DANIEL 9:27

DANIEL 9:27

Na última preleção explicamos como Cristo confirmou o pacto com muitos durante a última semana; pois Ele congregou os filhos de Deus de seu estado de dispersão, quando a devastação da Igreja assumiu um caráter extremamente terrível e miserável. Embora o Evangelho não fosse instantaneamente promulgado entre as nações estrangeiras, todavia somos corretamente informados que Cristo confirmou o pacto “com muitos”, visto que as nações foram diretamente chamadas à esperança da salvação (cf. Mateus 10:5). Embora Ele proibisse os discípulos de pregarem então o Evangelho aos gentios ou aos samaritanos, contudo os instruiu dizendo que muitas ovelhas viviam dispersas pelo mundo fora, e que estava próximo o dia em que Deus construiria um só aprisco (João 10:16). Isso se cumpriu após sua ressurreição. Durante sua vida terrena, Ele começou a antecipar levemente a vocação dos gentios, e assim interpreto estas palavras do profeta: — “Ele confirmará o pacto com muitos”. Pois tomo a palavra “muitos”, aqui, “lā–rab–bîm” (“לָרַבִּ֖ים”), comparativamente em referência “aos gentios fiéis unidos aos judeus[2]. É muitíssimo notório que o pacto divino esteve depositado por um tipo de direito hereditário com os israelitas até que o mesmo favor se estendesse também aos gentios. Portanto diz-se que Cristo renovou o pacto de Deus não só com uma nação, mas em termos gerais com o mundo como um todo. Aliás, admito o uso da palavra muitos como sendo para todos, como no quinto capítulo da Epístola aos Romanos e em outras partes (v. 19), mas ali parece haver um contraste entre a Igreja antiga, crustada (limitada) dentro de estreitas fronteiras, e a Igreja nova, a qual se estende ao mundo inteiro. Sabemos que muitos, outrora estrangeiros, têm sido chamados das regiões longínquas da terra por meio do Evangelho, e assim reunidos aos judeus por meio de aliança, ao ponto de todos desfrutarem da mesma comunhão e todos reconhecidos como igualmente filhos de Deus.

O profeta agora adiciona: — “Ele fará cessar o sacrifício e a oblação durante metade de uma semana”. Devemos relacionar isso com o tempo da ressurreição. Pois enquanto Cristo atravessava o período de sua vida terrena, Ele não pôs termo aos sacrifícios; mas depois de oferecer-se como vítima, então todos os ritos da Lei chegaram ao termo final. Pelas palavras “sacrifício e oblação” o profeta aponta para todas as cerimônias, sendo uma parte expressa pelo todo; como se ele dissesse: — “depois que Cristo se ofereceu em sacrifício eterno, todas as cerimônias costumeiras da Lei foram abolidas; pois de outra forma a morte de Cristo teria sido supérflua, caso Ele não pusesse fim a todas as velhas sombras da Lei”. Embora os sacrifícios continuassem por muitos anos depois da morte de Cristo, todavia não podemos mais chamá-los “legítimos”, pois não se pode apresentar nenhuma razão para que os sacrifícios da Lei ainda agradassem a Deus, exceto sua referência àquele modelo celestial que Moisés viu no monte (Êxodo 25:40). Daí, depois que Cristo se manifestou e expiou todos os pecados do mundo, fez-se necessário que todos os sacrifícios cessassem (Hebreus 8:5). Essa é a intenção do profeta quando diz que Cristo faria cessar os sacrifícios durante metade de uma semana. Ele abarca dois pontos ao mesmo tempo: — “primeiro, Cristo real e eficientemente pôs fim aos sacrifícios da Lei; e, segundo, Ele provou isso ao mundo através da pregação do Evangelho por seus apóstolos”. Observamos, pois, o sentido no qual Deus testificou por meio de seu profeta a cessação dos sacrifícios depois da ressurreição de Cristo. O véu do templo então se rasgou em duas partes; foi proclamada a verdadeira liberdade; os fiéis, pois, podiam sentir-se homens plenamente amadurecidos, e não mais sujeitos àquele governo infantil ao qual se sujeitaram sob a Lei.

Agora vem a lume a segunda sentença do versículo: — já a lemos antes, mas agora a repetimos para renovar a memória. E sobre a extensão ou expansão das abominações ele causará espanto, ou estupefação; e isso até a consumação e determinação, ele se derramará sobre o assolador. Alguns traduzem: — “ela será derramada ou destilada”. Discutiremos as palavras mais adiante. A passagem é obscura, e poderia ser traduzida numa variedade de formas, e por conseguinte os intérpretes diferem muito entre si. Alguns tomam, “kanaph–kə-nap̄” (“כָּנָף”), “uma asa”, por um “querubim”; então mudam os números do singular para o plural, e crêem que o profeta está falando de querubim alado. Isso propicia aos que adotam tal tradução um duplo método de explicá-la. Alguns dizem que “a abominação estará acima das asas”, ou, seja, a arca do concerto, porque o templo foi profanado e a abominação foi tão desastrosa que destruiu até mesmo o próprio querubim.

Outros o toma no sentido causal — “as abominações serão por causa do querubim”. Eu, porém, ignoro essas sutilezas, uma vez que não me comunicam qualquer solidez.

Outros seguem também a versão grega, como citada por Cristo no capítulo 24 de Mateus e outros lugares. Embora Cristo pareça antes fazer menção da mesma abominação, não insistirei neste ponto; apenas farei observação sobre a tradução de uma palavra. Aqueles que traduzem “as abominações da desolação” tratam as palavras de Daniel de forma demasiadamente displicente, como se não houvesse nenhuma dependência gramatical de uma palavra com a outra, ou, tecnicamente falando, nenhum estado de regime. A opinião preferível é aquela que considera a palavra “asa” no sentido de extremidade ou extensão. Outros, ainda, tratam “extremo” como se significasse um estado de desespero; como se o anjo dissesse: — “por conta da extremidade das abominações, enquanto males se acumulam sobre males, sem fim, até que os problemas chegaram ao ponto extremo de desespero”. Outros explicam ainda “a asa das abominações” mais simplesmente pela expansão propriamente dita, como se o anjo declarasse que o templo seria publicamente profanado, e a impureza seria muito mais evidente.

Os intérpretes diferem uma vez mais sobre as palavras “מְשֹׁמֵ֔ם”, “mesmen–mə-šō-mêm”, e “שְׁמַם”, “sem–em”, geralmente traduzidas “tornar-se desolado” e “desolação”. Há quem toma a primeira transitivamente; e outros, como neutra; a segunda significando destruir e devastar, e também admirar e ficar atônito. Penso que essas duas palavras devem ser usadas no mesmo sentido; com se o profeta dissesse “que todos ficarão atônitos na mesma extensão das abominações”; quando perceberem o culto do templo sendo varrido por um dilúvio, então “ficarão profundamente atônitos”. Em seguida ele acrescenta a calamidade que começou quando Deus mostrou que a contaminação do templo se destilaria ou se derramaria sobre aquele que se sentisse atônito. Discutiremos a própria ocorrência para capacitar-nos a entender melhor o sentido das palavras. Não hesito declarar que o intuito de Deus era “subtrair dos judeus toda esperança de restauração”, os quais, bem o sabemos, foram cegados por uma insensata confiança, pressupondo que a presença de Deus se confinaria ao templo visível. Enquanto eram assim inabalavelmente convencidos da impossibilidade de Deus jamais afastar-se deles, seriam privados de sua falsa confiança e não mais se iludiriam por essas promissoras e ilusórias esperanças. E assim a contaminação temporária do templo foi mostrada por Ezequiel (10:18). Pois quando os profetas proclamavam incessantemente a aproximação dos inimigos com o fim de destruir a ambos, “cidade e templo” [como aquilo que ocorreu no ano 70 d.C. – nota do revisor], a maioria do povo escarnecia deles. Em sua opinião, isso subverteria toda sua confiança em Deus, como se considerasse falsa sua palavra, ao prometer-lhes descanso perpétuo no Monte Sião (Salmos 132:14). Aqui Ezequiel relata sua visão de Deus assentado no templo – “Ele, pois, desapareceu e o templo foi privado de toda sua glória”. Mas isso foi apenas temporariamente.

Agora, porém, passamos a tratar da profanação do templo, o que deve provar se eu posso usar a frase eterno e irreparável. Sem a mais leve dúvida, esta profecia cumpriu-se quando a cidade foi capturada e subvertida e o templo totalmente destruído por Tito, filho de Vespasiano. Isso explica satisfatoriamente os acontecimentos aqui preditos. Alguns consideram a palavra “abominação” como sendo usada metaforicamente e para significar a subversão da cidade; mas isso me parece muito forçado. Outros a explicam como indicando a estátua de Calígula erigida no templo; e outros, ainda, como indicativo da bandeira de Tibério, o qual ordenou que as águias (romanas) fossem colocadas no pináculo do templo. Eu, porém, a interpreto simplesmente como indicativo da profanação que ocorreu depois que o Evangelho começou a ser promulgado e do castigo infligido sobre os judeus quando perceberam que seu templo ficou sujeito às mais grosseiras formas de desconsagração, visto que não se dispuseram a admitir o unigênito Filho de Deus como sua verdadeira glória. Outros, ainda, como sendo as doutrinas e superstições ímpias, bem como os perversivos erros com que os sacerdotes se imbuíram. Eu, porém, penso que a passagem marca a mudança geral que ocorreu diretamente depois da ressurreição de Cristo, quando a obstinada impiedade do povo foi plenamente detectada. Foram, pois, convocados ao arrependimento; ainda que tivessem se esforçado em extinguir toda esperança de salvação radicada em Cristo, todavia Deus estendeu-lhes a mão e testou se sua perversidade era ou não passível de cura. Depois que a graça de Cristo foi obstinadamente rejeitada, então seguiu-se a extensão das abominações; ou, seja, “Deus subverteu o templo em total ruína, e fez com que sua santidade e glória se desvanecessem totalmente”. Embora essa vingança não ocorresse imediatamente depois de expirar a última semana, todavia Deus vingou-se suficientemente de seu ímpio desprezo por seu Evangelho; e, além disso, “Ele mostra como não mais carecia de algum templo visível, uma vez que agora Ele dedicou a si o mundo inteiro, desde o oriente até o ocidente[3].

Agora volto uma vez mais à explanação das palavras em separado. Diz o anjo: — “Sobre a extensão das abominações, espanto ou espantoso”; pois alguns acreditam ser a palavra um adjetivo, e outros, um substantivo; mas o significado é este: — “todos ficariam estupefatos, ou atônitos”. Eu não faço nenhuma objeção ao significado já indicado, ou, seja, traduzir a palavra “asa” por “extremo”; pois o sentido então será: — “quando as abominações chegarem a seu auge ou extremo”; e o sentido será o mesmo se usarmos a palavra “expansão”. A intenção de Deus é mostrar-nos a situação extensa da contaminação — “para cima, para baixo, de todos os lados, haviam obscurecido e sepultado a glória do templo”. Daí, por conta do extremo ou expansão das abominações haveriam de ficar atônitos, pois todos ficariam admirados. O anjo parece contrapor tal estupor à soberba; pois os judeus estavam totalmente persuadidos de Deus estar estritamente em obrigação para com eles e da impossibilidade de serem eles separados de seu próprio templo onde Deus fixara sua eterna habitação. Ele prediz a aproximação desse espanto em lugar de sua letárgica segurança.

Em seguida ele acrescenta: — “E até a consumação”. “כָּלָה”, “keleh”, significando “fim” e “perfeição”, tanto quanto “destruição”. Tomo a expressão aqui como equivalente a “consumação” ou “destruição”. Inundará ao ponto de causar perplexidade. Já observei que as palavras implicam esse assombro; matança, ou algo similar, deve ser subentendido antes do verbo. Não há dúvida alguma sobre a intenção do profeta. Ele diz que essa matança seria “como um aguaceiro contínuo, consumindo todo o povo”. Ele fala do povo como que pasmo ante suas calamidades e privado de toda e qualquer esperança de se escapar delas; pois a matança jorrará — “como água” — sobre o povo estarrecido. Entrementes, ele mostra quão loucamente os judeus se deixaram dominar pela soberba e quão ilusoriamente se enganavam supondo que o Todo–Poderoso se comprometera protegê-los permanentemente, a eles e a seu templo visível. “A matança jorrará até a consumação significa até que todo o povo perecesse”. Ele acrescenta ainda outro substantivo: — “até a um determinado fim”. Já desvendamos o significado deste substantivo. Aqui o profeta explica a causa daquela eterna distinção que o Onipotente determinara e decretara ser irrevogável.

Paz e graça.

[1] João Calvino, Comentário de Daniel, Edições Parakletos, Volume 2, p. 268 – 274.

[2] Isso concorda com a Escritura — Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque Ele é a nossa paz, o qual de “ambos os povos [gentios fiéis unidos com judeus]” fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a Lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo [“pacto com muitos”], matando com ela as inimizades (Efésios 2:13 – 16 – ACF) — nota do revisor.

[3] De acordo com os versículos 4, 18, 19, do capítulo 10, e do versículo 23, do capítulo 11 de Ezequiel: — A “glória do Senhor” partiu do templo por estágios: — primeiro, para a entrada da casa (v. 4), depois, sobre os querubins (v. 18), à porta oriental (v. 19); e finalmente para o Monte das Oliveiras (11:23), para o oriente (leste) da cidade — nota do revisor.

[4] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.

DANIEL 9:27

PIEDADE, CONFIANÇA E REVERÊNCIA SÃO OS REQUISITOS PARA SE CONHECER A DEUS

Portanto, de fato entendo como conhecimento de Deus aquele em virtude do qual não apenas concebemos que Deus existe, mas ainda apreendemos o que nos importa dEle conhecer, o que lhe é relevante à glória, enfim, o que é proveitoso saber a seu respeito. Ora, falando com propriedade, nem diremos que Deus é conhecido onde nenhuma religiosidade há, nem piedade. E aqui ainda não abordo essa modalidade de conhecimento pela qual os homens, em si perdidos e malditos, apreendem a Deus como Redentor, em Cristo, o Mediador. “Ao contrário, estou falando apenas desse conhecimento primário e singelo, a que nos conduziria a própria ordem da natureza, se Adão se conservasse íntegro”. Ora, se bem que nesta ruinosa situação do gênero humano já ninguém sentirá a Deus, seja como Pai, seja como autor da salvação, seja como de qualquer maneira propício, até que Cristo se interponha como agente mediador para apaziguá-lo em relação a nós, todavia uma coisa é sentirmos que Deus, como nosso Criador, nos sustenta com seu poder, nos governa em sua providência, nos provê em sua bondade e nos cumula de toda sorte de bênçãos; outra, porém, é abraçarmos a graça da reconciliação que nos é proposta em Cristo. Portanto, uma vez que o Senhor se mostra, em primeiro lugar, tanto na estrutura do mundo, quanto no ensino geral da Escritura, simplesmente como Criador, e então na face de Cristo (cf. 2 Coríntios 4:6) como Redentor, daí emerge dEle “duplo conhecimento”, de que se nos impõe tratar agora do primeiro. O outro se seguirá, na devida ordem (confiança e reverência). Mas, embora nossa mente não possa apreender a Deus sem que lhe renda alguma expressão cultual, não bastará, contudo, simplesmente sustentar que Ele é um e único, a quem importa ser de todos cultuado e adorado, se não estamos também persuadidos de que “Ele é a fonte de todo bem”, para que nada busquemos de outra parte senão nEle. Eu o recebo nestes termos: — “não só que uma vez Ele criou este mundo, e de tal forma o sustém por seu imenso poder; o regula por sua sabedoria; o preserva por sua bondade; rege com sua justiça e equidade especialmente ao gênero humano; suporta-o em sua misericórdia; guarda-o em sua proteção; mas, ainda que em parte alguma se achará uma gota ou de sabedoria e de luz, ou de justiça, ou de poder, ou de retidão, ou de genuína verdade, que dEle não emane e de que não seja Ele próprio a causa; de sorte que aprendamos a realmente dEle esperar e nEle buscar todas essas coisas; e, após recebidas, a atribuir-lhes com ação de graças”. Ora, este senso dos poderes de Deus nos é mestre idôneo da piedade, da qual nasce a religião. Chamo “piedade à reverência associada com o amor de Deus que nos faculta o conhecimento de seus benefícios”. Pois, até que os homens sintam que tudo devem a Deus, que são assistidos por seu paternal cuidado, que é Ele o autor de todas as coisas boas, daí nada se deve buscar fora dEle, jamais se lhe sujeitarão em obediência voluntária. Mais ainda: — “a não ser que ponham nEle sua plena felicidade, verdadeiramente e de coração nunca se lhe renderão por inteiro”.

Confiança e reverência são fatores do conhecimento de Deus.

Portanto, simplesmente se recreiam em frívolas especulações quantos se propõem insistir nesta pergunta: — “Que é Deus?”. Quando devemos antes interessar saber qual é sua natureza e o que lhe convém à natureza. Pois, de que vale, segundo Epicuro, confessar um Deus que, pondo de parte o cuidado do mundo, só se apraz no ócio? Afinal, que ajuda traz conhecer a um Deus com quem nada temos a ver? Antes, pelo contrário, seu conhecimento nos deve valer, em primeiro lugar, que nos induza ao temor e à reverencia; segundo, “tendo-o por guia e mestre, aprendamos a buscar nEle todo o bem e, em recebendo-o, a Ele tudo creditar”. Ora, como pode subir-te à mente o pensamento de Deus, sem que, ao mesmo tempo, logo reflitas: — uma vez que és feitura dEle, pelo próprio direito de criação foste sujeitado e vinculado a seu domínio, que lhe deves a vida, que convém atribuir-lhe tudo quanto fazes? Se assim é, então segue-se necessariamente, uma vez que sua vontade nos deve ser a lei do viver, “que inexoravelmente a vida te é corrompida, se não a pões ao serviço dEle”. Por outro lado, nem o podes visualizar com clareza, sem que reconheças ser Ele a fonte e origem de todas as coisas boas, donde deveria nascer não só o desejo de se apegar a Ele, mas ainda de depositar nEle sua confiança, “se o homem não desviasse sua mente da reta investigação para sua depravação”. Ora, para começar, a mente piedosa não sonha para si um Deus qualquer; ao contrário, contempla somente o Deus único e verdadeiro; nem lhe atribui coisa alguma que lhe ocorra à imaginação, mas se contenta com tê-lo tal qual Ele mesmo se manifesta, e com a máxima diligência sempre se acautela, “para que não venha, mercê de ousada temeridade, a vaguear sem rumo, indo além dos limites de sua vontade”. Conhecido Deus desta forma, visto saber que “Ele a tudo governa”, confia ser Ele seu guia e protetor, e assim se entrega a toda sua guarda; porque entende ser Ele o autor de todo bem, se algo o oprime, se algo lhe falta, de pronto a sua proteção se recolhe, dEle esperando assistência; visto que está persuadido de que Ele é bom e misericordioso, nEle repousa com segura confiança, nem duvida que a todos os seus males em sua clemência haverá de ter sempre preparado o remédio; visto que o reconhece por Senhor e Pai, também o julga digno de toda sua atenção, em todas as coisas, para sua soberania, reverenciar sua majestade, procurar promover sua glória, seus preceitos obedecer; porque percebe ser Ele justo juiz e armado de sua severidade para punir os crimes, tem sempre diante dos olhos seu tribunal, e no temor que por Ele nutre, se retrai e coíbe de provocar-lhe a ira. Todavia, não significa que a tal ponto se deixa apavorar pelo senso de seu juízo que, embora lhe seja patente o meio de evadir-se, ainda que o queira. Antes, não menos o abraça como o juiz dos maus quanto é Ele o benfeitor dos piedosos; uma vez que compreende que tanto “pertence à glória de Deus dar aos ímpios e perversos o castigo que merecem, como também aos justos o dom da vida eterna”. Além disso, refreia-se de pecar não só pelo temor do castigo, mas porque ama e reverencia a Deus como Pai; honra-o e cultua-o como Senhor; “e mesmo que não existisse nenhum inferno, ainda assim treme só à idéia da ofensa”. Eis no que consiste a religião pura e real: — “fé aliada a sério temor de Deus, de modo que o temor não só em si contém reverência espontânea, mas ainda traz consigo a legítima adoração, a qual está prescrita na Lei”. E isto se deve observar com mais diligência: — “enquanto todos veneram a Deus de maneira vaga e geral, pouquíssimos o reverenciam de verdade; enquanto, por toda parte, grande é a ostentação em cerimônias, rara, porém, é a sinceridade de coração”.

Paz e graça.

[1] CALVINO, João, Tratado da Religião Cristã, Volume 1, Capítulo II, p. 41 – 42.

[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.