SOBRE AS TRADIÇÕES — PARTE 2

SOBRE AS TRADIÇÕES — PARTE 2

1 – A tradição, que em grego se chama “παράδοσις” (paradosis) e em hebraico “לֶקַח” (leqach), possui um significado geral, que inclui tudo o que chegou até nós, seja por escrito ou não. No entanto, é comumente entendido como se referindo principalmente a ensinamentos não escritos, ou transmitidos oralmente, como se fossem transmitidos (tradita) de uma pessoa para outra.

2 – Assim, a tradição é definida como a palavra de Deus que não foi escrita pelo Autor, isto é, nem pelo próprio Deus, nem por um homem a partir do qual ela tenha sido transmitida pela primeira vez à Igreja.

3 – Tradição, embora vulgarmente dividida de várias maneiras, é geralmente classificada em duas categorias: — os denominados a partir dos seus autores e os denominados a partir da sua matéria [conteúdo]. Dos autores: — Diz-se que todas as tradições derivam de Deus ou do homem. As que vêm de Deus são chamadas de tradições divinas, enquanto as que vêm dos homens são chamadas de tradições humanas. A propósito [conforme a matéria]: — algumas são denominadas tradições dogmáticas (as que tratam da fé e dos costumes) e outras são denominadas tradições éticas (as que tratam da moral). Em cada gênero, existem espécies distintas, apropriadamente denominadas tradições históricas (as que narram fatos) e tradições cerimoniais (as que tratam de ritos).

4 – Chamamos de tradições divinas aquelas imediatamente transmitidas por Deus, por Jesus Cristo, pelos Profetas e pelos Apóstolos à Igreja em seus primórdios, sem o uso da escrita. Hoje, embora muitas delas estejam incluídas nas Escrituras [escritas], elas ainda são referidas sob o significado geral de tradições. Por outro lado, as tradições humanas são aquelas concebidas exclusivamente pela vontade humana.

5 – Classificamos como tradições dogmáticas ou tradições éticas aquelas relacionadas à fé, ou à moral. O relato completo destas nos foi transmitido por Deus nas Escrituras Sagradas. Em sua glória, Ele nos comunicou por escrito todo o seu conselho para a nossa salvação, na medida do necessário e conveniente. Portanto, não admitimos nenhuma tradição nesta categoria, pois a Escritura é completa e totalmente suficiente (θεόπνευστος — inspirada por Deus) para equipar o homem de Deus para toda boa obra, abrangendo expressamente ou por analogia tudo que é necessário para esse propósito.

6 – Portanto, rejeitamos legitimamente as tradições humanas concebidas pela engenhosidade humana, relativas à doutrina e à moral sagradas, que não são explícitas nas Escrituras Sagradas nem delas dedutíveis, e que podem contradizê-las direta ou indiretamente.

7 – As tradições históricas são chamadas de narrativas de eventos e ações faladas ou realizadas por Jesus Cristo e pelos Apóstolos. Aqueles que não estão contidos na Palavra escrita devem ser considerados escritos humanos e não devem ser comparados em verdade e autoridade com as Escrituras Canônicas.

8 – Estas narrativas foram omitidas pelos Evangelistas e Apóstolos porque, em primeiro lugar, nunca poderíamos captá-las todas por escrito e, em segundo lugar, as verdades essenciais destas narrativas estão plenamente contidas nas Escrituras Sagradas para acreditarmos que Jesus ​​é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhamos vida em seu Nome.

9 – As tradições cerimoniais são certos rituais não escritos que dizem respeito à ordem e decoro. Nelas, duas coisas devem ser consideradas: — [1] – A parte essencial das cerimônias, que diz respeito ao aspecto honroso e ordeiro encontrado nos rituais. Isso se refere, em suma, ao benefício e edificação do próximo. [2] – O aspecto acidental, que diz respeito às circunstâncias, modo, tempo, lugar, pessoas etc.

10 – A parte essencial do decoro e da ordem (pois é evidente que os aspectos cerimoniais do Antigo Testamento se tornaram obsoletos), por estar intimamente ligada às questões dogmáticas e éticas, e por estar inscrita na palavra de Deus consoante a sua natureza, é eterna e imutável. “Mas faça-se tudo decentemente e com ordem” (1 Coríntios 14:40). Já o aspecto acidental (ou seja, a própria natureza [ratio] das circunstâncias) é variável e mutável.

11 – Cerimônias de qualquer tipo podem ser corretamente divididas por nós em três categorias: — a primeira é boa, a segunda é má, e a terceira é indiferente e neutra.

12 – Consideramos como boas as cerimônias que se harmonizam com santidade, equidade, verdade, honestidade e ordem. Classificamos como más aquelas que repugnam a esses princípios. Já as cerimônias indiferentes e neutras são aquelas que, em razão de pessoas, lugares e tempos, podem ora concordar, ora conflitar com os princípios supracitados.

Paz e graça.

[1] Franciscus Junius, o Velho (1545 – 1602), “On Traditions” (De Traditionibvs — Pars II). Acessado em 2024.

[2] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.

SOBRE AS TRADIÇÕES — PARTE 2

SOBRE AS TRADIÇÕES — PARTE 1

1 – O texto afirma que a palavra de Deus existe em duas formas: — “escrita” (ἔγγραφον) e “não escrita” (ἀγραφον). Até aqui, a discussão se concentrou em como a Sagrada Escritura incorpora a Palavra escrita de Deus, demonstrando sua autoridade, perfeição, natureza divina e propósito, bem como sua posição estabelecida no cânone. Agora, o foco se desloca para a Palavra não escrita (ἀγράφῳ), também referida por muitos como tradições.

2 – Em sentido amplo, tradição se refere a qualquer doutrina, independentemente de estar escrita no Novo ou Antigo Testamento. Um exemplo disso é encontrado em 2 Tessalonicenses 2:15[2]. No entanto, em um sentido mais restrito, tradição se refere a coisas que não foram escritas pelos Profetas ou Apóstolos, mas sim explicadas por eles oralmente (viva voce). Os papistas [católicos romanos] valorizam e afirmam este último tipo de tradição; nós, por outro lado, distinguimos aquelas coisas que não são explicadas adequada, apropriada ou verdadeiramente (obtenduntur[3]) por eles.

3 – Embora as tradições costumem ser classificadas em Divinas, Apostólicas e Eclesiásticas, em função de seus diferentes autores, como tal distinção não é relevante para o presente caso, acreditamos que outra forma de classificá-las, baseada em seu conteúdo, será suficiente. Existem, portanto, tradições de fato, isto é, de natureza histórica; e outras de lei, que dizem respeito à fé, moral ou disciplina.

4 – Chamamos históricas aquelas tradições pelas quais são narradas histórias de feitos por Jesus Cristo, pelos Profetas, pelos Apóstolos ou pelos próprios Evangelistas, dos quais, no entanto, as Escrituras Canônicas não fazem menção. Que outros eventos ocorreram além do que está contido nas Escrituras é ensinado pela própria razão e também confirmado pelo Apóstolo João em seu próprio Evangelho (João 20:30, 31; 21:25). “Se os relatos dessas tradições (pois algumas são encontradas entre os Pais ortodoxos) concordam com o cânone, nós as aceitamos. Se discordam, as rejeitamos”. Se não concordam nem discordam, as deixamos indeterminadas (in medio relinquimus), não prescrevendo fé para ninguém.

5 – No entanto, a razão é múltipla para essas tradições estabelecidas na lei. Algumas dizem respeito a questões (rationem) de fé propriamente ditas e essenciais (per se), outras tocam princípios morais (rationem) e à conduta de vida, e ainda há aquelas questões (rationem) relacionadas a disciplina e cerimônias. Examinemos agora cada uma delas separadamente.

6 – Os papistas afirmam que existem certas tradições relativas a questões de fé e que são necessárias; negamos isso. Pois “a Sagrada Escritura é um instrumento divino que contém perfeitamente a regra de fé pela perfeição e maneira divinas, que é única, sempre a mesma e a única imutável, à qual nada pode ser acrescentado, retirado ou alterado, e como diz Tertuliano: — ‘é irreformável’”. Qual é, então, o propósito das tradições? Além disso, a autoridade da fé provém unicamente da autoridade de Deus, e está selada nas Sagradas Escrituras de tal forma que quem acrescenta, diminui ou altera alguma coisa nela é declarado amaldiçoado (deletum[4]). Assim, está longe de ser verdade que as tradições sobre a fé sejam necessárias para nós; pelo contrário, “é totalmente necessário que não tenhamos tradições sobre a fé na Igreja de Deus”.

7 – No entanto, uma vez que, aqueles que proclamam estas tradições são incapazes de apresentar qualquer autoridade ou exemplo para a autenticidade delas, os papistas recorrem geralmente a tradições que pertencem à moral, à disciplina ou à história. Pois o que afirmam, por exemplo (verbi gratia), a respeito da virgindade perpétua da Virgem, a Mãe de Deus (Θεοτόκος) – e de forma alguma o negamos – é uma tradição histórica; quase todas as outras coisas dizem respeito à tradição disciplinar. No entanto, é inconsistente e inconclusivo (ἀσυλλόγιστον) argumentar a partir de uma espécie de tradição para provar outra. Abordamos as tradições históricas na quarta tese; vamos agora considerar as demais.

8 – Em relação à autoridade das tradições que se referem aos costumes, é preciso buscar a origem de sua autoridade ou na natureza[5] ou nas Escrituras, e isso ou principalmente de modo absoluto e por si, ou analogamente[6], seja clara ou obscuramente[7]. Se algo for estabelecido pela Igreja na totalidade, mas estiver fora, além ou contra essa autoridade, ou por qualquer outra [autoridade] que não as mencionadas, os fiéis [piedosos] não devem dar atenção a tal coisa, mesmo que venha da própria Igreja.

9 – Considerando que a autoridade dos nossos costumes naturais provém da própria Natureza, e a autoridade dos costumes sobrenaturais relacionados à vida eterna provém da Escritura Sagrada, a simples comparação da Natureza com a Sagrada Escritura demonstra claramente que, assim como nada referente aos costumes naturais está fora, além ou contra a Natureza, ensinado somente por ela, do mesmo modo, para os costumes sobrenaturais relacionados à vida futura, nada deve ser ensinado ou pode ser ensinado fora, além ou contra a Escritura Sagrada. A menos, talvez, que alguém considere a Natureza perfeita em sua essência, enquanto a Escritura Sagrada seria menos perfeita; e, portanto, eles afirmem que Deus revelou mais na Natureza do que na Escritura Sagrada.

10 – As distinções das tradições que se referem à disciplina são, no entanto, peculiares. Os papistas costumam apresentá-las nesta questão:

[1] – Algumas são tradições perpétuas, como (por exemplo) a realização de assembleias sagradas etc., e outras são temporárias, como realizá-las em público ou em privado, de manhã ou à tarde etc.

[2] – Algumas são tradições universais e outras, particulares.

[3] – Algumas tradições são necessárias e outras são opcionais. Pois tudo o que diz respeito à fé e à moral é propriamente necessário, quer primária e diretamente, quer secundariamente, os quais estão imutavelmente ordenados ao seu princípio.

11 – A disciplina, por ser apenas uma justa auxiliadora e administradora da fé e dos costumes, exige de nós certa distinção. Pois quaisquer ensinamentos disciplinares que, por sua natureza, espécie e propósito, tenham conexão e conjunção perpétuas, universais e necessárias com a regra da fé e dos costumes, não são tradições. Estes estão contidos abrangentemente nas Sagradas Escrituras, seja de forma expressa ou de modo análogo. Contudo, o que for estabelecido em circunstâncias específicas, essas tradições podem existir ou vir a existir na Igreja. Ainda assim, reconhecemos serem temporárias, particulares e opcionais (liberas).

12 – Para essas tradições que lidam com circunstâncias específicas, o Apóstolo Paulo estabelece a regra em 1 Coríntios 14:40: — “[…] tudo decentemente e com ordem” —, referindo-se ao decoro e ordem honrosos, que em Igrejas individuais são organizados e ordenados para sua conveniência no presente assunto, como diz o mesmo Apóstolo em 1 Coríntios 11. Sêneca, na Epístola 22, declara sabiamente: — “Há certas coisas que só podem ser apontadas por alguém que está presente. O médico não pode receitar por carta o tempo adequado para comer ou tomar banho; ele deve sentir o pulso. Há um velho ditado sobre gladiadores: — ‘ouça o conselho do gladiador na arena’”. No entanto, é preciso manter uma forma e duração definidas para essas tradições. Forma, para as ações externas serem limitadas, para o uso justo delas com verdade e simplicidade, livres de superstição e tirania, ou seja, com a livre consciência da pessoa interior permanecendo ilesa. Quanto à duração, que elas persistam na Igreja apenas até que alcancem seu fim verdadeiro, santo, justo e legítimo. Mas quando a situação muda, elas devem ser abolidas, para não prejudicarem o que é verdadeiro, santo, justo e legítimo, como lemos sobre a serpente de bronze destruída pelo rei Ezequias (2 Reis 18:4[8]).

Paz e graça.

[1] Franciscus Junius, o Velho (1545 – 1602), “On Traditions” (De Traditionibvs — Pars I). Acessado em 2024.

[2] “Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa” (ACF).

[3] “São adequadamente explicadas”, “são defendidas de forma válida”, “são sustentadas com argumentos sólidos”.

[4] “Ausência de algo escrito”, “não escrito”.

[5] Refere-se à Lei Natural, a qual é considerada universal e imutável.

[6] A autoridade deriva da fonte por comparação ou semelhança com princípios já estabelecidos.

[7] A interpretação da fonte pode ser clara e direta, ou obscura e necessitar de maior análise.

[8] “Ele tirou os altos, quebrou as estátuas, deitou abaixo os bosques, e fez em pedaços a serpente de metal que Moisés fizera; porquanto até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso, e lhe chamaram Neustã” (ACF).

[9] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.

SOBRE AS TRADIÇÕES — PARTE 2

SOBRE A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ — TESES INAUGURAIS DE FRANCISCUS JUNIUS

Sobre a justificação pela fé, teses inaugurais de Franciscus Junius, o Velho, pelas quais ele recebeu testemunho público em Teologia Sagrada, de acordo com as leis da Academia de Heidelberg, com o objetivo de ser aceito.

1 – A justificação é uma ação pela qual Deus torna justo um homem ímpio, de acordo com o bom prazer de sua vontade, e sem qualquer mérito próprio para a salvação.

2 – Portanto, as partes dessa ação divina são duas: — uma, que absolve o homem ímpio de seus pecados (ou a remissão dos pecados); a outra, pela qual a mesma pessoa é feita justa “em Cristo Jesus” — nossa justiça.

3 – A única causa eficiente da justificação é o Deus uno e trino, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

4 – O fim de nossa justificação é, em última instância, nossa salvação e vida eterna; o fim mais elevado, porém, não é outro senão a glória de Deus, de quem vem a justificação.

5 – A matéria da justificação é o Mediador entre Deus e os homens, o verdadeiro Deus e o verdadeiro Homem, “naturezas divina e humana na Pessoa de Jesus Cristo” (Unio Personalis[2]): — em quem, como Redentor perfeito, existem todas as causas da justificação. Aquele que nos amou tornou-se “Emanuel” (que quer dizer “Deus Conosco”), e deu-se a si mesmo por nós.

6 – A forma é que o Filho de Deus, de acordo com seu Espírito ou Deidade, habita completamente em nós, e Ele faz com que sua justiça e obediência sejam nossas, não apenas por imputação diante de Deus, mas também pela aplicação da remissão de pecados, justiça e reconciliação gratuita em si mesmo.

7 – O selo divino dessas coisas é o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho (Filioque), por meio do qual o amor de Deus é derramado em nossos corações, e somos conduzidos a toda verdade, de acordo com a promessa do Filho.

8 – Finalmente, para compreender e receber essas coisas, o instrumento comum dos piedosos é somente a fé (sola fide); pela qual nós, que somos justificados, temos paz com Deus “em Cristo Jesus”, e sem a qual não podemos agradar a Deus (Hebreus 11:6).

9 – Portanto, embora seja dito figurativamente, ainda assim, de modo apropriado e verdadeiro, dizemos que somos justificados somente pela fé (sola fide), independentemente de obras e méritos; também que não somos justificados pelas obras da Lei, mas pela fé que temos livre e graciosamente “em nosso Senhor Jesus Cristo”.

Paz e graça.

[1] Franciscus Junius, o Velho (1545 – 1602), “On Justification By Faith, Inaugural Theses” — https://www.reformedorthodoxy.org/post/introitus-de-fide — Acessado em 2023.

[2] Veja como Richard Müller define a Unio Personalis: — “[…] a aquisição da natureza humana pela pessoa eterna e preexistente do Filho de Deus de tal forma que atrai a natureza humana em unidade com a pessoa divina sem divisão ou separação de naturezas, mas também sem mudança ou confusão de naturezas; todavia de tal forma que os atributos de ambas as naturezas pertençam à pessoa divino–humana e contribuam conjuntamente para a obra de salvação” (MÜLLER apud CAMPOS, Heber Carlos de. A União das Naturezas do Redentor, São Paulo, Cultura Cristã, 2005, p. 86 – 87 — Richard Müller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms, Grand Rapids, Baker, 1986, p. 316).

[3] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.

SOBRE AS TRADIÇÕES — PARTE 2

TESES ELÊNTICAS SOBRE A SAGRADA ESCRITURA

Uma vez que os papistas, vendo que seus dogmas não apenas carecem de fundamento nas Escrituras Sagradas, mas também são claramente comprovados como falsos por elas, trabalham acima de tudo para elevar a autoridade e a perfeição de seus dogmas a fim de confirmar suas próprias ficções, é justo que nós, que lutamos sob a bandeira de Cristo para a derrubada do reino do Anticristo e o estabelecimento do reino de Cristo, nos esforcemos para afirmar e vindicar essa palavra de Deus contra seus erros.

1 – Portanto, para que possamos abordar o assunto, afirmamos que os papistas erram gravemente principalmente em relação a três aspectos: — [1] – quanto à autoridade da Sagrada Escritura, [2] – quanto à sua interpretação, [3] – quanto à sua perfeição.

2 – Quanto à sua autoridade, eles professam abertamente que, com respeito a nós (quoad nos), ela depende primariamente do testemunho da Igreja, como se, para nós, a natureza divina e canônica da Escritura Sagrada devesse ser considerada verdadeira somente por causa do testemunho da Igreja. Por Igreja, no entanto, eles não querem que se entenda aquela que se seguiu imediatamente aos tempos dos Apóstolos, mas sua própria Hierarquia Romana, que o Papa constitui com seu clero, e muitas vezes apenas o próprio Papa, que eles consideram como uma espécie de epítome[2] da Igreja de Roma.

3 – No entanto, deixando de lado a questão de se a Igreja de Roma é a verdadeira Igreja, afirmamos que a autoridade da Sagrada Escritura, mesmo com relação a nós (quoad nos), não depende propriamente do testemunho da Igreja, embora seja verdadeiro, mas sim que o próprio Deus concedeu uma “autoridade divina excepcional” (omni exceptione maiorem) à Escritura, como ele claramente atestou à sua Igreja por discurso, sinais e obras milagrosas, e a sela e confirma privadamente em nossas almas através do testemunho interno de seu Espírito Santo.

4 – Portanto, é certo para nós que essas Escrituras vieram de Deus e são verdadeiramente inspiradas, tanto por sua matéria quanto por sua forma — uma vez que nada além de matéria e forma divinas são encontradas nas Escrituras e em cada um de seus livros canônicos — e também pelo testemunho de Deus por meio do Espírito Santo, que nós mesmos temos se crermos em Cristo Jesus — “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu” (1 João 5:10). Esse Espírito nos ensina todas as coisas (1 João 2:27[3]; João 6:45[4]), abrindo nossos ouvidos para que possamos reconhecer a voz de nosso Pastor e fugir “dos estranhos” (João 10:3 – 5, 27[5]) e nos dando o discernimento pelo qual podemos julgar, cada um de acordo com sua própria compreensão, o divino do humano, o verdadeiro do falso (1 Coríntios 10:15[6]; João 7:17[7]).

5 – Secundariamente a esse testemunho divino, vem a autoridade dos Profetas e Apóstolos (como notários públicos[8] de Deus e da Igreja), que testificam com seu próprio selo que tudo o que está contido nessas Escrituras é a própria palavra de Deus. Eles não funcionam como ministros da Igreja simplesmente (simpliciter), mas como os instrumentos mais seguros do Espírito Santo, santificados, mesmo desde o ventre, para essa tarefa (Jeremias 1:5[9]). Portanto, seu testemunho deve ser atribuído não à razão humana, mas à autoridade divina.

6 – A autoridade da Igreja vem em terceiro lugar, que desde o início transmitiu esse Cânon à posteridade, afirmando sua certeza e distinguindo os livros genuínos e verdadeiros dos adulterados e espúrios, cumprindo seu dever de preservar o depósito[10]. Pois a Igreja daquele tempo não distinguiu os livros canônicos dos apócrifos somente por sua própria autoridade, mas os reconheceu como divinamente separados e, com fé e prudência, pelas quais ela também se sobressaiu na compreensão dos assuntos sagrados, averbou (fundamentou) sua decisão.

7 – Portanto, não negamos que alguma certeza sobre a Sagrada Escritura nos vem do testemunho da Igreja, mas é meramente uma certeza de um tipo externo e não uma certeza que possa, por si só, nos levar a crer. A autoridade de Deus é primária e formal, enquanto a autoridade da Igreja é subordinada e ministerial.

8 – A Igreja é chamada de “coluna (στῦλος) da verdade” (1 Timóteo 3:15[11]), ou seja, porque a Igreja é como uma coluna na qual Deus desejou pendurar sua vontade (como as leis eram penduradas em colunas públicas), para que essa verdade salvadora pudesse ser exposta e conhecida por um grande número de pessoas.

9 – Ela, a Igreja, também é chamada de “fundamento” (ἑδραίωμα[12]), isto é, uma sede firme da verdade, porque na Igreja, à semelhança de um trono ou de uma base, ela se assenta, é preservada e protegida das corrupções humanas. Essa é a verdade de Deus. Mas isso não contraria nossa opinião, pois não é a autoridade da Igreja, mas sua função e ministério adequados que são recomendados aqui.

10 – De fato, o Apóstolo afirma que a Igreja é construída sobre o fundamento, isto é, sobre a doutrina dos Profetas e Apóstolos, sendo o próprio Cristo a pedra angular (Efésios 2:20). E João Crisóstomo (c. 347 – 407 d.C.) não hesitou em dizer que a própria verdade é a coluna e o firmamento da Igreja[13].

11 – Tendo o primeiro erro sido enfraquecido, segue-se o segundo, que consiste na interpretação da Sagrada Escritura. Entretanto, como há dois tipos de interpretação, “uma de palavras e linguagem” e outra de “assuntos que são expressos por meio de palavras quanto por símbolos”, demonstraremos que os papistas erram em ambas.

12 – Pois eles mesmos (com relação ao primeiro tipo de interpretação) rejeitam as fontes primárias da Sagrada Escritura, a saber, o hebraico para o Antigo Testamento e o grego para o Novo Testamento, desejando que sua própria versão da Vulgata Latina, que eles chamam de “Vulgata”, seja considerada autêntica em leituras públicas, debates e pregações, de modo que ninguém ousaria ou presumiria rejeitá-la sob qualquer pretexto. O que provém, sobretudo, de Deus, em termos de matéria e forma, é mais autêntico do que o que provém da engenhosidade humana, e que a fonte é mais pura do que os riachos que dela fluem.

13 – Portanto, mesmo se fosse permitido que a versão da Vulgata fosse a mais precisa e pura, ela não deveria ser equiparada, e muito menos preferida, ao cânone primário, dado que seus conteúdos e palavras são determinados pelo Espírito Santo e, portanto, são “infalíveis” (ἀναμάρτητος). Como outras traduções diversas que são formadas a partir desse cânone para outros idiomas podem ser avaliadas, corrigidas e alteradas pelo julgamento humano com base na confiabilidade do cânone primário, ao qual atribuímos tudo porque é o protótipo da verdade divina entregue por Deus por meio de seus amanuenses, reconhecemos outras traduções como obras humanas, ou seja, imperfeitas.

14 – No entanto, afirmamos que, a partir dessa interpretação humana (tradução), os homens podem obter o que é suficiente para sua salvação, desde que corresponda à dignidade da fonte autêntica em suas partes essenciais, mesmo que não o faça em alguns pontos menores.

15 – Nem suas afirmações sobre a antiguidade de sua tradução se sustentam, uma vez que ela é superada pelas próprias fontes; nem sua afirmação de sua pureza se sustenta, uma vez que ela é muito corrupta em muitos lugares; nem, finalmente, sua afirmação de que deve haver uma edição autêntica absolutamente incontestável para resolver controvérsias religiosas, de modo que a Igreja possa permanecer firme, se sustenta, pois temos o cânone primário ao qual podemos recorrer com segurança em questões de controvérsia (locis).

16 – Quanto ao decreto do Concílio de Trento, atribuímos muito pouca autoridade a ele, assim como fazemos no caso de todos os concílios que ousam decretar qualquer coisa relativa à fé na Igreja de Deus sem a palavra de Deus.

17 – Um complemento a essa seção anterior diz respeito à proibição pela qual eles negam a leitura da Sagrada Escritura ao povo na língua vernácula[14], para que eles não percebam quão miseravelmente estão aprisionados no erro por eles. No entanto, no Antigo Testamento, Deus desejava que suas leis e estatutos fossem lidos anualmente em público diante de homens, mulheres, crianças, escravos e até mesmo de estrangeiros (Deuteronômio 31:12[15]; Neemias 8:3[16]), e Jesus Cristo nos ordena a examinar as Escrituras Sagradas nas quais consiste “a vida [eterna]” (João 5:39; Deuteronômio 32:47[17]). O Apóstolo Paulo também deseja que a palavra de Deus habite ricamente em nossos corações (Colossenses 3:16[18]), por meio da qual cada um dos fiéis pode resistir à Satanás [adversário] — “como em companhia de uma espada” (Efésios 6:17[19]).

18 – Tampouco fazem algo quando dizem que “a Escritura não deve ser confiada aos iletrados”, quando é o próprio ensinamento que torna alguém erudito. De fato, de acordo com o próprio Roberto Belarmino (1542 – 1621), sob o Novo Testamento, “até mesmo os iletrados e as mulheres entendem os mistérios da redenção[20].

19 – Em segundo lugar, eles afirmam que a leitura das Escrituras Sagradas gera heresias, quando isso acontece apenas de uma forma acidental (per accidens[21]). Pois a causa primária que gera as heresias é o vício e a cegueira dos homens com relação às coisas divinas. Entretanto, a vantagem de um bem não deve ser impedida se alguns abusarem do bem, e as Escrituras ensinam isso, e isso é confessado por todos — “[…] Não seles as palavras da profecia deste livro; porque próximo está o tempo” (Apocalipse 22:10).

20 – Em terceiro lugar, eles dizem que as Escrituras são obscuras; pelo contrário, elas são muito claras em si mesmas e iluminam os olhos. Se algumas partes parecem obscuras, isso se deve a uma falha ou cegueira de nossa parte, porque compreendemos apenas na medida em que somos iluminados, ou seja, de forma incerta e parcial (1 Coríntios 13:12[22]).

21 – Os papistas erram não apenas na interpretação das palavras, mas também na interpretação dos assuntos, pois afirmam que as controvérsias não podem ser resolvidas a partir das Escrituras Sagradas, a menos que o sentido autêntico dessas Escrituras seja decidido por nós. E somente esse sentido das Escrituras é afirmado como verdadeiro: — “aquele que o Romano Pontífice entrega em um concílio e aprova por seu próprio julgamento”.

22 – Nós, porém, afirmamos que todos os dogmas de fé necessários à salvação estão claramente e perspicuamente expostos nas Escrituras Sagradas e podem ser extraídos de passagens cujo sentido é fácil por si mesmo e óbvio para qualquer pessoa, exceto, talvez, para aqueles cujos olhos o príncipe deste século cegou, de modo que não obedecem à verdade (2 Coríntios 4:4[23]).

23 – E embora admitamos que a interpretação das Escrituras Sagradas seja necessária na Igreja de Deus, para que possamos alcançar uma compreensão mais exata dos mistérios que nela nos são expostos, negamos que esse direito pertença somente à Igreja de Roma, mas sim a qualquer verdadeiro Pastor da Igreja, publicamente chamado e instruído, para interpretar as Escrituras Sagradas, não de acordo com seu próprio senso e arbítrio (Neemias 8:9), mas pela própria Escritura, de acordo com a “analogia da fé”, quer passagens fáceis e claras sejam apresentadas para a elucidação de outras mais obscuras, quer a própria passagem seja exposta de acordo com suas circunstâncias e a intenção do autor.

24 – Não apenas isso, mas também afirmamos que os crentes individuais, de acordo com sua capacidade e a medida da graça de Cristo, podem interpretar as Escrituras em particular e comparar passagens para investigar a verdade, até mesmo para examinar a interpretação de seu pastor pela “pedra de toque” da Sagrada Escritura (Atos 17:11[24]) como ovelhas de Cristo, discernindo seu alimento a partir do senso comum e do testemunho de fé em si mesmos, de modo que, da mesma forma, eles se rendam à fé em relação à verdade divina, não individualmente à influência da autoridade humana.

25 – Eles proclamam em alto e bom som que a Sagrada Escritura é ambígua, de modo que pode admitir vários sentidos que são repugnantes entre si em instâncias específicas e, portanto, pode ser aduzida (pretextada) pelos próprios hereges para a confirmação de seus erros. No entanto, respondemos que a Escritura Sagrada não é de forma alguma ambígua, mas “os indoutos e inconstantes” inventam novos significados para si mesmos e “torcem” as Escrituras a seu próprio juízo para perdição (2 Pedro 3:16[25]). Não é de surpreender que os hereges abusem das Escrituras Sagradas, uma vez que o próprio Satanás deseja atacá-las, mas podemos e devemos derrotar Satanás com a própria espada da palavra de Deus — a Escritura Sagrada —, da qual Cristo é o Autor, e com as mesmas armas com as quais Ele o derrotou (veja Mateus 4).

26 – Portanto, não é a ambiguidade das Escrituras Sagradas, mas a cegueira ou escuridão maliciosa deles, que é a razão pela qual o Evangelho é para eles “certamente cheiro de morte para morte” (cf. 2 Coríntios 2:16), mas, não obstante, “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (cf. Romanos 1:16).

27 – Tampouco o que eles afirmam é verdadeiro, pois, a menos que haja um juiz supremo cuja interpretação deva ser seguida e que possa obrigar por autoridade, as heresias nunca terão um fim, uma vez que isso nunca acontecerá neste mundo, a saber, que todas as heresias sejam erradicadas (2 Coríntios 11:15[26]). Além disso, o Espírito Santo age com santa violência na Escritura (que afirmamos ser o juiz supremo), mas Ele trabalha dentro das consciências, de modo que elas obedecem à verdade reconhecida pela fé, e este é apenas o caso em que Ele opera eficazmente. No entanto, negamos que as consciências possam ser compelidas por força externa a crer, uma vez que a fé não depende da autoridade humana, mas de Deus (Efésios 2:8[27]), em cujas mãos estão os corações dos homens, e Ele pode incliná-los para onde quiser (Provérbios 21:1[28]).

28 – Nossos adversários desejam afirmar que o Pontífice deles não apenas sucedeu a Pedro, mas também a Moisés, pelo menos no grau de ofício, de modo que ele próprio possa ser o juiz supremo na Igreja de Deus, assim como Moisés foi entre o povo de Israel. No entanto, respondemos que a vocação de Moisés foi extraordinária e recebida imediatamente de Deus, mas a vocação do Romano Pontífice (se admitirmos isso) é mediata e comum. De fato, a vocação de Arão era ordinária, mas legal e típica, não se estendendo aos tempos do Evangelho (Deuteronômio 17:11[29]; veja Números 15). Além disso, tanto Moisés quanto os sumos sacerdotes não julgavam por escolha absoluta, mas de acordo com a Lei de Deus. Quando não havia nenhuma lei ou aviso sobre ela, eles consultavam o próprio Deus, que lhes fornecia as respostas.

29 – Mas negamos tanto que Pedro tenha sido o juiz supremo das controvérsias na Igreja de Deus quanto que o Romano Pontífice tenha sucedido a Pedro nessa questão, uma vez que a Escritura Sagrada não ensina nada disso, nem pode ser provado por qualquer outra fonte.

30 – Mas agora é hora de prosseguirmos para o terceiro ponto, no qual eles, afirmando a imperfeição e (por assim dizer) a insuficiência da Escritura Sagrada, acrescentam não apenas as tradições às quais deram o nome de “palavra não escrita”, sobre as quais falaremos mais tarde, mas também forçam sobre nós como canônicos, os livros que a Igreja sempre chamou de apócrifos (uma vez que foram separados da cripta[30] sagrada; do tesouro sagrado de Deus) para que pudessem colher algo deles para apoiar seus próprios erros.

31 – Mas esses mesmos livros argumentam suficientemente e testificam que não são inspirados (θεόπνευστος), uma vez que estão longe daquela perfeição divina de verdade e majestade que brilha nos escritos verdadeiramente inspirados; e muitas coisas neles não são encontradas nem correspondentes às Escrituras Sagradas nem harmônicas entre si.

32 – Além disso, eles não eram de linguagem profética, nem escritos no padrão divino, nem dados por autoridade divina e santificados pela Igreja de Deus, nem reconhecidos no cânone hebraico da Igreja judaica, nem citados por Jesus Cristo e pelos Apóstolos, que não extraíram deles nenhum testemunho como de livros verdadeiramente inspirados (θεόπνευστος), para demonstrar a verdade de sua própria doutrina.

33 – Os papistas apresentam certos decretos de concílios, mas não concílios nos quais o Espírito de Cristo presidiu, mas sim concílios de homens; seus dogmas foram sancionados, “não pela palavra de Deus, mas contra a palavra de Deus”. Portanto, seria necessário provar que esses concílios são verdadeiros; então, também, que todas as coisas que decretaram nesses concílios, legitimamente, devem ser recebidas sem controvérsia e julgamento — o que negamos!

34 – De fato, reconhecemos que os Pais extraíram certas coisas dos referidos livros, mas com o propósito de moldar a moral, não para confirmar a fé; não a partir de escritos canônicos, mas a partir de escritos eclesiásticos. Portanto, esse argumento não contribui em nada para a questão em disputa, uma vez que até mesmo o próprio Apóstolo cita versículos de autores pagãos (Arato em Atos 17:28[31]; Menandro em 1 Coríntios 15:33[32]; cf. Tito 1:12[33]) e, ainda assim, esses livros não são considerados canônicos.

35 – Os Pais às vezes chamam esses livros de sagrados, até mesmo canônicos, mas em um sentido ambíguo e comparativo quanto a outros escritos humanos, e não em um sentido próprio e unívoco (concordante), como no caso dos livros proféticos e apostólicos. Eles mesmos estão habituados a chamar os livros apócrifos de “protocanônicos” e todos os outros de “deuterocanônicos”, classificando-os em uma posição depois dos livros canônicos como conjunto dos escritos humanos. Concedemos a eles essa posição de bom grado, mas negamos que devam ser recebidos no mesmo grau que os livros canônicos.

36 – Quanto às tradições, no entanto, deve-se observar que aqui estamos lidando com tradições relacionadas à fé e à moral que não têm fundamento nas Escrituras Sagradas, seja diretamente ou por justa implicação. No entanto, os papistas desejam que essas tradições sejam recebidas e honradas por nós com o mesmo grau de piedade e reverência que é dado às coisas que são expressamente ensinadas na palavra de Deus.

37 – Afirmamos que tudo o que devemos crer e fazer para nossa salvação está perfeitamente contido nas Escrituras Sagradas, nas quais Deus nos revelou claramente sua vontade, o que pode nos tornar sábios para a salvação (2 Timóteo 3:15[34]), e além do que os crentes fiéis não devem fazer elucubrações — “[não devem] ir além do que está escrito” (cf. 1 Coríntios 4:6). Pois este julgamento permanece: — “[…] ainda que nós [Apóstolos] mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro Evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” (Gálatas 1:8).

38 – De fato, reconhecemos que os Apóstolos não escreveram tudo, nem o que Jesus Cristo fez e disse (João 20:30[35]) nem o que eles mesmos pregaram (pois o mundo inteiro não poderia suportar todos os livros, muito menos contê-los). Entretanto, pela mesma razão, afirmamos que Deus nos apresentou perfeitamente nas Escrituras Sagradas todas as coisas, tanto universais quanto comuns, que Ele revelou, bem como tudo o que é necessário saber para a salvação, particularmente as coisas que dizem respeito à fé e à moral. Quanto à lei geral dos cultos (praxes), assim foi estabelecida pelo Apóstolo Paulo: — para que todas as coisas sejam feitas “decentemente e com ordem” (1 Coríntios 14:40).

39 – Portanto, admitimos todas as tradições, sejam elas chamadas Apostólicas ou Eclesiásticas, se concordarem com a Escritura; se discordarem, nós as rejeitamos; e se não concordarem nem discordarem, nós as deixamos como opcionais (liberas). Por exemplo, acreditamos que a Bem–aventurada Maria foi virgem antes de dar à luz, de acordo com a Escritura (Mateus 1:25[36]), mas quanto ao fato de ter permanecido virgem depois de dar à luz, não consideramos isso um dogma de fé, mas algo digno de aceitação.

40 – Portanto, os papistas trabalham em vão para provar que a “palavra não escrita” tem a mesma autoridade que a “palavra escrita”, uma vez que o autor de ambas é um só. Pois eles devem primeiro provar que tal palavra não escrita existe e que algumas coisas devem ser cridas à parte do que está contido nas Escrituras Sagradas — o que negamos!

41 – Eles dizem que a Igreja não pode errar e, portanto, os estatutos eclesiásticos devem ser aceitos, mas nós negamos que a Igreja não possa errar, pois ela consiste de seres humanos que são apenas “parcialmente” regenerados. Além disso, mesmo que concedêssemos que a verdadeira Igreja não pode errar, ainda assim negamos que ela possa determinar qualquer coisa além do que está contido nas Escrituras Sagradas, pois, assim juntamente com os Apóstolos (dos quais é universalmente confessado que não podiam errar na doutrina), Paulo nega enfaticamente que qualquer coisa possa ser ensinada na Igreja além do que eles receberam de Cristo (Gálatas 1:8, 9[37]).

42 – Portanto, a Escritura Sagrada é uma regra suficiente para a nossa fé e é a “pedra de toque” (Lydium lapidem[38]) com a qual todas as coisas devem ser examinadas para que possamos reter o que é bom [para esta vida e a eterna]. Concluímos e afirmamos resolutamente que não é permitido a nenhuma criatura subtrair ou acrescentar algo à Escritura Sagrada (Deuteronômio 4:2[39]; Apocalipse 22:18, 19[40]).

Paz e graça.

[1] Franciscus Junius, o Velho (1545 – 1602), “Elenctic Theses on Holy Scripture” — https://www.reformedorthodoxy.org/post/3-theses-elencticae-de-scriptura-sacra — Acessado em 2023.

[2] Aquele que como agente simboliza a Igreja de Roma, que serve como modelo ideal de verdade para Igreja de Roma — aquele que é o verdadeiro “compêndio da fé” para a Igreja de Roma.

[3] “E a unção que vós recebestes dEle, fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nEle permanecereis” (ACF).

[4] “Está escrito nos Profetas: — E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim” (ACF).

[5] “A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas, e as traz para fora. E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas de modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem” (ACF).

[6] “Falo como a entendidos; julgai vós mesmos o que digo” (ACF).

[7] “Se alguém quiser fazer a vontade dEle, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo” (ACF).

[8] Representantes oficiais.

[9] “Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por Profeta” (ACF).

[10] A Igreja é a “coluna e baluarte da verdade” porque ambos os vocábulos têm a conotação de prover suporte. O Apóstolo Paulo enfatiza, em oposição aos falsos mestres e falsos ensinos, que a verdade do Evangelho de Cristo é encontrada na Igreja de Deus e sustentada pela mesma (2 Timóteo 2:19). Em última análise, a Igreja sustenta a própria fundação dos Profetas e Apóstolos (Efésios 2:20). Deus dá sua Palavra à Igreja e a Igreja a aceita e preserva (depósito sagrado).

[11] “Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” (ACF).

[12] “Hedraíōma” – a base, que em última análise sustenta o próprio fundamento (usado apenas em 1 Timóteo 3:15).

[13] “Saberás como proceder na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo: — coluna e sustentáculo da verdade”. Não como o templo judaico. Contém a fé e a pregação, pois a verdade é coluna e sustentáculo da Igreja (Comentário às Cartas de São Paulo, Parte 3, Homilia 11, Homilias sobre 1 Timóteo, p. 44).

[14] Uma língua vernácula (ou vernácula) contrasta com uma “língua padrão”. Refere-se à língua ou dialeto que normalmente é a língua nativa de seus falantes. Vernáculo é o nome que se dá ao idioma próprio de um país, de uma nação ou região; é a língua nacional. Vernáculo é utilizado sempre para designar o idioma puro, utilizado tanto no falar, como no escrever; sem utilizar palavras de idiomas estrangeiros.

[15] “Ajunta o povo, os homens e as mulheres, os meninos e os estrangeiros que estão dentro das tuas portas, para que ouçam e aprendam e temam ao Senhor vosso Deus, e tenham cuidado de fazer todas as palavras desta Lei” (ACF).

[16] “E leu no livro diante da praça, que está diante da porta das águas, desde a alva até ao meio-dia, perante homens e mulheres, e os que podiam entender; e os ouvidos de todo o povo estavam atentos ao livro da Lei” (ACF).

[17] “Porque esta palavra não vos é vã, antes é a vossa vida; e por esta mesma palavra prolongareis os dias na terra a qual, passando o Jordão, ides a possuir” (ACF).

[18] “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração” (ACF).

[19] “Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (ACF).

[20] Bellarmino, “De Verbo Dei”, III.ii, Argumentum nona, em De controversiis christianae fidei adversus hujus temporis haereticos; Opera omnia, Neapoli: J. Giuliano, 1:100

[21] Locução latina aplicada na linguagem filosófica, por oposição a “per se”, às qualidades acidentais das cousas.

[22] “Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido” (ACF).

[23] “Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do Evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (ACF).

[24] “Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (ACF).

[25] “Falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição” (ACF).

[26] “Não é muito, pois, que os seus ministros se transfigurem em ministros da justiça; o fim dos quais será conforme as suas obras” (ACF).

[27] “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (ACF).

[28] “Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR, que o inclina a todo o seu querer” (ACF).

[29] “Conforme ao mandado da Lei que te ensinarem, e conforme ao juízo que te disserem, farás; da palavra que te anunciarem te não desviarás, nem para a direita nem para a esquerda” (ACF).

[30] Servia como cofre para guardar itens importantes e/ou sagrados.

[31] “Porque nEle vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: — Pois somos também sua geração” (ACF).

[32] “Não vos enganeis: — as más conversações corrompem os bons costumes” (ACF).

[33] “Um deles, seu próprio profeta, disse: — Os cretenses são sempre mentirosos, bestas ruins, ventres preguiçosos” (ACF). Epimênides de Festus, cerca de 600 d.C., ele foi enviado para purificar Atenas de sua poluição ocasionada por Cylon. Ele foi considerado como um adivinho e profeta. As palavras aqui são tiradas provavelmente do seu tratado “Concernente a Oráculos”.

[34] “E que desde a tua meninice sabes as Sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus” (ACF).

[35] “Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro” (ACF).

[36] “E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus” (ACF).

[37] “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro Evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro Evangelho além do que já recebestes, seja anátema” (ACF).

[38] A expressão “pedra de toque” se refere ao significado ou sentido de algo, especialmente quando se trata de uma questão essencial ou fundamental. “Credimus, confitemur et docemus unicam regulam et normam secundum quam omnia dogmata omnesque doctores estimari et judicari oporteat nullam omnino aliam esse quam profética et apostolica scripta […] sola sacra scriptura judex norma et regula agnoscitur, ad quam ceu ad Lydium lapidem omnia dogmata exigenda et judicanda” (BKS, p. 767 e 769).

[39] “Não acrescentareis à Palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando” (ACF).

[40] “Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; e, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro” (ACF).

[41] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.