por John Bunyan | 19 jan 2020 | DEVOCIONAL
Andando pelas regiões desertas deste mundo, achei-me em certo lugar onde havia uma caverna[2]; ali deitei-me para dormir e, dormindo, tive um sonho. Vi um homem vestido de trapos (Isaías 64:6), de pé em determinado lugar, com o rosto voltado para o lado oposto da própria casa, um livro na mão e um grande fardo às costas (Salmos 38:4). Olhei e o vi abrir o livro, e lê-lo; e lendo, chorava e tremia, e já não se contendo, rebentou em um choro sentido, dizendo: — “Que devo fazer?” (Atos 16:30, 31). Nessa angústia, portanto, voltou para casa e se conteve o máximo que pôde, para que sua mulher e seus filhos não lhe percebessem o desconsolo; mas não podia mais calar-se, pois seu tormento crescia. Assim, afinal revelou sua angústia à mulher e aos filhos; e começou a falar-lhes: — Minha querida esposa e filhos — disse ele — estou muito preocupado em virtude de um fardo que me pesa muito; além disso, tenho uma informação segura de que nossa cidade será queimada com fogo do céu, em cuja terrível destruição eu, você, minha esposa, e vocês, filhinhos amados, seremos destruídos, a não ser que haja uma maneira (que não vejo) de escapar, pela qual nos libertemos.
A revelação deixou a mulher e os filhos surpresos e aflitos, não porque acreditassem que o que ele lhes dizia era verdade, mas porque achavam que alguma insensatez desvairada lhe confundia o pensamento. Aproximando-se a noite, portanto, e esperando que o sono pudesse acalmá-lo, mais do que depressa o fizeram dormir. Mas a noite foi para ele tão perturbadora quanto o dia; assim, em vez de dormir, passou-a entre suspiros e lágrimas. Quando veio a manhã, quiseram saber como ele passara, e lhes disse que piorava cada vez mais. Também voltou a falar-lhes, mas eles começaram a mostrar-se endurecidos[3]. Então cogitaram curar-lhe a insensatez por meio de um comportamento rude: — “às vezes zombavam dele; às vezes o repreendiam; e às vezes simplesmente o ignoravam”. Por isso ele passou a isolar-se em seu quarto para orar e lamentar por eles, e também para condoer-se da própria angústia. Caminhava solitário pelos campos, às vezes lendo, às vezes orando. Assim passou o tempo durante alguns dias. Ora, vi certa vez quando ele caminhava pelos campos que (como costumava fazer) lia seu livro exibindo grande angústia, e lendo, rebentou em lágrimas, como já o fizera antes, clamando: — “Que devo fazer para ser salvo?”. Vi também que ele olhava para um lado e para o outro, como se pretendesse correr, porém permanecia imóvel, pois, como percebi, não conseguia decidir que caminho tomar. Olhei então e vi um homem chamado Evangelista aproximar-se dele e perguntar-lhe:
— Por que você está chorando?
— Senhor, percebo, por este livro que tenho nas mãos, que estou condenado a morrer e, depois, ir a julgamento (Hebreus 9:27). Não quero que a primeira coisa aconteça comigo agora, nem tampouco estou pronto para a segunda.
Disse então o Evangelista:
— Por que não está disposto a morrer, se esta vida é afligida por tantos males?
— Porque temo que esse fardo que trago às costas me enterre mais fundo que a sepultura, e que eu venha a cair na fogueira[4]. E, senhor, se não estou disposto a ir para a prisão, não estou disposto (tenho certeza) a enfrentar o juízo, e depois a execução. Pensar nessas coisas me faz chorar.
— Se é assim que você se sente — disse o Evangelista — por que fica aí parado?
— Porque não sei para onde ir.
Então ele lhe deu um livro, no qual estava escrito: — “Fujam da ira vindoura” (Mateus 3:7). O homem leu e, olhando para o Evangelista, falou com muito cuidado: — Para onde devo fugir? Respondeu o Evangelista, apontando o dedo para um campo bem vasto: — Vê lá longe aquela porta estreita? (Mateus 7:13, 14).
— Não.
— Vê lá longe aquela luz radiante? (Salmos 119:105; 2 Pedro 1:19).
— Acho que sim.
— Pois fixe o olhar nessa luz, e suba direto até lá. Ao chegar, você verá a porta. Bata e lhe dirão o que deve fazer[5].
Paz e graça.
[1] BUNYAN, John. O Peregrino, p. 18 – 20.
[2] A prisão.
[3] Atitude carnal das almas doentes.
[4] Conforme Isaías 30:33.
[5] Cristo e o caminho até Ele não podem ser encontrados sem a Palavra.
[6] Pr. Me. Plínio Sousa — Nota: — revisor e significações.
por Tomás de Kempis | 8 jan 2020 | DEVOCIONAL
Livro II — Capítulos 6 – 7.
1 – Da alegria da boa consciência.
“A glória do homem virtuoso é o testemunho da boa consciência”. Conserva pura a consciência, e sempre terás alegria. A boa consciência pode suportar muita coisa e permanece alegre, até nas adversidades. A má consciência anda sempre medrosa e inquieta. “Suave sossego gozarás, se de nada te acusar o coração”. Não te dês por satisfeito, senão quando tiveres feito algum bem. Os maus nunca têm verdadeira alegria nem sentem a paz interior; pois não há paz para os ímpios, diz o Senhor (Isaías 57:21). E se disserem: — “Vivemos em paz, não há mal que nos possa acontecer, e quem ousará ofender-nos? – não lhes dês crédito, porque de repente levantar-se-á a ira de Deus, e então as suas obras serão aniquiladas e frustados seus intuitos”.
“A quem ama não é dificultoso gloriar-se na tribulação; pois gloriar-se assim é gloriar-se na cruz do Senhor” (Gálatas 6:14). Pouco dura a glória que os homens dão e recebem. A glória do mundo anda sempre acompanhada de tristeza. A glória dos bons está na própria consciência, e não na boca dos homens. A alegria dos justos é de Deus e em Deus, a sua alegria procede da verdade. “Quem deseja a glória verdadeira e eterna não faz caso da temporal. E quem procura a glória temporal ou não a despreza de todo, mostra que pouco ama a celestial”. Grande tranquilidade do coração goza aquele que não faz caso de elogios nem de censuras.
“É fácil estar contente e sossegado, tendo a consciência pura”. Não és mais santo porque te louvam, nem mais ruim porque te censuram. És o que és, nem te podem os louvores fazer maior do que és aos olhos de Deus. Se considerares o que és no teu interior, não farás caso do que te dizem os homens. O homem vê o rosto, Deus o coração (1 Reis 16:7). “O homem nota os atos, mas Deus pesa as intenções. Proceder sempre bem e ter-se em pequena conta é indício de uma alma humilde”. Rejeitar toda consolação das criaturas é sinal de grande pureza e confiança interior.
“Aquele que não procura o testemunho favorável dos homens mostra que está todo entregue a Deus”. Porque, como diz Paulo, não é aprovado aquele que a si próprio recomenda, mas aquele que é recomendado por Deus (2 Coríntios 10:18). “Andar recolhido no interior com Deus, sem estar preso a alguma afeição humana, é próprio do homem espiritual”.
2 – Do amor de Jesus sobre todas a coisas.
“Bem–aventurado aquele que compreende o que seja amar a Jesus e desprezar-se a si por amor de Jesus”. Por esse amor deves deixar qualquer outro, pois Jesus quer ser amado acima de tudo. O amor da criatura é enganoso e inconstante; o amor de Jesus é fiel e inabalável. “Apegado à criatura, cairás com ela, que é instável; abraçado com Jesus, estarás firme para sempre”. A Ele ama e guarda como amigo que não te desamparará, quando todos te abandonarem, nem consentirá que pereças na hora suprema. “De todos te hás de separar um dia, quer queiras, que não”.
“Conchega-te a Jesus na vida e na morte; entrega-te à sua fidelidade, que só Ele te pode socorrer, quando todos te faltarem”. Teu Amado é de tal natureza, que não admite rival: — “Ele só quer possuir teu coração e nele reinar como Rei em seu trono”. Se souberas desprender-te de toda criatura, Jesus acharia prazer em morar contigo. Quando confiares nos homens, fora de Jesus, verás que estás perdido. Não te fies nem te firmes na cana movediça: — “porque toda a carne é feno, e toda a sua glória fenece como a flor do campo” (Isaías 40:6).
Facilmente serás enganado, se só olhares para as aparências dos homens. Se procuras alívio e proveito nos outros, quase sempre terás prejuízo. “Procura a Jesus em todas as coisas, e Jesus acharás. Se te buscas a ti mesmo, também te acharás, mas para a tua ruína”. Pois o homem que não busca a Jesus é mais nocivo a si mesmo que todo o mundo e seus inimigos todos.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 34 – 36.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Tomás de Kempis | 18 dez 2019 | DEVOCIONAL
Livro II — Capítulos 4 – 5.
1 – Da mente pura e da intenção simples.
“Com duas asas se levanta o homem acima das coisas terrenas: — simplicidade e pureza”. A simplicidade há de estar na intenção e a pureza no afeto. A simplicidade procura a Deus, a pureza o abraça e frui. “Em nenhuma boa obra acharás estorvo, se estiveres interiormente livre de todo afeto desordenado”. Se só queres e buscas o agrado de Deus e o proveito do próximo, gozarás de liberdade interior. Se teu coração for reto, toda criatura te será um espelho de vida e um livro de santas doutrinas. Não há criatura tão pequena e vil que não represente a bondade de Deus.
“Se fosses interiormente bom e puro, logo verias tudo sem dificuldade e compreenderias bem”. O coração puro penetra o céu e o inferno. Cada um julga segundo seu interior. Se há alegria neste mundo, é o coração puro que a goza; se há, em alguma parte, tribulação e angústia, é a má consciência que as experimenta. Como o ferro metido no fogo perde a ferrugem e se faz todo incandescente, assim o homem que se entrega inteiramente a Deus fica livre da tibieza e transforma-se em novo homem.
Quando o homem começa a entibiar, logo teme o menor trabalho e anseia as consolações exteriores. Quando, porém, começa deveras a vencer-se e andar com ânimo no caminho de Deus, leves lhe parecem as coisas que antes achava onerosas.
2 – Da consideração de si mesmo.
“Não podemos confiar muito em nós, porque frequentemente nos faltam a graça e o critério”. Pouca luz temos em nós e esta facilmente a perdemos por negligência. De ordinário também não avaliamos quanta é nossa cegueira interior. “A miúdo procedemos mal e nos desculpamos, o que é pior”. Às vezes nos move a paixão, e pensamos que é zelo. “Repreendemos nos outros as faltas leves, e nos descuidamos das nossas maiores”. Bem depressa sentimos e ponderamos o que dos outros sofremos, mas não se nos dá do que os outros sofrem de nós. Quem bem e retamente avaliasse suas obras não seria capaz de julgar os outros com rigor.
“O homem interior antepõe o cuidado de si a todos os outros cuidados, e quem se ocupa de si com diligência facilmente deixa de falar dos outros. Nunca serás homem espiritual e devoto, se não calares dos outros, atendendo a ti próprio com especial cuidado”. Se de ti só e de Deus cuidares, pouco te moverá o que se passa por fora. Onde estás, quando não estás contigo? E, depois de tudo percorrido, que ganhaste se esqueceste a ti mesmo? “Se queres ter paz e verdadeiro sossego, é preciso que tudo mais dispenses, e a ti só tenhas diante dos olhos”.
Portanto, grandes progressos farás, se te conservares livre de todo cuidado temporal; muito te atrasará o apego a alguma coisa temporal. “Nada te seja grande, nobre, aceito ou agradável, a não ser Deus mesmo ou o que for de Deus”. Considera vã toda consolação que te vier das criaturas. “A alma que ama a Deus despreza tudo que é abaixo de Deus”. Só Deus eterno e imenso, que tudo enche, é o consolo da alma e a verdadeira alegria do coração.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 33 – 34.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Tomás de Kempis | 18 dez 2019 | DEVOCIONAL
Livro III — Capítulos 4 – 5.
1 – Que devemos andar perante deus em verdade e humildade.
Jesus: — “Filho, anda diante de mim em verdade e procura-me sempre com simplicidade de coração”. Quem anda diante de mim na verdade será defendido dos ataques inimigos, e a verdade o livrará dos enganos e das murmurações dos maus. Se te libertar a verdade, serás verdadeiramente livre e não farás caso das vãs palavras dos homens.
A alma: — “Verdade é, Senhor, o que dizeis; peço-vos que assim se faça comigo”. A vossa verdade me ensine, me defenda e me conserve até meu fim salutar. Ela me livre de toda má afeição e amor desregrado e assim poderei andar convosco, com grande liberdade de coração.
Jesus: — “Eu te ensinarei, diz a Verdade, o que é justo e agradável a meus olhos”. Relembra teus pecados com grande dor e pesar e jamais te desvaneças por tuas boas obras. Com efeito, és pecador, sujeito a muitas paixões e preso em seus laços. De ti pendes sempre para o nada; depressa cais, logo és vencido, logo perturbado, logo desanimado. Nada tens de que possas gloriar-te; muito, porém, para te humilhar; pois és muito mais fraco do que podes imaginar.
Nada, pois, do que fazes te pareça grande, nada precioso e admirável, nada digno de apreço, nada nobre, nada verdadeiramente louvável e desejável, senão o que é eterno. Acima de tudo te agrade a eterna verdade, e te desagrade a tua extrema vileza. Nada temas, nada vituperes e fujas tanto como os teus vícios de pecados, que te devem entristecer mais do que quaisquer prejuízos materiais. “Alguns não andam diante de mim com simplicidade, mas, curiosos e arrogantes, pretendem saber meus segredos e compreender os sublimes mistérios de Deus, descurando-se de si próprios e de sua salvação. Estes, por sua soberba e curiosidade, não raro caem em grandes tentações e pecados, porque me afasto deles”.
Teme os juízos de Deus, treme da ira do Onipotente. “Não queiras discutir as obras do Altíssimo; examina antes as tuas iniquidades, quanto mal cometestes e quanto bem deixastes de fazer por negligência”. Alguns põem toda a sua devoção nos livros, outros nas imagens, outros em sinais e exercícios exteriores. Alguns me trazem na boca, mas mui pouco no coração. Outros há, porém, que, alumiados no entendimento e purificados no afeto, sempre suspiram pelos bens eternos; não gostam de ouvir das coisas da terra e com repugnância satisfazem as exigências da natureza; estes percebem o que lhe diz o Espírito da Verdade. Pois lhes ensina a desprezar as coisas terrenas e amar as celestiais, a esquecer o mundo e almejar o céu dia e noite.
2 – Dos admiráveis efeitos do amor divino.
A alma: — “Bendigo-vos, Pai celestial, Pai de meu Senhor Jesus Cristo, por vos terdes dignado lembrar-vos de mim, pobre criatura”. Ó Pai de misericórdia e Deus de toda consolação! (2 Coríntios 1:3), graças vos dou porque, apesar de minha indignidade, me recreais às vezes com vossa consolação. Sede para sempre bendito e glorificado, com vosso Filho unigênito e o Espírito Santo consolador, por todos os séculos. Ah! Senhor Deus, santo amigo de minha alma, tanto que entrais em meu coração, exulta de alegria o meu interior. “Vós sois a minha glória e o júbilo de meu coração; vós sois a minha esperança e meu refúgio no dia da tribulação”.
Mas, como ainda sou fraco no amor e imperfeito na virtude, necessito ser consolado e confortado por vós; por isso visitai-me mais vezes e instruí-me com santas doutrinas. “Livrai-me das más paixões e curai meu coração de todos os afetos desordenados, para que eu, sanado e purificado interiormente, seja apto para amar, forte para sofrer e constante para perseverar”.
Jesus: — “Grande coisa é o amor! É um bem verdadeiramente inestimável que por si só torna suave o que é difícil e suporta sereno toda a adversidade”. Porque leva a carga sem lhe sentir o peso e torna o amargo doce e saboroso. O amor de Jesus é generoso, inspira grandes ações e nos excita sempre à mais alta perfeição. O amor tende sempre para as alturas e não se deixa prender pelas coisas inferiores. O amor deseja ser livre e isento de todo apego mundano, para não ser impedido no seu afeto íntimo nem se embaraçar com algum incômodo. Nada mais doce do que o amor, nada mais forte, nada mais sublime, nada mais amplo, nada mais delicioso, nada mais perfeito ou melhor no céu e na terra; porque o amor procede de Deus, e em Deus só pode descansar, acima de todas as criaturas. “Quem ama, voa, corre, vive alegre, é livre e sem embaraço”. Dá tudo por tudo e possui tudo em todas as coisas, porque sobre todas as coisas descansa no Sumo Bem, do qual dimanam e procedem todos os bens. Não olha para as dádivas, mas eleva-se acima de todos os bens até aquele que os concede. O amor muitas vezes não conhece limites, mas seu ardor excede a toda medida. O amor não sente peso, não faz caso das fadigas e quer empreender mais do que pode; não se escusa com a impossibilidade, pois tudo lhe parece lícito e possível. Por isso de tudo é capaz e realiza obras, enquanto o que não ama desfalece e cai. O amor vigia sempre, e até no sono não dorme. Nenhuma fadiga o cansa, nenhuma angústia o aflige, nenhum temor o assusta, mas qual viva chama a ardente labareda irrompe para o alto e passa avante. “Só quem ama compreende o que é amar”. Bem alto soa aos ouvidos de Deus o afeto da alma que diz: — “Meu Deus, meu amor! Vós sois todo meu, e eu todo vosso!”. A alma: — “Dilatai-me o amor, para que possa, no âmago do coração, saborear quão doce é amar, no amor desmanchar-me e nadar”. Prenda-me o amor, e eleve-me acima de mim, num transporte de fervor excessivo. Cante eu o cântico do amor, siga-vos ao alto, ó meu Amado, desfaleça minha alma no vosso louvor, no júbilo do amor. Amar-vos quero mais que a mim, e a mim só por amor de vós, e em vós a todos que deveras vos amam, conforme ordena a Lei do amor que de vós dimana. “O amor é pronto, sincero, piedoso, alegre e amável; forte, sofredor, fiel, prudente, longânime, viril e nunca busca a si mesmo”. Pois, logo que alguém procura a si mesmo, perde o amor. O amor é circunspecto, humilde e reto; não é frouxo, não é leviano, nem cuida de coisas vãs; é sóbrio, casto, constante, quieto, recatado em todos os seus sentidos. O amor é submisso e obediente aos superiores, mas aos próprios olhos é vil e desprezível; devoto e agradecido para com Deus, confia e espera sempre nEle, ainda quando está desconsolado, porque no amor não se vive sem dor.
Quem não está disposto a sofrer tudo e fazer a vontade do Amado não é digno de ser chamado amante. Àquele que ama cumpre abraçar por seu amado, de boa vontade, tudo o que for duro e amargo e dEle não se apartar por nenhuma contrariedade.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 48 – 50.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Tomás de Kempis | 3 dez 2019 | DEVOCIONAL
Livro II — Capítulos 2 – 3.
1 – Da humilde submissão.
“Não te importes muito de saber quem seja por ti ou contra ti; mas trata e procura que Deus seja contigo em tudo que fizeres”. Tem boa consciência e Deus te defenderá, pois a quem Deus ajuda não há maldade que o possa prejudicar. Se souberes calar e sofrer, verás, sem dúvida, o socorro do Senhor. Ele sabe o tempo e o modo de te livrar; portanto, entrega-te todo a Ele. A Deus pertence aliviar-nos e tirar-nos de toda a confusão. Às vezes é muito útil, para melhor conservarmos a humildade, que os outros saibam os nossos defeitos e no-los repreendam.
Quando o homem se humilha por seus defeitos, aplaca facilmente os outros e satisfaz os que estão irados contra ele. “Ao humilde Deus protege e salva, ao humilde ama e consola, ao humilde Ele se inclina, dá-lhe abundantes graças e depois do abatimento o levanta a grande honra. Ao humilde revela seus segredos e com doçura a si o atrai e convida”. O humilde, ao sofrer afrontas, conserva sua paz, porque confia em Deus e não no mundo. “Não julgues ter feito progresso algum, enquanto te não reconheças inferior a todos”.
2 – Do homem bom e pacífico.
“Primeiro conserva-te em paz, e depois poderás pacificar os outros”. O homem apaixonado, até o bem converte em mal e facilmente acredita no mal; o homem bom e pacífico, pelo contrário, faz com que tudo se converta em bem. “Quem está em boa paz de ninguém desconfia; o descontente e perturbado, porém, é combatido de várias suspeitas e não sossega, nem deixa os outros sossegarem”. Diz muitas vezes o que não devia dizer, e deixa de fazer o que mais lhe conviria. Atende às obrigações alheias, e descuida-se das próprias. Tem, pois, principalmente zelo de ti, e depois o terás, com direito, do teu próximo.
“Bem sabes desculpar e cobrir tuas faltas, e não queres aceitar as desculpas dos outros!”. Mais justo fora que te acusasses a ti e escusasses o teu irmão. “Suporta os outros, se queres que te suportem a ti”. Nota quão longe estás ainda da verdadeira caridade [amor] e humildade, que não sabe irar-se ou indignar-se senão contra si próprio. Não é grande coisa conviver com homens bons e mansos, porque isso, naturalmente, agrada a todos; e cada um gosta de viver em paz e ama os que são de seu parecer. Viver, porém, em paz com pessoas ásperas, perversas e mal–educadas que nos contrariam, é grande graça e ação louvável e varonil.
Uns há que têm paz consigo e com os mais; outros que não têm paz nem a deixam aos demais; são insuportáveis aos outros, e ainda mais o são a si mesmos. E há outros que têm paz consigo e procuram-na para os demais. Toda a nossa paz, porém, nesta vida miserável, consiste mais na humilde resignação, que em não sentir as contrariedades. Quem melhor sabe sofrer maior paz terá. “Esse é vencedor de si mesmo e senhor do mundo, amigo de Cristo e herdeiro do céu”.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 31 – 32.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.