um homem levantado por Deus de maneira especial para proclamar a sua palavra para as pessoas de seu tempo, de maneira  que  literalmente  não  levasse  a  milhares o conhecimento da salvação por Cristo, mas literalmente levou milhares de pessoas ao melhor entendimento da palavra de Deus. Ele era um homem totalmente comprometido com autoridade da palavra de Deus.

Dr. Dan Hayden diz, “Charles foi salvo ainda muito jovem e ele tinha 15 anos, e quando foi salvo houve um impacto tão dramático em sua alma que ele começou a pregar aos 16 anos de idade, como que uma espécie de substituto aqui e ali, aos 19 anos ele já era um pregador completo”.

Dr. Herbert Samworth diz, “Provavelmente a maior influência de Charles Haddon Spurgeon foi o seu avô, durante uma época Spurgeon viveu com os seus avós, seu avô também era pregador, e tinha uma extensa coleção de literatura Puritana, Spurgeon relatou que passava horas sentado lendo os autores puritanos, então foi aí, que ele aprendeu Teologia”.

Sua metodologia era simples, proclamar a palavra, agora ele passava muito tempo pensando nisso, organizando os textos, ilustrando-os de maneira que as pessoas pudessem entender, usando linguagem metafórica e figuras coloridas, e essa era a sua metodologia, apenas sermões que reforçavam o texto. Spurgeon não teve absolutamente nenhuma educação formal sobre a Bíblia, mas era um leitor voraz, quando falamos de leitura dinâmica, ele era um leitor dinâmico por excelência, dizem que ele podia lê um livro de 500 páginas em uma hora ou menos, e lembrar do que tinha lido.

Ele tinha uma enorme biblioteca e em todos os cantos havia uma mesa de leitura ou se preferir uma prateleira sobre a qual os livros podiam ser colocados, quando ele ia falar ou pregar sobre um texto específico da Escritura, ele mandava o seu secretário ir aquela biblioteca pegar todos os livros que pudessem ter algum comentário sobre aquela passagem da Escritura em particular, e deixar todos abertos naquela prateleira ao redor da sala, então, ele lia tudo que pudesse saturando a sua mente. O ministério da pregação do Evangelho mudou ao longo dos anos em termos do que as pessoas estão realmente interessadas em ouvir, na época de Spurgeon, Londres estava preparada para ouvir o Evangelho explicado, como um expositor Spurgeon era muito apreciado.

O conceito pós–moderno é mais: — “entretenha-me, dê- me algo que possa estimular minha imaginação”, então, estamos mais envolvidos em drama, as mensagens tendem a ser devocionais, tendem a ser mais um espetáculo do que a exposição de um texto, e isso de certa forma prende a atenção da geração moderna, mas não é necessariamente tão eficiente, porque as pessoas não entendem realmente a palavra e não aprendem o que a Bíblia diz, então, em minha opinião Charles Haddon Spurgeon em sua metodologia eram exatamente o que os pregadores deveriam fazer, “pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora do tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina, pois virá o tempo em que não suportarão a Sã Doutrina” (2 Timóteo 4:2, 3a) esse tempo chegou; Charles Spurgeon era um pregador doutrinário, o que não é muito tolerado nos dias de hoje, diz Dr. Dan Hayden.

Mais tarde a Igreja dele construiu um anexo ou na verdade uma nova Igreja que chamaram de Tabernáculo Metropolitano, e Spurgeon pregava ali toda a semana para uma média de cinco ou seis mil pessoas pela manhã e à tarde, como era tão popular as pessoas queriam cópias dos sermões, então, provavelmente o seu grande ministério, o ministério mais popular, eram os seus sermões, não apenas pregando e as pessoas ouvindo, mas as pessoas lendo, e aliás, alguns desses sermões foram transmitidos via cabo transatlântico para jornais nos Estados Unidos, para que as pessoas pudessem ler no dia seguinte o que Spurgeon havia pregado no Domingo.

Muitas pessoas conheceram a pregação de Spurgeon através da página impressa, nunca ouviram falar, então essa era outra maneira de sua mensagem atingir as pessoas de forma mais ampla. Spurgeon também tinha interesse em outras aplicações do Evangelho, além da pregação, por exemplo, ele tinha muito interesse na condição de muitas crianças pequenas que tinha perdido os pais, ele iniciou um orfanato, e a forma como ele iniciou o orfanato é na verdade a chave para entender Charles Haddon Spurgeon, eles tinham uma reunião de oração no Tabernáculo Metropolitano, e Charles disse na ocasião de uma das reuniões: — “O que nós queremos é orar para que Deus nos dê um ministério adicional, e os fundos para realizá- lo”, então, eles fizeram a reunião de oração em uma segunda à noite e no sábado Spurgeon recebeu uma carta de uma senhora, ele não a conhecia, na verdade nunca tinha ouvido falar dela, ela era viúva e na carta ela dizia: — “O Senhor colocou no meu coração que eu deveria lhe dar a quantia de 20.000 libras para abrir um orfanato”, então, Spurgeon e seus assistentes foram ver essa senhora, eles foram até a casa dela e começaram a conversar, e Spurgeon disse a ela: — “Eu vim por causa da carta que enviou na qual nos ofereceu uma doação de 200 libras”, e a senhora disse: — “200 libras? Deve ter havido algum engano, eu quis dizer 20.000 libras”. Spurgeon replicou: — “Foi isso que eu li, mas eu não tinha certeza se realmente quis dizer isso (20 mil libras) ou não, então, fico feliz que podemos chegar a um acordo”, então, com as 20.000 libras, eles começaram o orfanato, e mais tarde Spurgeon disse: — “Nossos trabalhos começam com a oração, mas são sustentados pelo povo de Deus”.

Charles Spurgeon teve um ministério incrivelmente popular, ele também reconheceu que não podia fazê-lo sozinho. Então, o Senhor colocou em seu coração treinar outros, a próxima geração de proclamadores da Palavra.

Mesmo aos 21 anos de idade, Spurgeon começou a ensinar um jovem chamado Thomas W. Medhurst (1856) sobre como se tornar um pastor, e ele forneceu o dinheiro do seu próprio bolso, as pessoas ficaram sabendo que ele estava fazendo isso, então começaram a contribuir, e quando as pessoas estavam interessadas em aprender, a serem treinadas, elas procuravam Spurgeon, então a partir daí, nasceu o que é chamado de Escola de Pastores, era uma faculdade de 2 anos para pessoas que desejavam se tornar pregadoras, Spurgeon estava muito interessado a ensinar de maneira diferente da maioria das outras faculdades; se você fosse a uma faculdade, digamos como as da época, você estudaria a Bíblia, mas aprenderia também muito sobre as teorias críticas, questões e disputas sobre a palavra de Deus, Spurgeon disse: — “Nós não temos tempo para isso, nós queremos instruir nossos estudantes sobre como pregar a palavra de Deus, e queremos que eles preguem dogmaticamente”, e o que ele quis dizer com isso? Quis dizer, com convicção, pregar a palavra de Deus de modo que as pessoas saibam que acreditamos nisso e assim, vão ouvir e entender, e dizem que durante a vida de Spurgeon, cerca de 850 alunos foram treinados por ele.

Ministério Completo.

O livro Ministério Completo lida com assuntos ou tópicos, sobre os quais Spurgeon pregava no que ele chamava de Conferência de Pastores, essa conferência começou em aproximadamente 1865, e era aberto aos alunos da Escola de Pastores e a todos os seus ex–alunos, e pelos 27 anos seguintes de sua vida esses alunos se reuniam e Spurgeon pregava a mensagem final, eles pegaram 12 mensagens da Conferência de Pastores e as publicaram em um livro chamado o Ministério Completo.

Dr. Herbert Samworth diz, “o título me deixou intrigado, porque completo? E, talvez a idéia tenha vindo de uma esporte comum ou talvez até Cricket (Críquete) que fala sobre uma pessoa que é completa em muitas áreas, era isso que Spurgeon queria, ele queria que os homens não fossem apenas pregadores, mas pregadores completos, então, ele falava sobre assuntos e tópicos variados que eles enfrentariam, ele não buscava apenas criar um vínculo entre alunos antigos e atuais da Escola de Pastores, ele buscava fazer isso ele mesmo esperando que isso crescesse e continuasse a se espalhar por toda a Inglaterra, e este livro Ministério Completo mostra como ele pretendia fazer isso”.

Basicamente o livro contém as mensagens que Spurgeon pregava, existe um trecho do livro chamado “A força na fraqueza”, que nos diz algo. Quando nós pensamos em Charles Spurgeon, pensamos em um pregador maravilhoso, e ele era, houve uma ocasião que ele pregou para mais ou menos 22 a 24 mil pessoas, e ele pregou no Palácio de Cristal (The Crystal Palace) e fez isso sem microfone, ele tinha uma voz maravilhosa, mas o que não é muito conhecido sobre Spurgeon é que ele sofria de muitas doenças físicas e entre elas estava a gota, a gota certamente fez com que ele sofresse de depressão, então, ele é um homem pregando para mais de 6 mil pessoas todo Domingo, que às vezes pregava para até 15 a 20 mil pessoas sofrendo de depressão, e você pergunta como isso é possível? Bom, os caminhos do Senhor não são os nossos caminhos, mesmo um homem com a sua garra, poderia sofrer disso, e ele sabia que alguns de seus alunos e alguns ex–alunos de sua escola passavam por coisas semelhantes, então, ele passava mensagens do fundo do coração e acreditava poder ajudá-los e encorajá-los. Houve um tempo em que Spurgeon estava tão desencorajado que ele não podia nem pregar, diz a História, Spurgeon estava um dia em uma crise de depressão, então ele disse: — “Eu não posso pregar”, aí ele deixa o Tabernáculo Metropolitano (não se sabe quem pregou neste dia, mas não foi Spurgeon), ele foi em uma Igreja Metodista e se sentou na Igreja desconhecido num pequeno grupo de pessoas; o pastor metodista se levantou e começou a pregar, sabe o que ele pregou? Ele pregou um dos sermões de Spurgeon, ele havia lido, e lá estava Charles Spurgeon ouvindo a sua própria mensagem (era uma mensagem de encorajamento), enquanto, ele estava sentado e ouvindo, ele se animou, então, depois do sermão, ele foi até o pastor, que o reconheceu, e ele (o pastor metodista) ficou embaraçado na hora, e disse: — “Ó senhor Spurgeon, eu sinto muito, eu não tive tempo para me preparar para essa semana, e eu sei que o senhor é um pregador maravilhoso, me perdoe por ler o seu sermão”, Spurgeon o respondeu: — “Tudo bem, tudo bem, você não sabe como esse sermão me ajudou, louvado seja Deus, muito obrigado e saiu”.

Charles Haddon Spurgeon era realmente um mensageiro dotado por Deus, sua proclamação do Evangelho alcançou milhões que nunca ouviram a sua voz, seus sermões e outros trabalhos preencheram mais de 60 volumes, que foram traduzidos para diversas línguas estrangeiras para distribuição ao redor do mundo.

Paz e graça.

[1] Trecho do documentário, Charles Haddon Spurgeon, “O Pregador do Povo”.

[2] Transcrição e revisão por Pr. Me. Plínio Sousa.

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ORAÇÃO DE JONAS

O profeta no ventre do peixe.

Jonas 2:1 – 9.

Deus e o seu servo Jonas haviam se separado em ira, e a discussão começou por parte de Jonas; ele fugiu de sua terra para que pudesse deixar a sua tarefa para trás; mas esperamos vê-los juntos outra vez, e a reconciliação começa por parte de Deus.

1 – No encerramento do capítulo anterior encontramos Deus voltando para Jonas por meio da misericórdia, livrando-o de descer para o abismo, tendo achado um resgate; neste capítulo encontramos Jonas voltando para Deus por meio do dever; ele foi chamado no capítulo anterior para orar ao seu Deus, mas não somos informados se fez isto; contudo, agora, por fim, ele é levado a orar. Agora observe aqui: — [1] – Quando ele orou (v. 1): — Então Jonas orou; quando ele estava em aflição, sob o sentimento de pecado e dos sinais do desprazer de Deus contra ele por causa do pecado, então ele orou. Note que quando estamos em aflição devemos orar; nesse momento temos a oportunidade de orar, temos incumbências no trono da graça e negócios ali; nesse momento, se ocorrer, teremos uma disposição para orar, quando o coração está humilhado, e amolecido, e tornado sério; nesse momento Deus espera a oração (em sua aflição, eles logo me buscarão, me buscarão ansiosamente); e, embora tragamos as nossas aflições sobre nós mesmos por causa dos nossos pecados, se orarmos em humildade e sinceridade piedosa, seremos bem vindos ao trona da graça, como foi Jonas. Então quando ele estava esperançoso por causa do livramento, tendo sido preservado vivo por milagre, uma clara indicação de que ele estava reservado para outra misericórdia, então orou. Uma percepção da boa-vontade de Deus para conosco, apesar das nossas ofensas, nos dá ousadia de acesso a Ele, e abre os lábios em oração, sim, os quais estavam fechados com o sentimento de culpa e medo da ira.

2 – Onde ele orou – no ventre do peixe. Nenhum lugar é errado para a oração. Quero que os homens orem em todo lugar. Onde quer que Deus nos lançar podemos achar um caminho aberto na direção do céu, se não for a nossa própria culpa. “Undique ad caelos tantundem est viae – Os céus são igualmente acessíveis de qualquer parte da terra”. Aquele que tem a Cristo habitando em seu coração pela fé, onde quer que vá carrega o altar juntamente consigo; é este altar que santifica a oferta; assim, ele mesmo é um templo vivo. Jonas estava aqui em confinamento; o ventre do peixe era a sua prisão, era um calabouço apertado e escuro para ele; no entanto, ali ele tinha liberdade de acesso a Deus, e andou na liberdade da comunhão com Ele. Os homens podem nos separar da comunhão uns com os outros, mas não da comunhão com Deus. Jonas estava agora no fundo do mar, mas das profundezas ele clama a Deus; era uma situação semelhante à que Paulo e Silas enfrentaram mais tarde: — eles oraram na prisão, presos aos troncos.

3 – A quem ele orou – ao Senhor seu Deus. Ele tinha fugido de Deus, mas agora vê a loucura de sua atitude, e retorna para Ele; pela oração ele se aproxima do Deus de quem havia se afastado, e empenha o seu coração para se aproximar dEle. Em oração Jonas olha para Ele, não só como o Senhor, mas como o seu Deus, o Deus que tem uma aliança com ele; pois, graças a Deus, nem toda transgressão na aliança nos lança para fora da aliança. Isto incentiva até mesmo os filhos rebeldes a voltar (Jeremias 3:22): — Eis-nos aqui, vimos a ti; porque tu és o Senhor, o nosso Deus.

4 – Qual foi a sua oração. Ele depois disso recordou a essência dela, e a deixou registrada. Ele reflete sobre as ações do seu coração para com Deus quando ele estava em sua aflição e perigo, e o conflito que estava então em seu peito entre a fé e a razão, entre a esperança e o medo. [1] – Ele reflete sobre a sinceridade da sua oração, e a prontidão de Deus para ouvir e responder (v. 2): — E disse: — Na minha angústia, clamei ao Senhor. Note que muitos que não oraram de maneira alguma, ou que apenas sussurraram a oração quando estavam em prosperidade, são levados a orar, ou melhor, são levados a clamar, em virtude da sua angústia; e é para este fim que as aflições são enviadas, e elas são em vão se este fim não for atendido. Os hipócritas de coração amontoam a ira para si; e amarrando-os ele, não clamam por socorro – Jó 36:13. “Do ventre do inferno e da sepultura gritei”. O peixe bem pode ser chamado de sepultura, e, como era uma prisão à qual Jonas estava condenado pela sua desobediência e na qual ele estava debaixo da ira de Deus, ele bem poderia ser chamado de ventre do inferno. Ali este bom homem foi lançado, e dali ele clamou a Deus, e não foi em vão; Deus o ouviu, ouviu a voz da sua aflição, a voz da sua súplica. Há um inferno no outro mundo, do qual não há clamor a Deus com qualquer esperança de ser ouvido; mas, seja qual for o inferno em que possamos estar no ventre deste mundo, ali podemos clamar a Deus. Quando Cristo ficou, como Jonas, três dias e três noites na sepultura, embora não tenha orado como Jonas, o próprio fato de jazer ali clamou a Deus Pai pelos pobres pecadores, e este clamor foi ouvido. [2] – Jonas reflete sobre a própria condição deplorável em que ele se encontrava quando estava no ventre do inferno, do qual, quando ali jazia, estava muito consciente e sobre o qual fazia determinadas observações. Note que se quisermos vencer as nossas aflições, devemos observar atentamente as nossas aflições, e a mão de Deus nelas. Jonas observa aqui: — [A] – A que profundidade ele foi lançado (v. 3): — Tu me lançaste no profundo. Os marinheiros o lançaram ali; mas ele olhou acima deles, e viu a mão de Deus o lançando ali. Sejam quais forem as profundezas nas quais somos lançados, é Deus que nos lança nelas, e é Ele que, depois de ter matado, tem o poder de lançar no inferno. Ele foi lançado no meio dos mares – no coração dos mares (assim é a palavra), e dali Cristo toma emprestada a frase hebraica, quando a menciona referindo-se à sua própria permanência por tanto tempo no coração da terra. Porque aquele que é colocado morto na sepultura, embora ela seja muito rasa, é extirpado da terra dos viventes da mesma forma que se ele fosse colocado no coração da terra. [B] – Como ele foi terrivelmente cercado: — A corrente me cercou. Os canais e fontes das águas o envolveram por todos os lados; era sempre maré alta com ele. Os queridos santos e servos de Deus são às vezes cercados por correntes de aflição, por dificuldades que são muito pesadas e violentas, que abatem a todos diante delas, e que correm constantemente sobre eles, como as águas de um rio em uma sucessão contínua, uma dificuldade sobre a garganta da outra, como os mensageiros de Jó com más notícias; eles são cercados por elas de todos os lados, como a Igreja se queixa – Lamentações 3:7. Circunvalou-me, e não posso sair, nem ver por que caminho posso fugir com segurança. Todas as tuas ondas e as tuas vagas têm passado por cima de mim. Observe que ele as chama de ondas e vagas de Deus, não só porque o Senhor as fez (porque até mesmo os ventos e os mares lhe obedecem), mas porque Ele agora as tinha comissionado contra Jonas, e as limitado, e ordenado que o afligissem e o aterrorizassem, mas que não o destruíssem. Estas palavras são claramente citadas por Jonas e estão em conformidade com o Salmos 42:7, no qual, embora as traduções difiram um pouco, na queixa original de Davi o texto é o mesmo – palavra por palavra, com esta queixa de Jonas: — Todas as tuas ondas e as tuas vagas têm passado por cima de mim. O que Davi falou figuradamente e metaforicamente Jonas aplicou a si mesmo como sendo cumprido literalmente. Para a nossa reconciliação com as nossas aflições, é bom buscarmos precedentes, para que possamos descobrir que não somos tomados por nenhuma tentação que não seja comum aos homens. Se alguma vez o caso de um homem foi singular, não tendo com que se comparar, este foi com certeza o caso de Jonas; no entanto, para a sua grande satisfação, ele encontra até o homem que era segundo o coração de Deus fazendo a mesma queixa das ondas e vagas passando por cima de si, algo que agora ele tem a oportunidade de fazer. Quando Deus fizer aquilo que está designado para nós, descobriremos que muitas destas coisas estão com Ele, e que até mesmo o nosso caminho de aflição não é um caminho que não foi pisado por outros, e que Deus nos trata da mesma forma que costuma tratar aqueles que amam o seu precioso e bendito nome. Portanto, para a nossa ajuda ao nos dirigirmos a Deus, quando estivermos em dificuldades, é bom fazermos uso das queixas e orações que os santos que viveram antes de nós fizeram em situações semelhantes. Veja como é bom estar preparado nas Escrituras; Jonas, quando não pôde fazer uso da sua Bíblia, teve a ajuda da sua memória para lhe fornecer as palavras da Escritura com uma representação muito própria do seu caso: — “Todas as tuas ondas e as tuas vagas têm passado por cima de mim”. Com o mesmo significado – v. 5, As águas me cercaram até a alma; elas ameaçaram a sua vida, que aqui foi trazida a um perigo iminente; ou elas causaram uma impressão sobre o seu espírito; ele as viu como sinais do desagrado de Deus, e nelas os terrores do Senhor dos Exércitos se dispuseram contra ele; isto atingiu a sua alma e a colocou em confusão. E isto também é emprestado da queixa de Davi – Salmos 69:1. As águas entraram até a minha alma. Quando há lutas do lado de fora, não é de admirar que haja temores por dentro. Jonas, no ventre do peixe, encontra o abismo o rodeando por todos os lados, de forma que se ele saísse de sua prisão, iria inevitavelmente perecer nas águas. Ele se sente como as algas (que o peixe engoliu com a água) que se enrolaram em sua cabeça, de forma que para ele não resta nenhuma maneira para ajudar a si mesmo, nem esperança de que alguma outra pessoa possa ajudá-lo. Assim às vezes o povo de Deus fica perplexo e desconcertado, para que eles possam aprender a não confiar em si mesmos, mas em Deus que os ressuscita dos mortos – 2 Coríntios 1:8, 9. [C] – Com que rapidez ele foi agarrado (v. 6): — Ele desceu até os fundamentos dos montes, até as rochas no mar, sobre os quais as colmas e os promontórios (cabo que é constituído por rochas íngremes ou montanhas elevadas) perto da encosta parecem estar fundamentados; ele jaz entre eles, ou melhor, ele jaz debaixo deles; a terra com os seus ferrolhos estavam ao redor dele, tão perto dele que era provável que o prendessem para sempre. A terra estava tão fechada e trancada, tão aferrolhada e aparafusada contra ele, que ele não tinha qualquer esperança de algum dia voltar para ela. Assim desamparado, assim sem esperança, a situação de Jonas parecia ser irremediável. Aqueles com quem Deus contende, têm toda a criação em guerra contra si. [3] – Ele reflete sobre a conclusão muito obscura e melancólica que estava pronto a chegar a respeito de si mesmo, e o alívio que obteve contra ela – v. 4, 7. [A] – Ele começou a entrar em desespero, e a se considerar perdido e destruído para todos os interesses e propósitos. Quando as águas o cercaram até à alma, não é de admirar que a sua alma tenha desfalecido dentro dele, desaparecido, de forma que ele não tinha quaisquer prazeres ou expectativas consoladoras; os seus ânimos foram perdidos e ele se considerou um homem morto. Então eu disse, lançado estou de diante dos teus olhos, e a percepção disso foi o que fez o seu espírito desfalecer dentro dele. Ele pensou que Deus o havia abandonado, jamais se voltaria para ele em misericórdia, nem lhe mostraria qualquer sinal para o bem outra vez. Ele não tinha nenhum exemplo antes dele de alguém que tivesse saído vivo do ventre de um peixe; ele pode ter pensado em Jó no monturo, em José na cova, e em Davi na caverna; estas coisas, no entanto, não se comparavam à sua situação. Nem havia qualquer caminho visível de escapatória aberto para ele, exceto por um milagre; e que motivo ele teria para esperar que um milagre de misericórdia fosse operado a seu favor, já que agora foi transformado em um monumento de justiça? A sua própria consciência lhe dizia que ele havia fugido impiedosamente da presença do Senhor, que, portanto, tinha um motivo justo para lançá-lo para fora da sua presença; e, como um sinal disso, o Senhor tiraria dele o seu Espírito Santo, para nunca mais visitá-lo. Que esperanças ele poderia ter de livramento de uma aflição que ele mesmo tinha provocado com seus próprios modos e ações? Observe que quando Jonas quis dizer o pior da sua situação, ele disse: — Lançado estou de diante dos teus olhos; são desgraçados aqueles, e somente aqueles, a quem Deus lançou de diante dos seus olhos, a quem Ele nunca mais reconhecerá ou favorecerá. Qual é a desgraça dos amaldiçoados no inferno exceto esta, que eles são lançados de diante dos olhos de Deus? Pois o que é a felicidade do céu além da visão e do gozo da preciosa e maravilhosa presença de Deus? As vezes a condição do povo de Deus pode ser tal neste mundo que eles podem pensar que estão excluídos da presença de Deus, para nunca mais vê-lo, ou serem considerados por Ele. Jacó e Israel disseram: — O meu caminho está encoberto ao Senhor, e o meu juízo passa de largo pelo meu Deus – Isaías 40:27. Sião disse: — Já me desamparou o Senhor, o Senhor se esqueceu de mim – Isaías 49:14. Mas esta é somente a presunção da incredulidade, pois Deus não rejeita o seu povo, que Ele mesmo escolheu. [B] – Mas ele deixou de entrar em desespero, com algumas perspectivas consoladoras de livramento. A fé corrigiu e controlou as presunções de temor e desconfiança. Aqui estava uma luta feroz entre a razão e a fé, mas a fé teve a última palavra e saiu vitoriosa. Em tempos de provação, a questão será finalmente resolvida, contanto que a nossa fé não falhe; foi, portanto, a continuação dela em seu vigor que Cristo assegurou a Pedro: — “Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça” – Lucas 22:32. Davi teria desfalecido se não tivesse crido – Salmos 27:13. A fé de Jonas disse: — Todavia, tornarei a ver o templo da tua santidade. Assim, embora ele estivesse perplexo, não estava em desespero; no abismo do mar ele teve a sua esperança no Senhor como uma âncora da alma, segura e firme. O que o sustenta é a esperança de ver outra vez o templo da santidade de Deus. [4] – Que ele viverá; ele olhará outra vez na direção do céu, verá novamente a luz do sol, embora agora pareça estar lançado em trevas completas. Assim, contra a esperança ele creu em esperança. [5] – Que ele viverá, e louvará a Deus; e um homem bom não deseja viver por nenhum outro propósito – Salmos 119:175. Que ele desfrutará a comunhão com Deus outra vez em ordenanças santas, olhará e subirá ao templo da santidade, para ali indagar, para ali contemplar a beleza do Senhor. Quando Ezequias desejou que pudesse ter a certeza da sua recuperação, ele perguntou: — “Qual será o sinal de que hei de subir à Casa do Senhor?” – Isaías 38:22, como se isto fosse a única coisa por amor à qual ele desejava a saúde; assim Jonas aqui espera ver outra vez o templo; o que ele por muitas vezes viu com prazer, se alegrando quando era chamado a subir à Casa do Senhor; e a lembrança disso era a sua consolação, a saber, que, quando teve a oportunidade, não foi estranho ao templo da santidade. Mas agora ele não podia vê-lo; no ventre do peixe ele não podia dizer em que direção o templo ficava, mas espera que outra vez possa olhar na sua direção, que possa vê-lo, e contemplar o seu interior. Observe como Jonas se expressa de uma forma modesta; como alguém consciente da sua culpa e indignidade, ele não ousa falar em habitar na casa de Deus, como Davi, sabendo que não é mais digno de ser chamado de filho, mas espera que tenha a permissão de olhar para ela. Ele a chama de templo de santidade, pois a santidade dele era, aos seus olhos, a sua beleza, algo que ele amava e queria ver. O templo era um tipo do céu; e Jonas promete a si mesmo que embora fosse agora um exilado cativo, que mesmo que jamais fosse solto, mas morresse no abismo, mesmo assim olharia na direção do templo celestial, e desejava ser levado para lá em segurança. Embora ele morra no ventre do peixe, no fundo do mar, dali espera que a sua alma seja levada pelos anjos para o seio de Abraão. Estas palavras também podem ser entendidas como o voto de Jonas quando estava em aflição, e fala (v. 9) em pagar o que votou; o seu voto é que se Deus o livrar ele o louvará nas portas da filha de Sião – Salmos 9:13, 14. O seu pecado pelo qual Deus o perseguiu foi fugir da presença do Senhor, uma loucura da qual ele está agora convencido, e promete não só que nunca mais olhará para Társis, mas que outra vez verá o templo, e que irá de força em força até comparecer diante de Deus ali. E assim vemos como a fé e a esperança foram o seu alívio em sua condição desesperançada. A estas coisas ele acrescentou a oração a Deus (v. 7): — “Quando desfalecia em mim a minha alma, eu me lembrei do Senhor, e me senti revigorado”. Jonas se lembrou da bondade e da misericórdia do Deus precioso, como estava perto daqueles que parecem estar lançados a uma grande distância pela aflição, como era misericordioso para com aqueles que parecem ter se lançado a uma grande distância dele pelo pecado. Jonas se lembrou do que Deus havia feito por ele, do que Ele havia feito pelos outros, do que Ele podia fazer, do que Ele tinha prometido fazer; e isto impediu que Jonas desfalecesse. Lembrando-se de Deus, Jonas lhe fez as suas súplicas: — “E entrou a ti a minha oração; eu a enviei, e esperei receber uma resposta”. Note que as nossas aflições devem fazer com que nos lembremos de Deus, e, consequentemente, que façamos as nossas orações a Ele. Quando as nossas almas desfalecem devemos nos lembrar de Deus; e, quando nos lembramos de Deus, devemos fazer uma oração a Ele, ou ao menos uma exclamação piedosa; quando pensamos no seu glorioso nome, devemos invocá-lo.

5 – Jonas reflete sobre o favor de Deus a si, quando em sua aflição buscou a Deus e confiou nEle. [1] – Ele misericordiosamente aceitou a sua oração, e a recebeu, e a ouviu (v. 7): — A minha oração, sendo enviada a Ele, entrou à presença dEle, ao seu templo de santidade; ela foi ouvida nos céus mais elevados, embora tenha sido feita no abismo mais profundo. [2] – O precioso e bendito Senhor operou, maravilhosamente, o livramento para Jonas; e, quando Jonas estava no fundo da sua desgraça, o Senhor lhe deu o seu sinal e a sua garantia (v. 6): — Tu livraste a minha vida da perdição, ó Senhor, meu Deus! Alguns acham que ele disse isto quando foi vomitado na terra seca; e então seria uma palavra de agradecimento, e faz um contraste com a grande dificuldade da sua situação, para que o poder de Deus pudesse ser ainda mais glorificado em seu livramento: — Os ferrolhos da terra correram sobre mim para sempre, mas tu resgataste a minha vida do abismo, dos ferrolhos do abismo. Também podemos supor que isto tenha sido dito enquanto ele ainda estava dentro do ventre do peixe, e então seria a linguagem da sua fé: — “Tu me mantiveste vivo aqui, no abismo; portanto, podes resgatar a minha vida do abismo, e o farás”; e ele fala disso com tanta certeza como se já tivesse sido feito: — Tu livraste a minha vida. Embora Jonas não tivesse uma promessa expressa de livramento, ele tem um sinal dele, e nisso confia: — ele tem vida, e, portanto, crê que a sua vida será livrada da perdição; e Jonas expressa esta certeza a Deus: — Tu livraste, ó Senhor, meu Deus! Tu és o Senhor; portanto, podes fazer isto por mim, meu Deus; e eu creio que o farás. Note que se o Senhor for o nosso Deus, Ele será para nós a ressurreição e a vida, remirá a nossa vida da destruição, do poder da sepultura.

6 – Ele avisa outros, e os instrui a se manterem perto de Deus (v. 8): — Os que observam as vaidades vãs deixam a sua própria misericórdia, isto é: — [1] – Aqueles que adoram outros deuses, como faziam os marinheiros gentios, e os invocam, e esperam alívio e consolação deles, deixam a sua própria misericórdia; eles se prejudicam; eles viram as suas costas para a sua própria felicidade, e saem do caminho de tudo o que é bom. Note que os ídolos são vaidades vãs, e aqueles que prestam a eles a reverência que só é devida a Deus agem tanto contrariamente aos seus interesses quanto ao seu dever. Ou: — [2] – Aqueles que seguem o seu próprio poder inventivo, como Jonas tinha feito quando fugiu da presença do Senhor para ir a Társis, deixam a sua própria misericórdia. Misericórdia esta que eles poderiam encontrar em Deus, a cuja aliança e posse poderiam ter direito, como também ser capazes de chamá-la de sua, se tão somente se mantivessem perto de Deus e do seu dever. Aqueles que pensam em ir a qualquer lugar para sair do alcance dos olhos de Deus, como fez Jonas – que pensam que serão bem-sucedidos abandonando o seu serviço, como fez Jonas – observam vaidades vãs, são levados por imaginações tolas e infundadas, e, como ele, deixam a sua própria misericórdia, e nada de bom pode proceder disso. Observe que aqueles que deixam o seu próprio dever, deixam a sua própria misericórdia; aqueles que fogem do trabalho do seu lugar e do seu dia fogem do conforto que ele pode lhes proporcionar.

7 – Ele solenemente liga a sua alma com um laço: — se Deus operar o livramento para ele, o Deus das suas misericórdias será o Deus dos seus louvores – v. 9. Ele faz uma aliança com Deus: — [1] – De que o honrará em suas devoções com sacrifícios de gratidão; e Deus disse, para estímulo daqueles que fazem assim, que aqueles que oferecem louvor o glorificam. Jonas, segundo a lei de Moisés, oferecerá um sacrifício de gratidão, e o oferecerá segundo a lei da natureza, com uma voz de gratidão. O amor e a gratidão a Deus, que vêm do coração, são a vida e a alma do seu dever; sem elas nem o sacrifício de gratidão nem a voz da gratidão valerão alguma coisa. Mas a gratidão deveria, então, por um decreto divino, ser expressada através de um sacrifício, no qual o ofertante apresentava o animal morto a Deus, não em lugar de si mesmo, mas como um sinal referente a si mesmo; e ela deve agora ser expressada pela voz do agradecimento, os bezerros dos nossos lábios (Oséias 14:2), o fruto dos nossos lábios (Hebreus 13:15), falando e cantando os altos louvores do nosso Deus. Isto Jonas promete aqui, que com o sacrifício de gratidão ele mencionará a benignidade do Senhor, para a sua glória, e para o incentivo de outros. [2] – De que ele o honrará em suas conversas através do rigoroso cumprimento dos seus votos, que ele fez no ventre do peixe. Alguns entendem que este voto esteja relacionado a alguma obra de caridade, ou que tenha sido um voto como o de Jacó: — “De tudo o que me deres te darei a décima parte”. E muito provável que o seu voto tenha sido que se Deus o livrasse, ele iria prontamente para qualquer lugar que o Senhor quisesse enviá-lo, até mesmo para Nínive. Quando sofremos as consequências por termos abandonado o nosso dever, é hora de prometermos nos manter firmes nele, e abundar nele. Ou, talvez, o sacrifício de gratidão tenha sido o que ele votou, e é isto que ele pagará, como Davi – Salmos 116:17 – 19.

8 – Ele conclui com um reconhecimento de Deus como o Salvador do seu povo: — “Do Senhor vem a salvação; ela pertence ao Senhor” – Salmos 3:8. Ele é o Deus da salvação – Salmos 68:19, 20. Só Ele pode operar salvação, e pode fazê-lo mesmo que o perigo e a aflição sejam grandes; o Senhor prometeu a salvação ao seu povo que nele confia. Todas as salvações da sua Igreja em geral, e de determinados santos, foram operadas por Ele; Ele é o Salvador daqueles que crêem – 1 Timóteo 4:10. A salvação ainda é dEle, como sempre foi; somente dEle ela deve ser esperada, e dEle devemos depender para que sejamos salvos. A experiência de Jonas incentivará outros, em todas as épocas, a confiar em Deus como o Deus da sua salvação; todos os que lerem esta história dirão com segurança, dirão com admiração, que a salvação é do Senhor, e é certa a todos os que pertencerem a Ele.

Paz e graça.

[1] Comentário Matthew Henry.

[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.

SOLA SCRIPTURA — ASPECTOS

O ESPINHO NA CARNE DE PAULO

“Para impedir que eu me exaltasse por causa da grandeza dessas revelações, foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás, para me atormentar” (2 Coríntios 12:7).

Devido a algumas ambiguidades, parece muito imprudente tirar conclusões dogmáticas sobre certas particularidades desta seção. O que está claro, entretanto, é que o “espinho na carne” (uma dificuldade ou aflição muito intensa ou enfraquecedora) tinha vindo através de um “mensageiro de Satanás” (provavelmente um ataque instigado de maneira demoníaca). A providência divina claramente permitiu isso (gramaticalmente, um, “passivo divino”, indicando Deus como o agente invisível supervisionando todo o processo), para que Paulo pudesse evitar que se “exaltasse pelas excelências das revelações”.

Embora seja fútil tentar identificar o “espinho”, ele causou grande consternação em Paulo e, em última instância, serviu para um bom propósito, tornando-se a ocasião para uma revelação a ele da graça triunfante de Deus, que basta em meio às fraquezas de Paulo.

Também devemos notar que, embora Deus não responda às alegações repetidas de Paulo, “para que desviasse de mim”, removendo-o, não há nenhum indício de que Deus esteja aborrecido com Paulo por alegar dessa maneira. Na verdade, a resposta de Jesus (v. 9) indica a preocupação de Deus em responder, mesmo que diferentemente do que Paulo havia orado.

É importante notar que a resposta de Jesus não foi vista como punitiva por Paulo, nem fez com que ele se resignasse esbofeteando-o com uma atitude de derrota. Pelo contrário, afirmou em Paulo que, sempre que Satanás o esbofeteia (quer diretamente como adversário destrutivo ou indiretamente como agente controlado por Deus para realizar o desenvolvimento do caráter), ele pode se “gloriar” de suas “fraquezas”, pois a “graça” e “poder te bastam” para permitir que ele continue em seu ministério apostólico. Nem o espinho, qualquer mensageiro de Satanás, nem qualquer teste de Deus para aprimorar o caráter farão com que ele pare de servir a Deus. Ele pode, portanto, sentir “prazer” […] porque, quando está pessoalmente fraco, ele pode ser forte em Jesus. 

Vejamos dois pontos cruciais: 

[1] – O propósito do espinho na carne era fazer com que Paulo permanecesse humilde. Qualquer pessoa que tivesse encontrado Jesus, falado diretamente e sido enviado pessoalmente por Ele (Atos 9:2 – 8) ficaria, em seu estado natural, orgulhoso da sua experiência incrível. Acrescente a isso o fato de que Paulo tinha sido guiado pelo Espírito Santo a escrever muito do Novo testamento, e é fácil ver como ele poderia ter se tornado orgulhoso e arrogante.

[2] – Sabemos que a aflição veio de Satanás ou de um dos seus mensageiros. Assim como Deus permitiu que Satanás atormentasse a Jó (Jó 1:1 – 12), Deus permitiu que Satanás atormentasse Paulo para que Seu propósito e Sua vontade fossem executados.

Dr. Simon Kistemaker comentando 2 Coríntios 12:7b, diz: — [1] – “Portanto, para que eu não ficasse empolgado demais, foi-me dado um espinho na carne”. Essa afirmação conclusiva é introduzida pelo advérbio, portanto. Mas dificilmente essa palavra pode se ligar ao versículo 6b com seu conteúdo específico. Em lugar disso, a declaração resume a ênfase que Paulo dá, de se gloriar de suas fraquezas. A soberba se intromete sorrateiramente na alma humana e passa a reinar de tal forma que a pessoa não perceba sua presença.

Ao longo do discurso de Paulo sobre o gloriar-se, ele deu ao Senhor a glória e honra. Seu desejo é permanecer humilde e abster-se de gloriar-se de si mesmo e de suas realizações. Ele sabe que o privilégio de vivenciar visões e revelações celestiais poderia resultar em orgulho. A tentação de se elevar acima de seus companheiros era real.

O Senhor interveio dando a Paulo um espinho na carne. O grego emprega o termo “ skolops – σκόλοψ”, que significa pedaço pontiagudo de madeira, estaca, paliçada, estaca afiada ou farpa. Não é correto pensar em empalação ou crucificação, porque Paulo sempre usa “stauros – σταυρος” quando escreve sobre a cruz (cf. 1 Coríntios 1:17, 18; Gálatas 5:11; 6:12; Efésios 2:16; Filipenses 2:8; 3:18; Colossenses 1:20; 2:14; Hebreus 12:2).

Aqui a palavra tem o sentido de um espinho ou outro objeto que fere a pele de Paulo e o machuca. Paulo também usa a palavra carne, que aponta à fragilidade de seu corpo físico. A maioria dos estudiosos concorda que esse termo deve ser interpretado literalmente, isto é, Paulo suportava dor física.

[2] – “Um mensageiro de Satanás, para esbofetear-me, para que eu não fique eufórico demais”. A segunda parte do versículo 7 visa explicar a primeira parte. No entanto, as dificuldades em se entender o que Paulo quer dizer aumentam a cada cláusula. Gostaríamos de acreditar que os leitores originais dessa epístola tivessem entendido o sentido dessas palavras, mas o fato de que Paulo está revelando sua visita celestial pela primeira vez é indicação de que sua referência ao espinho em sua carne também é notícia nova.

Paulo escreve que sua aflição física é um mensageiro de Satanás, isto é, um dos anjos maus de Satanás. Ao dar a Paulo um espinho para lhe causar desconforto físico, Deus permite que Satanás mande um dos seus anjos para atormentar o apóstolo. Somos lembrados de Jó, que também foi afligido por Satanás; na verdade, Deus impôs limites para Satanás, que só podia fazer o que Deus lhe permitia fazer (cf. Jó 1:12; 2:6).

A frase seguinte, “para esbofetear-me”, é ainda mais descritiva, isto é, o mensageiro de Satanás feria Paulo no rosto. Isso aconteceu quando membros do Sinédrio deram murros em Jesus (Mateus 26:67; Marcos 14:65). Tanto Paulo como Pedro usa a palavra quando falam em apanhar injustamente (1 Coríntios 4:11; 1 Pedro 2:20).

Como relacionamos o “espinho na carne” com “mensageiro de Satanás”, e essas duas expressões, por sua vez, com esmurrar o rosto de Paulo?

Explicações do mal de Paulo são numerosas; há pelo menos doze diferentes sugestões, várias delas bem aproveitáveis. Entre as sugestões estão à epilepsia, a histeria, a nevralgia, a depressão, problemas de visão (cf. Gálatas 4:14, 15), malária, lepra, reumatismo, um impedimento na fala (cf. 10:10; 11:6), tentação, inimigos pessoais (comparar com 11:13 – 15) e maus-tratos de um demônio.

Essas teorias são habilmente defendidas por estudiosos que conhecem tanto a literatura judaica quanto a vida de Paulo descrita em Atos e nas epístolas. Certamente, algumas conjecturas são dignas de consideração. Mas cada uma esbarra contra objeções de peso. Quer aconteça ter sido a aflição de Paulo um problema externo ou interno, o resultado permanece o mesmo: — nossas teorias são meras suposições, pois não sabemos o que afligia o apóstolo.

Notamos um contraste descrito nesse versículo. Paulo, que se ergue ao terceiro céu para ver a luz celestial, é depois continuamente atormentado por um mensageiro do príncipe das trevas. Paulo diz aos leitores que esse contraste aconteceu para que ele se conservasse humilde, “para que eu não fique eufórico demais”.

Duas vezes nesse versículo (v. 7b) ele escreve a mesma cláusula, obviamente para maior ênfase.

A narrativa – aflição compensatória — 12:1 – 10.

Havia uma certa “obrigação moral” (“dei – δεῖ”, como em Efésios 6:20; Colossenses 4:4) na glória de Paulo, ainda que não fosse conveniente (cf. 8:10; consultar o mesmo verbo em João 11:50; 16:7; 18:14; 1 Coríntios 6:12; 10:23). Este versículo expressa a compulsão de Paulo, “é necessário que me glorie”, a repulsão, “ainda que não convém”, e o impulso, “passarei as visões e revelações do Senhor”.

(2 – 4) — O apóstolo objetivou-se com o propósito de defender suas visões e revelações à vista dos falsos êxtases dos falsos mestres.

Sua visão era:

[1] – Pessoal – Conheço um homem […] – (v. 2).

[2] – Cristã – […] em Cristo, portanto, não pertencente ao judaísmo ou paganismo – (v. 2).

[3] – Histórica – […] há catorze anos, portanto, com data histórica, não uma ficção – (v. 2).

[4] – Misteriosa – “se no corpo, não sei; se fora do corpo, não sei” – (v. 2).

[5] – Estática (inerte) – […] foi arrebatado até ao terceiro céu, Enoque, Elias, Ezequiel – (v. 4).

[6] – Revelatória – […] ouviu palavras inefáveis […] – (v. 4).

[7] – Indelével (inextinguível) – […] foi-me posto um espinho na carne […] – (v. 7).

As idéias aqui são duas principalmente: — [1] – Se Paulo deseja gloriar-se mais, não seria néscio; pois ele falava a verdade (“alētheian – ἀλήθειαν”; conferir o uso em 4:2; 6:7; 7:14; 11:10; 13:8). [2] – Ele os poupou (“pheidomai – φείδομαι”; conferir o uso em 1:23; 13:2) de uma exibição mais detalhada de seus privilégios especiais temendo que alguém pudesse estimá-lo acima do que visse ou ouvisse dele (v. 6). Paulo não tinha desejo de se tornar um “super–homem” nem de encorajar uma adoração de homens, ainda que “heróis”.

Se tivermos sensibilidade deveríamos ler esta passagem com certa reverência devido ao fato de que nela Paulo desnuda (despoja) seu coração e ao mesmo tempo nos mostra sua glória e dor. Contra sua vontade ainda está dando a conhecer suas credenciais, e nos relata uma experiência diante da qual só podemos nos maravilhar e nem sequer tentar sondar. Da maneira mais estranha parece estar fora de si mesmo, observando-se. “Conheço um homem”, diz. O homem é ele mesmo, e, entretanto, pode olhar ao que teve essa surpreendente experiência com uma espécie de objetividade enigmática, assombrado de que tivesse ocorrido a ele. Para o místico o grande fim de toda experiência religiosa é a visão de Deus, e até para além dela, a união com Deus. Sempre buscou o momento maravilhoso no qual “aquele que vê e aquele que é visto sejam um”. Em suas tradições os judeus diziam que quatro rabinos tinham tido visões de Deus. Ben Azai tinha visto a glória e morreu. Ben Soma ao vê-la ficou louco. Acer depois de vê-la “castrou-se”, quer dizer que apesar da visão se converteu num herege e arruinou o jardim da verdade. Só Akiba subiu em paz e retornou em paz.

Não podemos nem pensar o que aconteceu a Paulo. Não precisamos criar teorias sobre o número de céus existentes, pelo fato de que Paulo menciona o terceiro céu. Simplesmente quer dizer que seu espírito se elevou a um êxtase e a uma cercania com Deus impossível de ultrapassar. Ajudar-nos-á a notar algo belo. A palavra paraíso (“Paradeison – Παράδεισον”) provém de um termo persa que significa jardim amuralhado[1]. Quando um rei persa desejava conferir uma honra muito especial a alguém que apreciava, o fazia acompanhante em seu jardim, e lhe outorgava o direito de caminhar pelos jardins com ele numa relação próxima e íntima. Nesta experiência, como nunca antes e nunca depois, Paulo tinha acompanhado a Deus.

Moody declara uma perspectiva também plausível, admissível.

“E depois da glória chega à dor. A palavra (skolops – σκόλοψ) pode significar aguilhão ou espinho, mas o mais provável é que queira dizer estaca. Empalava-se a alguns criminosos numa estaca pontiaguda. Paulo sentia que em seu corpo se retorcia algo semelhante”.

Mas então, o que era esse aguilhão na carne? Deram-se muitas respostas a esta pergunta. Primeiro podemos considerar aquelas que foram sustentadas por homens eruditos, mas que em face das evidências, devemos descartar.

[1] – Tem-se dito que significava tentações espirituais, a tentação da dúvida, evitar os deveres da vida apostólica, o remorso de consciência quando sucumbia a essas tentações. Este era o ponto de vista de Calvino.

[2] – Outro significado é o da oposição e perseguição que Paulo teve que sofrer a batalha constante com aqueles que não estavam de acordo com ele e tentavam destruir seu trabalho. Esse era o ponto de vista de Martinho Lutero.

[3] – Também tem-se dito que significam as tentações carnais. Quando os monges e os ermitões se encerravam em seus monastérios e celas encontravam que o sexo era o último instinto que podiam reprimir. Com seus ideais ascéticos desejavam eliminá-lo e não podiam, porque os obcecava. Sustentou-se que Paulo era assim. Este é o ponto de vista católico-romano que existe ainda hoje em dia — Não aceito pela Igreja protestante. Pois, Paulo defendia sua posição celibatária, como dom de Deus (cf. 1 Coríntios 7:7, 35)[2].

William Barclay diz que nenhuma destas soluções pode ser correta por estas três razões.

[1] – A mesma palavra estaca indica uma dor quase selvagem. [2] – A imagem que temos diante de nós é um quadro de sofrimento físico. [3] – Qualquer que fosse o aguilhão era intermitente, porque apesar de que às vezes prostrava a Paulo, não o separava totalmente de sua tarefa. Portanto consideremos as outras respostas sugeridas. [A] – Tem-se dito que o aguilhão era o aspecto pessoal de Paulo. “A presença pessoal dele é fraca” (2 Coríntios 10:10). Sugere-se que sofria de alguma desfiguração que lhe dava feio aspecto e que estorvava sua tarefa. Mas isso não explica a dor que deve ter existido. [B] – Uma das soluções mais comuns é a epilepsia. É dolorosa, recorrente, aquele que a padece pode continuar com sua tarefa entre ataques. Pode ser repulsiva. No mundo antigo era atribuída à ação dos demônios. Traz junto visões e transes tais como os que tinham Paulo. Antigamente quando alguém via um epilético cuspia para afastar o demônio maligno. Em Gálatas 4:14 Paulo diz que quando os Gálatas viram sua enfermidade não o rechaçaram. A palavra em grego (exeptysate – ἐξεπτύσατε) significa literalmente não me cuspiram. Depois de tudo Júlio César, Oliver Cromwell e Napoleão foram epiléticos. Mas esta teoria tem consequências difíceis de aceitar. Significaria que as visões de Paulo correspondiam às que percebe uma mente temporariamente alienada, que eram transes epiléticos, e nos é difícil crer que as visões que mudaram o mundo se devessem a ataques epiléticos. [C] – Uma das teorias mais antigas diz que Paulo sofria enxaquecas severas que o prostravam. Tanto Tértulo (advogado e orador empregado pelos judeus para apoiar Ananias no julgamento de Paulo de Tarso perante o governador romano da Judéia Félix – Atos 24:1 – 9). Como Jerônimo criam nisso.

Agora, isto bem pode nos levar à verdade. Ainda existe outra teoria no que se sustenta que Paulo sofria de uma doença dos olhos. Isto explicaria os dores de cabeça. Depois do momento de glória no caminho a Damasco, Paulo ficou cego (Atos 9:9). Pode ser que seus olhos nunca mais se tenham recuperado. Paulo diz que os Gálatas arrancariam os olhos para os darem a ele (Gálatas 4:15). No final de Gálatas escreve: — “Vede com que letras grandes vos escrevi de meu próprio punho” (Gálatas 6:11), como se estivesse descrevendo os caracteres grandes e torpes que poderia fazer um homem que apenas pudesse ver (cf. Atos 23:1 – 5).

Mas o mais provável é que Paulo sofresse de ataques crônicos recorrentes de certa febre malária virulentos que frequentava as costas do Mediterrâneo oriental. Os nativos da zona, quando desejavam machucar a um inimigo pediam a seus deuses que sua alma “ardesse” com essa febre. Uma pessoa que a padeceu descreve a dor de cabeça que a acompanha comparando-o com: — “um ferro candente que atravessasse a fronte”. Outro o descreve como “a dor rangente e monótono numa têmpora, como a máquina de um dentista — a cunha fantasmal entre as mandíbulas”, e diz que quando a dor se agravava “alcançava a soleira da resistência humana”. Na realidade isto merece a descrição de um aguilhão na carne, ou até uma estaca na carne. O homem ousado que suportava continuamente a lista de sofrimentos de um apóstolo tinha que lutar com essa agonia.

Paulo recebeu a promessa e a realidade da graça que tudo pode.

Consideremos algumas das coisas para as quais essa graça era suficiente a Paulo através de alguns aspectos de sua vida.

[1] – Era suficiente para o cansaço físico.

Permitia-lhe prosseguir. João Wesley pregou quarenta e dois mil sermões, viajava uma média de sete mil quilômetros por ano. Cavalgava cerca de noventa ou cem quilômetros diários e pregava uma média de três sermões por dia. Quando tinha oitenta e três anos escreveu em seu jornal: — “Maravilho-me de mim mesmo. Nunca me canso, nem pregando, nem viajando, nem escrevendo”. Era essa obra da graça que tudo pode. (Neste momento faço das palavras de Wesley as minhas, espero ter a quantidade de sermões e de obras deste notável homem de Deus no final de minha vida, não me canso de escrever, aprender e ensinar com sofrimentos para glória de Deus).

[2] – Era suficiente para a dor física.

Ela o fazia capaz de tolerar a cruel estaca. Uma vez um homem foi visitar uma jovem que estava de cama morrendo de uma enfermidade incurável e muito dolorosa. Levou consigo um livrinho destinado a alentar os que passavam momentos difíceis, um livro alegre, cheio de sol, que fazia rir. “Muito obrigado”, disse ela, “mas conheço esse livro”. “Você o tem lido?”, perguntou o visitante. E a jovem respondeu: — “Eu o escrevi”. Era obra da graça que tudo pode.

[3] – Era suficiente para a oposição.

Paulo teve que enfrentá-la durante toda sua vida e nunca cedeu. Por grande que fosse não dava seu braço a torcer, nem se retirava. Essa era obra da graça que tudo pode.

[4] – Ela o fazia capaz, como o demonstram todas as suas cartas, de enfrentar a calúnia.

Não há nada mais difícil de enfrentar que a calúnia, a interpretação errônea e o juízo equivocado e cruel. Uma vez um homem jogou um balde de água sobre Arquelau da Macedônia. Este não disse nada. E quando um amigo lhe perguntou como tinha podido aguentá-lo tão serenamente, disse: — “Não atirou a água sobre mim, mas sim sobre o homem que ele pensou que eu era”. A graça que tudo pode fazia que Paulo não se preocupasse com o que os homens pensassem, mas pelo que Deus sabia que era. A glória da vida é que encontramos em nossa fraqueza a graça maravilhosa, porque sempre a extremidade do homem é a oportunidade de Deus.

Comentários adicionais sobre 12:7b.

Muitas dessas propostas têm tido seus adeptos através dos séculos, mas por falta de evidência bíblica continuam sendo meras suposições.

[1] – Depressão — Pelo capítulo 1 já tomamos conhecimento de que Paulo estava desanimado pelas suas experiências na Ásia Menor (1:8). Ele havia encontrado reveses severos causados por pessoas, tais como o ourives Demétrio (Atos 19:25 – 41). Mas isso dificilmente explica o espinho na carne de Paulo. Muito embora Paulo tenha experimentado oposição, nenhuma indicação nos é dada de que tenha sofrido de depressão séria. Ao contrário, ele escreve: — “Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não completamente perplexos” (4:8). Somos “entristecidos, mas sempre alegres” (6:10).

[2] – Visitação de demônios — Essa teoria ensina que quando Paulo estava no céu, foi dominado pelo orgulho. Mas de repente foi atacado por um demônio que o punia para conservá-lo humilde. Paulo orou três vezes ao Senhor para fazer com que o ataque parasse, mas foi-lhe dito que tinha de aprender sua lição e confiar na suficiência da graça de Deus. Há objeções exegéticas a essa interpretação: — o desconforto físico do espinho na carne não é uma provação temporária no céu, mas uma dor persistente na terra. E mais, não há indicação no texto de que Paulo tenha vivenciado um castigo no céu, porque lá é um lugar muito improvável para um demônio vencer o apóstolo.

E, por fim, um espinho na carne foi dado a Paulo não por um mensageiro de Satanás, e sim pelo Senhor, que permitiu que o mensageiro de Satanás o esbofeteasse.

Conclusão.

Uma passagem clássica. A magnitude das revelações de Paulo (sobre grandeza, cf. 2 Coríntios 12:7; 4:7; Gálatas 4:13) levou o Senhor a lhe dar um estorvo divino (um espinho) para reduzir qualquer tendência de exaltação orgulhosa. Paulo precisava de um lembrete que lhe fizesse ver que, apesar do seu arrebatamento, ainda era um homem entre os homens. Nossas informações são muito imprecisas (1:8) para justificar nossa dogmatização quanto à natureza exata desse espinho na carne. Paulo orou especificamente (por causa disto), encarecidamente (pedi ao Senhor), e com propósito (que o afastasse de mim). O tempo perfeito em me disse registra a completa aquiescência de Paulo na resposta definitiva de Cristo. Só aqui no Novo Testamento encontrarmos a minha graça (cf. o uso em Filipenses 1:7). O verbo (Arkei – Ἀρκεῖ), no predicado “te basta”, indica que a graça de Cristo está “cheia de força infalível” – suficiente. Este verbo foi algumas vezes traduzido para estar satisfeito (Lucas 3:14; 1 Timóteo 6:8; Hebreus 13:5). O presente passivo de “teleitai – τελεῖται” (o tempo perfeito em João 19:28, 30; 2 Timóteo 4:17) significa está sendo (continuamente) aperfeiçoado (Hebreus 5:9). O verbo repouse (episkēnōsē – ἐπισκηνώσῃ) aparece apenas aqui no grego bíblico. O verbo simples “eskēnōsen – ἐσκήνωσεν” se encontra em João 1:14; Apocalipse 7:15; 21:3. A tradução de Plummer, “estenda uma tenda sobre mim”, é uma reminiscência da fraseologia do Antigo Testamento (Êxodo 33:22; Salmos 90:17; 91:4; Isaías 49:2; 51:16). Ninguém pode sentir prazer (eudokoumen – εὐδοκοῦμεν — cf. 5:8) nas adversidades mencionadas aqui, a não ser por amor de Cristo (cf. 5:20; Filipenses 1:29; Colossenses 1:24; 3 João 7). Sobre quando (hotan – ὅταν), cf. 2 Coríntios 10:6. “Ele nos livrou e continuará nos livrando de tal perigo de morte. Nele temos colocado a nossa esperança de que continuará a livrar-nos […]” (2 Coríntios 1:10).

Paulo orava para que lhe fosse tirado esse aguilhão, mas Deus respondeu esta oração como o faz tantas vezes — não lhe tirou o mal, mas sim lhe deu a força para suportá-lo. Deus não nos priva das coisas; capacita-nos para vencê-las e sair delas.

“Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo” (João 16:33).

Paz e graça.

[1] – Citações — Comentário de Simon Kistemaker sobre 2 Coríntios; Comentário Bíblico William Barclay e Comentário Bíblico Moody.

[1] Paradeison – Παράδεισον significa entre os persas, um grande cercado ou reserva, parque, sombreado e bem irrigado, era fechado por muros. Outro significado: as regiões superiores dos céus. De acordo com os pais da Igreja primitiva, o paraíso no qual nossos primeiros pais habitaram antes da queda ainda existe, não sobre a terra ou nos céus, mas acima e além do mundo.

[2] Paulo declara claramente que está falando sobre preferência pessoal quando desafia os solteiros a continuarem no celibato (v. 35). O casamento e o celibato são assuntos individuais e relativos, dependendo, em parte, da capacidade de cada um de controlar a paixão sexual. O impulso sexual não é pecaminoso, e permanecer solteiro, ao invés de se casar, não personifica virtude moral superior.