por Tomás de Kempis | 3 dez 2019 | DEVOCIONAL
Livro II — Capítulos 2 – 3.
1 – Da humilde submissão.
“Não te importes muito de saber quem seja por ti ou contra ti; mas trata e procura que Deus seja contigo em tudo que fizeres”. Tem boa consciência e Deus te defenderá, pois a quem Deus ajuda não há maldade que o possa prejudicar. Se souberes calar e sofrer, verás, sem dúvida, o socorro do Senhor. Ele sabe o tempo e o modo de te livrar; portanto, entrega-te todo a Ele. A Deus pertence aliviar-nos e tirar-nos de toda a confusão. Às vezes é muito útil, para melhor conservarmos a humildade, que os outros saibam os nossos defeitos e no-los repreendam.
Quando o homem se humilha por seus defeitos, aplaca facilmente os outros e satisfaz os que estão irados contra ele. “Ao humilde Deus protege e salva, ao humilde ama e consola, ao humilde Ele se inclina, dá-lhe abundantes graças e depois do abatimento o levanta a grande honra. Ao humilde revela seus segredos e com doçura a si o atrai e convida”. O humilde, ao sofrer afrontas, conserva sua paz, porque confia em Deus e não no mundo. “Não julgues ter feito progresso algum, enquanto te não reconheças inferior a todos”.
2 – Do homem bom e pacífico.
“Primeiro conserva-te em paz, e depois poderás pacificar os outros”. O homem apaixonado, até o bem converte em mal e facilmente acredita no mal; o homem bom e pacífico, pelo contrário, faz com que tudo se converta em bem. “Quem está em boa paz de ninguém desconfia; o descontente e perturbado, porém, é combatido de várias suspeitas e não sossega, nem deixa os outros sossegarem”. Diz muitas vezes o que não devia dizer, e deixa de fazer o que mais lhe conviria. Atende às obrigações alheias, e descuida-se das próprias. Tem, pois, principalmente zelo de ti, e depois o terás, com direito, do teu próximo.
“Bem sabes desculpar e cobrir tuas faltas, e não queres aceitar as desculpas dos outros!”. Mais justo fora que te acusasses a ti e escusasses o teu irmão. “Suporta os outros, se queres que te suportem a ti”. Nota quão longe estás ainda da verdadeira caridade [amor] e humildade, que não sabe irar-se ou indignar-se senão contra si próprio. Não é grande coisa conviver com homens bons e mansos, porque isso, naturalmente, agrada a todos; e cada um gosta de viver em paz e ama os que são de seu parecer. Viver, porém, em paz com pessoas ásperas, perversas e mal–educadas que nos contrariam, é grande graça e ação louvável e varonil.
Uns há que têm paz consigo e com os mais; outros que não têm paz nem a deixam aos demais; são insuportáveis aos outros, e ainda mais o são a si mesmos. E há outros que têm paz consigo e procuram-na para os demais. Toda a nossa paz, porém, nesta vida miserável, consiste mais na humilde resignação, que em não sentir as contrariedades. Quem melhor sabe sofrer maior paz terá. “Esse é vencedor de si mesmo e senhor do mundo, amigo de Cristo e herdeiro do céu”.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 31 – 32.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Tomás de Kempis | 18 nov 2019 | DEVOCIONAL
Livro II — Capítulo 1 — Da vida interior.
“O reino de Deus está dentro de vós, diz o Senhor” (cf. Lucas 17:21). Converte-te a Deus de todo o coração, deixa este mundo miserável, e tua alma achará descanso. “Aprende a desprezar as coisas exteriores e entrega-te às interiores, e verás chegar a ti o reino de Deus”. Pois o reino de Deus é a paz e o gozo no Espírito Santo (Romanos 14:17), que não se dá aos ímpios. Virá a ti Cristo para consolar-te, se lhe preparares no teu interior digna moradia. “Toda a sua glória e formosura está no interior” (Salmos 44:14), e só aí o Senhor se compraz. A miúdo (frequentemente) visita Ele o homem interior em doce entretenimento, suave consolação, grande paz e familiaridade sobremaneira admirável.
Eia, alma fiel, para este Esposo prepara teu coração, a fim de que se digne vir e morar em ti. Pois assim Ele diz: — “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e viremos a ele e faremos nele a nossa morada” (João 14:23). “Dá, pois, lugar a Jesus e a tudo mais fecha a porta”. Se possuíres a Cristo, estarás rico e satisfeito. Ele mesmo será teu provedor e fiel procurador em tudo, de modo que não hajas mister de esperar nos homens. Porque os homens são volúveis e faltam com facilidade à confiança, mas Cristo permanece eternamente (João 12:34), e firme nos acompanha até ao fim.
Não se há de ter grande confiança no homem frágil e mortal, por mais que nos seja caro e útil; nem nos devemos afligir com excessos, porque, de vez em quando, nos contraria com palavras ou obras. “Os que hoje estão contigo amanhã talvez sejam contra ti, e reciprocamente, pois os homens mudam como o vento”. Põe toda a tua confiança em Deus, e seja Ele o teu temor e amor; Ele responderá por ti, e fará do melhor modo o que convier. “Não tens aqui morada permanente” (Hebreus 13:14), e onde quer que estejas, és estranho e peregrino; nem terás nunca descanso, se não estiveres intimamente unido a Jesus.
“Para que olhas em redor de ti, se não é este o lugar de teu repouso?”. No céu deve ser a tua habitação, e como de passagem hás de olhar todas as coisas da terra. Todas passam, e tu igualmente passas com elas; toma cuidado para não te apegares a elas, a fim de que não te escravizem e percam. Ao Altíssimo eleva sempre teus pensamentos, e a Cristo dirige súplica incessante. Se não sabes contemplar coisas altas e celestiais, descansa na paixão de Cristo e gosta de habitar em suas sacratíssimas[2] chagas. “Pois, se te acolheres devotamente às chagas e preciosos estigmas de Jesus, sentirás grande conforto em tuas mágoas, não farás mais caso do desprezo dos homens e facilmente sofrerás as suas detrações”.
Cristo também foi, neste mundo, desprezado dos homens, e em suma necessidade, entre os opróbrios, o desampararam seus conhecidos e amigos. “Cristo quis padecer e ser desprezado; e tu ousas queixar-te de alguém? Cristo teve adversidade e detratores; e tu queres ter a todos por amigos e benfeitores? Como poderá ser coroada tua paciência, se não encontrares alguma adversidade? Se não queres sofrer alguma contrariedade, como serás amigo de Cristo?”. Sofre com Cristo e por Cristo, se com Cristo queres reinar.
Se uma só vez entraras perfeitamente no coração de Jesus e gozaras um pouco de seu ardente amor, não farias caso do teu proveito ou dano, ao contrário, te alegrarias com os mesmos opróbrios; porque o amor de Jesus faz com que o homem se despreze a si mesmo. O amante de Jesus e da verdade, e o homem deveras espiritual e livre de afeições desordenadas, pode facilmente recolher-se em Deus, e, elevando-se em espírito, acima de si mesmo, fruir delicioso descanso.
“Aquele que avalia as coisas pelo que são, e não pelo juízo e estimação dos outros, este é o verdadeiro sábio, ensinado mais por Deus que pelos homens”. Quem sabe andar recolhido dentro de si, e ter em pequena conta as coisas exteriores, não precisa escolher lugar nem aguardar horas para se dar a exercícios de piedade. O homem interior facilmente se recolhe, pois nunca se entrega de todo às coisas exteriores. Não o estorvam trabalhos externos nem ocupações, às vezes necessárias, mas ele se acomoda às circunstâncias, conforme sucedem. “Quem tem o interior bem disposto e ordenado não se importa com as façanhas e crimes dos homens”. Tanto o homem se embaraça e distrai, quanto se mete nas coisas exteriores.
“Se foras reto e puro, tudo te correria bem e se voltaria em teu proveito. Mas, porque ainda não estás de todo morto a ti mesmo, nem apartado das coisas terrenas, por isso muitas coisas te causam desgostos e perturbações”. Nada mancha tanto e embaraça o coração do homem como o amor desordenado às criaturas. Se renunciares às consolações exteriores, poderás contemplar as coisas do céu e gozar a miúdo da alegria interior.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 29 – 31.
[2] Sacratíssimo — muito sagrado.
[3] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Tomás de Kempis | 12 out 2019 | DEVOCIONAL
Livro I — Capítulo 25.
“Sê vigilante e diligente no serviço de Deus, e pergunta-te a miúdo: — a que vieste, para que deixaste o mundo? Não será para viver por Deus e tornar-te homem espiritual?”. Trilha, pois, com fervor o caminho da perfeição, porque em breve receberás o prêmio dos teus trabalhos; nem te afligirão, daí por diante, temores nem dores. Agora, terás algum trabalho; mas depois acharás grande repouso e perpétua alegria. “Se tu permaneceres fiel e diligente no seu serviço, Deus, sem dúvida, será fiel e generoso no prêmio”. Conserva a firme esperança de alcançar a palma; não cries, porém — [1] – “segurança, para não caíres em tibieza ou presunção — Certo homem que vacilava muitas vezes, ansioso, entre o temor e a esperança, estando um dia acabrunhado pela tristeza, entrou numa Igreja, e diante dum altar, prostrado em oração, dizia consigo mesmo: — “Oh! se eu soubesse que havia de perseverar!”. E logo ouviu em si a divina respostas: — “Se tal soubesses, que farias?”. Faze já o que então fizeras, e estarás bem seguro. Consolado imediatamente, e confortado, abandonou-se à divina vontade, e cessou a ansiosa perplexidade. Desistiu da curiosa indagação acerca do seu futuro aplicando-se antes em conhecer qual fosse a vontade e o perfeito agrado de Deus para começar e acabar qualquer boa obra”.
“Espera no Senhor e faze boas obras, diz o profeta, habita na terra e serás apascentado com suas riquezas” (Salmos 36:3). Há uma coisa que esfria em muitos o fervor do progresso e zelo da emenda: — “o horror da dificuldade ou o trabalho da peleja”. Certo é que, mais que os outros, aproveitam nas virtudes aqueles que com maior empenho se esmeram em vencer a si mesmos naquilo que lhes é mais penoso e contrariam mais suas inclinações. Porque tanto mais aproveita o homem, e mais copiosa graça merece, quanto mais se vence a si mesmo e se mortifica no espírito.
Não custa igualmente a todos se vencer e mortificar-se. Todavia, o homem diligente e porfioso[2] fará mais progressos, ainda que seja combatido por muitas paixões, que outro de melhor índole, porém menos fervoroso em adquirir as virtudes. Dois meios, principalmente, ajudam muito a nossa emenda, e vêm a ser: — “apartar-se valorosamente das coisas às quais viciosamente se inclina a natureza, e porfiar em adquirir a virtude de que mais se há mister. Aplica-te também a evitar e vencer o que mais te desagrada nos outros”.
Procura tirar proveito de tudo: — “se vês ou ouves relatar bons exemplos, anima-te logo a imitá-los; mas, se reparares em alguma coisa repreensível, guarda-te de fazê-la, e, se em igual falta caíste, procura emendar-te logo dela”. Assim como tu observas os outros, também eles te observam a ti. Que alegria e gosto ver irmãos cheios de fervor e piedade, bem acostumados e morigerados[3]! Que tristeza, porém, e aflição, vê-los andar desnorteados e descuidados dos exercícios de sua vocação! Que prejuízo descurar os deveres do estado e aplicar-se ao que Deus não exige!
Lembra-te da resolução que tomaste, e põe diante de ti a imagem de Jesus crucificado. “Com razão te envergonharás, considerando a vida de Jesus Cristo, pois até agora tão pouco procuraste conformar-te com ela, estando há tanto tempo no caminho de Deus”. O religioso que, com solicitude e fervor, se exercita na santíssima vida e paixão do Senhor, achará nela com abundância tudo quanto lhe é útil e necessário, e escusará buscar coisa melhor fora de Jesus. Oh! Se entrasse em nosso coração Jesus crucificado, quão depressa e perfeitamente seríamos instruídos!
O religioso cheio de fervor tudo suporta de boa vontade e executa o que lhe mandam. O relaxado e tíbio, porém, encontra tribulação sobre tribulação, sofrendo de toda parte angústias: — “é que ele carece da consolação interior e lhe é vedado buscar a exterior”. O religioso que transgride a regra anda exposto a grande ruína. Quem busca a vida cômoda e menos austera[4], sempre estará em angústias, porque uma ou outra coisa sempre lhe desagrada. Que fazem tantos outros religiosos que guardam a austera disciplina do claustro[5]? “Raro saem, vivem retirados, sua comida é parca[6], seu hábito grosseiro, trabalham muito, falam pouco, vigiam até tarde, levantam-se cedo, rezam muito, lêem com frequencia e conservam-se em toda a observância”.
Olha como os cartuxos[7], os cistercienses[8], e os monges e monjas das diversas ordens se levantam todas as noites para louvar o Senhor. Vergonha, pois, seria, se tu fosses preguiçoso em obra tão santa, quando tamanha multidão de religiosos entoa a divina salmodia. Oh! Se nada mais tivesses que fazer senão louvar a Deus nosso Senhor de coração e boca! Oh! Se nunca precisares comer, nem beber, nem dormir, mas sempre pudesses atender aos louvores de Deus e aos exercícios espirituais! Então serias muito mais ditoso do que agora, sujeito a tantas exigências do corpo! Oxalá não existissem tais necessidades, mas houvesse só aquelas refeições que — ai! — tão raro gozamos!
“Quando o homem chega ao ponto de não buscar sua consolação em nenhuma criatura, só então começa a gostar perfeitamente de Deus, e anda contente, aconteça o que acontecer”. Então não se alegra pela abundância, nem se entristece pela penúria, mas confia inteira e fielmente em Deus, que lhe é tudo em todas as coisas, para quem nada perece nem morre, mas por quem vivem todas as coisas e a cujo aceno, com prontidão, obedecem.
“Lembra-te sempre do fim, e que o tempo perdido não volta. Sem empenho e diligência, jamais alcançarás as virtudes”. Se começares a ser tíbio[9], logo te inquietarás. Se, porém, procurares afervorar-te, acharás grande paz e sentirás mais leve o trabalho com a graça de Deus e o amor da virtude. “O homem fervoroso e diligente está preparado para tudo. Mais penoso é resistir aos vícios e às paixões que afadigar-se em trabalhos corporais. Quem não evita os pequenos defeitos pouco a pouco cai nos grandes”. Alegrar-te-ás sempre à noite, se tiveres empregado bem o dia. Vigia sobre ti, anima-te e admoesta-te e, “vivam os outros como vivem, não te descuides de ti mesmo. Tanto mais aproveitarás, quanto maior for a violência que te fizeres”. Amém.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 26 – 29.
[2] Constante, contínuo.
[3] Regrado.
[4] Sóbria, discreta, séria.
[5] Monastério — residência solitária.
[6] Pouca, insuficiente, escassa, moderada, minguada, acanhada.
[7] A Ordem dos Cartuxos (Latim – “Ordo Cartusiensis”), é uma ordem religiosa semi–eremítica de clausura monástica e de orientação puramente contemplativa surgida no século XI; indivíduos que, usualmente por penitência, religiosidade, misantropia ou simples amor à natureza, vive em lugar deserto, isolado.
[8] Ordem de Cister, ou Ordem Cisterciense (“Ordo cistercienses”), é uma ordem religiosa monástica reformada.
[9] Fraco, frouxo, mole.
[10] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor — notas e significações.
por Tomás de Kempis | 6 out 2019 | DEVOCIONAL
Livro I — Capítulo 24.
“Em todas as coisas olha o fim, e de que sorte estarás diante do severo Juiz a quem nada é oculto, que não se deixa aplacar com dádivas, nem aceita desculpas, mas que julgará segundo a justiça”. Ó misérrimo e insensato pecador! Que responderás a Deus, que conhece todos os teus crimes, se, às vezes, te amedronta até o olhar dum homem irado? Por que não te acautelas para o dia do juízo, quando ninguém poderá ser desculpado ou defendido por outrem, mas cada um terá assaz (suficientemente) que fazer por si? Agora o teu trabalho é frutuoso, o teu pranto aceito, o teu gemer ouvido, satisfatória a tua contrição (pesar, dor).
Grande e salutar purgatório[2] tem nesta vida o homem paciente: — “se, injuriado, mas se dói da maldade alheia, que da ofensa própria; se, de boa vontade, roga por seus adversários, e de todo o coração perdoa os agravos; se não tarda em pedir perdão aos outros; se mais facilmente se compadece do que se irrita; se constantemente faz violência a si mesmo, e se esforça por submeter de todo a carne ao espírito”. Melhor é expiar já os pecados e extirpar os vícios, que adiar a expiação para mais tarde. Com efeito, nós enganamos a nós mesmos pelo amor desordenado que temos à carne.
Que outra coisa há de devorar aquele fogo senão os teus pecados? Quanto mais te poupas agora e segues a carne, tanto mais cruel será depois o tormento e tanto mais lenha ajuntas para a fogueira. “Naquilo em que o homem mais pecou, será mais gravemente castigado. Ali os preguiçosos serão incitados por aguilhões ardentes, e os gulosos serão atormentados por violenta fome e sede”. Os impudicos[3] e voluptuosos serão banhados em pez[4] ardente e fétido enxofre, e os invejosos uivarão de dor, à semelhança de cães furiosos.
Não há vício que não tenha o seu tormento especial. Ali, os soberbos serão acabrunhados[5] de profunda confusão, e os avarentos oprimidos com extrema penúria. “Ali será mais cruel uma hora de suplício do que cem anos aqui da mais rigorosa penitência”. Ali não há descanso nem consolação para os condenados, enquanto aqui, às vezes, cessa o trabalho e nos consolam os amigos. “Relembra agora e chora teus pecados, para que no dia do juízo estejas seguro entre os escolhidos”. Pois erguer-se-ão, naquele dia, os justos com grande força contra aqueles que os oprimiram e desprezaram (Sabedoria 5:1). Então se levantará, para julgar, aquele que agora se curvou humildemente ao juízo dos homens. Então terá muita confiança o pobre e o humilde, mas o soberbo estremecerá de pavor.
“Então se verá que foi sábio, neste mundo, quem aprendeu a ser louco e desprezado, por amor de Cristo”. Então dará prazer toda tribulação, sofrida com paciência, e a iniquidade não abrirá a sua boca (Salmos 106:42). Então se alegrarão todos os piedosos e se entristecerão todos os ímpios. Então mais exultará a carne mortificada, que se fora sempre nutrida em delícias. Então brilhará o hábito grosseiro e desbotarão as vestimentas preciosas. Então terá mais apreço o pobre tugúrio[6] que o dourado palácio. Mais valerá a paciente constância que todo o poderio do mundo. Mais será engrandecida a singela obediência que toda a sagacidade do século.
Mais satisfação dará a pura e boa consciência que a douta filosofia. Mais valerá o desprezo das riquezas que todos os tesouros da terra. Mais te consolará a lembrança duma devota oração que a de inúmeros banquetes. Mais folgarás de ter guardado silêncio, do que de ter falado muito. Mais valor terão as boas obras que as lindas palavras. Mais agradará a vida austera[7] e árdua penitência que todos os gozos terrenos. “Aprende agora a padecer um pouco, para poupar-te mais graves sofrimentos no futuro”. Experimenta agora o que podes sofrer mais tarde. “Se não podes agora sofrer tão pouca coisa, como suportarás os eternos suplícios? Se tanto te repugna o menor incômodo, que te fará então o inferno?”. Certo é que não podes fruir dois gozos: — “deleitar-se neste mundo, e depois reinar com Cristo”.
Se até hoje tivesses vivido sempre em honras e delícias, que te aproveitaria isso se tivesses que morrer neste instante? Logo, tudo é vaidade, exceto amar a Deus e só a Ele servir. Pois quem ama a Deus, de todo o coração, não teme nem a morte, nem o castigo, nem o juízo, nem o inferno, porque o perfeito amor dá seguro acesso a Deus. “Mas quem ainda se delicia no pecado, não é de estranhar que tema a morte e o juízo”. Todavia, é bom que, se do mal não te aparta o amor, te refreie ao menos o temor do inferno. Aquele, porém, que despreza o temor de Deus, não poderá por muito tempo perseverar no bem, e depressa cairá nos laços do demônio.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 24 – 26.
[2] Drástico, peremptório, rigoroso.
[3] Exibidos, atrevidos.
[4] Piche — uma espécie de resina.
[5] Abatido, humilhado, envergonhado, prostrado — perderá a alegria; será entristecido.
[6] Abrigo, aposento, casebre, choça, choupana.
[7] Restrita, recolhida, discreta.
[8] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor — notas e significações.
por Tomás de Kempis | 28 set 2019 | DEVOCIONAL
Livro I — Capítulo 23.
“Mui depressa chegará teu fim neste mundo; vê, pois, como te preparas: — hoje está vivo o homem, e amanhã já não existe”. Entretanto, logo que se perdeu de vista, também se perderá da memória. “Ó cegueira e dureza do coração humano, que só cuida do presente, sem olhar para o futuro!”. De tal modo te deves haver em todas as tuas obras e pensamentos, como se fosse já a hora da morte. Se tivesses boa consciência não temerias muito a morte. Melhor fora evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás preparado hoje, como o estarás amanhã? O dia de amanhã é incerto, e quem sabe se te será concedido?
Que nos aproveita vivermos muito tempo, quando tão pouco nos emendamos? Oh! nem sempre traz emenda a longa vida, senão que aumenta, muitas vezes, a culpa. Oxalá tivéssemos, um dia sequer, vivido bem neste mundo! Muitos contam os anos decorridos desde a sua conversão; frequentemente, porém, é pouco o fruto da emenda[2]. “Se for tanto para temer o morrer, talvez seja ainda mais perigoso o viver muito. Bem–aventurado aquele que medita sempre sobre a hora da morte, e para ela se dispõe cada dia”. Se já viste alguém morrer, reflete que também tu passarás pelo mesmo caminho.
Pela manhã, pensa que não chegarás à noite, e à noite não te prometas o dia seguinte. Por isso anda sempre preparado e vive de tal modo que te não encontre a morte desprevenido. Muitos morrem repentina e inesperadamente; pois, na hora em que menos se pensa, virá o Filho do Homem (Lucas 12:40). Quando vier àquela hora derradeira, começarás a julgar mui diferentemente toda a tua vida passada, e doer-te-á muito teres sido tão negligente e remisso.
Quão feliz e prudente é aquele que procura ser em vida como deseja que o ache a morte. “Pois o que dará grande confiança de morte abençoada é o perfeito desprezo do mundo, o desejo ardente do progresso na virtude, o amor à disciplina, o rigor na penitência, a prontidão na obediência, a renúncia de si mesmo e a paciência em sofrer, por amor de Cristo, qualquer adversidade”. Mui fácil é praticar o bem enquanto estás são; mas, quando enfermo, não sei o que poderás. Poucos melhoram com a enfermidade; raro também se santificam os que andam em muitas peregrinações.
“Não confies em parentes e amigos, nem proteles para mais tarde o negócio de tua salvação, porque mais depressa do que pensas te esquecerão os homens”. Melhor é providenciar agora e fazer algo de bem, do que esperar pelo socorro dos outros. Se não cuidas de ti no presente, quem cuidará de ti no futuro? Mui precioso é o tempo presente: — “agora são os dias de salvação, agora é o tempo favorável” (2 Coríntios 6:2). Mas, ai! Que melhor não aproveitas o meio pelo qual podes merecer viver eternamente! Tempo virá de desejares, um dia, uma hora sequer, para a tua emenda, e não sei se a alcançarás.
“Olha, meu caro irmão, de quantos perigos te poderias livrar e de quantos terrores fugir, se sempre andasses temeroso e desconfiado da morte”. Procura agora de tal modo viver, que na hora da morte te possas antes alegrar que temer. Aprende agora a desprezar tudo, para então poderes voar livremente a Cristo. Castiga agora teu corpo pela penitência, para que possas então ter legítima confiança.
“Ó louco, que pensas viver muito tempo, quando não tens seguro nem um só dia! Quantos têm sido logrados e, de improviso, arrancados ao corpo!”. Quantas vezes ouviste contar: — morreu este a espada; afogou-se aquele; este outro, caindo do alto, quebrou a cabeça; um morreu comendo, outro expirou jogando. Estes se terminaram pelo fogo, aqueles pelo ferro, uns pela peste, outros pelas mãos dos ladrões, e de todos é o fim a morte, e, depressa, qual sombra, acaba a vida do homem (Salmos 143:4).
Quem se lembrará de ti depois da morte? E quem rogará por ti? Faze já, irmão caríssimo, quanto puderes; pois não sabes, quando morrerás nem o que te sucederá depois da morte. Enquanto tens tempo, ajunta riquezas imortais. Só cuida em tua salvação, ocupa-te só nas coisas de Deus. Granjeia agora amigos, venerando (valorando e considerando) os santos de Deus e imitando suas obras, para que, ao saíres desta vida, te recebam nas eternas moradas (Lucas 16:9).
Considera-te como hóspede e peregrino neste mundo, como se nada tivesses com os negócios da terra. Conserva livre teu coração, e erguido a Deus, porque não tens aqui morada permanente. Para lá dirige tuas preces e gemidos, cada dia, com lágrimas, a fim de que mereça tua alma, depois da morte, passar venturosamente ao Senhor. Amém.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 23 – 24.
[2] Ato ou efeito de corrigir-se moralmente; regeneração.
[3] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor — notas e significações.