por William Barclay | 10 jun 2019 | TEOLOGIA
Hebreus 13:1 – 6.
Ao aproximar-se ao final de sua carta o autor passa a ocupar-se de assuntos práticos. Aqui sublinha cinco qualidades essenciais da vida cristã.
[1] – O amor fraternal.
As mesmas circunstâncias da Igreja primitiva ameaçavam algumas vezes o amor fraternal. O próprio fato de tomar tão a peito a religião era em certo sentido um perigo. Numa Igreja ameaçada de fora e desesperadamente ciumenta de dentro, há sempre dois perigos. Em primeiro lugar o perigo de dedicar-se à caça de heresias. O próprio desejo de preservar a fé faz com que os homens tenham o afã de descobrir e eliminar os hereges ou os que se desviaram da fé. Em segundo lugar, o tratamento duro e pouco amável dos que perdendo o domínio de seus nervos quebrantam a fé. A própria necessidade de uma lealdade que não vacila em meio de um mundo pagão e hostil tende a adicionar severidade e rigor ao trato com o homem que em alguma crise não teve a coragem de manter-se firme em sua fé. É algo grande conservar pura a fé, mas quando este desejo nos faz críticos, rígidos, acusadores, ásperos e desatentos destrói-se o amor fraterno e se chega a uma situação pior que a que tentamos evitar. De uma ou outra maneira devemos combinar estas duas atitudes: — “zelo ardente na fé e amabilidade para com o homem que se apartou dela”.
[2] – A hospitalidade.
O mundo antigo amava e tinha em honra a hospitalidade. Os judeus tinham o provérbio: — “Há seis coisas cujo fruto o homem come neste mundo e pelas quais seu corpo se ergue no mundo futuro”. E a lista começa: — “Hospitalidade para com o estrangeiro e visitar os doentes”. Os gregos davam a Zeus, como título favorito o de Zeus Xênios, que significa Zeus o deus dos estrangeiros. O caminhante ou o estrangeiro estavam sob a proteção do rei dos deuses. A hospitalidade, como diz Moffatt, era um artigo da religião antiga. No mundo antigo as pousadas eram sujas, tremendamente caras e de baixa reputação. O grego sempre se estremecia ante uma hospitalidade conseguida por dinheiro. O trabalho de hospedeiro lhe parecia um negócio antinatural. Em “Las Ranas” de Aristófanes, Dioniso pergunta ao Heraclio, discutindo como encontrariam hospedagem, se sabia onde havia menos pulgas. Platão em “Las Leyes” fala do dono de hospedaria que mantém os viajantes como reféns. Não carece de significado que Josefo diga que Raabe, a rameira — a que hospedou os espiões de Josué em Jericó — tinha uma hospedaria. Quando Teofrasto escreveu a biografia do homem despreocupado, disse que era apto para cuidar uma pousada ou dirigir um prostíbulo. Põe ambas as ocupações no mesmo nível. No mundo antigo existia um sistema admirável chamado: — “amizades do forasteiro”. Algumas famílias acordavam que através dos anos, mesmo quando tivessem perdido contato entre si, em qualquer momento que fosse necessário, dariam mutuamente hospedagem. Esta hospitalidade era ainda mais necessária no círculo dos cristãos. Os escravos não tinham casa própria. Os pregadores e profetas ambulantes estavam sempre de viagem. Os cristãos tinham que viajar por assuntos da vida corrente. Tanto pelo preço como pela atmosfera moral as pousadas públicas eram impossíveis. Naqueles dias deveriam existir muitos cristãos isolados e travando batalha a sós. O cristianismo era, e deveria ser ainda, uma religião de portas abertas. O autor de Hebreus diz que aqueles que davam hospitalidade aos forasteiros algumas vezes, sem sabê-lo, hospedaram anjos de Deus. Pensa na época em que um anjo se apresentou a Abraão e a Sara para anunciar o nascimento de um filho (Gênesis 18:1 e seguintes) e do dia em que um anjo foi a Manoá com a mesma notícia (Juízes 13:3 e seguintes).
[3] – A simpatia para com os que padecem tribulação.
É aqui onde vemos a Igreja cristã dos dias primitivos em seu aspecto mais atrativo. Sucedia com frequência que o cristão era arrojado à prisão ou padecia algo pior em razão de sua fé, ou talvez por dívidas, pois os cristãos eram pobres. Também podia acontecer que fossem capturados por piratas ou bandidos. Era então quando a Igreja cristã ficava em ação. Tertuliano em sua Apologia escreve: — “Se acontecia que alguém se encontrasse nas minas ou fosse proscrito (exilado, banido) nas ilhas ou lançado nas prisões por nenhuma outra razão que por sua fidelidade à causa da Igreja de Deus, eram cuidados como meninos de peito”. Aristides, o orador pagão, disse dos cristãos: — “Se ouvirem que algum deles está na prisão ou passa tribulação por causa do nome de seu Cristo, todos lhe prestam ajuda em sua necessidade e se podem resgatá-lo, o põem em liberdade”. Quando Orígenes era jovem foi dito dele: — “Não só estava de parte dos santos mártires em sua prisão e condenação final, mas quando eram conduzidos à morte os acompanhava intrepidamente, arriscando-se”. Algumas vezes os cristãos eram condenados às minas; era como enviá-los a Sibéria ou à Ilha do Diabo. As Constituições Apostólicas estabelecem: — “Se algum cristão é condenado por algum ímpio às minas por causa de Cristo não o descuidem, mas sim enviem-lhe algo do produto de seu esforço e suor para sustentá-lo e recompensar o soldado de Cristo”. Os cristãos buscavam seus irmãos na fé até nos desertos. De fato, havia uma pequena Igreja cristã nas minas de Feno. Algumas vezes os cristãos tinham que ser resgatados de assaltantes e bandidos. As Constituições Apostólicas estabelecem: — “Todo o dinheiro que provém de um trabalho honrado deve ser destinado e distribuído para o resgate dos santos, pagando com eles pelos escravos, cativos e prisioneiros, pessoas dolorosamente ofendidas ou condenadas pelos tiranos”. Quando os assaltantes da Numidia levaram os cristãos, a Igreja de Cartago pagou o equivalente a 2.500 dólares para resgatá-los e prometeu ainda mais. Havia casos em que os cristãos se vendiam como escravos para obter dinheiro para resgatar a seus amigos. Os cristãos estavam dispostos a recorrer ao suborno para poder entrar nos cárceres. Chegaram a ser tão conhecidos por sua ajuda aos encarcerados, que no começo do século IV, o Imperador Licinio, expediu uma nova legislação para que “ninguém mostrasse bondade para com os pacientes da prisão, brindando-lhes alimento e ninguém mostrasse compaixão para com os que ali faleciam de fome”. Adicionava-se que os que fossem descobertos agindo desta maneira deviam ser obrigados a sofrer a mesma sentença e destino daqueles aos quais queriam ajudar. Estes exemplos estão tomados do “Expansion of Christianity” de Harnack; muitos outros poderiam adicionar-se. Jamais na Igreja primitiva algum cristão que sofria por sua fé era negligenciado ou esquecido por seus companheiros.
[4] – A pureza.
Em primeiro termo o laço matrimonial devia ser respeitado universalmente. Isto poderia significar duas posições opostas.
[A] – Existiam ascetas (abstinentes, ermitões) que desprezavam o matrimônio. Alguns chegavam ao extremo de castrar-se para assegurar o que, segundo eles, era a pureza. Orígenes, por exemplo, seguiu este caminho. Até um pagão como Galeno, o médico, anotava que entre os cristãos havia “homens e mulheres que se abstêm de coabitar durante toda sua vida”. O autor de Hebreus insiste contra estes abstinentes em que o laço matrimonial tem que ser tido em honra e não deve ser desprezado.
[B] – Havia outros sempre propensos a recair na imoralidade. O autor usa dois termos: — um denota uma vida de adultério; o outro toda classe de impureza, tais como os vícios contra natureza. Os cristãos introduziram no mundo um novo ideal de pureza. Até os pagãos admitiam isto. Galeno, o médico grego, na passagem que já citamos, prossegue: — “Também contam com indivíduos que pela disciplina, o controle e sua veemente perseguição da virtude alcançaram uma altura não inferior à de verdadeiros filósofos”. Quando Plínio o governador de Bitínia julgava os cristãos e informava a Trajano, o Imperador, deveu admitir, mesmo quando buscasse uma acusação para condená-los, que no encontro do dia de seu Senhor “obrigavam-se a si mesmos por meio de um juramento não a um ato criminal, mas sim a evitar o roubo, a rapina (furto, latrocínio), e o adultério; a não quebrantar nunca a palavra empenhada nem negar um depósito quando solicitado a que o devolvessem”. Na época primitiva os cristãos exibiam perante o mundo tal pureza que nem sequer seus críticos e inimigos mais acérrimos (implacáveis) encontravam neles falta alguma.
[5] – O contentamento.
O cristão deve estar livre do amor ao dinheiro e contentar-se com o que tem e, por que não deve estar se possui a contínua presença de Deus? O autor cita duas grandes passagens do Antigo Testamento: — Josué 1:5 e Salmos 118:6 para mostrar que o homem de Deus não necessita nada, porque sempre tem consigo a presença e a ajuda de Deus. Nada do que os homens possam lhe dar, nenhum dom que a ambição terrena pode arrancar da vida pode melhorar sua situação.
1 – Os condutores e o condutor — Hebreus 13:7, 8.
Nesta passagem encontra-se implícita uma descrição do verdadeiro condutor de homens.
[1] – O verdadeiro condutor da Igreja prega a Cristo e desta maneira leva aos homens a Cristo; não chama a atenção sobre si mesmo, e sim sobre a pessoa de Jesus Cristo. Leslie Weatherhead narra-nos a história de um menino da escola pública que decidiu entrar no ministério. Foi-lhe perguntado quando tinha assumido essa decisão. Respondeu que por ouvir um sermão na capital da escola. Interrogaram-lhe pelo nome do pregador, mas repôs que não o lembrava; a única coisa que sabia era que esse pregador lhe tinha mostrado a Jesus. O dever do verdadeiro pregador é desaparecer para que Cristo apareça diante dos homens.
[2] – O verdadeiro condutor da Igreja vive em fé e por isso leva os homens a Cristo. O santo foi definido como “o homem em quem Cristo vive de novo”. O dever do verdadeiro pregador não é tanto falar com os homens sobre Cristo como mostrar a Cristo em sua própria vida, obra e ser. Os homens não aceitam tanto o que o homem diz quanto o que é. Sua vida não é uma argumentação verbal, mas sim uma demonstração vivente.
[3] – O verdadeiro condutor morre, se for necessário, permanecendo fiel. Mostra aos homens como viver e no final como morrer. Demonstra uma lealdade que não tem limites. Jesus tendo amado aos seus os amou até o fim. O verdadeiro condutor tendo amado a Jesus o amava até o fim. Sua lealdade jamais detém-se a metade de caminho.
[4] – Por isso o verdadeiro condutor deixa dois patrimônios aos que o seguem: — “um exemplo e uma inspiração”. Quintiliano, o mestre romano de oratória, dizia: — “É algo bom conhecer e manter sempre girando na mente os atos ilustres realizados antigamente”. Epicuro aconselhava continuamente a seus discípulos que lembrassem daqueles que nos tempos antigos tinham vivido virtuosamente. Se houver alguma coisa mais importante que qualquer outra é que a Igreja e o mundo necessitam sempre de uma condução desta classe. Mas agora o autor passa a outro pensamento importante. Está na natureza das coisas que todos os condutores terrestres surjam e passem; têm seu tempo e guiam a sua geração, logo se retiram da cena; têm sua parte no drama da vida e logo desce o pano de fundo. Pelo contrário, Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre. Sua preeminência é permanente; sua liderança é eterna. E nisto reside o segredo da liderança terrena. O verdadeiro condutor é aquele que é ele próprio conduzido por Jesus Cristo. Os homens que fizeram as Igrejas e guiaram a outros no caminho ascendente, foram conduzidos em cada época e geração pelo Cristo eterno e imutável. Aquele que caminhava pelos caminhos da Galiléia é ainda tão poderoso como sempre para esmagar o mal e amar o pecador; e assim como então escolheu os doze para que estivessem com Ele e fossem realizar sua obra, ainda está agora, buscando os que têm que levar os homens Ele, e Ele aos homens.
2 – O sacrifício falso e o verdadeiro — Hebreus 13:9 – 16.
Pode ser que ninguém chegue a descobrir jamais o significado preciso desta passagem. Certamente existia alguma doutrina falsa que se estava difundindo na Igreja e a que se refere esta carta. O autor não precisa descrevê-la para o povo ao qual se dirige, porque era bem conhecida, até alguns tinham caído em suas redes e todos estavam sob sua ameaça. Quanto a no que consistia, só possuímos algumas indicações e podemos fazer deduções e conjecturas, suspeitas, estimativas e argumentações. Começaremos com um fato básico. O autor está convencido de que a verdadeira fortaleza do homem só provém da graça divina e que o que o povo come e bebe não tem nada a ver com sua força espiritual. Assim, pois, na Igreja a qual se dirige a carta havia alguns que davam muita importância às leis alimentares. Eis aqui algumas observações.
[1] – Os judeus tinham suas leis rígidas sobre mantimentos, estabelecidas por extenso em Levítico 11. Todo mundo sabe que nenhum judeu come carne de porco. O judeu cria que podia servir e agradar a Deus comendo ou não comendo certos mantimentos. Possivelmente haveria nesta Igreja cristãos dispostos a abandonar a liberdade cristã para voltar de novo ao jugo das leis e prescrições judias sobre mantimentos, pensando que agindo dessa maneira adicionariam vigor à sua vida espiritual e às suas almas.
[2] – Havia alguns gregos que tinham idéias muito definidas sobre os mantimentos. Já Pitágoras pensava algo pelo estilo; cria na reencarnação; em que a alma do homem passava de corpo em corpo até merecer finalmente a libertação. Essa libertação podia apressar-se pela oração, a meditação, a disciplina e o ascetismo. Por esta razão os pitagóricos eram vegetarianos e se abstinham de carne. Os chamados gnósticos formavam um grupo com as mesmas características. Pensavam que a matéria era completamente má e que o homem devia concentrar-se no espírito, que era inteiramente bom. Portanto criam que o corpo era inteiramente mau e que o homem devia castigá-lo e tratá-lo com o maior rigor e austeridade. Reduziam a alimentação ao mínimo possível e se abstinham também da carne. Eram muitos os gregos que pensavam que pelo que comiam ou deixavam de comer se fortaleciam espiritualmente e libertavam suas almas.
[3] – Mas nada de tudo isto parece ter tido a ver no caso. Aqui o comer e o beber têm algo que ver com o corpo de Cristo. O autor de Hebreus se remonta às prescrições do Dia da Expiação. Agora, segundo essas prescrições, os corpos do bezerro devotado pelos pecados do sumo sacerdote e do bode emissário devotado pelos pecados do povo, deviam ser consumidos inteiramente pelo fogo num lugar fora do acampamento (Levítico 16:27). Eram ofertas pelo pecado e ainda que os que rendiam o culto tivessem desejado comer essa carne não podiam fazê-lo. O autor considera Jesus como o sacrifício perfeito.
O paralelismo é completo porque, além disso, Jesus foi sacrificado fora da porta; efetivamente, o Calvário estava fora dos muros de Jerusalém. As crucificações sempre se levavam a cabo fora de uma população. Jesus também foi a oferta pelo pecado em favor dos homens. Em consequência, assim como ninguém podia comer a carne da oferta do pecado no Dia da Expiação, tampouco ninguém pode comer a carne de Cristo. Pode ser que aqui tenhamos a chave; é possível que existisse nessa Igreja um pequeno grupo que, seja no sacramento, seja em alguma comida comum, consagrassem seus mantimentos a Jesus e pretendessem de fato e verdadeiramente comer o corpo de Cristo. Poderiam ter-se convencido a si mesmos de que pelo fato de consagrar seus mantimentos a Cristo, o corpo dEle entrava neles. Isto era efetivamente o que as religiões gregas pensavam de seus próprios deuses. Quando um grego sacrificava recebia parte da carne.
Com frequência fazia uma festa para si mesmo e seus amigos dentro do templo, onde teve lugar o sacrifício, crendo que quando ingeria a carne do sacrifício, o deus que estava na carne sacrificada entrava em sua pessoa. Com a carne a vida do deus entrava em seu corpo e em seu coração. Bem pode ser que alguns gregos tivessem introduzido no cristianismo suas próprias idéias e falassem de comer o corpo de Cristo. O autor cria com toda a força de seu ser que nenhuma comida podia introduzir a Jesus Cristo no interior do homem; que Cristo jamais pode entrar num homem a não ser pela graça.
É muito provável que tenhamos aqui uma reação contra a demasiada ênfase nos sacramentos. É notável que o autor jamais menciona os sacramentos, que não parecem entrar absolutamente dentro de sua colocação. É provável que até naquela época tão primitiva existissem os que tinham uma concepção muito mecânica dos sacramentos e esqueciam que nenhum sacramento do mundo é útil por si mesmo; o único proveito está na graça de Deus acolhida pela fé do homem. Não é a carne, mas sim a fé e a graça o que importa. Mas esta colocação estranha dava o que pensar a nosso autor.
Cristo tinha sido crucificado fora da porta como proscrito e expulso pelos homens; foi acusado de ser um criminoso; foi contado entre os transgressores. Aqui o autor descobre uma imagem: — “também nós devemos nos separar da vida do mundo, nos submeter a sair fora das portas do mundo, carregar sobre nós a mesma recriminação que Cristo carregou. A separação, o isolamento e a humilhação podem sobrevir sobre o cristão como sobrevieram sobre Cristo”.
Os cristãos devem estar preparados para suportar o mesmo tratamento do mundo que suportou seu Mestre. Mas o autor vai mais além. Se no sacramento o cristão não pode oferecer de novo o sacrifício de Cristo, qual é o sacrifício que pode oferecer? O autor diz que várias coisas.
[A] – Pode oferecer a Deus seu contínuo louvor e ação de graças.
Os povos antigos sustentavam às vezes que uma oferta de gratidão era mais aceita a Deus que uma oferta pelo pecado, porque quando um homem a oferecia, buscava obter algo de Deus, o perdão de seus pecados, enquanto que uma oferta de gratidão era uma oferta incondicional de seu coração agradecido. O sacrifício de ação de graças é aquele que todos podem oferecer e ao qual devem sentir-se obrigados.
[B] – Pode oferecer uma profissão pública e prazerosa de sua fé em Cristo.
Esta é uma oferenda de lealdade. O cristão sempre pode oferecer a Deus uma vida que não se envergonha de mostrar de quem é e a quem serve. Não envergonhar-se jamais do Evangelho de Jesus Cristo é também uma oferta.
[C] – O cristão pode oferecer a Deus como sacrifício obras de amor e o compartilhar com seu próximo.
De fato, isto era algo que o judeu sabia muito bem. Depois do ano 70 de nossa era os sacrifícios do templo chegaram a seu fim. Já não eram possíveis, porque nesse ano o templo tinha sido destruído. O que ficou? Os rabinos ensinavam que nesses dias tardios em que o ritual do templo tinha concluído, “a Teologia, a oração, a penitência, o estudo da Lei e a caridade eram ainda sacrifícios equivalentes aos do antigo ritual”. O rabino Jônatas Ben Zakkai se consolava nesses tristes dias crendo que “com a prática da caridade ainda possuía um sacrifício válido pelo pecado”. Um escritor cristão antigo diz: — “Espero que seu coração renda frutos: — que dê culto ao Deus Criador de tudo, e que lhe ofereça continuamente suas orações por meio da compaixão porque a compaixão que os homens mostram pelos homens é um sacrifício incruento e santo a Deus”. Finalmente, Jesus mesmo disse: — “Sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mateus 25:40). E o melhor sacrifício de todos é ajudar a um dos filhos de Deus que padece necessidade.
3 – Obediência e oração — Hebreus 13:17 – 20.
Aqui o autor estabelece o dever da congregação para com seus condutores presentes e ausentes. Deve-se obedecer aos condutores presentes. Uma Igreja é uma democracia, mas não uma democracia enlouquecida; deve prestar obediência aos condutores que escolheu como seus guias. Esta obediência não tem por objeto gratificar o sentido de poder dos mesmos ou incrementar seu prestígio.
Deve-se obedecer para que no final do dia os dirigentes vejam que não perderam nenhuma das almas encomendadas a seu cuidado e a seu cargo. A maior alegria do condutor de uma comunidade cristã é ver que aqueles aos quais conduz estão firmados no caminho cristão. Como escrevia João: — “Não tenho maior alegria do que esta, a de ouvir que meus filhos andam na verdade” (3 João 4).
A maior tristeza do condutor de uma comunidade cristã é que aqueles aos quais conduz se separem do caminho de Deus. Para o condutor ausente o dever da congregação é orar. Sempre é um dever cristão levar a nossos seres amados ausentes perante o trono da graça divina. É um dever cristão lembrar diariamente perante Deus a todos os que têm a responsabilidade de dirigir e a autoridade.
Quando Mr. Baldwin foi designado Primeiro Ministro de Grã–Bretanha, seus amigos se apinharam a seu redor para felicitá-lo. Sua resposta às felicitações foi: — “Não são suas felicitações o que necessito; são suas orações”. Devemos render respeito e obediência aos que têm autoridade sobre nós quando estão presentes; se estiverem ausentes devemos lembrá-los sempre em nossas orações.
4 – Uma oração, uma saudação e uma bênção — Hebreus 13:20 – 24.
Na grande oração dos dois primeiros versículos desta passagem o autor traça uma imagem perfeita de Deus e de Jesus.
[1] – Deus é o Deus de paz.
Até na situação mais turbulenta e angustiante Deus pode brindar paz. Em toda comunidade dividida a divisão deve-se ao esquecimento de Deus; só a memória da presença de Deus pode fazer com que retorne a paz. Quando a mente e o coração de um homem estão perturbados, quando se encontra dividido entre as duas partes de sua própria natureza, só colocando sua vida sob o domínio de Deus pode provar a paz. Só Deus pode colocar o homem numa devida relação consigo mesmo, com o próximo e com a eternidade: — “só o Deus de paz pode nos dar a paz conosco mesmos, com os demais e com Ele”.
[2] – Deus é o Deus da vida.
Foi Deus aquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos. O amor e o poder de Deus é a única coisa que pode dar ao homem paz na vida e triunfo na morte. Jesus morreu para obedecer à vontade divina e a mesma vontade de Deus o arrancou de novo da morte. Para o homem que obedece à vontade de Deus não existe algo assim como um desastre final; até a mesma morte está vencida.
[3] – Deus é o Deus que nos mostra sua vontade e nos capacita para realizá-la; Deus jamais nos atribui uma tarefa sem nos dar o poder de realizá-la.
Com a visão envia também o poder. Jamais nos pede que levemos a cabo uma tarefa só com nossos recursos; se fosse assim, bem poderíamos nos intimidar com as enormes exigências da vida cristã. Quando nos manda, Ele o faz, armando-nos e nos equipando com todo o necessário. Aqui também se encontra uma tríplice imagem de Jesus.
[A] – Jesus é o grande pastor de seu rebanho.
A imagem de Jesus como o Bom Pastor é algo que nos é muito caro, mas embora pareça estranho, Paulo nunca a usa e o autor de Hebreus só a menciona uma vez. Existe uma simpática lenda sobre Moisés quando fugiu do Egito e cuidou dos rebanhos de Jetro no deserto.
Uma ovelha do rebanho se tinha extraviado. Moisés a seguiu pacientemente e a achou bebendo num arroio (córrego) da montanha. Aproximou-se e a colocou sobre seus ombros dizendo: — “Então foi porque estava sedenta que te extraviaste”. E sem zangar-se pela fadiga que a ovelha lhe tinha causado, levou-a de volta. E quando Deus o viu exclamou: — “Se este homem Moisés tiver tanta compaixão para com uma ovelha extraviada, é precisamente aquele que necessito para caudilho (comandante) de meu povo”.
Um pastor é alguém que está disposto a dar sua vida por suas ovelhas; que suporta a simplicidade das ovelhas e jamais deixa de amá-las. Isto é o que Jesus faz por nós.
[B] – Jesus é aquele que fundou uma Nova Aliança, quer dizer, aquele que fez possível a nova relação entre Deus e o homem.
É Jesus quem nos mostrou como é Deus, e quem nos abriu a porta. Ele apartou o terror e manifestou o amor de Deus.
[C] – Jesus é aquele que morreu.
Para estabelecer esta nova relação, para mostrar aos homens como era Deus, e para abrir o caminho para Ele, requereu-se a vida de Jesus. Nossa nova relação com Deus custou o sangue de Jesus. Ele morreu para nos conduzir a Deus e à vida. Desta maneira termina a carta com algumas saudações pessoais. O autor se desculpa em parte pela extensão de seu escrito. Se tivesse tratado devidamente todos os seus temas nunca teria terminado. Em realidade, a carta é breve — Moffatt assinala que se pode lê-la em voz alta em menos de uma hora — em comparação com a grandeza das verdades eternas e infinitas que aborda. Ninguém sabe o significado da referência a Timóteo, mas soa como se também este tivesse estado detento por causa de Jesus Cristo. E assim finaliza a carta com uma bênção. Desde o início falou da graça de Cristo que abre o caminho a Deus. Agora conclui com uma oração para que essa graça maravilhosa descanse sobre nós.
Paz e graça.
[1] Comentário de Hebreus por William Barclay, p. 199 – 211, Tradução: Carlos Biagini, Título original em inglês: The Letter to The Hebrews.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Brian M. Schwertley | 13 mar 2019 | TEOLOGIA
João Calvino (1509 – 1564) foi o maior teólogo e expositor bíblico da Reforma Protestante. Através da academia teológica em Genebra e de seus muitos escritos, Calvino fez mais do que qualquer um para moldar a doutrina e o culto das Igrejas presbiterianas, reformadas e puritanas. O ensinamento de Calvino quanto ao culto reflete-se claramente em todos os diversos credos e confissões reformados: — A Confissão Francesa (1559), a Confissão Escocesa (1560), a Confissão Belga (1561), o Catecismo de Heidelberg (1536), a Segunda Confissão Helvética (1566), e os Padrões de Westminster (1643 – 1648).
É importante que os crentes que se autodenominam de reformados ou presbiterianos tenham, por várias razões, um certo conhecimento da perspectiva de Calvino sobre o culto (em particular do Princípio Regulador). Em primeiro lugar, porque vivemos dias de sério declínio no que concerne ao culto em muitas das denominações que são consideradas como reformadas. Muitos pastores, mestres e presbíteros das Igrejas reformadas rejeitam, tanto diretamente quanto por subterfúgios, o culto reformado em favor de uma concepção luterana ou episcopal. Segundo, por conta dessa decadência e ignorância tem havido um reducionismo do que significa ser reformado. Tanto para Calvino quanto para Knox, reformado significava mais do que uma soteriologia bíblica, significando também uma concepção bíblica de adoração (isto é, o Princípio Regulador). Hoje o termo reformado é usado para alguém que aceita meramente os cinco pontos do Calvinismo. Assim, temos hoje pastores e organizações que se vangloriam de ser verdadeiramente reformados ou neo–puritanos que, há alguns séculos, atrás teriam sido considerados anti–puritanos e não–reformados. Terceiro, hoje muitos têm a opinião de que a pureza do culto não deveria ser uma das maiores preocupações da Igreja. As pessoas que se preocupam com tais questões são frequentemente desdenhadas. Contudo, Calvino (no que respeita à religião cristã) considerava que o verdadeiro culto a Deus não era superado por nada em ordem de importância. Em “A Necessidade de Reformar a Igreja” ele escreve: ― “Se for questionado, então, quais são os principais motivos pelos quais a religião cristã tem uma duradoura existência entre nós, saber-se-á que os dois a seguir não apenas ocupam o lugar principal, mas compreendem neles todas as outras partes, e consequentemente toda a substância do cristianismo, a saber, o conhecimento, primeiro, do modo pelo qual Deus é devidamente adorado; e, segundo, de que fonte deve-se obter a salvação. Quando essas duas são mantidas fora de perspectiva, embora possamos nos gloriar no nome de cristão, as nossas profissões serão vazias e vãs”.
Segue-se uma série de citações de João Calvino que revelam a sua doutrina sobre o culto. Calvino foi o defensor e principal expositor do que viria a se chamar de Princípio Regulador do Culto.
[1] – Levítico 10:1.
Nadabe e Abiú, filhos de Arão. Registra-se aqui uma notável circunstância, através da qual se evidencia quão grandemente Deus abomina todo pecado que corrompe a pureza da religião. Era aparentemente uma transgressão leve usar fogo estranho para queimar incenso; por outro lado, a atitude impensada deles pareceria inescusável, pois Nadabe e Abiú certamente não desejaram insubordinada e intencionalmente contaminar as coisas sagradas, mas, como é na maioria das vezes em questão de novidade, ao se aplicarem tão avidamente a elas, a precipitação deles os induziu ao erro.
A severidade da punição, entretanto, não agradaria àqueles arrogantes que não hesitam em criticar desdenhosamente dos juízos de Deus; mas se ponderarmos em quão sagrado é o culto a Deus, a enormidade da punição não nos escandalizará de modo alguma. Além disso, era necessário que a religião deles fosse aprovada bem no seu começo, porque se Deus tivesse suportado a transgressão dos filhos de Aarão sem os ter punido, eles haveriam de negligenciar toda a Lei posteriormente.
Esta foi, portanto, a razão de tão grande severidade: — “os sacerdotes deveriam zelar fervorosamente contra toda profanação”. O crime deles foi especificado, a saber, que eles ofereceram incenso numa forma diferente da qual Deus havia designado, e consequentemente, embora tenham errado por ignorância, foram ainda assim declarados culpados pelos mandamentos de Deus, por terem se aplicado negligentemente àquilo que era digno da maior atenção. O fogo estranho distinguia-se do fogo sagrado que estava sempre queimando sobre o altar, não miraculosamente, como o querem alguns, mas pela constante vigilância dos sacerdotes. Agora, Deus havia proibido que se utilizasse qualquer outro fogo nas ordenanças, para excluir todos os rituais estranhos, e para mostrar o seu ódio por tudo que poderia ser proveniente de outra parte qualquer. Aprendamos, portanto, a dar ouvidos aos mandamentos de Deus para não corrompermos o seu culto com qualquer invenção estranha.
Mas se Ele vingou severamente esse erro, quão horrível condenação aguarda os papistas, que não se envergonham de defender obstinadamente tantas corrupções grotescas?
[2] – Levítico 22:32.
Não profanareis. Ao proibir a profanação de seu nome, Ele confirma com outras palavras o sentimento anterior, preservando, por elas, o seu culto de todo tipo de corrupção; para que seja conservado em pureza e integridade. A cláusula que vem imediatamente aposta tem o mesmo objetivo, porque os que não se desviam do culto legítimo e sincero santificam o nome de Deus. Que se observe isso cuidadosamente, sejam quantas forem as invenções dos homens, tantas serão as profanações do nome de Deus; pois embora os supersticiosos possam, pela própria imaginação agradar a si mesmos, toda a religião deles está ainda assim cheia de sacrilégios, pelo que Deus se queixa que a sua santidade é profanada.
[3] – Números 15:39.
E, primeiro que tudo, ao contrastar o coração e os olhos dos homens com a sua Lei, Ele mostra que o seu povo deverá estar satisfeito com o preceito que Ele prescreve, sem misturar com nada da imaginação deles; e, portanto, condena abertamente a futilidade de qualquer coisa que o homem invente para si mesmo, e conquanto lhes pareça agradável qualquer plano humano, Ele continua a repudiá-lo e a condená-lo. E isso está mais claramente explicitado na última palavra, quando Ele diz que os homens andam adulterando sempre que são governados por seus próprios conselhos. Tal declaração é digna da nossa especial atenção, porque enquanto os que cultuam Deus segundo sua própria vontade têm grande auto–satisfação, e enquanto consideram seu próprio zelo como muito bom e legítimo, eles nada mais fazem que se contaminar pelo adultério espiritual. Pois aquilo que o mundo considera ser a mais santa devoção, Deus com a sua própria boca condena como fornicação. Pela palavra olhos Ele quer significar inquestionavelmente a capacidade de discernimento do homem.
[4] – Deuteronômio 4:1.
Agora, pois, ó Israel, ouve. Ele requer que o povo se disponha a aprender, para que aprendam a servir a Deus, pois o princípio de uma vida boa e justa está em conhecer o que é agradável a Deus. A partir daí, então, Moisés começa a ordenar-lhes que procurem atentamente a orientação da Lei, e os admoesta a provarem pela inteireza das suas vidas que eles lograram apropriadamente da Lei. A promessa aqui introduzida, apenas os convida à obediência irrestrita pela esperança da promessa. O ponto central é que eles nada poderiam acrescentar nem diminuir da pura doutrina da Lei, o que não será possível a menos que o homem renuncie primeiramente aos seus sentimentos particulares, e feche os ouvidos a todas as imaginações dos outros. Ninguém, pois, será tido como (verdadeiro) discípulo da Lei, a não ser os que dela obtêm a sua sabedoria. É como se Deus os ordenasse a estarem contentes com os seus preceitos, pois não há outro modo de guardarem a Lei, exceto entregando-se totalmente ao ensinamento dela. Segue-se daí que só obedecem a Deus os que dependem unicamente da sua autoridade, e só honram legitimamente à Lei os que não aceitam nada que se oponha ao seu sentido natural. É uma passagem notável, condenando abertamente tudo aquilo que a ingenuidade humana possa inventar para o culto a Deus.
[5] – Deuteronômio 12:32.
Tudo o que eu te ordeno. Nessa breve cláusula ele [Moisés] ensina que nenhum outro ato de culto a Deus é legítimo, exceto o que tem o testemunho da sua aprovação em sua Palavra, e que a obediência é, por assim dizer, a mãe de toda piedade; é como se ele tivesse dito que todos os modos de devoção, não dirigidos por esse preceito, são absurdos e contaminados pela superstição. Daí deduzimos que a guarda do primeiro mandamento exige o conhecimento do verdadeiro Deus, derivado da sua Palavra, e associado à fé. Ao proibir o acréscimo ou diminuição de qualquer coisa, ele claramente condena como ilegítimo tudo o que os homens inventam pela sua própria imaginação.
[6] – 2 Samuel 6:6 – 12.
Ademais, devemos por isso concluir que nenhuma de nossas devoções serão aceitáveis a Deus a menos que estejam conformadas à sua vontade. Tal preceito lança por terra todas as invenções humanas do assim chamado culto a Deus do papado, que é tão cheio de pompa e tolice. Diante de Deus tudo isso nada mais é que puro lixo e verdadeira abominação. Tenhamos em mente, portanto, essa inequívoca regra: — “querer adorar a Deus segundo as nossas próprias idéias é simplesmente abuso e corrupção”. Antes, pelo contrário, precisamos ter o testemunho da sua vontade para seguirmos e submetermo-nos àquilo que nos tem ordenado. É assim que a adoração que prestamos a Deus será aprovada.
[7] – Isaías 29:13.
No segundo ponto, Deus, ao ser adorado por meio de invenções humanas, condena esse temor como supersticioso, embora os homens se esforcem em disfarçá-lo de pretensa religião, devoção, ou reverência plausíveis. Ele aponta a razão, que é, mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu. Eu considero que “melummadah” tem um sentido de passividade, pois Ele quer dizer que fazer dos mandamentos de homens, e não da palavra de Deus, a regra para adorá-lo, é uma subversão de ordem. A vontade do nosso Deus, entretanto, é que o temor e a reverência com que o adoramos devam ser regulados pela sua Palavra, e Ele não exige mais que uma mera obediência, pela qual devamos nos conformar, e todas as nossas atitudes, à Palavra, sem nos desviarmos para direita ou para a esquerda. Isso prova suficientemente que todos os que aprendem, por meio das invenções dos homens, como deveriam adorar a Deus, não são apenas néscios incontestes, mas desgastam-se em destrutivo labor, pois não fazem mais que provocar a ira de Deus. Ele, portanto, não poderia demonstrar mais claramente quão grande abominação sente pelo falso culto, do que pela tremenda severidade dessa punição.
[8] – Jeremias 7:21 – 24.
Ele acrescenta adiante que andaram nos seus próprios conselhos, e também, na dureza do seu coração maligno. Essa comparação agrava o pecado deles — os judeus preferiram seguir os seus próprios caprichos a obedecerem a Deus e aos seus mandamentos. Se algo tivesse sido colocado diante deles que os houvesse enganado e obscurecido a autoridade da Lei, ainda haveria uma desculpa, mas como nada havia que os impedisse de obedecer ao mandamento de Deus, exceto o seguirem à sua tola imaginação, eles ficaram totalmente inescusáveis. Pois que desculpa poderiam inventar? Que quiseram ser mais sábios que Deus! Que grande loucura foi essa, e quão diabólica? Mas o profeta não lhes deixa escapatória a não ser essa vã escusa, o que duplicou-lhes a culpa. Não há dúvida que pensaram ter seus corações bem ajustados ao propósito, mas ele aqui não lhes permite que julguem, antes os condena clara e merecidamente. Devemos prestar especial atenção a essa passagem, pois a maioria dos homens de hoje opõem as suas próprias fantasias à Palavra de Deus. Na verdade, os papistas pretextam a antiguidade; dizem que foram ensinados por seus antecessores, e ao mesmo tempo patrocinam os concílios e as ordenanças dos pais [da Igreja], contudo não há um deles sequer que não seja apegado às suas próprias invenções, e que não tome a liberdade, ou melhor, a desenfreada libertinagem, de rejeitar o que bem lhe apraz. Além disso, se se levar em conta a origem de todo o culto papal, ficará evidente que os primeiros a criarem tantas superstições estranhas foram movidos somente pela audácia e presunção, para que pudessem calcar aos pés a palavra de Deus. Por isso é que tudo se tornou corrupto, pois introduziram todas as estranhas fantasias de suas mentes. E vemos que os papistas hoje estão tão perversamente arraigados nos próprios erros que preferem a si mesmos, e às suas quinquilharias, a Deus. A situação é a mesma com todos os heréticos. Então, que deve ser feito? Como já disse, deve-se defender a obediência como a base de toda verdadeira religião. Se, então, por outro lado, desejarmos apresentar a Deus o nosso culto por Ele aprovado, aprendamos a lançar fora tudo que for de nós mesmos, de modo que a sua autoridade prevaleça acima de todas as nossas razões.
[9] – Jeremias 7:31.
O que nunca ordenei, nem me passou pela mente. Esse motivo deveria receber cuidadosa atenção, porque nele Deus corta do homem toda a possibilidade de inventar subterfúgios, pois, com uma única frase, Ele condena tudo aquilo que os judeus inventaram: ― O que nunca ordenei. Portanto, não é necessário, além desse, qualquer argumento para se condenar as superstições — que elas não são ordenadas por Deus — pois quando os homens dão a si mesmos o direito de adorarem a Deus segundo as suas próprias concepções fantasiosas, e não obedecem aos seus mandamentos, eles pervertem a verdadeira religião. E se esse princípio fosse adotado pelos papistas, todos aqueles fantasiosos modos de culto, a que absurdamente se aplicam, ruiriam por terra. É verdadeiramente algo horrível que os papistas procurarem se desincumbir de seus deveres para com Deus exercitando as suas próprias superstições. Há um enorme número delas, como bem se sabe, e como claramente se manifestam. Se admitissem esse princípio, que não podemos adorar a Deus corretamente exceto obedecendo a sua Palavra, eles seriam salvos desse seu tão grande abismo de erros. Então, as palavras do profeta são de grande importância, quando ele diz que Deus não ordenou tal coisa, nem jamais passou pela sua mente. É como se tivesse dito que os homens se arrogam muita sabedoria quando inventam o que Ele jamais exigiu, ou melhor, o que Ele jamais soube.
[10] – Jeremias 19:4, 5.
Deus, primeiramente, queixa-se que fora esquecido por eles, porque modificaram o culto que havia sido prescrito em sua Lei. E isso é o que deve ser cuidadosamente considerado, pois nenhum deles estaria disposto a confessar aquilo do que Jeremias acusava a todos; eles haveriam dito: ― Não temos nos esquecido de Deus, porque somos os filhos de Abraão. Mas o que queremos fazer é incrementar o seu culto, e por que isso nos haveria de ser censurado se não estamos satisfeitos com a nossa própria forma simples de adorar a Deus e acrescentamos várias outras formas? E adoramos a Deus não apenas no templo, mas também nesse lugar. Além disso, não poupamos nossos próprios filhos. Mas Deus, com uma única expressão, mostra que essas eram frívolas evasivas, pois Ele só reconhece aquilo que é recebido em obediência ao que Ele determina e ordena. Saibamos que Deus é esquecido tão logo os homens se desviem da sua pura Palavra, e que apostatam todos os que se desviam para cá e para lá, e não seguem ao que Deus aprova. Os judeus devem ter objetado, tal qual os papistas fazem hoje, que os seus modos de adoração não foram criados em seus dias, mas que os derivaram de seus ancestrais. Deus, porém, considerava como nada os reis e patriarcas que há muito tempo atrás se apartaram degeneradamente da verdadeira e genuína religião. Deve-se observar aqui que o conhecimento real está associado à verdade: — pois os que primeiramente inventaram novas formas de culto, seguiram sem dúvida às suas próprias e tolas imaginações; como quando se pergunta hoje aos papistas por que se fatigam tanto com suas superstições, o escudo deles sempre é a boa intenção: ― “Oh, achamos que isso seja agradável a Deus”. Deus, portanto, repudia as invenções deles como totalmente inúteis, pois nada possuem de sólido ou permanente.
[11] – Mateus 15:1.
Fariseus e escribas. Como o erro aqui corrigido não é muito comum, mas altamente perigoso, a passagem merece nossa particular atenção. Vemos a extraordinária insolência que os homens demonstram quanto à forma e à maneira de adorar a Deus; pois estão perpetuamente criando novos modos de culto, e quando alguém quer ser considerado mais sábio que os outros, demonstra a sua capacidade inventiva nesse assunto. Não falo de estranhos, mas dos próprios domésticos da Igreja, daqueles a quem Deus conferiu a honra particular de declararem com seus lábios a “Lei da Piedade”. Deus declarou o modo pelo qual deseja que devamos adorá-lo, e incluiu na sua Lei a perfeição de santidade. Contudo, um grande número de homens, como se obedecer a Deus e guardar o que Ele ordena fosse uma questão leve e trivial, colecionam para si mesmos muitos acréscimos advindos de todo lugar. Os que ocupam posição de autoridade apresentam as suas invenções com esse propósito, como se possuíssem alguma coisa mais perfeita que a Palavra do Senhor. A isso, segue-se o lento crescimento da tirania, pois ao imputarem as si mesmos o direto de exarar mandamentos, eles exigem rígida aderência às suas leis e não permitem que seja posto de lado um til sequer, seja por desobediência ou por esquecimento. O mundo não suporta a legítima autoridade, e rebela-se mais violentamente contra o jugo do Senhor, não obstante é facilmente e de boa–vontade que se embaraça nas ciladas das tradições inúteis; ou melhor, tal escravidão parecer ser, no caso de muitos, um objeto de desejo, ao passo que o culto a Deus, do qual o primeiro e supremo princípio é a obediência, é corrompido. Prefere-se a autoridade de homens aos mandamentos de Deus. As pessoas comuns são forçadas, com severidade e, portanto, tiranicamente, a darem total atenção a ninharias. Essa passagem nos ensina, primeiro, que todos os modos de culto inventados pelos homens não agradam a Deus, porque Ele determina que Ele apenas é que deve ser ouvido, para nos treinar e instruir na verdadeira piedade conforme o seu agrado; segundo, os que não estão satisfeitos com a única Lei de Deus, e se exaurem por obedecer às tradições dos homens, são inutilmente utilizados; terceiro, comete-se um ultraje contra Deus, quando as invenções dos homens são tão altamente exaltadas que a majestade da sua glória fica quase rebaixada, ou pelo menos a reverência a ela, diminuída.
[12] – Mateus 15:9.
E em vão me adoram. As palavras do profeta ocorrem, portanto, literalmente: ― “seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens”. Mas Cristo deu, fiel e exatamente, o sentido de em vão é Deus adorado, quando a doutrina é substituída pela vontade do homem. Por essas palavras, todos os tipos de pretensa religiosidade, como Paulo a denomina (Colossenses 2:23 – NVI) são claramente condenadas. Pois, conforme dissemos, como é Deus que determina que não será adorado de nenhum outro modo exceto conforme à sua própria determinação, Ele não pode tolerar a invenção de outros novos modos de culto. Tão logo os homens permitam a si mesmos vaguearem para além dos limites da palavra de Deus, quanto mais labor e ansiedade demonstrem a adorá-lo, tanto mais pesada é a condenação que trazem sobre si mesmos, porque, por tais invenções, é que a religião é desonrada. Ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Nessas palavras há o que se chama de aposição, pois Cristo lhes declara que erra aquele que apresenta, em lugar da doutrina, os preceitos de homens, ou que procuram achar neles a regra para adorar a Deus. Que se considere, portanto, como princípio estabelecido, visto que Deus tem maior estima pela obediência do que pelos sacrifícios (1 Samuel 15:22, 23), que todos os tipos de culto inventados pelos homens não têm, a seus olhos, a menor valia; mais ainda, que, assim como declara o profeta, eles são malditos e detestáveis.
[13] – Colossenses 2:22, 23.
A síntese é que o culto a Deus, a verdadeira piedade, e a santidade dos cristãos não consistem de bebida, comida e vestes, que são coisas transitórias, passíveis de corrupção e perecem pelo abuso. Porque o abuso se aplica apropriadamente às coisas que se destroem pelo seu uso. É por isso que as ordenanças não têm qualquer valor para as coisas que tendem a suscitar inquietação de consciência. Mas no papado dificilmente encontrar-se-ia qualquer [outro tipo] de santidade, exceto a que consiste das pequenas observâncias de coisas perecíveis. Uma segunda contestação é acrescida — que a origem delas [das ordenanças] está no homem, e não têm Deus como seu Autor; e com esse avassalador argumento ele derruba e aniquila todas as tradições dos homens. Por quê? Este é o raciocínio de Paulo: ― “Aqueles que trazem as consciências em cativeiro agravam a Cristo e esvaziam a sua morte. Pois o que é de humana invenção não compromete a consciência […]”. Observe, entretanto, quais são as cores que, segundo Paulo, compõem essa aparência de sabedoria. Ele menciona três: — culto de si mesmo, falsa humildade, e rigor ascético. Entre os gregos a palavra superstição recebe o nome de “ethelothreskeia” — termo que Paulo usa aqui.
Ele, entretanto, está de olho na etimologia do termo, pois “ethelothreskeia” denota literalmente um ato de culto voluntário, que os homens determinaram por si mesmos por sua própria opção sem a autorização de Deus.
As tradições humanas, portanto, nos são agradáveis, nesse aspecto, que elas são conforme o nosso entendimento, pois qualquer um encontrará na sua própria mente os seus primeiros esboços […]. Deveria ser ponto pacífico entre todos os piedosos que o culto a Deus não deveria ser avaliado segundo a nossa visão, e que, consequentemente, nenhum tipo de culto seria legítimo, tendo por base apenas o que nos é agradável. Também isso deveria ser um ponto pacífico comum — que devemos nos render humildemente a Deus, entregando-nos simplesmente à obediência de seus mandamentos, sem nos estribarmos em nosso próprio entendimento, etc. (cf. Provérbios 3:5) […].
Assim, nos dias de hoje, os papistas não têm falta de pretextos especiosos, através dos quais estabeleçam as suas próprias leis, embora sejam alguns delas ímpias e tirânicas, e outras tolas e levianas. Se, todavia, lhes concedermos tudo, ainda resta, não obstante, esta contestação de Paulo, que é em si mesma mais que suficiente para dispersar todas as suas nuvens de fumaça.
1 – As Institutas da Religião Cristã.
[1] – Imagens e figuras são contrárias à Escritura.
Agora devemos ter mente que a Escritura descreve repetidamente as superstições com essa linguagem: — elas são obras de mãos de homens, sem a autoridade de Deus (Isaías 2:8; 31:7; 37:19; Oséias 14:3; Miquéias 5:13); isso é para estabelecer o fato de que todos os atos de culto que os homens inventam por conta própria são detestáveis.
[2] – A verdadeira religião nos une a Deus como o único e uno Deus.
Mas a piedade, para permanecer num firme pedestal, mantém-se dentro de seus próprios limites. De modo semelhante, a mim me parece que a superstição é assim denominada porque, não satisfeita com o modo e a ordem descritas, empilha uma massa inútil de coisas sem sentido.
[3] – Honrar imagens é desonrar a Deus.
Por meio dessa Lei agrada-lhe prescrever aos homens o que é bom e justo, e assim obrigá-los a um padrão de certeza do qual ninguém pode licenciar-se para inventar qualquer tipo de culto que lhe agradar.
[4] – A suficiência da Lei.
Por outro lado, o Senhor, ao dar a Lei da perfeita justiça, vinculou todas as suas partes à sua vontade, mostrando assim que nada lhe é mais aceitável do que a obediência. Quanto mais inclinada for a engenhosidade enganosa da mente humana para imaginar os mais variados rituais pelos quais possa dEle merecer o bem, tanto, mas diligentemente devemos denunciar esse fato. O melhor remédio para curar tal erro será ter firmemente fixado na mente o seguinte pensamento: — “a Lei foi–nos divinamente entregue para nos ensinar a perfeita justiça; nenhuma outra justiça é nela ensinada além da que é conforme as exigências da vontade de Deus; é inútil, portanto, tentarmos novas formas de obras para obter o favor de Deus, cujo culto legítimo consiste unicamente em obedecer; mais exatamente, todo zelo por boas obras que vagueia do lado de fora da Lei de Deus é uma profanação intolerável da divina e verdadeira justiça”.
[5] – O culto espiritual do Deus invisível.
No mandamento anterior, Ele se declarou o único Deus fora do qual não se pode ter ou imaginar outros deuses. Agora Ele declara mais abertamente que tipo de Deus Ele é, e com que classe de culto deve ser honrado, para que não ousemos atribuir-lhe qualquer coisa carnal. Portanto, o propósito desse mandamento é que Ele não quer que o seu culto legítimo seja profanado por rituais supersticiosos. Em síntese, Ele nos quer apartar totalmente das mínimas observâncias carnais, que a nossa mente estúpida inventa, após imaginarmos rudemente a Deus. E, então, nos faz conformar ao culto legítimo: — que lhe é devido, a saber, um culto espiritual por Ele mesmo estabelecido. Ademais, Ele põe em relevo o mais palpável erro dessa transgressão, que é a idolatria exterior.
[6] – As tradições e invenções humanas no culto, condenadas pela Escritura e pelo próprio Cristo, 23 – 26).
Apelar à autoridade da Igreja contradiz as provas da Escritura. Mas quão importantes achamos que seja para o Senhor ser privado do reino que reivindica tão firmemente por seu? Do qual é privado sempre que é adorado por leis humanamente criadas, posto que quer ser o único legislador de seu próprio culto. E para que ninguém considere a isso como de pouca monta, ouçamos em quão alta estima o Senhor o tem. O Senhor disse: — “Visto que este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu, continuarei a fazer obra maravilhosa no meio deste povo”; sim, obra maravilhosa e, portanto; de maneira que a sabedoria dos seus sábios perecerá, e a prudência dos seus prudentes se esconderá (Isaías 29:13, 14). Outra passagem: ― “em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mateus 15:9). E verdadeiramente a causa dos filhos de Israel se corromperam com tantas idolatrias é atribuída a esta mistura impura pela qual eles transgrediram os mandamentos de Deus e fabricaram novos cultos. Em decorrência disso, é dito posteriormente que eles, atemorizados por esse castigo, adotaram os ritos prescritos na Lei; mas como não estavam adorando com pureza o verdadeiro Deus, diz-se duas vezes que eles o temeram e que eles não o temeram (2 Reis 17:24 – 25, 32 – 33, 41). Pelo que concluímos que uma parte da reverência que lhe é devida consiste simplesmente em adorá-lo da forma que Ele ordena, sem misturar as nossas próprias invenções. E os reis piedosos sempre são louvados pois agiram em conformidade com todos os seus preceitos, e não se desviaram nem para direita nem para a esquerda (cf. 2 Reis 22:1, 2; 1 Reis 15:11; 22:43; 2 Reis 12:2; 14:3; 15:3; 15:34; 18:3). Digo mais, não obstante muitas vezes no culto inventado pelos homens a impiedade não seja claramente vista, ainda assim ela é condenada severamente pelo Espírito, porque desvia-se do preceito de Deus. O altar de Acaz, cujo modelo fora trazido de Samaria (2 Reis 16:10), poderia à primeira vista parecer aumentar a dignidade do templo, porque a intenção de Acaz era oferecer nele sacrifícios ao único Deus, o que parecia fazer-se com mais esplendor do que no altar original. Contudo vemos como o Espírito abomina esse atrevimento pela única e exclusiva razão de que as invenções humanas no culto a Deus são outras tantas corrupções (2 Reis 16:10 – 18). E quanto mais a vontade de Deus nos é revelada, tanto menos inescusável é a nossa ousadia ao tentar alguma coisa.
[7] – O culto maligno é abominação a Deus.
Muitos se maravilham de que o Senhor ameace severamente com tão horríveis castigos o povo que o adorava com mandamentos de homens (Isaías 29:13, 14), e declare que em vão é adorado por preceitos humanos (Mateus 15:9). Mas se eles levassem em conta o que é depender exclusivamente das determinações de Deus em questões de religião (que é prerrogativa da sabedoria divina), compreenderiam de uma vez as razões pelas quais o Senhor abomina tais rituais perversos, que lhe são oferecidos segundo a vontade da natureza humana. Pois, ainda que neles haja alguma aparência de humildade na obediência às leis desse culto a Deus, eles, não obstante, em nada são humildes aos olhos de Deus, pois impõem a si mesmos essas mesmas leis a que obedecem. E esta é a razão pela qual Paulo nos admoesta tão diligentemente para não sermos enganados por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo as tradições dos homens (Colossenses 2:4 e seguintes], nem por aquilo que ele chama de “ethelothreskeia”, que é culto de si mesmo, inventado pelo homem à parte do ensinamento de Deus (Colossenses 2:23, 22). Assim é certamente. E é necessário que a nossa sabedoria, bem como a de todos os homens, seja tida por loucura, para que Ele seja reconhecido como o único sábio. Este, sem dúvida, não é o caminho adotado pelos que, com as suas tradições inventadas pelos caprichos dos homens, querem forçar uma fingida obediência a Deus, que é, na verdade, unicamente prestada aos homens.
[8] – Réplica à contraprova romanista.
Enfim, qualquer nova invenção com que os homens procuram honrar a Deus, nada mais é que uma contaminação da verdadeira santidade — As leis e tradições da Igreja, e a consciência cristã diante de Deus.
[9] – A questão básica.
É esta a questão a ser discutida: — se a Igreja tem ou não o legítimo direito de obrigar as consciências com as suas leis. Tal discussão não se refere à ordem política, mas preocupa-se apenas com o modo pelo qual Ele ordenou como deve ser devidamente adorado, e pelo modo como se deve preservar a liberdade espiritual que se refere a Deus. Tem-se tornado costume chamar de tradições humanas a todas as disposições relativas ao culto a Deus criadas pelos homens, à parte da sua Palavra. O nosso argumento é contra essas coisas, não contra as santas e úteis determinações da Igreja que servem para a preservação da disciplina, da honestidade ou da paz.
[10] – Orientações para determinar que constituições humanas são inadmissíveis.
Paulo emprega a primeira razão quando contende, na carta aos colossenses, contra os falsos apóstolos que procuravam oprimir as Igrejas com novas cargas (Colossenses 2:8). Ele usa a segunda razão na carta aos gálatas, num caso semelhante (Gálatas 5:1 – 12). Coerentemente, ele argumenta na carta aos colossenses que não devemos buscar no homem a verdadeira doutrina do culto a Deus, porque Deus tem fiel e plenamente nos instruído de que modo devemos adorá-lo. Para provar isso, ele diz no primeiro capítulo que o Evangelho contém toda a sabedoria pela qual o homem de Deus é aperfeiçoado em Cristo (Colossenses 1:28). No começo do segundo capítulo ele declara que todos os tesouros da sabedoria e do entendimento estão ocultos em Cristo (Colossenses 2:3). Disso logo conclui que os fiéis devem estar vigilantes para não se apartarem do aprisco de Cristo por causa da sedução da vã filosofia, conforme as ordenanças de homens (Colossenses 2:8). Mas, no final do capítulo, ele condena mais vigorosamente toda religião auto–imposta, isso é, a todo culto fingido, que os homens criaram por si mesmos ou receberam de outros, e a todos os preceitos que se atrevem a promulgar no que respeita ao culto a Deus (Colossenses 2:16 – 23) — Constituições eclesiásticas que autorizam cerimônias no culto são tirânicas, frívola e contrárias à Escritura.
[11] – Segundo esse princípio, as constituições romanas devem ser rejeitadas.
Ainda não falei das graves abominações com que eles têm se esforçado para destroçar toda a piedade. Com certeza não considerariam como crime tão atroz a falta de obediência, até mesmo à menor das tradições, se não cressem que o culto divino consiste dessas suas ficções. Portanto, que pecado cometemos se não queremos aceitar que a maneira legítima de servir a Deus seja ordenada pelo capricho dos homens, o que Paulo ensinou ser intolerável? Principalmente quando nos ordenam a adorar a Deus segundo “os rudimentos do mundo” (Colossenses 2:20), dos quais, testifica Paulo, são contra Cristo. Ademais, é bem sabido com que rigor extremo obrigam as consciências à obedecerem a tudo quanto ordenam. Quando nos opomos a isso, fazemos causa comum com Paulo, que não queria permitir de forma alguma que as consciências dos fiéis se submetessem aos caprichos dos homens (Gálatas 5:1).
[12] – As constituições papais negam a lei de Deus.
Mas há ainda algo pior. Uma vez que se tenha começado a definir a religião com essas tão vãs ficções, tal iniquidade é sempre acompanhada de uma outra odiosa impiedade, razão por que Cristo repreendeu os fariseus. É que eles tornavam nulos os mandamentos de Deus por causa das tradições dos homens (Mateus 15:3). Não quero contender com os nossos presentes legisladores usando as minhas próprias palavras; que prevaleçam, digo eu, se puderem de qualquer forma ficar limpos da acusação de Cristo.
[13] – As constituições papais são vazias e inúteis.
Eu sei que a minha descrição delas como tolas e inúteis não serão críveis à sabedoria da carne, que tem tanto deleite nelas que veria a Igreja como totalmente desfigurada se dela fossem retiradas. Mas isso é o que Paulo escreve: ― “Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético, e por isso, por causa do seu rigor, parecem ser capazes de dominar a carne” (Colossenses 2:23). Jamais deveríamos nos esquecer dessa salutar advertência! As tradições humanas, diz ele, ocultam o engano sob a aparência de sabedoria. De onde procede essa aparência enganosa? Do fato de terem sido inventadas por homens. O espírito humano reconhece nelas o que é propriamente seu e, uma vez reconhecido, abraça-o com mais prazer do que a qualquer outra coisa verdadeiramente excelente, mas não tão de acordo com a sua vaidade. Além disso, por se afigurarem capazes de refrear os deleites da carne, e a sujeitá-la a rigorosa abstinência, parecem ter sido sabiamente criadas. Mas, que diz Paulo quanto a isso? Rasga ele as suas máscaras, para que os ingênuos não sejam iludidos pela falsa aparência delas? Ao contrário, como pensava que era bastante contestá-las como invenções humanas, passou de largo sem nem as mencionar, como se as considerasse de nenhum valor (Colossenses 2:22). Paulo sabia, de fato, que todas as maneiras de servir a Deus inventadas pelos homens estavam condenadas, e que, quanto mais deleite propiciasse à natureza humana, mais tidas por suspeita seria aos fiéis; ele sabia que a falsa aparência de humildade exterior está tão distante da verdadeira humildade quanto é facilmente reconhecida como tal; ele, por fim, sabia que a disciplina elementar não deve ser mais estimada do que o sacrifício corporal. Ele queria que essas mesmas coisas — razão pela qual as tradições humanas eram tão estimadas pelos homens — servissem aos fiéis para contestá-las.
[14] – Aplicações gerais das percepções comuns.
Porque sempre que entra no coração dos homens a superstição de querer adorar a Deus com as suas próprias invenções, todas as leis decretadas com esse propósito degeneram imediatamente nesses graves abusos. Porque Deus não ameaça apenas a uma ou outra era, mas a todos os séculos e eras com essa maldição: — “perecerá a sabedoria e desvanecerá a inteligência de todos os que o adorarem com doutrinas de homens” (Isaías 29:13, 14). Essa cegueira é a causa daqueles que menosprezam as tantas advertências de Deus, e espontaneamente se enredam nessas armadilhas mortíferas, abraçarem todo tipo de absurdo. Mas se, deixarmos de lado as circunstâncias atuais, queiramos apenas compreender quais são as tradições de todas as épocas que deveriam ser repudiadas pela Igreja e por todos os homens piedosos, veremos que é certa e clara a definição de que são leis à parte da Palavra de Deus, leis feitas pelos homens, tanto para prescrever o modo de adorar a Deus quanto para subjugar as consciências, como se fossem coisas necessárias à salvação. Mas, no presente caso, suponha-se que, deixando de lado todas as máscaras e disfarces, atentássemos verdadeiramente para aquilo que deveria ser a nossa primeira preocupação e que é de grande importância para nós, isso é, o tipo de Igreja que Cristo queria para que pudéssemos nos moldar e ajustar ao padrão dela. Veríamos, então, facilmente que não é Igreja a que, ultrapassando os limites da palavra de Deus, formula, a seu irresponsável capricho, novas leis. Não foi a lei, uma vez dada à Igreja, instituída perpetuamente como boa? “Tudo o que eu te ordeno observarás; nada lhe acrescentarás, nem diminuirás” (Deuteronômio 12:32). E em outra passagem: ― “Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso” (Provérbios 30:6). Como não podem negar que isso foi dito à Igreja, que outra coisa, fazem senão apregoar a sua rebeldia, da qual vangloriam-se a ponto de que, mesmo depois dessas proibições, atrevem-se a acrescentar e misturar sua própria fantasia à doutrina de Deus?
Longe de nós esteja, assentir com a falsidade deles, pelas quais trazem tamanho insulto à Igreja! Compreendamos o quão falsamente se pretende o nome de ― Igreja sempre que se trata desse apetite e desejo dos homens — que não conseguem conservar-se dentro dos limites determinados por Deus, sem que, insolentemente, corram após as suas próprias invenções.
Nada há envolto, obscuro ou ambíguo nas palavras que proíbem à Igreja universal acrescentar ou subtrair qualquer coisa da palavra de Deus, quando estão envolvidos o culto ao Senhor e os preceitos de salvação. O Senhor, que há muito tempo atrás declarou que nada o ofendia mais do que ser adorado por rituais humanamente inventados, não se tornou falso a si mesmo.
[15] – As constituições romanas não remontam aos apóstolos, tampouco à “tradição apostólica”.
Mas remontar a origem dessas tradições (com as quais a Igreja tem sido desde então oprimida) aos apóstolos é pura falsidade e engano. Porque toda a doutrina dos apóstolos tem esse objetivo: — “não sobrecarregar as consciências com novas observâncias, nem contaminar o culto a Deus com as nossas próprias invenções”. Portanto, se houver na história e nos antigos registros algo digno de crédito, os apóstolos não somente ignoravam aquilo que os romanistas atribuem a eles, como sequer o ouviram.
Confissão de Fé em nome das Igrejas Reformadas da França (1662).
[1] – Do culto de Deus.
Agora — em conformidade com a sua declaração de que obedecer é melhor que sacrificar (1 Samuel 15:22), associada à sua imutável injunção para darmos ouvido ao que Ele ordena — se tivéssemos que oferecer da nossa parte um sacrifício designado e aceitável, argumentaríamos que não nos cabe inventar o que nos parecer bom, nem obedecer ao que pode ter sido inventado pela mente de outra pessoa, mas limitar-nos-íamos simplesmente à pureza da Escritura. Porquanto cremos que nada que dela proceda, mas que tenha sido apenas ordenado por autoridade de homem, não é digno de ser considerado como culto a Deus. O segundo axioma é que, quando supomos poder servir a Deus ao nosso próprio modo, Ele o repudia como corrupção. É essa a razão por que Ele exclama através do profeta Isaías que toda a verdadeira religião tem sido pervertida ao se obedecer aos mandamentos de homens (Isaías 29:13). E nosso Senhor Jesus Cristo confirma o mesmo ao dizer que em vão haveríamos de conhecer a Deus por meio das tradições humanas (Mateus 15:9). É, portanto, com boa razão, que a sua supremacia espiritual sobre as nossas almas permanece inviolável, e que nas mínimas coisas a sua vontade, assim como um cabresto, conduzirá nossas devoções.
[2] – Da tradição humana.
Temos nesta questão advertências tão notáveis da experiência comum, que estamos cada vez mais convencidos a não traspassar os limites da Escritura. Pois desde que os homens começaram a criar leis para regularem o ato de culto a Deus e subjugarem a consciência, não há mais fim nem conta delas, ao passo que, por outro lado, Deus tem punido tal temeridade, cegando-os com ilusões tais que podem fazê-los estremecer. Quando nos prestamos a examinar de perto o que são realmente as tradições humanas, descobrimos que são um abismo, e que o número delas é infindável. E há, contudo, abusos tão absurdos e enormes, que é espantoso o quanto os homens são estúpidos — não fosse Deus ter levado a efeito a vingança que anunciou pelo seu profeta Isaías, cegando e enfatuando o sábio que pretendesse adorá-lo observando mandamentos de homens (Isaías 29:14).
[3] – Das intenções idólatras.
Desde que os homens se apartaram da pura e santa obediência a Deus, descobriram que as boas intenções eram suficientes para aprovar qualquer coisa. Isso foi o escancarar da porta para todo tipo de superstições. Tem sido a origem do culto às imagens, da compra de missas, do encher da Igreja de pompa e ostentação, de correr daqui para lá em peregrinações, de fazer promessas por tudo que está ao alcance. Mas o abismo aqui é tão profundo que nos basta apenas citar alguns exemplos. Honrar a Deus por meio de humanas invenções está tão longe de ser legítimo que não haveria firmeza, nem certeza, terra firme ou ancoradouro na religião: — “tudo haveria de soçobrar (naufragar), e o cristianismo em nada seria diferente das idolatrias dos pagãos”.
A necessidade de Reformar a Igreja (1544).
Além do mais, a regra que faz a distinção entre o culto puro e o corrompido é de universal aplicação, para que não possamos adotar qualquer recurso que pareça adequar-se a nós mesmos, mas para atentarmos às injunções d‘aquele que é o único apto a prescreve-las. Portanto, se pretendemos ter a sua aprovação à nossa adoração, esse estatuto, que Ele em todo lugar reitera com o maior rigor, tem que ser cuidadosamente obedecido. Há uma dupla razão pela qual o Senhor, ao condenar e proibir todo culto fictício, exige que obedeçamos apenas à sua voz. A primeira tende grandemente a estabelecer a sua autoridade de modo que não sigamos nosso próprio arbítrio, mas dependamos inteiramente da sua soberania; e, em segundo lugar, a nossa insensatez é tanta que, ao sermos deixados livres, tudo de que somos capazes de fazer é desviarmo-nos. E uma vez que tenhamos nos apartado da reta vereda, não terá fim a nossa peregrinação, até que estejamos soterrados sob uma multidão de superstições. Portanto — para fazer valer o seu direito de domínio absoluto — é merecidamente que o Senhor impõe com rigor aquilo que Ele quer que façamos e rejeita, de pronto, todos os meios humanos em desacordo com seu mandamento. É também com justiça que define expressamente quais sejam os nossos limites, para que não nos seja permitido — ao inventarmos perversos modos de culto — provocar a sua ira contra nós. Bem sei quão difícil é persuadir o mundo de que Deus desaprova todos os modos de culto não sancionados expressamente pela sua Palavra. A persuasão oposta, que se lhes entranha, por assim dizer, nas suas próprias juntas e medulas, é de que tudo aquilo que fazem — desde que apresente algum tipo de zelo pela honra de Deus — tem em si mesmo aprovação suficiente. Mas Deus não apenas considera infrutífero, como também abomina totalmente, tudo o que por nossa própria conta consideramos ser zelo pelo seu culto. E se estiver em oposição ao seu mandamento, o que ganhamos indo contra ele? As palavras de Deus são claras e distintas: ― “o obedecer é melhor do que o sacrificar” (1 Samuel 15:22), “em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mateus 15:9). Qualquer acréscimo à sua Palavra, especialmente nessa questão, é uma mentira. O mero ― culto de si mesmo (“ethelothreskeia”) é vaidade. É esse o veredito, e uma vez que o juiz haja decidido, não há mais o que debater. Havendo notado que a Palavra de Deus é o teste que distingue entre o seu culto verdadeiro e aquilo que é falso e corrompido, prontamente inferimos que a forma total do culto divino dos dias presentes, de modo geral, nada mais é que pura corrupção. Pois os homens não atentam ao que Deus ordenou, ou ao que Ele aprova, para poder servi-lo de modo apropriado, mas dão a si mesmos o direito de inventar modos de culto, e depois os impõem a Ele como substituto à obediência. Se pareço exagerar o que digo, que sejam examinados todos os atos pelos quais geralmente supõe-se adorar a Deus. Atrevo-me a deixar de fora a décima parte deles, como se não fosse o fruto à toa das suas próprias mentes. Que mais haveríamos de considerar? Deus rejeita, condena, abomina toda adoração fictícia, e usa a sua Palavra como cabresto para nos manter em absoluta obediência. Quando sacudimos de nós esse jugo, andamos erráticos após as nossas próprias fantasias e lhe oferecemos um culto, obra da precipitação humana, que, por mais que nos possa deleitar, é, à sua vista, frivolidade, ou antes, vileza e corrupção. Os advogados das tradições humanas descrevem-nas com belas e aparatosas cores, e Paulo certamente admite que eles portam uma certa aparência de sabedoria; mas como Deus valoriza a obediência mais que a todos os sacrifícios, o fato de não ser sancionado pelo mandamento de Deus deveria ser razão suficiente para a rejeição de qualquer modo de culto. Por havermos, com respeito ao culto, eliminado as observâncias vazias e infantis e adorado a Deus mais simplesmente, nossos adversários logo nos acusam de tendermos tão–somente à hipocrisia. Os fatos atestam que nada detratamos do culto espiritual a Deus. Pelo contrário, quando [algo] havia grandemente caído em desuso, nós o restabelecemos às suas antigas prerrogativas. O pior de tudo, entretanto, é que, não obstante tenha Deus com tanta frequência e rigor interditado todos os modos de culto prescritos pelo homem, a única forma de adoração que lhe foi prestada consistiu de invenções humanas. Que base têm, então, nossos inimigos para vociferarem que quanto a isso nós abandonamos a religião? Primeiro, não participamos minimamente em nada daquilo que Cristo condena como sem valor, quando declara ser inútil adorar a Deus com as tradições humanas. A coisa, talvez, teria sido mais fácil de suportar se a única consequência dela fosse apenas a perda dos esforços humanos em prol de um culto inútil; mas como, segundo tenho chamado a atenção, Deus em muitas passagens proíbe qualquer novo culto desprovido da sanção da sua Palavra, e declara-se gravemente ofendido pela presunção de tal culto inventado, ameaçando-o de severa punição, fica claro que a reforma que temos introduzido foi exigida por uma forte necessidade. Não estou inadvertido de quão difícil é persuadir o mundo de que Deus rejeita e até mesmo abomina tudo que, relativamente a seu culto, é inventando pela razão humana. O erro desse item deve-se a várias razões: ― “todo mundo tem-se em alta conta”, diz o antigo provérbio. Por essa causa é que o fruto da nossa própria mente nos delicia, e, além disso, como admite Paulo, esse pretenso culto tem aparência de sabedoria. Portanto, como tem ele em grande parte um esplendor exterior agradável à vista, é mais aprazível à nossa natureza carnal do que somente aquele que Deus requer e aprova, mas que é menos ostentoso. Entretanto, no julgamento dessa questão, nada há mais cegante e enganoso ao entendimento dos homens do que a hipocrisia. Embora demande-se dos verdadeiros adoradores a entrega do coração e da mente, os homens estão sempre querendo inventar um modo de servir a Deus com característica totalmente diferentes, sendo o objetivo deles, cumprirem em seu favor alguma observância física, mantendo a mente em si mesmos. Além disso, imaginam que por terem lhe forçado essa pompa exterior, ficaram, através desse artifício, livres se darem a si mesmos. Esta é a razão pela qual submetem-se a inumeráveis observâncias que os fatigam miseravelmente, sem medida e sem fim, e por que preferem andar erráticos num labirinto perpétuo, em vez de simplesmente adorarem a Deus em espírito e em verdade. Como poderíamos, sem que pecássemos, deixar de repreender a zombaria que é adorar a Deus com nada mais que gesticulações exteriores e fantasias humanas? Sabemos o quanto Ele odeia a hipocrisia, contudo ela imperava no culto fictício que se praticava em toda parte. Ouvimos os tão amargos termos com os quais o profeta protesta veementemente contra todo tipo de culto fabricado pela precipitação humana. Todavia uma boa intenção — isto é, uma insana licença para o homem ousar o que bem lhe aprouver — era considerada a perfeição da adoração. Pois é certo que no todo do culto que se havia firmado, dificilmente existia uma única observância que possuísse sansão autoritativa da palavra de Deus. Não devemos, quanto a essa questão, apoiar-nos em nosso próprio juízo, ou no de outros homens. Precisamos escutar a voz de Deus, e ouvir a sua consideração quanto a profanação do culto que se dá quando os homens, ultrapassando os limites da sua Palavra, atiram-se à larga em suas próprias invenções. As razões que Ele dá para punir os israelitas com cegueira, após terem perdido a pia e santa disciplina da Igreja, são duas, a saber, o predomínio da hipocrisia, e o ― “culto de si mesmo” (“ethelothreskeia”) significando assim uma forma de culto planejada pelos homens.
O verdadeiro método de se conceder paz à cristandade e reformar a Igreja (1548).
Devemos acrescentar que o conhecimento dessa questão demanda a sua própria explicação. Há dois aspectos principais. Primeiro, temos que assumir que o culto espiritual a Deus não consiste de cerimônias exteriores nem de quaisquer outros tipos de obras, sejam quais forem; e segundo, nenhum culto é legítimo a menos que seja formulado de tal maneira que tenha por sua única regra a vontade d‘aquele a quem é celebrado. Ambas essas proposições são absolutamente necessárias. Como nossos sentidos não vão além de nós mesmos e do mundo material, assim também avaliamos Deus por nós mesmos. É por essa razão que sempre nos deleitamos mais na aparência exterior, que não tem qualquer valor à vista de Deus, do que no íntimo culto do coração, que somente Ele aprova e exige. Por outro lado, é notória a libertinagem das nossas mentes, que prolifera, especialmente nessa época, onde nada tem sido suficientemente atrevido. Os homens se dão o direito de imaginar todos os tipos de culto, e de moldá-los e remodelá-los ao seu bel–prazer. Não é pecado exclusivo à nossa era, pois desde o princípio que o mundo porta-se licenciosamente assim para com Deus. Ele mesmo proclama que não há nada que valorize mais do que à obediência (1 Samuel 15:22). Por essa razão, a todos os modos de culto ideados contrariamente ao seu mandamento, Ele não apenas os reputa por vazios, mas condena claramente. Que necessidade tenho eu de aduzir provas numa questão tão óbvia? Passagens com esse sentido deveriam ser proverbiais entre os cristãos.
Breve formulação de uma Confissão de Fé.
Eu confesso que toda a regra do justo viver, como também da instrução em fé, estão majoritariamente consignadas nas Sagradas Escrituras, às quais, sem criminalidade, nada pode ser acrescentado nem subtraído. Por essa razão aborreço tudo que, da imaginação dos homens, poderia ser-nos imposto como artigos de fé, e nos obrigar a consciência por meio de leis e estatutos. E, portanto, repudio em geral tudo que tem sido introduzido no culto a Deus sem a autoridade da Palavra de Deus. Dessa sorte são todas as cerimônias papistas. Em resumo, abomino o jugo tirânico pelo qual as consciências miseráveis têm sido opressas — como a lei das confissões auriculares, celibato, e outras da mesma espécie.
Carta a Edward Seymour, Conde de Hertford, Duque de Somerset, Regente da Inglaterra durante e Menoridade de Edward VI (1548).
Glorificado seja Deus, que não necessitais aprender qual seja a verdadeira fé dos cristãos, e a doutrina que devem defender, parecendo que pelo vosso meio a verdadeira pureza da fé tem sido restaurada. Isso é, que consideramos a Deus como o único governante das nossas almas; que consideramos a sua Lei como a única regra e diretório para as nossas consciências, não o servindo segundo as tolas invenções de homens; que também segundo a sua natureza deve ser adorado em espírito e pureza de coração. Por outro lado, reconhecendo que nada há em nós mesmos exceto toda miséria, e que somos corruptos em todos os nossos sentimentos e afeições, de forma que as nossas almas são um vero abismo de iniquidade, totalmente sem esperança em nós mesmos; e que, havendo exaurido toda a presunção da nossa própria sabedoria, valor, ou poder em fazer o bem, devemos recorrer à fonte de toda a bênção, que está em Jesus Cristo.
“[…] é Deus que estatui que não será adorado de nenhum outro modo exceto conforme à sua própria determinação, Ele não pode tolerar a invenção de outros novos modos de culto. Tão logo os homens permitam a si mesmos andarem errantes para além dos limites da palavra de Deus, quanto mais labor e ansiedade demonstrem em adorá-lo, tanto mais pesada é a condenação que trazem sobre si mesmos, porque, por tais invenções, é que a religião é desonrada” (João Calvino).
Paz e graça.
[1] Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, 1ª Edição — Março de 2001, Traduzido do original em inglês: Sola Scriptura and the Regulative Principle of Worship de Brian M. Schwertley, Editora Os Puritanos, p. 85 – 102.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por William Barclay | 16 fev 2019 | TEOLOGIA
Romanos 16:1, 2.
Quando uma pessoa está buscando um novo emprego ou uma nova posição, geralmente apresenta referências ou um testemunho de alguém que a conhece bem e que pode certificar seu caráter e sua capacidade. Quando uma pessoa vai viver em algum povo desconhecido, frequentemente leva consigo alguma carta de apresentação de alguém que conhece alguma pessoa nesse povo. No mundo antigo estas cartas eram muito comuns. Eram conhecidas como “sustatikai epistolai”, cartas de recomendação ou apresentação. Ainda conservamos muitas destas cartas escritas em papiros, e recuperadas dentre montões de lixo enterrados nas areias do deserto no Egito.
Um tal Mystarión, olivicultor egípcio, enviou a seu servo com um recado para o Stotoetis, um sumo sacerdote, e lhe deu uma carta de apresentação:
“Mystarión a seu Stotoetis, muitas saudações. Envio a você meu Blasto por veredas para meu olival. Veja, pois, para não demorar, porque sabe quanto o necessito a toda hora. A Stotoetis, sumo sacerdote da ilha”.
Esta é uma carta de recomendação para apresentar a Blasto, que foi com um recado. Assim Paulo escreve para apresentar a Febe à Igreja em Roma. Febe procedia de Cencréia, que era o porto de Corinto. Algumas vezes é chamada diaconisa, mas não é provável que ocupasse o que poderíamos chamar uma posição oficial na Igreja. Pode não ter havido época na Igreja cristã em que o trabalho das mulheres não fosse de infinito valor. E deve ter sido especialmente assim nos dias da Igreja primitiva. No caso do batismo, na visita aos doentes, na distribuição de mantimentos aos pobres, as mulheres devem ter desempenhado uma grande parte na vida e o trabalho da Igreja, mas naquele tempo não tinham nenhuma posição oficial. Paulo encomenda a Febe às boas-vindas da Igreja de Roma. Pede às pessoas de Roma que a recebam como as pessoas dedicadas a Deus devem receber umas às outras. Não deveria haver estranhos na família de Cristo; entre os cristãos não deveriam ser necessárias as apresentações formais, porque certamente eles são filhos e filhas do mesmo Pai, e, portanto, irmãos entre si. Mas, contudo, uma Igreja não é sempre a instituição acolhedora que deveria ser. É possível que as Igrejas, e ainda mais as organizações eclesiásticas, cheguem a ser pequenas camarilhas, quase pequenas sociedades fechadas que não têm verdadeiro interesse em receber ao estranho. Quando um estranho chega entre nós, o conselho de Paulo até segue sendo bom: — “recebam ao tal da maneira que as pessoas dedicadas a Deus devem receber umas às outras”.
1 – A casa que era Igreja — Romanos 16:3, 4.
Não há no Novo Testamento um casal mais fascinante que Priscila e Áquila. Priscila é um diminutivo afetuoso da Prisca. Comecemos com os fatos a respeito sobre eles dentre os que estamos seguros. Aparecem pela primeira vez em Atos 18:2. Por esta passagem sabemos que anteriormente estavam residindo em Roma. Cláudio promulgou um decreto, em 52 d.C., expulsando os judeus de Roma. O anti–semitismo não é uma coisa nova, e os judeus foram odiados no mundo antigo como eles são frequentemente odiados hoje em dia. Quando os judeus foram expulsos de Roma, Priscila e Áquila se radicaram em Corinto. Eram fabricantes de tendas, que era o mesmo ofício de Paulo, e ele encontrou um lar com eles. Quando Paulo deixou Corinto e foi a Éfeso, Priscila e Áquila foram com ele e se radicaram ali (Atos 18:18). O primeiro incidente que deles se relata os caracteriza. Tinha chegado a Éfeso aquele douto e brilhante Apolo; mas por então Apolo não tinha uma completa compreensão e apreciação da fé cristã; assim Priscila e Áquila o levaram a sua casa e lhe brindaram amizade e instrução na fé cristã (Atos 18:24 – 26). Desde o começo Priscila e Áquila foram pessoas que conservaram um coração aberto e uma porta aberta. A vez seguinte que ouvimos falar já deles estão em Éfeso. Paulo escreveu sua primeira carta aos coríntios de Éfeso e nela envia saudações de Priscila e Áquila e da Igreja que está em sua casa (1 Coríntios 16:10). Isto foi muito antes dos dias em que chegaria a haver tal coisa como edifícios especiais para as Igrejas; e o lar da Priscila e Áquila servia como lugar de reunião para um grupo de cristãos. Quando voltamos a ouvir falar deles estão aqui em Roma. O decreto de Cláudio, pelo qual os judeus tinham sido expulsos, tinha deixado de ter vigência e Priscila e Áquila não duvidaram, como muitos outros judeus, em voltar para seu antigo lar e a seus antigos negócios. E mais uma vez descobrimos que são exatamente os mesmos: — “outra vez há uma Igreja, um grupo de cristãos que se reúne em seu lar”. Em outra ocasião, pela última vez, aparecem em 2 Timóteo 4:19, e mais uma vez estão em Éfeso; e uma das últimas mensagens que possivelmente Paulo tenha enviado foi uma mensagem de saudação a este casal de cristãos que tinham passado tantas coisas com ele. Priscila e Áquila viviam uma curiosa vida nômade e instável. O próprio Áquila tinha nascido no Ponto, na Ásia Menor (Atos 18:2). Encontramo-los primeiro residindo em Roma, logo em Corinto, logo em Éfeso, logo depois de volta a Roma, e logo finalmente de volta a Éfeso; mas em qualquer lugar os encontremos, achamos que seu lar é um centro de comunidade e serviço cristão. Cada lar deveria ser uma Igreja, porque uma Igreja é um lugar onde habita Jesus. O lar da Priscila e Áquila, em qualquer lugar estivesse, irradiava amizade, comunhão e amor. Se alguém for um estranho em um povo estranho ou em um país estranho, uma das coisas mais valiosas do mundo é ter um lar aonde ir. Tal lar tira a solidão e protege da tentação. Às vezes pensamos a respeito de um lar como de um lugar com a porta fechada, um lugar ao qual podemos entrar e fechar a porta e deixar o mundo fora; mas também um lar deveria ser um lugar com uma porta aberta. Porta aberta, mão aberta e coração aberto são as características da vida cristã. Isto é o que sabemos a respeito de Priscila e Áquila; mas pode ser até que haja um romance maior em sua história. Até hoje, há em Roma uma Igreja da Santa Priscila em Aventino. Há também um cemitério de Priscila. Agora, este cemitério é o lugar de sepultura de uma antiga família romana conhecida como a família Aquiliana. Nele jaz sepultado Aquilio Glabro. Aquilio Glabro foi cônsul de Roma, em 91 d.C., e esta era a mais alta função que Roma podia lhe oferecer; e parece extremamente provável que este Aquilio Glabro tenha morrido como um mártir cristão. Deve ter sido um dos primeiros grandes romanos que veio a ser cristão e sofrer por sua fé. Agora, quando as pessoas recebiam sua liberdade no Império Romano, anexava-as a uma das grandes famílias e tomavam um dos nomes da família como seu nome. Um dos nomes femininos mais comuns na família Aquilina era Priscila; e Aquilio é muito semelhante a Áquila. Aqui nos enfrentamos com duas fascinantes possibilidades:
[1] – Possivelmente Priscila e Áquila receberam sua liberdade de parte de algum membro da família Aquiliana, na qual poderiam ter sido escravos. Poderia ser que estas duas pessoas tenham semeado a semente do cristianismo naquela família de modo que um dia um membro dela — Aquilio Glabro, nada menos que um cônsul romano — chegasse a ser cristão? Poderia ser que o cristianismo alcançasse às mais altas pessoas no Estado Romano porque Priscila e Áquila o levaram primeiro à família da qual tinham saído?
[2] – Há uma possibilidade ainda mais romântica. É uma coisa estranha que, em quatro das seis menções deste casal no Novo Testamento, Priscila é nomeada antes que seu marido. Normalmente o nome do marido deveria vir primeiro; nós dizemos “senhor e senhora”. Mas neste caso o nome da Priscila precede regularmente ao nome de seu marido. Existe justamente a possibilidade de que isto se deva a que Priscila mesma não seria uma liberta, mas uma grande dama, realmente um membro por nascimento da família Aquiliana. Poderia ser que, em alguma reunião dos cristãos, esta grande dama romana se encontrasse com Áquila, o humilde judeu fabricante de tendas, que os dois se apaixonassem, que o cristianismo destruíra as barreiras de raça e posição e riquezas e nascimento, e que ambos, a aristocrata romana e o artesão judeu, se unissem para sempre no amor cristão e no serviço cristão. Destas especulações nunca poderemos estar seguros, mas sim podemos ter certeza de que muitos em Corinto, em Éfeso e em Roma deviam suas almas a Priscila e Áquila e àquele lar que era uma Igreja.
2 – Para cada nome uma recomendação — Romanos 16:5 – 11.
Sem dúvida atrás de cada um destes homens há uma história que é um romance em Cristo. Não conhecemos nenhuma dessas histórias, mas em alguns casos podemos conjeturar e especular. Neste capítulo há vinte e quatro nomes individuais. Há duas coisas interessantes para notar.
[1] – Dos vinte e quatro, seis são mulheres. Isto é digno lembrar-se, porque frequentemente se acusa a Paulo de menosprezar a situação das mulheres na Igreja. Se quisermos realmente ver a atitude de Paulo para com as mulheres na Igreja, deveremos ler uma passagem como esta, onde sua apreciação pelo trabalho que elas podiam fazer na Igreja brilha e reluz através de suas palavras.
[2] – Dos vinte e quatro nomes, treze aparecem em inscrições ou documentos que têm que ver com a casa imperial e o palácio do imperador em Roma. Muitos deles são nomes muito comuns, mas não obstante isto é sugestivo. Em Filipenses 4:22 Paulo fala dos santos que estão na casa de César. Talvez fossem em sua maior parte escravos, mas, contudo, é importante que o cristianismo ao que parece tenha penetrado tão cedo em palácios e na casa imperial. Andrônico e Júnias formam um par de nomes interessantes, porque o mais provável é que Júnias seja um nome de mulher. Isto significaria que na Igreja primitiva uma mulher podia ser distinguida e honrada como apóstolo. Os apóstolos neste sentido eram pessoas que a Igreja enviava para anunciar a história do evangelho de Jesus. Paulo diz que Andrônico e Júnias eram cristãos antes que ele o fosse. Isto significa que deviam provir diretamente do tempo de Estêvão; deviam ter um enlace direto com a mais primitiva Igreja em Jerusalém. Atrás do nome de Amplíato bem pode haver uma história interessante. Amplíato é um nome muito comum entre os escravos. Agora, no cemitério de Domitila, que é a mais primitiva das catacumbas romanas, há uma tumba decorada com o simples nome de Amplíatus (Amplíato) gravado com letras artísticas e decorativas. Agora, o fato de que o simples nome de Amplíato só esteja gravado na tumba — os romanos que eram cidadãos tinham três nomes: — nomen, praenomen y cognomen — indicaria que este Amplíato era um escravo; mas a tumba trabalhada e as letras artísticas indicariam que era um homem de alta posição na Igreja. E disto resulta simples ver que, nos primeiros dias da Igreja, as distinções de cargo e posição eram de tal maneira omitidas que era possível para um homem ser ao mesmo tempo um escravo e um príncipe da Igreja. Diferenças sociais não existiam. Não temos meios de saber se o Amplíato de Paulo é o Amplíato da tumba do cemitério da Domitila, mas não é impossível que o fosse. A casa de Aristóbulo pode também ser uma frase que oculte uma interessante história. Em Roma, o termo casa não descrevia somente a família e relações pessoais de um homem; incluía também a seus servos e escravos, como poderíamos dizer seu estabelecimento total. Agora, em Roma, por longo tempo, tinha vivido um neto de Herodes o Grande cujo nome era Aristóbulo. Este Aristóbulo viveu sempre como um indivíduo particular e não havia herdado nenhum dos domínios de Herodes; mas era amigo íntimo do imperador Cláudio. Quando morreu, seus servos e escravos passaram a ser possessão do imperador e vieram a ser sua propriedade, mas continuaram sendo uma seção do estabelecimento do imperador conhecido como a casa de Aristóbulo. Assim, esta frase bem pode descrever os servos e escravos judeus que uma vez tinham pertencido a Aristóbulo, o neto de Herodes, e que então tinham chegado a ser propriedade do imperador. Isto se faz muito mais provável pelos nomes que se mencionam a cada lado desta frase. Apeles muito bem pode ser o nome adotado por um judeu chamado Abel; e Herodião é um nome que obviamente quadraria a quem tivesse alguma relação com a família de Herodes, mas Paulo o chama de parente. A casa de Narciso pode ter até outra interessante história. Narciso era um nome comum; mas o Narciso mais famoso foi um liberto que tinha sido secretário do imperador Cláudio e que exerceu uma notória influência sobre o imperador. Diz-se dele que chegou a acumular uma fortuna privada de quase dez milhões de dólares. Seu poder residia no fato de que toda a correspondência dirigida ao imperador tinha que passar por suas mãos e nunca chegavam ao imperador a menos que ele o permitisse. Amassou sua fortuna pelo fato de que as pessoas lhe pagavam grandes subornos para assegurar-se de que suas petições e solicitudes chegassem ao imperador. Quando Cláudio foi assassinado e Nero subiu ao trono, Narciso sobreviveu por um curto tempo, mas finalmente foi compelido a suicidar-se, e toda sua fortuna e toda sua casa de escravos passou ao poder de Nero. Bem pode ser que aqui se faça referência aos que tinham sido escravos deles. Se Aristóbulo for realmente o Aristóbulo que foi neto de Herodes, e se Narciso é realmente o Narciso que foi secretário de Cláudio, então isto significa que muitos dos escravos da corte imperial já eram cristãos. A levedura do cristianismo tinha alcançado os mais altos círculos do Império.
3 – Romances ocultos — Romanos 16:12 – 16.
É indubitável que atrás de cada um destes nomes há uma história; mas somente sobre uns poucos deles podemos fazer conjeturas e tentar uma reconstrução.
[1] – Quando Paulo escreveu suas saudações a Trifena e Trifosa — que muito provavelmente fossem irmãs gêmeas — o fez certamente com um sorriso, porque na maneira em que os colocou soa como uma completa contradição de termos. Três vezes, nesta lista de saudações, Paulo usa certo termo grego para referir-se ao trabalho e trabalho cristãos. Usa-o com referência a Maria (versículo 6), e a Trifena e Trifosa e de Pérside, nesta passagem. É o verbo “kopian”, e “kopian” significa trabalha até o cansaço; significa dar ao trabalho tudo o que alguém pode dar; significa trabalhar até o esgotamento total. Isto é o que Paulo diz que Trifena e Trifosa costumavam fazer; e o interessante é que os nomeie Trifena e Trifosa significa respectivamente “refinada” e “delicada”. É como se Paulo dissesse: — “Vocês duas podem ser chamadas refinada e delicada, mas desmentem seus nomes trabalhando como troianos pela causa da Igreja e de Cristo”. Podemos imaginar uma piscada nos olhos de Paulo e um sorriso cruzando seu rosto ao dedicar esta saudação.
[2] – Há um dos grandes romances do Novo Testamento oculto depois do nome de Rufo e sua mãe, que era também uma mãe para Paulo. É óbvio que Rufo era um espírito seleto e um homem afamado por sua obra e santidade na Igreja romana; e é igualmente óbvio que Paulo sentia que tinha uma profunda dívida de gratidão com a mãe de Rufo, pelos favores que tinha recebido dela. Quem era este Rufo? Retrocedamos a Marcos 15:21. Ali lemos de um Simão Cireneu que foi obrigado a levar a cruz de Jesus no caminho ao Calvário; e a este Simão se faz referência como o pai de Alexandre e de Rufo. Agora, se um homem é identificado pelo nome de seus filhos significa que, embora ele mesmo possa não ser pessoalmente conhecido pela comunidade a qual é relatada a história, os filhos sim são. A que Igreja escreveu Marcos seu Evangelho? É quase certo que escreveu para a Igreja de Roma, e sabia que essa Igreja saberia quem eram Alexandre e Rufo. E, é quase certo que aqui voltamos a encontrar a Rufo. Era o filho daquele Simão que levou a cruz de Jesus. Aquele deve ter sido um dia terrível para Simão. Ele era um judeu; tinha chegado da longínqua Cirene, na África do Norte. Sem dúvida teria reunido pouco a pouco e economizado quase toda sua vida para celebrar uma Páscoa em Jerusalém. Veio, e logo que entrou na cidade naquele dia, com o coração transbordante pela grandiosidade da festa que veio celebrar, repentinamente, a ponta da lança de um romano lhe tocou no ombro; foi recrutado para o serviço romano; encontrou-se levando a cruz de um criminoso. Quanto terá comovido seu coração o ressentimento! Quanta ira e amargura terá tido com esta terrível indignidade! Todo o caminho desde Cirene para isto! Ter vindo de tão longe para ter um lugar na glória da Páscoa e ter passado tudo isto tão terrível e vergonhoso! Sem dúvida se terá proposto, logo que chegasse ao Calvário, arrojar a cruz e fugir com seu coração cheio de repugnância. Mas algo deve ter acontecido. No caminho ao Calvário, o feitiço daquela figura quebrantada deve ter tendido seus brincos ao redor de seu coração. Deve ter-se detido a observar, e aquela figura na cruz atraiu para si a Simão para sempre. A oportunidade do encontro no caminho ao Calvário mudou a vida de Simão para sempre. Tinha vindo para participar da Páscoa judia e se tornou escravo de Cristo. Deve ter ido a seu lar e deve ter levado sua esposa e filhos à mesma experiência que ele teve. Podemos tecer todo tipo de especulações sobre isto. Houve homens de Chipre e de Cirene que foram a Antioquia, que foram os primeiros em pregar o Evangelho ao mundo gentio (Atos 11:20). Foi Simão um dos homens de Cirene? Estava Rufo com ele? Estavam eles entre os que deram o primeiro grande passo para converter o mundo à fé cristã? Estavam eles entre os que ajudaram a Igreja a romper os laços do judaísmo nos quais poderia ter ficado encadeada? Pode ser que em algum sentido nós hoje devamos o fato de ser cristãos ao estranho episódio no qual um homem de Cirene foi obrigado a levar uma cruz no caminho ao Calvário? Voltemos a Éfeso quando há um alvoroço ocasionado pelo povo que servia a Diana dos efésios, e quando a multidão teria linchado a Paulo se tivessem podido prendê-lo. Quem se levantou para olhar àquela multidão diretamente? Um homem chamado Alexandre (Atos 19:33). É este o outro irmão, que enfrenta as coisas com Paulo? E quanto a sua mãe: — certamente ela, em alguma hora de necessidade, deve ter levado a Paulo a ajuda e o ânimo e o amor que sua própria família lhe tinha negado quando se tornou cristão. Tudo isto podem ser meras conjeturas, porque os nomes Alexandre e Rufo eram comuns; mas pode ser certo e pode ser que as coisas mais surpreendentes tenham acontecido a partir daquele encontro casual no caminho ao Calvário.
[3] – Fica outro nome que pode ter uma história possivelmente mais surpreendente ainda — o nome de Nereu. Em 95 d.C. aconteceu um fato que comoveu Roma. Duas das pessoas mais distinguidas de Roma foram condenadas por serem cristãos. Eram marido e mulher. O marido era Flávio Clemente. Tinha sido cônsul de Roma. A mulher era Domitila e era de sangue real. Era neta do Vespasiano, o anterior imperador, e sobrinha de Domiciano. De fato, os dois filhos de Flávio Clemente e Domitila tinham sido designados sucessores de Domiciano no poder imperial.
Flávio foi executado e Domitila foi desterrada à ilha de Pontia, onde anos depois Paula viu a cova onde “ela resistiu um longo martírio pelo nome de Cristo”. E agora a questão — o nome do servo de Flávio e Domitila era Nereu. É possível que o escravo Nereu tenha tido algo que ver com a conversão ao cristianismo do ex–cônsul Flávio Clemente e a princesa de sangue real Domitila?
Outra vez pode ser uma especulação ociosa, porque Nereu é um nome comum, mas bem poderia ser certo. Há outro fato de interesse para adicionar a esta história. Flávio Clemente era filho de Flávio Sabino. Agora, Flávio Sabino, o pai, tinha sido prefeito da cidade de Nero, nos dias em que este tinha açoitado sadicamente os cristãos, depois de tê-los culpado de ser os responsáveis pelo espantoso incêndio que tinha devastado a Roma no ano 64 d.C.
Como prefeito da cidade, Flávio Sabino deve ter sido o oficial executor de Nero naquela perseguição. Foi então quando Nero ordenou que os cristãos fossem melados com resina e foi-lhes prendido fogo para formar tochas viventes para seus jardins; que fossem costurados em peles de animais selvagens e jogados aos ferozes cães de caça; que fossem encerrados em barcos que se afundariam no líber. É possível que trinta anos antes de morrer por Cristo, Flávio Clemente, jovem como então devia ter sido, tenha visto a intrépida coragem e heroísmo dos mártires, e tenha perguntado maravilhado o que os fazia capazes de morrer de tal maneira? Cinco versículos de nomes e saudações, mas que abrem perspectivas que emocionam o coração!
Paz e graça.
[1] Comentário de Romanos por William Barclay, p. 218 – 235, Tradução: Carlos Biagini, Título original em inglês: The Letter to the Romans.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por William Barclay | 8 fev 2019 | TEOLOGIA
Romanos 12:9 – 13.
Aqui Paulo se apresenta ao seu pessoal com dez concisas regras para a vida cotidiana. Vamos examiná-las uma por uma.
[1] – O amor deve ser completamente sincero. Não deve haver no amor cristão hipocrisia, simulação ou motivos ocultos. Existe o amor de despensa que dá afeto com um olho posto no ganho que pode proporcionar. Existe o amor egoísta cujo objetivo é obter muito mais do que dá. O amor cristão é um amor liberto do eu. É o vôo puro do coração para com outros.
[2] – Devemos odiar o mal e nos apegar ao bem. Tem-se dito que nosso único seguro contra o pecado está em que este nos escandalize. Carlyle disse que o que precisamos é ver a infinita beleza da santidade, e a infinita maldição do pecado. As palavras que Paulo usa são duras. Tem-se dito que nenhuma virtude está segura se não ser apaixonada. A pessoa não está a salvo quando sua vida consiste em evitar prudentemente o mal e numa calculada adesão ao que é bom. Devemos aborrecer o mal e amar o bem. De uma coisa devemos estar seguros — o que a gente aborrece não é o mal, mas suas consequências. Ninguém é bom quando o é simplesmente porque teme as consequências de ser mau. Não temer as consequências da desonra, mas amar a honra com amor apaixonado, é o caminho da verdadeira bondade.
[3] – Devemos ser afetuosos uns com os outros em amor fraternal. A palavra que Paulo usa para afetuoso é “filóstorgos” e “storge” é a palavra grega que define o amor familiar. Devemos nos amar uns aos outros, porque somos membros de uma mesma família. Dentro da Igreja cristã não somos estranhos, muito menos somos unidades isoladas; somos irmãos e irmãs, porque temos um mesmo pai, Deus. A Igreja cristã não é uma coleção de conhecidos, nem mesmo uma reunião de amigos; é uma família em Deus.
[4] – Devemos nos dar uns aos outros, prioridade na honra. Mais da metade dos problemas que surgem nas Igrejas têm que ver com direitos e privilégios, cargos e prestígio. Alguém não recebeu seu cargo; alguém foi menosprezado ou não recebeu agradecimento; alguém recebeu um lugar na plataforma mais proeminente que o outro — e se produz um problema. A marca do verdadeiro cristão foi sempre sua humildade. Um dos homens mais humildes foi o grande santo e erudito Cairns. Alguém recolheu um incidente que mostra tal como era. Ele mesmo se encontrava em uma plataforma de uma grande reunião. Quando Cairns apareceu, houve um tremendo estalo de aplausos. Cairns retrocedeu e deixou passar o homem próximo a ele, e começou ele mesmo a aplaudir. Nunca sonhou que o aplauso fosse para ele, cria que era para outro. Não é fácil dar a outro, prioridade nas honras. Na maioria de nós há muito do homem comum para nos fazer desejar nossos direitos; mas o cristão sabe que ele não tem direitos — que só tem deveres.
[5] – Não devemos ser preguiçosos em nosso zelo. Há uma certa intensidade na vida cristã. Não há nela lugar para a letargia. O cristão não pode tomar as coisas levianamente, porque para ele a vida é sempre uma escolha entre a vida e a morte; o mundo é sempre um campo de batalha entre o bem e o mal; o tempo é curto e a vida é um lugar de preparação para a eternidade. O cristão pode inflamar-se, mas nunca oxidar-se.
[6] – Devemos manter nosso espírito no ponto de ebulição. A única coisa que Cristo não podia suportar era o cristão que não era frio nem quente (Apocalipse 3:15, 16). A pessoa hoje olha com receio o entusiasmo; o moderno grito de batalha é: — “Não poderia me interessar menos”. Mas o cristão é um homem que é desesperadamente fervoroso: — “tem fogo nos ossos, e, portanto, arde por Cristo”.
[7] – A sétima regra de Paulo pode ser uma de duas coisas. Os antigos manuscritos variam entre duas leituras. Alguns lêem: — “Sirvam ao Senhor”, e outros: — “Sirvam ao tempo”, isto significa: — “Apanha suas oportunidades”. A razão para esta dupla interpretação é a que segue.
Todos os antigos escrivães usavam contrações em seus escritos. Em particular, as palavras mais comuns eram sempre abreviadas. Uma das maneiras correntes de abreviar era suprimir as vocais — como faz um taquígrafo — e colocar uma marca sobre as restantes letras. E assim, a palavra para “senhor” é “kyrios”, e a palavra para “tempo” é “kairós”, logo, a abreviatura para ambas as palavras é “krs”. Em uma passagem tão cheia de avisos práticos, é mais que possível que Paulo dissesse a seu povo: — “Aproveitem suas oportunidades à medida que se pressentem”. A vida nos apresenta todo tipo de oportunidades — a oportunidade de aprender algo novo, ou de desterrar algo velho e equivocado; a oportunidade de dizer uma palavra de fôlego ou de prevenção; a oportunidade de ajudar ou confortar. Uma das tragédias desta vida é que tão frequentemente não aproveitamos as oportunidades quando elas chegam. “Há três coisas que não retornam — a flecha lançada, a palavra proferida e a oportunidade perdida”.
[8] – Devemos nos regozijar com a esperança. Não é concebível um cristão sem esperança. Quando Alexandre Magno estava partindo para uma de suas grandes campanhas orientais, distribuiu todo tipo de obséquios entre seus amigos. Em sua generosidade se desprendeu de quase todos os seus pertences. “Senhor”, disse-lhe um de seus amigos, “não ficará nada para você”. “Ó, sim, algo fica”, disse-lhe Alexandre. “Ainda conservo minhas esperanças”. O cristão deve ser essencialmente otimista. Justamente porque Deus é Deus, o cristão sabe sempre que “o melhor ainda está por vir”. Justamente porque conhece a graça suficiente para todas as coisas, e a força que se aperfeiçoa na fraqueza, o cristão sabe que não há empresa demasiado grande para ele. “Não há na vida situações desesperadas; só há homens que desesperaram de si mesmos”.
[9] – Devemos enfrentar as tribulações com triunfante fortaleza. “O sofrimento dá cores a toda a vida, não é?”, alguém uma vez disse a um paciente corajoso, “Sim”, respondeu-lhe o paciente, “mas eu me proponho escolher as cores”. Quando a tremenda aflição da surdez completa caiu sobre Beethoven e a vida parecia um desastre total, ele disse: — “Agarrarei a vida pelo pescoço”. Quando Nabucodonosor, segundo a antiga história, lançou Sadraque, Mesaque e Abede–Nego no forno ardente, surpreendeu-se de que o fogo não os afetasse. Perguntou se não tinham arrojado ao fogo três homens. Disseram-lhe que sim. E ele disse: — “Eu, porém, vejo quatro homens soltos, que andam passeando dentro do fogo, e nada há de lesão neles; e o aspecto do quarto é semelhante ao filho dos deuses” (Daniel 3:24, 25). O homem enfrenta tudo quando o enfrenta com Cristo.
[10] – Devemos perseverar na oração. Não é certo que existem períodos em que transcorrem dias e semanas sem falar com Deus? Quando um homem deixa de orar se despoja a si mesmo da força de Deus nosso Senhor. Ninguém pode surpreender-se se sua vida entra em colapso, se insistir em vivê-la solitariamente.
[11] – Devemos compartilhar com os que estão em necessidade. Em um mundo que está governado pelo afã de obter, o cristão se inclina a dar, porque sabe que “o que guardamos, nós perdemos, e o que damos, nós temos”.
[12] – O cristão deve ser hospitaleiro. Várias vezes o Novo Testamento insiste sobre este dever de ter as portas abertas (Hebreus 13:2; 1 Timóteo 3:2; Tito 1:8; 1 Pedro 4:9). Tyndale usou uma palavra magnífica. Traduziu que o cristão deve ter uma disposição acolhedora. Um lar não pode ser um lar feliz quando é egoísta. O cristianismo é a religião da mão aberta, o coração aberto e a porta aberta.
1 – O cristão e os seus semelhantes — Romanos 12:14 – 21.
Aqui Paulo oferece uma série de regras e princípios que devem reger nossas relações com nossos semelhantes.
[1] – O cristão deve suportar a perseguição com uma oração pelos que o perseguem. Muito tempo antes, Platão havia dito que o homem bondoso preferirá antes suportar o mal que cometê-lo, e odiar é sempre o mal. Quando o cristão é ferido, insultado, maltratado, tem diante de si o exemplo de seu Mestre, quem sobre a cruz orou pedindo perdão para aqueles que o estavam matando. Não houve maior força para aproximar dos homens ao cristianismo que esse sereno perdão que mostraram os mártires de todas as épocas. Estêvão morreu pedindo perdão para aqueles que o estavam apedrejando (Atos 7:60). Entre os que o mataram havia um jovem chamado Saulo, que logo veio a ser Paulo, o apóstolo dos gentios, escravo de Cristo. Não pode haver dúvida de que a morte de Estêvão foi uma das coisas que aproximou Paulo de Cristo. Como disse Agostinho: — “A Igreja deve Paulo à oração de Estêvão”. Muitas vezes um perseguidor se converteu em um seguidor da fé que tentava destruir, porque viu como um cristão pode perdoar.
[2] – Devemos nos alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram. Há poucos laços como os que cria uma tristeza comum. Um escritor conta a declaração de uma mulher norte–americana de cor negra. Uma dama em Charleston, encontra a faxineira negra de um vizinho. “Me causa pena a morte de sua tia Luzia”, disse-lhe. “Deve sentir muitas saudades. Foram tão amigas”. “Sim, senhora”, respondeu-lhe a faxineira, “sinto muito sua morte, mas não fomos amigas”. “Como!”, disse a dama, “pensei que fossem. Eu as vi rindo juntas uma porção de vezes”. “Sim, senhora, assim é”, foi a resposta da faxineira, “rimos juntas, caminhamos juntas, mas fomos só conhecidas. Você verá, senhorita Rute, nunca compartilhamos nossas lágrimas. As pessoas devem chorar juntas para transformar-se em amigas”. A união que proporcionam as lágrimas, é a união mais forte. E, entretanto, é muito mais fácil chorar com os que choram, que nos alegrar com os que se alegram. Há muito tempo Crisóstomo escreveu sobre esta passagem: — “Faz falta mais elevado temperamento cristão para alegrar-se com os que se alegram, que para chorar com os que choram. Disto se ocupa a natureza; não há ninguém tão duro de coração que não chore com aquele que sofre uma calamidade; mas o outro requer uma alma verdadeiramente nobre, não só para sobrepor-se à inveja, mas também para sentir prazer com a pessoa que se estima”. É, na verdade, mais difícil felicitar a outro em seu triunfo, especialmente se esse triunfo implica um desengano para nós, que simpatizar com suas tristezas e suas perdas. Só quando o eu morrer, podemos nos alegrar tanto no triunfo dos outros como no nosso próprio.
[3] – Devemos viver em harmonia. Foi Nelson quem, logo depois de uma de suas grandes vitórias, enviou um despacho em que dava a razão da mesma. “Tive a felicidade de comandar uma partida de irmãos”. Isso é o que deve ser a Igreja cristã, uma partida de irmãos. Leighton escreveu uma vez: — “O modo de governar a Igreja não é compulsivo; mas são indispensáveis a paz e a concórdia, e a boa vontade”. Quando na sociedade cristã entra a rivalidade, a possibilidade e a esperança de fazer uma boa obra desaparecem.
[4] – Devemos evitar todo esnobismo e orgulho. Devemos sempre lembrar que as normas que usamos para julgar os homens no mundo, não são necessariamente aquelas pelas quais Deus nos julga. A santidade não tem nada que ver com a posição ou com a riqueza ou com o berço. O doutor James Black, em sua própria vívida forma, descrevia uma cena numa das primeiras congregações cristãs. Converteu-se uma pessoa notável, e o grande homem assiste seu primeiro culto na Igreja. Entra na habitação onde se está desenvolvendo o serviço. O dirigente lhe indica um assento: — “Quer sentar-se ali, por favor?” — “Mas”, diz o homem, “não posso me sentar ali; estaria ao lado de meu escravo”. “Quer sentar-se ali, por favor?”, repete o líder. “Mas”, diz o homem, “certamente não será junto a meu escravo”. “Quer sentar-se ali, por favor?”, repete mais uma vez o líder. E o homem, finalmente, cruzamento a habitação, senta-se ao lado do escravo e lhe dá o beijo da paz. Isto é o que fez o cristianismo. E isto é o que só o cristianismo pôde fazer no império romano. A Igreja cristã era o único lugar em que amo e escravo se sentavam um ao lado do outro. A Igreja cristã é ainda o único lugar da Terra onde desapareceram todas as distinções, porque para Deus não há acepção de pessoas.
[5] – Devemos fazer com que nossa conduta tenha bela aparência. Paulo tinha consciência de que a conduta do cristão não só deve ser boa, mas também deve parecer boa. O chamado cristianismo pode ser apresentado na forma mais dura e descomedida; mas o verdadeiro cristianismo é algo belo de ver-se.
[6] – Devemos viver em paz com todos. Mas notemos que Paulo acrescenta duas qualificações: — [A] – Diz se possível. Pode ser que chegue o momento em que a cortesia terá que dar passo aos direitos dos princípios. O cristianismo não é uma fácil tolerância que aceita qualquer coisa e fecha os olhos a tudo. Pode chegar o momento em que devamos dar batalha e quando esse momento chegue, não será o cristão quem vai o fugir. [B] – Diz quanto depender de vós. Paulo sabia muito bem que viver em paz é mais fácil para uns que para outros. Sabia muito bem que alguém pode ver-se forçado a dominar-se mais durante uma hora, que outro durante toda sua vida. Faríamos bem em lembrar que a bondade é muito mais natural para uns que para outros. Se lembrarmos disso, nós nos manteremos afastados da crítica e do desalento.
[7] – Devemos nos manter separados de todo pensamento de desforra. Paulo dá três razões para isso: — [A] – A vingança não nos pertence, pertence a Deus. Em última análise ninguém tem direito a julgar a outro; só Deus pode fazê-lo. [B] – Tratar a um homem com bondade antes que vingativamente é a forma de tocar seu coração. A vingança pode quebrantar seu espírito; mas a bondade conquistará seu coração. “Se formos realmente bondosos com nossos inimigos”, diz Paulo, “poremos brasas sobre suas cabeças”. Isto significa, não que acumularemos maior castigo para eles, mas sim os envolverão as chamas da vergonha. [C] – Ceder diante da vingança é ser conquistados pelo mal. O mal nunca pode ser vencido pelo mal. Se ao ódio se opõe mais ódio, ele aumenta; mas se ao ódio se opõe amor, achou-se o antídoto para o veneno. Como dissesse Booker Washington: — “Não permitirei que ninguém faça que me degrade odiando-o”. A única maneira de destruir verdadeiramente um inimigo, é fazê-lo nosso amigo.
Paz e graça.
[1] Comentário de Romanos por William Barclay, p. 165 – 181, Tradução: Carlos Biagini, Título original em inglês: The Letter to the Romans.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.