por Tomás de Kempis | 31 maio 2020 | DEVOCIONAL
Livro II — Capítulo 12.
A muitos parece dura esta palavra: — “Renuncia a ti mesmo, toma a tua cruz e segue a Jesus Cristo” (Mateus 16:24). Muito mais duro, porém, será de ouvir aquela sentença final: — “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” (Mateus 25:41). Pois os que agora ouvem e seguem, docilmente, a palavra da cruz não recearão então a sentença da eterna condenação. Este sinal da cruz estará no céu, quando o Senhor vier para julgar. Então todos os servos da cruz, que em vida se conformam com Cristo crucificado, com grande confiança chegar-se-ão a Cristo juiz.
Por que temes, pois, tomar a cruz, pela qual se caminha ao reino do céu? “Na cruz está a salvação, na cruz a vida, na cruz o amparo contra os inimigos, na cruz a abundância da suavidade divina, na cruz a fortaleza do coração, na cruz o compêndio das virtudes, na cruz a perfeição da santidade”. Não há salvação da alma nem esperança da vida, senão na cruz. “Toma, pois, a tua cruz, segue a Jesus e entrarás na vida eterna”. O Senhor foi adiante, com a cruz às costas, e nela morreu por teu amor, para que tu também leves a tua cruz e nela desejes morrer. Porquanto, “se com Ele morreres, também com Ele viverás. E, se fores seu companheiro na pena, também o serás na glória”.
Verdadeiramente, da cruz tudo depende, e em morrer para si mesmo está tudo; não há outro caminho para a vida e para a verdadeira paz interior, senão o caminho da santa cruz e da contínua mortificação. Vai para onde quiseres, procura quanto quiseres, e não acharás caminho mais sublime em cima nem mais seguro embaixo que o caminho da santa cruz. Dispõe e ordena tudo conforme teu desejo e parecer, e verás que sempre hás de sofrer alguma coisa, bom ou mau grado teu; o que quer dizer que sempre haverás de encontrar a cruz. Ou sentirás dores no corpo, ou tribulações no espírito.
Ora serás desamparado de Deus, ora perseguido do próximo, e o que é pior não raro serás molesto a ti mesmo. E não haverá remédio e nem conforto que te possa livrar ou aliviar; cumpre que sofras quanto tempo Deus quiser. “Pois Deus quer ensinar-te a sofrer a tribulação sem alívio, para que de todo te submetas a Ele e mais humilde te faças pela tribulação”. Ninguém sente tão vivamente a paixão de Cristo como quem passou por semelhantes sofrimentos. A cruz, pois, está sempre preparada e em qualquer lugar te espera. Não lhe podes fugir, para onde quer que te voltes, pois em qualquer lugar a que fores, te levarás contigo e sempre encontrarás a ti mesmo. Volta-te para cima ou para baixo, volta-te para fora ou para dentro, em toda parte acharás a cruz; e é necessário que sempre tenhas paciência, se queres alcançar a paz da alma e merecer a coroa eterna.
“Se levares a cruz de boa vontade, ela te há de levar e conduzir ao termo desejado, onde acaba o sofrimento, posto que não seja neste mundo”. Se a levares de má vontade, aumenta-lhe o peso e fardo maior te impões; contudo é forçoso que a leves. Se rejeitares uma cruz, sem dúvida acharás outra, talvez mais pesada.
Pensas tu escapar àquilo de que nenhum mortal pôde eximir-se? Que santo houve no mundo sem tribulação? Nem Jesus Cristo, Senhor Nosso, esteve uma hora, em toda a sua vida, sem dor e sofrimento. Convinha, disse Ele, que Cristo sofresse e ressurgisse dos mortos, e assim entrasse na sua glória (Lucas 24:26). Como, pois, buscas tu outro caminho que não seja o caminho real da santa cruz?
“Toda a vida de Cristo foi cruz e martírio; e tu procuras só descanso e gozo? Andas errado, e muito errado, se outra coisa procuras e não sofrimentos e tribulações; pois toda esta vida mortal está cheia de misérias e assinalada de cruzes”. E quanto mais uma pessoa faz progressos na vida espiritual, tanto maiores cruzes encontra, muitas vezes, porque o amor lhe torna o exílio mais doloroso.
Mas, apesar de tantas aflições, o homem não está sem o alívio da consolação, porque sente o grande fruto que lhe advém à alma pelo sofrimento da cruz. Pois, quando de bom grado a toma às costas, todo o peso da tribulação se lhe converte em confiança na divina consolação. E quanto mais a carne é cruciada [martiriza] pela aflição, tanto mais se fortalece o espírito pela graça interior. “E, às vezes, tanto se fortalece, pelo amor das penas e tribulações que, para conformar-se com a cruz de Cristo, não quisera estar sem dores e sofrimentos, pois julga ser tanto mais aceito a Deus, quanto mais e maiores males sofre por seu amor”. Não é isto virtude humana, mas graça de Cristo, que tanto pode e realiza na carne frágil, que o espírito com ardor abraça e ama o que a natureza aborrece e foge.
Não é conforme à inclinação humana levar a cruz, amar a cruz, castigar o corpo e impor-lhe sujeição, fugir às honras, aceitar as injúrias, desprezar-se a si mesmo e desejar ser desprezado, suportar as aflições e desgraças e não almejar prosperidade alguma neste mundo. Se olhares somente a ti, reconheces que de nada disso és capaz. Mas, “se confiares em Deus, do céu te será concedida a fortaleza, e sujeitar-se-ão ao teu mando o mundo e a carne”. Nem o infernal inimigo temerás, se andares escudado na fé e armado com a cruz de Cristo.
Portanto, como bom e fiel servo de Cristo, dispõe-te a levar a cruz do teu Senhor, por teu amor crucificado. Prepara-te a sofrer muitos contratempos e incômodos nesta vida miserável, pois em toda a parte, onde quer que estiveres, ou te esconderes, os encontrarás. “Convém que assim seja e não há outro remédio contra a tribulação da dor e dos males senão sofrê-los com paciência”. Bebe, generoso, o cálice do Senhor, se queres ser seu amigo e ter parte com Ele. Entrega a Deus as consolações, para Ele dispor delas como lhe aprouver. Tu, porém, dispõe-te a suportar as tribulações e considera-as como as consolações mais preciosas, porquanto não têm proporção as penas do tempo com a glória futura (Romanos 8:18) que havemos de merecer, ainda que tu só as devesses sofrer todas.
“Quando chegares a tal ponto que a tribulação te seja doce e amável por amor de Cristo, dá-te por feliz, pois achaste o paraíso na terra”. Enquanto o padecer te é molesto e procuras fugir-lhe, andas mal, e em toda parte te persegue o medo da tribulação.
Se te resolveres ao que deves, isto é, a padecer e morrer, logo te sentirás melhor e acharás paz. Ainda que fosses arrebatado, com São Paulo, ao terceiro céu, nem por isso estarias livre de sofrer alguma contrariedade. Eu, diz Jesus, mostrar-lhes-ei quanto terá de sofrer por meu nome (Atos 9:16). Não te resta, pois, senão sofrer se pretendes amar e servir a Jesus para sempre.
Oxalá fosses digno de sofrer alguma coisa pelo nome de Jesus! Que grande glória resultaria para ti, que alegria para os santos de Deus, e que edificação para o próximo! Pois todos recomendam a paciência, ainda que poucos queiram praticá-la. “Com razão devias padecer, de bom grado, este pouco por amor de Cristo, quando muitos sofrem pelo mundo coisas incomparavelmente maiores”.
Fica sabendo e tem por certo que tua vida deve ser uma morte contínua, e quanto mais cada um morre a si mesmo, tanto mais começa a viver para Deus. Só é capaz de compreender as coisas do céu quem por Cristo se resolve a sofrer toda adversidade. “Nada neste mundo é mais agradável a Deus nem mais proveitoso a ti, que o sofrer, de bom grado, por Cristo”. E se te dessem a escolha, antes deverias desejar sofrer adversidade, por amor de Cristo, do que ser recreado com muitas consolações porque assim serias mais conforme a Cristo, e mais semelhante a todos os santos. “Porquanto não consiste nosso merecimento e progresso espiritual em ter muitas doçuras e consolações, mas em sofrer grandes angústias e tribulações”.
Se houvera coisa melhor e mais proveitosa para a salvação dos homens do que o padecer, Cristo, de certo, o teria ensinado com palavras e exemplo. Pois claramente exorta seus discípulos e quantos o desejam seguir a que levem a cruz, dizendo: — “Quem quiser vir após mim renuncie a si mesmo, tome sua cruz, e siga-me” (Lucas 9:23). Seja, pois, de todas as lições e estudos este o resultado final: — “Cumpre-nos passar por muitas tribulações, para entrar no reino de Deus” (Atos 14:21).
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 40 – 44.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Tomás de Kempis | 17 maio 2020 | DEVOCIONAL
Livro II — Capítulo 11.
“Muitos encontram Jesus agora apreciadores de seu reino celestial; mas poucos que queiram levar a sua cruz”. Tem muitos sequiosos de consolação, mas poucos da tribulação; muitos companheiros à sua mesa, mas poucos de sua abstinência. “Todos querem gozar com Ele, poucos sofrer por Ele alguma coisa”. Muitos seguem a Jesus até ao partir do pão, poucos até beber o cálice da paixão. “Muitos veneram seus milagres, mas poucos abraçam a ignomínia da cruz”. Muitos amam a Jesus, enquanto não encontram adversidades. Muitos o louvam e bendizem, enquanto recebem dEle algumas consolações; se, porém, Jesus se oculta e por um pouco os deixa, caem logo em queixumes e desânimo excessivo.
“Aqueles, porém, que amam a Jesus por Jesus mesmo e não por própria satisfação, tanto o louvam nas tribulações e angústias, como na maior consolação”. E posto que nunca lhes fosse dada a consolação, sempre o louvariam e lhe dariam graças.
Oh! Quanto pode o amor puro de Jesus, sem mistura de interesse ou amor–próprio! “Não são porventura mercenários os que andam sempre em busca de consolações?”. Não se amam mais a si do que a Cristo os que estão sempre cuidando de seus cômodos e interesses? “Onde se achará quem queira servir desinteressadamente a Deus?”.
É raro achar um homem tão espiritual que esteja desapegado de tudo. Pois o verdadeiro pobre de espírito e desprendido de toda criatura — quem o descobrirá? Tesouro precioso que é necessário buscar nos confins do mundo (Provérbios 31:10). “Se o homem der toda a fortuna, não é nada. E se fizer grande penitência, ainda é pouco. Compreenda embora todas as ciências, ainda estão muito longe. E se tiver grande virtude de devoção ardente, muito ainda lhe falta, a saber: — uma coisa que lhe é sumamente necessária”. Que coisa será esta? Que, deixado tudo, se deixa a si mesmo e saia totalmente de si, sem reservar amor–próprio algum, e, depois de feito tudo que soube fazer, reconheça que nada fez.
Não tenha em grande conta o pouco que nEle possa ser avaliado por grande: — antes, confesse sinceramente que é um servo inútil, como nos ensina a verdade. Quando tiverdes cumprido tudo que vos for mandado, dizei: — Somos servos inúteis (Lucas 17:10). Então, sim, o homem poderá chamar-se verdadeiramente pobre de espírito e dizer com o profeta: — Sou pobre e só neste mundo (Salmos 24:16). Entretanto, ninguém é mais poderoso, ninguém mais livre que aquele que sabe deixar-se a si e a todas as coisas e colocar-se no último lugar.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 37 – 39.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Tomás de Kempis | 16 abr 2020 | DEVOCIONAL
Livro II — Capítulo 10.
“Para que buscas repouso se nascestes para o trabalho?”. Dispõe-te mais à paciência que à consolação, mais para levar a cruz que para ter alegria. “Quem dentre os mundanos não aceitaria de bom gosto a consolação e a alegria espiritual, se a pudesse ter sempre ao seu dispor?”. As consolações espirituais excedem todas as delícias do mundo e todos os deleites da carne. Pois todas as delícias do mundo ou são vãs ou torpes, e só as do espírito são suaves e honestas, nascidas que são das virtudes e infundidas por Deus nas almas puras. Mas ninguém pode lograr estas divinas consolações à medida de seu desejo, porque não cessa por muito tempo a guerra da tentação.
“Grande obstáculo às visitas celestiais é a falsa liberdade do espírito e a demasiada confiança em si mesmo”. Deus faz bem dando-nos a graça da consolação; mas o homem faz mal não retribuindo tudo a Deus, com ação de graças. “E se não se nos infundem os dons da graça, é porque somos ingratos ao Autor, não atribuindo tudo à fonte original”. Pois sempre Deus concede a graça a quem dignamente se mostra agradecido e tira ao soberbo o que costuma dar ao humilde.
“Não quero consolação que me tire a compunção, nem desejo contemplação que me seduz ao desvanecimento; porque nem tudo que é sublime é santo, nem tudo que é agradável é bom, nem todo desejo é puro, nem tudo que nos deleita agrada a Deus”. De boa mente aceito a graça, que me faz humilde e timorato e me dispõe melhor para renunciar a mim mesmo. O homem instruído pela graça e experimentado com sua subtração não ousará atribuir-se bem algum, antes reconhecerá sua pobreza e nudez. “Dá a Deus o que é de Deus, e atribui a ti o que é teu; isto é, dá graças a Deus pela graça, e só a ti atribui a culpa e a pena que a culpa merece”.
“Põe-te sempre no ínfimo lugar, e dar-te-ão o supremo, porque o mais alto não existe sem o apoio do inferior”. Os maiores santos diante de Deus são os que se julgam menores, e quanto mais glorioso, tanto mais humildes são no seu conceito. Como estão cheios de verdade e glória celestial, não cobiçam a glória vã. Em Deus fundados e firmados, nada os pode ensoberbecer. Atribuindo a Deus todo o bem que receberam, não pretendem a glória uns dos outros; só querem a glória que procede de Deus; seu único fim, seu desejo constante é que Ele seja louvado neles e em todos os santos, acima de todas as coisas.
“Agradece, pois, os menores benefícios e maiores merecerás. Considera como muito o pouco, e o menor dom por dádiva singular”. Se considerarmos a grandeza do benfeitor, não há dom pequeno ou de pouco valor; porque não pode ser pequena a dádiva que nos vem do soberano Senhor. Ainda quando nos der penas e castigos, lho devemos agradecer, porque sempre é para nossa salvação quanto permite que nos suceda. “Se desejares a graça de Deus, sê agradecido quando a recebes e paciente quando a perdes”. Roga que ela volte, anda cauteloso e humilde, para não vires a perdê-la.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 37 – 39.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Tomás de Kempis | 3 mar 2020 | DEVOCIONAL
Livro II — Capítulo 9.
“Não é dificultoso desprezar as consolações humanas, quando gozamos das divinas”. Grande coisa, porém, e mui meritória, é poder estar sem consolação, tanto divina como humana, sofrendo de boa mente o desamparo do coração, “sem em nada buscar-se a si mesmo, nem atender ao seu próprio merecimento”. Que maravilha será estares alegre e devoto, quando te assiste a graça! De todos é almejada esta hora. E mui suave andar, levado pela graça de Deus. “E que maravilha não sentir a carga aquele que é sustentado pelo Onipotente e acompanhado do guia supremo!”.
“Gostamos de ter qualquer consolação, e é penoso ao homem despojar-se de si mesmo”. O glorioso mártir São Lourenço venceu o mundo em união com seu pai espiritual, porque desprezou todos os atrativos do século e sofreu com paciência, por amor de Cristo, que o separassem do Supremo Pontífice São Xisto a quem ele muito amava! “Assim, com o amor de Deus, ele subjugou o amor da criatura, e ao alívio humano preferiu o beneplácito divino”. Daí aprende tu a deixar, às vezes, por amor de Deus, um parente ou amigo querido. Nem tanto te aflijas se te abandonar algum amigo, sabendo que todos, finalmente, nos havemos de separar uns dos outros.
“Só com renhido e longo combate interior aprende o homem a dominar-se plenamente e pôr em Deus todo o seu afeto”. Quando o homem confia em si, facilmente desliza nas consolações humanas. Mas o verdadeiro amigo de Cristo e fervoroso imitador de suas virtudes não se inclina às consolações nem busca tais doçuras sensíveis; antes, procura exercícios austeros e sofre por Cristo trabalhos penosos.
Quando, pois, Deus te mandar consolação espiritual, recebe-a com ações de graças, mas lembra-te sempre que é mercê de Deus, e não merecimento teu. Com isto, porém, não te desvaneças, nem te entregues a excessiva alegria ou a vã presunção; sê antes mais humilde pelo dom recebido, mais prudente e timorato[1] em tuas ações, pois passará àquela hora e voltará a tentação. “Quando te for tirada a consolação, não desesperes logo, aguarda, pelo contrário, com humildade e paciência, a visita celestial; pois Deus é bastante poderoso para restituir-te maior graça e consolação”. Isto não é novo nem estranho aos que são experientes nos caminhos de Deus; porque nos grandes santos e antigos profetas houve muitas vezes esta mudança.
Por isso um deles, sentindo a presença da graça, exclamava: — “Eu disse em minha abundância: — não serei abalado jamais” (Salmos 29:7). Sentindo, porém, retirar-se a graça, acrescenta: — “Desviastes de mim, Senhor, o vosso rosto, e fiquei perturbado” (v. 8). Entretanto não desespera, mas com mais instância roga ao Senhor, e diz: — “A vós, Senhor, clamarei, e ao meu Deus rogarei” (v. 9). Alcança, afinal, o fruto de sua oração e atesta ter sido atendido, dizendo: — “Ouviu-me o Senhor, e compadeceu-se de mim, o Senhor se fez meu protetor” (v. 11). Mas em quê? “Convertestes, diz ele, meu pranto em gozo, e me cercastes de alegria” (v. 12). Se isto sucedeu aos grandes santos, não devemos desesperar nós outros, fracos e pobres, por nos sentirmos umas vezes com fervor, outras vezes com frieza porque vai e vem o espírito de Deus, segundo lhe apraz. Por isso diz o santo Jó: — “Senhor, visitais o homem na madrugada, e logo o provais” (7:18).
“Em que posso, pois, esperar ou em que devo confiar, senão na grande misericórdia de Deus e na esperança da graça celestial?”. Porque, ou me assistem homens justos, irmãos devotos e amigos fiéis, ou livros santos e formosos tratados, ou cânticos e hinos suaves, tudo isso de pouco me serve e pouco me agrada, quando estou desamparado da graça e entregue à minha própria pobreza — “Não há então melhor remédio que Deus”.
Nunca encontrei homem tão religioso e devoto, que não sofresse, às vezes, a subtração da graça e sentisse o arrefecimento[2] do fervor. “Nenhum santo foi tão altamente arrebatado e esclarecido que, antes ou depois, não fosse tentado”. Porque não é digno da alta contemplação de Deus quem por Deus não sofreu alguma tribulação. “Costuma vir primeiro a tentação, como sinal precursor da próxima consolação; porque aos provados pela tentação é prometido o celeste consolo”. A quem tiver vencido, diz o Senhor, “darei a comer o fruto da árvore da vida” (Apocalipse 2:7).
“Dá Deus a consolação, para fortalecer o homem contra as adversidades. Segue-se então a tentação, para que não se desvaneça a felicidade”. O demônio não dorme, nem a carne já está morta; por isso, não cesses nunca de aparelhar-te para a peleja, porque à direita e à esquerda estão teus inimigos que nunca descansam.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 37 – 39.
[1] Medroso, tímido.
[2] Tornar-se frio; esfriar — Perder ou moderar a energia, o vigor (desanimar).
[3] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Tomás de Kempis | 27 fev 2020 | DEVOCIONAL
Livro II — Capítulo 8.
“Quando Jesus está presente, tudo é suave e nada parece dificultoso; mas, quando Jesus está ausente, tudo se torna penoso”. Quando Jesus não fala ao coração, nenhuma consolação tem valor; mas se Jesus fala uma só palavra, sentimos grande alívio. Porventura não se levantou logo Maria Madalena do lugar onde chorava, quando Marta lhe disse: — O Mestre está aí e te chama? (João 11:28). Hora bendita, quando Jesus te chama das lágrimas para o gozo do espírito! Que seco e árido és sem Jesus! Que néscio e vão, se desejas outra coisa, fora de Jesus! Não será isto maior dano do que se perdesse o mundo inteiro?
Que te pode dar o mundo sem Jesus? “Estar sem Jesus é terrível inferno, estar com Jesus é doce paraíso”. Se Jesus estiver contigo, nenhum inimigo te pode ofender. Quem acha a Jesus acha precioso tesouro, ou, antes, o bem superior a todo bem; quem perde a Jesus perde muito mais do que se perdesse a todo o mundo. “Paupérrimo é quem vive sem Jesus, e riquíssimo quem está bem com Jesus”.
Grande arte é saber conversar com Jesus, e grande prudência conservá-lo consigo. “Sê humilde e pacífico, e contigo estará Jesus; sê devoto e sossegado, e Jesus permanecerá contigo”. Depressa podes afugentar a Jesus e perder a sua graça, se te inclinares às coisas exteriores; e se o afastas e o perdes, aonde irás e a quem buscarás por amigo? Sem amigo não podes viver, e se não for Jesus teu amigo acima de todos, estarás mui triste e desconsolado. Logo, loucamente procedes, se em qualquer outro confias e te alegras. “Antes ter o mundo todo por adversário, que ofender a Jesus”. Acima de todos os teus amigos seja, pois, Jesus amado dum modo especial.
Sê livre e puro no teu interior, sem apego a criatura alguma. “É mister desprenderes-te de tudo e ofereceres a Deus um coração puro, se queres sossegar e ver como é suave o Senhor”. E, com efeito, tal não conseguirás, se não fores prevenido e atraído por sua graça, de modo que, deixando e despedindo tudo mais, com Ele só estejas unido. “Pois, quando lhe assiste a graça de Deus, de tudo é capaz o homem; e quando ela se retira, logo fica pobre e fraco, como que abandonado aos castigos”. Ainda assim, não deves desanimar nem desesperar, antes resignar-te na vontade de Deus, e sofrer tudo que te acontecer, por honra de Jesus; pois ao inverno sucede o verão, depois da noite volta o dia, e após a tempestade reina a bonança.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 36 – 37.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.