por Tomás de Kempis | 3 mar 2020 | DEVOCIONAL
Livro II — Capítulo 9.
“Não é dificultoso desprezar as consolações humanas, quando gozamos das divinas”. Grande coisa, porém, e mui meritória, é poder estar sem consolação, tanto divina como humana, sofrendo de boa mente o desamparo do coração, “sem em nada buscar-se a si mesmo, nem atender ao seu próprio merecimento”. Que maravilha será estares alegre e devoto, quando te assiste a graça! De todos é almejada esta hora. E mui suave andar, levado pela graça de Deus. “E que maravilha não sentir a carga aquele que é sustentado pelo Onipotente e acompanhado do guia supremo!”.
“Gostamos de ter qualquer consolação, e é penoso ao homem despojar-se de si mesmo”. O glorioso mártir São Lourenço venceu o mundo em união com seu pai espiritual, porque desprezou todos os atrativos do século e sofreu com paciência, por amor de Cristo, que o separassem do Supremo Pontífice São Xisto a quem ele muito amava! “Assim, com o amor de Deus, ele subjugou o amor da criatura, e ao alívio humano preferiu o beneplácito divino”. Daí aprende tu a deixar, às vezes, por amor de Deus, um parente ou amigo querido. Nem tanto te aflijas se te abandonar algum amigo, sabendo que todos, finalmente, nos havemos de separar uns dos outros.
“Só com renhido e longo combate interior aprende o homem a dominar-se plenamente e pôr em Deus todo o seu afeto”. Quando o homem confia em si, facilmente desliza nas consolações humanas. Mas o verdadeiro amigo de Cristo e fervoroso imitador de suas virtudes não se inclina às consolações nem busca tais doçuras sensíveis; antes, procura exercícios austeros e sofre por Cristo trabalhos penosos.
Quando, pois, Deus te mandar consolação espiritual, recebe-a com ações de graças, mas lembra-te sempre que é mercê de Deus, e não merecimento teu. Com isto, porém, não te desvaneças, nem te entregues a excessiva alegria ou a vã presunção; sê antes mais humilde pelo dom recebido, mais prudente e timorato[1] em tuas ações, pois passará àquela hora e voltará a tentação. “Quando te for tirada a consolação, não desesperes logo, aguarda, pelo contrário, com humildade e paciência, a visita celestial; pois Deus é bastante poderoso para restituir-te maior graça e consolação”. Isto não é novo nem estranho aos que são experientes nos caminhos de Deus; porque nos grandes santos e antigos profetas houve muitas vezes esta mudança.
Por isso um deles, sentindo a presença da graça, exclamava: — “Eu disse em minha abundância: — não serei abalado jamais” (Salmos 29:7). Sentindo, porém, retirar-se a graça, acrescenta: — “Desviastes de mim, Senhor, o vosso rosto, e fiquei perturbado” (v. 8). Entretanto não desespera, mas com mais instância roga ao Senhor, e diz: — “A vós, Senhor, clamarei, e ao meu Deus rogarei” (v. 9). Alcança, afinal, o fruto de sua oração e atesta ter sido atendido, dizendo: — “Ouviu-me o Senhor, e compadeceu-se de mim, o Senhor se fez meu protetor” (v. 11). Mas em quê? “Convertestes, diz ele, meu pranto em gozo, e me cercastes de alegria” (v. 12). Se isto sucedeu aos grandes santos, não devemos desesperar nós outros, fracos e pobres, por nos sentirmos umas vezes com fervor, outras vezes com frieza porque vai e vem o espírito de Deus, segundo lhe apraz. Por isso diz o santo Jó: — “Senhor, visitais o homem na madrugada, e logo o provais” (7:18).
“Em que posso, pois, esperar ou em que devo confiar, senão na grande misericórdia de Deus e na esperança da graça celestial?”. Porque, ou me assistem homens justos, irmãos devotos e amigos fiéis, ou livros santos e formosos tratados, ou cânticos e hinos suaves, tudo isso de pouco me serve e pouco me agrada, quando estou desamparado da graça e entregue à minha própria pobreza — “Não há então melhor remédio que Deus”.
Nunca encontrei homem tão religioso e devoto, que não sofresse, às vezes, a subtração da graça e sentisse o arrefecimento[2] do fervor. “Nenhum santo foi tão altamente arrebatado e esclarecido que, antes ou depois, não fosse tentado”. Porque não é digno da alta contemplação de Deus quem por Deus não sofreu alguma tribulação. “Costuma vir primeiro a tentação, como sinal precursor da próxima consolação; porque aos provados pela tentação é prometido o celeste consolo”. A quem tiver vencido, diz o Senhor, “darei a comer o fruto da árvore da vida” (Apocalipse 2:7).
“Dá Deus a consolação, para fortalecer o homem contra as adversidades. Segue-se então a tentação, para que não se desvaneça a felicidade”. O demônio não dorme, nem a carne já está morta; por isso, não cesses nunca de aparelhar-te para a peleja, porque à direita e à esquerda estão teus inimigos que nunca descansam.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 37 – 39.
[1] Medroso, tímido.
[2] Tornar-se frio; esfriar — Perder ou moderar a energia, o vigor (desanimar).
[3] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Tomás de Kempis | 27 fev 2020 | DEVOCIONAL
Livro II — Capítulo 8.
“Quando Jesus está presente, tudo é suave e nada parece dificultoso; mas, quando Jesus está ausente, tudo se torna penoso”. Quando Jesus não fala ao coração, nenhuma consolação tem valor; mas se Jesus fala uma só palavra, sentimos grande alívio. Porventura não se levantou logo Maria Madalena do lugar onde chorava, quando Marta lhe disse: — O Mestre está aí e te chama? (João 11:28). Hora bendita, quando Jesus te chama das lágrimas para o gozo do espírito! Que seco e árido és sem Jesus! Que néscio e vão, se desejas outra coisa, fora de Jesus! Não será isto maior dano do que se perdesse o mundo inteiro?
Que te pode dar o mundo sem Jesus? “Estar sem Jesus é terrível inferno, estar com Jesus é doce paraíso”. Se Jesus estiver contigo, nenhum inimigo te pode ofender. Quem acha a Jesus acha precioso tesouro, ou, antes, o bem superior a todo bem; quem perde a Jesus perde muito mais do que se perdesse a todo o mundo. “Paupérrimo é quem vive sem Jesus, e riquíssimo quem está bem com Jesus”.
Grande arte é saber conversar com Jesus, e grande prudência conservá-lo consigo. “Sê humilde e pacífico, e contigo estará Jesus; sê devoto e sossegado, e Jesus permanecerá contigo”. Depressa podes afugentar a Jesus e perder a sua graça, se te inclinares às coisas exteriores; e se o afastas e o perdes, aonde irás e a quem buscarás por amigo? Sem amigo não podes viver, e se não for Jesus teu amigo acima de todos, estarás mui triste e desconsolado. Logo, loucamente procedes, se em qualquer outro confias e te alegras. “Antes ter o mundo todo por adversário, que ofender a Jesus”. Acima de todos os teus amigos seja, pois, Jesus amado dum modo especial.
Sê livre e puro no teu interior, sem apego a criatura alguma. “É mister desprenderes-te de tudo e ofereceres a Deus um coração puro, se queres sossegar e ver como é suave o Senhor”. E, com efeito, tal não conseguirás, se não fores prevenido e atraído por sua graça, de modo que, deixando e despedindo tudo mais, com Ele só estejas unido. “Pois, quando lhe assiste a graça de Deus, de tudo é capaz o homem; e quando ela se retira, logo fica pobre e fraco, como que abandonado aos castigos”. Ainda assim, não deves desanimar nem desesperar, antes resignar-te na vontade de Deus, e sofrer tudo que te acontecer, por honra de Jesus; pois ao inverno sucede o verão, depois da noite volta o dia, e após a tempestade reina a bonança.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 36 – 37.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Tomás de Kempis | 8 jan 2020 | DEVOCIONAL
Livro II — Capítulos 6 – 7.
1 – Da alegria da boa consciência.
“A glória do homem virtuoso é o testemunho da boa consciência”. Conserva pura a consciência, e sempre terás alegria. A boa consciência pode suportar muita coisa e permanece alegre, até nas adversidades. A má consciência anda sempre medrosa e inquieta. “Suave sossego gozarás, se de nada te acusar o coração”. Não te dês por satisfeito, senão quando tiveres feito algum bem. Os maus nunca têm verdadeira alegria nem sentem a paz interior; pois não há paz para os ímpios, diz o Senhor (Isaías 57:21). E se disserem: — “Vivemos em paz, não há mal que nos possa acontecer, e quem ousará ofender-nos? – não lhes dês crédito, porque de repente levantar-se-á a ira de Deus, e então as suas obras serão aniquiladas e frustados seus intuitos”.
“A quem ama não é dificultoso gloriar-se na tribulação; pois gloriar-se assim é gloriar-se na cruz do Senhor” (Gálatas 6:14). Pouco dura a glória que os homens dão e recebem. A glória do mundo anda sempre acompanhada de tristeza. A glória dos bons está na própria consciência, e não na boca dos homens. A alegria dos justos é de Deus e em Deus, a sua alegria procede da verdade. “Quem deseja a glória verdadeira e eterna não faz caso da temporal. E quem procura a glória temporal ou não a despreza de todo, mostra que pouco ama a celestial”. Grande tranquilidade do coração goza aquele que não faz caso de elogios nem de censuras.
“É fácil estar contente e sossegado, tendo a consciência pura”. Não és mais santo porque te louvam, nem mais ruim porque te censuram. És o que és, nem te podem os louvores fazer maior do que és aos olhos de Deus. Se considerares o que és no teu interior, não farás caso do que te dizem os homens. O homem vê o rosto, Deus o coração (1 Reis 16:7). “O homem nota os atos, mas Deus pesa as intenções. Proceder sempre bem e ter-se em pequena conta é indício de uma alma humilde”. Rejeitar toda consolação das criaturas é sinal de grande pureza e confiança interior.
“Aquele que não procura o testemunho favorável dos homens mostra que está todo entregue a Deus”. Porque, como diz Paulo, não é aprovado aquele que a si próprio recomenda, mas aquele que é recomendado por Deus (2 Coríntios 10:18). “Andar recolhido no interior com Deus, sem estar preso a alguma afeição humana, é próprio do homem espiritual”.
2 – Do amor de Jesus sobre todas a coisas.
“Bem–aventurado aquele que compreende o que seja amar a Jesus e desprezar-se a si por amor de Jesus”. Por esse amor deves deixar qualquer outro, pois Jesus quer ser amado acima de tudo. O amor da criatura é enganoso e inconstante; o amor de Jesus é fiel e inabalável. “Apegado à criatura, cairás com ela, que é instável; abraçado com Jesus, estarás firme para sempre”. A Ele ama e guarda como amigo que não te desamparará, quando todos te abandonarem, nem consentirá que pereças na hora suprema. “De todos te hás de separar um dia, quer queiras, que não”.
“Conchega-te a Jesus na vida e na morte; entrega-te à sua fidelidade, que só Ele te pode socorrer, quando todos te faltarem”. Teu Amado é de tal natureza, que não admite rival: — “Ele só quer possuir teu coração e nele reinar como Rei em seu trono”. Se souberas desprender-te de toda criatura, Jesus acharia prazer em morar contigo. Quando confiares nos homens, fora de Jesus, verás que estás perdido. Não te fies nem te firmes na cana movediça: — “porque toda a carne é feno, e toda a sua glória fenece como a flor do campo” (Isaías 40:6).
Facilmente serás enganado, se só olhares para as aparências dos homens. Se procuras alívio e proveito nos outros, quase sempre terás prejuízo. “Procura a Jesus em todas as coisas, e Jesus acharás. Se te buscas a ti mesmo, também te acharás, mas para a tua ruína”. Pois o homem que não busca a Jesus é mais nocivo a si mesmo que todo o mundo e seus inimigos todos.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 34 – 36.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Tomás de Kempis | 18 dez 2019 | DEVOCIONAL
Livro II — Capítulos 4 – 5.
1 – Da mente pura e da intenção simples.
“Com duas asas se levanta o homem acima das coisas terrenas: — simplicidade e pureza”. A simplicidade há de estar na intenção e a pureza no afeto. A simplicidade procura a Deus, a pureza o abraça e frui. “Em nenhuma boa obra acharás estorvo, se estiveres interiormente livre de todo afeto desordenado”. Se só queres e buscas o agrado de Deus e o proveito do próximo, gozarás de liberdade interior. Se teu coração for reto, toda criatura te será um espelho de vida e um livro de santas doutrinas. Não há criatura tão pequena e vil que não represente a bondade de Deus.
“Se fosses interiormente bom e puro, logo verias tudo sem dificuldade e compreenderias bem”. O coração puro penetra o céu e o inferno. Cada um julga segundo seu interior. Se há alegria neste mundo, é o coração puro que a goza; se há, em alguma parte, tribulação e angústia, é a má consciência que as experimenta. Como o ferro metido no fogo perde a ferrugem e se faz todo incandescente, assim o homem que se entrega inteiramente a Deus fica livre da tibieza e transforma-se em novo homem.
Quando o homem começa a entibiar, logo teme o menor trabalho e anseia as consolações exteriores. Quando, porém, começa deveras a vencer-se e andar com ânimo no caminho de Deus, leves lhe parecem as coisas que antes achava onerosas.
2 – Da consideração de si mesmo.
“Não podemos confiar muito em nós, porque frequentemente nos faltam a graça e o critério”. Pouca luz temos em nós e esta facilmente a perdemos por negligência. De ordinário também não avaliamos quanta é nossa cegueira interior. “A miúdo procedemos mal e nos desculpamos, o que é pior”. Às vezes nos move a paixão, e pensamos que é zelo. “Repreendemos nos outros as faltas leves, e nos descuidamos das nossas maiores”. Bem depressa sentimos e ponderamos o que dos outros sofremos, mas não se nos dá do que os outros sofrem de nós. Quem bem e retamente avaliasse suas obras não seria capaz de julgar os outros com rigor.
“O homem interior antepõe o cuidado de si a todos os outros cuidados, e quem se ocupa de si com diligência facilmente deixa de falar dos outros. Nunca serás homem espiritual e devoto, se não calares dos outros, atendendo a ti próprio com especial cuidado”. Se de ti só e de Deus cuidares, pouco te moverá o que se passa por fora. Onde estás, quando não estás contigo? E, depois de tudo percorrido, que ganhaste se esqueceste a ti mesmo? “Se queres ter paz e verdadeiro sossego, é preciso que tudo mais dispenses, e a ti só tenhas diante dos olhos”.
Portanto, grandes progressos farás, se te conservares livre de todo cuidado temporal; muito te atrasará o apego a alguma coisa temporal. “Nada te seja grande, nobre, aceito ou agradável, a não ser Deus mesmo ou o que for de Deus”. Considera vã toda consolação que te vier das criaturas. “A alma que ama a Deus despreza tudo que é abaixo de Deus”. Só Deus eterno e imenso, que tudo enche, é o consolo da alma e a verdadeira alegria do coração.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 33 – 34.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Tomás de Kempis | 18 dez 2019 | DEVOCIONAL
Livro III — Capítulos 4 – 5.
1 – Que devemos andar perante deus em verdade e humildade.
Jesus: — “Filho, anda diante de mim em verdade e procura-me sempre com simplicidade de coração”. Quem anda diante de mim na verdade será defendido dos ataques inimigos, e a verdade o livrará dos enganos e das murmurações dos maus. Se te libertar a verdade, serás verdadeiramente livre e não farás caso das vãs palavras dos homens.
A alma: — “Verdade é, Senhor, o que dizeis; peço-vos que assim se faça comigo”. A vossa verdade me ensine, me defenda e me conserve até meu fim salutar. Ela me livre de toda má afeição e amor desregrado e assim poderei andar convosco, com grande liberdade de coração.
Jesus: — “Eu te ensinarei, diz a Verdade, o que é justo e agradável a meus olhos”. Relembra teus pecados com grande dor e pesar e jamais te desvaneças por tuas boas obras. Com efeito, és pecador, sujeito a muitas paixões e preso em seus laços. De ti pendes sempre para o nada; depressa cais, logo és vencido, logo perturbado, logo desanimado. Nada tens de que possas gloriar-te; muito, porém, para te humilhar; pois és muito mais fraco do que podes imaginar.
Nada, pois, do que fazes te pareça grande, nada precioso e admirável, nada digno de apreço, nada nobre, nada verdadeiramente louvável e desejável, senão o que é eterno. Acima de tudo te agrade a eterna verdade, e te desagrade a tua extrema vileza. Nada temas, nada vituperes e fujas tanto como os teus vícios de pecados, que te devem entristecer mais do que quaisquer prejuízos materiais. “Alguns não andam diante de mim com simplicidade, mas, curiosos e arrogantes, pretendem saber meus segredos e compreender os sublimes mistérios de Deus, descurando-se de si próprios e de sua salvação. Estes, por sua soberba e curiosidade, não raro caem em grandes tentações e pecados, porque me afasto deles”.
Teme os juízos de Deus, treme da ira do Onipotente. “Não queiras discutir as obras do Altíssimo; examina antes as tuas iniquidades, quanto mal cometestes e quanto bem deixastes de fazer por negligência”. Alguns põem toda a sua devoção nos livros, outros nas imagens, outros em sinais e exercícios exteriores. Alguns me trazem na boca, mas mui pouco no coração. Outros há, porém, que, alumiados no entendimento e purificados no afeto, sempre suspiram pelos bens eternos; não gostam de ouvir das coisas da terra e com repugnância satisfazem as exigências da natureza; estes percebem o que lhe diz o Espírito da Verdade. Pois lhes ensina a desprezar as coisas terrenas e amar as celestiais, a esquecer o mundo e almejar o céu dia e noite.
2 – Dos admiráveis efeitos do amor divino.
A alma: — “Bendigo-vos, Pai celestial, Pai de meu Senhor Jesus Cristo, por vos terdes dignado lembrar-vos de mim, pobre criatura”. Ó Pai de misericórdia e Deus de toda consolação! (2 Coríntios 1:3), graças vos dou porque, apesar de minha indignidade, me recreais às vezes com vossa consolação. Sede para sempre bendito e glorificado, com vosso Filho unigênito e o Espírito Santo consolador, por todos os séculos. Ah! Senhor Deus, santo amigo de minha alma, tanto que entrais em meu coração, exulta de alegria o meu interior. “Vós sois a minha glória e o júbilo de meu coração; vós sois a minha esperança e meu refúgio no dia da tribulação”.
Mas, como ainda sou fraco no amor e imperfeito na virtude, necessito ser consolado e confortado por vós; por isso visitai-me mais vezes e instruí-me com santas doutrinas. “Livrai-me das más paixões e curai meu coração de todos os afetos desordenados, para que eu, sanado e purificado interiormente, seja apto para amar, forte para sofrer e constante para perseverar”.
Jesus: — “Grande coisa é o amor! É um bem verdadeiramente inestimável que por si só torna suave o que é difícil e suporta sereno toda a adversidade”. Porque leva a carga sem lhe sentir o peso e torna o amargo doce e saboroso. O amor de Jesus é generoso, inspira grandes ações e nos excita sempre à mais alta perfeição. O amor tende sempre para as alturas e não se deixa prender pelas coisas inferiores. O amor deseja ser livre e isento de todo apego mundano, para não ser impedido no seu afeto íntimo nem se embaraçar com algum incômodo. Nada mais doce do que o amor, nada mais forte, nada mais sublime, nada mais amplo, nada mais delicioso, nada mais perfeito ou melhor no céu e na terra; porque o amor procede de Deus, e em Deus só pode descansar, acima de todas as criaturas. “Quem ama, voa, corre, vive alegre, é livre e sem embaraço”. Dá tudo por tudo e possui tudo em todas as coisas, porque sobre todas as coisas descansa no Sumo Bem, do qual dimanam e procedem todos os bens. Não olha para as dádivas, mas eleva-se acima de todos os bens até aquele que os concede. O amor muitas vezes não conhece limites, mas seu ardor excede a toda medida. O amor não sente peso, não faz caso das fadigas e quer empreender mais do que pode; não se escusa com a impossibilidade, pois tudo lhe parece lícito e possível. Por isso de tudo é capaz e realiza obras, enquanto o que não ama desfalece e cai. O amor vigia sempre, e até no sono não dorme. Nenhuma fadiga o cansa, nenhuma angústia o aflige, nenhum temor o assusta, mas qual viva chama a ardente labareda irrompe para o alto e passa avante. “Só quem ama compreende o que é amar”. Bem alto soa aos ouvidos de Deus o afeto da alma que diz: — “Meu Deus, meu amor! Vós sois todo meu, e eu todo vosso!”. A alma: — “Dilatai-me o amor, para que possa, no âmago do coração, saborear quão doce é amar, no amor desmanchar-me e nadar”. Prenda-me o amor, e eleve-me acima de mim, num transporte de fervor excessivo. Cante eu o cântico do amor, siga-vos ao alto, ó meu Amado, desfaleça minha alma no vosso louvor, no júbilo do amor. Amar-vos quero mais que a mim, e a mim só por amor de vós, e em vós a todos que deveras vos amam, conforme ordena a Lei do amor que de vós dimana. “O amor é pronto, sincero, piedoso, alegre e amável; forte, sofredor, fiel, prudente, longânime, viril e nunca busca a si mesmo”. Pois, logo que alguém procura a si mesmo, perde o amor. O amor é circunspecto, humilde e reto; não é frouxo, não é leviano, nem cuida de coisas vãs; é sóbrio, casto, constante, quieto, recatado em todos os seus sentidos. O amor é submisso e obediente aos superiores, mas aos próprios olhos é vil e desprezível; devoto e agradecido para com Deus, confia e espera sempre nEle, ainda quando está desconsolado, porque no amor não se vive sem dor.
Quem não está disposto a sofrer tudo e fazer a vontade do Amado não é digno de ser chamado amante. Àquele que ama cumpre abraçar por seu amado, de boa vontade, tudo o que for duro e amargo e dEle não se apartar por nenhuma contrariedade.
Paz e graça.
[1] Tomás de Kempis, 1380 – 1471, Imitação de Cristo, p. 48 – 50.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.