por C. Matthew McMahon | 9 jun 2025 | TEOLOGIA
1 – A história da heresia.
“O erro se espalha de uma pessoa para outra. É como a peste, que infecta tudo ao seu redor. Satanás, ao infectar uma pessoa com o erro, infecta a muitos outros! O erro de Pelágio se espalhou rapidamente para a Palestina, África e Itália (Thomas Watson)[2]”.
Junto com Pelágio, os evangélicos[3] hoje acreditam que a salvação é pelo caráter[4]. Eles creem que os homens, pela fé, antes que Deus efetue uma mudança em sua natureza, devem exercer sua vontade em direção ao que é bom e crer nas promessas de Deus sem coerção, porque são capazes de fazê-lo. Isso é o que Pelágio acreditava: — um notório herege (heresiarca) do século V, condenado pelos concílios, sínodos, teólogos e pastores de sua época, e por sínodos e concílios subsequentes. Pode-se dizer que a Igreja evangélica hoje está cativa pela Teologia herética de Pelágio, embora não tenha consciência disso. Mas afirmar essa acusação não é suficiente para que se acredite nela. Isso deve ser comprovado. Primeiro, é importante delinear o contexto histórico da vida de Pelágio e sua interação eclesiástica. Em segundo lugar, será útil delinear e refutar sua doutrina e os efeitos subsequentes do semipelagianismo. Em terceiro lugar, haverá uma análise do evangelicalismo e sua continuação do pelagianismo e semipelagianismo. Por fim, haverá uma breve conclusão sobre as descobertas.
2 – A história do Pelagianismo e do Semipelagianismo.
Primeiro, historicamente, Pelágio é conhecido no cenário histórico como um monge britânico de olhos azuis, com o sobrenome Morgan, cuja fama emergiu em Roma no início do século V. Ele estudou a Teologia grega, especialmente a da Escola Antioquena, e demonstrou cedo grande zelo pela melhoria de si mesmo e do mundo[5]. Warfield diz: — “Ele também era constitucionalmente avesso à controvérsia; e embora, em seu zelo pelos costumes cristãos e em sua convicção de que nenhum homem tentaria fazer o que não estivesse persuadido de ter poder natural para realizar, propagasse diligentemente suas doutrinas em particular, foi cuidadoso para não despertar oposição e estava contente em progredir silenciosamente e sem discussão aberta[6]”. Isso, no entanto, não duraria muito. Pelágio, já avançado em idade, demonstrou que suas habilidades exegéticas eram bastante superficiais, como aparece em seu “Comentário sobre as Epístolas de São Paulo[7]”, escrito e publicado no ano 409 d.C. Nesta obra, Pelágio expõe a essência de seu sistema; não, porém, como fruto de labor exegético sóbrio, mas de forma indireta, como reação às doutrinas prevalentes de sua época, buscando introduzir uma inovação. Empenhou-se, com quietude e diligência, na reforma dos costumes decadentes de Roma e atraiu à vida monástica — bem como às suas concepções — o advogado Celéstio, homem de origem distinta, embora obscura em outros aspectos. A Pelágio cabe o papel de autor moral do sistema; a Celéstio, o de seu artífice intelectual[8].
Foi por intermédio deste homem — mais jovem, mais arguto na disputa, mais apto à controvérsia e mais rigorosamente coerente que seu mestre — que a questão alcançou proeminência. Por sua atuação, a controvérsia irrompeu na esfera pública, vindo a receber, então, seu primeiro exame eclesiástico e sua rejeição formal[9].
A acusação de Paulino consistia em sete pontos, nos quais afirmava que Celéstio ensinava as seguintes heresias: — [1] – Adão foi criado mortal, e teria morrido ainda que não tivesse pecado. [2] – A queda de Adão prejudicou somente a ele, não ao gênero humano. [3] – As crianças nascem na mesma condição em que Adão se encontrava antes da queda. [4] – O gênero humano não morre em consequência da queda de Adão, nem ressuscita em virtude da ressurreição de Cristo. [5] – Crianças não batizadas, bem como outros, são salvas. [6] – A Lei, assim como o Evangelho, conduz ao reino dos céus. [7] – Mesmo antes de Cristo, houve homens sem pecado[10]. As proposições principais eram a segunda e a terceira, intimamente ligadas entre si, e que mais tarde se tornariam o ponto nevrálgico da controvérsia. Celéstio respondeu com evasivas, alegando tratar-se de questões especulativas das escolas, que não tocavam a substância da fé, e que, sobre tais pontos, havia variadas opiniões dentro da própria Igreja. Recusando-se a retratar-se dos erros que lhe foram imputados, foi, por sentença sinodal, excluído da comunhão da Igreja[11].
Apenas dois fragmentos dos autos do sínodo acerca dessa investigação chegaram até nós; todavia, é manifesto que Celéstio se opôs às acusações e recusou-se a rejeitar qualquer das proposições que lhe foram imputadas, excetuando apenas aquela que tratava da salvação dos infantes que morrem sem o batismo — sendo esta a única que comportava alguma defesa plausível. No tocante à transmissão do pecado, limitou-se a afirmar que se tratava de uma questão ainda aberta na Igreja, e que ouvira ambas as opiniões da parte de dignitários eclesiásticos — de modo que, segundo ele, o tema requeria investigação e não deveria servir de fundamento para uma acusação de heresia. O resultado natural foi que, ao recusar-se a condenar as proposições que lhe foram atribuídas, Celéstio foi ele próprio condenado e excomungado pelo sínodo[12]. Pouco depois, partiu para Éfeso, onde obteve a ordenação que antes buscara, sendo ali feito presbítero. As doutrinas pelagianas encontraram numerosos aderentes, inclusive na África e na Sicília. Santo Agostinho escreveu diversos tratados em refutação a elas já nos anos de 412 e 415 d.C..
Enquanto isso, Pelágio vivia tranquilamente na Palestina, quando, no verão de 415 d.C., um jovem presbítero espanhol chamado Paulo Orósio (c. 385 d.C.) chegou com cartas de Agostinho para Jerônimo de Estridão (c. 347 – 420 d.C.). No final de julho daquele ano, foi convidado a participar de um sínodo[13] diocesano presidido por João II de Jerusalém (c. 356 – 417 d.C.). Ali, foi interrogado acerca de Pelágio e Celéstio, narrando o processo que culminara na condenação deste último no sínodo de Cartago, bem como as refutações literárias de Agostinho dirigidas a Pelágio. Pelágio foi então convocado, e os procedimentos passaram a consistir num exame de seus ensinamentos[14]. A principal questão levantada foi sua afirmação acerca da possibilidade de o homem viver sem pecado neste mundo. Logo em seguida, dois bispos da Gália — Heros de Arles (408 a 412 d.C.) e Lázaro de Aix (falecido em 441 d.C.) — que então se encontravam na Palestina, apresentaram uma acusação formal contra Pelágio ao metropolita Eulógio de Cesareia. Este, por sua vez, convocou um sínodo de quatorze bispos, que se reuniu em Lida (Dióspolis), em dezembro daquele mesmo ano (415 d.C.), para o julgamento da causa[15].
Talvez nenhuma farsa eclesiástica maior tenha sido encenada do que a exibida por este sínodo. Quando chegou o momento, os acusadores foram impedidos de estar presentes devido a uma doença, e Pelágio enfrentou apenas a acusação por escrito. Pelágio escapou da condenação apenas ao custo de renegar Celéstio e seus ensinamentos, dos quais ele próprio havia sido o verdadeiro pai, e de levar o sínodo a acreditar que ele estava anatematizando as mesmas doutrinas que ele mesmo proclamava. Warfield diz: — “Realmente não há possibilidade de duvidar, como qualquer um verá ao ler os procedimentos do sínodo, que Pelágio obteve sua absolvição aqui por meio de uma ‘condenação mentirosa ou uma interpretação enganosa’ de seus próprios ensinamentos; e Agostinho está perfeitamente justificado em afirmar que a ‘heresia não foi absolvida, mas o homem que negou a heresia’, e que ele mesmo teria sido anatematizado se não tivesse anatematizado a heresia[16]”.
Pelágio logo publicou uma obra “Em Defesa do Livre–Arbítrio”, na qual celebrou sua absolvição e “explicou suas explicações” no sínodo. No entanto, os sínodos do Norte da África enviaram uma carta ao Papa Inocêncio I, buscando seu apoio para condenar Pelágio por sua heresia. Agostinho, junto com outros quatro bispos, acrescentou uma terceira carta, instando Inocêncio a examinar os ensinamentos de Pelágio. Os africanos, incluindo Agostinho, defenderam a necessidade da graça interior, rejeitaram a teoria pelagiana sobre o batismo infantil e declararam Pelágio e Celéstio excomungados até que retornassem à ortodoxia. O estudioso bíblico Jerônimo se juntou a Agostinho na condenação de Pelágio, chamando-o de “cão corpulento […] abatido pelo peso do mingau”. Inocêncio morreu, e Zózimo o substituiu, sendo mais simpático a Celéstio. Zózimo apoiou Celéstio, escrevendo uma carta dura e arrogante à África, proclamando Celéstio “católico” e exigindo que os africanos comparecessem em Roma dentro de dois meses para sustentar suas acusações, ou as abandonassem. Após a chegada dos documentos de Pelágio, Zózimo enviou outra carta (setembro de 417 d.C.), na qual, com a aprovação do clero, declarou Pelágio e Celéstio ortodoxos, repreendendo severamente os africanos por seu julgamento precipitado[17].
Os bispos africanos reuniram-se, em 418 d.C., em Cartago e declararam: — “somos auxiliados pela graça de Deus, por meio de Cristo, não apenas para conhecer, mas para fazer o que é correto, em cada ato individual, de modo que sem a graça somos incapazes de ter, pensar, falar ou fazer qualquer coisa relacionada à piedade”. Essa declaração fez Zózimo hesitar. Por fim, Pelágio e Celéstio foram condenados como hereges e forçados ao exílio. Os bispos exilados foram expulsos de Constantinopla por Ático (em 424 d.C.); diz-se que foram condenados em um sínodo cilício em 423 d.C., e em um sínodo antioqueno (em 424 d.C.). O fim estava próximo. A heresia pelagiana foi oficialmente condenada no Concílio de Éfeso em 431 d.C., um ano após a morte de Agostinho. Então, o famoso segundo Sínodo de Orange reuniu-se sob a presidência de Cesário naquela antiga cidade em 3 de julho de 529 d.C., elaborando uma série de artigos moderados que receberam a ratificação de Bonifácio II no ano seguinte, condenando a heresia pelagiana e o semipelagianismo[18], consolidando completamente o agostinianismo.
É igualmente importante destacar a natureza histórica do semipelagianismo e seu mais ardente defensor, Jacobus Arminius (Jacó Armínio). Por meio do arminianismo, o pelagianismo é mantido vivo. Jakob Hermanszoon (James Harmensen) nasceu em 1560. Este era seu nome de origem holandesa, mas ele é mais conhecido por seu nome latinizado – Jacobus Arminius (1560 – 1609). Quando ainda era um jovem adolescente, trabalhando como servo em uma hospedaria pública, um patrono notou sua inteligência e agudo intelecto para alguém tão jovem, e, como resultado, esse patrono decidiu oferecer-lhe a oportunidade de estudar na Universidade de Utrecht. Ele apoiou Armínio até sua morte, e então outro patrono continuou a financiar sua educação. Armínio pôde então frequentar a Universidade de Marburg, em Hesse, e, finalmente, a Universidade de Leiden. Ele foi até enviado a Genebra enquanto Teodoro Beza (1519 – 1605) presidia lá, mas se entregou à insubordinação e a um espírito de autossuficiência. Ele falava privadamente com outros estudantes contra os professores de lá e acabou sendo expulso da universidade. Após deixar Genebra, ele viajou pela Itália e depois retornou a Genebra, onde já contava com um grande número de seguidores. Ao retornar, como resultado de sua popularidade, o povo decidiu nomeá-lo ministro de Amsterdã.
Após servir como ministro por algum tempo, Armínio foi chamado para lecionar na Universidade de Amsterdã, sob a condição de que aderisse à Confissão Belga. Armínio prometeu lealdade à confissão ao assumir o cargo de professor. Um dos artigos da Confissão Belga afirma o seguinte: — “Artigo 16 – Cremos que Deus, quando o pecado do primeiro homem lançou Adão e toda a sua descendência na perdição (Romanos 3:12), mostrou-se como Ele é, a saber: — misericordioso e justo. Misericordioso, porque Ele livra e salva da perdição aqueles que Ele, em seu eterno e imutável conselho (João 6:37, 44; João 10:29; João 17:2, 9, 12; João 18:9), somente pela bondade, elegeu (1 Samuel 12:22; Salmos 65:4; Atos 13:48; Romanos 9:16; Romanos 11:5; Tito 1:1) em Jesus Cristo, nosso Senhor (João 15:16, 19; Romanos 8:29; Efésios 1:4, 5), sem levar em consideração obra alguma deles (Malaquias 1:2, 3; Romanos 9:11 – 13; 2 Timóteo 1:9; Tito 3:4, 5). Justo, porque Ele deixa os demais na queda e perdição, em que eles mesmos se lançaram (Romanos 9:19 – 22; 1 Pedro 2:8)”. Esse tipo de ensino, um ensino reformado sólido no estilo de João Calvino (1509 – 1564) e, posteriormente, de François Turrettini (1623 – 1687), era ao que Armínio jurou lealdade, embora, na realidade, não acreditasse nisso. Ele foi um indivíduo escandaloso, de mente dupla e obscura.
Após um ou dois anos, ele foi considerado um homem escandaloso. Era sua prática ensinar as doutrinas da graça em conformidade com a Confissão Belga em sala de aula, mas, ao mesmo tempo, distribuía manuscritos confidenciais privados entre seus alunos[19]. Por meio dessa “duplicidade”, ele conseguia manter sua popularidade, enquanto, simultaneamente, contaminava os estudantes sob sua tutela com os mesmos erros do “arminianismo” nos quais ele realmente acreditava.
Os Estados Gerais dos Países Baixos enviaram representantes das Igrejas para interrogar Armínio e apurar a veracidade dos rumores sobre suas crenças. O processo envolveria um debate público, cujos resultados seriam apresentados ao Sínodo Nacional para decidir sobre possíveis medidas eclesiásticas. Armínio negou os rumores (o que, na verdade, era uma mentira para encobrir seu comportamento controverso) e aceitou reunir-se com o conselho sob uma condição: — que, caso encontrassem algo errado, não o denunciassem ao Sínodo. Que estratagema era esse? Percebendo sua recusa sutil, os deputados recusaram-se a prosseguir com a discussão, considerando que Armínio não agia com honestidade ou integridade. Mais tarde, convocaram-no para um conselho com Classis, um teólogo reformado, mas ele se recusou a participar de um sínodo aberto. Essa permaneceu sua postura daí em diante. Sua estratégia consistia em conquistar o apoio de figuras seculares do estado e da universidade antes de divulgar publicamente suas ideias “novas e radicais”. Isso é significativo, pois o arminianismo, assim como seu predecessor pelagianismo, é visto como a salvação do homem secular. Quando uma heresia emerge, raramente é franca e aberta em seus estágios iniciais. Grupos heréticos quase nunca se mostram honestos e transparentes até que ganhem força suficiente para assegurar alguma popularidade: — assim como ocorreu com Pelágio, o mesmo se deu com Armínio[20].
O objetivo de Armínio era unir todos os cristãos, exceto os papistas, sob uma forma comum de irmandade doutrinária. Se esse era realmente o caso, por que era tão difícil para ele ser “julgado” teologicamente em um fórum aberto? Sua agenda e motivos revelam que seu objetivo era verdadeiro, mas não para o bem da Igreja. Em suas visões (consideradas não ortodoxas e heréticas), ele concordava substancialmente com as cinco doutrinas estabelecidas por seus predecessores, mas de maneira mais refinada. Ele morreu em 1609, antes que pudesse ser levado publicamente a um sínodo. Muitos esperavam que, com a morte de Armínio, o arminianismo desaparecesse rapidamente. Infelizmente, sua doutrina contagiante já havia influenciado muitos estudantes mais jovens, e logo surgiu um grupo chamado os Remonstrantes.
Em 1610, os Remonstrantes se organizaram em um grupo e apresentaram uma “Remonstrância” aos Estados Gerais da Holanda, Dinamarca, Bélgica e Países Baixos. A palavra “Remonstrância” significa “oposição ou objeção vigorosa”. Esses homens estavam convencidos de que deveriam continuar os ensinamentos de Armínio de forma precisa e ordenada. Seu objetivo era conquistar o favor do governo e garantir proteção contra as censuras eclesiásticas às quais se sentiam expostos. Eles tentaram fervorosamente promover um homem chamado Conrad Vorstius (1569 – 1622), um herói de seu novo partido, para ocupar a cadeira de Teologia em Leiden. Quando o rei Jaime I (o mesmo rei Jaime da Inglaterra) descobriu isso, ele exortou os Estados Gerais, por meio de uma carta, a não admitirem um homem com tais erros e inimigo do Evangelho. Vorstius foi impedido, por pouco, mas outro, Simão Episcópio (1583 – 1643), surgiu logo depois. O arminianismo estava se espalhando rapidamente nessa época.
Por mais que hoje alguns considerem deplorável a interferência do Estado nos assuntos da Igreja, nos tempos antigos a prática era bem diferente. O príncipe Maurício de Orange, líder da região na época, opunha-se ao trabalho dos Remonstrantes e desejava a convocação de um Sínodo Nacional contra eles. Como resultado da determinação do príncipe Maurício em erradicar o arminianismo dos Países Baixos, em 13 de novembro de 1618, um concílio nacional foi iniciado na cidade de Dordrecht (também abreviada como “Dort” ou “Dordt”). O sínodo reuniu 39 pastores e 18 presbíteros governantes das Igrejas belgas, além de 5 professores da Universidade da Holanda. Havia também delegados de Igrejas reformadas de toda a região. Pelo menos 4 pastores e 2 presbíteros de cada província participaram do sínodo: — homens da França, Suíça, República de Genebra, Bremen e Emden, além de diversos deputados da Igreja belga, alguns puritanos ingleses, como Joseph Hall (1574 – 1656) e John Davenant (1572 – 1641), e delegados da Escócia. Com uma assembleia tão sublime, Joseph Hall foi levado a dizer que “não havia lugar sobre a terra tão semelhante ao céu como o Sínodo de Dordrecht, e onde ele estaria mais disposto a habitar”.
O Sínodo de Dort foi convocado para examinar a Remonstrância dos arminianos, bem como sua conduta cristã. Tanto sua doutrina quanto seu comportamento estavam “em julgamento”. Ambos eram extremamente importantes, uma vez que um escândalo já havia recaído sobre Armínio, e esses homens estavam propagando os mesmos ensinamentos. É lamentável, mas os Remonstrantes consideraram-se maltratados por causa disso e não compareceram às reuniões, exceto para apresentar suas proposições na forma de cinco artigos no início. O concílio durou mais de um ano.
Após a conclusão do Sínodo em 1619, os participantes emitiram a seguinte censura por decisão unânime – pois examinaram séria e responsavelmente os princípios arminianos, “condenando-os como erros pestilentos e contrários às Escrituras” e declararam que aqueles que os sustentavam e divulgavam eram “inimigos da fé das Igrejas belgas e corruptores da verdadeira religião”. Eles também depuseram os ministros arminianos, excluíram eles e seus seguidores da comunhão da Igreja, suprimiram suas assembleias religiosas e, com o apoio do governo civil, que ratificou todas as suas decisões, enviaram vários clérigos desse grupo e seus adeptos para o exílio[21]. Não os trataram como réprobos, mas como indivíduos sob disciplina eclesiástica.
3 – A Teologia pelagiana e semipelagiana.
A Teologia de Pelágio, ao contrário de algumas tentativas modernas de suavizá-la, não é difícil de compreender. “A essência da Teologia de Pelágio era o desenvolvimento ético do homem, como os gregos o ensinavam, resultando finalmente na perfeição, alcançada simplesmente por suas próprias capacidades naturais[22]”. Calvino, de forma mais direta, afirma: — “Ainda assim, essa timidez não impediu Pelágio de surgir com a ficção profana de que Adão pecou apenas para sua própria perda, sem prejudicar sua posteridade. Por meio dessa sutileza, Satanás tentou encobrir a doença e, assim, torná-la incurável. Mas quando foi demonstrado pelo claro testemunho da Escritura que o pecado foi transmitido do primeiro homem a toda a sua posteridade (Romanos 5:12), Pelágio argumentou que ele era transmitido por imitação, não por propagação[23]”. Pelágio insistia que a tendência ao pecado é uma escolha livre do homem, e não herdada de Adão. Seguindo esse raciocínio, não há necessidade de graça divina; o homem deve simplesmente decidir fazer a vontade de Deus. O próprio Pelágio disse: — “Eu afirmei isso em prol do livre–arbítrio. Deus é seu auxiliador sempre que ele escolhe o bem; o homem, no entanto, quando peca, é o único responsável, pois age sob a direção de um livre–arbítrio[24]”. Pelágio acreditava que o objetivo moral da vida era a perfeição sem pecado e que tal perfeição poderia ser alcançada sem a ajuda de uma graça especial ou adicional. A lógica que ele usava era que mandamentos bíblicos como “Sede, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mateus 5:48) implicam “a capacidade do ouvinte de obedecer ao mandamento”. Além disso, Pelágio ensinava que os pecadores morrem por seus próprios pecados, não pelo pecado de Adão. O único remédio para os pecadores é a justificação pela fé[25]. Pelágio disse: — “Nós distinguimos três coisas, organizando-as em uma certa ordem graduada. Colocamos em primeiro lugar a ‘capacidade’; em segundo, a ‘vontade’; e em terceiro, a ‘atuação’. A ‘capacidade’ situamos em nossa natureza, a ‘vontade’ em nosso arbítrio, e a ‘atuação’ no efeito. A primeira, isto é, a ‘capacidade’, pertence propriamente a Deus, que a concedeu à sua criatura; as outras duas, isto é, a ‘vontade’ e a ‘atuação’, devem ser atribuídas ao homem, porque elas fluem da fonte da vontade. Portanto, por sua vontade e por realizar uma boa obra, o louvor pertence ao homem; ou melhor, tanto ao homem quanto a Deus, que lhe concedeu a ‘capacidade’ para sua vontade e obra, e que sempre, por meio da ajuda de sua graça, auxilia até mesmo essa capacidade[26]”.
Os princípios centrais da doutrina de Pelágio sobre o pecado são resumidos por Celéstio: — “O pecado de Adão prejudicou apenas a ele, não a raça humana” e “a Lei conduz ao reino, assim como o Evangelho[27]”. Em outras palavras, Pelágio defendia que, ao seguir os mandamentos bíblicos, “se quisermos, podemos”. O Catecismo Racoviano[28] (predominante entre os unitarianos ingleses e americanos dos séculos XVIII e XIX) delineia a doutrina de Pelágio ao adotar os seguintes pontos: — [1] – O pecado de Adão afetou apenas ele mesmo. [2] – As crianças nascem no mesmo estado moral em que Adão foi criado. [3] – Todo homem possui a capacidade de pecar ou de se arrepender e obedecer quando quiser. [4] – A responsabilidade é exatamente proporcional à capacidade; e as exigências de Deus são ajustadas às diversas capacidades (morais e constitucionais) e circunstâncias dos homens[29].
As diferenças entre o agostinianismo e o pelagianismo são evidentes. Em relação ao pecado original, o agostinianismo ensina que, pelo pecado de Adão, no qual todos os homens pecaram juntos, o pecado e todas as outras punições positivas do pecado de Adão vieram ao mundo. Por meio disso, a natureza humana foi corrompida tanto física quanto moralmente em todas as faculdades de seu ser. Todo homem nasce com uma natureza já tão corrompida que ela não pode fazer nada além de pecar. Isso não significa que os homens são tão maus quanto poderiam ser, mas que são total e completamente afetados em todas as áreas de seu ser – mente, emoções, vontade, corpo e espírito. A propagação dessa condição de sua natureza ocorre por concupiscência. O pelagianismo, por outro lado, ensina que, por sua transgressão, Adão prejudicou apenas a si mesmo, não sua posteridade. Os homens não são pecadores por causa de Adão. Os homens são pecadores porque pecam. Em relação à sua natureza moral, todo homem nasce exatamente na mesma condição em que Adão foi criado. Portanto, não há pecado original.
Em relação ao livre–arbítrio, o agostinianismo ensina que, pela transgressão e pecado de Adão, a liberdade (liberum arbitrium) da vontade humana foi completamente perdida. Em seu estado corrupto atual, o homem só pode querer e fazer o mal. O pelagianismo, por outro lado, ensina que a vontade do homem é livre. Todo homem tem o poder de querer e fazer o bem, assim como o contrário. Portanto, depende de suas próprias ações se ele será bom ou mau. O homem, assim, torna-se a medida de si mesmo.
Em relação à graça, o agostinianismo ensina que, se o homem, em seu estado atual, deseja e faz algo bom, isso é apenas obra da graça de Cristo nele, operando esse bem. É uma operação interior, secreta e maravilhosa de Deus sobre o homem. É uma obra que precede e também acompanha. Pela graça precedente (ou regeneradora), o homem alcança a fé, por meio da qual ele obtém uma percepção do bem e recebe o poder para desejar o bem. Ele precisa da graça cooperante para a realização de cada ato bom individual. Como o homem nada pode fazer sem a graça, também nada pode fazer contra ela. Ela é irresistível. Como o homem por natureza não tem mérito algum, nenhuma consideração pode ser dada à disposição moral do homem na concessão da graça, mas Deus age segundo sua própria vontade livre. O pelagianismo ensina que, embora pelo livre–arbítrio, o qual é um dom de Deus, o homem tenha a capacidade de desejar e fazer o bem sem a ajuda especial de Deus, ainda assim, para facilitar sua realização, Deus revelou a Lei; para facilitar ainda mais, a instrução e o exemplo de Cristo o auxiliam; e, para uma realização ainda mais fácil, até mesmo as operações sobrenaturais da graça lhe são concedidas. A graça, no sentido mais limitado (influência graciosa), é dada apenas àqueles que a merecem pelo uso fiel de seus próprios poderes. No entanto, o homem ainda pode resisti-la.
Em relação à predestinação e à redenção, o agostinianismo ensina que, desde a eternidade, Deus fez um decreto livre e incondicional para salvar alguns (ainda que esse número não seja necessariamente “pequeno”) da “massa de perdição”, corrompida e sujeita à condenação. Aqueles que Ele predestinou para essa salvação, concede os meios necessários para esse fim. Quanto aos demais, que não pertencem a esse número de eleitos, Ele os deixa em seus pecados e decreta condená-los ativamente por isso. Quanto à redenção, Cristo veio ao mundo e morreu apenas pelos eleitos. Cristo não oferece expiação àqueles que não salva. O pelagianismo ensina que o decreto de eleição e reprovação de Deus fundamenta-se na presciência. Em outras palavras, àqueles que Deus previu que guardariam seus mandamentos, Ele predestinou à salvação (o que, na realidade, se baseia em obras). Aos outros, que Ele não previu que chegariam à fé, deixou à condenação. Quanto à expiação, a redenção de Cristo constitui uma expiação geral por todos os homens. No entanto, apenas aqueles que de fato pecaram necessitam de sua morte expiatória. Todos, contudo, por sua instrução e exemplo, podem ser conduzidos a uma perfeição e virtude superiores[30].
O pelagianismo assumiu forma mais sutil nos ensinos de Jacó Armínio. Armínio, o mais proeminente de sua estirpe, é conhecido como um semipelagiano[31]. É impossível chamá-lo de semiagostiniano, pois sua doutrina não é uma forma atenuada dos ensinos de Agostinho, mas uma forma modificada dos pensamentos de Pelágio. As modificações são sutis, porém significativas. Os semipelagianos creem que a queda no Éden afetou toda a descendência de Adão, mas não de forma total. Os homens estão “doentes pelo pecado”, mas “não mortos no pecado”. Agostinho ensinava que os homens estão “mortos em delitos e pecados”, conforme Romanos 1 — 3 e Efésios 2. Já o semipelagianismo sustenta que os homens estão “de certo modo vivos”, nunca totalmente mortos, o que torna suas vontades livres suficientemente capazes de escolher entre o bem e o mal — à semelhança de Pelágio. Os semipelagianos também acreditam em uma “expiação geral” (como Pelágio), mas sustentam que todos os homens necessitam dessa expiação (um pelagianismo modificado). Ainda que Cristo tenha morrido por todos os homens, abrindo-lhes um caminho, a eficácia de sua morte “não é aplicada” até que o homem, por seu próprio “livre–arbítrio” (liberum arbitrium), escolha aceitar essa expiação. Os homens são livres, e não necessariamente vinculados a coisa alguma além de sua vontade neutra e desejos, que podem optar tanto pelo bem quanto pelo mal[32].
Em oposição ao pelagianismo e ao semipelagianismo, o agostinianismo segue a exposição bíblica da doutrina do homem[33]. Há dois aspectos para entender o pecado que devem ser notados. O primeiro é em termos do pecado original (o primeiro pecado no Jardim) e o segundo é a consequência desse pecado original, chamada de depravação total. O Breve Catecismo de Westminster, na pergunta 15, indaga: — “Qual foi o pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados?”. Essa questão gira em torno do primeiro pecado cometido – o pecado original de Adão. A resposta é: — “O pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados foi o ato de comerem o fruto proibido (Gênesis 3:6 – 8)”. A consequência de comer esse fruto proibido foi quebrar a Aliança com Deus. Adão transgrediu a Lei de Deus e mergulhou toda a humanidade no pecado. Esse pecado é imputado a toda a sua descendência e também é rotulado como a imputação do “pecado original”.
Como resultado da imputação do pecado, todos os homens estão infectados pelo pecado e corrompidos em todas as faculdades de seu ser. Isso é chamado de depravação total. Os efeitos do pecado são biblicamente evidentes, e as perguntas 18 e 19 do Breve Catecismo de Westminster apresentam claramente o quadro bíblico: — a pecaminosidade do estado em que o homem caiu consiste na culpa do primeiro pecado de Adão, na falta da justiça original e na corrupção de toda a sua natureza, o que é comumente chamado de Pecado Original; juntamente com todas as transgressões reais que procedem dele (Romanos 5:19; Romanos 3:10; Efésios 2:1; Salmos 51:5; Mateus 15:19, 20). A depravação total, portanto, é um rótulo para a completa miséria em que os homens caíram. Toda a humanidade, por sua queda, perdeu a comunhão com Deus, está sob sua ira e maldição, e assim ficou sujeita a todas as misérias desta vida, à própria morte e às dores do inferno para sempre (Gênesis 3:8, 24; Efésios 2:3; Gálatas 3:10; Romanos 6:23; Mateus 25:41).
A Depravação Total não é depravação absoluta ou completa. Os homens não são tão vis quanto poderiam ser. Em Gênesis 20:6, por exemplo, Abimeleque é restringido pela mão de Deus para não tocar Sara, esposa de Abraão. Os homens têm uma certa limitação ao pecado que Deus impõe sobre eles. Ele permite que vão apenas até certo ponto (1 Tessalonicenses 2:16). Contudo, devido à imputação do pecado original de Adão a toda a sua posteridade, os homens são incapazes de agradar a Deus de qualquer forma e, ao contrário, são propensos ao mal em todas as áreas das faculdades de seu ser. O Sínodo de Dort afirma: — “um tronco corrupto produziu uma descendência corrupta[34]”. Turretini assevera, corretamente, que há uma “desordem universal em sua natureza […][35]”. Ele diz: — “Os homens não são apenas desprovidos de justiça, mas também cheios de injustiça[36]”. William Ames afirma que, desde a Queda, há a “[…] corrupção total do homem […][37]”. William Perkins define assim: — “Pecado original, que é a corrupção gerada em nossa primeira concepção, pela qual toda faculdade da alma e do corpo está inclinada e disposta para o mal[38]”. Perkins prossegue explicando que a mente do homem recebeu de Adão: — [1] – “Ignorância”, isto é, uma falta, ou melhor, uma privação do conhecimento nas coisas de Deus, seja no que concerne à sua verdadeira adoração, seja à felicidade eterna; [2] – “Impotência”, pela qual a mente, por si só, é incapaz de compreender as coisas espirituais, mesmo quando ensinadas; [3] – “Vaidade”, em que a mente toma a falsidade por verdade e a verdade por falsidade — uma inclinação natural a conceber e desejar somente o que é mau[39].
A depravação total torna os homens incapazes de fazer o bem. Ames afirma: — “A escravidão ao pecado consiste no fato de o homem estar tão cativado pelo pecado que não tem poder para se libertar dele […] pelo contrário, ele prefere se deleitar nele[40]”. Mas o que exatamente é essa escravidão? Ames diz que “o início da morte espiritual, na forma de uma realização consciente, é a escravidão espiritual[41]”. O Sínodo de Dort oferece uma resposta abrangente: — “[…] todos os homens são concebidos em pecado e são, por natureza, filhos da ira, incapazes de realizar o bem salvífico, propensos ao mal, mortos em pecado e escravizados a ele; e, sem a graça regeneradora do Espírito Santo, eles não são capazes nem desejam retornar a Deus, reformar a depravação de sua natureza ou se dispor à reforma[42]”. Diferentemente de Pelágio, que ensinava que o homem é bom, e do semipelagianismo, que ensinava que o homem está doente, o agostinianismo, junto com a Bíblia, ensina que o homem está morto em pecado. Christopher Love diz: — “[…] ele está espiritualmente morto. Por exemplo, você sabe que um homem morto não sente nada. Faça o que quiser com ele, ele não o sente. Assim, um homem que está espiritualmente morto não sente o peso de seus pecados, embora sejam um fardo pesado que o pressiona para o abismo do inferno. Ele é um estranho à vida de piedade, sem sensibilidade, entregue a um senso reprovável, de modo que não sente o peso e o fardo de todos os seus pecados[43]”. Os Cânones do Concílio de Orange (que se reuniu para condenar os primórdios do semipelagianismo) condenam: — “qualquer um [que] nega que é o homem inteiro, isto é, corpo e alma, foi ‘mudado para pior’ pelo pecado de Adão, mas acredita que a liberdade da alma permanece intacta e que apenas o corpo está sujeito à corrupção, está enganado pelo erro de Pelágio e contradiz a Escritura que diz: — ‘A alma que pecar, essa morrerá’ (Ezequiel 18:20); e, ‘Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis?’ (Romanos 6:16)[44]”.
As Escrituras estão repletas de referências ao estado do homem como alguém morto em pecado e escravizado a ele: — Gênesis 6:5; Gênesis 8:21; Jeremias 17:9; Salmos 51:5; Romanos 3:10 – 18; Isaías 64:6; Ezequiel 11:19; Colossenses 2:13; Efésios 2:1, 5. Três pontos principais podem demonstrar a posição bíblica de forma sucinta: — [1] – O homem caído não pode fazer ou realizar qualquer bem aos olhos de Deus (Mateus 7:17, 18; 1 Coríntios 12:3; João 15:4, 5; Romanos 8:7, 8). [2] – O homem caído não pode compreender ou apreender o bem do Evangelho ou das Escrituras (Atos 16:14; Efésios 4:18; 2 Coríntios 3:12 – 18; João 1:11; João 8:43; Mateus 13:14; 1 Coríntios 1:18, 21; 1 Coríntios 2:14). [3] – O homem caído não deseja nem tem quaisquer desejos voltados para o que é bom aos olhos de Deus (Mateus 7:18; João 3:3; João 8:43; João 15:5; João 6:64, 65; Ezequiel 11:19; Efésios 2:1, 5). Como John Owen afirma: — “Mas objetar-se-á — como tem sido feito contra esta doutrina desde os dias de Pelágio — ‘Que tal suposição torna vãs e inúteis todas as exortações, mandamentos, promessas e ameaças — que compõem todo o modo da comunicação externa da vontade de Deus para conosco; pois, com que propósito se exortam cegos a verem ou mortos a viverem, ou se prometem recompensas a eles com base nisso? Se alguém assim tratasse pedras, não seria isto vão e ridículo, justamente por causa de sua impotência em corresponder a tais propostas de nossa parte? E o mesmo se supõe aqui com relação aos homens, quanto à sua capacidade nas coisas espirituais’[45]”.
4 – O cativeiro pelagiano e semipelagiano da Igreja evangélica.
A Igreja evangélica, de maneira geral, está atualmente cativa dos ensinamentos de Pelágio. Este, que já havia contaminado a Igreja em seu próprio tempo, estende seus tentáculos doutrinários através dos séculos, sob formas cismáticas variadas. Pelágio envenenou a doutrina de homens das mais diversas cores teológicas ao longo da história. Por exemplo, o teólogo neo–ortodoxo Heinrich Emil Brunner (1889 – 1966), seguindo Karl Barth (1886 – 1968), diz: — “O pecado original não se refere à transgressão de Adão na qual todos os seus descendentes participam; mas afirma o fato de que os descendentes de Adão estão envolvidos em sua morte, porque eles próprios cometem pecado[46]”. A Igreja Ortodoxa Oriental ensina que, “embora Adão e Eva tenham se rebelado e caído da graça, seu pecado não foi transmitido aos seus descendentes, exceto no que diz respeito à tentação e à moralidade[47]”. A Teologia do Processo ensina que a salvação é, na melhor das hipóteses, a conquista da “autorrealização ou autointegração[48]”. A Teologia da Libertação ensina algo semelhante. Gustavo Gutiérrez–Merino Díaz (1928 – 2024), um proeminente teólogo da libertação latino–americano, disse, seguindo a visão de Karl Rahner sobre o pecado original: — “as pessoas são salvas se se abrirem para Deus e para os outros, mesmo que não estejam claramente conscientes de que o estão fazendo[49]”. A Teologia Feminista diz o mesmo quando Dorothee Steffensky–Sölle (1929 – 2003) escreve: — “De acordo com uma compreensão cristã do mundo, os pecados não são coisas específicas que fazemos como indivíduos – a violação de normas sexuais, por exemplo. São estruturas de poder que governam sobre nós, algo ao qual estamos subjugados, do qual temos que ser libertados. Não se trata primariamente de uma questão de violação de mandamentos individuais[50]”. Carismáticos, Teologia da Prosperidade, o Movimento Vineyard, Teologia da Nova Era e aqueles que defendem uma Teologia da Esperança, todos concordam sobre essa questão — o pecado de Adão não nos afeta como seres inerentemente maus. Em vez disso, é retraduzido em uma Teologia de Opressão, doença, necessidade ou ideologias semelhantes.
Adentrando a cultura moderna, observa-se que a maioria dos evangélicos segue o esquema arminiano em sua Teologia Sistemática, sendo, ademais, pelagiana em diversos de seus pressupostos, embora acreditem que seguem o que a Igreja “sempre acreditou”. Não há setor do evangelicalismo que tenha escapado dessa tendência. Ela se estende desde púlpitos presbiterianos por todo o país, até carismáticos, interdenominacionais, batistas e a toda e qualquer heresia ramificada do cristianismo ortodoxo. A maioria dos pregadores mais populares da atualidade está infectada com traços de pelagianismo: — ligue nas estações de rádio “cristãs” hoje por cinco minutos e você ouvirá heresias ecoando pelas ondas do rádio.
A seguir, são citações diretas e exemplos extraídos de sermões, livros, palestras, seminários e similares que demonstram, brevemente, a tendência no evangelicalismo moderno que segue inclinações e doutrinas pelagianas. Robert J. “Bob” Coy, pastor da “Calvary Chapel Fort Lauderdale”, disse: — “Podemos decidir andar fora da soberania de Deus […]” “Deus nos aceitará porque cremos […][51]”. Isso nega abertamente a depravação total do homem e apela ao pelagianismo modificado de Armínio. Charles Ward “Chuck” Smith (1927 – 2013), o “líder” não denominacional de Coy no movimento Calvary Chapel, disse: — “Cremos que Jesus Cristo morreu como propiciação (uma satisfação da justa ira de Deus contra o pecado) ‘por todo o mundo’[52]”. Isso, novamente, segue a doutrina de Pelágio e o ensino posterior da Remonstrância de Armínio. É um eco contemporâneo do pregador do século XVIII, John Wesley (1703 – 1791), quando ele disse: — “Deus amou tanto o mundo — isto é, todos os homens sob o céu; até mesmo aqueles que desprezam seu amor, e por essa causa finalmente perecerão. Caso contrário, não crer não seria pecado para eles. Pois em que deveriam crer? Deveriam crer que Cristo foi dado por eles? Então Ele foi dado por eles[53]”. Seguindo essa tendência semipelagiana, em 24 de junho de 2001, o Dr. Norman Geisler declarou, de forma semelhante, visões falsas e enganosas sobre a salvação do púlpito da Calvary Chapel em Ft. Lauderdale, Flórida. O Dr. Geisler declarou que a ortodoxia encontrada na posição reformada da salvação considerava o Soberano Senhor sobre o destino da humanidade como um “estuprador divino”. Ao final de sua diatribe, um pastor da Calvary Chapel instruiu potenciais convertidos: — “Jesus deu nove passos em sua direção, agora você precisa dar um passo em direção a Ele[54]”.
Billy Graham, o célebre “evangelista”, afirmou: — “Creio que todos os que amam Cristo, ou o conhecem, estejam conscientes disso ou não, são membros do Corpo de Cristo[55]”. Novamente, a tendência em negar a queda, expressa nessa fraseologia, fala por si mesma. Em setembro de 1993, Graham realizou uma cruzada em Columbus, Ohio. Em entrevista televisiva pré–cruzada, disse (referindo-se ao povo de Columbus): — “Vocês são bons demais, não precisam de evangelismo […]. Na verdade, foi isso que nos impediu de vir [a Columbus] por tanto tempo[56]”. Curtis Mitchell, que documentou as pregações de convite de Graham, afirma que as seguintes palavras são típicas: — “Vou pedir que você venha à frente. Lá em cima – cá embaixo – quero que você venha. Venha agora mesmo – rapidamente. Se você está com amigos ou parentes, eles esperarão por você. Não deixe a distância te afastar de Cristo. É um longo caminho, mas Cristo foi até a cruz porque te amou. Certamente você pode dar esses poucos passos e entregar sua vida a Ele […][57]”. Expressões semelhantes de pelagianismo e semipelagianismo podem ser encontradas em autores e obras contemporâneas, como “What Love is This?” de Dave Hunt, e “Chosen But Free” de Norman Geisler[58].
Muitos líderes carismáticos, em nossos dias, têm contaminado o evangelicalismo com a Teologia pelagiana e semipelagiana. Robert Schuller Harold (1926 – 2015), um pelagiano moderno que segue as mesmas posições de Charles Finney[59] (1792 – 1875), afirmou: — “Pecado é qualquer ato ou pensamento que priva a mim ou a outro ser humano de sua autoestima[60]”. Ele declara ainda: — “A Cruz santificará a sua busca pelo ego, assim como o fez com Jesus[61]”. Schuller escreveu: — “Não creio que algo tenha sido feito em nome de Cristo, sob a bandeira do cristianismo, que se tenha mostrado mais destrutivo para a personalidade humana — e, por conseguinte, mais contraproducente para a obra de evangelização — do que a estratégia, muitas vezes grosseira, rude e anticristã, de tentar conscientizar as pessoas de sua condição perdida e pecaminosa (cf. Romanos 1:18 — 3:20)[62]”. Ele também declara que deseja “convencer você, leitor, de que você pode, se acreditar que pode […] ao reconhecer as admiráveis possibilidades inerentes à mente[63]”.
Seguindo Schuller, a quem admira, o cristianismo popular de Rick Warren também revela tendências pelagianas. Sua esposa, Kay, ao comentar sobre uma conferência da qual participaram — na qual Schuller foi um dos oradores — declarou: — “Ficamos cativados por seu [de Schuller] apelo positivo aos incrédulos. Nunca mais olhei para trás[64]”. Warren declara: — “[…] qualquer pessoa pode ser ganha para Cristo, se você descobrir as necessidades sentidas do coração dela[65]”. Segundo ele, tudo o que se deve fazer é sussurrar uma doce oração a Jesus, e a salvação será assegurada: — “sussurre em silêncio a oração que mudará sua eternidade: — ‘Jesus, eu creio em ti e te recebo’[66]”.
Montanhas de ideias pelagianas assombram descaradamente o ministério de Thomas Dexter Jakes. Ele diz: — “As Escrituras ensinam que receber Cristo como seu Salvador pessoal não faz necessariamente de você um filho de Deus, mas se você escolher fazer isso, o poder (autoridade) e o direito de fazê-lo estão presentes. […] Apenas ser salvo não faz de você um filho de Deus, […] somente aqueles que estão dispostos a serem guiados pelo Espírito realmente realizam e manifestam a filiação de Deus[67]”.
Bill Hybels, o pastor que popularizou o “Movimento Seeker–Sensitive” (ou simplesmente “Seeker Movement”) por meio da Willow Creek Community Church, afirmou: — “Somos um povo faminto por amor, com partes quebradas que precisam do tipo de reparo que somente Ele pode dar a longo prazo. Precisamos trazer nossa quebrantação à luz de sua graça e verdade[68]”. Isto é semipelagianismo. Os homens não estão apenas quebrados pelo pecado, nem padecem unicamente de um coração ferido; estão mortos em seus delitos e pecados — “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo […]” (Efésios 2:1, 2). Bill Bright, ex–líder e fundador dos “Navigators” e da “Campus Crusade for Christ” ou “Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo” (hoje conhecida como “Cru”), formulou as conhecidas “Quatro Leis Espirituais”. Ele diz: — “Lei 3: — Aceitamos Cristo por um Convite Pessoal. Jesus declarou: — ‘Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei até ele, e com ele cearei, e ele comigo’ (Apocalipse 3:20). Receber a Cristo, segundo esta concepção, consiste em voltar-se para Deus e afastar-se de si mesmo (isto é, arrepender-se), confiando que Cristo entrará em nossa vida, perdoará os nossos pecados e nos transformará na espécie de pessoa que Ele deseja que sejamos. Concordar meramente, em termos intelectuais, que Jesus Cristo é o Filho de Deus e que morreu na cruz pelos nossos pecados não é suficiente. Tampouco é suficiente ter uma experiência emocional. Aceitamos Jesus Cristo pela fé, mediante uma decisão consciente da vontade”.
Não apenas é uma exegese horrível de Apocalipse 3:20 (a qual é frequentemente usada por pregadores para se referir a pecadores, quando, na verdade, se refere à Igreja), mas Bright enfatiza que “nós” devemos receber Cristo, e “nós” devemos nos voltar para “convidar pessoalmente” Cristo para nossas vidas. Isso contradiz flagrantemente o ensino da Bíblia, onde o Espírito de Deus deve primeiro transformar o coração para tornar os homens espiritualmente renovados, de modo que possam vir a Ele como resultado da graça, não do poder pessoal (cf. João 3:1 – 3). O grande movimento ecumênico conhecido como “Promise Keepers”, pelo próprio nome, atribui aos homens caídos a capacidade de “cumprir promessas”. Oficialmente, eles dizem: — “Desde a descrença e desobediência de Adão e Eva, todos os humanos falharam em obedecer às duas principais leis de Deus resumidas pelo Senhor Jesus Cristo. Falhamos em amar a Deus com todo o nosso ser e falhamos em amar nosso próximo como a nós mesmos. As pessoas tornaram-se escravas do egoísmo e estão alienadas de Deus e umas das outras[69]”. Onde está o pecado em tudo isso? Eles empregam termos como “descrença”, “desobediência”, “falharam em obedecer”, “escravos do egoísmo”, “alienados”, mas não “pecado”. Isso soa mais como jargões psicológicos para evitar ofender alguém, do que uma postura teológica sobre a doutrina do pecado. Verdadeiramente, o evangelicalismo não se parece em nada com o cristianismo de outrora. Em vez disso, ele tombou em veneração a Pelágio, e depois a Armínio.
Conclusão.
Inúmeras outras citações poderiam ser apresentadas para demonstrar a Teologia pelagiana e semipelagiana que permeia o evangelicalismo moderno globalmente. Seria desnecessário continuar listando nomes como Max Lucado, Chuck Swindoll, Charles Stanley, Benny Hinn, Kenneth Copeland, Louis Palau, ou qualquer figura da Trinity Broadcast Network, que, a cada domingo, disseminam doutrinas pelagianas e semipelagianas, poluindo as ondas de rádio com seus diversos graus de teologias horríveis. John Owen afirmou com razão que a Igreja de Jesus Cristo “não pode acolher em sua comunhão Agostinho e Pelágio, Calvino e Armínio[70]”. Isso é simplesmente impossível. Não se pode conciliar a ortodoxia reformada com ensinamentos pelagianos ou semipelagianos. O pastor, ao pregar, faz uma escolha tácita: — ou ele se alinha com o Apóstolo Paulo ou com Pelágio. Pode não empregar os mesmos termos, mas seu conteúdo, sua intenção e seu efeito não raros se equiparam — e por vezes ultrapassam — os próprios erros de Pelágio e Armínio. Em vez de lutar contra essas ideias espúrias, os evangélicos hodiernos seguem, bovinamente, o rebanho ao momento da refeição — alimentam-se do que lhes é oferecido do púlpito sem qualquer esforço de Bereano exame ou vigilante discernimento. Preferem a embriaguez emocional do carisma a se debruçarem sobre as páginas da Escritura em labor exegético. E assim, precipitam-se de cabeça no abismo da doutrina pelagiana, a qual é, nas palavras do Apóstolo, “outro evangelho” — ou melhor dizendo, nenhum evangelho (cf. Gálatas 1:6 – 9). Universidades cristãs inteiras e escolas teológicas, outrora zelosas da verdade apostólica, renderam-se à sedução deste humanismo religioso disfarçado. John Owen, com clarividência profética, já advertia em seu tempo: — “Muitos em nossos dias condenarão tanto Pelágio quanto a doutrina que ele ensinava, nas palavras em que ele a expressava; e, no entanto, abraçarão e aprovarão as próprias coisas que ele pretendia afirmar[71]”. Ora, se isto era verdadeiro há quatro séculos, é hoje ainda mais alarmante. Contudo, há uma diferença crucial. Hoje, os homens não negam Pelágio. Simplesmente não o conhecem. A ignorância teológica é tamanha que a maioria dos pastores sequer sabe o que é o pelagianismo ou o semipelagianismo. Acreditam e pregam essas doutrinas sem ter ciência do solo teológico em que pisam. Estão enredados em uma tradição, mas não a reconhecem como tal. Proclamam as teses de Pelágio e Armínio com fervor, mas com os olhos vendados e as Escrituras fechadas. A Igreja evangélica contemporânea, por conseguinte, está cativa. O “cativeiro babilônico” de outrora cedeu lugar ao “cativeiro pelagiano” dos últimos dias. E quem tiver ouvidos para ouvir, ouça. É impossível negar o grau avassalador em que a Igreja está sob o antigo cativeiro pelagiano.
“Nenhum homem, senão os pelagianos, arminianos e seus semelhantes, ensina que, se alguém empregar ao máximo suas habilidades naturais, e com sinceridade despertar-se para buscar a graça da conversão e a Cristo, sabedoria de Deus, certamente e sem falhar encontrará o que busca. [1] – Porque nenhum homem — nem mesmo o de natureza mais refinada e amável [doce] — pode mover a graça de Cristo, nem com o suor de sua moeda conquistar o reino da graça ou da glória, seja por mérito de condignidade ou de congruidade. Como está escrito: — ‘Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece’ (Romanos 9:16). ‘Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos’ (2 Timóteo 1:9). Veja ainda: — Efésios 2:1 – 5; Tito 3:3 – 5; Ezequiel 16:4 – 10. [2] – Porque não há a menor sombra de compromisso ou promessa de Deus que diga: — ‘Faze isto pela força da natureza, e a graça vos será concedida’ (Samuel Rutherford)[72]”.
Paz e graça.
[1] Por Dr. C. Matthew McMahon.
[2] Watson, Thomas, The Lord’s Prayer (Banner of Truth Trust, Carlisle: 1993), 279.
[3] Em termos gerais, o termo moderno “evangélicos” refere-se àqueles que adotaram uma postura mais inclusivista diante do liberalismo, e que, movidos por um espírito ecumênico, empenham-se em promover a unidade eclesiástica à custa da verdade. Como fruto de um amplo e indistinto eclesiocentrismo, suas formulações teológicas visam agradar às massas, sendo compostas, em grande parte, por sermões brandos, desprovidos de imperatividade quanto aos mandamentos de Deus e da veemência necessária contra o pecado.
[4] Anderson, Archer, John Calvin, A Prophet of God, Bibliotheca Sacra Volume 91 (October, 1934; 2002), 478.
[5] Schaff, Phillip, History Christian Church, vol. 3 (Eerdman’s Publishing Company, Grand Rapids: 1994), 597.
[6] Warfield, B.B. Introductory Essay On Augustine And The Pelagian Controversy, Nicene, Post Nicene Fathers, Volume 5 (Henrickson Publishers, Peabody: 1995), 10.
[7] Há três obras de Pelágio impressas entre os escritos de Jerônimo (edição de Vallarsius, vol. XI): — a saber, a Exposição sobre as Epístolas de Paulo, redigida antes de 410 d.C. (ainda que algo interpolada, especialmente em Romanos); a Epístola a Demétrio, de 413 d.C.; e a Confissão de Fé, de 417 d.C., endereçada a Inocêncio I. Fragmentos abundantes de outras obras (Sobre a Natureza, Em Defesa do Livre–Arbítrio, Capítulos, Cartas a Inocêncio) são citados nas refutações de Agostinho; bem como de certos escritos de Celéstio (por exemplo, suas Definições, Confissão a Zózimo), e dos escritos de Julião. Neste contexto também se incluem as “Collationes Patrum” de Cassiano e as obras dos demais escritores semipelagianos.
[8] Schaff, History, 598. Cumpre ao leitor atentar para o desdobramento da doutrina pelagiana por meio de seus discípulos, Fausto Socino e Lélio Socino, no século XVI.
[9] Warfield, Introductory Essay, 10.
[10] Schaff, History, 599.
[11] Ibid.
[12] Warfield, Introductory Essay, 19.
[13] Provavelmente, o “Concílio de Dióspolis” (também conhecido como Concílio de Lida ou Sínodo de Dióspolis). Foi um concílio cristão que ocorreu em 415 d.C. O principal objetivo do concílio era discutir a doutrina de Pelágio, herege que defendia que os seres humanos nascem sem pecado original e podem alcançar a graça divina por meio da sua própria vontade. O concílio decidiu pela absolvição de Pelágio das acusações de heresia — nota do tradutor.
[14] Warfield, Introductory Essay, 21.
[15] Ibid.
[16] Warfield, Introductory Essay, 22.
[17] Warfield, Introductory Essay, 23.
[18] Enquanto a controvérsia pelagiana estava no auge, João Cassiano, de origem síria e educado na Igreja Oriental, após se mudar para Marselha, na França, com o objetivo de promover os interesses do monasticismo naquela região, começou a divulgar um sistema de doutrina que ocupava uma posição intermediária entre os sistemas de Agostinho e Pelágio. Esse sistema, cujos defensores foram chamados de massilianos, por causa dos ensinamentos de seu líder, e posteriormente de semipelagianos pelos escolásticos, é, em seus princípios essenciais, semelhante ao sistema conhecido como arminianismo. Fausto, bispo de Priez, na França, de 427 a 480 d.C., foi um dos mais destacados e bem-sucedidos defensores dessa doutrina, que foi permanentemente aceita pela Igreja Oriental e, por um tempo, amplamente disseminada também na Igreja Ocidental, até ser condenada pelos sínodos de Orange e Valença, em 529 d.C.
[19] Isso é atestado por Samuel Miller, Thomas Scott e por muitos escritores holandeses da época que trataram do assunto.
[20] Veja também as evidências históricas concernentes a Ário, Amyraut, os Socinianos e os Unitários.
[21] See Thomas Scott where he points out in his introductory essay to Dort’s articles this fact, The Articles of the Synod of Dordt (Sprinkle Publications, Harrisonburg: 1993), 2ff.
[22] Wylie, J.A. History of the Scottish Nation (Ages Software, Albany:1997), 328.
[23] Calvin, John, Institutes of the Christian Religion, 2:1:5
[24] Citado em Agostinho, “Sobre os Procedimentos de Pelágio”, cap. 5, em “A Select Library of the Nicene and Post–Nicene Fathers of the Christian Church”, Primeira Série, ed. Philip Schaff, 14 vols. (Grand Rapids: Eerdmans, 1979 – 1987 [1886 – 1889]), vol. 5, p. 185.
[25] Jaroslav Pelikan, The Christian Tradition, 1:313 – 314.
[26] Citado em Agostinho, “Tratado sobre a Graça de Cristo e sobre o Pecado Original”, cap. 5 “Relato do próprio Pelágio sobre as Faculdades, citado” (NPNF, 5:219).
[27] Pelikan, Jaroslav, The Christian Tradition, vol. 1 (University of Chicago Press; Chicago: 2003), 314 – 316.
[28] O Catecismo Racoviano é o texto publicado pela Irmandade polonesa que resume e ordena seus ensinos, geralmente conhecidas como socinianismo segundo o nome de seu pensador principal, o teólogo italiano Fausto Socino (1539 – 1604). Considera-se a primeira obra teológica sistêmica do antitrinitarismo — nota do tradutor.
[29] Hodge, A.A. Outlines of Theology, Index created by Christian Classics Foundation. (electronic ed. based on the 1972 Banner of Truth Trust reproduction of the 1879 ed. Christian Classics Foundation, Simpsonville: 1997), 97 – 103.
[30] Wiggers, G.F. Historical Presentation of Augustinianism and Pelagianism, Translated by Rev. Ralph Emerson (np, nc: nd), 268 – 270.
[31] João Cassiano (c. 360 – 435 d.C.) ou “Cassiano de Marselha” foi um semipelagiano do século V, mas não era uma figura popular e não conseguiu reunir muitos seguidores. Outro, chamado Jérôme–Hermès Bolsec, viveu em Genebra por volta de 1552 e propagou o semipelagianismo. Ele ensinava as mesmas doutrinas, mas não foi ouvido devido ao seu estilo de vida imoral. Um terceiro homem, chamado Corvinus, tentou agitar a Holanda em 1560 com as mesmas ideias, mas isso nunca se concretizou plenamente até Armínio.
[32] Arminius, James, The Works of James Arminius, vol. 3 (Baker Book House, Grand Rapids: 1991), Translated by Nichols, 190.
[33] Convém observar que “agostinianismo” e “calvinismo” são sinônimos.
[34] Articles of the Synod of Dordt, Head of Doctrine 3/4:2.
[35] Turretin, Francis, Institutes of Elenctic Theology (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1992), 1:638.
[36] Turretin, Institutes, 1:637.
[37] Ames, William, The Marrow of Theology (Grand Rapids, Baker Book House: 1983), 120.
[38] Perkins, William, The Foundations of The Christian Religion, A Golden Chain Concerning Salvation and Damnation (John Legate, Cambridge: 1608), Chapter 12.
[39] Ibid.
[40] Ames, 119.
[41] Ibid.
[42] Articles of the Synod of Dordt, Head of Doctrine 3/4:3.
[43] Love, Christopher, unpublished sermon, Man’s Miserable Estate — www.apuritansmind.com/ChristopherLove.htm
[44] The Canons Of The Council Of Orange, 529 AD.
[45] Owen, John, The Works of John Owen, vol. 3 (Banner of Truth Trust, Carlisle: 1994), 356.
[46] Brunner, Emil, The Christian Doctrine of Creation and Redemption, Dogmatics vol. 2, trans. Olive Wyon (Philadelphia: Westminster Press: 1952), 104.
[47] Smith, David L., A Handbook of Contemporary Theology (Baker Book House, Grand Rapids: 1992), 111.
[48] Ibid., 163.
[49] Gutierrez, Gustavo, A Theology of Liberation, rev. ed. (Mary–knoll, New York, Orbis Books: 1988), 25.
[50] Soelle, Dorothy, Choosing Life (SMC Press, London: 1981), 39 – 40.
[51] cf. Sun Sentinel weekly column on Religious Issues.
[52] Smith, Chuck, Calvinism, Arminianism & The Word Of God, A Calvary Chapel Perspective (Calvary Press, online em — www.calvarychapel.com/library/smith-chuck/books/caatwog.htm Esta citação é característica dos flagrantes ensinamentos pelagianos e semipelagianos do movimento Calvary, que combinam um pelagianismo modificado e um carisma do movimento Vineyard em seu sistema teológico como um todo.
[53] Wesley, John, Notas explicativas de Wesley sobre o Novo Testamento (Schmul Publishers, Salem: 1976), p. 219.
[54] Sunday Evening Service, Calvary Chapter, Ft. Lauderdale, June 24, 2001.
[55] May 31, 1998 television interview with Robert Schuller, as reported in the May–June 1997, Foundation magazine.
[56] September 1, 1993, Columbus Dispatch.
[57] Mitchell, Curtis, Those Who Came Forward (The World’s Work Ltd., 1966), 32. Emphasis mine.
[58] Para uma refutação digna da Teologia Semipelagiana de Hunt e Geisler, veja-se as obras de James White, The Potter’s Freedom e Debating Calvinism.
[59] Finney disse: — “A depravação moral é o próprio pecado, e não a causa do pecado”, Finney, Charles, Finney’s Systematic Theology (Minneapolis: Bethany, 1976), p. 172. Os homens nascem então justos e só se tornam pecadores à medida que pecam. Schuller segue Finney, que segue Pelágio.
[60] Schuller, Robert, Self–Esteem: The New Reformation (Waco: Word Books, 1982), 14.
[61] Ibid., 74 – 75.
[62] Schuller, Robert, Christianity Today, A Letter to the Editor, October 5, 1984.
[63] Smith, Handbook, 189.
[64] Stafford, Tim, A Regular Purpose–Driven Guy: Rick Warren’s Genius is in Helping Pastors See the Obvious (Christianity Today, November 8, 2002).
[65] Warren, Rick, The Purpose Driven Church (Zondervan, Grand Rapids: 1995), 219.
[66] Warren, Rick, The Purpose Driven Life (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2002), 58. Emphasis his.
[67] Jakes, T.D., PFO Quartely Journal, The Harvest, 46 – 47.
[68] Entrevista com o Dr. G.A. Pritchard — http://www.reformed-churches.org.nz/resources/fnf/a47.htm
[69] http://www.promisekeepers.org/faqs/core/faqscore22.htm
[70] Owen, Works, vol. 10, 22.
[71] Owen, Works, vol. 5, 370.
[72] O texto a seguir, na íntegra, pode ser encontrado em A Puritan’s Mind — https://www.apuritansmind.com/puritan-favorites/samuel-rutherford/preparations-before-conversion/
[73] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.