por Travis Fentiman | 20 jan 2026 | TEOLOGIA
“Mas aos dez dias desse sétimo mês será o dia da expiação; tereis santa convocação, e afligireis as vossas almas; e oferecereis oferta queimada ao Senhor. E naquele mesmo dia nenhum trabalho fareis, porque é o dia da expiação, para fazer expiação por vós perante o Senhor vosso Deus. Porque toda a alma, que naquele mesmo dia se não afligir, será extirpada do seu povo. Também toda a alma, que naquele mesmo dia fizer algum trabalho, eu destruirei aquela alma do meio do seu povo. Nenhum trabalho fareis; estatuto perpétuo é pelas vossas gerações em todas as vossas habitações. Sábado de descanso vos será; então afligireis as vossas almas; aos nove do mês à tarde, de uma tarde a outra tarde, celebrareis o vosso sábado” (Levítico 23:27 – 32 – ACF).
“E eu dirigi o meu rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e súplicas, com jejum, e saco e cinza” (Daniel 9:3 – ACF). “Naqueles dias eu, Daniel, estive triste por três semanas. Alimento desejável não comi, nem carne nem vinho entraram na minha boca, nem me ungi com unguento, até que se cumpriram as três semanas. E no dia vinte e quatro do primeiro mês eu estava à borda do grande rio Hidequel” (Daniel 10:2 – 4 – ACF).
Introdução.
Neemias 8:9 – 12 declara: — “E Neemias, que era o governador, e o sacerdote Esdras, o escriba, e os levitas que ensinavam ao povo, disseram a todo o povo: — ‘Este dia é consagrado ao Senhor vosso Deus, então não vos lamenteis, nem choreis’. Porque todo o povo chorava, ouvindo as palavras da Lei. Disse-lhes mais: — ‘Ide, comei as gorduras, e bebei as doçuras, e enviai porções aos que não têm nada preparado para si; porque este dia é consagrado ao nosso Senhor; portanto não vos entristeçais; porque a alegria do Senhor é a vossa força’. E os levitas fizeram calar a todo o povo, dizendo: — ‘Calai-vos; porque este dia é santo; por isso não vos entristeçais’. Então todo o povo se foi a comer, a beber, a enviar porções e a fazer grande regozijo; porque entenderam as palavras que lhes fizeram saber”.
Algumas pessoas interpretam essa passagem, junto com outras, como Isaías 58:2, 3, acreditando que o Sábado do Novo Testamento, que é o primeiro dia da semana, deve ser dedicado apenas à alegria e celebração. Sem dúvida, o Dia do Senhor deve ser, antes de tudo, um dia de júbilo, pois nele celebramos a ressurreição de Cristo dentre os mortos e sua vitória sobre a sepultura; contudo, tal caráter festivo não exclui a plenitude das santas disposições que devemos cultivar diante de Deus, as quais, por vezes, incluem lágrimas e jejum, quando nos achegamos a Ele em arrependimento por nossos pecados e na súplica de que desvie de nós sua justa ira e seus juízos providenciais (Daniel 9 e 10, citados acima).
Isto se evidencia em muitos lugares da Escritura, mas especificamente na conveniência do Dia da Expiação no Antigo Testamento, o qual foi chamado de sábado, tanto em Levítico 23:38 quanto em Colossenses 2:16. O sábado semanal regular do Novo Testamento abrange todas as características dos diversos e variados sábados do Antigo Testamento.
Deus, em Isaías 58:3 – 7, trata do abuso de jejuns carnais, e em Neemias 8 corrige jejuns providencialmente impróprios; contudo, isso não deve nos dissuadir da ocasional aflição do corpo por meio do jejum, acompanhada de real contrição espiritual, quando ela é gravemente necessária no Dia do Senhor.
Esta era a perspectiva dos puritanos, os quais esclareceram com grande proveito esta questão e, além de ensiná-la, também a praticaram. Segue-se uma citação; outras virão em sequência.
Citações da Igreja Primitiva.
[1] – Inácio de Antioquia (c. 30/35 – 98/107 d.C.).
Note-se que Inácio era oriental. A Igreja Oriental, em geral, considerava ilícito jejuar no Dia do Senhor (ainda que ele conceda uma exceção abaixo), enquanto a Igreja Ocidental o julgava lícito[2].
“Se alguém jejuar no Dia do Senhor ou no Sábado, exceto apenas no Sábado pascal, esse tal é homicida de Cristo”.
[2] – Agostinho (354 – 430 d.C.).
“Quanto à questão sobre a qual desejas minha opinião, se é lícito jejuar no sétimo dia da semana, respondo: — se fosse totalmente ilícito, nem Moisés, nem Elias, nem o próprio Senhor teriam jejuado por quarenta dias sucessivos. Mas, pelo mesmo argumento, prova-se que até mesmo no Dia do Senhor o jejum não é ilícito[3]”.
Na Reforma.
[1] – Consistório da Igreja de Glasgow.
No início deste período, Glasgow (cidade da Escócia) contava apenas com um ministro, David Weems (faleceu em 1605), e uma única sessão. Trata-se de um levantamento descritivo das atas dessa sessão relacionadas a jejuns, muitos dos quais foram realizados no Dia do Senhor ao longo desse tempo[4].
[2] – Samuel Rutherford (1600 – 1661).
“Julgamos que negar a licitude do jejum público no Dia do Senhor, como se o Sábado Cristão fosse apenas um dia de banquete espiritual e de regozijo, pelo fato de que nesse dia Cristo consumou a obra da redenção e da nova criação, é desonrar o Sábado Cristão, o qual foi ordenado para todo o culto público de Deus: — alegrar-se, entristecer-se pelo pecado, aprender a vontade de Deus em cada ponto; assim como o sábado judaico não foi instituído apenas para meditação na obra da criação, mas para todos os tipos de culto. O culto deste dia (Atos 20:7) é tão amplo quanto a pregação e o estar no Espírito no Dia do Senhor e ver as visões de Deus (Apocalipse 1:10 – 12), bem como todo o culto público ordinário. Portanto, é demasiado estreito restringir todo o culto sabático a um único ato de regozijo festivo[5]”.
[3] – Richard Baxter (1615 – 1691).
Questão LXXXI — “Pode o Dia do Senhor ser legitimamente guardado como dia de jejum?”.
Resposta — “Ordinariamente, não; pois Deus o consagrou como um dia de ações de graças, e não devemos desviá-lo do uso para o qual foi instituído por Ele. Contudo, em casos de necessidade extraordinária, pode-se assim proceder; como, por exemplo: — [1] – Se algum grande juízo nos convocar tão repentinamente à humilhação e ao jejum, de modo que não possa ser adiado para o dia seguinte (como em caso de súbita invasão, incêndio, enfermidade etc.); [2] – Se, por motivo de perseguição, a Igreja for privada da liberdade de se reunir em outro dia, quando o jejum e a oração públicos são deveres inadiáveis; [3] – Se o povo for tão pobre, ou servos, filhos e esposas tão severamente constrangidos, que não possam congregar-se em outro tempo. Em tais circunstâncias é lícito, pois os preceitos positivos cedem lugar aos deveres morais e naturais, cæteris paribus (mantidas iguais as demais coisas); e os deveres menores devem submeter-se aos maiores: — o sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado[6].
[4] – David Weems.
22 de dezembro de 1596 — Algumas pessoas, na noite de 20 de dezembro (véspera de São Tomé), à meia-noite, percorreram a cidade com gaiteiros e outros, e apresentaram diante do ministro um termo de compromisso, obrigando-se a permanecer sem comer nem beber até o nascer do sol seguinte, a menos que encontrassem fiador, comprometendo-se a comparecer no antigo Pilar no próximo domingo.
29 de dezembro de 1596 — A Sessão estabeleceu um ato severo contra a celebração do “Yule” (Natal supersticioso), determinando que os observadores daquele dia fossem punidos pelos magistrados e privados dos privilégios da Igreja, dos sacramentos e do matrimônio.
18 de dezembro de 1600; 25 de dezembro de 1602; 21 de dezembro de 1605; 21 de dezembro de 1608 — Foi publicada a proibição de quaisquer jogos, músicas de gaita ou bebidas festivas, bem como de todo exercício supersticioso nos dias seguintes ao “Yule”, sob pena de censura.
31 de dezembro de 1611 — Em cumprimento ao ato da Assembleia de Aberdeen, a Sessão recomendou ao Conselho a remoção dos monumentos supersticiosos.
11 de março de 1601 — A Sessão requereu aos magistrados que cooperassem para que nenhum habitante da cidade vendesse imagens supersticiosas, sinais de cruz à entrada da cidade, ou outros objetos semelhantes de superstição.
Segue-se uma longa série de deliberações de jejuns e ações de graças: — para pestes, guerras, incêndios, secas, perseguições religiosas e calamidades públicas. Muitos destes jejuns, como se nota nos registros até meados de 1650, foram marcados no próprio Dia do Senhor, mostrando que a Igreja escocesa, em sua prática reformada, admitia que, em casos extraordinários, o Domingo fosse dia de jejum solene[7].
15 de junho de 1608 — A Sessão nomeia sexta-feira seguinte para ser observada como dia de jejum, a fim de buscar a remoção da peste então prevalente na cidade.
18 de janeiro de 1599 — Dia de ação de graças, e, ao mesmo tempo, dia de jejum público, sendo designado domingo, devido à urgência da ocasião, e não podendo ser adiado.
8 de maio de 1614 — Proclamação de jejum para sexta-feira, 12 de maio, como dia de humilhação pública diante do Senhor, pela ameaça da guerra e pelas dificuldades do tempo.
10 de julho de 1619 — Jejum ordenado para quinta-feira, 17 de junho, por causa da aflição presente da peste que grassava em diversas cidades.
3 de novembro de 1642 — Jejum proclamado pelo presbitério, a ser guardado no domingo, devido às angústias públicas e às contínuas perdas sofridas na guerra.
29 de julho de 1644 — Jejum proclamado para domingo, 4 de agosto, em razão da grande necessidade de humilhação pelo estado da Igreja e do Reino.
6 de maio de 1646 — Dia de jejum nacional proclamado, a ser observado em todo o Reino, em reconhecimento dos pecados que atraíram os juízos de Deus e em busca de livramento.
Paz e graça.
[1] Por Travis Fentiman (M.Div.) — “Is it Lawful to Fast on the Lord’s Day?”.
[2] The Epistle of Ignatius to the Philippians, ch. 13 in ANF, vol. 1, Ignatius (d.C. 108/140).
[3] Nicene & Post–Nicene Fathers, First Series, vol. 1, ed. Schaff (Buffalo, NY: Christian Literature Publishing Co., 1887), Cartas de Santo Agostinho de Hipona, 2ª Divisão, Carta 36, cap. 1.
[4] Sessão de Glasgow – “Sobre jejuns e ações de graças […]”, p. 38 – 40 em Collections on the Life of Mr. David Weems, de Robert Wodrow, Collections upon the Lives of the Reformers and Most Eminent Ministers of the Church of Scotland, vol. 2 (Glasgow, 1845), parte 2. No contexto, “Session of Glasgow” se refere ao consistório da Igreja de Glasgow, sob a liderança de David Weems no fim do século XVI e início do XVII, cujas deliberações sobre jejuns e cultos foram registradas e depois compiladas por Robert Wodrow (1679 – 1734) — nota do tradutor.
[5] A Peaceable & Temperate Plea for Paul’s Presbytery in Scotland, cap. 20, Artigo 7.
[6] Question 81, “May We Lawfully Keep the Lord’s Day as a Fast?” in Christian Directory, Part IV, Christian Politics, p. 432.
[7] Collections upon the lives of the reformers and most eminent ministers of the Church of Scotland by Maitland Club (Glasgow); Wodrow, Robert, 1679 – 1734; Duncan, William J.
[8] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.
por Plínio Sousa | 19 jan 2026 | TEOLOGIA
Forma, essência e legitimidade na Tradição Reformada.
Pode ser considerado válido o batismo quando, embora administrado por hereges ou em seitas, é ministrado com água e segundo a fórmula trinitária instituída por Cristo?
Sim, o batismo pode ser considerado válido quando, ainda que administrado por hereges ou em comunidades heterodoxas, são preservados os seus essenciais, tanto quanto à forma quanto à matéria, a saber: — a Palavra da instituição, o elemento externo — a água — e a fórmula prescrita por Jesus Cristo, a qual deve ser ministrada no Nome da Santíssima Trindade (“batizando-os em Nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” — Mateus 28:19).
A unidade de Deus à luz do batismo sempre foi algo importante para a Teologia Reformada, e essa unidade é expressada por “um só batismo” — “o Apóstolo Paulo em Efésios 4:5, vincula estes três: — Deus, fé e batismo, de tal modo que de um arrazoa em relação ao outro, isto é, visto que há uma só fé, daí demonstra que há um só Deus; visto que há um só batismo, daí também demonstra que existe uma só fé[1]”.
Aqueles que são batizados no Nome do Deus triúno são, portanto, “sagradamente iniciados e consagrados […] para o serviço e a adoração do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Caso contrário, o batismo perde seu significado[2].
A água se torna um sacramento por meio das palavras da instituição. Na Escritura Sagrada, o batismo é, às vezes, chamado de batismo “em Nome de Cristo” (Atos 2:38; 8:16; 10:48; 19:5; cf. Romanos 6:3; 1 Coríntios 1:13 – 15; 6:11; Gálatas 3:27), outras vezes, de batismo “em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mateus 28:19). Essas expressões não têm o objetivo de fornecer uma fórmula que tenha de ser pronunciada no batismo, mas descrevem a essência do batismo cristão: — “deve ser um batismo em Nome de Cristo e, portanto, em Nome do Deus trino”.
Que essas palavras não tinham o intuito de ser uma fórmula fica evidente pelo fato de que nenhuma fórmula é mencionada por ocasião da Circuncisão e da Páscoa ou do Batismo de João e da Ceia do Senhor. Isso de forma nenhuma significa negar que, desde o início, durante a ministração e o recebimento do batismo uma coisa ou outra era dita: — as pessoas confessavam seus pecados (Mateus 3:6) ou professavam sua fé em Cristo (Atos 8:37; cf. 1 Timóteo 6:12).
Logo, por processo natural, emergiu para uso público nessa ocasião uma fórmula fixa que foi derivada das palavras de instituição em Mateus 28:19. O Didaqué fala dos cristãos como “aqueles que foram batizados em Nome do Senhor”, mas já conhece a fórmula trinitária[3]. Como escreveu François Turrettini: — “O batismo administrado no Nome de Cristo não exclui, porém inclui, a crença na Trindade, porque Cristo não pode ser reconhecido sem o Pai e o Espírito[4]”.
“Não se pode deixar de requerer dos batizandos a crença na Trindade, quando são aspergidos no Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Sim, a confissão de fé que se requer deles e está contida no Credo dos Apóstolos não se estende (desde o princípio) além da doutrina da Trindade. Por isso as exposições mais antigas do Credo (existentes em Irineu, Tertuliano, Orígenes, Justino) não vão além da Trindade; certamente, Sócrates, Sozomen e Niceforo ensinaram que o Credo Niceno também estava contido nesses tópicos[5]”.
Ora, embora, nesse período inicial, o batismo em Nome de Cristo ou com a confissão de que Jesus é o Filho de Deus (Atos 8:37) fosse perfeitamente adequado, posteriormente, quando surgiram todos os tipos de heresias e, especialmente, para manter o caráter cristão do batismo, a fórmula trinitária foi cada vez mais vista como necessária[6].
“O sacramento do batismo deve ser administrado uma só vez a uma mesma pessoa[7]”.
Um ponto importante. Há aqueles que corrompem a substância do batismo e omitem ou mudam a forma da instituição, tais como foram os antigos arianos, que negavam a Trindade de pessoas na unidade de essência, e os modernos socinianos.
Outros, embora retenham os substanciais e defendam a verdadeira doutrina da santa Trindade contida na fórmula do batismo, “erram em outros tópicos doutrinais”, como os antigos novacianos e donatistas e os modernos romanistas e arminianos.
Quanto aos primeiros (arianos e socinianos), julgamos que o batismo ministrado por eles é nulo e, assim, não devem ser propriamente rebatizados, mas batizados os que foram batizados por esses hereges, porque evidentemente corrompem a forma essencial do batismo, à qual pertence a invocação da Trindade. Por esta razão, o batismo dos arianos, os quais batizavam “no Pai, o único verdadeiro Deus, em Jesus Cristo, o Salvador e uma criatura, e no Espírito Santo, o servo de ambos[8]”, anteriormente foi rejeitado no Concílio de Nicéia[9].
François Turrettini sustenta que: — “Não obstante, aqui é preciso fazer novamente uma distinção. Pois só o ministro foi infectado com aquela heresia ou toda a Igreja com ele. No segundo caso, negamos que ele seja um batismo genuíno. No primeiro (ou seja, se a Igreja pensa corretamente, a despeito do erro do pastor, se ele é um herege secreto), contanto que a fórmula de Cristo seja mantida, cremos que o batismo é válido e que não é necessário rebatizar os que foram uma vez batizados”.
Ou seja, Turretini está dizendo o seguinte:
É necessário distinguir duas situações. Primeiro, quando “toda a Igreja” está contaminada por heresia. Nesse caso, o batismo não é genuíno, pois a fé pública da Igreja está corrompida. Segundo, quando “apenas o ministro” é herege, de modo oculto, enquanto a Igreja permanece ortodoxa. Nesse caso, o batismo é válido, desde que seja administrado com a fórmula instituída por Cristo.
A razão é clara: — o valor do batismo não depende da fé secreta do ministro, mas da Palavra de Cristo e da fé pública da Igreja. Por isso, não há necessidade de rebatizar aqueles que receberam o batismo nessas condições.
E, conclui: — “O sacramento é propriedade da Igreja, o qual é ministrado em seu nome e em sua fé. Por isso mesmo o erro secreto do ministro em nada diminui a integridade do batismo, contanto que os essenciais sejam observados e nada seja mudado na Palavra ou no elemento. Por isso é evidente qual réplica deve ser feita à questão, que pode ser formulada da seguinte forma: — ‘é válido o batismo ministrado em uma Igreja ortodoxa, por um ministro imbuído com erros antitrinitarianos ou judaicos (porém não detectados)?’. Indubitavelmente, a fé pública da Igreja deve ser aqui considerada, na qual ele (quem é batizado) é introduzido e as promessas lhe são feitas por Cristo. Visto que estas não dependem do ministro, ele (por mais que esteja profundamente contaminado com heresia secreta) não pode torná–las inúteis e vazias[10]”.
Se os hereges retiverem os fundamentos do batismo (que constituem sua essência) e não mudarem ou corromperem sua forma, aceitamos o batismo ministrado por eles como válido, embora possam errar sobre vários artigos de fé e seu batismo seja mesclado com vários ritos estranhos nos acidentais.
Turretini oferece quatro razões plausíveis, são elas: — [1] – Os essenciais permanecem, seja quanto à forma, seja quanto à matéria (a saber, a Palavra com o elemento e a fórmula prescrita por Cristo — que deve ser ministrada no Nome da Trindade). [2] – Nem os Profetas, nem Cristo, nem os Apóstolos jamais repreenderam como inválida a circuncisão efetuada na Igreja judaica por sacerdotes idólatras e heréticos, tais como foram os fariseus. [3] – O exemplo de Zípora ensina que uma circuncisão sem validade no tocante aos homens é válida diante de Deus. [4] – Em parte alguma lemos de alguém que fosse batizado por hereges sendo rebatizado pelos Apóstolos.
Em suma, ainda que os hereges não sejam verdadeiros membros da Igreja invisível, isso não os impede de ministrarem batismo genuíno, contanto que retenham seus essenciais, pois acomodam a língua e a mão somente neste ato feito a Deus.
Paz e graça.
[1] João Calvino. Tratado da Religião Cristã, Livro I, Capítulo XIII, p. 144.
[2] Owen, A discourse concerning the Holy Spirit, in: Works, 3:7.3.
[3] Didaqué, 9.5; 7.1, 3; cf. Justino Mártir, Firsf Apology 61.
[4] Compêndio de Teologia Apologética de François Turrettini, Volume 1, Editora Cultura Cristã, São Paulo, 2011, p. 348.
[5] Compêndio de Teologia Apologética de François Turrettini, Volume 1, Editora Cultura Cristã, São Paulo, 2011, p. 348.
[6] Cipriano, Epistles 73.16 – 18; Suicerus, Thesaurus ecclesiasticus, s.v. βαπτισμός.
[7] Confissão de Fé de Westminster, Capítulo XXVIII.7, Tito 3:5.
[8] Segundo o testemunho de Jerônimo, “Dialogue Against the Luciferianos 9 [NPNF2, 6:324; PL 23.172] e Atanásio, “Contra Arianos, Oratio tertia”, Opera omnia [1627], 1:411 – 13.
[9] Cânone 19, cf. Hefele, 1:430 – 431.
[10] Compêndio de Teologia Apologética de François Turrettini, Volume 3, Editora Cultura Cristã, São Paulo, 2011, p. 479.
por Brian M. Schwertley | 12 nov 2025 | TEOLOGIA
A crise do Evangelho na Igreja Presbiteriana Ortodoxa (OPC) e na Igreja Presbiteriana da América (PCA).
No âmbito presbiteriano e reformado conservador, uma controvérsia tem se intensificado desde o ano de 2002. Na Igreja Presbiteriana Ortodoxa (OPC) e na Igreja Presbiteriana na América (PCA), tal controvérsia tem sido particularmente dolorosa, pois os ensinos da “Visão Federal” foram adotados por diversos pastores e presbíteros que, por meio de sua doutrina e de seu exemplo, desviaram congregações inteiras das doutrinas das Escrituras e dos Padrões de Westminster em questões cruciais do Evangelho[2].
Na Igreja Presbiteriana Ortodoxa (OPC), a questão dos ensinos da “Visão Federal” está chegando a um ponto decisivo neste verão. A 73ª Assembleia Geral decidirá o que fazer ao discutir o relatório do comitê (“Relatório do Comitê para Estudar a Doutrina da Justificação”), que trata da “Visão Federal”, em junho.
Aproveitamos a ocasião da publicação do Relatório da OPC para tecer alguns comentários sobre ele, discutir o que a OPC e a PCA precisam fazer nessa matéria se desejam evitar uma apostasia completa e oferecer uma análise de por que tão pouco foi feito nos últimos quatro anos para deter a propagação desse ensino perigoso.
É nossa expressa esperança e oração que a OPC e a PCA tratem final e decisivamente da heresia da “Visão Federal”, antes que mais congregações e famílias sejam atraídas para o abismo de um legalismo contrário às Escrituras.
O relatório sobre a justificação, que trata da “Nova Perspectiva sobre Paulo” e da “Visão Federal”, é, do ponto de vista acadêmico, bastante útil[3]. Ele apresenta uma crítica erudita, bem argumentada e organizada desses dois perigosos sistemas teológicos modernos. Condena, de modo inequívoco, praticamente todas as aberrações antibíblicas dos paradigmas da Nova Perspectiva e da Visão Federal.
O mais importante é que afirma explicitamente que a doutrina da justificação ensinada pela “Visão Federal” é contrária à palavra de Deus e à Confissão de Fé de Westminster.
O comitê escreve: — “Assim, nosso exame do ensino da ‘Visão Federal’ em todas essas áreas da Teologia é sempre feito tendo em vista seu impacto sobre a doutrina da justificação. O comitê observa que, quanto à doutrina da justificação, considerada mais estritamente, os problemas da ‘Visão Federal’ incluem a falha em afirmar a imputação da obediência ativa de Cristo, juntamente com uma redefinição da fé que funde a confiança de Cristo no Pai com a nossa fé na obra de Cristo, e que também inclui as boas obras na própria definição de fé (1689 – 1690)”.
O relatório apresenta três recomendações. Primeiramente, recomenda quatorze diferentes tópicos que devem ser usados “com o objetivo de assegurar a fidelidade de cada candidato ao ensino bíblico e confessional sobre a justificação, bem como sua capacidade de articular tal ensino […]” (1690). Em segundo lugar, “que os presbitérios, sessões e pastores sejam proativos ao lidar com o ensino da ‘Nova Perspectiva sobre Paulo [NPP]’ e da ‘Visão Federal [FV]’, que comprometem a pureza do Evangelho” (1961). Em terceiro lugar, que o relatório seja amplamente divulgado na denominação e em outras denominações com as quais mantém relações fraternas (1691). Em resumo, trata-se de uma exortação para maior cuidado na avaliação dos candidatos ao ministério, no ensino sobre os erros da ‘Nova Perspectiva’ e da ‘Visão Federal’, oferecendo este relatório como auxílio para tais recomendações.
Embora, como refutação teológica acadêmica da NPP/FV, estejamos geralmente satisfeitos com o relatório e suas conclusões, existem vários problemas graves relacionados às recomendações do relatório que precisam ser considerados.
[1] – O relatório recomenda a leitura dos escritos desses hereges. Embora os pastores precisem estar cientes de opiniões teológicas perigosas contemporâneas, a fim de proteger o rebanho de Deus, é antibíblico e irresponsável recomendar que os crentes leiam doutrinas heréticas sutis, insidiosas, ambíguas e contraditórias, que desviam as pessoas da fé uma vez entregue aos santos. Não encontramos Paulo, João ou Pedro recomendando a leitura de escritos de judaizantes, gnósticos ou antinomianos. Diversas citações desses hereges em refutações devem ser suficientes.
[2] – As recomendações do relatório falham em pastorear biblicamente o povo de Deus. Esse ponto é evidenciado pelo que o relatório não recomenda. Lembre-se de que o relatório afirma que a doutrina da justificação da ‘Visão Federal’ é contrária às Escrituras e aos Padrões de Westminster. Não estamos lidando apenas com um erro menor ou não escandaloso, mas com um erro que ataca o próprio coração do protestantismo, do evangelicalismo, da fé reformada e do cristianismo. Não há nada no relatório que trate de sanções contra os lobos (hereges) dentro do rebanho[4]. O que o relatório deveria ter recomendado?
Primeiro, os ensinamentos da “Visão Federal” sobre a justificação devem ser declarados uma heresia condenável. Quanto àqueles que pervertem o Evangelho de Cristo, Paulo diz pelo Espírito Santo: — “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema” (Gálatas 1:8, 9). Os comentários de Martinho Lutero sobre esta passagem merecem ser observados.
Ele escreve: — “Portanto, ele claramente excomunga e amaldiçoa todos os mestres em geral, a si mesmo, seus irmãos, um anjo e, além disso, todos os demais, ou seja, todos aqueles falsos mestres que são seus adversários. Aqui se manifesta uma fervorosa intensidade de espírito no Apóstolo, que ousa amaldiçoar todos os mestres em todo o mundo e no céu que pervertem o seu Evangelho e ensinam outro qualquer: — pois todos devem crer naquele Evangelho que Paulo pregou, ou então serão amaldiçoados e condenados. Oxalá que esta terrível sentença do Apóstolo pudesse despertar temor nos corações daqueles que se empenham em perverter o Evangelho de Paulo; e, lamentavelmente, o mundo está hoje cheio de pessoas desse tipo[5]”.
Em segundo lugar, todo oficial da Igreja que adere ao paradigma da “Visão Federal” deve ser destituído do ministério. “Ao homem herege, depois de uma e outra admoestação, evita-o, sabendo que esse tal está pervertido, e peca, estando já em si mesmo condenado” (Tito 3:10, 11). Os tribunais eclesiásticos devem tentar, em duas ocasiões distintas, reconduzir à verdade aquele que adere a doutrinas escandalosamente falsas. “Não se entende por qualquer ‘admoestação’, ou de um indivíduo privado, mas sim por uma ‘admoestação’ dada por um ministro, com a autoridade pública da Igreja; pois o significado das palavras do Apóstolo é como se dissesse que os hereges devem ser repreendidos com censura solene e severa[6]”.
Se essa pessoa não se arrepender, ela deve ser expulsa da Igreja visível por excomunhão. O imperativo “παραιτοῦ–paraitou” “é usado aqui no sentido de ‘rejeitar’ ou ‘demitir’, isto é, remover da comunhão da comunidade cristã” (cf. 1 Coríntios 5:11 – 13; 2 Tessalonicenses 3:14; Mateus 18:17, 18)[7]. Quando um cristão é culpado de ensino escandalosamente falso, Paulo, falando por inspiração divina, deixa claro que palavras, argumentos, declarações e ensinamentos positivos não são suficientes quando os hereges se mostram obstinados. A disciplina eclesiástica deve ser aplicada com firmeza e amor; caso contrário, os debates e batalhas teológicas jamais terão fim (Gálatas 5:15).
Após duas advertências solenes e sóbrias, os hereges devem ser expulsos da Igreja. O impacto da destituição de um cargo eclesiástico pode ser usado por Deus para levá-los do erro de volta ao verdadeiro Evangelho de Cristo. Ademais, o bem-estar da Igreja é protegido. A disciplina da Igreja é um ato de amor em relação ao excomungado (como Paulo afirma: — “[…] para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus” [1 Coríntios 5:5]). Devemos obedecer à Escritura que diz em 1 Timóteo 1:3: — “Como te roguei […] para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina”. Se necessário, presbitérios inteiros podem ser censurados pela assembleia geral ou pelo sínodo, em defesa dos oficiais da Igreja que se manifestaram contra os erros e apresentaram reclamações no presbitério.
Paulo também instruiu Tito sobre o que deve ser feito com os falsos mestres. Ele escreve: — “Retendo firme a fiel Palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes. Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão, aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância” (Tito 1:9 – 11; cf. 12 – 16; 3:10, 11). Quando o Apóstolo afirma que suas bocas devem ser caladas, ele utiliza o verbo grego “ἐπιστομίζειν” (epistomizein), cujo significado primário é “calar a boca com freio, mordaça ou atadura[8]”.
Para Paulo, não basta que Tito redija um artigo ou parecer explicando por que os falsos mestres estão errados. Eles devem ser silenciados. Não lhes deve mais ser permitido ensinar e, se persistirem, devem ser disciplinados e até excomungados, se necessário. “Quando homens são assim refutados por argumentos, vencidos pela espada do Espírito e confrontados pelo poder da verdade, e ainda assim perturbam a paz da Igreja e a fé dos santos, a Igreja pode e deve agir com censura e admoestação, ordenando-lhes silêncio; se não obedecerem, devem ser expulsos da comunhão dos fiéis. E, se se mostrarem perniciosos, devem ser definitivamente cortados[9]”.
Os comentários de Calvino sobre esta passagem aplicam-se perfeitamente à situação em que muitos presbiterianos se encontram hoje.
Ele escreve: — “Um bom pastor deve, portanto, permanecer vigilante, para não permitir silenciosamente que doutrinas ímpias e perigosas avancem gradualmente, nem dar oportunidade a homens perversos de espalhá-las. Pode-se perguntar: — ‘Como pode um bispo obrigar homens obstinados e de vontade própria a se calarem? Pois tais pessoas, mesmo derrotadas em argumentos, continuam a falar; e frequentemente, quanto mais são refutadas e vencidas, mais insolentes se tornam, pois sua malícia se fortalece e inflama, e ainda se entregam à indolência’. A resposta é: — ‘Quando abatidos pela espada da palavra de Deus e sobrepujados pela força da verdade, a Igreja pode ordená-los a permanecer em silêncio; e, se persistirem, ao menos podem ser banidos da comunhão dos crentes, para que não tenham oportunidade de causar dano’[10]”.
Até o presente, a PCA não tem seguido o ensino de Paulo, deixando de ordenar que Steve Wilkins, Richard Lusk, Mark Horne e outros cessem de espalhar seus ensinamentos heréticos sobre justificação, expiação, sacramentos e adoração. Da mesma forma, a OPC não tem tomado providências contra James B. Jordan (membro da Igreja), Prof. Richard Gaffin, Thomas Tyson, Tom Trouwborst e tantos outros que estão corrompendo as ovelhas com seus ensinos.
Semelhantemente, Paulo escreve: — “E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” (Romanos 16:17, 18). Paulo nos adverte a vigiar aqueles que causam divisões na Igreja, pois sua doutrina contradiz o ensino dos Apóstolos. Ele nos ordena a nos afastar de homens que se desviam da fé. Se devemos seguir Paulo e nos separar dos hereges, então precisamos separar-nos também dos falsos profetas e, por extensão, daqueles que os protegem. Os comentários de John Murray são particularmente elucidativos nesse ponto.
Ele escreve: — “Aqui nos deparamos com falsos mestres e propagandistas […]. O tropeço decorre da doutrina falsa e se enquadra na categoria do erro anatematizado em Gálatas. As advertências dirigem-se precisamente a um erro dessa natureza; devemos ‘marcar’ os proponentes para nos afastarmos deles e ‘desviar-nos deles’ […]. Esses mestres eram habilidosos no artifício da ‘palavra suave e lisonjeira’, traço característico de quem corrompe a pureza e a simplicidade do Evangelho[11]”.
Se uma Igreja, por sua omissão irresponsável em lidar com falsos mestres, força os crentes a se separarem a fim de manterem fidelidade ao Evangelho e às orientações destinadas a protegê-lo, então os crentes não devem considerar essa separação como divisão do corpo de Cristo, mas sim como o meio mais eficaz de promover sua verdadeira união. Pois a união deve estar sempre fundamentada na verdade. Somos ordenados a ter a mente de Cristo. Essa separação não se baseia em orgulho ou egoísmo, mas na obediência à vontade de Deus e no interesse supremo da Igreja de Cristo.
Ao lidar com ensinos falsos — especialmente heresias condenáveis — não basta fazer declarações positivas em favor da doutrina verdadeira e, em seguida, emitir advertências gerais contra o falso. Devem existir sanções que respaldem tais declarações. A relutância, até o momento, ao longo de quase quatro anos, em disciplinar mestres em suas próprias fileiras que publicamente defendem heresia grosseira é inconcebível. No início da controvérsia, quando as pessoas ainda buscavam compreender exatamente o que esses homens ensinavam, poderia-se argumentar que algum tempo (um ou dois meses) seria necessário para avaliar corretamente a situação. Mas esta heresia tem sido analisada e exposta por mais de três anos e meio. O que esperam a OPC e a PCA? Quando se arrependerão de sua negligência pecaminosa e flagrante?
O Apóstolo João também ensina que denominações e até mesmo crentes individuais têm a obrigação moral de rejeitar pastores, mestres e presbíteros que apostataram e ensinam heresia condenável.
“Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho. Se alguém vem ter convosco, e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis. Porque quem o saúda tem parte nas suas más obras” (2 João 1:9 – 11). João adverte-nos contra mestres que, intencional ou inadvertidamente, trabalham para destruir a Igreja de Jesus Cristo. “[O] cristão que acolhe o instrutor em sua casa, na verdade, favorece o propósito de seu visitante. Na prática, dá sua bênção à obra do falso mestre. Observe que João não considera isso um ato inocente ou insignificante; ele o chama de participação em obra maligna originada em Satanás […][12]”.
Quanto aos falsos mestres, Matthew Henry escreve: — “Não se deve recebê-los como ministros de Cristo […]. [1] – ‘Não os sustenteis’ […] [2] – ‘Não abençoeis suas empreitadas […]. Não assistais aos seus cultos com vossas orações e bons desejos’ […]. Deus não será patrono da falsidade, sedução e pecado[13]”.
Aquele que apoia um homem ou uma organização com sua presença ou recursos torna-se moralmente responsável pela heresia propagada por esse falso profeta ou denominação. Os membros das congregações da OPC e PCA devem dialogar com seus Conselhos sobre a necessidade de separação e, em unidade, se apartar dessas denominações; todavia, membros individuais e cabeças de família sob Aliança devem retirar imediatamente a si mesmos e seus filhos dessas denominações corruptas, caso as Sessões respectivas se recusem a agir.
Quando a OPC ou a PCA falham em depor ministros publicamente, difundindo essa heresia, elas estão implicitamente dando a esses falsos profetas oportunidades muito maiores de causar dano a Igrejas e crentes reformados em outros lugares. Além disso, estão agindo de maneira que torna muito mais difícil para esses falsos mestres reconhecerem os erros de seus caminhos. Essas denominações podem argumentar que, em diversos momentos, condenaram esses ensinamentos (por exemplo, o recente relatório da OPC sobre justificação [73ª Assembleia Geral, abril de 2006]) e, portanto, suas mãos estariam agora limpas. Mas, se uma denominação condena a doutrina de um professor em um assunto tão crucial como a justificação, considerando-a não bíblica e não confessional, e ainda assim não sustenta essa declaração com a disciplina exigida pela Escritura, de que adianta? O que a OPC e a PCA têm feito essencialmente nos últimos quatro anos é equivalente a dizer: — “O adultério é contrário às Escrituras e aos nossos Padrões. Somos veementemente contrários ao adultério. De fato, precisamos ser mais cuidadosos ao excluir adúlteros da membresia da Igreja. No entanto, não disciplinamos nem excomungamos adúlteros; isso seria demasiado severo e sem amor[14]”. A história da Igreja nos ensina que relatórios e declarações denominacionais sem atos apropriados de disciplina correspondentes alcançam pouco ou nada. Os hereges, geralmente, não saem por vontade própria; eles precisam ser expulsos.
Os homens que ensinam e governam na Igreja de Cristo devem usar seus dons “para edificação, e não para destruição” (2 Coríntios 10:8; 13:10). As doutrinas que apresentam precisam ser bíblicas e claras, se realmente desejam conduzir à salvação e à edificação espiritual da Igreja. Aqueles ministros que promovem este novo ensino não buscam o bem espiritual dos outros, mas os conduzem a múltiplas heresias. Por isso, a Igreja deve exercer a autoridade que Deus lhe conferiu para eliminar este erro mortal; caso contrário, será responsável pelo abuso, apostasia e destruição das ovelhas sob seu cuidado. Homens que, pelo seu ensino, privam seus congregantes da perfeita justiça de Cristo e os conduzem, em lugar disso, aos seus próprios trapos imundos e fétidos de “fidelidade da aliança” para a justificação final, são lobos, e não pastores. Se a OPC e a PCA se recusarem a depor e excomungar os proponentes da “teologia da Visão Federal” que não se arrependem, então, constitucionalmente e em princípio, elas deixam de ser uma Igreja verdadeira. Na prática, tornam-se fundamentalmente apóstatas. Todo o sangue dessas almas, ceifadas por seu ensino condenável sobre a justificação, e que elas deliberadamente se recusaram a remover em nome da tolerância, do amor e da compaixão (falsamente assim chamados), será exigido de suas mãos. “E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: — Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Por isso saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; e não toqueis nada imundo, e eu vos receberei” (2 Coríntios 6:15 – 17).
Terceiro, após o devido processo nos tribunais, aqueles que aderirem e/ou apoiarem os ensinamentos da “teologia da Visão Federal” devem ser excomungados da comunhão da Igreja visível de Jesus Cristo, a menos que se arrependam dessas doutrinas heréticas e retratem quaisquer sermões, escritos, livros, palestras, fitas, sites, boletins, ou outros materiais que promovam tais ensinamentos. “Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, contendas, blasfêmias, ruins suspeitas, perversas contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que ganho seja piedade; aparta-te dos tais” (1 Timóteo 6:3 – 5). Paulo proíbe os servos de Cristo de manter qualquer convívio com tais pessoas. Ele não apenas adverte Timóteo a não se assemelhar a eles, mas o exorta a evitá-los como pragas perigosas[15]. Bons ministros e cristãos se afastarão de tais indivíduos[16]. “Não tenhas nada a ver com tais homens; evita-os em tuas conversas privadas e expulsa-os da Igreja se seus pecados forem escândalos públicos e forem contumazes[17]”. “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade. Mas evita os falatórios profanos, porque produzirão maior impiedade” (2 Timóteo 2:15, 16; cf. 3:5, 13; 4:2 – 4). “Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu. […] Mas, se alguém não obedecer à nossa palavra por esta carta, notai o tal, e não vos mistureis com ele, para que se envergonhe. Todavia não o tenhais como inimigo, mas admoestai-o como irmão” (2 Tessalonicenses 3:6, 14, 15; as passagens discutidas na seção anterior aplicam-se igualmente a este ponto).
Nessas passagens, Paulo ensina, de forma implícita ou explícita: — [1] – Os crentes individuais têm a obrigação moral de se afastar, social e eclesiasticamente, daqueles que ensinam ou vivem na heresia. [2] – A Igreja tem a responsabilidade bíblica de ordenar que os homens cessem de ensinar doutrina falsa. Devem ser silenciados, pois seu ensino é devastador para famílias inteiras (Tito 1:11). [3] – Os falsos mestres devem ser censurados e separados da comunhão e da convivência da Igreja.
“Paulo declara que tais pessoas devem ser afastadas da sociedade dos crentes, para que não tragam desonra à Igreja[18]”.
A marca principal de uma Igreja verdadeira é a pregação e a profissão puras da Palavra (João 8:31, 32, 47; 14:16; 6:34; 2 Timóteo 1:13; 2:2; 3:10, 14; 4:3; Tito 1:9; 2:1; 3:10, 11 etc.). A verdadeira Igreja só pode sustentar-se sobre a doutrina apostólica genuína. Calvino escreve: — “Mas, assim que a falsidade irrompe na cidadela da religião, e a soma da doutrina necessária é derrubada, e o uso dos sacramentos destruído, segue-se certamente a morte da Igreja — assim como a vida de um homem se encerra quando sua garganta é perfurada ou seu coração mortalmente ferido. E isso se evidencia claramente nas palavras de Paulo, quando ensina que a Igreja está fundada sobre o ensino dos Profetas e Apóstolos, tendo Cristo como a principal pedra angular (Efésios 2:20). Se o fundamento da Igreja é o ensino dos Profetas e Apóstolos, que ordena aos crentes confiar sua salvação somente em Cristo — então, se se retira esse ensino, como poderá o edifício continuar de pé? Portanto, a Igreja deve ruir quando morre aquela soma da religião que sozinha pode sustentá-la. E, novamente, se a verdadeira Igreja é o pilar e fundamento da verdade (1 Timóteo 3:15), é certo que nenhuma Igreja pode existir onde a mentira e a falsidade tenham prevalecido[19]”.
Por esta razão, ministros e presbíteros, como guardiães do rebanho, têm a responsabilidade — após seguirem os níveis necessários de admoestação — de “rejeitar” (Tito 3:10), “afastar da Igreja” (1 Coríntios 5:13) e considerar como “gentios” (Mateus 18:17) aqueles que não se arrependem dessa heresia.
A Confissão de Westminster apresenta várias razões pelas quais as censuras eclesiásticas são essenciais: — “As censuras da Igreja são necessárias para a recuperação e reconciliação dos irmãos ofensores, para deter outros de ofensas semelhantes, para purgar o fermento que poderia infectar toda a massa, para vindicar a honra de Cristo e a santa profissão do Evangelho, e para prevenir a ira de Deus, que poderia justamente cair sobre a Igreja se permitisse que sua Aliança e os seus sinais fossem profanados por ofensores notórios e obstinados” (30:3; cf. 1 Coríntios 5; 1 Timóteo 5:20; Mateus 7:6; 1 Timóteo 1:20; 1 Coríntios 11:27 – 34; Judas 23).
Quanto aos ministros que defendem a doutrina da Auburn Avenue ou da “Visão Federal”, colocamos as seguintes perguntas: — [1] – Seu ensino alcança o nível da mais alta censura, chamada excomunhão maior (Mateus 18:17)? Sim, todos os bons protestantes concordam que negar a doutrina da justificação somente pela fé é heresia grave e condenável. [2] – Os defensores dessa doutrina são ensináveis e humildes ou obstinados e rebeldes? Infelizmente, é evidente que se trata do último caso. Confrontados com a verdade, endureceram-se e tornaram-se mais cegos e obstinados. Até o momento, nenhum se arrependeu[20]. [3] – Esses homens receberam as admoestações bíblicas adequadas e tiveram tempo razoável para se arrepender? Esses homens (isto é, pelo menos os líderes proeminentes) foram confrontados de forma privada, pública e foram minuciosamente refutados por escrito[21]. Esta controvérsia já dura quase quatro anos.
Essas respostas levantam outra questão: — por que a OPC e a PCA se recusam a disciplinar praticamente qualquer pessoa ligada a essa heresia?[22] Trata-se de uma questão perplexa. Uma razão pela qual os homens se esquivam de tal dever é que “é um trabalho penoso para toda mente benevolente. É um trabalho no qual ninguém deseja se engajar, a menos que seja compelido pelo senso de dever[23]”.
Outra possível razão é que algumas pessoas interpretam a excomunhão como uma declaração de que a pessoa é não–regenerada e certamente pertence ao inferno. Na verdade, a excomunhão consiste em lançar o ofensor “para fora da Igreja, no mundo, que a Escritura descreve como o reino de Satanás[24]”. Tais pessoas, porém, podem se arrepender e ser readmitidas na Igreja visível. Outra razão provável é que muitos líderes eclesiásticos colocam a paz institucional (ou seja, têm medo de um cisma na Igreja) acima dos requisitos disciplinares da Escritura. Se isso for verdade, esses homens não aprenderam as lições da tomada modernista na PCUSA. Quem busca paz onde não há paz carece de sabedoria. Os cismas virão (alguns já vieram), mas serão os fiéis se separando da corrupção, da apostasia e da covardia, em vez de hereges fugindo da justiça. Líderes que se recusam a exercer disciplina agem como os falsos profetas que diziam: — “Paz, paz”, quando não havia paz (Jeremias 6:14; 8:11). Hoje, a OPC e a PCA permitem que homens permaneçam no ministério como falsos profetas, caminhando pelo caminho largo que conduz à destruição. Diante das claras injunções bíblicas quanto aos falsos mestres, torna-se abundantemente evidente que a resposta escriturística à penetração da “Visão Federal” na OPC e na PCA deve possuir tanto um aspecto positivo quanto negativo.
Além disso, muitos têm uma visão antibíblica da disciplina, considerando-a severa, desnecessária e carente de amor. Aqueles que se opuseram às doutrinas da Auburn Avenue chegaram a ser chamados de insensíveis ou “sem amor”. Contudo, tal perspectiva pressupõe, em contradição com as Escrituras, que a disciplina é algo ruim. A disciplina, de fato, é dolorosa; provoca tristeza e angústia. Mas certamente não é má. Poderíamos até afirmar que a recusa em disciplinar aqueles que certamente a merecem é o oposto do amor, pois conforta as pessoas em seus pecados (Levítico 19:17) e proporciona aos que se rebelam contra Deus uma falsa sensação de segurança.
A razão pela qual a OPC e a PCA estão infestadas de ministros falsos e deficientes reside em seu conceito demasiadamente frouxo de subscrição aos Padrões de Westminster. Ao viajar ou mudar-se para uma nova região, a família que visita uma Igreja da OPC ou PCA não sabe o que encontrará até participar de um culto. Será um serviço celebrativo de “nova vida” (isto é, no estilo arminiano carismático), um culto anglo–católico à maneira de James Jordan, um serviço “tradicional” à moda antiga ou um culto confessionário de Westminster (apenas salmodia a capela)? Haverá os inúmeros ensinos e práticas falsas que são tolerados por exceções aos Padrões: — pedocomunhão, liturgias pré–latelicais da alta Igreja[25], vestes e paramentos sacerdotais[26], interpretações desviantes dos primeiros capítulos de Gênesis, monoconvenantalismo[27], regeneração batismal, conceitos antinomianos do amor na “vida superior”, justificação por obediência fiel, entre outros?
Uma denominação presbiteriana que adota um conceito frouxo de subscrição é “como uma caixa de chocolates […] nunca se sabe o que vai encontrar”. Se a OPC e a PCA desejam deter a decadência, devem cessar de tratar os Padrões como uma régua elástica ou meras recomendações amplas. Devem retornar à subscrição plena de seus antecessores.
Se a OPC e a PCA não condenarem nem censurarem os hereges — o que é provável, dado o avançado estado de decadência doutrinária em que se encontram quanto à criação, ao Evangelho, à moral, ao culto bíblico, aos sacramentos etc. — então deveriam ser transparentes e reescrever os Padrões de Westminster para refletir aquilo que realmente creem, permitem e praticam.
O propósito da subscrição plena é consolidar um sistema teológico específico e protegê-lo da corrupção. Outro objetivo é declarar publicamente o que é confessado e representado. O sistema frouxo vigente hoje não cumpre nenhuma dessas funções. Os Padrões de Westminster tornaram-se, na prática, algo como “isto é o que cremos, às vezes, dependendo de quem seja o pastor local e a sessão da Igreja”.
Na OPC e na PCA de hoje existem dois sistemas religiosos rivais. De um lado, de maneira geral, encontra-se o remanescente conservador do Presbiterianismo da Nova Escola. Do outro lado, temos os sacramentalistas, que são essencialmente anglo–católicos no culto e modernamente judaizantes na doutrina da justificação. Esses últimos não se pautam verdadeiramente por Calvino, Knox ou Melville, mas pelo cristianismo medieval, por Norman Shepherd e pelo neolegalismo. Ambos os lados não podem coexistir em harmonia, pois, em essência, representam dois sistemas religiosos distintos: — um fundamentado exclusivamente na graça, o outro na justiça pelas obras.
A questão central para ambas as denominações é a imposição de sanções. Regras, confissões e leis sem sanções tornam-se, a longo prazo, inúteis.
Uma denominação sem subscrição plena e sem disciplina eclesiástica que a sustente será gradualmente corroída por inúmeras exceções.
Com subscrição plena e disciplina bíblica, os fiéis desfrutam da liberdade que a palavra de Deus concede, havendo previsibilidade tanto na doutrina quanto na ética. Por outro lado, uma subscrição frouxa, acompanhada de pragmatismo e flexibilidade humana, deixa o rebanho à mercê dos caprichos de burocratas liberais da Igreja. Nesse cenário, a doutrina e a prática evoluem lentamente para longe da fé reformada. É por isso que, em diversos aspectos — doutrina, culto e prática — a OPC e a PCA encontram-se hoje consideravelmente mais debilitadas do que estavam há apenas 30 ou 40 anos.
Conclusão.
Tendo brevemente considerado o Relatório da OPC sobre a Justificação, somos levados a concluir o seguinte: — o relatório do comitê da OPC não recomenda que os mestres e defensores da “Visão Federal” que não se arrependem sejam depostos e censurados — precisamente aquilo de que a OPC necessita.
A menos que um oficial da Igreja presente proponha e aprove uma moção para iniciar o processo de admoestação e censura, o relatório permanece pouco mais do que palavras, passíveis de serem ignoradas. Por um lado, a doutrina da “Visão Federal” sobre a justificação é afirmada como contrária às Escrituras; por outro, seus defensores são tolerados como se se tratasse de um erro não vital. Isto constitui um pecado escandaloso, tão grave que justifica separação ou secessão por parte daqueles que desejam ser fiéis à Escritura[28]. Até quando os verdadeiramente reformados (TR[29]) ou os “conservadores” na OPC e na PCA continuarão a tolerar contradições tão evidentes, sérias e até mortais às Escrituras e aos Padrões de Westminster em suas comunhões?[30]
Quem não se separa da tolerância à heresia condenável torna-se cúmplice desses pecados escandalosos. Ao eliminar todas as desculpas — pragmatismos, concepções mundanas de amor, interesses financeiros e manobras burocráticas —, resta apenas a permissão de uma completa negação da suficiência da redenção de Cristo. Tal conivência com um evangelho falso é absolutamente inaceitável.
Quantas congregações e famílias ainda precisarão ser destruídas pela heresia antes que se tome a decisão de se separar?
“Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?” (1 Coríntios 5:6). Chega o momento em que o caminho mais eficaz para a reforma é protestar e secessar [separar-se], rompendo com a jurisdição vigente. A fidelidade neste tempo exige exatamente isso.
Paz e graça.
[1] Por Brian M. Schwertley (2006).
[2] Há diversos ministros e presbíteros da OPC e da PCA que escreveram artigos, participaram de conferências em favor dessa “teologia” e defenderam, nos tribunais eclesiásticos, oficiais da Igreja que sustentam as mesmas ideias — por exemplo: o Prof. Richard Gaffin, Thomas Tyson, Thomas Trouwburst, Peter Lillback, Richard Lusk e Steven Wilkins. Não há diferença substancial entre o “Shepherdismo” e a “Visão Federal”, pois os defensores de ambas participam das mesmas conferências e, juntos, promovem a doutrina da justificação pela fé acrescida de obediência fiel ou boas obras. O livro herético de Norman Shepherd, “The Call of Grace: How the Covenant Illustrates Salvation and Evangelism”, publicado pela editora Presbyterian and Reformed, foi endossado pelo Prof. Richard Gaffin.
[3] O comitê da Assembleia Geral foi formado em 2004 para tratar da “Visão Federal” e da “Nova Perspectiva sobre Paulo”, em razão de uma proposta vinda do Presbitério do Meio–Oeste. Logo na primeira página do relatório há uma advertência sobre os artigos publicados na internet e sobre aqueles que “divulgam opiniões sem a devida reflexão e sem adequada responsabilidade diante de outros”. Os artigos da internet, tidos como não acadêmicos e não confiáveis, são contrastados com materiais “responsáveis”, circulados por “canais ordinários”. Embora, sem dúvida, existam muitos textos antibíblicos e pouco eruditos na internet, os artigos e livros publicados por “respeitáveis” professores de seminários, através desses “canais ordinários”, após “devida reflexão” e “receberem valiosas críticas”, frequentemente não são mais confiáveis do que muitos dos textos heterodoxos disponíveis online. Pode-se citar, por exemplo, os dois livros antibíblicos sobre adoração de John Frame, publicados pela Presbyterian and Reformed e endossados por quatro professores de seminário (“Worship in Spirit and in Truth” foi recomendado por Richard Pratt Jr. e Steven Brown, do Reformed Theological Seminary em Orlando, e por Richard B. Gaffin Jr. e D. Clair Davis, do Westminster Theological Seminary na Filadélfia). Para uma refutação bíblica do ataque de Frame ao Princípio Regulador do Culto e aos Padrões de Westminster, veja Brian M. Schwertley, “The Neo–Presbyterian Challenge to Confessional Presbyterian Orthodoxy”; e também Kevin Reed, “Presbyterian Worship: Old and New”, em Brian M. Schwertley, “Musical Instruments in the Public Worship of God” (Southfield, MI: Reformed Witness, 1999). Outro exemplo é a defesa de James Hurley de que mulheres podem ensinar doutrina a homens no culto público, em seu livro “Man and Woman in Biblical Perspective” (Grand Rapids: Zondervan, 1981). Também os escritos de Meredith Kline sobre o capítulo primeiro de Gênesis, antibíblicos e perigosos, constituem outro caso notório. Poder-se-iam multiplicar tais exemplos, pois os modernos seminários presbiterianos “conservadores” refletem e sustentam as amplas defecções dos Padrões de Westminster que hoje se encontram tanto na OPC quanto na PCA.
[4] As omissões do relatório são particularmente preocupantes, dado o histórico de falhas da OPC em proteger as ovelhas sob seus cuidados quando tiveram oportunidade. O Presbitério da Filadélfia da OPC não conseguiu condenar Norman Shepherd por heresia no final da década de 1970, quando ele foi afastado do Westminster Theological Seminary, na Filadélfia. Além disso, o presbítero John O. Kinnard foi absolvido pela Assembleia Geral da OPC, após ter sido condenado por ensinar a doutrina da justificação pela fé acrescida de obras. Embora Kinnard tenha demonstrado algum arrependimento pela falta de clareza em seu ensino, ele nunca se arrependeu de ensinar a doutrina “shepherdita/Visão Federal” da justificação pela fé e pela obediência fiel (ou pelas obras).
[5] Martinho Lutero, Comentário à Epístola de São Paulo aos Gálatas (Cambridge: James Clarke, 1953), p. 69. William Hendriksen observa: — “A verdade expressa na primeira oração condicional (v. 8) reforça ainda mais a expressa na segunda (v. 9). O raciocínio é o seguinte: — se até mesmo nós, ou um anjo santo, devemos ser objeto da justa maldição de Deus ao pregar um evangelho diferente daquele que anteriormente vos anunciamos, quanto mais os autoproclamados insignificantes que agora se tornam culpados desse crime devem sofrer a ira divina. Aqui a tempestade da condenação se revela em toda a sua intensidade. O ‘Seja anátema’ de Paulo não é um mero desejo, mas uma invocação efetiva. O Apóstolo, como representante plenamente autorizado de Cristo, pronuncia a maldição sobre os judaizantes, que cometem o terrível pecado de declarar falso o verdadeiro Evangelho e de substituí-lo por um evangelho falso, destrutivo e perdido, em lugar do verdadeiro e salvador” (Gálatas e Efésios [Grand Rapids: Baker, 1967, p. 68; 1979], p. 41).
[6] John Calvin, Sermons on Galatians by John Calvin (Audubon, NJ: Old Paths, [1574] 1995), p. 50, 51, 55, 63, 64, 65).
[7] John Calvin, Commentaries on the Epistles to Timothy, Titus and Philemon (Grand Rapids: Baker, 1981), p. 342.
[8] Archibald Thomas Robertson, Word Pictures in the New Testament (Grand Rapids: Baker [1931] n.d.), 4:600.
[9] Thomas Taylor, Exposition of Titus (Minneapolis, MN: Klock and Klock [1619] 1980), p. 174 – 175.
[10] John Calvin, Commentaries on the Epistles to Timothy, Titus and Philemon (Grand Rapids: Baker, 1981), p. 298.
[11] John Murray, The Epistle to the Romans (Grand Rapids: Eerdmans, [1959, 65] 1968), 2:236.
[12] Simon J. Kistemaker, James and I – III John (Grand Rapids: Baker, 1986), p. 384.
[13] Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible [McLean, VA: MacDonald, no date], 5:1102.
[14] Enquanto Deus define frequentemente o amor em termos de sua disposição de castigar o seu próprio povo quando este se desvia, os presbiterianos modernos e corrompidos parecem definir o amor como a disposição de castigar aqueles que creem que o pecado e a heresia devem receber admoestação, repreensão e censura. Quando a RPCUS defendeu o Evangelho de Jesus Cristo em 2002, condenando o ensino da Visão Federal sobre a justificação como heresia, a reação generalizada de muitos presbiterianos e assim chamados teonomistas foi de choque e ira, não contra os hereges condenáveis que negavam o verdadeiro Evangelho, mas contra a RPCUS por defendê-lo. Vivemos em um tempo de ignorância e declínio generalizados.
[15] John Calvin, Commentaries on the Epistles to Timothy, Titus and Philemon, p. 156.
[16] Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible, 6:828.
[17] Matthew Poole, Commentary on the Holy Bible (Carlisle, PA: Banner of Truth, [1685] 1963), 3:788.
[18] John Calvin, Commentaries on the Epistles of Paul the Apostle to the Philippians, Colossians and Thessalonians, p. 352.
[19] John Calvin, Institutes of the Christian Religion (Philadelphia: The Westminster Press, 1960), 4:2:1, 2:1041 – 1042. Sobre a disciplina da Igreja, William Cunningham escreve: — “As censuras são simplesmente a aplicação das declarações das Escrituras à conduta externa dos homens individualmente, sendo ratificadas ou confirmadas por Deus em sua influência sobre a salvação eterna do homem, apenas na medida em que correspondem às declarações de sua Palavra e às circunstâncias reais do caso […]. A exclusão por sentença judicial da Igreja visível é, em substância, uma declaração solene pelos oficiantes eclesiásticos de que consideram a pessoa que excluem como sustentando opiniões ou seguindo um curso de conduta oposto à palavra de Deus” (Discussions on Church Principles: Popish, Erastian, and Presbyterian [Edinburgh: T and T. Clark, 1868], 244 – 245).
[20] Douglas Wilson tem procurado parecer mais ortodoxo e moderado do que seus colegas ao afirmar sua crença na imputação da justiça de Cristo. Embora Wilson, em suas sutis ambiguidades e declarações ortodoxas, possa parecer melhor do que alguns de seus parceiros teológicos na heresia (por exemplo, Rich Lusk), ele deve, na realidade, ser rejeitado como herege porque: — [1] – Apesar de seu tom moderado, chega a praticamente todas as mesmas conclusões que Lusk e Wilkins. [2] – Apoia plenamente o movimento que, em sua essência, é herético e mortal. A Canon Press publica as opiniões mais radicais, e o New St. Andrew’s College emprega Peter Leithart, cujos escritos sobre a Igreja, o culto e os sacramentos são radicalmente heterodoxos. Se um homem apoia um movimento herético com seu dinheiro, escritos, publicações, palestras etc., então esse homem é um herege perigoso.
[21] See Brian M Schwertley, Auburn Avenue Theology: A Biblical Analysis (Iola, WI: Covenanted Reformation Press, 2005); John M. Otis, Danger in the Camp: An Analysis and Refutation of the Heresies of the Federal Vision (Corpus Christi, TX: Triumphant Publications, 2005).
[22] “Os ocupantes de cargos nessas denominações — pastores, presbíteros, diáconos, professores e administradores de seminários — não tomaram nenhuma ação eficaz para impedir a propagação das heresias ou para disciplinar os hereges. Pelo contrário, fizeram exatamente o oposto. Existem redes de “bons camaradas”, formadas ainda nos tempos de seminário, que protegem falsos mestres de qualquer disciplina ou oposição efetiva. Estudantes protegem seus professores; professores protegem seus estudantes; estudantes e professores protegem-se mutuamente. Como controlam os tribunais eclesiásticos, essas redes de “bons camaradas” impediram que os tribunais da Igreja tomassem qualquer medida efetiva contra falsos mestres nas Igrejas presbiterianas. Com a única exceção de John Kinnaird (um presbítero acusado de heresia por membros comuns da Igreja, não por seminaristas, e cuja condenação foi posteriormente revertida pelo mais alto tribunal da Igreja Presbiteriana Ortodoxa, controlado, é claro, pelos seminaristas), nenhum professor foi disciplinado por essas denominações. Em um caso obscuro envolvendo Burke Shade — hoje ‘pastor’ afiliado à seita de Douglas Wilson, a CREC —, o Presbitério de Illiana (PCA) depôs-o do cargo. Quase ninguém tomou conhecimento desse caso fora daquele presbitério, pois este não percebeu que Shade, seguidor de James Jordan, representava um problema muito maior dentro da PCA. Entre as dezenas de pastores, presbíteros e professores de seminário que ensinaram doutrina falsa na OPC e na PCA nos últimos cinco anos, nenhum foi removido do cargo, nenhum foi condenado por erro doutrinário, nenhum foi julgado e nenhum sequer foi formalmente acusado de erro. Alguns presbitérios e congregações emitiram ‘declarações’ sobre certos erros, mas tais declarações são inócuas e superficiais. Os responsáveis pelos seminários e pelas Igrejas falharam em seu dever para com Cristo e sua Igreja, mas até agora conseguiram proteger suas próprias posições e as de seus amigos. Contudo, quando os oficiais da Igreja falham em cumprir seu dever, são julgados por Deus; e Ele levanta cristãos que conhecem e cumprem o seu dever” (John Robbins, The Trinity Review [Unicoi, TN: The Trinity Foundation, February 2006], 1).
[23] Samuel Miller, The Ruling Elder (Dallas, TX: Presbyterian Heritage Publications, [1831, 32, 43, 44] 1999, 189).
[24] Robert Shaw, An Exposition of the Westminster Confession of Faith (Geanies House, Feann: Christian Focus Publications, [1845] 1973), 364.
[25] Refere-se a formas de culto ou rituais que remontam à tradição da “alta Igreja” (high church), particularmente anteriores ao Concílio de Latrão ou que evocam práticas litúrgicas antigas da Igreja Católica. Envolvem cerimônias mais formais, uso de ritos elaborados, gestos ritualísticos e uma ênfase no sacramentalismo, distinguindo-se do culto simples e centrado na Palavra típico do presbiterianismo reformado — nota do tradutor.
[26] São vestes ou roupas específicas usadas por ministros ou líderes litúrgicos durante o culto, como albas, casulas, estolas, capas ou colares litúrgicos. No contexto reformado, seu uso é visto com suspeita, pois pode sugerir uma função sacerdotal sacramentalista, desviando do entendimento de Cristo como único Sumo Sacerdote e da simplicidade do culto bíblico — nota do tradutor.
[27] É a visão teológica que sustenta a existência de um único Pacto entre Deus e a humanidade, negando a distinção bíblica entre o Pacto da Graça no Antigo Testamento (com Abraão e Israel) e o Novo Pacto em Cristo. Na perspectiva reformada clássica, há um Pacto único de graça, mas manifestado em diferentes administrações ou dispensações (Antigo e Novo). O monoconvenantalismo, ao fundir ou eliminar essas distinções, altera a compreensão bíblica da Aliança, do papel da Lei e da continuidade entre Antigo e Novo Testamento — nota do tradutor.
[28] Em vez de um silêncio resignado ou de simplesmente transferir-se para outra denominação, o método histórico reformacional de protesto e secessão é a resposta adequada para alertar outros oficiais da Igreja e membros comungantes quanto à gravidade da corrupção do Evangelho. Estas são heresias condenáveis, semelhantes às dos judaizantes e da Igreja Católica Romana, exigindo uma ruptura.
[29] Truly Reformed.
[30] A prática da subscrição muito frouxa, hoje, em que denominações presbiterianas “conservadoras” abrigam muitas visões teológicas e práticas de culto divergentes, gerou um tipo de independência funcional para as congregações verdadeiramente reformadas (TR). Essas congregações sabem, do ponto de vista humano, que pouco podem fazer a respeito. Assim, inconscientemente — e às vezes até conscientemente — adotam uma postura de “sejamos rigorosos em doutrina e culto — apenas nos deixem em paz”. Talvez cheguem a se ver como uma oásis reformada em um deserto de decadência e apatia. Justificam sua permanência em uma denominação corrupta e deformante dizendo a si mesmas: — “Estamos aqui para ser usados por Deus na reforma desta denominação” ou “Se sairmos, quem ficará para trabalhar pela reforma?”. Como não há evidência de que as TR tenham promovido sequer um vestígio de reforma na OPC ou na PCA nos últimos trinta anos, resta aos irmãos conservadores uma pergunta final: — agora que um dos pilares centrais da fé — a justificação somente pela fé, sem obras da Lei — é aberta e impunemente negado na OPC e na PCA, que desculpa ainda resta?
[31] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.
por Richard A. Muller | 16 set 2025 | TEOLOGIA
Em resposta a Paul Helm[2].
Na sua época, e ao longo do século XIX, as opiniões de Edwards foram tanto criticadas quanto elogiadas por se desviarem das concepções reformadas sobre a livre escolha. Suas ideias foram defendidas como plenamente compatíveis com a doutrina reformada, incluindo as formulações presentes nos Padrões de Westminster, embora fossem consideradas um pouco mais deterministas do que a tradição anterior. Foram também aplaudidas por terem finalmente inserido o pensamento reformado sobre o tema em um arcabouço determinista filosoficamente robusto. Esses debates ocorreram tanto no contexto norte–americano de Edwards quanto na Grã–Bretanha, envolvendo pensadores como Joseph Priestley (1733 – 1804), Dugald Stewart (1753 – 1828), William Hamilton (1788 – 1856), William Cunningham (1805 – 1861), John Lafayette Girardeau (1825 – 1898) e Robert Lewis Dabney (1820 – 1898)[3]. Meu recente ensaio, no qual delineio os debates britânicos e aponto o afastamento de Edwards em relação aos padrões de pensamento da antiga ortodoxia reformada, foi contestado por Paul Helm. Helm argumenta que o compatibilismo filosófico de Edwards pode ser facilmente integrado aos ensinamentos da ortodoxia reformada[4].
Há vários pontos de divergência, bem como alguns de concordância entre Paul Helm e eu, que precisam ser esclarecidos imediatamente. Em primeiro lugar, continuo a discordar dele quanto à adequação dos termos modernos “libertário” e “compatibilista” como descritores das argumentações medievais, dos séculos XVI e XVII, sobre a causalidade divina e humana. Em segundo lugar, embora eu tenha identificado a posição de Edwards sobre a causalidade divina e humana como “compatibilista”, devo esclarecer que não identifico a alternativa ortodoxa reformada, como evidenciado no pensamento de Turrettini, como “libertária”. Minha suposição é que “Turrettini defendeu tanto uma visão da livre escolha humana quanto uma doutrina da causalidade divina última de todas as coisas”.
Em terceiro lugar, não identifico a visão de Edwards sobre a liberdade como meramente epistemológica: — afinal, envolve um ato de vontade. Sustento que o contraste entre Edwards e os modelos reformados mais antigos para compreender necessidade, contingência e liberdade marca uma transição de uma compreensão tradicional, cristã e peripatética desses temas, que não se enquadra na linguagem moderna de compatibilismo e libertarianismo, para uma forma de compatibilismo da era do Iluminismo. Continuo convencido de que meu ponto central — de que o liberum arbitrium da tradição antiga, entendido como liberdade de escolha, contrasta com a linguagem escolhida por Edwards de liberdade da vontade — permanece válido. Estou igualmente convencido de que Edwards baseou-se em uma definição hobbesiana[5] de livre–arbítrio, provavelmente mediada a ele por John Locke (1632 – 1704). Helm está correto ao afirmar que obras em inglês, incluindo as publicadas no século XVII, muitas vezes usavam “livre escolha” e “livre–arbítrio” de forma intercambiável. Contudo, permanece o fato de que, enquanto as obras mais antigas, mesmo ao empregar o termo livre–arbítrio, não estavam se referindo à faculdade da vontade (voluntas), mas à questão do julgamento livre ou da adjudicação envolvida nos atos do intelecto e da vontade, Edwards não aceitava a psicologia tradicional das faculdades, usava “livre–arbítrio” em referência aos próprios atos de querer e criticava a linguagem tradicional da escolha.
1 – A questão histórica — Influências no pensamento de Edwards.
As fontes e os contextos do pensamento de Jonathan Edwards são difíceis de determinar, dado que ele raramente ofereceu citações ou referências a outros pensadores em seus escritos publicados, exceto quando estava envolvido em debates. Houve uma mudança na opinião acadêmica sobre as fontes de Edwards. A pesquisa mais antiga enfatizava os antecedentes lockeanos[6], com vários estudiosos, incluindo o biógrafo de Edwards do final do século XIX, indicando uma ênfase hobbesiana na questão do livre–arbítrio[7]. Mais recentemente, estudiosos têm argumentado a favor de uma influência mais forte de Malebranche[8], embora isso não exclua Locke, nem, de fato, exclua Hobbes no que diz respeito à definição de livre–arbítrio de Edwards[9].
Helm nega a influência de Hobbes e argumenta que a preferência de Edwards pela Teologia de Mastricht deve certamente indicar os antecedentes ortodoxos reformados das visões de Edwards sobre a liberdade[10]. Helm também nega a associação de Edwards com a Filosofia de Hobbes com base no materialismo de Hobbes[11]. É verdade que Edwards pode ser citado como alguém que elogia muito a Teologia ortodoxa reformada de Petrus van Mastricht, e também é verdade, como Helm indica, que Edwards afirmou explicitamente que nunca havia lido as obras de Thomas Hobbes[12]. No entanto, nenhuma dessas considerações desmente o argumento de que Edwards se baseou na Filosofia de John Locke e que a compreensão de Locke sobre o livre–arbítrio, como refletida em Edwards, tinha raízes em Hobbes. Edwards, claramente, não compartilhava do materialismo de Hobbes, mas compartilhava, com Locke, a compreensão de Hobbes sobre liberdade ou vontade. E Edwards cita Locke diretamente[13]. A única declaração de Edwards sobre a importância de Mastricht dificilmente pode ser tomada como evidência de que Edwards seguiu a Teologia de Mastricht em todos os aspectos! (Ele negou claramente qualquer dependência de Calvino[14].) Embora Edwards não fosse um seguidor estrito ou uniforme de Locke, alguns antecedentes lockeanos foram argumentados por vários estudiosos, incluindo Paul Helm[15], e o uso de terminologia lockeana por Edwards foi reconhecido mesmo por aqueles que negam influências substantivas significativas de Locke[16], e é precisamente a terminologia lockeana de Edwards que ecoa Hobbes.
Hobbes: — “Ele é livre para realizar uma ação se desejar fazê-la e pode se abster, se desejar se abster. […] Portanto, a questão não é se um homem pode escrever ou se abster, falar ou permanecer em silêncio, conforme sua vontade, mas se a vontade de escrever e a vontade de se abster surgem de acordo com sua própria vontade[17]”. Além disso, “Liberdade é a ausência de todos os impedimentos à ação que não estão presentes na natureza e na qualidade intrínseca do agente[18]”.
Locke: — “Liberdade […] é o poder que um homem possui para realizar ou se abster de realizar qualquer ação particular, conforme a preferência atual de sua mente; ou seja, conforme ele deseja”. Além disso, “Vontade, na verdade, não significa nada além de um poder ou habilidade de preferir, ou escolher”, e “mal podemos imaginar um ser mais livre do que aquele que pode realizar o que deseja[19]”.
Edwards: — “Liberdade […] é o poder, a oportunidade ou a vantagem que alguém tem para fazer o que deseja. Em outras palavras, é a ausência de obstáculos ou impedimentos para agir conforme a sua vontade[20]”. Além disso, “falar de liberdade, ou do contrário, como pertencente à própria vontade, não faz sentido […]. Pois a própria vontade não é um agente que possui uma vontade: — o poder de escolher, em si mesmo, não possui um poder de escolha. Quem possui o poder de volição ou escolha é o homem ou a alma […] aquele que tem a liberdade de agir de acordo com sua vontade é o agente ou realizador que possui a vontade[21]”.
O que todas essas definições têm em comum é a suposição de que “a liberdade é o poder de agir conforme se deseja ou conforme se quer”. A vontade deseja fazer ou se abster, e a liberdade reside não na alternatividade de agir ou se abster, mas na vontade desimpedida de qualquer preferência (agir ou se abster) que pertença à vontade. Nenhuma dessas definições estabelece uma distinção entre mente e vontade ou sugere qualquer interação de faculdades segundo a qual a mente ou intelecto julga os objetos para a vontade. Como se tornará evidente a seguir, essas definições são fundamentalmente diferentes da linguagem de livre escolha encontrada na “Institutio” de Turrettini e nas obras de outros escritores reformados do século XVII. Tampouco refletem a argumentação encontrada nos escritos de Nicolas Malebranche, que são frequentemente identificados como uma grande influência no pensamento de Edwards sobre outras questões[22]. É evidente que Edwards extraiu sua definição de livre–arbítrio de Locke (cujo “Ensaio sobre o Entendimento” ele cita a esse respeito), e a definição de Locke segue claramente a linha de Hobbes.
Edwards era um fervoroso antiarminiano que manifestou certa admiração pela Teologia dos escritores ortodoxos reformados, como Petrus van Mastrich (1630 – 1706) e François Turrettini (1623 – 1687). No entanto, ele o fez a partir da perspectiva de uma época que havia rejeitado a Filosofia Aristotélica cristã da ortodoxia mais antiga, especialmente sua abordagem à psicologia das faculdades, potências, possibilidades, distinções entre diferentes tipos de contingência e necessidade, e múltiplos níveis de causalidade. A linguagem de Edwards sobre liberdade, contingência e necessidade revela que, apesar de sua admiração, ele estava decidido a adotar uma abordagem filosófica muito diferente daquela dos ortodoxos reformados do século XVII.
2 – Necessidade e Contingência em Edwards e Turrettini.
Contrariamente à exposição de Helm, as diferenças entre as visões de Edwards e as de Turrettini tornam-se bastante evidentes quando suas abordagens sobre causalidade, necessidade e contingência são comparadas. Cederei a Helm em um ponto: — O entendimento de Edwards sobre a necessidade não é bem caracterizado como físico — afinal, Edwards não era materialista —, sendo mais preciso dizer que Edwards entendia a necessidade como “natural ou moral[23]”. No entanto, meu ponto principal permanece: — A abordagem de Edwards pressupõe uma única linha de causalidade que enfatiza a causa eficiente, embora inclua também causas materiais e finais; contudo, parece carecer de uma percepção clara das causas formais distintas, além de negligenciar a distinção clássica entre causalidade primária e secundária. Além disso, em sua argumentação sobre liberdade e necessidade, incluindo a citação mencionada por Helm em refutação aos meus comentários, Edwards se concentra no que tradicionalmente seria identificado como causalidade eficiente, isto é, causas antecedentes que geram efeitos particulares.
Sua linguagem está de acordo com o que a tradição antiga identificaria como “necessidade absoluta[24]”. Na visão de Edwards: — “A futuridade de todos os eventos futuros é estabelecida por uma necessidade anterior, seja natural ou moral; assim, é manifesto que o Criador ou Dispositor[25] soberano do mundo ordenou essa necessidade, ao ordenar sua própria conduta, seja agindo de maneira intencional ou abstendo-se de agir. Pois, assim como a existência do mundo vem de Deus, as circunstâncias nas quais ele teve sua existência inicialmente, tanto negativas quanto positivas, devem ser ordenadas por Ele, de uma dessas maneiras; e todas as consequências necessárias dessas circunstâncias devem ser ordenadas por Ele. […] todos os eventos, de qualquer tipo, estão necessariamente conectados com algo anterior, seja positivo ou negativo, que é a base de sua existência[26]”.
No que pode ser considerado uma ampliação da linguagem causal além da eficiência, Edwards observou que: — “A palavra causa […] é frequentemente utilizada em um sentido tão restrito que significa apenas aquilo que exerce uma influência ou eficiência positiva para produzir algo ou trazê-lo à existência. No entanto, há muitas coisas que não exercem tal influência positiva, mas que ainda são consideradas causas nesse contexto, na medida em que possuem verdadeiramente a natureza de um fundamento ou razão para a existência de algumas coisas em vez de outras; ou para a maneira como são, em vez de serem de outra forma[27]”.
No entanto, ele continua, sem indicar causalidade formal ou final, mas observando antecedentes negativos, como a ausência do sol antes da queda do orvalho, em contraste com a causalidade positiva do sol ao causar “vapores ascendentes” durante o dia. “Portanto”, escreve ele, “às vezes uso a palavra ‘causa’, nesta investigação, para significar qualquer antecedente, seja natural ou moral, positivo ou negativo, sobre o qual um evento, seja uma coisa ou a maneira e circunstância de uma coisa, depende de tal forma que é o fundamento e a razão, seja total ou parcialmente, de por que existe, em vez de não existir; ou de por que é como é, em vez de ser de outra forma[28]”.
Não há referência aqui à causalidade formal ou final, apenas a antecedentes positivos e negativos dentro do âmbito da eficiência. A Teologia de Edwards como um todo pode ser teleológica, mas não há teleologia aqui. A causalidade é mecânica, não de uma perspectiva materialista[29], mas no sentido de que não há nada nela que gere contingências genuínas, efeitos que poderiam ser de outra forma. A cadeia de causas, de antecedentes materiais e imateriais, simplesmente avança como deve. Helm corretamente afirma que “a compreensão da realidade de Edwards é mais simplista do que a dos ortodoxos reformados[30]”.
Esta abordagem da causalidade gera uma compreensão plenamente necessitarista, que se torna clara quando o significado de seus usos dos termos “necessidade de consequência” e “necessidade de consequência e conexão” é cuidadosamente analisado. Na visão de Edwards, “as coisas que estão perfeitamente conectadas com outras coisas que são necessárias, são necessárias por si mesmas, por uma ‘necessidade de consequência’[31]”. Da mesma forma, “os atos da vontade, nenhum deles é contingente no sentido de estar completamente livre de toda necessidade, ou de modo a não ser necessário com uma ‘necessidade de consequência e conexão’[32]”. Além disso, uma vez que Deus tem presciência certa e infalível, “os eventos são necessários, com uma ‘necessidade de conexão’ ou ‘consequência’[33]”. Edwards identifica a consequência como o resultado de uma conexão, de fato, uma conexão necessária. Sua definição não se conforma ao conceito de “necessidade da consequência” (necessitas consequentiae) ou “necessidade de dicto [necessidade da proposição]”, conforme tradicionalmente definida: — a necessidade da consequência é a necessidade lógica ou presente de que uma coisa deve ser o que é, embora também possa ou não ser de outra forma. Em outras palavras, a necessidade da consequência indica uma verdadeira contingência. O outro membro da distinção tradicional, a necessidade do consequente da coisa consequente (necessitas consequentiae), representa uma necessidade que, sob a hipótese de seu antecedente, é absolutamente necessária e não pode ser de outra forma. Edwards parece, portanto, confundir a necessidade da consequência com a necessidade do consequente, assumindo que uma necessidade da consequência implica uma “conexão infalível com [alguma] coisa anterior[34]”.
A definição de contingência de Edwards confirma o ponto: — “Uma coisa é considerada contingente, ou acontece por acaso ou acidente, no sentido original dessas palavras, quando sua conexão com suas causas ou antecedentes, de acordo com o curso estabelecido das coisas, não é discernida; e assim é algo que não temos meios de prever. […] Mas a palavra contingente é abundantemente usada em um sentido muito diferente; não para aquilo cuja conexão com a série das coisas não conseguimos discernir, de modo a prever o evento; mas para algo que não tem absolutamente nenhum fundamento ou razão anterior, com a qual sua existência tenha qualquer conexão fixa e certa[35]”.
Edwards assume que a contingência se refere, ou (corretamente) a um evento que parece acidental apenas porque suas causas são desconhecidas para nós, ou (incorretamente) a um evento que não tem causas. Ele não considera o que é na verdade a definição tradicional de contingência, a saber, um evento causado que não é absolutamente necessário e que poderia ser diferente ou simplesmente não poderia existir. Todos os eventos ocorrem por necessidade, sendo “necessariamente conectados com algo que precede[36]”. O uso de “necessidade de consequência” por Edwards, portanto, corresponde ao uso tradicional de “necessidade da coisa consequente” e exclui a compreensão tradicional de “necessidade da consequência”, a saber, uma contingência genuína.
Essa argumentação indica um contraste claro com a ortodoxia reformada: — os reformados negam o acaso, indicando que o que parece ser fortuito, na verdade, tem causas que não são evidentes para o observador, mas afirmam a contingência como algo que poderia ser diferente, dado que sua causalidade é contingente e, no caso das escolhas humanas, definida como contingência por potências de vontade para mais de um efeito. Discordo de Helm que a expressão “poderia ser diferente” seja imprecisa. Enquanto Edwards indica categoricamente não apenas que todos os eventos são causados, mas também que todos os eventos estão “necessariamente conectados com algo que precede” (por aquilo que vimos ser uma necessidade do consequente), os ortodoxos reformados argumentam que alguns eventos estão necessariamente conectados com algo que precede (por uma necessidade do consequente), enquanto outros eventos estão contingentemente conectados com algo que precede (por uma necessidade da consequência). Edwards, em outras palavras, colapsa a contingência causal e o acaso em uma única categoria e nega ambos. Edwards não parece permitir necessidades hipotéticas simultâneas [concorrentes] na vontade divina e humana de um ato, efeito ou evento particular.
A visão de Turrettini é bastante diferente. Com relação à causalidade divina e ao conhecimento certo que Deus tem dos contingentes futuros, Turrettini indica que: — “A questão não diz respeito à necessidade absoluta e física em relação às segundas causas em si mesmas (pois confessamos que algumas são necessárias e outras contingentes), mas em relação a Deus e para com Ele. A questão não diz respeito à necessidade de coação, pois o decreto não faz violência às segundas causas, mas decreta que a realização das coisas ocorra de acordo com sua natureza. A questão, antes, diz respeito à necessidade hipotética e consequencial com relação à certeza do evento e à realização a partir desse decreto[37]”.
Turrettini assume uma estrutura causal na qual Deus eterna e livremente deseja concorrer no ato de um ser humano que temporalmente deseja livremente uma coisa particular. Deus tem a potência para querer de outra forma e não atualizar o mundo possível no qual um ato particular ocorre — e o ser humano tem a potência para querer uma coisa ou outra, resultando em uma situação tal que, em t1, o ser humano poderia querer A ou não–A, mas em t2, tendo querido A, A é uma necessidade da consequência, eternamente e concomitantemente querido por Deus como um evento no único mundo que Deus deseja atualizar e, portanto, prevê como uma necessidade de certeza. A vontade divina e a vontade humana são conjuntamente necessárias e suficientes para explicar o ato ou efeito contingente, mas nenhuma delas sozinha[38]. A necessidade humana da consequência, além disso, é uma “necessitas de dicto”, uma necessidade lógica assumindo em t1 um futuro indefinido de A ou não–A (governado pelo princípio da bivalência) e em t2 um ato ou evento definido (governado pela lei da não–contradição). Mas, como uma necessidade lógica, o ato ou evento y não remove ou cancela a potência ou capacidade do indivíduo para fazer não–A, que permanece na vontade de acordo com sua natureza essencial ou atualidade primária (in actu primo). Assim, A é o caso em t2, mas, considerando as potências residuais do agente humano, poderia ser diferente — não no próprio momento em que está realizando A, mas nas capacidades do agente em t1 para fazer tanto A quanto não–A, na potência para fazer não–A que não desaparece quando A é atualizada, e na capacidade em t3 para fazer de outra forma, a saber, não–A. Como Aristóteles indicou contra os Megaristas[39], um construtor não deixa de ser construtor quando não está engajado em construir[40].
Enquanto Edwards possui uma cadeia causal unidimensional e inquebrável, sem contingências (ou necessidades hipotéticas), Turrettini possui uma cadeia causal multinível que presume contingências (ou necessidades hipotéticas). Em ambos os casos, o futuro não será diferente, mas, no caso de Turrettini, embora apenas em potência, ele poderia ser diferente — retrocedido na mente divina, o “diferente” reside em um mundo possível que Deus não deseja atualizar, mas também há um sentido, na simultaneidade das potências, em que o “diferente” existe como pura potência, embora não atualizada neste mundo. Isso resulta, temporalmente, em uma contingência diacrônica, definida como contingente pela multiplicidade de potências, e consistindo em necessidades da consequência que não pertencem à abordagem de Edwards.
3 – O Livre–Arbítrio de Turrettini versus a Vontade Livre de Edwards.
Um dos debates em que Edwards esteve envolvido é altamente relevante aqui. Em 1756, Henry Home, Lord Kames, publicou uma defesa da primeira edição de seus “Essays on the Principles of Morality and Natural Religion”, na qual defendeu os argumentos radicalmente necessitaristas de seu ensaio sobre “liberdade e necessidade” como totalmente compatíveis com a Teologia ortodoxa reformada, citando textos específicos de Calvino, Turrettini e Pictet, ampliados por citações do tratado recentemente publicado de Jonathan Edwards sobre “The Freedom of Will[41]”. Quando Edwards soube do uso de seu trabalho, respondeu com um breve tratado, distanciando-se do determinismo de Lord Kames[42]. Para argumentar a impossibilidade da liberdade, Kames havia definido a verdadeira liberdade como “um poder na mente de agir sem e contra motivos; isto é, um poder de agir sem qualquer visão, propósito ou intenção, e até mesmo de agir em contradição aos nossos próprios desejos e aversões, ou a todos os nossos princípios de ação” e havia declarado que o conceito era “uma absurdidade, totalmente incompatível com a natureza racional[43]”. Edwards protestou contra essa associação de seu pensamento com uma negação total da liberdade humana — como se a liberdade pudesse ser definida como agir contra os motivos, em vez de agir de acordo com eles.
Da mesma forma, Edwards identifica estritamente a liberdade como “o poder, oportunidade ou vantagem que alguém tem para fazer o que lhe apraz, ou conduzir, ‘em qualquer respeito’, de acordo com seu prazer” — e ele contesta a existência de qualquer noção superior de liberdade como “uma liberdade de escolher como [se] quiser[44]”. Alegar, além disso, que alguém “obteve esse prazer por […] escolha” é uma “absurdidade[45]”, Edwards continua: — “Deixem-nos falar de soberania da vontade, poder autodeterminante, auto–movimento, autodireção, decisão arbitrária, liberdade ad utrumvis[46], poder de escolher de maneira diferente em casos específicos, e assim por diante, quanto quiserem. É evidente que esses homens, em sua afirmação veemente […] visam algo que não sabem o que é, lutando por algo que não têm uma verdadeira concepção, substituindo um conjunto de palavras confusas e sem sentido no lugar de coisas e pensamentos[47]”.
Edwards ainda afirma que “não há, e nunca pode haver, nem na existência, nem mesmo na ideia, qualquer tipo de liberdade de vontade que consista em indiferença e autodeterminação. A doutrina do pecado original foi rejeitada em nome desse conceito de liberdade, mas foi demonstrado que a liberdade dos agentes morais não consiste em poder autodeterminante. Além disso, não há necessidade de tal liberdade para a natureza da virtude[48]”.
A razão para a negação de Edwards dessa liberdade, indiferença ou autodeterminação é sua negação fundamental da contingência com base no fato de que há sempre uma “dependência ou conexão necessária com algo precedente”: — “tal dependência ou conexão exclui a contingência e implica necessidade[49]”. Em relação à questão da vontade humana, todas as ações são “necessárias, sendo dependentes e determinadas por algo precedente, nomeadamente, um ato de escolha anterior” — e, no entendimento de Edwards, não pode haver um ato de vontade anterior que escape a “um viés ou predominância preestabelecida[50]”. Em outras palavras, nunca pode haver um momento de indiferença. Na compreensão de Edwards sobre querer ou escolher como fazer o que se deseja sem impedimento, há apenas preordenação e ação. Não há interação interna entre conhecer e querer, apenas querer.
Muito pelo contrário, as definições reformadas ortodoxas de liberdade ou vontade — incluindo aquelas fornecidas por Turrettini e pelo teólogo favorito de Edwards, Mastricht — indicam que todos estavam “lutando por algo” que, no entendimento de Edwards, “eles [não tinham] nenhuma concepção”, na medida em que indicam consistentemente que a escolha livre é sinônima de autodeterminação ou αύτοξουσια[51] (autoexousía[52]). A limitação dessa autodeterminação, que Mastricht e outros notam, é que, embora não seja determinada por nenhuma causa criada (causa creata), a vontade ainda depende da preordenação divina como uma necessidade de infalibilidade: — “a escolha ocorre de acordo com um conselho interno que não é determinado intrinsecamente nem determinado extrinsecamente por coação[53]”. E a necessidade de infalibilidade é consistentemente definida em relação ao conhecimento prévio divino das contingências futuras.
Helm rejeita explicitamente minha identificação da escolha livre na tradição reformada mais antiga como “o ato interativo do intelecto e da vontade”, com o argumento de que, segundo Turrettini, a vontade deve seguir o julgamento do intelecto[54]. No entanto, Turrettini afirma claramente que “o sujeito da escolha livre não é nem o intelecto, nem a vontade separadamente, mas ambas as faculdades em conjunto; pois, assim como pertence ao intelecto por razão da escolha [ratione arbitrii] ou determinação [προαιρέσεως], também pertence à vontade por razão da liberdade[55]”. O intelecto propõe o objeto, e a vontade responde ao que o intelecto apresenta. Na definição de Turrettini, há, então, uma interação entre o intelecto e a vontade, algo que está notavelmente ausente na argumentação de Edwards. Para Edwards, a vontade era entendida como a própria mente agindo conforme suas disposições ou preferências: — “a vontade […] é claramente aquilo pelo qual a mente escolhe qualquer coisa. A faculdade da vontade é aquela faculdade ou poder ou princípio da mente pela qual ela tem o poder de escolher: — ‘um ato de vontade é o mesmo que um ato de escolher ou optar’[56]”. Embora Edwards empregue o termo “faculdade”, ele não faz uma distinção clara entre mente, vontade ou o ato de escolher, identificando a vontade diretamente com a escolha. Turrettini, por outro lado, distingue claramente as funções da mente ou intelecto das funções da vontade, argumentando uma interação ou conjunção entre essas faculdades. Pode-se dizer que as definições de Edwards e Turrettini são, portanto, incompatíveis.
Além disso, Turrettini colocou a escolha (arbitrium) ou julgamento no intelecto, não na vontade. O fato de a vontade seguir o julgamento do intelecto não remove sua distinção ou interação — na verdade, serve para identificar como Turrettini presume que a interação ocorre. Essa interação, ademais, tem como fundamento um sentido muito específico de indiferença volitiva, juntamente com o dado de que a vontade segue o último julgamento determinante do intelecto prático. Enquanto Edwards simplesmente nega a indiferença da vontade, Turrettini faz uma distinção, afirmando um tipo de indiferença e negando outro. Há, segundo Turrettini (e também Petrus van Mastricht), uma “indiferença na atualidade primária ou em um sentido dividido [in actu primo, seu in sensu diviso], quanto à simultaneidade de potência [simultatem potentiae], que é chamada de passiva e objetiva[57]”. Os reformados não contestam que, “considerada segundo sua constituição natural, deixando de lado os requisitos para a ação”, a vontade “é determinável a vários objetos e se mantém indiferente em relação a eles[58]”. O que é negado é uma indiferença remanescente tal que, após todos os pré–requisitos da ação, a saber, o julgamento do intelecto, a resposta livre da vontade, o “concursus” divino e (em questões de salvação) a graça divina, estarem engajados, ainda reste uma capacidade fundamental da vontade de agir ou não agir[59]. Em outras palavras, a indiferença é característica da atualidade primária do querer, mas não da atualidade secundária.
Especificamente, Turrettini e outros ortodoxos reformados insistem em duas liberdades da vontade: — “a vontade, por si mesma, está tão preparada que pode tanto realizar quanto suspender o ato (que é a liberdade de exercício e de contradição) ou ser levada a ambos os opostos (que é a liberdade de contrariedade e de especificação)[60]”. Os reformados diferem quanto à forma como essas duas liberdades são entendidas em relação à interação entre intelecto e vontade. Segundo Turrettini e Maresius, essas liberdades na vontade e sua indiferença básica em sua constituição natural persistem “enquanto o intelecto permanece duvidoso e incerto sobre para onde se voltar[61]”. Ambos colocam a alternatividade envolvida na escolha livre no julgamento do intelecto, com a vontade seguindo livremente o último julgamento determinante do intelecto prático. O que é importante reconhecer aqui é que ambos afirmam a alternatividade. Outros entre os reformados argumentam de maneira diferente, colocando a alternatividade tanto no intelecto quanto na vontade, identificando a liberdade como o livre acordo da vontade com o julgamento do intelecto[62], outros argumentam que a vontade, como uma faculdade racional, pode, em sua liberdade, querer ou não querer o objeto apresentado pelo intelecto, colocando a alternatividade primariamente na vontade[63], e pelo menos um escritor postula um ato inicial da vontade que induz o intelecto a deliberar, seguido pelo ato de aceitar livremente o julgamento determinante[64].
Onde Edwards identifica o querer e o escolher como um único ato da mente que é livre desde que o indivíduo faça o que lhe agrada, Turrettini divide o ato em uma escolha ou determinação intelectiva de um objeto e um querer livre do objeto que o intelecto escolheu. Com os objetos em vista, antes da determinação do intelecto, a vontade está preparada para aceitá-los ou rejeitá-los, ou seja, para querer ou não querer (liberdade de exercício e contradição) ou para aceitar um ou outro (liberdade de contrariedade ou especificação). Sem o ato do intelecto, não poderia haver determinação de um objeto a ser querido; sem o ato da vontade, não poderia haver movimento em direção ao objeto. O querer é livre porque é uma questão de disposição racional ou espontaneidade em seguir a determinação do intelecto[65]. No início do século, John Weemse (c. 1579 – 1636) havia escrito sobre “uma dependência recíproca” ou “reciprocidade natural” entre o intelecto e a vontade — como De Moor esclareceria mais tarde, há uma distinção formal entre intelecto e vontade e um ato composto de julgar e querer[66]. O querer poderia ter sido diferente, porque tanto o apetite inicial pelo objeto quanto a determinação intelectiva poderiam ter sido diferentes — e a potência da vontade para agir de outra forma permanece “in actu primo”, ou seja, na constituição essencial da vontade, embora não atualizada e não atualizável no momento presente[67].
Essa afirmação do poder intelectivo da escolha, juntamente com as duas liberdades volitivas — de contradição e de contrariedade —, parece corresponder exatamente ao “poder autodeterminante” ou ao “poder de escolher de modo diferente em situações dadas”, que Edwards nega. De fato, um grande número de teólogos reformados da era moderna inicial, incluindo Turrettini, referem-se especificamente à liberdade de escolha com o termo clássico grego αὐτοεξουσία–autexousía, isto é, autodeterminação. Para resumir: — Turrettini pressupõe uma verdadeira alternatividade interior, fundamentada na ação conjunta do intelecto e da vontade; Edwards, por sua vez, rejeita qualquer tipo de alternatividade ao fundir a vontade e o ato de escolher em um único ato da mente.
O que não pode ocorrer, na visão de Turrettini, é uma determinação de um objeto que não seja seguida por um ato da vontade, ou uma determinação de um objeto que seja seguida pela volição de um objeto diferente: — “Mas quanto à indiferença na atualidade secundária e em sentido composto (in actu secundo & in sensu composito), no que diz respeito à potência para a simultaneidade (potentiam simultatis), chamada ativa e subjetiva — ou seja, se a vontade, estando presentes todos os requisitos para agir (por exemplo, o decreto de Deus, sua concorrência, o juízo do intelecto prático etc.), permanece sempre indiferente e em equilíbrio, de modo que possa agir ou não agir — isso é o que nossos oponentes sustentam, a fim de que a liberdade seja preservada para a vontade. Nós o negamos[68]”.
Vários pontos nessas definições são cruciais para a compreensão do pensamento de Turrettini. Primeiramente, embora haja um movimento da atualidade primária para a atualidade secundária, tal como identificado no ato de querer, dado que esse movimento procede da constituição natural da vontade — anterior à sua operação — em direção à operação propriamente dita, não se deve entender que a constituição natural desaparece no momento em que a operação se inicia; pelo contrário, ela permanece como a natureza subjacente da vontade, que continua a definir o próprio operar. Em outras palavras, o “actus primus” indiferente da vontade, com sua potência para mais de um efeito, pertence permanentemente à vontade e serve para identificar a liberdade e a contingência do “actus secundus” como um ato que poderia ter sido de outra forma. Assim, no sentido dividido, ou seja, no caso de um juízo diferente do intelecto prático (também reconhecido como definido “in sensu diviso”), é possível afirmar que um indivíduo que quis “A” poderia ter querido “não–A”.
Em segundo lugar, ao se considerar o sentido composto (in sensu composito), quando o intelecto individual julgou que “A” é um bem, e a vontade está querendo “A” — isto é, no ato da atualidade secundária (actus secundus) — o indivíduo não pode querer “não–A” ao mesmo tempo, no mesmo lugar e do mesmo modo. Em outras palavras, segundo Turrettini, como a escolha pertence ao intelecto e a vontade segue o último juízo do intelecto prático, não pode haver indiferença no “actus secundus”. Embora a vontade não esteja limitada, em sua potência, a um único efeito, uma vez que sua potência específica para um determinado efeito está sendo exercida (ou já foi exercida), ela não pode exercer — ou ter exercido — simultaneamente sua potência para o efeito oposto.
A necessidade resultante do efeito no momento da operação é uma necessidade da consequência ou necessidade presente (necessitas consequentiae, de dicto); após a operação, com o momento da volição já passado, a necessidade do efeito torna-se uma necessidade por acidente (necessitas per accidens), ou seja, uma necessidade histórica — pois o que foi feito não pode mais ser desfeito.
4 – Libertarianismo, Compatibilismo e as Formulações Ortodoxas Reformadas.
Reconheço plenamente, como observa Paul Helm, que diversos estudiosos têm empregado os termos “libertarianismo” e “compatibilismo” para descrever concepções antigas, medievais e da era moderna sobre liberdade e determinação; contudo, sustento que tais termos — especialmente “compatibilismo” —, da forma como geralmente são utilizados, são não apenas anacrônicos, mas também inadequados para descrever com precisão o pensamento reformado da era moderna sobre o tema.
De acordo com a maioria das definições, o compatibilismo clássico afirma a compatibilidade entre a liberdade — entendida como a capacidade espontânea e não coagida de um agente agir conforme sua vontade — e o determinismo. Essa capacidade é considerada compatível com a responsabilidade moral e permite a atribuição de louvor ou culpa. Na forma hobbesiana de compatibilismo, o agente não pode querer de outro modo, mas não é coagido por nenhum poder externo[69].
A possibilidade de agir de modo diverso, que Hobbes ignora, aparece na versão de Hume, segundo a qual, se as condições antecedentes tivessem sido diferentes, a vontade poderia ter seguido outro curso. Todavia, dadas certas condições antecedentes, não há verdadeira alternatividade, nem liberdade de contradição, nem de contrariedade[70].
Por sua vez, o libertarianismo sustenta dois pontos principais: — primeiro, que a vontade é plenamente livre, definida por uma verdadeira alternatividade, com liberdade tanto de contradição (agir ou não agir) quanto de contrariedade (agir de uma forma ou de outra); segundo, que tal liberdade é incompatível com qualquer determinação positiva por parte de Deus, e, na maioria dos casos, com a presciência divina dos eventos contingentes futuros.
Entretanto, a abordagem da liberdade e da determinação divina que se encontra em Turrettini e nos demais representantes da ortodoxia reformada não se enquadra em nenhuma dessas definições. Os teólogos reformados da era moderna defenderam tanto:
— uma determinação divina positiva de todos os eventos,
— quanto uma presciência divina plena e infalível dos futuros contingentes,
— sem, contudo, negar a liberdade da vontade humana nem a realidade da escolha livre, fundamentada na multiplicidade de potências da vontade e entendida em termos de liberdade de contradição e contrariedade.
Em suma: — no momento presente, mantidas inalteradas as condições passadas, os seres humanos possuem potências reais para mais de um efeito e podem agir de modo diverso.
Portanto, as definições tradicionais da liberdade humana na ortodoxia reformada não coincidem com as definições padrão nem de compatibilismo, nem de libertarianismo. Ao contrário, a posição reformada clássica, articulada na linguagem escolástica por Turrettini e outros, representa uma terceira via: — um entendimento mais amplo da liberdade de escolha, ainda que firmemente enraizado na causalidade primária e última de Deus em todas as coisas, bem como em sua infalível presciência dos futuros contingentes.
Se (concedendo o termo momentaneamente) os reformados são identificados como compatibilistas, dado sua suposição de que uma determinação divina de todas as coisas é logicamente e ontologicamente compatível com a escolha humana livre, eles permanecem compatibilistas de uma espécie bastante diferente daquela de Edwards. Onde os ortodoxos reformados e Edwards concordam é que há apenas um curso futuro de eventos e que ele é decretado por Deus; onde eles discordam é em como a ordem do mundo chega a esse curso de eventos. Edwards era um compatibilista que entendia liberdade e necessidade como filosoficamente compatíveis, mas, como comenta Guelzo, “era um compatibilismo no qual a necessidade desempenhava claramente o papel dominante e a liberdade servia para explicar as operações da necessidade[71]”. Edwards reduz a liberdade a uma espontaneidade e ausência de coerção que não permite alternatividade. Turrettini tem uma interação de intelecto e vontade que começa em uma indeterminação do “actus primus” e produz uma determinação, a qual também é simultaneamente querida por Deus desde a eternidade como um aspecto do mundo possível que Ele decretou atualizá-lo. Edwards tem uma ação da vontade determinada em um mundo que é diretamente estabelecido como necessário por ato divino (absolutamente necessário como uma série de necessidades do consequente, sem contingências, sem necessidades da consequência). Onde Turrettini assume uma distinção entre querer e escolher, Edwards ou assimila a escolha ao querer, ou simplesmente nega a escolha. Onde Turrettini afirma que a liberdade de escolha é um poder autodeterminante, Edwards nega a autodeterminação. Onde Turrettini assume que a vontade tem potência para mais de um efeito, Edwards permite à vontade potência apenas para um único efeito possível. Onde Turrettini assume, além da espontaneidade da vontade, que a escolha livre também é definida pela liberdade de contradição e liberdade de contrariedade, Edwards reduz a liberdade à espontaneidade.
As concepções de Turrettini e Edwards são, pois, distintas e incompatíveis entre si.
Paz e graça.
[1] Richard A. Muller (1948). Título original: — Jonathan Edwards and François Turrettini on Necessity, Contingency, And Freedom of Will. In Response To Paul Helm. Calvin Theological Seminary (Jonathan Edwards Studies, vol. 4, no. 3, 2014).
[2] Paul Helm é um filósofo e teólogo britânico reformado. Helm nasceu em 1940. Ele lecionou no Regent College, tendo atuado como o primeiro titular da Cátedra de Teologia J.I. Packer de 2001 a 2005. Ele também atuou como professor de Teologia no Highland Theological College, Escócia, de 2007 a 2010.
[3] On the North American Debates, see Sean Michael Lucas, “‘He cuts up Edwardsism by the roots’: Robert Lewis Dabney and the Edwardsian Legacy in the Nineteenth–Century South”, in D. G. Hart, Sean M. Lucas, and Stephen J. Nichols, eds., The Legacy of Jonathan Edwards: American Religion and the Evangelical Tradition (Grand Rapids: Baker, 2003), 200 – 214; on the British debate, see Richard A. Muller, “Jonathan Edwards and the Absence of Free Choice: A Parting of Ways in the Reformed Tradition”, in Jonathan Edwards Studies, 1/1 (2011), 3 – 22.
[4] Cf. Richard A. Muller, “Jonathan Edwards and the Absence of Free Choice: A Parting of Ways in the Reformed Tradition”, in Jonathan Edwards Studies, 1/1 (2011), 3 – 22; with Paul Helm, “Jonathan Edwards and the Parting of the Ways?” in Jonathan Edwards Studies, 4/1 (2014), 42 – 60.
[5] A “definição hobbesiana” refere-se a uma visão da liberdade e da vontade associada ao filósofo inglês Thomas Hobbes (1588 – 1679). Hobbes defendia uma perspectiva determinista sobre o livre–arbítrio, na qual a liberdade não significa uma escolha totalmente livre, mas sim a ausência de impedimentos externos ao ato de querer. Para ele, a vontade é determinada por causas anteriores, e a liberdade consiste apenas em agir conforme os desejos e inclinações, sem ser coagido externamente. Em outras palavras, para Hobbes, mesmo que as escolhas humanas sejam determinadas por causas externas ou internas, um indivíduo é considerado livre desde que não haja barreiras físicas ou externas que o impeçam de seguir sua vontade. Portanto, quando se menciona que Edwards se baseia em uma “definição hobbesiana”, isso implica que ele adota uma visão compatibilista, onde a liberdade e a causalidade podem coexistir, e a liberdade é entendida como a capacidade de agir de acordo com os próprios desejos, mesmo que esses desejos sejam determinados por fatores prévios — nota do tradutor.
[6] E.g., Perry Miller, Jonathan Edwards, (New York, 1949), 52; Morton White, Science and Sentiment in America: Philosophical Thought from Jonathan Edwards to John Dewey (New York, 1972), p. 35; Elizabeth Flower and Murray G. Murphey, A History of Philosophy in America (New York, 1977), 140.
[7] George Park Fisher, “The Philosophy of Jonathan Edwards”, in The North American Review, 128/268 (1879), 289 – 293; Conrad Wright, “Edwards and the Arminians on the Freedom of the Will”, in Harvard Theological Review, 35/4 (1942), 241 – 261; so also Alexander V. G. Allen, Jonathan Edwards (Boston: Houghton, Mifflin, 1889), 288.
[8] Norman Fiering, Jonathan Edwards’s Moral Thought and Its British Context (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1981), 341 – 345; Paul Copan, “Jonathan Edwards’s Philosophical Influences: Lockean or Malebranchean?” Journal of the Evangelical Theological Society, 44/1 (2001), 107 – 124. Nicolas Malebranche, filósofo francês do século XVII, desenvolveu uma visão singular sobre o livre–arbítrio que se insere em seu sistema ocasionalista. Para ele, a relação entre a vontade humana e a ação divina é complexa e, em muitos aspectos, contraditória. Ocasionalismo e Livre–Arbítrio — Malebranche é conhecido por sua teoria do ocasionalismo, que sustenta que não há causalidade direta entre a mente e o corpo. Em vez disso, ele argumenta que Deus é a única causa verdadeira de todos os eventos. Isso implica que, embora os seres humanos possam ter a sensação de tomar decisões, na verdade, essas decisões são determinadas por Deus. Assim, o livre–arbítrio, segundo Malebranche, é compatível com a ideia de que Deus controla todas as ações. A Natureza do Livre–Arbítrio — Malebranche acredita que os seres humanos tem a capacidade de escolher, mas essa escolha é sempre influenciada pela vontade divina. Ele argumenta que a verdadeira liberdade não se encontra na capacidade de agir independentemente, mas na conformidade com a ordem divina. Portanto, a liberdade humana é vista como a capacidade de querer o que Deus quer, em vez de ser uma liberdade absoluta. A Tensão entre Livre–Arbítrio e Determinismo — Essa visão suscita uma tensão entre a noção de livre–arbítrio e o determinismo. Malebranche reconhece que, embora os indivíduos sintam que estão tomando decisões livres, essas decisões estão, na verdade, subordinadas à vontade de Deus. Essa abordagem leva a uma interpretação de que o livre–arbítrio é, em última análise, uma ilusão, uma vez que todas as ações são orquestradas por Deus — nota do tradutor.
[9] Fiering, Jonathan Edwards’s Moral Thought, 272 – 277.
[10] Helm, “Jonathan Edwards and the Parting of the Ways”, 43, 56, 57, 58.
[11] Helm, “Jonathan Edwards and the Parting of the Ways”, 57.
[12] Jonathan Edwards, A Careful and Strict Enquiry into the Modern Prevailing Notions of that Freedom of Will, which is supposed to be essential to moral agency, vertue and vice, reward and punishment, praise and blame (Boston: S. Kneeland, 1754), IV.vi (p. 229); hereinafter cited as Freedom of Will. Also note, Jonathan Edwards, Freedom of the Will, ed., with an intro. by Paul Ramsey (New Haven: Yale University Press, 1957).
[13] Edwards, Freedom of Will, I.i (p. 2); conferir as referências ao Ensaio de Locke em ibid., I.v; II.i (p. 28, 32). Por outras palavras, Edwards não precisava de ler Hobbes para adquirir uma definição hobbesiana. Allen especulou que Edwards poderá ter lido Anthony Collins, A Philosophical Inquiry concerning Human Liberty (Londres: para R. Robinson, 1717), em que as definições de Locke são levadas a conclusões deterministas: — ver Allen, Jonathan Edwards, 288, n1.
[14] Edwards, Freedom of Will, p. iv. No que se segue, embora o ponto do debate seja a doutrina de Turretin, incluí referências a Petrus van Mastrich; e ficará claro que, por mais que Edwards admirasse Mastricht, ele não o seguiu na compreensão da livre escolha.
[15] See Paul Helm, “John Locke and Jonathan Edwards: a Reconsideration”, in Journal of the History of Philosophy, 7/1 (1969), 51 – 61.
[16] Copan, “Jonathan Edwards’s Philosophical Influences”, p. 124; cf. Allen C. Guelzo, “The Unanswered Question: the Legacy of Jonathan Edwards’s Freedom of the Will in Early American Religious Philosophy” (dissertação de doutoramento, Universidade da Pensilvânia, 1986), 32 – 37. Note-se que Guelzo defende tanto as semelhanças como o distanciamento do pensamento de Locke (bem como o de Edwards) do materialismo de Hobbes.
[17] Thomas Hobbes, Of Liberty and Necessity (1654), in The English Works of Thomas Hobbes, ed. Sir William Molesworth, Bart., 11 vols. (London: J. Bohn, 1839 – 1845), IV, 240.
[18] Hobbes, Of Liberty and Necessity, in Works, IV, 273.
[19] John Locke, An Essay Concerning Human Understanding, In Four Books, 7th ed., with large additions, 2 vols. (London: for J. Churchill, 1715 – 1716), I, 196, 197, 199; n.b., I cite the edition that Edwards references in his Freedom of Will.
[20] Edwards, Freedom of Will, I.v (p. 27).
[21] Edwards, Freedom of Will, I.v (p. 27 – 28).
[22] See Nicolas Malebranche, Father Malebranche’s Treatise Concerning the Search after Truth […] together with his answer to the animadversions upon the first volume: his defense against the accusations of Mr. De la Ville, &c., trans. Thomas Taylor (Oxford: Thomas Bennet, 1694), I.i – ii (p. 1 – 7). Note the modern translation: The Search afer Truth […] [and] […] Elucidations of the Search after Truth, trans. and ed. Thomas M. Lennon and Paul J. Olscamp (Cambridge: Cambridge University Press, 1997). On the influence of Malebranche on Edwards, see Copan, “Jonathan Edwards’s Philosophical Influences”, 107 – 124; and Norman Fiering, “The Rationalist Foundations of Jonathan Edwards’s Metaphysics”, in Nathan O. Hatch and Harry S. Stout, Jonathan Edwards and the American Experience (New York: Oxford University Press, 1989), 73 – 101.
[23] Edwards, Freedom of Will, Conclusion, 287.
[24] Edwards, Freedom of Will, IV.iv.3.
[25] A palavra “Dispositor” significa aquele que dispõe ou ordena — nota do tradutor.
[26] Edwards, Freedom of Will, Conclusion, 287.
[27] Edwards, Freedom of Will, II.iii (p. 41).
[28] Edwards, Freedom of Will, II.iii (p. 41 – 42).
[29] Note that Locke and Leibniz, neither materialists, have been argued to draw on a mechanical understanding of causation: see Martha Bolton, “Locke, Leibniz, and the Logic of Mechanism”, in Journal of the History of Philosophy, 36/2 (1998), 189 – 213.
[30] Helm, “Jonathan Edwards and the Parting of the Ways”, 56.
[31] Edwards, Freedom of Will, I.iii (p. 18).
[32] Edwards, Freedom of Will, II.ix (p. 76).
[33] Edwards, Freedom of Will, II.xii (p. 117).
[34] Edwards, Freedom of Will, II.viii (p. 73).
[35] Edwards, Freedom of Will, I.iii (p. 20); cf. ibid, I.vi, 59, note.
[36] Edwards, Freedom of Will, Conclusion, 287.
[37] Turrrettini, Institutio Theologiae Elencticae, IV.iv.3.
[38] Este é um problema que Helm identificou, mas considera algo problemático filosoficamente: — cf. Paul Helm, “The Providence of God” (Downers Grove: InterVarsity, 1994), 181 – 182. No entanto, não é o caso de que essa visão implique “dois conjuntos separados de condições necessárias e suficientes”; ao invés disso, implica um único conjunto de condições necessárias e suficientes, a saber, a vontade divina e humana concomitantes, em diferentes níveis de causalidade, do mesmo efeito, com a vontade humana e sua liberdade dependendo para sua própria existência da concórdia divina.
[39] A Escola Megárica foi uma escola filosófica fundada por Euclides de Mégara, um dos discípulos de Sócrates, no final do século V a.C. Esta escola combinou elementos das doutrinas eleáticas e socráticas, focando especialmente na dialética. A filosofia da Escola Megárica é marcada por uma combinação das doutrinas eleáticas e socráticas, com foco em conceitos como o Bem, a dialética e a lógica — nota do tradutor.
[40] Aristotle, Metaphysics, IX.3 (1046b 29 – 1047a 4); note the translation in The Works of Aristotle, ed. W. D. Ross, et al., 12 vols. (Oxford: Clarendon Press, 1908 – 1952), VIII, paginated per the Stephanus edition.
[41] Henry Home, Lord Kames, Objections against the Essays on morality and natural religion examined (Edinburgh: s.n., 1756); and idem, Essays on the principles of morality and natural religion. In two parts (Edinburgh: R. Fleming, 1751; 2nd ed., London: for C. Hitch, et al., 1758). An edited version of the Objections […] examined appears in Essays (1758), 164 – 178.
[42] Jonathan Edwards, “Remarks on the Essays on the Principles of Morality and Natural Religion. In a Letter to a Minister of the Church of Scotland. By the Reverend Mr. Jonathan Edwards, President of the College of New Jersey, and Author of the Late Inquiry into the Modern Notions of the Freedom of Will” (London: for J. Johnson, 1768), 4 – 5; daqui em diante citado como “Remarks”: — embora Edwards pudesse ter visto a segunda edição de Kames, que incluía o apêndice no qual o trabalho de Edwards foi citado, Edwards consistentemente cita a primeira edição (1751) e, como o título de seus “Remarks” implica, só conhecia a citação de “Freedom of Will” de Kames de segunda mão.
[43] Kames, Essays (1751), 175; cited by Edwards, Remarks, 6; cf. Kames, Essays (1758), 130 – 131.
[44] Edwards, Remarks, 4 – 5.
[45] Edwards, Remarks, 5.
[46] “Liberdade ad utrumvis” é um conceito que se relaciona com a discussão sobre o livre–arbítrio na Filosofia medieval, especialmente no contexto da relação entre a liberdade humana e a vontade divina — nota do tradutor.
[47] Edwards, Remarks, 6.
[48] Edwards, Freedom of Will, Conclusion (p. 288).
[49] Edwards, Freedom of Will, IV.ii (p. 199).
[50] Edwards, Freedom of Will, IV.ii (p. 200).
[51] Turrrettini, Institutio Theologiae Elencticae, X.i.2; Petrus van Mastricht, Theoretico–practica theologia, qua, per capita theologica, pars dogmatica, elenchtica et practica, perpetua successione conjugantur, praecedunt in usum operis, paraleipomena, seu sceleton de optima concionandi methodo (Utrecht and Amsterdam: van de Water, Poolsum, Wagens & Paddenburg, 1715), IV.iv.10; cf., e.g., Jerome Zanchi, De operibus Dei, III.iii, in Operum theologicorum D. Hieronymi Zanchii, 8 vols. (Heidelberg: Stephanus Gamonetus and Matthaeus Berjon, 1605), III, col. 705; Synopsis purioris theologiae, disputationibus quinquaginta duabus comprehensa ac conscripta per Johannem Polyandrum, Andream Rivetum, Antonium Walaeum, Antonium Thysium, S.S. theologiae doctores et professores in Academia Leidensi (Leiden: Elzevir, 1625), xvii.3; Antonius Walaeus, Enchiridion religionis reformatae, x, in Opera omnia (Leiden: Franciscus Hackius, 1643), I, 16.
[52] O termo grego “αὐτοξουσία” é usado para se referir à autonomia ou autossuficiência da vontade, implicando a ideia de uma vontade que é completamente livre e não subordinada a nenhuma outra causa ou influência externa. Em contextos filosóficos e teológicos, geralmente é utilizado para descrever a capacidade de agir com total liberdade, sem ser determinado por fatores externos — nota do tradutor.
[53] Mastricht, Theoretico–practica theologia, IV.iv.10; cf. Synopsis purioris, xvii.4.
[54] Helm, “Jonathan Edwards and the Parting of the Ways,” 47, 58.
[55] Turrrettini, Institutio Theologiae Elencticae, X.i.4.
[56] Cf. Edwards, Freedom of Will, I.i (p. 1).
[57] Turrrettini, Institutio Theologiae Elencticae, X.iii.4; so also Mastricht, Theroetico–practica theologia, IV.iv.10.
[58] Turrrettini, Institutio Theologiae Elencticae, X.iii.4.
[59] Cf. Samuel Maresius, Theologiae elenchticae nova synopsis, sive Index controversiarum Fidei ex S. Scripturis, 2 vols. (Groningen: Joannes Nicolaus, 1646 – 1647), II, 23 – 24.
[60] Turrrettini, Institutio Theologiae Elencticae, X.iii.4; cf. Franciscus Junius, Teses teológicas que na ilustre academia de Leiden foram propostas para exercícios de disputas públicas, xxi.23, em Opuscula theologica selecta, ed. Abraham Kuyper (Amsterdã: F. Muller, 1882), 175; Walaeus, Enchiridion religionis reformatae, x, em Opera, I, 16.
[61] Turrrettini, Institutio Theologiae Elencticae, X.iii.4; cf. Maresius, Theologiae elenchticae nova synopsis, II, p. 12; also note Mastricht, Theoretico–practica theologia, IV.iv.35 – 36.
[62] Cf. Girolamo Zanchi, De operibus Dei intra spatium sex dierum creatis, em Operum theologicorum D. Hieronymi Zanchi (Heidelberg: Stephanus Gamonetus, 1605), III.iii (col. 706); com Lucas Trelcatius Jr., Scholastica et methodica locorum communium s. theologiae institutio, didactice & elecntice in epitome explicata: in qua, veritas locorum communium, definitionis cuiusque, loci per causas suas analysi asseritur: contraria vero argumenta, imprimis Bellarmini, generalium solutionum appendice refutantur (Londres: John Bill, 1604), 208, dist. 3.
[63] Gulielmus Bucanus, Institutiones theologicae, seu locorum communium Christianae religionis, ex Dei verbo, et praestantissimorum theologorum orthodoxo consensu expositorum (Berna: Iohannes & Isaias Le Preux, 1605), xi.2 (p. 109).
[64] John Weemse, The Portraiture of the Image of God in Man, in his Creation, Restauration, and Glorification, in The Workes of Mr Iohn Weemse of Lathocker, 4 vols. (Londres: T. Cotes, 1637), I, p. 98. O pensamento de Weemes é analisado em David Sytsma, “The Harvest of Thomist Anthropology: John Weemse’s Reformed Portrait of the Image of God” (Tese de Th.M., Calvin Theological Seminary, 2008).
[65] Esta colocação da escolha no intelecto apresenta uma semelhança próxima com Aquino: — ver Eleonore Stump, “Aquinas’s Account of Freedom – Intellect and Will”, em The Monist, 80/4 (1997), 576 – 597. Eu, no entanto, discordaria da avaliação de Stump de que isso constitui uma forma de libertarianismo, dado o pressuposto de Aquino de uma causalidade divina abrangente: — em outras palavras, o termo moderno não se ajusta exatamente ao caso.
[66] Cf. Weemse, Portraiture, p. 98 – 99; com Bernardinus de Moor, conforme traduzido em Reformed Thought on Freedom, 206 – 209. O pensamento de Weemse é analisado em David Sytsma, “The Harvest of Thomist Anthropology: John Weemse’s Reformed Portrait of the Image of God” (Tese de Th.M., Calvin Theological Seminary, 2008).
[67] Observe a questão semelhante em Stephen Charnock, Discourses upon the Existence and Attributes of God, em Works (1684), I, 303: — “Deus não pré–conheceu as ações do homem como necessárias, mas como livres […]. O homem tem o poder de fazer de maneira diferente daquilo que Deus pré–conhece que ele fará”. Charnock não está afirmando que o pré–conhecimento de Deus poderia ser falsificado ou que poderia mudar, mas apenas que a potência para um ato ser de outra forma é genuína.
[68] Turrrettini, Institutio Theologiae Elencticae, X.iii.4.
[69] See the Stanford Encyclopedia of Philosophy, at http://plato.stanford.edu/entries/compatibilism/, especially sections 3.1 and 3.3, accessed 4/10/2014.
[70] Cf. David Hume, A Treatise of Human Nature, ed. L. A. Selby–Bigge, 2ª ed., com revisões por P. H. Nidditch (Oxford: Clarendon Press, 1978), 401 – 407; com idem, Enquiries concerning Human Understanding and concerning the Principles of Morals, ed. L. A. Selby–Bigge, 3ª ed., com revisões por P. H. Nidditch (Oxford: Clarendon Press, 1975), 86 – 87, 94 – 98.
[71] Allen C. Guelzo. Freedom of the Will. In: LEE, Sang Hyun (ed.). The Princeton Companion to Jonathan Edwards. Grand Rapids: Eerdmans, 2005, p. 126.
[72] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.
por Joseph R. Nally | 4 set 2025 | TEOLOGIA
Pergunta: — O que é o dízimo no Novo Testamento? Quanto? Devemos dar segundo a Lei ou segundo o amor?
Resposta: — Esta nota é apenas uma breve descrição do que a Bíblia ensina acerca de “dízimo” versus “dar”. Sou grato e recomendo vivamente a obra do Dr. Russell Earl Kelly, Should the Church Teach Tithing? A Theologian’s Conclusions about a Taboo Doctrine, Writers Club Press (11 de janeiro de 2000), para um estudo mais completo deste importantíssimo tema bíblico. Muitos dos pensamentos abaixo advêm do meu diálogo com o Dr. Kelly.
Uma distinção importante precisa ser feita a respeito da “oferta” dos cristãos hoje. Como veremos brevemente abaixo, o dízimo foi ordenado a Israel quando habitava na Terra Prometida. Havia essencialmente três dízimos para Israel. Esta era a Lei da terra. Contudo, hoje a Igreja se expandiu para além dos limites da Terra Prometida. Hoje, a Igreja já não está debaixo da Lei (Romanos 10:4; Gálatas 3:23 – 25; Efésios 2:15; Colossenses 2:14). Hoje, o cristão deve “dar” por amor, não por Lei. Esta distinção é importante de ser mantida — pois faz parte do Evangelho “que uma vez foi entregue aos santos” (Judas 1:3).
Como escreveu certa vez John Owen: — “Permitir-me-ei dizer que não é uma defesa segura para muitos insistirem que os dízimos são devidos e divinos, como dizem, ou seja, por uma Lei vinculante de Deus, agora sob o Evangelho. […] A Lei específica do dízimo não é confirmada no Evangelho […] é impossível que uma única regra certa seja prescrita a todas as pessoas[2]”.
1 – Fatos sobre o dízimo no Antigo Testamento.
Consideremos, por um momento, alguns fatos elementares a respeito do “dízimo” no Antigo Testamento:
[1] – Dízimo agrícola – O dízimo do Antigo Testamento recaía sobre a “terra” (baseado em alimentos), não sobre “cada indivíduo”. Ele incidia sobre o fruto das árvores frutíferas e das oliveiras, sobre o aumento dos campos e dos rebanhos (Levítico 27:30 – 33[3]; Números 18:21 – 24[4]; Deuteronômio 14:22 – 29[5]). Dos rebanhos, apenas o décimo animal que passava sob a vara do pastor era consagrado (Levítico 27:32); se alguém possuísse apenas nove animais, nenhum dízimo era requerido — não havia dízimo de animal. Não havia exigência escriturística de dar sobre o aumento que não fosse agrícola. Contudo, havia um dízimo “voluntário” em relação ao despojo de guerra, o que encontramos no dízimo de Abrão a Melquisedeque. Este dízimo foi: — [1] – “voluntário” e [2] – “um voto” (Abrão o ofereceu porque havia feito um voto – Gênesis 14:22 – 24[6]). Mas a Bíblia não registra se Abrão deu dízimos antes ou depois desse episódio com Melquisedeque. Embora seja verdade que Abraão ofereceu um dízimo voluntário antes da instituição da Lei (Gênesis 14:20[7]), também devemos notar que Abraão foi circuncidado antes da Lei (Gênesis 17:10). A circuncisão não é uma exigência para os crentes hoje. De fato, Paulo declara especificamente que isso não faz parte do nosso relacionamento com Deus (Gálatas 5:11, 12). Note-se, ainda, que Jacó também fez um voto voluntário de dízimo (Gênesis 28:22).
[2] – O aumento da terra – O dízimo no Antigo Testamento recaía sobre o aumento proveniente da terra, demonstrando a provisão de Deus e o seu senhorio sobre a Terra Prometida (Levítico 27:30 – 33; Números 18:21 – 24; Deuteronômio 14:22 – 29). “Guarda-te, que não desampares ao levita todos os teus dias na terra” (Deuteronômio 12:19). A Igreja, porém, já não habita naquela terra. Ela se expande continuamente a toda tribo e nação (Apocalipse 5:9; 7:9). E, por certo, os levitas já não existem.
Os rabinos judeus, em nossos dias, recorrem a um sistema de patronato — estabelecendo certa quantia em dinheiro para cada assento nas sinagogas — a fim de levantar fundos, já que não podem mais receber dízimos para o sustento de um Templo e de levitas que não mais existem (ao menos, conforme a sua concepção acerca da existência do Templo). Tal prática evidencia o quão estreitamente associam o dízimo do Antigo Testamento à Terra Prometida.
A maioria dos cristãos da Nova Aliança vive fora da Terra Prometida (cf. Deuteronômio 12:19). Embora não se refira à Lei moral, os cristãos da Nova Aliança estão isentos da Lei do Antigo Testamento (Romanos 2:12; Gálatas 3:23, 24; 4:5; cf. Romanos 7:1) — Lei esta que Cristo cumpriu (Mateus 5:17 – 20; Atos 13:29). Portanto, não necessitam “dizimar” (Deuteronômio 12:19).
[3] – Três dízimos no Antigo Testamento – Não havia apenas um dízimo no Antigo Testamento, mas três: — [A] – um destinado aos levitas e sacerdotes; [B] – outro a ser consumido na festa dos Tabernáculos; e [C] – outro, a cada terceiro ano, para o socorro [alívio] dos pobres[8]. Se o dízimo ainda é obrigatório, não deveria a Igreja do Novo Testamento pagar “três” dízimos? Se alguém deseja argumentar pela “continuidade” do dízimo do Antigo Testamento, então todos os três dízimos precisam ser exigidos — não apenas um dízimo de 10%. Há, pois, continuidade ou não há? Se alguém deseja colocar-se debaixo da Lei, então precisa obedecer a toda a Lei (Romanos 7:1).
[4] – Sétimo ano — sem dízimo no Antigo Testamento – Como a terra deveria permanecer em repouso e as árvores sem colheita a cada sétimo ano, não havia dízimo do Antigo Testamento proveniente da terra nesse ano (Êxodo 23:11; Levítico 25:11, 12). Se desejamos enfatizar a continuidade da Lei, então precisamos perguntar: — “As Igrejas do Novo Testamento que ensinam um dízimo neotestamentário observam a suspensão do sétimo ano?”. Se não, por que não? Veja o item 3 acima[9].
[5] – O dízimo dos Levitas não mais existe – O dízimo do Antigo Testamento era destinado aos levitas. Não era para a manutenção de edifícios ou programas; estes provinham das “ofertas”. Assim, dízimos e ofertas eram distintos. Os levitas, por sua vez, separavam o dízimo daquilo que recebiam, entregando-o aos sacerdotes arônicos. Isso servia para repassar o incremento agrícola que lhes era dado. Os levitas não podem mais receber dízimos – sua linhagem não existe mais. “Guarda-te, que não desampares ao levita todos os teus dias na terra” (Deuteronômio 12:19).
[6] – Nenhum dízimo sobre salários – As Escrituras do Antigo e do Novo Testamento não dizem nada sobre um dízimo sobre salários, renda de comércio ou investimentos, nem sobre os produtos da terra “fora” da Terra Prometida. Gade estava fora da Terra Prometida propriamente dita, mas a região tribal de Gade fazia parte de sua herança prometida por Deus. Assim, em essência, eles estavam em sua Terra Prometida. Consequentemente, vemos que não havia um dízimo obrigatório fora da Terra Prometida. Compare com o item 1 acima[10].
Não havia no Antigo Testamento nenhuma lei que exigisse um dízimo, muito menos três dízimos, sobre o salário de alguém. Embora mencionados nas Escrituras do Antigo Testamento, os seguintes grupos não receberam instruções explícitas sobre a obrigatoriedade de dizimar: — [1] pescadores (Levítico 11:9 – 12), [2] aqueles envolvidos na mineração (Deuteronômio 8:9), [3] os que atuavam no comércio de madeira (1 Reis 5:7 – 12) e [4] os trabalhadores da construção (1 Reis 5:13 – 18).
[7] – Nenhum dízimo para os pobres – O Antigo Testamento nunca determinou que os pobres fossem obrigados a “dizimar”. Embora pudessem oferecer “ofertas” voluntárias, não havia exigência de dízimo para eles (Levítico 5:11 – 13[11]; 14:21[12]; 27:8[13]). Pelo contrário, os pobres eram beneficiários dos dízimos, das ofertas, das sobras da colheita e da abundância de Israel (Deuteronômio 26:12, 13; Malaquias 3:5; cf. Levítico 25:6, 8 – 15, 23 – 35; 25:16 – 25; Números 36:4; Deuteronômio 24:19 – 21; Ester 9:22; Ezequiel 46:17).
Robert Spender, no “Baker’s Evangelical Dictionary of OT Theology”, afirma: — “Além das leis diretas, diversas instituições do Antigo Testamento incluíam disposições especiais para os pobres. As leis de respigas eram destinadas às viúvas, aos órfãos, aos estrangeiros e aos pobres (Levítico 19:9, 10; 23:22; Deuteronômio 24:19 – 22). Durante o ano sabático, as dívidas deveriam ser canceladas (Deuteronômio 15:1 – 9), e o Jubileu proporcionava a libertação de hebreus que haviam se tornado servos devido à pobreza (Levítico 25:39 – 41; 25:54). Durante esses períodos festivos, os pobres tinham livre acesso aos produtos de todos os campos (Êxodo 23:11; Levítico 25:6, 7, 12)”.
Outras estipulações para auxiliar os pobres incluíam o direito de redenção da escravidão por um parente consanguíneo (Levítico 25:47 – 49), o sustento proveniente do dízimo trienal (Deuteronômio 14:28, 29) e disposições especiais relativas às ofertas pelo pecado. Esta última Lei ilustra a natureza relativa do conceito de pobreza. Se alguém não pudesse arcar com o cordeiro usual para a expiação, poderia trazer dois pombos (Levítico 5:7); mas, para aquele que não pudesse custear nem mesmo dois pombos, havia a possibilidade de oferecer um décimo de efa (ou efá) de farinha (Levítico 5:11). Claramente, a Lei enfatizava que a pobreza não era motivo para exclusão da expiação e do culto.
D. James Kennedy escreveu: — “Os pobres não têm a obrigação de oferecer dízimos, mas sim de recebê-los, seja diretamente de vizinhos e amigos compassivos, seja por meio do ministério dos clérigos. Qualquer contribuição oferecida por uma pessoa pobre seria uma oferta voluntária, não um dízimo. O dízimo é o tributo de Deus, exigido daqueles que obtêm lucro de seu trabalho, e não daqueles que dependem de assistência social ou vivem de suas reservas financeiras. Nosso principal dever econômico é garantir alimentos, vestimentas e moradia essenciais para nossas famílias. O dízimo não foi estabelecido para impedir a provisão de suporte material essencial aos membros de nosso lar (1 Timóteo 5:8; Mateus 15:3 – 9)”.
[8] – Dízimos da casa do tesouro – O SENHOR ordenou aos israelitas: — “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa […]” (Malaquias 3:8 – 12). Este texto é da Lei do Antigo Testamento (cf. Levítico 6:14 – 23). Malaquias 3:8 usa o plural “dízimos” (מַעַשְׂרוֹת), não o singular (הַֽמַּעֲשֵׂ֖ר). Ensinar um único dízimo de 10% a partir deste texto seria um erro, visto que “dízimos” aqui equivalem a um mínimo de 23,33%. O depósito era onde se guardava o dízimo “agrícola” no Antigo Testamento. Note, novamente, a ênfase do dízimo no aumento agrícola. Um minerador não poderia colocar nada no depósito. Além disso, a maioria dos crentes não está mais na Terra Prometida, não possui fazendas e o Templo não está mais de pé.
Quando Jesus deu a Grande Comissão (Mateus 28:18 – 20) à Igreja, este mandato do “depósito” não poderia mais estar em vigor para “toda tribo, língua, povo e nação” (Apocalipse 5:9; 7:9).
Sujeitar os cristãos do Novo Pacto a uma aplicação literal, palavra por palavra, deste texto hoje seria provocar a Deus (Atos 15:10; Gálatas 5:3) e privar os crentes da liberdade que possuem em Cristo (Romanos 8:15; Gálatas 2:4; 5:1, 4, 5; 2 Coríntios 3:17). Utilizar este texto para impor o dízimo no Novo Testamento é desvirtuar as Escrituras de seu sentido original, incorrendo, assim, na pregação de um outro evangelho (Gálatas 1:9).
2 – Fatos sobre o Dízimo no Novo Testamento.
Examinemos brevemente alguns fatos relacionados à menção do “dízimo” no Novo Testamento:
[1] – Mateus 23:23 – Jesus se dirige aos fariseus sobre o dízimo “da hortelã, do endro e do cominho”, plantas de especiarias cultivadas na Terra Prometida. Esses fariseus estavam sob a obrigação dos três dízimos do Antigo Testamento. A pergunta que surge é: — Jesus estava sugerindo que a Igreja de hoje deve superar esses dízimos para alcançar a justiça? Não, o objetivo de Jesus era mostrar que a oferta legalista dos fariseus não resultava em verdadeira justiça. Eles davam os dízimos sem um coração reto. Se o fizessem, estariam também praticando “o juízo, a misericórdia e a fé”. Observe que todos os “ais” pronunciados por Jesus em Mateus 23 foram dirigidos aos fariseus e escribas (Mateus 23:13 – 16, 23, 25, 27, 29), que estavam sob a Lei do Antigo Testamento. Eles eram os que enfatizavam a observância ritual, mas negligenciavam seu dever moral para com o próximo. O que Jesus defende? Lucas afirma: — “Antes dai esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo” (11:41). No Antigo Testamento, uma quantidade obrigatória é mencionada (dízimo, 10%), mas aqui o texto não especifica nenhuma quantia. Em vez disso, o mandamento é simplesmente “dar”. A lei do dízimo teve validade apenas até a cruz. A instrução de Jesus em Mateus 23:23 não justifica que os cristãos continuem obrigados a seguir a lei do dízimo do Antigo Testamento, muito menos os “três” dízimos. Fazer isso seria uma violação da Carta da Liberdade mencionada na Epístola aos Gálatas (Gálatas 5:1, 2; cf. Gálatas 2:4). A questão central em Gálatas era que os gentios estavam sendo instruídos a não apenas crer em Jesus Cristo para a salvação, mas também a aceitar a circuncisão e, consequentemente, comprometer-se a seguir a lei judaica como um caminho para a salvação (Gálatas 2:3 – 5, 12; 4:10; 5:3 – 6; 6:12, 13; cf. Colossenses 2:16 – 20; Levítico 23:2; 1 Crônicas 23:31; 2 Crônicas 31:3; Neemias 10:33 etc.). No entanto, isso é um evangelho falsificado, que na verdade não é Evangelho, e por isso era e é fatal (Gálatas 1:6, 7). O autor Pipa afirma: — “Adicionar algo ao Evangelho — seja obras, sacramentos, batismo ou qualquer outra coisa — é diminuir o Evangelho”. Várias nuances dessa “filosofia” (um evangelho falso) eram comuns entre os primeiros cristãos judeus (Atos 15:1; 21:20, 21; Filipenses 3:2, 3; Colossenses 2:8 – 23). Aqueles que viviam sob a Lei (os judeus) foram libertos para algo muito melhor, e o mesmo vale para a Igreja hoje. Em Romanos 7:6, Paulo escreve: — “Mas agora temos sido libertados da Lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra”. O cristão que tenta seguir a Lei para ser justificado ou santificado caiu da graça (Gálatas 5:4). Atos 2:42 afirma que a Igreja primitiva seguia não as regras do Antigo Testamento, mas a “doutrina dos Apóstolos”. O dízimo foi instituído quando havia uma necessidade: — o estabelecimento do sacerdócio. Mas ele foi dissolvido quando um sacerdócio superior chegou (Hebreus 8:1 — 10:18). As leis cerimoniais — como os holocaustos, as ofertas de cereais, as regras alimentares, as purificações rituais, as leis sobre lepra e escravidão, as festas e o ano do Jubileu — não se aplicam mais aos crentes.
[2] – Marcos 14:41 – 44 – A mulher viúva que deu tudo (Marcos 14:41 – 44). Ela deu uma oferta voluntária, não um dízimo obrigatório do Antigo ou Novo Testamento. Note, ela ainda estava operando sob a Lei do Antigo Testamento (Veja o item 3 abaixo). Embora se possa ensinar a “doação pela graça” a partir deste texto, se faz um mau uso do texto se tentar ensinar um “dízimo obrigatório” a partir dele! No entanto, devemos ser doadores agradecidos. Nosso desejo deve ser dar tudo o que temos. Mas isso não deve ser o “mandato” da Igreja.
[3] – Lucas 18:12 – É frequentemente usado para dizer que um cristão hoje deveria dizimar “tudo quanto [possui]” (Lucas 18:12). No entanto, sabemos, ao estudar o Antigo Testamento, que a Lei nunca exigiu um dízimo sobre “tudo quanto [possui]”, mas apenas sobre itens agrícolas específicos em Israel (Levítico 27:30 – 33; Números 18:21 – 25; Deuteronômio 14:22 – 29; cf. Deuteronômio 12:19). Jesus contou a parábola em Lucas 18 como: — [A] – um antídoto para a autojustiça por parte dos fariseus e [B] – a culpa não merecida por parte das pessoas comuns da época de Jesus que sentiam que nunca poderiam ser santas. Portanto, o propósito desta parábola era libertar ambas as pessoas de tal escravidão. Você está escravizado hoje?
[4] – Hebreus 7:9 – O fato de Abraão ter sido abençoado por Melquisedeque e ter dado a ele os dízimos ilustra a superioridade de Melquisedeque e, ainda mais, de Cristo sobre o sacerdócio levítico (Hebreus 7:1 – 10). No entanto, o texto prossegue observando que quando o sacerdócio é mudado, a Lei também é! A Lei permaneceu a mesma? Não (Hebreus 7:12). Se houve uma mudança no sistema cerimonial levítico, isso afeta o dízimo. As leis que ordenavam que os dízimos fossem dados aos levitas são obsoletas (Deuteronômio 12:19), a menos que sejam restabelecidas em outro lugar no Novo Testamento. Além disso, deve-se reiterar que o dízimo de Abraão foi, ao mesmo tempo, voluntário e um voto. Em Gênesis 14:21 – 24, fica claro que não se tratava de um dízimo obrigatório de 10%. Podemos mostrar no Novo Testamento onde o dízimo obrigatório (seja os três, ou até mesmo um) foi restabelecido? Não! No entanto, o Novo Testamento nos mostra que a pessoa deve “dar” com alegria (Romanos 15:25 – 27; 1 Coríntios 16:2; 2 Coríntios 8 etc.), mas não “dizimar” (seja os três ou até mesmo um).
[5] – A reconstrução do verdadeiro Templo – O Templo foi destruído em 70 d.C. Contudo, hoje estamos testemunhando uma empolgante “reconstrução” do Templo corporal (1 Coríntios 3:9, 16, 17; 6:19; 2 Coríntios 6:16; Efésios 2:21, 22; 1 Timóteo 3:15; Hebreus 3:6). Simplificando, o Templo que está sendo construído hoje é a Igreja. À medida que o Templo da Nova Aliança é edificado, ele deve ser sustentado da mesma forma que a reconstrução do Templo no Antigo Testamento — com ofertas voluntárias e espontâneas (cf. Esdras 1:4, 6; 7:16; 8:25).
[6] – Dízimos por voto — É claro que havia várias ofertas devidas a votos feitos. Dependendo do voto, estas podem ser obrigatórias. Se uma pessoa faz um voto de dizimar 10% pelo resto da vida, então ela é obrigada a dar 10% até a morte etc. Contudo, Deus nos instrui a não sermos precipitados com nossos votos (Eclesiastes 5:1 – 7). Com as drásticas mudanças em nossa economia, este é um conselho sábio a ser seguido. Observamos novamente que Abraão é registrado por ter feito apenas “um” voto deste tipo. Notamos também que Jacó fez um voto de dízimo voluntário (Gênesis 28:22). Embora nosso desejo deva ser dar 100%, isso seria antibíblico na prática, pois negligenciar a família não é bíblico (cf. 1 Timóteo 5:8).
[7] – Jesus não deu um dízimo obrigatório — Não se diz que Jesus tenha “dizimado” (Mateus 12:1, 2; Marcos 2:23, 24; Lucas 6:1, 2). Mateus 12:1, 2 diz: — “Naquele tempo passou Jesus pelas searas, em um sábado; e os seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas, e a comer. E os fariseus, vendo isto, disseram-lhe: — ‘Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num sábado’”.
Embora Jesus tenha cumprido toda a Lei (Mateus 5:17 – 20; Romanos 10:4) e tenha dado a Deus o que era de Deus (Mateus 22:20 – 22), Ele era carpinteiro e, portanto, não estava envolvido com a produção agrícola (da terra, aumento de campos, vinhas, pomares, rebanhos e colmeias). Por isso, Ele não era obrigado a dar um “dízimo” normal. Nenhum dos discípulos era fazendeiro ou pastor e, portanto, eles também não eram obrigados a pagar dízimos. Todos davam ofertas voluntárias (por serem pobres). Eles obedeciam à Lei ao não dizimar! Neste incidente, eles estavam praticando a Lei da respiga[14], que era especificamente para os pobres (Levítico 19:9, 10; 23:22; Deuteronômio 24:19; Rute 2:2, 15). Os fariseus não repreenderam Jesus e seus discípulos por respigar. Eles não repreenderam Jesus e seus discípulos por não pagarem um dízimo em sua colheita! A única acusação é que eles realizaram trabalho no dia de sábado, o que Jesus corrigiu os fariseus (Mateus 12:3 – 8). Jesus de fato “deu” aos pobres, mas uma porcentagem nunca é mencionada (João 12:4 – 6; Provérbios 14:31; 28:27; Tiago 1:27; 1 João 3:17, 18). Jesus alimentou os pobres etc. (Mateus 14:15 – 21; Lucas 9:12 – 15). Ele “deu” perfeitamente e sem pecado (Mateus 5:48), mas nunca foi obrigado a “dizimar”.
[8] – Alguns pontos de resumo – Deus prescreveu divinamente termos para o dízimo que não podem e não devem ser aplicados hoje:
[A] – A maioria da Igreja não vive na Terra Prometida.
[B] – A tribo levítica não continua.
[C] – Não existe um Templo central.
[D] – A maioria dos crentes não tem aumento agrícola da Terra Prometida.
[E] – Hebreus 8 descontinuou o dízimo obrigatório, pois o sacerdócio levítico não existe mais e um sacerdócio maior agora existe.
[F] – Não há dízimo sobre salário, remuneração, ou “tudo o que tenho” etc., nas Escrituras.
[G] – Os pobres não eram obrigados a dizimar.
Agora, o resto da história.
No entanto, embora o dízimo da Antiga Aliança não seja mais aplicável, podemos e devemos aprender com ele. O cristão deve dar o melhor de seu aumento, generosamente, apoiando aqueles que pregam e ensinam a Palavra. Além disso, devem ajudar o pobre, a viúva e o órfão. No entanto, isto não é um “dízimo obrigatório”. A Nova Aliança fala sobre “dar”, não sobre “dizimar” obrigatoriamente.
Alguns princípios de “doação” (não dízimo) do Novo Testamento.
O princípio e a liberdade do “dar” (não do dizimar) no Novo Testamento são o ato de “doar” de forma sacrificial, alegre, voluntária e proporcional para o sustento do ministério da Palavra e o auxílio aos necessitados, além da gestão adequada de todo o resto como pertencente a Deus. Veja Mateus 6:2 – 4; 25:34 – 46; Marcos 4:24; Lucas 6:38; 12:15, 34; 20:25; 21:1 – 4; Atos 2:44, 45; Romanos 15:25 – 27; 1 Coríntios 16:2; 2 Coríntios 8:2 – 5; 9:6 – 12; 1 Timóteo 6:17 – 19; Hebreus 13:16; 1 Pedro 4:10, 11 etc. Assim, o cristão deve dar voluntariamente por amor, não por Lei. Ele deve dar:
[A] – Do seu aumento, conforme o Senhor supre e direciona.
[B] – Como sua primeira prioridade, determinada de antemão, não como uma reflexão tardia do que sobrou. O cristão não deve perguntar: — “Certo, quanto eu tenho que dar este mês?”, mas sim, com alegria avassaladora e entusiasmo: — “Quanto eu posso dar? Posso dar ainda mais este mês?” etc. Louvado seja Deus!
[C] – Do seu melhor.
[D] – Sacrificialmente! Sacrificialmente! Sacrificialmente!
[E] – Alegremente, jubilosamente e de modo entusiasmado.
[F] – Para prover a pregação e o ensino da Palavra, o envio de pregadores e o alívio dos que sofrem; primeiro os crentes, depois os outros.
[G] – Por meio dos presbíteros e diáconos (cuidando dos pobres, das viúvas e dos órfãos) da Igreja.
[H] – Cumprindo quaisquer promessas ou votos que fizer de acrescentar algo ao reino de Deus.
[I] – Como um privilégio da graça, não como um fardo.
[J] – Por amor a Cristo, ao seu Reino, ao seu povo e ao próximo.
No entanto, a “doação” do Novo Testamento não é um dízimo obrigatório de 10%. Pode-se procurar, mas não se encontra este mandamento de dizimar nas Escrituras do Novo Testamento! Até mesmo o quarto voto de membro da PCA não exige um dízimo. Ele diz: — “Você promete apoiar a Igreja em sua adoração e trabalho da melhor maneira possível?”. Note que isso não diz “dizimar” (um 10% obrigatório), mas “apoiar […] da melhor maneira possível”. “Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente” (Romanos 14:5).
Observe que o BCO 54–1 da PCA menciona um “dízimo”. No entanto, o BCO 54–1 não é constitucionalmente vinculativo. Note que ele também difere, em substância, das deliberações presbiterianas anteriores: — [1] – a referência da Assembleia de 1854 ao dízimo como “presunção” e [2] – a linguagem de 1933 de “porção digna”. É interessante que a Confissão de Fé de Westminster (21:5), como originalmente escrita, não contém nenhuma referência a coletas como um elemento ordinário de adoração ou como um elemento ocasional de adoração.
Que maravilhoso presente — A doação.
Temos o “privilégio” e a “liberdade” de “dar”. Louvado seja o Senhor! Aproveite esta oportunidade para considerar, em oração, com alegria e sacrificialmente, o que o Senhor gostaria que você desse hoje – e todos os dias – à sua Igreja, aos pobres e a outros. Calvino escreveu: — “Ai da nossa indolência! — que se manifesta nisto, que enquanto Deus nos convida com tanta bondade à honra do sacerdócio, e até mesmo coloca sacrifícios em nossas mãos, nós, no entanto, não sacrificamos a Ele […]. Pois os altares, nos quais os sacrifícios de nossos recursos deveriam ser apresentados, são os pobres e os servos de Cristo. Negligenciando estes, alguns esbanjam seus recursos em todo tipo de luxo, outros no paladar, outros em trajes imodestos, outros em moradias magníficas[15]”.
Deus não nos limita a uma lei de meros 10% ou 23,3%; em vez disso, como Ele nos deu abundantemente, agora temos a oportunidade de devolver o que já é dEle (Salmos 50:10, 12; 89:11; 1 Coríntios 10:26; cf. Êxodo 9:29; Deuteronômio 10:14) de acordo com seu Espírito. No entanto, Ele entende a situação dos pobres, da viúva e do órfão. Ele provê para eles através de você e de mim (Êxodo 23:11; Levítico 19:10; 23:22; Deuteronômio 15:9 etc.). Em sua providência, Deus até provê para os pobres por meios miraculosos em alguns momentos (1 Reis 17:7 – 24; Mateus 14:13 – 21; Marcos 6:31 – 44; Lucas 9:10 – 17; João 6:5 – 15). E até mesmo os pobres podem ser tocados pelo Espírito para dar uma oferta voluntária de algum tipo. Às vezes, eles são movidos pelo Espírito Santo a serem os mais generosos de todos os doadores (Marcos 12:41 – 44; Lucas 21:1 – 4). Oh, a maravilhosa obra do Espírito de Deus e seu dom de dar! Como você exercerá este dom, esta semana, este mês e durante todo o ano?
“Mais bem–aventurada coisa é dar do que receber” (Atos 20:35; cf. 2 Coríntios 9:6, 7).
Referências históricas.
Este ensinamento não é novo. Ele tem sido ensinado por séculos. Até mesmo muitos teólogos atuais ensinam a “doação” do Novo Testamento e não um “dízimo” do Antigo Testamento. Abaixo está uma lista incompleta, mas adequada, para reforçar o ponto.
A doação e a Igreja Primitiva.
Irineu (120 – 202 d.C.), Against Heresies, Chapter XIII of Book IV: — “E por esta razão o Senhor, em vez daquele [mandamento], ‘Não cometerás adultério’, proibiu até mesmo a concupiscência; e em vez daquele que diz, ‘Não matarás’, Ele proibiu a raiva; e em vez da Lei que ordenava a entrega dos dízimos, [Ele nos disse] para partilhar todas as nossas posses com os pobres”.
Tertuliano (c. 150 – 220), Apology, XXXIX, 1 – 18: — “Nossos líderes são anciãos de valor comprovado, homens que alcançaram esta honra não por um preço, mas por seu caráter. Cada um traz alguma moeda modesta uma vez por mês ou quando desejar, e apenas se estiver disposto e puder; é uma oferta voluntária. Você poderia chamá-los de fundos fiduciários da piedade; eles são gastos […] no sustento e sepultamento dos pobres”.
Dictionary of Early Christian Beliefs (Dicionário de Crenças Cristãs Primitivas – p. 9): — “Embora tenhamos o nosso cofre de tesouros, ele não é formado por dinheiro de compra, como se fosse uma religião que tivesse seu preço. Antes, no dia mensal, se quiser, cada um deposita uma pequena oferta — mas somente se for de sua vontade e somente se estiver em condições. Pois não há compulsão; tudo é voluntário”.
Contribuições e os Reformadores.
John Wycliffe (1328 – 1384) e John Huss (1373 – 1415) compararam os dízimos às ofertas voluntárias. Wycliffe afirmava que o Novo Testamento não ordenava o dízimo. Huss e seus seguidores concluíram que a Lei do Antigo Testamento não era obrigatória para os cristãos. John Smyth (1609) declarou que Cristo aboliu os dízimos em razão da mudança do sacerdócio. François Turrettini (1623 – 1687) sustentou que as leis do Antigo Testamento, como os dízimos e as primícias, não eram vinculantes. Ele concluiu que o modo de sustento dos pastores deveria ter como fundamento a voluntariedade[16].
Martinho Lutero em “How Christians Should Regard Moses (Como os Cristãos Devem Considerar Moisés), April 27, 1525”: — “Mas assim como os judeus falham, também falham os gentios. Portanto, é natural honrar a Deus, não furtar, não cometer adultério, não dar falso testemunho, não matar; e o que Moisés ordena não é nada novo. Pois aquilo que Deus deu aos judeus do céu, Ele também escreveu nos corações de todos os homens. Assim, eu guardo os mandamentos que Moisés estabeleceu, não porque Moisés os tenha dado, mas porque eles foram implantados em mim pela natureza, e Moisés concorda exatamente com a natureza etc. Mas os outros mandamentos de Moisés, que não estão [implantados em todos os homens] pela natureza, os gentios não observam. Nem a estes estão obrigados, como o dízimo e outros igualmente bons, que eu gostaria que também tivéssemos. Eis, portanto, a primeira coisa que devo considerar em Moisés: — a saber, os mandamentos aos quais não estou obrigado, exceto na medida em que estão [implantados em todos] pela natureza [e escritos no coração de cada um]”.
Charles Spurgeon, Metropolitan Tabernacle Pulpit, 68 vols. (Pasadena, TX: Pilgrim, 1974), 47:97: — “É digno de nota também que, no que diz respeito à liberalidade cristã, não há regras estabelecidas na palavra de Deus. Recordo-me de ouvir alguém dizer: — ‘Gostaria de saber exatamente quanto devo dar’. Sim, querido amigo, sem dúvida você gostaria; mas não está debaixo de um sistema semelhante àquele pelo qual os judeus eram obrigados a pagar os dízimos aos sacerdotes. Pois se houvesse alguma regra assim estabelecida no Evangelho, isso destruiria a beleza da doação espontânea e tiraria todo o frescor do fruto da sua liberalidade!”. MTP (Metropolitan Tabernacle Pulpit) 28:694: — “Li algumas afirmações surpreendentes acerca do suposto direito divino dos dízimos. Parece estar estabelecido na mente de alguns que, se Deus deu os dízimos a Levi, deve, portanto, tê-los dado aos ministros episcopais: — uma inferência que não consigo enxergar! Eu poderia, com a mesma facilidade, concluir que Ele os deu aos ministros batistas; certamente, não seria mais ilógico. A ideia de que sejamos sacerdotes ou levitas a fim de receber dízimos compulsórios seria demasiado abominável para ser admitida sequer por um momento!”. MTP (Metropolitan Tabernacle Pulpit) 14:567 – 568: — “Muito se tem dito sobre dar a décima parte da renda ao Senhor. Penso ser este um dever cristão que ninguém deveria questionar por um só instante. Se era dever sob a lei judaica, muito mais o é agora, sob a dispensação cristã. Mas é um grande equívoco supor que o judeu dava apenas a décima parte. Ele dava muito, muito, muitíssimo mais do que isso. O dízimo era o pagamento obrigatório; mas, além dele, vinham todas as ofertas voluntárias, todos os diversos dons em diferentes épocas do ano, de modo que, talvez, desse um terço — certamente muito mais próximo disso do que de um décimo! Não gosto, contudo, de estabelecer regras para o povo de Deus, pois o Novo Testamento do Senhor não é um grande livro de regras; não é um livro da letra — porque a letra mata — mas é o livro do Espírito, que nos ensina mais a alma da liberalidade do que o corpo dela. E, em vez de escrever leis sobre pedras ou sobre papel, Ele escreve leis sobre o coração. Dai, queridos amigos, conforme propusestes no vosso coração, e dai proporcionalmente, conforme o Senhor vos tenha prosperado. Não façais a vossa estimativa do quanto deveis dar pelo que parecerá respeitável aos olhos dos outros, ou pelo que deles se espera, mas como diante do Senhor, pois Ele ama ao que dá com alegria; e, sendo o doador alegre também um doador proporcional, cuidai, como bons despenseiros, de manter contas fiéis diante do grande Rei”.
Diversos autores sobre a contribuição.
The Billy Graham Evangelistic Association: — “[…] a questão sobre dizimar do rendimento líquido ou bruto não é respondida pela Escritura, nem a questão se tudo deve ser dado à Igreja local ou se podem ser incluídos outros ministérios. Entendemos que tais decisões devem se basear em convicção pessoal. O dízimo não é mencionado no Novo Testamento, exceto quando descreve práticas do Antigo Testamento, ou nos Evangelhos, quando Jesus se dirige a pessoas que estavam debaixo da Lei do Antigo Testamento. Notai, por exemplo, os comentários de Jesus aos fariseus em Lucas 11:42. Um ensino do Novo Testamento sobre a contribuição que pode ser útil encontra-se em 1 Coríntios 16:2: — ‘No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade’. Este texto ressalta quatro pontos: — devemos dar de forma individual, regular, metódica e proporcional. A questão da contribuição é entre você e Deus, e Ele sempre leva em conta as nossas circunstâncias. Ele sabe quando estão além de nosso poder de controlar. O importante é que encaremos a contribuição como um privilégio e não como um peso. Não deve ser por mero dever, mas por amor ao Senhor e desejo de ver o seu reino avançar. Como diz 2 Coríntios 9:6, 7: — ‘E digo isto: — Que o que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância ceifará. Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria’. A pergunta mais profunda é esta: — O que tem prioridade em nossa vida? Cristo está realmente em primeiro lugar — ou colocamos a nós mesmos e aos nossos desejos acima dEle? Certifique-se de que Cristo seja o primeiro em sua vida e, então, peça-lhe que o guie”.
Dr. Russell Earl Kelly, Should The Church Teach Tithing (p. 139 – 140): — “Nenhuma das três principais abordagens hermenêuticas da Teologia hoje sustenta o dízimo. Primeiro, os defensores da Teologia do Pacto dividem a Lei em mandamentos morais, estatutos cerimoniais e juízos civis. Em seguida, reconhecem o dízimo como estatuto cerimonial e o descartam. Segundo, os defensores da Teologia Dispensacional também dividem a Lei em mandamentos, estatutos e juízos; porém, a veem como um todo indivisível, rejeitam a Lei inteira e recomeçam com Deus repetindo seus princípios morais eternos na Nova Aliança, após o Calvário. Por fim, os defensores de uma terceira via hermenêutica, situada entre a Teologia do Pacto e a Dispensacional, igualmente rejeitam o dízimo em razão de seu uso cúltico e imoral[17]”.
R. C. H. Lenski, The Active Church Member: — “Deus nos deu a sua Lei divina, e o Espírito de Cristo — que é o espírito de fé e amor — usa livremente a Lei de Deus como reguladora da vida cristã. Como cristãos, porém, estamos sob o Evangelho; e isso significa que, com fé e amor, obedecemos voluntariamente ao Senhor e buscamos cumprir a sua santa vontade. Legalismo é o nome de toda lei espúria na Igreja: — tanto o estabelecer leis humanas na Igreja quanto a obediência a tais leis. Nenhuma Igreja tem o direito de fazer leis pelas quais prenda seus membros; e nenhum membro tem o direito de obedecer a tais leis e permitir que a consciência seja assim algemada. Tanto a Igreja quanto o membro são legalistas quando conduzem as atividades eclesiásticas desse modo. O Estado pode legislar; a Igreja, porém, não. Assim como o Evangelho, somente ele, reina em nossos corações, também métodos evangélicos devem ser usados, e apenas eles, em nossas atividades eclesiásticas. Esses métodos utilizam o poder exclusivo da fé e do amor, e nenhum constrangimento exterior. Por isso trazem a marca da liberdade do Evangelho. O membro da Igreja faz o que faz de livre vontade, com alegria e gratidão, como privilégio. Esse é o método evangélico. O cristão evangélico vai à Igreja por amor a Cristo, à sua Palavra e ao culto. Somente quando o Senhor vê isso no coração é que se agrada. Nenhuma atuação meramente exterior satisfaz ao Senhor — muito menos fazer o que o Senhor em parte alguma ordenou. E, pior que tudo, tentar comprar o seu favor é insultar a sua bendita graça, pela qual somente os seus dons salvíficos podem tornar-se nossos. Métodos legalistas parecem especialmente promissores quando se trata de obter dinheiro para a Igreja. Por que não impor um imposto aos membros — um tributo fixo por cabeça —, ou um tributo proporcional aos bens? Não garantiria isso a soma desejada de modo muito mais seguro do que o método evangélico da contribuição voluntária? O problema é que, embora o dinheiro pudesse ser obtido por via legalista, o Senhor não o aproveita. O único dinheiro que Ele aceita é aquele que vem como verdadeira oferta, feita a Ele por corações voluntários, em fé e amor. Tais ofertas só podem ser recolhidas por métodos evangélicos, jamais por expedientes legalistas. Métodos errados tendem sempre a corromper princípios certos, e assim impedem as bênçãos que deveríamos receber. Métodos corretos sustentam os verdadeiros princípios, ajudam a mostrar quão benéficos são e, assim, alcançam a aprovação e a bênção do Senhor”.
John Fullerton MacArthur, Jr. (1939 – 2025) Commentary on the Book of Romans 9 – 16 (p. 233): — “[…] Os cristãos não estão sob obrigação de dar uma quantia especificada para a obra de seu Pai celestial. Em nenhuma de suas formas, o dízimo, ou quaisquer outros tributos do Antigo Testamento, se aplicam aos cristãos”.
“Thoughts On Tithing” (trecho de sermão pregado na Grace Community Church, Panorama City, CA): — “O dízimo, basicamente, nunca, jamais é defendido no Novo Testamento; nunca é ensinado no Novo Testamento — nunca!”.
Bruce Metzger, Oxford Companion to the Bible (p. 223): — “O Novo Testamento em parte alguma exige explicitamente o dízimo como meio de sustentar o ministério ou um local de assembleia”.
Tyler Ramey, Tithing Today: God’s Plan or Designs of Man: — “No que diz respeito à Igreja primitiva mais antiga, nem os Apóstolos, nem seus discípulos (os Pais da Igreja) ensinaram que o dízimo fosse uma obrigação cristã. Antes que o dízimo se tornasse gradualmente uma prática estável em alguns setores da Igreja primitiva, não havia sustento do clero por meio de uma contribuição sistemática de dízimo. Com o tempo (alguns séculos após a cruz), o dízimo passou a ser considerado, em geral, segundo o modelo da sinagoga judaica. Até então, o dízimo era apenas uma sugestão, que aparentemente ganhava cada vez mais apoio à medida que crescia o poder de bispos e presbíteros. À medida que a autoridade e a posição dos líderes da Igreja passaram a refletir a dos sacerdotes da era do Templo e das provisões que os sustentavam, a Igreja acabou por prescrever um dízimo que incluía ‘dinheiro, roupas e todos os teus bens’ (Didaqué 13:7, citado em Walter A. Elwell, ed., The Concise Evangelical Dictionary of Theology, Grand Rapids: Baker Book House, 1991, verbete ‘Tithing’, por D. K. McKim, p. 513). Algo que hoje em geral não se ensina e que está conspicuamente ausente da prática contemporânea (cf. David W. Bercot, ed., A Dictionary of Early Christian Beliefs, Peabody: Hendrickson Publishers, 1998). No século IV, a defesa do dízimo já era feita com base em textos como Mateus 10:10 — ‘digno é o operário do seu alimento’ (cf. Lucas 10:7) — e 1 Coríntios 9:11 — ‘Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito que de vós recolhamos as carnais?’. Entretanto, alguns líderes da Igreja (como Irineu e Epifânio) mostraram que o argumento a partir desses textos não era válido; pelo contrário, enfatizava-se a liberdade na contribuição cristã (Merril C. Tenney, ed., The Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible, Grand Rapids: Zondervan, 1975, verbete ‘Tithe’, por C. L. Feinberg, p. 758). Já no século VI, a prática do dízimo havia absorvido numerosas regulamentações humanas, que determinavam porções específicas destinadas a sacerdotes e paróquias. Essa prática refletia a noção comum de que as determinações veterotestamentárias sobre sustento de sacerdotes e manutenção do templo teriam contrapartida em líderes da Igreja — usualmente pastores — e na manutenção de edifícios eclesiásticos. Essa crença no paralelismo ainda é sustentada por muitos cristãos, e conta até hoje com o apoio de não poucos líderes eclesiásticos”.
Diversos dicionários e comentários sobre a contribuição.
The Bible Knowledge Commentary (p. 1585): — “Embora não exija o dízimo dos crentes hoje, o Novo Testamento fala da bênção de Deus sobre aqueles que contribuem generosamente para as necessidades da Igreja, especialmente para os que se dedicam ao ministério da Palavra”.
The Encyclopedia Americana: — “O dízimo não era praticado na Igreja cristã primitiva, mas tornou-se gradualmente comum (na Igreja Católica Romana da Europa Ocidental) por volta do século VI. O Concílio de Tours, em 567 d.C., e o Segundo Concílio de Mâcon, em 585 d.C., defenderam o dízimo. Tornou-se obrigatório por lei civil no Império Carolíngio, em 765 d.C., e na Inglaterra no século X […]. A Reforma não aboliu o dízimo, e a prática continuou tanto na Igreja Católica Romana quanto em países protestantes […] até ser gradualmente substituída por outras formas de tributação. A Igreja Católica Romana ainda prescreve o dízimo em países onde ele é sancionado por lei, e alguns grupos protestantes consideram o dízimo obrigatório”.
Hastings Dictionary of the Apostolic Church: — “É universalmente admitido que o pagamento de dízimos ou décimas dos bens, para fins sagrados, não encontrou lugar na Igreja cristã durante a era dos Apóstolos e de seus sucessores imediatos”.
Nelson’s Bible Dictionary (verbete tithe): — “No Novo Testamento, as palavras dízimo e dizimar aparecem apenas oito vezes (Mateus 23:23; Lucas 11:42; 18:12; Hebreus 7:5, 6, 8, 9). Todas essas passagens se referem ao uso do Antigo Testamento […]. Em parte alguma, o Novo Testamento ordena expressamente aos cristãos que dizimem. Contudo, como crentes, devemos ser generosos em compartilhar nossos bens materiais com os pobres e para o sustento do ministério cristão. O próprio Cristo é o nosso modelo em dar. A contribuição deve ser voluntária, disposta, alegre e feita à luz de nossa prestação de contas a Deus. Deve ser sistemática, e de modo algum limitada a um dízimo de nossos rendimentos. Reconhecemos que tudo o que temos vem de Deus. Somos chamados a ser mordomos fiéis de todos os nossos bens (Romanos 14:12; 1 Coríntios 9:3 – 14; 16:1 – 3; 2 Coríntios 8 — 9)”.
New Advent Catholic Encyclopedia Online: — “Na Igreja cristã, como aqueles que servem ao altar devem viver do altar (1 Coríntios 9:13), alguma provisão precisava ser feita para os ministros consagrados. No início, isso era suprido pelas ofertas espontâneas dos fiéis. Com o tempo, porém, à medida que a Igreja se expandiu e várias instituições surgiram, tornou-se necessário estabelecer leis que garantissem o sustento adequado e permanente do clero. O pagamento de dízimos foi então adotado da Antiga Lei, e escritores primitivos o mencionam como uma ordenança divina e uma obrigação de consciência. A legislação positiva mais antiga sobre o assunto parece estar contida na carta dos bispos reunidos em Tours (567 d.C.) e nos cânones do Concílio de Mâcon (585 d.C.). Com o tempo, encontramos o pagamento de dízimos tornado obrigatório por decretos eclesiásticos em todos os países da cristandade”.
Treasury of Scripture Knowledge: — “O dízimo não é ensinado no Novo Testamento como obrigação para o cristão sob a graça […]. Porque não estamos debaixo da Lei, mas debaixo da graça, a contribuição cristã não deve ser transformada em uma questão de obrigação legalista, para que não caiamos no erro do galatianismo (Gálatas 3:24, 25; Romanos 10:4; Colossenses 2:14 etc.)”.
Paz e graça.
[1] Por Dr. Joseph R. Nally, Jr., D.D., M.Div. — https://thirdmill.org/answers/answer.asp/file/43275.
[2] Works, vol. 21, p. 324, 325.
[3] “Também todas as dízimas do campo, da semente do campo, do fruto das árvores, são do Senhor; santas são ao Senhor. Porém, se alguém das suas dízimas resgatar alguma coisa, acrescentará a sua quinta parte sobre ela. No tocante a todas as dízimas do gado e do rebanho, tudo o que passar debaixo da vara, o dízimo será santo ao Senhor. Não se investigará entre o bom e o mau, nem o trocará; mas, se de alguma maneira o trocar, tanto um como o outro será santo; não serão resgatados” (ACF).
[4] “E eis que aos filhos de Levi tenho dado todos os dízimos em Israel por herança, pelo ministério que executam, o ministério da tenda da congregação. E nunca mais os filhos de Israel se chegarão à tenda da congregação, para que não levem sobre si o pecado e morram. Mas os levitas executarão o ministério da tenda da congregação, e eles levarão sobre si a sua iniquidade; pelas vossas gerações estatuto perpétuo será; e no meio dos filhos de Israel nenhuma herança terão, porque os dízimos dos filhos de Israel, que oferecerem ao Senhor em oferta alçada, tenho dado por herança aos levitas; porquanto eu lhes disse: — No meio dos filhos de Israel nenhuma herança terão” (ACF).
[5] “Certamente darás os dízimos de todo o fruto da tua semente, que cada ano se recolher do campo. E, perante o Senhor teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome, comerás os dízimos do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer ao Senhor teu Deus todos os dias. E quando o caminho te for tão comprido que os não possas levar, por estar longe de ti o lugar que escolher o Senhor teu Deus para ali pôr o seu nome, quando o Senhor teu Deus te tiver abençoado; então vende-os, e ata o dinheiro na tua mão, e vai ao lugar que escolher o Senhor teu Deus; e aquele dinheiro darás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, e por ovelhas, e por vinho, e por bebida forte, e por tudo o que te pedir a tua alma; come-o ali perante o Senhor teu Deus, e alegra-te, tu e a tua casa; porém não desampararás o levita que está dentro das tuas portas; pois não tem parte nem herança contigo. Ao fim de três anos tirarás todos os dízimos da tua colheita no mesmo ano, e os recolherás dentro das tuas portas; então virá o levita (pois nem parte nem herança tem contigo), e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, que estão dentro das tuas portas, e comerão, e fartar-se-ão; para que o Senhor teu Deus te abençoe em toda a obra que as tuas mãos fizerem” (ACF).
[6] “Abrão, porém, disse ao rei de Sodoma: — Levantei minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra, jurando que desde um fio até à correia de um sapato, não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu; para que não digas: — Eu enriqueci a Abrão; salvo tão somente o que os jovens comeram, e a parte que toca aos homens que comigo foram, Aner, Escol e Manre; estes que tomem a sua parte” (ACF).
[7] “E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo” (ACF).
[8] Para uma análise detalhada, consulte o artigo — “O Dízimo no Antigo Testamento?”.
[9] A sentença do item 4 reforça o argumento do item 3 ao apontar mais uma inconsistência na prática moderna do dízimo. Enquanto o item 3 questiona por que apenas um dos três dízimos é praticado (ignorando os outros dois), o item 4 questiona por que a regra do sétimo ano, que fazia parte da mesma legislação do dízimo no Antigo Testamento, é ignorada. Ambos os itens desafiam a lógica de adotar parcialmente as leis do Antigo Testamento, sugerindo que, se a continuidade da Lei é defendida, então todas as suas estipulações (os três dízimos e a isenção do sétimo ano) deveriam ser observadas. A referência explícita ao “Veja o item 3 acima” no final do item 4 reforça essa conexão, indicando que o argumento do sétimo ano é uma extensão da crítica à aplicação seletiva do dízimo apresentada no item 3 — nota do tradutor.
[10] O item 1 não menciona diretamente a Terra Prometida, mas as passagens citadas (Levítico 27:30 – 33; Números 18:21 – 24; Deuteronômio 14:22 – 29) implicam que o dízimo estava vinculado à produção da terra de Israel, que era considerada a herança prometida por Deus. O item 6 aprofunda essa ideia ao esclarecer que o dízimo era restrito à Terra Prometida, usando o exemplo da tribo de Gade, que, embora estivesse fora da Terra Prometida propriamente dita, ainda fazia parte da herança prometida e, portanto, estava sujeita ao dízimo. O item 6 conclui que não havia dízimo obrigatório fora desse contexto geográfico, reforçando a especificidade do dízimo descrita no item 1. A comparação com o item 1 sugere que o dízimo era tanto um imposto agrícola quanto geográfico, não aplicável a contextos fora da economia e da terra de Israel — nota do tradutor.
[11] “Porém, se em sua mão não houver recurso para duas rolas, ou dois pombinhos, então aquele que pecou trará como oferta a décima parte de um efa de flor de farinha, para expiação do pecado; não deitará sobre ela azeite nem lhe porá em cima o incenso, porquanto é expiação do pecado; e a trará ao sacerdote, e o sacerdote dela tomará a sua mão cheia pelo seu memorial, e a queimará sobre o altar, em cima das ofertas queimadas do Senhor; expiação de pecado é. Assim o sacerdote por ela fará expiação do seu pecado, que cometeu em alguma destas coisas, e lhe será perdoado; e o restante será do sacerdote, como a oferta de alimentos” (ACF).
[12] “Porém se for pobre, e em sua mão não houver recursos para tanto, tomará um cordeiro para expiação da culpa em oferta de movimento, para fazer expiação por ele, e a dízima de flor de farinha, amassada com azeite, para oferta de alimentos, e um logue de azeite” (ACF).
[13] “Mas, se for mais pobre do que a tua avaliação, então apresentar-se-á diante do sacerdote, para que o sacerdote o avalie; conforme as posses daquele que fez o voto, o avaliará o sacerdote” (ACF).
[14] A palavra hebraica para “respigar” é “לָקַט” (lāqaṭ), que significa recolher, ajuntar, apanhar. Respigar é a prática de recolher os grãos ou frutos deixados para trás pelos ceifeiros após a colheita. Na Escritura, os israelitas foram ordenados a permitir que os pobres seguissem os trabalhadores do campo, colhendo o que caía ou ficava esquecido. Assim, a Lei de Moisés providenciava sustento para os necessitados, os órfãos, as viúvas e os estrangeiros. A norma mosaica determinava: — “Quando também fizerdes a colheita da vossa terra, o canto do teu campo não segarás totalmente, nem as espigas caídas colherás da tua sega. Semelhantemente não rabiscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro. Eu sou o Senhor vosso Deus” (Levítico 19:9, 10). Esse princípio de misericórdia brilha de modo especial na narrativa de Rute, a moabita, nora de Noemi. Viúva e estrangeira, ela encontrou sustento por meio da respiga nos campos de Boaz: — “E Rute, a moabita, disse a Noemi: — Deixa-me ir ao campo, e apanharei espigas atrás daquele em cujos olhos eu achar graça. E ela disse: — Vai, minha filha” (Rute 2:2) — nota do tradutor.
[15] Calvin, Commentary, Phil. 4:18.
[16] Para uma história mais completa do tema, veja: Perspectives on Tithing: Four Views, editado por David A. Croteau.
[17] Recomendo vivamente a obra do Dr. Kelly: Should the Church Teach Tithing? A Theologian’s Conclusions about a Taboo Doctrine, Writers Club Press, 11 de janeiro de 2000.
[18] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.