por Brian M. Schwertley | 24 maio 2025 | TEOLOGIA
Introdução.
Em 2001, a “Banner of Truth Trust” publicou um pequeno livreto de Iain H. Murray intitulado “O Saltério Deve Ser o Único Hinário da Igreja?”. Neste livreto, Murray busca responder à questão de “se os cristãos e as Igrejas têm liberdade para decidir sobre o material que usam para esse propósito [louvor congregacional], ou se há um princípio que os obriga a usar apenas um livro, a saber, o Livro dos Salmos (isto é, o Saltério em forma métrica)[2]”. Neste livreto, Murray tenta provar que a posição de Salmodia Exclusiva é antibíblica e que o uso de hinos não–inspirados é permitido e até superior aos Salmos[3]. Antes de analisarmos os argumentos específicos de Murray, alguns comentários gerais são necessários.
Primeiro, consideramos Iain H. Murray um querido irmão em Cristo, embora acreditemos que a posição que ele defende sobre essa questão é antibíblica e não confessional. Murray é um excelente estudioso e historiador que fez uma grande contribuição para a causa da fé reformada nos tempos modernos (este autor possui vários livros escritos por Murray).
Segundo, para aqueles familiarizados com o debate sobre Salmodia Exclusiva, Murray não oferece nada de novo, exceto algumas citações interessantes de puritanos que acreditavam que hinos não–inspirados eram lícitos. Ele retoma argumentos antigos que já foram amplamente refutados[4] e os reformula cuidadosamente.
Terceiro, embora Murray reconheça sua adesão ao Princípio Regulador do Culto, ele frequentemente argumenta como se esse princípio não existisse. De fato, o livreto não contém nenhuma prova bíblica de que hinos não–inspirados foram alguma vez ordenados por Deus ou usados pela Igreja de Deus antes do fechamento do cânon. Seu argumento básico para o uso de hinos é duplo: — alguns puritanos acreditavam que era permitido, e os Salmos são simplesmente inadequados ou insuficientes para o culto do Novo Concerto.
O primeiro argumento de Murray diz: — “Onde está a prova nas Escrituras de que Deus designou os cento e cinquenta Salmos de Davi para o culto público da igreja do Antigo Testamento?[5]”. Murray prossegue apontando que, embora alguns Salmos tenham sido escritos para o culto público, outros foram originalmente compostos para uso em oração e ensino. Ele diz: — “Que todos os Salmos foram alguma vez usados no templo em culto, ou que todos foram dados para louvor congregacional, é simplesmente uma suposição que não repousa em nenhuma evidência[6]”.
Embora esse argumento pareça inteligente, ele deve ser rejeitado porque não reconhece a diferença necessária e óbvia entre todos os diversos Salmos divinamente inspirados, como originalmente compostos, e a organização e colocação providencial posterior dos vários Salmos no Saltério completo por Jeová. Não há dúvida de que certos Salmos surgiram diretamente de experiências pessoais, orações e assim por diante, que eram poesias hebraicas divinamente inspiradas. Talvez houvesse até uma coleção inicial de Salmos davídicos que eram explicitamente definidos como orações (veja Salmos 72:20)[7]. Cinco Salmos são referidos como orações em seus títulos (17, 86, 90, 102, 142). Há também Salmos que não contêm louvor direto ou mesmo endereço direto a Deus (por exemplo, 1, 2). Mas o fato de certos Salmos terem sido originalmente compostos como orações em tempos de necessidade ou crise, ou que outros tenham a mera aparência de serem declarações poéticas didáticas de doutrina, ética ou história da salvação, significa que Deus mesmo não pode tomar esses poemas divinamente inspirados, sejam eles, canções deliberadas de louvor, orações ou declarações de doutrina, e colocá-los em um livro que é o hinário da Igreja após sua conclusão? Para que o argumento de Murray tenha algum peso, é preciso ignorar o fato de que Deus mesmo organizou todo o material inspirado no Saltério e o intitulou: — “O Livro dos Louvores” (hebraico, סֵפֶר תְּהִלִּים–Sephir Tehillim), ou como a Septuaginta grega o traduziu: — “O Livro dos Salmos”.
Uma vez que Deus, o Espírito Santo, organizou todos os diversos materiais no Livro do Louvor e o cânon do Antigo Testamento foi concluído, os judeus tinham um manual de louvor definitivo e inspirado. Eles entendiam que seu hinário era um produto da inspiração divina e nunca tentaram fazer adições não–inspiradas a ele. Compreendiam que as canções de louvor vinham do próprio Deus por meio do dom profético e, portanto, não produziram hinários não–inspirados. O fato de Deus requerer inspiração divina para canções de culto e de Ele ter organizado 150 obras inspiradas separadas em um hinário ou manual de louvor nos ensina que cantar Salmos é o equivalente musical à leitura das Escrituras no culto público. Aparentemente, Deus, em seu soberano prazer, quis ser adorado apenas com canções de louvor que fossem perfeitas e não contaminadas por defeitos e pecados humanos. Qualquer um que pense que pode escrever melhores canções do que o Espírito Santo não conhece a perfeição e a riqueza do Saltério, nem as implicações completas da enganosa natureza do pecado no coração humano.
Embora alguns estudiosos modernos possam pensar que o título “O Livro dos Louvores” é arbitrário, insignificante e talvez até inadequado porque o livro contém tanto material diverso (por exemplo, profecias, ensino, orações etc.), eles devem ignorar o fato de que o próprio Cristo usou o título. Jesus disse: — “Visto como o mesmo Davi diz no livro dos Salmos” (Lucas 20:42 – ACF). A palavra inspirada usada por nosso Senhor, “psalmon” (ou psalmois, Lucas 24:44), derivada de “psalmos”, denotava originalmente a música de um instrumento de cordas ou uma canção cantada com acompanhamento musical. Portanto, tanto Jesus quanto Pedro (veja Atos 1:20[8]) identificam todo o Livro dos Salmos como um hinário ou um livro projetado por Deus para ser cantado. Dado o título do Livro dos Salmos e a confirmação explícita desse título pelo Novo Testamento, a afirmação de Murray de que não há evidências de que o livro como um todo foi dado por Deus para louvor congregacional é incrível. Além disso, dado o fato de que o Livro dos Salmos é claramente projetado para ser cantado como louvor; que os crentes são repetidamente ordenados a louvar a Jeová com o canto de Salmos (por exemplo, Salmos 81:2; 95:1, 2; 98:4, 5; 100:2; 105:2 etc.); e que há muitos exemplos históricos inspirados do uso de Salmos (ou seus equivalentes inspirados) no culto público (Êxodo 15:1; 2 Samuel 1:18; 1 Crônicas 16; 2 Crônicas 5:13; 20:21; 23:13; 29:30; Esdras 3:11; Salmos 30:4; 137:1 e seguintes; Mateus 26:30 etc.), a afirmação de Murray de que não há evidências de que o Saltério foi projetado para o culto público é desconcertante. Como observa Bushell: — “O Senhor nos deu nas Escrituras um livro inteiro de Salmos inspirados e então nos ordenou a ‘cantar Salmos’. Independentemente da questão de se podemos ou não cantar outras canções no culto, não é o auge da tolice e impiedade, por assim dizer, olhar para o Senhor e insistir que não temos obrigação de cantar os Salmos específicos que Ele foi gracioso o suficiente para colocar em nossas mãos? Argumentaríamos que a inclusão de uma coleção de canções no cânon das Escrituras, sem quaisquer limites demonstráveis para seu uso, constitui um mandamento divino para usar todo esse livro em serviços de culto. Se o Senhor nos entrega um livro de Salmos, como Ele fez, e nos ordena a cantar Salmos, não temos o direito, sem instruções adicionais, de excluir certos Salmos daqueles que são disponibilizados para a Igreja[9]”.
Se Murray não acha que a colocação de um hinário inspirado no meio do cânon é significativa ou que sua designação por Deus como um “Livro de Louvor” indica uma autorização divina para seu uso no culto público, então (se consistente) ele também poderia argumentar que o cânon completo das Escrituras não nos dá nenhuma indicação específica de que os 66 livros canônicos devem ser usados para a leitura das Escrituras no culto público. Tal raciocínio, é claro, é absurdo.
Outro argumento baseia-se no desrespeito (intencional ou não) completo à sola Scriptura ou ao Princípio Regulador do Culto. (Ou seja, a doutrina bíblica de que todos os elementos ou partes do culto devem ter prova bíblica ou autorização divina antes de serem permitidos no culto a Deus; veja Gênesis 4:3 – 5; Levítico 10:1, 2; Deuteronômio 4:2; 12:32; 2 Samuel 6:3 – 7; 1 Crônicas 15:13 – 15; Números 15:39, 40; 1 Reis 12:32, 33; Jeremias 7:24, 31; 19:5; Mateus 15:3, 9; 28:20; João 4:24; Colossenses 2:20 – 23 etc.) Murray escreve: — “Argumentar que, porque temos apenas um ‘Livro de Louvores’ inspirado, nada de composição meramente humana deve ser musicado para o louvor de Deus, é, portanto, fazer uma dedução que vai além do que as Escrituras realmente dizem[10]”. Esse argumento é enganoso e falacioso, pois simplifica excessivamente e deturpa a maneira como os defensores da Salmodia Exclusiva argumentam. Aqueles que defendem canções inspiradas no culto não oferecem um argumento tão unilateral. Eles não dizem simplesmente: — “A Bíblia tem um hinário inspirado, portanto, hinos feitos pelo homem são proibidos”. Pelo contrário, eles apontam que não apenas a Bíblia tem um hinário inspirado e suficiente, mas não há nenhuma evidência bíblica de que Deus tenha autorizado canções não–inspiradas para o culto a Jeová. Não há mandamentos divinos sobre canções feitas pelo homem no culto. Não há exemplos históricos dos santos de Deus usando hinos não–inspirados em toda a Bíblia, e não há deduções genuínas ou sólidas das Escrituras que possam ser feitas para canções não–inspiradas no culto público. Os defensores da Salmodia Exclusiva não precisam encontrar um mandamento explícito proibindo hinos não–inspirados no culto, nem precisam fazer tal dedução. O Princípio Regulador já fez isso essencialmente. O que Murray precisa fazer é parar com as cortinas de fumaça e ofuscações e ir diretamente às Escrituras e demonstrar que Deus autorizou hinos não–inspirados para o elemento de canto no culto público. Em seu livreto, ele nunca faz isso. Em vez disso, ele recorre à história da Igreja e cita seletivamente puritanos ou presbiterianos que concordam com ele.
O próximo argumento de Murray baseia-se no desrespeito aos diferentes elementos do culto público. Ele escreve: — “Em nenhum lugar nas Escrituras é apresentada a ideia de que o louvor falado deve ser restrito às palavras da Bíblia, palavras designadas pelo Espírito Santo; por que, então, o louvor cantado deveria ser diferente? Além disso, como já foi dito, o Livro dos Salmos contém muitas orações. Ele poderia ser chamado de Livro de Orações, bem como de Livro de Louvores. Nesse aspecto, não há nada comparável a ele em outras partes das Escrituras, mas ninguém sustenta que as orações da Igreja devam ser sempre restritas às palavras inspiradas que Deus nos deu[11]”. Essa argumentação deve ser rejeitada por várias razões.
Primeiro, mais uma vez, Murray escreve como se o Princípio Regulador do Culto não existisse. A questão não é se há uma declaração explícita ou “a ideia” de que hinos não–inspirados são proibidos pelas Escrituras. A questão que precisa ser respondida é: — O uso de hinos não–inspirados é autorizado por Deus para uso no culto público? A resposta para essa pergunta é não. Eles não são. Em toda a Bíblia, não há imperativos divinos ou mandamentos explícitos para canções não–inspiradas no culto. Além disso, se alguém estudar cuidadosamente as Escrituras, verá que a inspiração divina era um pré–requisito para escrever canções de culto para a Igreja (veja Êxodo 15:20, 21; Juízes 5; 2 Samuel 23:1, 2; 2 Reis 23:2; 1 Crônicas 25:1 – 7; 2 Crônicas 29:25 – 30; 34:30; 35:15; os títulos dos Salmos 39, 62, 77; Atos 1:16 etc.). A Bíblia ensina que a composição de hinos para o culto público exigia um dom profético. Não era para qualquer um que decidisse compor uma canção. Além disso, não há um único exemplo histórico registrado nas Escrituras de uma canção não–inspirada no culto público, nenhum! Se nosso irmão nos mostrar nas Escrituras que hinos não–inspirados foram ordenados por Deus ou usados no culto público antes do fechamento do cânon das Escrituras, abraçaremos de bom grado a hinódia não–inspirada. Enquanto isso, manteremos firme a vontade revelada de Deus.
Segundo, Murray recorre ao velho argumento contra a Salmodia Exclusiva de que, uma vez que somos autorizados a criar nossas próprias orações, também deveríamos poder criar nossas próprias canções de culto. Embora ninguém negue que louvor, orações, leitura da Bíblia e pregação possam, às vezes, ter coisas em comum, a tentativa de Murray de apagar a distinção entre oração e canto de louvor como elementos distintos do culto público é antibíblica e não confessional. Na Confissão de Fé de Westminster: — oração, leitura das Escrituras, canto de salmos, pregação e recepção dos sacramentos são todos descritos como “partes” ou elementos separados do culto público. Cada elemento distinto do culto é até mesmo comprovado pela confissão.
A razão pela qual a Confissão faz essas distinções é simples. A Bíblia nos diz quais são os elementos distintos do culto (por exemplo, pregação – Mateus 26:13; Marcos 16:15; Atos 9:20; 17:10; 20:8; 1 Coríntios 14:28; 2 Timóteo 4:2; leitura da palavra de Deus – Marcos 4:16-20; Atos 1:13; 13:15; 16:13; 1 Coríntios 11:20; 1 Timóteo 4:13; Apocalipse 1:13; oração a Deus – Deuteronômio 22:5; Mateus 6:9; 1 Coríntios 11:13 – 15; 1 Tessalonicenses 5:17; Filipenses 4:6; Hebreus 13:18; Tiago 1:5; o canto de Salmos – 1 Crônicas 16:9; Salmos 95:1, 2; 105:2; 1 Coríntios 14:26; Efésios 5:19; Colossenses 3:16) e estabelece regras diferentes para cada elemento específico do culto. Por exemplo, às mulheres é concedido o direito de entoar louvores na Igreja (Efésios 5:19; Colossenses 3:16; Tiago 1:5 etc.); contudo, não lhes é permitido exercer o ofício da pregação (1 Coríntios 14:34, 35; 1 Timóteo 2:11 – 14), tampouco dirigir a oração pública, ler as Escrituras em público ou administrar os sacramentos. Isso significa que o Princípio Regulador (ou seja, sola Scriptura na esfera do culto público) deve ser cuidadosamente aplicado pela Igreja a cada elemento separado. Se não for isso o que o Rev. Murray deseja que façamos, então o resultado inevitável será o caos litúrgico nas Igrejas. Se alguém ignora o fato de que o canto de louvor é um elemento separado do culto e afirma que o Livro dos Salmos pode ser tratado como um livro de orações da mesma maneira que um manual de louvor, então, logicamente, poderia eliminar o elemento de canto de louvor na Igreja e substituí-lo por oração corporativa. Murray, é claro, rejeitaria tal movimento; mas quando sua posição é levada ao seu fim consistente, esse seria o resultado.
Além disso, um exame cuidadoso das Escrituras revela que a Bíblia de fato nos diz o conteúdo apropriado e autorizado de cada elemento. Enquanto o dom profético ou inspiração divina (como observado acima) era necessário para escrever canções de louvor para o culto público, a Bíblia autoriza o uso de nossas próprias palavras não–inspiradas na oração, desde que sigamos o padrão ou modelo dado por Cristo (cf. Mateus 6:9). Deus promete a seu povo que o Espírito Santo os assistirá quando formarem suas orações (cf. Zacarias 12:10; Romanos 8:26, 27). Portanto, quando Murray essencialmente pergunta: — “Se podemos criar nossas próprias palavras na oração, então por que não podemos também criar nossas próprias canções de culto?”, a resposta é simples. Deus autoriza nossas próprias palavras na oração, mas tem um requisito diferente para o louvor[12].
O próximo argumento de Murray baseia-se no fato de que “a poesia hebraica […] é muito diferente da nossa[13]”. Consequentemente, “deve haver um forte argumento para dizer que as Igrejas que cantavam os Salmos estavam mais corretas[14]”. Murray prossegue explicando que, uma vez que cantar os Salmos provavelmente não seria edificante hoje, os Salmos precisam ser colocados em métrica inglesa. Isso, Murray afirma, envolveria adicionar palavras aos Salmos que não estão lá. Esse argumento, em sua essência, é que uma verdadeira Salmodia Exclusiva não é viável hoje devido às grandes dificuldades em transformar a poesia hebraica em poesia inglesa cantável. Em outras palavras, se os Salmos métricos são traduções infiéis, por que não ser totalmente consistente e ter paráfrases soltas deliberadas e até mesmo novas canções completamente? Esse argumento, em diferentes variações, é bastante comum.
Há várias razões pelas quais esse argumento deve ser rejeitado. Primeiro, esse argumento (mesmo que aceitemos todas as pressuposições de Murray) não refuta de forma alguma a Salmodia Exclusiva. No máximo, provaria que as Igrejas precisam ser muito cuidadosas e exatas ao traduzir os Salmos em métrica. Se tal tarefa é impossível, o que Murray implica (a propósito, não é impossível), então as Igrejas devem aprender a cantar os Salmos sem métrica (há Igrejas que já aprenderam a fazer isso a partir da Nova Versão King James). Se um cristão reformado está verdadeiramente convencido de que os Salmos métricos são inerentemente defeituosos e, portanto, infiéis ao mandamento de cantar Salmos, então, em vez de recorrer a paráfrases grosseiras e composições não–inspiradas, as quais são ainda mais infiéis, ele deveria cantar a fraseologia original a partir de uma tradução literal.
Segundo, a lógica do argumento de Murray é seriamente falha. O argumento de Murray assume que, se uma paráfrase menor dos Salmos é errada, então paráfrases grosseiras e hinos não–inspirados são, portanto, corretos. Esse tipo de lógica é como afirmar que, uma vez que a raiva injustificada no coração é errada, a violência física e o assassinato são justificados. Ou, se o grupo A está fazendo algo errado, o grupo B também pode fazer algo ainda pior. Se há Igrejas que estão usando traduções infiéis dos Salmos ou versões métricas que são paráfrases soltas, então a única solução bíblica é arrepender-se e usar uma tradução fiel.
Murray em seguida, volta sua atenção para saber se pode ser provado que a Salmodia Exclusiva pode ser aplicada à era do Novo Concerto. Ele escreve: — “Se pudesse ser provado que o Saltério sozinho era o louvor autorizado da Igreja do Antigo Testamento, ainda seria uma proposição completamente diferente estabelecer que ele deve permanecer o único manual para o Novo[15]”. Murray então apela a Efésios 5:19 e 1 Coríntios 14:26. Ele aponta que, de todos os comentaristas de que tem conhecimento, nenhum toma a posição de que Efésios 5:19 se refere ao Saltério do Antigo Testamento. Ele também cita Charles Hodge em 1 Coríntios 14:26 (“Cada um de vós tem um salmo”) que diz: — “tal canção dada por inspiração, e não um dos Salmos de Davi[16]”.
Em relação à argumentação de Murray, temos duas considerações. Primeiro, a passagem de 1 Coríntios 14:26 pode de fato ensinar que, antes do fechamento do cânon do Novo Testamento, algumas pessoas na Igreja que tinham o dom da profecia recebiam novas canções divinamente inspiradas pelo Espírito Santo. Tal interpretação certamente se encaixa no contexto onde Paulo está discutindo o uso adequado dos dons revelatórios. Mas perguntamos: — Essa interpretação desaprova a ideia de que apenas canções divinamente inspiradas são permitidas no culto público? Não, de forma alguma! Na verdade, ela suporta a posição de que a inspiração divina era um pré–requisito para escrever canções de culto para a Igreja. Portanto, no máximo, poder-se-ia recorrer a 1 Coríntios 14:26 como um possível texto de prova para justificar a inclusão, no culto público, daquelas poucas canções de adoração inspiradas que, embora encontradas nas Escrituras, não foram reunidas por Deus no Livro dos Salmos. Além disso, se a Igreja apostólica tinha algumas novas canções de culto divinamente inspiradas, isso não afeta esse debate porque: — [a] – como observado, Murray está argumentando por composições não–inspiradas; [b] – os dons revelatórios cessaram e, portanto, não há homens qualificados para compor novas canções inspiradas; e [c] – não há canções inspiradas do Novo Concerto que sobreviveram.
O fato de que a Igreja apostólica não produziu um hinário de canções inspiradas ou não–inspiradas para o culto público é notável. O período de atividade revelatória durou pelo menos quarenta anos. Se hinos estavam sendo compostos, copiados e distribuídos para todas as diferentes Igrejas (o que se poderia esperar se a posição de Murray fosse verdadeira), então haveria muitos hinos sobreviventes do primeiro século. Mas não há nenhum, nem mesmo um. Se a hinódia floresceu na Igreja apostólica, como muitos supõem, é de fato notável que nenhum hino tenha sido descoberto desse período. Também é notável que o Novo Testamento não contenha hinos[17].
Em segundo lugar, a passagem de Efésios 5:19 (cf. Colossenses 3:16) tampouco sustenta o uso de hinos não–inspirados no culto. Pelo contrário, trata-se de um excelente texto de prova em favor da utilização do Saltério no culto do Novo Concerto. Ainda que uma exegese longa e minuciosa dessa passagem ultrapasse os limites deste ensaio, algumas observações se mostram dignas de nota.
[1] – As palavras “salmos, hinos e cânticos espirituais” são melhor definidas não pelo uso moderno ou pela literatura pagã antiga, mas examinando como essas palavras são usadas no contexto do culto na palavra de Deus. Na tradução grega do Antigo Testamento (a Septuaginta), quando se fala de culto, as palavras “salmo” (psalmos), “hino” (humnos) e “cântico” [espiritual] (odee) nunca, jamais são usadas para descrever hinos não–inspirados, mas são sempre usadas para descrever as canções no Saltério ou seus equivalentes inspirados. A palavra “psalmos” ocorre 78 vezes nos Salmos (67 vezes nos títulos dos Salmos). O termo “humnos” é encontrado em 13 Salmos (em 6 títulos) e “odee” é encontrado em 45 Salmos (36 títulos). “Em 2 Samuel, 1 e 2 Crônicas e Neemias, há cerca de 16 exemplos nos quais os Salmos são chamados de ‘hinos’ (humnoi) ou ‘cânticos’ (odai) e o canto deles é chamado de ‘hinódia’ (humneo, humnodeo, humnesis)[18]”. Além disso, nos títulos dos Salmos, é comum encontrar esses termos combinados. Nos títulos dos Salmos, 12 vezes “salmo” e “cântico” são combinados. Duas vezes, “salmo” e “hino” são colocados juntos. Um título de Salmos (76)[19] até combina todos os três (“salmo, hino e cântico”), como em Efésios 5:19 e Colossenses 3:16. Portanto, comparando Escritura com Escritura, temos uma sólida garantia exegética para interpretar “hinos” e “cânticos espirituais” da mesma maneira que “salmos”, porque todos os três termos são repetidamente usados nas Escrituras para descrever os Salmos do Saltério canônico.
[2] – A expressão “salmos, hinos e cânticos espirituais” era um método literário triádico comum para expressar um pensamento ou objeto importante: — o Livro dos Salmos. A Bíblia contém muitas dessas expressões triádicas (por exemplo, Êxodo 34:7, “iniquidade e transgressão e pecado”; Deuteronômio 5:31; 6:1, “mandamentos e estatutos e juízos”; Deuteronômio 6:5, “coração […] alma […] e força”; Mateus 22:37, “coração […] alma […] e mente” (cf. Marcos 12:30; Lucas 10:27); Atos 2:22, “milagres e prodígios e sinais”; Efésios 5:19; Colossenses 3:16, “salmos e hinos e cânticos espirituais”). Quando os propagadores de hinos não–inspirados se agarram à palavra “hino” como se ela autorizasse as canções de Watts ou Wesley (ambos hereges), eles estão agarrando palhas.
[3] – Na passagem paralela, Colossenses 3:16, o contexto imediato indica que os três termos usados por Paulo descrevem uma parte da Palavra infalível de Deus. O Apóstolo diz: — “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente” (Colossenses 3:16). A expressão “palavra de Cristo” é sinônima da “palavra de Deus”. O Filho de Deus pré–encarnado foi o Autor dos Salmos (cf. 1 Pedro 1:11).
[4] – A gramática da passagem também indica que os três termos usados por Paulo descrevem apenas canções inspiradas pelo Espírito. No grego, o adjetivo “espiritual” (ou seja, do Espírito, dado pelo Espírito, ou determinado pelo Espírito Santo [isto é, “inspirado” ou “sopradas por Deus”]) pode se aplicar a todos os três substantivos anteriores. A palavra “pneumatikos” [“espiritual”] qualifica todos os três dativos e é feminina em gênero devido ao gênero do substantivo mais próximo a ela (cânticos). Isso significa que todos os três termos “salmos, hinos e cânticos” são “espirituais” ou inspirados pelo Espírito Santo[20]. Pessoas que apelam a Efésios 5:19 como um texto de prova para hinos não–inspirados no culto público não seguiram princípios sólidos de interpretação bíblica.
A próxima seção de Murray, que começa com o título: — “O Princípio Regulador”, está realmente mal rotulada; pois, após um comentário errôneo sobre o Princípio Regulador[21], Murray passa quase 9 páginas discutindo história da Igreja. O propósito dessa seção é refutar a afirmação dos defensores da Salmodia Exclusiva de que “as melhores Igrejas reformadas e autores” acreditavam que hinos não–inspirados no culto público não eram autorizados. Há várias observações e comentários que precisam ser expressos em relação a essa seção.
Primeiro, a menos que alguém seja católico romano ou um “Steelite[22]”, a história da Igreja não pode resolver controvérsias em doutrina, ética ou culto (leia a Confissão de Fé de Westminster 1:10). Murray até reconhece esse fato na página 20. É bastante estranho que, em um livreto de apenas 32 páginas, Murray passe nove páginas citando seletivamente puritanos e presbiterianos que podem ter considerado hinos não–inspirados como permitidos. Dado o fato de que Murray é um excelente historiador, isso é talvez compreensível. No entanto, mais uma vez, apontamos que o livreto é quase desprovido de exegese e não contém nenhuma prova real das Escrituras de que hinos não–inspirados são autorizados por Deus.
Segundo, a maneira como Murray apela à história da Igreja é frequentemente muito enganosa. Essa afirmação será demonstrada pelas seguintes observações.
[A] – Os puritanos tinham divergências em várias questões (batismo, governo da Igreja, erastianismo[23], justificação desde a eternidade, o magistrado civil e a lei bíblica etc.), e não é difícil para um historiador com acesso a uma boa biblioteca reunir citações seletivamente para dar uma imagem unilateral e distorcida. Os defensores da Salmodia Exclusiva nunca afirmaram que todas as Igrejas reformadas ou puritanos aderiam à Salmodia Exclusiva[24]. Mas, ao contrário da seção histórica de Murray, pode ser provado que era a posição dominante dos presbiterianos desde o período da primeira reforma na Escócia até a segunda metade do século XVIII. A Salmodia Exclusiva também era a posição do Sínodo de Dort (1618 – 1619), um grande sínodo reformado internacional[25].
[B] – É bem conhecido por historiadores que Calvino limitou as canções usadas no culto público aos Salmos e algumas versões métricas de porções das Escrituras. Não há evidências históricas de que Calvino realmente escreveu “Eu te saúdo, que és meu seguro Redentor”, ou que isso foi cantado nas Igrejas reformadas naquela época. Calvino pode não ter sido um defensor consciente da Salmodia Exclusiva como muitos que o seguiram. Mas é desonesto apresentá-lo como um apoio à hinódia não–inspirada. Curiosamente, a mesma autora (Louise F. Benson) que Murray citou para demonstrar que Calvino não era um defensor da Salmodia Exclusiva escreveu em uma obra diferente: — “O hino de composição humana, que havia conquistado com tanta dificuldade um lugar restrito na liturgia da Igreja Latina, que havia se desenvolvido tão fenomenalmente na Reforma Alemã, agora está excluído do culto reformado. As canções inspiradas das Escrituras, substancialmente o Saltério do Antigo Testamento, fornecem o assunto exclusivo de louvor[26]”.
Quanto à questão de se Calvino tinha uma posição principiológica contra hinos não–inspirados no culto público, os comentários de Bushell são acertados. Ele escreve: — “É um fato histórico inegável que canções não–canônicas foram excluídas dos cultos em Genebra e que essa situação decorreu da influência e do desejo de Calvino. É improvável que ele tivesse seguido tal curso de ação, a menos que sentisse que isso era exigido pelas Escrituras, considerando especialmente a importância que ele atribuía ao canto congregacional […]. Há também o fato de que, ao longo de sua longa história de desenvolvimento, o Saltério de Genebra nunca incluiu um único hino[27]”. A única vez que Calvino falou especificamente sobre essa questão por escrito, ele disse: — “[…] Ninguém pode cantar o que é digno de Deus a menos que o tenha recebido diretamente dEle. Assim, após buscarmos em todas as direções, procurando aqui e ali, não encontraremos canções mais excelentes ou adequadas ao nosso propósito do que os Salmos de Davi, inspirados e compostos por ele pelo Espírito Santo. Ao cantá-los, temos a certeza de que Deus colocou essas palavras em nossas bocas, como se Ele mesmo estivesse cantando em nós para exaltar sua glória. [A Igreja] deve, portanto, habituar-se a entoar esses cânticos divinos e celestiais ao lado do bom rei Davi[28]”.
[C] – As inferências de Murray sobre a Igreja escocesa do período da primeira reforma são completamente injustificadas. Ele escreve: — “O Saltério Escocês de 1564, que permaneceu em uso geral até a época da Assembleia de Westminster, foi baseado em grande parte no trabalho de Sternhold e Hopkins. Embora suas versões geralmente se mantivessem mais próximas do original do que as paráfrases, elas claramente não foram compostas com a convicção de que nada além do texto bíblico pudesse ser introduzido[29]”. Em relação a essa afirmação, fazemos as seguintes observações. Realmente não há como Murray saber se esses homens acreditavam no uso de hinos não–inspirados no culto público, a menos que ele possa produzir uma declaração nesse sentido. Além disso, quaisquer que fossem os pensamentos desses homens, a Igreja da Escócia como um todo era contrária aos hinos não–inspirados e não permitia seu uso no culto público. Se a Igreja da Escócia não tinha nada contra hinos não–inspirados, o que Murray implica, então por que eles não usaram hinos, adotaram o uso de um hinário ou designaram membros do Presbitério para produzir hinos para uso público?
[D] – Os Padrões de Westminster, que são o auge da Reforma Protestante e dos credos reformados, tomam explicitamente uma posição de Salmodia Exclusiva tanto na Confissão de Fé (“A leitura das Escrituras com temor piedoso; a pregação sadia, e a audição conscienciosa da palavra […]; o canto de salmos com graça no coração […] são todas partes do culto religioso ordinário de Deus” [21:5]) quanto no Diretório para o Culto Público de Deus (“Após a leitura da palavra, (e o canto do salmo), o ministro que deve pregar […]. É dever dos cristãos louvar a Deus publicamente, cantando Salmos juntos na congregação, e também privadamente na família. Ao cantar Salmos, a voz deve ser ordenada de maneira afinada e grave; mas o principal cuidado deve ser cantar com entendimento, e com graça no coração, fazendo melodia ao Senhor. Para que toda a congregação possa participar disso, todos que sabem ler devem ter um livro de Salmos; e todos os outros, incapacitados por idade ou de outra forma, devem ser exortados a aprender a ler. Mas, por enquanto, onde muitos na congregação não sabem ler, é conveniente que o ministro, ou alguma outra pessoa adequada designada por ele e pelos outros oficiais governantes, leia o salmo, linha por linha, antes do canto[30]”). Essas citações provam que a palavra salmo ou Salmos não se refere a canções de culto em geral, sejam inspiradas ou não–inspiradas, mas ao Livro dos Salmos em particular.
Aqueles que argumentam que a palavra “salmo” nos Padrões de Westminster é apenas um termo geral para qualquer canção de culto, seja inspirada ou não–inspirada, são facilmente refutados pela leitura das Atas das Sessões da Assembleia de Westminster de Divinos[31]. Esta obra demonstra, sem sombra de dúvida, que: — hinos não–inspirados nunca foram sequer considerados pela assembleia; e nenhum ministro ou representante jamais reclamou, ou argumentou, que hinos não–inspirados deveriam ser incluídos no culto público. As únicas questões principais de debate foram se outras traduções dos Salmos em métrica seriam permitidas além do Saltério de Rouse; e houve alguma discussão sobre a questão de entoar os Salmos linha por linha[32].
Após o declínio no presbiterianismo escocês e americano no século XVIII (ou seja, uma perda de ênfase e entendimento do Princípio Regulador do Culto e a influência negativa do revivalismo sentimental pietista), as paráfrases de Watts e depois os hinos não–inspirados fizeram muitas incursões nos grandes corpos presbiterianos. A Salmodia Exclusiva foi oficialmente (ou seja, constitucionalmente) abandonada pela PCUSA em 1788, quando seu novo diretório para o culto mudou a declaração no diretório original (1644), “Canto de Salmos”, para “cantando Salmos e hinos”. O livro de Watts, Hinos, foi oficialmente sancionado pela PCUSA em 1802. O primeiro hinário presbiteriano oficial não apareceu até 1831[33].
Concluímos esta breve seção histórica com um lembrete de que a melhor maneira de verificar a posição dos presbiterianos sobre Salmodia Exclusiva e hinos não–inspirados no passado não é citar as opiniões de alguns ministros aqui e ali; mas, sim, olhar para a discussão corporativa de sínodos, assembleias gerais ou conselhos.
A última seção do livreto de Murray é chamada “o caso positivo para hinos”. Murray escreve: — “Acredito que pode ser argumentado a partir do Novo Testamento não simplesmente que o caso para hinos é deixado em aberto, mas há boas razões para acreditar que o louvor da Igreja não foi destinado a ser deixado exatamente onde estava na antiga dispensação[34]”. Nesta seção, Murray dá várias razões pelas quais ele acredita que os hinos são essencialmente superiores ao Livro dos Salmos. Consideraremos brevemente cada argumento.
Primeiro, após notar muitas das diferenças entre as administrações do Antigo e do Novo Concerto, Murray escreve: — “Toda a verdade evangélica pode ser encontrada no Saltério, mas não no grau em que agora é conhecida”. Se por isso Murray está argumentando que o Saltério é insuficiente porque todos os detalhes minuciosos sobre Cristo e o Evangelho não são encontrados dentro dele, então respondemos com as seguintes observações.
[A] – Embora o Saltério não revele todos os detalhes e doutrinas do Novo Testamento — tampouco do Antigo, pois os Salmos não narram minuciosamente a história de Israel, nem expõem toda a Lei divina ou os escritos dos profetas —, ele nos oferece um quadro amplo e suficiente do que é necessário para o nosso louvor, quando integrado aos demais elementos do culto.A verdade é que nenhum elemento do culto público foi projetado por Deus para nos dizer tudo no culto, independentemente dos outros elementos. Embora os Salmos estejam cheios de rica doutrina e ensino, seu propósito central é o louvor. Eles não foram projetados para substituir a leitura das Escrituras ou o sermão.
Além disso, o Saltério revela um retrato tão claro de Cristo e sua obra que qualquer sugestão de que eles são inadequados em sua exposição da obra de Cristo está errada. Isso mostra ou uma falta de entendimento sobre seu conteúdo, ou é simplesmente uma tentativa de formar uma desculpa para o homem adicionar ao que Deus nos deu para o louvor. Os Salmos ensinam a divindade de Cristo (Salmos 45:6; 110:1), sua filiação eterna (Salmos 2:7), sua encarnação (Salmos 8:5; 40:7 – 9), seus ofícios mediadores como Profeta (Salmos 40:9, 10), Sacerdote (Salmos 110:4) e Rei (Salmos 2:7 – 12; 22:18; 45:6; 72; 110:1). Os Salmos fornecem detalhes inspirados pelo Espírito sobre a traição de Cristo (Salmos 41:9), sua agonia no jardim (Salmos 22:2), seu julgamento (Salmos 35:11), sua rejeição (Salmos 22:6; 118:22), sua crucificação (Salmos 22; 69), seu sepultamento e ressurreição (Salmos 16:9 – 11), sua ascensão (Salmos 24:7 – 10; 47:5; 68:18), e sua segunda vinda e julgamento (Salmos 50:3, 4; 98:6 – 9). Eles também nos falam da vitória do reino de Cristo (Salmos 2:6 – 12; 45:6 e seguintes). Alguns Salmos revelam tanta informação vital sobre a Pessoa e Obra de Cristo que são chamados de Salmos messiânicos (Salmos 2, 8, 16, 22, 40, 45, 69, 72, 110)[35].
[B] – Embora o Saltério não seja exaustivo em nos dizer tudo no Antigo ou Novo Testamento, também não são os hinários não–inspirados. De fato, o Livro dos Salmos é muito mais rico, melhor e mais doutrinariamente completo e equilibrado do que qualquer hinário moderno. Os escritores de hinos historicamente evitaram os aspectos judiciais do caráter de Deus em favor do amor e da felicidade celestial. Eles evitaram os importantes aspectos imprecatórios do louvor que, ao contrário de Murray, não são inadequados na era do Novo Concerto. Os hinos não contêm advertências contra confiar em príncipes (Salmos 146:3, 4) e certamente não enfocam a doutrina da criação de uma maneira que se aproxime do Saltério (por exemplo, veja Salmos 146:6). Os hinários não contêm as muitas antíteses entre os justos e os ímpios que são encontradas no Saltério. Tampouco contêm declarações tão surpreendentes sobre a santa Lei de Deus como encontrado no Salmos 119. Tais exemplos poderiam ser multiplicados extensivamente. Uma vez que é impossível colocar toda a história bíblica, profecia e doutrina em um manual de louvor, isso levanta uma questão importante. Quem você acha que deve decidir o que pertence ao manual de louvor da Igreja – Deus ou o homem pecador?
Murray se recusa a reconhecer que a história da hinologia é uma história de declínio. É apenas uma questão de curso para seres humanos pecadores negligenciarem doutrinas impopulares em seus hinários. Mesmo que um hinário produzido humanamente não contivesse doutrinas não–ortodoxas, ainda seria grosseiramente desequilibrado teologicamente ao enfatizar doutrinas populares enquanto ignora os ensinamentos menos populares. Talvez, porque as canções de louvor estão nos lábios do povo de Deus semana após semana e dia após dia, uma razão pela qual Deus limitou seu uso a canções divinamente inspiradas foi para nos proteger de nós mesmos; para garantir que o culto não se tornasse centrado no homem, desequilibrado ou mesmo herético[36].
Segundo, Murray acha que é inadequado usar apenas a terminologia do Antigo Concerto no louvor do Novo Concerto. Ele escreve: — “É então crível que a linguagem do louvor cristão deva ser confinada às palavras de uma era de muito menos luz e privilégio?[37]”. Há vários problemas com essa pergunta.
[A] – Embora os Salmos contenham alguns louvores expressos na terminologia das sombras do Antigo Concerto das coisas porvir, grande parte do livro é fácil de entender e poderia ter sido escrito em qualquer dispensação. Além disso, com o cânon do Novo Testamento completo, entendemos plenamente o significado desses conceitos. De fato, o Saltério foi menos útil e muito mais difícil como um manual de louvor para os santos do Antigo Testamento do que para os do Novo. Os próprios Apóstolos não entenderam como Jesus de Nazaré cumpriu muitas das profecias do Antigo Testamento até que Cristo se manifestasse a eles após a ressurreição (Lucas 24:44 – 49; João 20:19 – 31). Argumentar que o Saltério é insuficiente, precisamente no momento em que se tornou mais relevante e útil, carece de evidências bíblicas sólidas e de bom senso.
[B] – O fato de que Murray não gosta da realidade de que Deus escolheu reunir o hinário inspirado da Igreja antes da morte e ressurreição de Cristo é irrelevante. Murray e outros podem não gostar da realidade de que o Saltério contém muita terminologia do Antigo Testamento que deve ser vista através das lentes do Novo Testamento. Mas perguntamos, como isso prova a autorização divina para o uso de hinos não–inspirados? O fato de que algo não parece certo para nós ou que preferiríamos que algo fosse feito de maneira diferente não cumpre o requisito de prescrição divina para uma nova prática de culto. Murray ainda deve demonstrar a partir das Escrituras que o uso de hinos não–inspirados no culto público é ordenado, ou ele deve encontrar exemplos históricos do uso de hinos não–inspirados no culto público nas Escrituras. Seu livreto não contém tal argumentação.
Terceiro, Murray continua sua linha anterior de argumentação com a afirmação de que “é difícil, e às vezes impossível, fazer da linguagem de Davi e Asafe a expressão mais apropriada da experiência cristã[38]”. Murray apoia essa afirmação com duas linhas de raciocínio.
[A] – A primeira (seguindo Watts) é a ideia de que os Salmos imprecatórios, como escritos e intencionados, são inadequados para o louvor do Novo Concerto[39]. Esse argumento deve ser enfaticamente rejeitado porque essas orações pela destruição dos ímpios impenitentes foram escritas pelo Espírito Santo e estão enraizadas na natureza e caráter santo e justo de Deus. Como Senhor Soberano, Deus possui o direito de erradicar e destruir todos os seres malignos de sua criação. Se essas canções imprecatórias são inadequadas ou imorais para uso na era do Novo Concerto, elas também seriam erradas para uso na era do Antigo Concerto. A natureza e o caráter de Deus, bem como sua Lei moral, nunca mudam. As visões de Isaac Watts sobre essa questão são praticamente blasfemas.
[B] – A segunda linha de argumentação de Murray é talvez a mais surpreendente e absurda de todo o livreto. É aqui que Murray tenta demonstrar que há hinos não–inspirados que “expressam melhor os sentimentos do crente a Cristo crucificado” do que o Salmos 22. Murray pode preferir os hinos que cita ao Salmos 22, mas quem é ele para decidir o que outros cristãos pensam sobre o Salmos 22? É assim que o culto da Igreja do Novo Concerto deve ser decidido: — por sentimentos pessoais, impressões subjetivas, sentimentalismo e emocionalismo? É essa exaltação dos sentimentos subjetivos dos crentes que é responsável pela substituição das canções inspiradas, majestosas, desafiadoras e intelectuais do Saltério por canções pop carismáticas modernas e mantras ao estilo hippie. Além disso, ao contrário dos sentimentos subjetivos de Murray, não há hinos não–inspirados que cheguem perto do Salmos 22. Como observa Spurgeon: — “Para expressões de lamento que surgem de profundezas indizíveis de angústia, podemos dizer deste salmo, ‘não há nenhum como ele’. É a fotografia das horas mais tristes do Senhor, o registro de suas palavras moribundas, o lacrimatório de suas últimas lágrimas, o memorial de suas alegrias expirantes […]. Diante de nós, temos uma descrição tanto da escuridão quanto da glória da cruz, os sofrimentos de Cristo e a glória que seguirá. Ó, por graça para nos aproximarmos e vermos essa grande visão! Devemos ler reverentemente, tirando os sapatos dos pés, como Moisés fez na sarça ardente, pois se há solo sagrado em algum lugar nas Escrituras, é neste salmo[40]”.
Além disso, ao cantarmos o Salmos 22, podemos cantar com uma fé completa nesta descrição de Cristo crucificado, pois estamos cantando as próprias palavras de Deus. Mas, mesmo na escolha de hinos supostamente melhores de Murray, não podemos cantar com esse tipo de fé porque esses hinos são escritos por homens pecadores e falíveis. John W. Keddie escreve: — “O próprio Iain Murray menciona alguns hinos bem conhecidos que ele considera superiores aos Salmos ao falar da cruz (p. 25). Ele menciona ‘When I Survey the Wondrous Cross (Quando Eu Contemplo a Cruz Maravilhosa)’ de Cowper. No entanto, podemos perguntar: — Onde a Bíblia fala da cruz como ‘maravilhosa’? Por que Cowper não escreveu, ‘Quando Eu Contemplo a Cruz Amaldiçoada’ (em termos de Gálatas 3)? ‘O Sacred Head! Sore Wounded (Ó Cabeça Sagrada, Ferida ou Ó Cabeça Sagrada, Ensanguentada)’ de Paul Gerhardt também é mencionado. Mas por que foi considerado necessário em alguns hinários mudar o título para, ‘O Sacred Head Once Wounded (Ó Cabeça Sagrada, Outrora Ferida ou Ó Cabeça Sagrada, Antes Ferida)’? E novamente, em ‘And Can It Be’ de Charles Wesley, a imagem é exuberante e a música que a acompanha pode ser comovente. Mas olhe para o verso 3 e pergunte: — Cristo realmente se esvaziou de tudo exceto amor? O que isso significa? De onde Wesley tirou essa ideia [herética]?[41]”.
Quarto, Murray em seguida apresenta um argumento baseado na falta de certas expressões nos Salmos encontradas no Novo Testamento. Ele cita James Hamilton dizendo: — “Nunca lhe ocorre, como um estranho teste de espiritualidade, que você cantaria cânticos por cinquenta anos sem jamais mencionar Emanuel, a Rocha dos Séculos, o Cordeiro de Deus, a Ressurreição e a Vida? Não é um estranho sinal de crescimento na graça e de preparação para o céu, que você tenha estado cantando todo esse tempo sem ainda ter chegado ao nome de Jesus?[42]”. Embora esse seja um argumento muito comum contra a Salmodia Exclusiva, na realidade, é nada mais do que um apelo ao sentimentalismo sem fundamento bíblico. Esse ponto será demonstrado pelas seguintes observações.
[A] – A Bíblia não nos ordena a garantir que todas as diferentes designações para Deus ou Jesus sejam incluídas em nossas canções de louvor. Se o fizesse, a objeção de Murray seria significativa. Além disso, há nomes bíblicos para Cristo no Antigo Testamento que nem mesmo são explicitamente identificados ou usados no Novo Testamento (por exemplo, Jehovah Tzidkenu, [cf. Jeremias 23:5, 6]). Essa realidade, no entanto, não significa que o Novo Testamento é de alguma forma insuficiente e precisa ser suplementado pelo homem.
[B] – O argumento de Murray pressupõe que o culto a Jesus Cristo seja de alguma forma insuficiente ou inferior se tais designações bíblicas não forem usadas. Mas essas designações e a palavra “Jesus” não são intrinsecamente sagradas, místicas ou santas. Não servimos ou adoramos essas palavras, mas sim a Pessoa que essas palavras representam ou apontam. Portanto, se as ideias que essas palavras representam são encontradas no Saltério (e certamente estão), então a objeção de Murray não passa de um apelo inteligente às nossas emoções. Respeitamos todas as diferentes designações para Deus e Cristo nas Escrituras e não as usamos de maneira irreverente por causa da Pessoa por trás do nome.
Na Bíblia, a expressão “em nome” não se refere a um poder mágico conectado aos sons das sílabas, mas a um reconhecimento ou confirmação da pessoa que é nomeada. Quando Paulo diz: — “que ao nome de Jesus todo joelho se dobre” (Filipenses 2:10), ele se refere a um reconhecimento do poder, autoridade e majestade da Pessoa teantrópica, não das sílabas. “Ao nome de Jesus; não ao som da palavra, mas à autoridade de Jesus; todos devem prestar homenagem”. Como Calvino observa: — “[…] Paulo fala de toda a dignidade de Cristo, restringir seu significado a duas sílabas seria como alguém examinar atentamente as letras da palavra Alexandre, para encontrar nelas a grandeza do nome que Alexandre [o Grande] adquiriu para si mesmo. Tal sutileza, portanto, não é sólida, e o artifício é alheio à intenção de Paulo. Mas pior que ridículo é o comportamento dos sofistas sorbonistas[43], que inferem desta passagem que devemos dobrar os joelhos sempre que o nome Jesus for pronunciado, como se fosse uma palavra mágica, na qual toda virtude estivesse incluída no som dela. Paulo, ao contrário, fala da honra que deve ser prestada ao Filho de Deus — não a meras sílabas[44]”.
[C] – O próprio Jesus Cristo considerava perfeitamente aceitáveis os sinônimos bíblicos para o culto público. Observe a fórmula batismal dos próprios lábios do nosso Senhor: — “batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28). As únicas pessoas de que este autor tem conhecimento que exigem o uso da palavra “Jesus” durante o batismo são os antitrinitarianos do grupo “Somente Jesus”. Cristo nos ensina que não precisamos dizer a palavra “Jesus” para que o batismo seja bíblico. Uma referência à segunda pessoa da Trindade é suficiente. Portanto, seguindo o próprio raciocínio do nosso Senhor, as abundantes referências do Saltério à pessoa e à obra de Cristo são perfeitamente aceitáveis como louvor do Novo Testamento.
[D] – Os autores do Novo Testamento, escrevendo sob inspiração divina, substituíram a palavra grega “kurios” (“Senhor”) pela palavra hebraica que significa o nome do Pacto de Deus (Yahweh ou Jeová) ao citar passagens do Antigo Testamento (por exemplo, Mateus 3:3; Isaías 40:3; Atos 2:20, 21; Joel 2:31, 32; Marcos 1:3; Isaías 40:3; Atos 2:25; Salmos 16:8; Atos 2:34; Salmos 68:18 etc.). Ao fazer isso, eles seguiam geralmente a tradução grega do Antigo Testamento (a LXX), comumente usada pelos judeus de língua grega de sua época. Se havia algo especial ou único sobre a palavra Jeová em si, em vez da verdade ou significado por trás da palavra, então tal substituição teria sido antibíblica. Se sabemos que a palavra Senhor no Saltério se refere a Jesus Cristo, então cantar essa palavra é tão honroso quanto pronunciar a palavra “Jesus” em si.
[E] – Aqueles que apelam à ideia de que devemos cantar o nome de Jesus são inconsistentes. O mediador divino–humano nunca foi chamado de Jesus. Seu nome era Yehoshua, não Jesus. Não conhecemos hinos não–inspirados que falem de Yehoshua (com exceção do movimento judaico messiânico). Pode-se objetar dizendo, “Sim, mas Jesus é uma transliteração da palavra grega Iesous, a qual é uma transliteração da palavra hebraica Yehoshua. Portanto, a palavra inglesa Jesus representa Yehoshua”. Esse ponto é verdadeiro. No entanto, não prova que a palavra “Jesus” “é mais importante ter nos lábios do que outros nomes pelos quais Deus se faz conhecido[45]”. Quando os cantores de Salmos louvam o Redentor cantando as canções inspiradas das Escrituras, eles estão adorando Jesus Cristo da maneira que Ele ordenou. Isso é o que agrada a Deus. Não há evidências de que Deus prefira o nome de Jesus sobre outras designações. O argumento do “nome de Jesus” é uma suposição sem evidências.
[F] – O nome Jesus ou Yehoshua significa “Jeová é salvação”. Esse nome foi dado por um anjo a Maria para indicar a missão da criança. “Você chamará seu nome JESUS, pois Ele salvará seu povo de seus pecados” (Mateus 1:21). O propósito do nome é nos ensinar sobre o papel de Cristo como o redentor dos eleitos de Deus. Os Salmos nos ensinam sobre o papel de Cristo como Salvador? Sim, eles o fazem abundantemente (por exemplo, Salmos 2:7 – 12; 8:5; 16:9 – 11; 22; 24:17 – 10; 35:11; 40:7 – 9; 41:9; 45:6 e seguintes; 47:5; 50:3, 4; 68:18; 69; 72; 110 etc.). Dado o fato de que o Saltério nos dá um quadro claro de Cristo e sua obra redentora, a ideia de que devemos cantar o nome de Jesus para adorá-lo adequadamente simplesmente não é verdade. Mais uma vez, deve-se enfatizar que é o que o nome representa ou aponta que é importante. Uma vez que alguém entende as riquezas doutrinárias contidas no Saltério, ele entenderá que o argumento do “nome de Jesus” é realmente apenas uma desculpa para se afastar do manual de louvor todo suficiente que Deus nos deu – os Salmos.
Quinto, o argumento final de Murray baseia-se em sua interpretação da história da Igreja. Ele escreve: — “Acredito que há uma confirmação da história do argumento de que as maiores bênçãos da era do Novo Testamento justificam formas adicionais de louvor. Não é acidental que as eras que foram mais ricas na produção de hinos espirituais tenham sido aquelas em que houve uma nova medida do Espírito dada às Igrejas[46]”. Há vários problemas com essa afirmação.
[A] – Simplesmente não é verdade. A Igreja apostólica, que estabeleceu Igrejas cristãs por todo o Império Romano, não produziu hinos ou hinários. A reforma sob João Calvino, que produziu a maior escola para Cristo naquela época em todo o mundo e alcançou a mais completa reforma da doutrina, culto e governo da Igreja, não produziu novos hinos ou hinários. Poderíamos adicionar o trabalho surpreendente de João Knox e Andrew Melville; o avivamento abalador do mundo de 1638 e homens como George Gillespie, Samuel Rutherford e Robert Baillie. Houve também o trabalho da Assembleia de Westminster de Divinos, que produziu a melhor confissão da Igreja que o mundo já viu. Mais uma vez, Murray está apresentando uma interpretação muito tendenciosa e unilateral da história da Igreja.
[B] – Murray essencialmente ignora o fato de que o revivalismo dos séculos XVIII e XIX foi uma mistura que frequentemente produziu frutos podres. O revivalismo de homens como John e Charles Wesley com sua mistura de Teologia corrupta e hinos não–inspirados foi parte da queda da religião evangélica nas Ilhas Britânicas e nos Estados Unidos. Os hinos frequentemente se tornam pequenos cavalos de Troia, expondo as pessoas ao pietismo antibíblico, arminianismo, conceitos humanísticos de amor e justiça, conceitos distorcidos dos atributos de Deus, conceitos feministas modernos da Igreja e da família e até conceitos coloniais/racistas da Grã–Bretanha. Por exemplo, uma vez que a Igreja Presbiteriana nos EUA se desvinculou do Princípio Regulador ou sola Scriptura no culto, era apenas uma questão de tempo para essa Igreja se mover em direção ao arminianismo, prelacismo[47] no culto e modernismo. Ao contrário das afirmações de Murray, poderia ser demonstrado que a autonomia humana no culto (ou seja, culto da vontade) historicamente levou à exaltação da vontade humana na salvação e na ética. Em resumo, o uso de hinos não–inspirados tem sido um desastre para as Igrejas reformadas.
De fato, pode-se argumentar que o uso de hinos não–inspirados e o conceito muito frouxo (e realmente inexistente) de autorização divina no qual a hinódia se baseia é diretamente responsável pela ampla tomada da “música cristã contemporânea” (ou seja, culto “pop” carismático–arminiano) em praticamente todas as denominações reformadas que outrora aderiam à velha hinódia não–inspirada. Mesmo em muitas Igrejas onde esse novo chamado “culto celebrativo” não tomou completamente os hinos tradicionais, a prática é geralmente um culto misturado com um pouco disto e um pouco daquilo. Essa realidade histórica demonstra que aqueles que semeiam o vento colherão o redemoinho. Quando as Igrejas reformadas permitiram a autonomia humana no culto, contrária à Bíblia e seus padrões, elas liberaram o monstro da tradição humana que agora não podem conter. A única solução para esse problema muito sério é voltar a uma interpretação confessional estrita do Princípio Regulador e do Saltério inspirado suficiente que Deus nos deu tão graciosamente.
Conclusão.
Após uma análise cuidadosa do livreto de Iain H. Murray, concluímos com algumas somas e observações importantes. Primeiro, Murray nunca produziu qualquer evidência de que hinos não–inspirados tenham sido autorizados por Deus. Ele não apresenta um único mandamento, exemplo histórico inspirado ou inferência lógica sólida a esse respeito. Em vez disso, Murray recorre principalmente a um apelo a certos indivíduos na história da Igreja que concordam com ele, e ele confia em argumentos baseados em sentimentalismo e emoção. Segundo, Murray apresenta uma visão muito unilateral e tendenciosa da história da Igreja. Ele cita seletivamente certos puritanos e ignora a decisão da Assembleia de Westminster sobre essa questão, que é explícita e inegável. Terceiro, as tentativas de Murray de argumentar a partir das Escrituras são ou completamente falaciosas, ou, no máximo, autorizariam apenas as poucas canções inspiradas nas Escrituras que estão fora do Saltério canônico. Dadas essas e outras considerações, pedimos a nosso querido irmão que se arrependa do declínio apresentado em seu livreto e, em vez disso, levante a bandeira da verdade em oposição às corrupções generalizadas no culto encontradas nas chamadas Igrejas reformadas de nossos dias.
Paz e graça.
[1] Por Brian Schwertley (2007).
[2] Iain H. Murray, Should the Psalter be the Only Hymnal of the Church? (Carlisle, PA: Banner of Truth, 2001), 4 – 5.
[3] Murray afirma: — “É difícil, e por vezes impossível, fazer com que a linguagem de Davi e Asafe seja a expressão mais apropriada da experiência cristã” (23).
[4] É notável que, em sua lista de “publicações recentes” favoráveis à Salmodia Exclusiva (ver nota 3), Iain Murray omita a obra moderna mais significativa sobre o tema: — The Songs of Zion: A Contemporary Case for Exclusive Psalmody, de Michael Bushell (Pittsburgh, PA: Crown & Covenant, [1977] 1980, 93).
[5] Iain H. Murray, 6.
[6] Ibid., 7.
[7] Curiosamente, o Salmos 72 é identificado como um Salmos de Salomão, não de Davi. Seja o que for que Salmos 72:20 signifique, não pode indicar que todos os Salmos anteriores a este foram escritos por Davi.
[8] “Porque no livro dos Salmos está escrito: — Fique deserta a sua habitação, e não haja quem nela habite, e: — Tome outro o seu bispado” (ACF). Este versículo é uma citação dos Salmos 69:25 e 109:8, aplicando-se à queda de Judas Iscariotes.
[9] Michael Bushell, The Songs of Zion, 14 – 15. Curiosamente, vários estudiosos do Antigo Testamento referem-se ao Livro dos Salmos como o hinário do Segundo Templo (por exemplo, veja A. F. Kirkpatrick, The Book of Psalms [Grand Rapids: Baker, (1902) 1982], xv).
[10] Iain Murray, 8.
[11] Ibid.
[12] Murray rejeita o ensino da Confissão de Fé de que as Escrituras definem até mesmo o conteúdo de cada elemento distinto do culto. Ele escreve: — “O Princípio Regulador controla quais devem ou não ser as partes do culto: — é o louvor cantado que é autorizado como uma parte, não as próprias palavras de que essa parte deve ser composta” (p. 11, ênfase adicionada). O problema com a afirmação de Murray é que ela contradiz explicitamente as Escrituras. A leitura das Escrituras requer a leitura exclusivamente da Bíblia, não dos Apócrifos. A pregação exige a exposição das Escrituras (Marcos 4:34; Lucas 24:27; Atos 2:14 – 40; 17:3; 18:26; 28:23 etc.), não dos Pais da Igreja ou do Bhagavad Gita. A oração requer seguir o padrão de Cristo com nossas próprias palavras ou petições não–inspiradas (Mateus 6:9). E o canto de louvor exige canções escritas pelo Espírito Santo (1 Crônicas 6:39; 15:17; 16:5 e seguintes; 25:1 – 7; 2 Crônicas 25:1 – 7; 29:25 – 30 etc.). Bushell escreve: — “Claramente, se a pregação, o canto e o ensino requerem autorizações distintas quanto a quem pode realizar esses atos no culto, então também requerem autorizações distintas quanto ao seu conteúdo verbal. Observações semelhantes podem ser feitas sobre o paralelo frequentemente mencionado entre oração e canto. Argumenta-se que, uma vez que nossas orações contêm palavras não–canônicas, nossas canções também podem contê-las. Mas ninguém argumentaria que, por orarmos no culto, não precisamos cantar no culto (tomando essas palavras aqui como geralmente entendidas), ou que, por termos um hinário para uso no culto, seria, portanto, permitido ter um livro de orações. O paralelo simplesmente não pode ser mantido consistentemente. O problema com toda essa linha de raciocínio é que ela abstrai os termos ‘oração’, ‘ensino’, ‘pregação’ e ‘canto’ de seu contexto escriturístico e os trata como nada mais que fenômenos linguísticos, em vez de aspectos vivos do culto bíblico. Tal procedimento é inválido e não pode deixar de levar a conclusões errôneas. Cantar, pregar e ensinar pressupõem um conteúdo e um contexto. Não se pode fazer justiça a esses conceitos sem manter seu contexto em mente” (The Songs of Zion, 49 – 50).
[13] Iain H. Murray, 9.
[14] Ibid., 10.
[15] Ibid.
[16] Charles Hodge, A Commentary on Ephesians (Carlisle, PA: Banner of Truth, [1856] 1964), 304.
[17] O único recurso de um defensor de hinos não–inspirados em relação a 1 Coríntios 14:14 – 26 seria argumentar que essa passagem evidencia a insuficiência do Saltério para o culto público do Novo Pacto. No entanto, a possível inferência de insuficiência não justifica nem fornece autorização divina para hinos não–inspirados. O fato de que a Igreja apostólica não produziu um hinário inspirado ou não–inspirado para suplementar o Saltério indica que, mesmo que essas fossem novas canções inspiradas, elas não foram destinadas ao uso perpétuo na Igreja. Uma vez que os dons carismáticos foram projetados para auxiliar a Igreja antes da conclusão do cânon do Novo Testamento, essas canções proféticas podem ter sido uma medida temporária, pois as Igrejas do Novo Pacto, em sua infância, não teriam capacidade de interpretar e compreender adequadamente os Salmos sem o cânon do Novo Testamento. Há também a possibilidade distinta de que essas profecias fossem cantadas apenas por indivíduos e nunca destinadas ao uso corporativo. Não se deve descartar a possibilidade de que a palavra “salmo” em 1 Coríntios 14:14 – 26 refira-se exclusivamente aos Salmos do Antigo Testamento, uma interpretação comum. Seja qual for a visão adotada, essa passagem não fornece autorização divina para os hinários modernos não–inspirados.
[18] Michael Bushell, 86.
[19] O título do Salmos 76 combina precisamente dois dos três termos usados por Paulo em Efésios 5:19 e Colossenses 3:16 — e o contexto e a tradição litúrgica o ligam intimamente ao terceiro. Eis a forma do título, conforme a ACF: — “Ao músico–mor sobre Neguinote, Salmo de Asafe, Cântico” e conforme a ACR: — “Salmo e Cântico de Asafe para o cantor–mor, sobre Neguinote”. Em hebraico: — לַמְנַצֵּחַ בִּנְגִינוֹת מִזְמוֹר לְאָסָף שִׁיר – Lammenatzeach binneginot, mizmor leAsaf, shir. Analisemos os termos: — מִזְמוֹר (mizmor) — traduzido como “Salmo” (do grego ψαλμός–psalmos); שִׁיר (shir) — traduzido como “Cântico” (do grego ᾠδή–ōdē). O termo “Hino” (ὕμνος–hymnos) não aparece explicitamente neste título, mas é amplamente reconhecido que “hino” é uma das formas de cântico sacro presentes nos Salmos, especialmente nas porções laudatórias e celebrativas (como o Halel: — Salmos 113 — 118). Portanto, o título do Salmos 76 combina “salmo” (mizmor) e “cântico” (shir) — e como os títulos e o conteúdo dos Salmos abrangem o gênero “hino” (hymnos), podemos entender que essa tríade paulina encontra eco na estrutura do Saltério. Isso reforça o argumento de que Efésios 5:19 e Colossenses 3:16 não introduzem gêneros extra–canônicos de música, mas referem-se aos próprios termos usados nos títulos hebraicos dos Salmos, traduzidos na Septuaginta como: — “ψαλμοί (psalmoi) — Salmos, ὕμνοι (hymnoi) — Hinos, ᾠδαί (ōdai) — Cânticos”. Logo, há sim uma correspondência clara, especialmente em títulos como o do Salmos 76, com a tríade inspirada de cânticos prescrita por Paulo para o culto cristão — nota do tradutor.
[20] See John Murray, “Song in Public Worship” in Worship in the Presence of God, (eds. Frank J. Smith and David C. Lachman, Greenville Seminary Press, 1992), 188. For the New Testament meaning of pneumatikos see B. B. Warfield, The Presbyterian Review, 1:561 (July 1880). For a more detailed exegesis of Eph. 5:19 which refutes Iain H. Murray’s view see: Michael Bushell, The Songs of Zion, 83 – 93.
[21] Iain Murray afirma que o Princípio Regulador não se estende ao conteúdo do louvor. Essa afirmação foi refutada acima na seção número 3. Observe que a afirmação de Murray não é acompanhada por nenhuma evidência de apoio.
[22] Steelite é um termo que, no contexto eclesiástico reformado, especialmente no presbiterianismo histórico escocês, refere-se a uma tradição específica de Igrejas que seguem estritamente os princípios e práticas do Covenanters — um ramo do presbiterianismo que busca permanecer fiel aos padrões e votos dos Pactos nacionais e solenes da Escócia do século XVII, particularmente: — [1] – A Confissão de Fé de Westminster (1646); [2] – o Juramento do Pacto Nacional (1638), e [3] – o Pacto Solene e Nacional (Solemn League and Covenant, 1643). Origem do nome “Steelite”: — O nome “Steelite” deriva de David Steele (1803 – 1887), um ministro presbiteriano escocês que emigrou para os Estados Unidos. Ele liderou um grupo que se separou da Reformed Presbyterian Church (Covenanter), acusando-a de comprometer-se com práticas modernas e de abandonar princípios históricos fundamentais, como: — [1] – O testemunho fiel contra as heresias públicas da sociedade civil e da Igreja visível; [2] – a exclusividade de Salmos inspirados no culto público, sem instrumentos; [3] – a não–participação em eleições civis, sob a alegação de que os governos modernos não reconhecem formalmente a autoridade de Cristo Rei. David Steele e seus seguidores mantiveram uma postura de separação estrita, o que deu origem à designação “Steelite” — um termo originalmente pejorativo, mas que passou a identificar esse ramo específico do presbiterianismo Covenant estrito. Características dos Steelites — [1] – Exclusivo uso do Saltério no culto (sem hinos humanos); [2] – rejeição de instrumentos musicais no culto público; [3] – forte ênfase na continuidade do testemunho reformado escocês; [4] – crítica ao ecumenismo e à apostasia das Igrejas presbiterianas modernas; [5] – rejeição da participação política em regimes que não reconhecem explicitamente o senhorio de Cristo sobre as nações. Situação atual — Os steelites existem ainda hoje em pequenos grupos, principalmente nos EUA, Canadá e algumas partes da Escócia. Eles são considerados por muitos como ultraconservadores ou separatistas, mas eles se veem como os últimos fiéis portadores do testemunho reformado histórico, especialmente da tradição dos mártires Covenanters — nota do tradutor.
[23] O erastianismo é uma visão teológica e política que defende a supremacia do Estado sobre a Igreja em questões eclesiásticas, incluindo doutrina, disciplina e governo da Igreja. O termo deriva do nome de Thomas Erastus (1524 – 1583), um médico e teólogo suíço que argumentou que o Estado, e não a Igreja, deveria ter a autoridade final sobre assuntos religiosos, especialmente na aplicação de disciplina e na administração de assuntos eclesiásticos. Ele escreveu 100 teses (mais tarde reduzidas para 75) nas quais argumentava que os pecados cometidos pelos cristãos deveriam ser punidos pelo Estado e que a Igreja não deveria reter os sacramentos como forma de punição. Elas foram publicadas em 1589, após sua morte, com o título “Explicatio gravissimae quaestionis” — nota do tradutor.
[24] Após 1696, a hinodia ganhou aceitação entre os dissidentes [isto é, vários independentes] e, eventualmente, entre os anglicanos. Os Salmos métricos cederam lugar, em grande parte, a paráfrases de Salmos usadas como hinos (particularmente aquelas de Isaac Watts) ou a cânticos não métricos. O primeiro material adicional para o culto permitido em muitas Igrejas escocesas foi a Escritura metrificada no estilo do livro de 1650 [o Saltério de Rous]: — As Paráfrases Escocesas (1781). Hinos modernos [não–inspirados] foram introduzidos pela Igreja do Alívio no final do século XVIII, mas não se tornaram amplamente difundidos no presbiterianismo escocês até aproximadamente entre 1850 e 1875 (J. S. Andrews, “Psalms, Psalter”, em, org. ed. Nigel M. de S. Cameron, Dictionary of Scottish Church History and Theology [Downer’s Grove, IL: Intervarsity Press, 1993], 683).
[25] “O Grande Sínodo foi convocado pelos Estados Gerais da Holanda em 13 de novembro de 1618. Entre os 84 delegados holandeses estavam 18 comissários seculares. Também participaram 27 delegados de vários estados alemães, Suíça, Inglaterra e Escócia” (David N. Steele, Curtis C. Thomas, S. Lance Quinn, The Five Points of Calvinism [Phillipsburg, NJ: Presbyterian & Reformed, (1963) 2004], 4).
[26] Louise F. Benson, The Hymnody of the Christian Church (Richmond: John Knox Press, 1956), 86, as quoted in Bushell, 178.
[27] Michael Bushell, 179 – 180. A única possível exceção a isso foi a primeira edição do Saltério de Genebra (1542), que incluía o Credo dos Apóstolos, o qual, pelo menos nos primeiros dias de Genebra sob Calvino, era cantado apenas antes da celebração da Ceia do Senhor. Com relação a essa exceção, considere o seguinte: — Primeiro, ele era cantado como uma confissão. Segundo, naquela época, tanto católicos romanos quanto protestantes acreditavam que o Credo havia sido composto pelos Apóstolos. Calvino o considerava apostólico (ver Institutas II.16.18 e Tratados Teológicos, 92). Portanto, embora não fosse uma porção das Escrituras, não era visto como um hino não–inspirado. Terceiro, ele foi removido da versão final e autorizada do Saltério (1562). Para uma discussão detalhada, veja Bushell, 179 – 181.
[28] Do Epistre ua lecteur em La forme des priers et chants ecclesiastiques (1543), em Calvino, Opera, Vol. VI, pp. 171ss., em Bushell, 181-182. “Os Salmos, na visão de Calvino, são tão superiores aos hinos humanos que colocar estes últimos ao lado dos primeiros só poderia ser um ato de impiedade” (Ibid., 182).
[29] Iain Murray, 13.
[30] To read the Westminster Directory of Worship on this issue see: Westminster Confession of Faith (Glasgow: Free Presbyterian Publications, [1646] 1958, 76, 94), 376, 393.
[31] Alex F. Mitchell and John Struthers, eds., Minutes of the Sessions of the Westminster Assembly of Divines While Engaged in Preparing Their Directory for Church Government, Confession of Faith, and Catechisms (November 1644 to March 1649) from Transcripts of the Originals Procured by a Committee of the General Assembly of the Church of Scotland (Edmonton, AB, Canada: Still Waters Revival Books, 1991 [1874]).
[32] Ibid., see 163, 221, 222, 298.
[33] Para uma discussão mais aprofundada sobre o abandono da Salmodia Exclusiva pela PCUSA, consulte Bushell, 198 – 212. O abandono da Salmodia Exclusiva por outras denominações presbiterianas e Igrejas reformadas holandesas é abordado nas páginas 212 a 220. Para leituras adicionais sobre a PCUSA e os Salmos de Watts, veja Charles Hodge, The Constitutional History of the Presbyterian Church in the United States of America (Filadélfia: Presbyterian Board of Publications, 1851), parte 2, 244 – 306.
[34] Iain Murray, 20.
[35] Para uma excelente discussão sobre a suficiência do Saltério, consulte Michael Bushell, 10 – 52.
[36] Não se pode confiar ao homem a responsabilidade de selecionar cânticos de louvor para os lábios do povo de Deus semana após semana, como evidencia o Trinity Hymnal, o hinário oficial da Igreja Presbiteriana Ortodoxa (OPC), uma denominação reformada considerada “conservadora”. Muitos o consideram o melhor hinário já produzido. Contudo, de suas 742 seleções, apenas uma minoria são Salmos. Dos 150 cânticos inspirados do Saltério, pelo menos 50 foram completamente omitidos, e a maioria dos demais aparece como paráfrases imprecisas ou hinos vagamente baseados nos Salmos. “Se considerarmos apenas as seleções classificadas como traduções métricas de um salmo ou parte de um salmo, apenas 41 salmos estão representados neste hinário […] [e a maioria] desses salmos é apresentada de forma incompleta. Os 150 Salmos do Saltério inspirado contêm 2.461 versos. Rejeitando hinos que alegam uma conexão superficial com algum salmo ou paráfrases repletas de interpolações humanas como representantes da palavra de Deus, resta muito pouco. As 41 porções de salmos, que são traduções métricas dos originais, contêm apenas 370 versos, o que significa que impressionantes 85% do Saltério foram eliminados” (Louis F. DeBoer, Hymns, Heretics and History: A Study in Hymnody [Sanderstown, RI: American Presbyterian Press, 2004], 150 – 151). Tragicamente, os editores do Trinity Hymnal, guiados pela sabedoria humana, não apenas negligenciaram o que Deus ordenou, mas também julgaram prudente incluir hinos populares compostos por hereges, como unitaristas, católicos romanos, arminianos e feministas. Assim, os líderes da OPC e de outras denominações reformadas, como a PCA, são diretamente responsáveis por expor famílias do pacto a ideias heréticas semana após semana. A história da Igreja demonstra que hinos não–inspirados consistentemente suplantaram os Salmos. Esses hinos têm sido profundamente prejudiciais ao povo de Deus, pois, sem perceber, as pessoas saturam suas mentes com doutrinas falsas e filosofias perigosas ao cantá-los repetidamente.
[37] Iain H. Murray, 23.
[38] Ibid.
[39] Murray parece ter uma profunda afinidade por Isaac Watts e, claramente, foi influenciado pelos argumentos de Watts contra a Salmodia Exclusiva. Portanto, é crucial compreender que Isaac Watts foi um herege perigoso. Essa afirmação é sustentada por várias observações: — [1] – Watts é considerado o pai do dispensacionalismo moderno, pois acreditava que o Novo Testamento ensina uma ética nova, diferente e superior à do Antigo Testamento. Ele também faz declarações sobre os Salmos que questionam sua inspiração divina, como, por exemplo: — “mas encontramos uma linha seguinte que pertence tão particularmente a uma ação ou hora da vida de Davi, ou Asafe, que interrompe nosso cântico no meio; nossas consciências temem que possamos falar uma falsidade a Deus […]” (do prefácio de Watts, Hymns and Spiritual Songs). Watts considerava alguns Salmos tão contrários ao espírito cristão que omitiu Salmos inteiros e excluiu seções de outros. Como Louis F. DeBoer escreve: — “Nenhum crítico infiel de alta crítica e nenhum crítico textual racionalista ousou tomar liberdades tão extensas com a palavra de Deus quanto Watts presumiu fazer sob o pretexto de ‘cristianizar os Salmos’” (Hymns, Heretics and History, 63). [2] – Embora Watts se considerasse trinitariano, seus escritos sobre o tema são heréticos. Após examinar cuidadosamente várias citações de publicações de Watts sobre esse tópico, DeBoer conclui: — “Por fim, Watts era arianista ou unitarista? Estritamente falando, a resposta é não. Ele sempre se considerou trinitariano, e suas visões nunca coincidiram plenamente com as definições padrão de nenhum desses erros. Contudo, sua redefinição da Trindade, embora única, constituiu basicamente uma nova variante de arianismo/unitarismo. Ao negar que o Espírito e o Filho fossem plenamente e eternamente Deus no mesmo sentido que o Pai, ele era essencialmente unitarista. Ao propor que o Filho era algum tipo de ser criado divinizado, mais que mero homem, ele era essencialmente arianista. E, ao reduzir o Espírito a nada mais que uma força divina, ele concordava com ambos. Não importa como se considere, Watts era um herege em relação à Trindade” (Ibid., 101).
[40] Charles H. Spurgeon, The Treasury of David: An Expository and Devotional Commentary on the Psalms (Grand Rapids: Baker, [1882-1887] 1983), 1:365.
[41] John W. Keddie, Uma Análise do Panfleto: O Saltério — O Único Hinário? (Artigo na Internet: http://www.reformed.com/pub/psalter.htm), p. 3. Murray também argumenta que os hinos não–inspirados são superiores aos Salmos na questão da certeza da salvação (p. 25). Essa declaração é notável, dado as grandes afirmações nos Salmos que ensinam que Deus preserva o seu povo. Por exemplo, Salmos 37:28 diz: — “Porque o Senhor ama a justiça e não desampara os seus santos; eles são preservados para sempre, mas a descendência dos ímpios será exterminada”. Salmos 121:3, 7, 8 diz: — “Não deixará vacilar o teu pé; aquele que te guarda não tosquenejará […]. O Senhor te guardará de todo o mal; guardará a tua alma. O Senhor guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre” (cf. Salmos 12:7, 17:8 etc.).
[42] James Hamilton, The Psalter and the Hymn Book, 16 – 17, as quoted in Iain H. Murray, 26.
[43] O termo “sorbonista” deriva de Sorbona, a famosa universidade de Paris fundada no século XIII por Robert de Sorbon, conhecida por sua faculdade de Teologia. No contexto histórico, os sorbonistas eram teólogos escolásticos associados à Sorbona, frequentemente ligados à Igreja Católica Romana e à Teologia medieval. Eles eram conhecidos por debates teológicos rigorosos, mas, no período da Reforma (século XVI), foram criticados por reformadores como João Calvino por sua adesão à tradição católica e por argumentos considerados excessivamente especulativos, sofistas ou legalistas — nota do tradutor.
[44] João Calvino, Comentário sobre Filipenses, 61. John Gill concorda: — “[…] pois no mero nome não pode haver algo que comande tal respeito peculiar; era um nome comum entre os judeus. Além disso, as palavras não devem ser traduzidas como ‘em’, mas ‘no nome de Jesus’; ou seja, em razão do poder, autoridade e dignidade de Jesus, exaltado à destra de Deus, toda criatura deve se sujeitar a Ele” (An Exposition of the New Testament [Streamwood, IL: Primitive Baptist Library, 1979 (1809)], 135, 136). Além disso, se Deus estava tão preocupado com o uso e a pronúncia de palavras específicas durante o culto público, por que Ele permitiu que a pronúncia correta do nome mais significativo de Deus nas Escrituras, “YHWH” (comumente pronunciado como Iavé ou Jeová), que aparece 5.321 vezes na Bíblia, fosse perdida para sempre pela humanidade?
[45] Richard Bacon, Review of Crampton (Rowlett, TX: FPCR, 1996), see http://www.fpcr.org/blue_banner_articles/crampton.htm.
[46] Iain H. Murray, 27.
[47] O prelacismo é uma visão eclesiástica que defende a supremacia ou autoridade de prelados (bispos ou outros líderes eclesiásticos de alto escalão) no governo da Igreja. O termo deriva de “prelado” (do latim praelatus, “colocado acima”), que se refere a figuras como bispos, arcebispos ou outros clérigos com autoridade hierárquica. O prelacismo é frequentemente associado a sistemas eclesiásticos episcopais, como o da Igreja Católica Romana ou da Igreja Anglicana, onde os bispos têm autoridade centralizada sobre clérigos e congregações — nota do tradutor.
[48] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.
por Brian M. Schwertley | 31 dez 2019 | TEOLOGIA
A expressão cântico de Salmos na Confissão de Fé de Westminster se refere ao “saltério canônico”; ou, é um termo genérico que inclui composições humanas não inspiradas? Na Confissão de Fé[2], nós lemos a respeito do culto religioso: — “A leitura das Escrituras com temor divino; a sã pregação, e a consciente atenção à palavra, em obediência a Deus, com entendimento, fé, e reverência; o cântico de salmos com graça no coração; bem como a devida administração e digna recepção dos sacramentos instituídos por Cristo; são todas partes do culto comum oferecido a Deus”.
De acordo com a confissão, o que é que os cristãos devem cantar durante o culto comum oferecido a Deus? Eles devem cantar Salmos. A pergunta que sempre surge quanto a essa seção da confissão é: — “o termo salmos refere-se ao Livro dos Salmos, canções religiosas em geral, inclusive hinos criados pelos homens, ou a todos os cânticos inspirados da Escritura?”. Os defensores do culto neopresbiteriano gostam de apontar o fato de que a palavra “salmos” não possui inicial maiúscula, como se isso provasse que ela é usada num sentido um tanto vago e genérico. O problema desse argumento é o simples fato de que os autores dos Padrões de Westminster apenas usavam a inicial maiúscula com a palavra salmos quando era utilizada como o título de todo o livro. Observe a seguinte citação do Diretório para o Culto Público a Deus: — “Também recomendamos a leitura mais frequente dessa Escritura, de modo que aquele que a lê deve decidir o que é melhor para a edificação de seus ouvintes, como por exemplo, o livro dos Salmos e semelhantes. Quando o ministro que estiver lendo julgar necessário expor alguma parte daquilo que é lido, que não seja feito até que se conclua [a leitura] de todo o capítulo ou salmo […]. Após a leitura da palavra (e o cântico do salmo), o ministro que irá pregar […]. É dever dos cristãos louvar a Deus publicamente, com o cântico de salmos em conjunto com a congregação, e também particularmente em família. Ao cantar salmos, a voz deve ser harmônica e solenemente impostada; mas a preocupação maior deve ser cantar com entendimento e com graça no coração, louvando ao Senhor. Para que toda a congregação possa participar conjuntamente, todo aquele que sabe ler deve ter um livro de salmos; e todos os demais, não impedidos pela idade ou por outro motivo, devem ser exortados a aprenderem a ler. Mas presentemente, quando muitos na congregação não sabem ler, é conveniente que o ministro, ou outra pessoa apropriadamente indicada por ele ou outro oficial regente, leia o salmo, linha após linha, antes do seu cântico[3]”.
A citação acima prova que a palavra salmo ou salmos não se refere a cânticos de louvor de um modo geral, inspirados ou não, mas ao “Livro dos Salmos” em particular. Um exame adicional às “Atas da Assembleia de Westminster” [Minutes of the Westminster Assembly] prova que o único livro de cânticos aprovado pela assembleia para o culto público era a versão do Livro de Salmos do Sr. Rouse. O Sr. Reynolds fez um relatório quanto a uma resposta aos Lordes sobre os Salmos do Sr. Barton. Ela foi lida e debatida […]. Esta [é] a resposta à Câmara dos Comuns.
“O Sr. Reynolds fez um relatório quanto a uma resposta aos Lordes sobre os Salmos do Sr. Barton. Ela foi lida e debatida […]. Esta [é] a resposta à Câmara dos Comuns. À ordem — Considerando que a Nobre Câmara dos Comuns havendo, por ordem datada de 20 de novembro de 1643, apresentado os Salmos organizados pelo Sr. Rouse à consideração da Assembleia de Teólogos, esta Assembleia fê-los serem cuidadosamente analisados, e como estão agora modificados e corrigidos, os tem aprovado de fato, e humildemente considera que é útil e proveitoso para a Igreja que sejam autorizadas para o canto público. [1] – À ordem — Que a comissão que analisou cuidadosamente os Salmos deve levar esta [resposta] à Nobre Câmara dos Comuns. [E que] Dr. Temple, Dr. Smith, Dr. Wincop levem a resposta à Câmara dos Lordes[4]”.
Uma nota de rodapé nos informa qual foi a resposta da Câmara dos Lordes.
[1] – A Câmara resolveu em conclusão “que este Livro de Salmos organizado pelo Sr. Rouse, e cuidadosamente analisado pela Assembleia de Teólogos, seja imediatamente impresso” — Journals of House of Commons [Diários da Câmara dos Comuns], volume IV, p. 342[5].
Os únicos debates que ocorreram na Assembleia de Westminster referentes ao cântico de louvor foram sobre se outras traduções do Livro dos Salmos deveriam ou não ser cantadas nas Igrejas. A Assembleia somente autorizou a versão de Rouse porque “ajustava-se exatamente ao texto original” e por causa da uniformidade e da edificação.
“A Comissão elaborou uma resposta a Câmara dos Lordes sobre os Salmos do Sr. Barton. Ela foi lida e posta em discussão. Resolve sobre a questão. Que seja transcrita e enviada aos Lordes como a resposta da Assembleia à sua ordem. O Sr. Carter Jr. registra seu dissentimento ao voto de enviar esta resposta aos Lordes. [1] – Esta resposta não foi inserida nas Atas, mas foi preservada nos Diários da Câmara dos Comuns, como segue: — À EXCELENTÍSSIMA CÂMARA DOS LORDES REUNIDA NO PARLAMENTO. Esta Assembleia de Teólogos recebeu, em 9 de abril desta Nobre Câmara uma Notificação datada de 20 de março de 1646 — para lhes responder formalmente por que não se deve autorizar nas Igrejas, e aos que desejarem, o uso e o cântico da tradução dos Salmos do Sr. Barton, bem como de qualquer outra tradução — à qual respeitosamente responde o seguinte: — Considerando que em 14 de novembro de 1645, em obediência a uma ordem dessa Nobre Câmara referente aos Salmos do sobredito Sr. Barton, já havíamos lhes recomendado uma tradução dos Salmos em versos produzida pelo Sr. Rouse, e detidamente analisada e corrigida pelos mesmos doutos cavalheiros; a Comissão da Assembleia entendendo que [esta] seria muito útil à edificação da Igreja por ajustar-se tão exatamente ao texto original, e considerando que já existem diversas outras traduções dos Salmos; entendeu despretensiosamente que se fosse concedida às pessoas a liberdade de cantar na Igreja cada uma das traduções que desejassem, pois, de fato, diversas traduções poderiam vir a ser utilizadas ao mesmo tempo em uma única congregação, isso poderia vir a ser uma grande desordem e obstáculo à edificação — Diários da Câmara dos Comuns, volume VIII, p. 283, 284[6]”.
O último debate relativo ao uso ou não da tradução dos Salmos do Sr. Barton (ou de qualquer outra versão exceto a de Rouse) ocorreu na manhã da quarta-feira de 22 de abril de 1646[7]. Conforme se observa na citação acima, ficou resolvido que seria permitida nas Igrejas somente a versão do Sr. Rouse. Apenas seis meses depois, na manhã da sexta-feira de 30 de outubro de 1646, o capítulo XXI, “Do Culto Religioso”, foi votado e aprovado pela Assembleia[8]. A idéia (que é muito comum hoje) de que a palavra “salmos” no capítulo relativo ao culto religioso inclui hinos não–inspirados é claramente falsa. Será que os puritanos e presbiterianos, na sua insistência quanto ao cântico exclusivo de salmos, extrapolaram os Padrões de Westminster, conforme afirma Frame? Não, absolutamente não! “Se os neopresbiterianos quiserem incluir hinos e corinhos de acampamento em seus atos de culto, os seus concílios apóstatas certamente o aprovarão”. Eles, entretanto, deveriam ser abertos e honestos em admitir que, nesse assunto, são anticonfessionais. Em sua Exposição da Confissão de Fé (1845) Robert Shaw ensina que “o cântico de salmos” na Confissão de Fé significa salmos bíblicos.
“O cântico de salmos. Isso foi ordenado, no Antigo Testamento, como uma das partes do culto ordinário a Deus, e é diferenciado do culto cerimonial (Salmos 69:30, 31). Não foi revogado no Novo Testamento, antes pelo contrário, foi confirmado (Efésios 5:19; Colossenses 3:16). É sancionado pelo exemplo de Cristo e seus apóstolos (Mateus 26:30; Atos 16:25). Os salmos de Davi foram, segundo o propósito de Deus, criados especialmente para o uso da Igreja no exercício do público louvor, na dispensação anterior, e são igualmente apropriados ao uso da Igreja na presente dispensação. Embora os apóstolos insistam na abolição das práticas rituais, eles jamais insinuam que os salmos de Davi não sejam apropriados para o culto evangélico; se tivessem a intenção de exclui-los da era do Novo Testamento, é de se imaginar que um outro saltério fosse providenciado em seu lugar. No Livro dos Salmos há várias passagens que parecem indicar que o Espírito tencionava que fossem utilizados pela Igreja em todas as épocas. Diz Davi: — “Exaltar-te-ei, ó Deus meu e Rei; bendirei o teu nome para todo o sempre” (Salmos 145:1)[9]”.
Esta questão não está apenas clara no ensinamento da Confissão de Fé e do Diretório do Culto Público, mas é fato histórico que os presbiterianos da Escócia, Irlanda e América do Norte adotavam “Cântico Exclusivo de Salmos” até a última parte do século dezoito. O que é particularmente interessante, ao considerarmos o abandono do cântico exclusivo do saltério pelas maiores denominações presbiterianas no século dezoito, é que ela não foi posta de lado como o resultado de um minucioso estudo e contestação da parte de pastores, doutores e teólogos. O afastamento de diversas denominações presbiterianas do Cântico Exclusivo dos Salmos (isto é, do culto bíblico) deveu-se basicamente a três razões.
[1] – Diversas Igrejas presbiterianas perderam o entendimento bíblico do Princípio Regulador do Culto e por isso só o aplicavam ao ato de culto público. Reuniões “particulares”, culto familiar e particular eram consideradas áreas da vida que estavam fora alcance do rígido parâmetro da aprovação divina. Praticamente todas as inovações dos séculos dezoito e dezenove penetraram nas Igrejas através de práticas que foram arbitrariamente colocadas para fora da “Sola Scriptura[10]” (por exemplo, Culto Familiar, Escola Dominical, reuniões de avivamento, etc.).
[2] – Muitos presbiterianos foram influenciados pelo sentimentalismo do reavivamento pietista que varreu as colônias durante o século dezoito. Ao longo desse período várias famílias e pastores começaram a usar a “Imitação dos Salmos de Davi[11]” de Isaac Watts, em lugar do saltério (1650) cuidadosamente traduzido e empregado pelos presbiterianos daqueles dias. A versão dos salmos de Watts era um afastamento radical do Cântico Exclusivo de Salmos, sendo muito mais que uma paráfrase dos Salmos. Em muitas ocorrências equivalia a hinos não–inspirados vagamente baseado nos Salmos. Não se deve esquecer jamais que Isaac Watts, no prefácio de seu “Hinos e Canções Espirituais[12]”, admitia abertamente que considerava os Salmos de Davi como falhos, “contrários ao Evangelho” e capazes de fazer os crentes “falarem falsamente a Deus”. A versão dos Salmos de Watts foi aceita por muitas famílias e diversos ministros, e foi uma pedra de passagem para a clamorosa hinologia do hinário de Watts.
[3] – As inovações do século dezoito não teriam se enraizado se os presbitérios das colônias tivessem feito seu trabalho e disciplinado os ministros que haviam corrompido o culto a Deus e se apartado da Escritura e dos Padrões de Westminster. Havia uma certa indisposição em fazer da pureza do culto uma questão de disciplina. Ocorreram várias disputas a respeito da versão de Watts de 1752 até 1780. O resultado, entretanto, era sempre o mesmo. O presbitério ou sínodo envolvido recusava tomar atitudes decisivas, permitindo, dessa forma, que as imitações de Watts permanecessem. Como resultado, os que não desejavam se contaminar separaram-se em grupos presbiterianos bíblicos menores. O declínio foi codificado em 1788 quando se adotou um novo diretório para o culto que modificava a declaração de “cântico de salmos” do diretório de 1644 para “por cântico de salmos e hinos”. Michael Bushell nos chama a atenção para que aprendamos com os erros e os pecados da PCUSA (Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América). Ele escreve: — “Debaixo das influências pietistas e humanistas que integravam e acompanhavam o Grande Despertamento, a Igreja presbiteriana americana chegou, por fim, à conclusão de que a paz da Igreja seria melhor alcançada se se permitisse uma considerável diversidade nas práticas de culto das Igrejas sob o seu cuidado. A prática de culto da Igreja presbiteriana foi, com efeito, desatrelada dos laços da Escritura e deixada à vontade para seguir o seu próprio rumo. Foi essa situação, mais que qualquer outra, que conduziu a Igreja presbiteriana finalmente à apostasia modernista. Se uma Igreja não mantiver o seu culto puro e bíblico, se não preservar zelosamente pela sua prática, quando o seu povo se apresenta diante de Deus em louvor e adoração conscientes, então não se deve esperar que ela preserve por muito tempo a sua pureza doutrinária. Não é de causar o menor espanto que os homens tenham tão pouco respeito intelectual pelas Escrituras, quando, dia após dia, desprezam os seus claros mandamentos quanto à maneira que o seu Autor deve ser adorado. O culto da Igreja presbiteriana nesse país é determinado agora pelos ditames das conveniências, e não pelas demandas das Escrituras, e, nesse campo, não há basicamente qualquer diferença entre as Igrejas Liberais e as Evangélicas, não pelo menos quanto à forma exterior. Aos nossos irmãos das várias comunhões reformadas que discordam disso, gostaríamos de fazer esta simples pergunta: — “Se o Princípio Regulador não fosse ensinado na Escritura que diferença ele faria no seu culto?”. A resposta, na maior parte dos casos, seria, “muito pouco”. Também perguntaríamos a esses nossos irmãos se têm procurado aplicar conscientemente o Princípio Regulador à sua prática de culto. Desconfiamos que a maioria das pessoas em nossas Igrejas reformadas jamais ouviram falar do princípio regulador, e muito menos em procurar aplica-lo. As nossas Igrejas reformadas herdaram um padrão de pensamento que encoraja virtualmente qualquer prática de culto desde que não ofenda as pessoas erradas. Estas são palavras ásperas, mas estamos totalmente convictos de que são exatas[13]”.
Se as “conservadoras” Igrejas Presbiterianas de hoje que crêem na Bíblia pensam estar sendo fiéis a seus próprios padrões, elas devem primeiro retornar a uma interpretação e aplicação estritas do Princípio Regulador do Culto. Uma tal interpretação fará as Igrejas Reformadas retornarem ao Livro de Cânticos inspirado por Deus — os Salmos.
Paz e graça.
[1] SCHWERTLEY, Brian, Salmodia Exclusiva: uma defesa bíblica, p. 56 – 62.
[2] XXI:V.
[3] Westminster Confession of Faith, 376, 393.
[4] Alex F. Mitchell e John Struthers, eds., Minutes if the Sessions of the Westminster Assembly of Divines While Engaged in Preparing Their Directory of Church Government, Confession of Faith, and Catechisms — November 1644 to March 1649 — from Transcripts of the Originals Procured by a Committee of General Assembly of the Church of Scotland, Edmonton, AB, Canada: Still Waters Revival Books, 1991 [1874], 163.
[5] Ibid..
[6] Ibid., 221 – 222.
[7] Ibid., 221.
[8] Ibid., 298.
[9] Robert Shaw, An Exposition of the Confession of Faith, Edmonton, AB, Canada: Still Waters Revival Books, 1845, 224, 225. O pastor presbiteriano ortodoxo G. I. Williamson concorda: — “Um outro elemento do culto verdadeiro é “o cântico de salmos, com gratidão no coração”. Será observado que a confissão não reconhece a legitimidade do uso de hinos modernos no culto a Deus, mas apenas os Salmos do Antigo Testamento. De modo geral não se compreende hoje que as Igrejas Presbiterianas e Reformadas usavam originalmente apenas os Salmos inspirados, hinos, e cânticos do Saltério Bíblico no culto divino, mas este é o caso. A Assembleia de Westminster não apenas expressou a convicção de que apenas os Salmos deveriam ser cantados no culto divino, mas a colocou em prática ao preparar uma versão metrificada do saltério para ser usada nas Igrejas. Este não é o lugar para tecer considerações sobre esta questão, mas devemos lembrar a nossa convicção de que a confissão está correta nesse ponto. Cremos que ela está certa porque jamais ficou provado que Deus ordenou à sua Igreja que cantasse as composições não–inspiradas em vez de, ou juntamente com os cânticos inspirados, hinos e salmos do saltério no culto divino” (The Confession of Faith for Study Classes, Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed, 1964, 167).
[10] “Somente a Escritura”.
[11] Psalms of David Imitated, 1719.
[12] Hymns and Spiritual Songs, 1707.
[13] Michael Bushell, The Songs of Zion, 210 – 211. Para uma discussão mais completa sobre o abandono da Salmodia Exclusiva pela PCUSA, vide Bushell, 198 – 212. O abandono do Cântico Exclusivo de Salmos por outras denominações presbiterianas e pelas Igrejas reformadas holandesas é discutido nas páginas 212 – 220. Para o aprofundamento da leitura sobre a PCUSA e os salmos de Watts, vide Charles Hodge, The Constitutional History of the Presbyterian Church in the United States of America, Philadelphia: Presbyterian Board of Publications, parte 2, 244 – 306 — Reimpresso em 1980 por The American Presbyterian Press, 1459 Boston Neck Road, Saunderstown, RI 02874.
[14] Pr. Me. Plínio Sousa — Nota: — revisor e significações.
por Brian M. Schwertley | 13 mar 2019 | TEOLOGIA
João Calvino (1509 – 1564) foi o maior teólogo e expositor bíblico da Reforma Protestante. Através da academia teológica em Genebra e de seus muitos escritos, Calvino fez mais do que qualquer um para moldar a doutrina e o culto das Igrejas presbiterianas, reformadas e puritanas. O ensinamento de Calvino quanto ao culto reflete-se claramente em todos os diversos credos e confissões reformados: — A Confissão Francesa (1559), a Confissão Escocesa (1560), a Confissão Belga (1561), o Catecismo de Heidelberg (1536), a Segunda Confissão Helvética (1566), e os Padrões de Westminster (1643 – 1648).
É importante que os crentes que se autodenominam de reformados ou presbiterianos tenham, por várias razões, um certo conhecimento da perspectiva de Calvino sobre o culto (em particular do Princípio Regulador). Em primeiro lugar, porque vivemos dias de sério declínio no que concerne ao culto em muitas das denominações que são consideradas como reformadas. Muitos pastores, mestres e presbíteros das Igrejas reformadas rejeitam, tanto diretamente quanto por subterfúgios, o culto reformado em favor de uma concepção luterana ou episcopal. Segundo, por conta dessa decadência e ignorância tem havido um reducionismo do que significa ser reformado. Tanto para Calvino quanto para Knox, reformado significava mais do que uma soteriologia bíblica, significando também uma concepção bíblica de adoração (isto é, o Princípio Regulador). Hoje o termo reformado é usado para alguém que aceita meramente os cinco pontos do Calvinismo. Assim, temos hoje pastores e organizações que se vangloriam de ser verdadeiramente reformados ou neo–puritanos que, há alguns séculos, atrás teriam sido considerados anti–puritanos e não–reformados. Terceiro, hoje muitos têm a opinião de que a pureza do culto não deveria ser uma das maiores preocupações da Igreja. As pessoas que se preocupam com tais questões são frequentemente desdenhadas. Contudo, Calvino (no que respeita à religião cristã) considerava que o verdadeiro culto a Deus não era superado por nada em ordem de importância. Em “A Necessidade de Reformar a Igreja” ele escreve: ― “Se for questionado, então, quais são os principais motivos pelos quais a religião cristã tem uma duradoura existência entre nós, saber-se-á que os dois a seguir não apenas ocupam o lugar principal, mas compreendem neles todas as outras partes, e consequentemente toda a substância do cristianismo, a saber, o conhecimento, primeiro, do modo pelo qual Deus é devidamente adorado; e, segundo, de que fonte deve-se obter a salvação. Quando essas duas são mantidas fora de perspectiva, embora possamos nos gloriar no nome de cristão, as nossas profissões serão vazias e vãs”.
Segue-se uma série de citações de João Calvino que revelam a sua doutrina sobre o culto. Calvino foi o defensor e principal expositor do que viria a se chamar de Princípio Regulador do Culto.
[1] – Levítico 10:1.
Nadabe e Abiú, filhos de Arão. Registra-se aqui uma notável circunstância, através da qual se evidencia quão grandemente Deus abomina todo pecado que corrompe a pureza da religião. Era aparentemente uma transgressão leve usar fogo estranho para queimar incenso; por outro lado, a atitude impensada deles pareceria inescusável, pois Nadabe e Abiú certamente não desejaram insubordinada e intencionalmente contaminar as coisas sagradas, mas, como é na maioria das vezes em questão de novidade, ao se aplicarem tão avidamente a elas, a precipitação deles os induziu ao erro.
A severidade da punição, entretanto, não agradaria àqueles arrogantes que não hesitam em criticar desdenhosamente dos juízos de Deus; mas se ponderarmos em quão sagrado é o culto a Deus, a enormidade da punição não nos escandalizará de modo alguma. Além disso, era necessário que a religião deles fosse aprovada bem no seu começo, porque se Deus tivesse suportado a transgressão dos filhos de Aarão sem os ter punido, eles haveriam de negligenciar toda a Lei posteriormente.
Esta foi, portanto, a razão de tão grande severidade: — “os sacerdotes deveriam zelar fervorosamente contra toda profanação”. O crime deles foi especificado, a saber, que eles ofereceram incenso numa forma diferente da qual Deus havia designado, e consequentemente, embora tenham errado por ignorância, foram ainda assim declarados culpados pelos mandamentos de Deus, por terem se aplicado negligentemente àquilo que era digno da maior atenção. O fogo estranho distinguia-se do fogo sagrado que estava sempre queimando sobre o altar, não miraculosamente, como o querem alguns, mas pela constante vigilância dos sacerdotes. Agora, Deus havia proibido que se utilizasse qualquer outro fogo nas ordenanças, para excluir todos os rituais estranhos, e para mostrar o seu ódio por tudo que poderia ser proveniente de outra parte qualquer. Aprendamos, portanto, a dar ouvidos aos mandamentos de Deus para não corrompermos o seu culto com qualquer invenção estranha.
Mas se Ele vingou severamente esse erro, quão horrível condenação aguarda os papistas, que não se envergonham de defender obstinadamente tantas corrupções grotescas?
[2] – Levítico 22:32.
Não profanareis. Ao proibir a profanação de seu nome, Ele confirma com outras palavras o sentimento anterior, preservando, por elas, o seu culto de todo tipo de corrupção; para que seja conservado em pureza e integridade. A cláusula que vem imediatamente aposta tem o mesmo objetivo, porque os que não se desviam do culto legítimo e sincero santificam o nome de Deus. Que se observe isso cuidadosamente, sejam quantas forem as invenções dos homens, tantas serão as profanações do nome de Deus; pois embora os supersticiosos possam, pela própria imaginação agradar a si mesmos, toda a religião deles está ainda assim cheia de sacrilégios, pelo que Deus se queixa que a sua santidade é profanada.
[3] – Números 15:39.
E, primeiro que tudo, ao contrastar o coração e os olhos dos homens com a sua Lei, Ele mostra que o seu povo deverá estar satisfeito com o preceito que Ele prescreve, sem misturar com nada da imaginação deles; e, portanto, condena abertamente a futilidade de qualquer coisa que o homem invente para si mesmo, e conquanto lhes pareça agradável qualquer plano humano, Ele continua a repudiá-lo e a condená-lo. E isso está mais claramente explicitado na última palavra, quando Ele diz que os homens andam adulterando sempre que são governados por seus próprios conselhos. Tal declaração é digna da nossa especial atenção, porque enquanto os que cultuam Deus segundo sua própria vontade têm grande auto–satisfação, e enquanto consideram seu próprio zelo como muito bom e legítimo, eles nada mais fazem que se contaminar pelo adultério espiritual. Pois aquilo que o mundo considera ser a mais santa devoção, Deus com a sua própria boca condena como fornicação. Pela palavra olhos Ele quer significar inquestionavelmente a capacidade de discernimento do homem.
[4] – Deuteronômio 4:1.
Agora, pois, ó Israel, ouve. Ele requer que o povo se disponha a aprender, para que aprendam a servir a Deus, pois o princípio de uma vida boa e justa está em conhecer o que é agradável a Deus. A partir daí, então, Moisés começa a ordenar-lhes que procurem atentamente a orientação da Lei, e os admoesta a provarem pela inteireza das suas vidas que eles lograram apropriadamente da Lei. A promessa aqui introduzida, apenas os convida à obediência irrestrita pela esperança da promessa. O ponto central é que eles nada poderiam acrescentar nem diminuir da pura doutrina da Lei, o que não será possível a menos que o homem renuncie primeiramente aos seus sentimentos particulares, e feche os ouvidos a todas as imaginações dos outros. Ninguém, pois, será tido como (verdadeiro) discípulo da Lei, a não ser os que dela obtêm a sua sabedoria. É como se Deus os ordenasse a estarem contentes com os seus preceitos, pois não há outro modo de guardarem a Lei, exceto entregando-se totalmente ao ensinamento dela. Segue-se daí que só obedecem a Deus os que dependem unicamente da sua autoridade, e só honram legitimamente à Lei os que não aceitam nada que se oponha ao seu sentido natural. É uma passagem notável, condenando abertamente tudo aquilo que a ingenuidade humana possa inventar para o culto a Deus.
[5] – Deuteronômio 12:32.
Tudo o que eu te ordeno. Nessa breve cláusula ele [Moisés] ensina que nenhum outro ato de culto a Deus é legítimo, exceto o que tem o testemunho da sua aprovação em sua Palavra, e que a obediência é, por assim dizer, a mãe de toda piedade; é como se ele tivesse dito que todos os modos de devoção, não dirigidos por esse preceito, são absurdos e contaminados pela superstição. Daí deduzimos que a guarda do primeiro mandamento exige o conhecimento do verdadeiro Deus, derivado da sua Palavra, e associado à fé. Ao proibir o acréscimo ou diminuição de qualquer coisa, ele claramente condena como ilegítimo tudo o que os homens inventam pela sua própria imaginação.
[6] – 2 Samuel 6:6 – 12.
Ademais, devemos por isso concluir que nenhuma de nossas devoções serão aceitáveis a Deus a menos que estejam conformadas à sua vontade. Tal preceito lança por terra todas as invenções humanas do assim chamado culto a Deus do papado, que é tão cheio de pompa e tolice. Diante de Deus tudo isso nada mais é que puro lixo e verdadeira abominação. Tenhamos em mente, portanto, essa inequívoca regra: — “querer adorar a Deus segundo as nossas próprias idéias é simplesmente abuso e corrupção”. Antes, pelo contrário, precisamos ter o testemunho da sua vontade para seguirmos e submetermo-nos àquilo que nos tem ordenado. É assim que a adoração que prestamos a Deus será aprovada.
[7] – Isaías 29:13.
No segundo ponto, Deus, ao ser adorado por meio de invenções humanas, condena esse temor como supersticioso, embora os homens se esforcem em disfarçá-lo de pretensa religião, devoção, ou reverência plausíveis. Ele aponta a razão, que é, mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu. Eu considero que “melummadah” tem um sentido de passividade, pois Ele quer dizer que fazer dos mandamentos de homens, e não da palavra de Deus, a regra para adorá-lo, é uma subversão de ordem. A vontade do nosso Deus, entretanto, é que o temor e a reverência com que o adoramos devam ser regulados pela sua Palavra, e Ele não exige mais que uma mera obediência, pela qual devamos nos conformar, e todas as nossas atitudes, à Palavra, sem nos desviarmos para direita ou para a esquerda. Isso prova suficientemente que todos os que aprendem, por meio das invenções dos homens, como deveriam adorar a Deus, não são apenas néscios incontestes, mas desgastam-se em destrutivo labor, pois não fazem mais que provocar a ira de Deus. Ele, portanto, não poderia demonstrar mais claramente quão grande abominação sente pelo falso culto, do que pela tremenda severidade dessa punição.
[8] – Jeremias 7:21 – 24.
Ele acrescenta adiante que andaram nos seus próprios conselhos, e também, na dureza do seu coração maligno. Essa comparação agrava o pecado deles — os judeus preferiram seguir os seus próprios caprichos a obedecerem a Deus e aos seus mandamentos. Se algo tivesse sido colocado diante deles que os houvesse enganado e obscurecido a autoridade da Lei, ainda haveria uma desculpa, mas como nada havia que os impedisse de obedecer ao mandamento de Deus, exceto o seguirem à sua tola imaginação, eles ficaram totalmente inescusáveis. Pois que desculpa poderiam inventar? Que quiseram ser mais sábios que Deus! Que grande loucura foi essa, e quão diabólica? Mas o profeta não lhes deixa escapatória a não ser essa vã escusa, o que duplicou-lhes a culpa. Não há dúvida que pensaram ter seus corações bem ajustados ao propósito, mas ele aqui não lhes permite que julguem, antes os condena clara e merecidamente. Devemos prestar especial atenção a essa passagem, pois a maioria dos homens de hoje opõem as suas próprias fantasias à Palavra de Deus. Na verdade, os papistas pretextam a antiguidade; dizem que foram ensinados por seus antecessores, e ao mesmo tempo patrocinam os concílios e as ordenanças dos pais [da Igreja], contudo não há um deles sequer que não seja apegado às suas próprias invenções, e que não tome a liberdade, ou melhor, a desenfreada libertinagem, de rejeitar o que bem lhe apraz. Além disso, se se levar em conta a origem de todo o culto papal, ficará evidente que os primeiros a criarem tantas superstições estranhas foram movidos somente pela audácia e presunção, para que pudessem calcar aos pés a palavra de Deus. Por isso é que tudo se tornou corrupto, pois introduziram todas as estranhas fantasias de suas mentes. E vemos que os papistas hoje estão tão perversamente arraigados nos próprios erros que preferem a si mesmos, e às suas quinquilharias, a Deus. A situação é a mesma com todos os heréticos. Então, que deve ser feito? Como já disse, deve-se defender a obediência como a base de toda verdadeira religião. Se, então, por outro lado, desejarmos apresentar a Deus o nosso culto por Ele aprovado, aprendamos a lançar fora tudo que for de nós mesmos, de modo que a sua autoridade prevaleça acima de todas as nossas razões.
[9] – Jeremias 7:31.
O que nunca ordenei, nem me passou pela mente. Esse motivo deveria receber cuidadosa atenção, porque nele Deus corta do homem toda a possibilidade de inventar subterfúgios, pois, com uma única frase, Ele condena tudo aquilo que os judeus inventaram: ― O que nunca ordenei. Portanto, não é necessário, além desse, qualquer argumento para se condenar as superstições — que elas não são ordenadas por Deus — pois quando os homens dão a si mesmos o direito de adorarem a Deus segundo as suas próprias concepções fantasiosas, e não obedecem aos seus mandamentos, eles pervertem a verdadeira religião. E se esse princípio fosse adotado pelos papistas, todos aqueles fantasiosos modos de culto, a que absurdamente se aplicam, ruiriam por terra. É verdadeiramente algo horrível que os papistas procurarem se desincumbir de seus deveres para com Deus exercitando as suas próprias superstições. Há um enorme número delas, como bem se sabe, e como claramente se manifestam. Se admitissem esse princípio, que não podemos adorar a Deus corretamente exceto obedecendo a sua Palavra, eles seriam salvos desse seu tão grande abismo de erros. Então, as palavras do profeta são de grande importância, quando ele diz que Deus não ordenou tal coisa, nem jamais passou pela sua mente. É como se tivesse dito que os homens se arrogam muita sabedoria quando inventam o que Ele jamais exigiu, ou melhor, o que Ele jamais soube.
[10] – Jeremias 19:4, 5.
Deus, primeiramente, queixa-se que fora esquecido por eles, porque modificaram o culto que havia sido prescrito em sua Lei. E isso é o que deve ser cuidadosamente considerado, pois nenhum deles estaria disposto a confessar aquilo do que Jeremias acusava a todos; eles haveriam dito: ― Não temos nos esquecido de Deus, porque somos os filhos de Abraão. Mas o que queremos fazer é incrementar o seu culto, e por que isso nos haveria de ser censurado se não estamos satisfeitos com a nossa própria forma simples de adorar a Deus e acrescentamos várias outras formas? E adoramos a Deus não apenas no templo, mas também nesse lugar. Além disso, não poupamos nossos próprios filhos. Mas Deus, com uma única expressão, mostra que essas eram frívolas evasivas, pois Ele só reconhece aquilo que é recebido em obediência ao que Ele determina e ordena. Saibamos que Deus é esquecido tão logo os homens se desviem da sua pura Palavra, e que apostatam todos os que se desviam para cá e para lá, e não seguem ao que Deus aprova. Os judeus devem ter objetado, tal qual os papistas fazem hoje, que os seus modos de adoração não foram criados em seus dias, mas que os derivaram de seus ancestrais. Deus, porém, considerava como nada os reis e patriarcas que há muito tempo atrás se apartaram degeneradamente da verdadeira e genuína religião. Deve-se observar aqui que o conhecimento real está associado à verdade: — pois os que primeiramente inventaram novas formas de culto, seguiram sem dúvida às suas próprias e tolas imaginações; como quando se pergunta hoje aos papistas por que se fatigam tanto com suas superstições, o escudo deles sempre é a boa intenção: ― “Oh, achamos que isso seja agradável a Deus”. Deus, portanto, repudia as invenções deles como totalmente inúteis, pois nada possuem de sólido ou permanente.
[11] – Mateus 15:1.
Fariseus e escribas. Como o erro aqui corrigido não é muito comum, mas altamente perigoso, a passagem merece nossa particular atenção. Vemos a extraordinária insolência que os homens demonstram quanto à forma e à maneira de adorar a Deus; pois estão perpetuamente criando novos modos de culto, e quando alguém quer ser considerado mais sábio que os outros, demonstra a sua capacidade inventiva nesse assunto. Não falo de estranhos, mas dos próprios domésticos da Igreja, daqueles a quem Deus conferiu a honra particular de declararem com seus lábios a “Lei da Piedade”. Deus declarou o modo pelo qual deseja que devamos adorá-lo, e incluiu na sua Lei a perfeição de santidade. Contudo, um grande número de homens, como se obedecer a Deus e guardar o que Ele ordena fosse uma questão leve e trivial, colecionam para si mesmos muitos acréscimos advindos de todo lugar. Os que ocupam posição de autoridade apresentam as suas invenções com esse propósito, como se possuíssem alguma coisa mais perfeita que a Palavra do Senhor. A isso, segue-se o lento crescimento da tirania, pois ao imputarem as si mesmos o direto de exarar mandamentos, eles exigem rígida aderência às suas leis e não permitem que seja posto de lado um til sequer, seja por desobediência ou por esquecimento. O mundo não suporta a legítima autoridade, e rebela-se mais violentamente contra o jugo do Senhor, não obstante é facilmente e de boa–vontade que se embaraça nas ciladas das tradições inúteis; ou melhor, tal escravidão parecer ser, no caso de muitos, um objeto de desejo, ao passo que o culto a Deus, do qual o primeiro e supremo princípio é a obediência, é corrompido. Prefere-se a autoridade de homens aos mandamentos de Deus. As pessoas comuns são forçadas, com severidade e, portanto, tiranicamente, a darem total atenção a ninharias. Essa passagem nos ensina, primeiro, que todos os modos de culto inventados pelos homens não agradam a Deus, porque Ele determina que Ele apenas é que deve ser ouvido, para nos treinar e instruir na verdadeira piedade conforme o seu agrado; segundo, os que não estão satisfeitos com a única Lei de Deus, e se exaurem por obedecer às tradições dos homens, são inutilmente utilizados; terceiro, comete-se um ultraje contra Deus, quando as invenções dos homens são tão altamente exaltadas que a majestade da sua glória fica quase rebaixada, ou pelo menos a reverência a ela, diminuída.
[12] – Mateus 15:9.
E em vão me adoram. As palavras do profeta ocorrem, portanto, literalmente: ― “seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens”. Mas Cristo deu, fiel e exatamente, o sentido de em vão é Deus adorado, quando a doutrina é substituída pela vontade do homem. Por essas palavras, todos os tipos de pretensa religiosidade, como Paulo a denomina (Colossenses 2:23 – NVI) são claramente condenadas. Pois, conforme dissemos, como é Deus que determina que não será adorado de nenhum outro modo exceto conforme à sua própria determinação, Ele não pode tolerar a invenção de outros novos modos de culto. Tão logo os homens permitam a si mesmos vaguearem para além dos limites da palavra de Deus, quanto mais labor e ansiedade demonstrem a adorá-lo, tanto mais pesada é a condenação que trazem sobre si mesmos, porque, por tais invenções, é que a religião é desonrada. Ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Nessas palavras há o que se chama de aposição, pois Cristo lhes declara que erra aquele que apresenta, em lugar da doutrina, os preceitos de homens, ou que procuram achar neles a regra para adorar a Deus. Que se considere, portanto, como princípio estabelecido, visto que Deus tem maior estima pela obediência do que pelos sacrifícios (1 Samuel 15:22, 23), que todos os tipos de culto inventados pelos homens não têm, a seus olhos, a menor valia; mais ainda, que, assim como declara o profeta, eles são malditos e detestáveis.
[13] – Colossenses 2:22, 23.
A síntese é que o culto a Deus, a verdadeira piedade, e a santidade dos cristãos não consistem de bebida, comida e vestes, que são coisas transitórias, passíveis de corrupção e perecem pelo abuso. Porque o abuso se aplica apropriadamente às coisas que se destroem pelo seu uso. É por isso que as ordenanças não têm qualquer valor para as coisas que tendem a suscitar inquietação de consciência. Mas no papado dificilmente encontrar-se-ia qualquer [outro tipo] de santidade, exceto a que consiste das pequenas observâncias de coisas perecíveis. Uma segunda contestação é acrescida — que a origem delas [das ordenanças] está no homem, e não têm Deus como seu Autor; e com esse avassalador argumento ele derruba e aniquila todas as tradições dos homens. Por quê? Este é o raciocínio de Paulo: ― “Aqueles que trazem as consciências em cativeiro agravam a Cristo e esvaziam a sua morte. Pois o que é de humana invenção não compromete a consciência […]”. Observe, entretanto, quais são as cores que, segundo Paulo, compõem essa aparência de sabedoria. Ele menciona três: — culto de si mesmo, falsa humildade, e rigor ascético. Entre os gregos a palavra superstição recebe o nome de “ethelothreskeia” — termo que Paulo usa aqui.
Ele, entretanto, está de olho na etimologia do termo, pois “ethelothreskeia” denota literalmente um ato de culto voluntário, que os homens determinaram por si mesmos por sua própria opção sem a autorização de Deus.
As tradições humanas, portanto, nos são agradáveis, nesse aspecto, que elas são conforme o nosso entendimento, pois qualquer um encontrará na sua própria mente os seus primeiros esboços […]. Deveria ser ponto pacífico entre todos os piedosos que o culto a Deus não deveria ser avaliado segundo a nossa visão, e que, consequentemente, nenhum tipo de culto seria legítimo, tendo por base apenas o que nos é agradável. Também isso deveria ser um ponto pacífico comum — que devemos nos render humildemente a Deus, entregando-nos simplesmente à obediência de seus mandamentos, sem nos estribarmos em nosso próprio entendimento, etc. (cf. Provérbios 3:5) […].
Assim, nos dias de hoje, os papistas não têm falta de pretextos especiosos, através dos quais estabeleçam as suas próprias leis, embora sejam alguns delas ímpias e tirânicas, e outras tolas e levianas. Se, todavia, lhes concedermos tudo, ainda resta, não obstante, esta contestação de Paulo, que é em si mesma mais que suficiente para dispersar todas as suas nuvens de fumaça.
1 – As Institutas da Religião Cristã.
[1] – Imagens e figuras são contrárias à Escritura.
Agora devemos ter mente que a Escritura descreve repetidamente as superstições com essa linguagem: — elas são obras de mãos de homens, sem a autoridade de Deus (Isaías 2:8; 31:7; 37:19; Oséias 14:3; Miquéias 5:13); isso é para estabelecer o fato de que todos os atos de culto que os homens inventam por conta própria são detestáveis.
[2] – A verdadeira religião nos une a Deus como o único e uno Deus.
Mas a piedade, para permanecer num firme pedestal, mantém-se dentro de seus próprios limites. De modo semelhante, a mim me parece que a superstição é assim denominada porque, não satisfeita com o modo e a ordem descritas, empilha uma massa inútil de coisas sem sentido.
[3] – Honrar imagens é desonrar a Deus.
Por meio dessa Lei agrada-lhe prescrever aos homens o que é bom e justo, e assim obrigá-los a um padrão de certeza do qual ninguém pode licenciar-se para inventar qualquer tipo de culto que lhe agradar.
[4] – A suficiência da Lei.
Por outro lado, o Senhor, ao dar a Lei da perfeita justiça, vinculou todas as suas partes à sua vontade, mostrando assim que nada lhe é mais aceitável do que a obediência. Quanto mais inclinada for a engenhosidade enganosa da mente humana para imaginar os mais variados rituais pelos quais possa dEle merecer o bem, tanto, mas diligentemente devemos denunciar esse fato. O melhor remédio para curar tal erro será ter firmemente fixado na mente o seguinte pensamento: — “a Lei foi–nos divinamente entregue para nos ensinar a perfeita justiça; nenhuma outra justiça é nela ensinada além da que é conforme as exigências da vontade de Deus; é inútil, portanto, tentarmos novas formas de obras para obter o favor de Deus, cujo culto legítimo consiste unicamente em obedecer; mais exatamente, todo zelo por boas obras que vagueia do lado de fora da Lei de Deus é uma profanação intolerável da divina e verdadeira justiça”.
[5] – O culto espiritual do Deus invisível.
No mandamento anterior, Ele se declarou o único Deus fora do qual não se pode ter ou imaginar outros deuses. Agora Ele declara mais abertamente que tipo de Deus Ele é, e com que classe de culto deve ser honrado, para que não ousemos atribuir-lhe qualquer coisa carnal. Portanto, o propósito desse mandamento é que Ele não quer que o seu culto legítimo seja profanado por rituais supersticiosos. Em síntese, Ele nos quer apartar totalmente das mínimas observâncias carnais, que a nossa mente estúpida inventa, após imaginarmos rudemente a Deus. E, então, nos faz conformar ao culto legítimo: — que lhe é devido, a saber, um culto espiritual por Ele mesmo estabelecido. Ademais, Ele põe em relevo o mais palpável erro dessa transgressão, que é a idolatria exterior.
[6] – As tradições e invenções humanas no culto, condenadas pela Escritura e pelo próprio Cristo, 23 – 26).
Apelar à autoridade da Igreja contradiz as provas da Escritura. Mas quão importantes achamos que seja para o Senhor ser privado do reino que reivindica tão firmemente por seu? Do qual é privado sempre que é adorado por leis humanamente criadas, posto que quer ser o único legislador de seu próprio culto. E para que ninguém considere a isso como de pouca monta, ouçamos em quão alta estima o Senhor o tem. O Senhor disse: — “Visto que este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu, continuarei a fazer obra maravilhosa no meio deste povo”; sim, obra maravilhosa e, portanto; de maneira que a sabedoria dos seus sábios perecerá, e a prudência dos seus prudentes se esconderá (Isaías 29:13, 14). Outra passagem: ― “em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mateus 15:9). E verdadeiramente a causa dos filhos de Israel se corromperam com tantas idolatrias é atribuída a esta mistura impura pela qual eles transgrediram os mandamentos de Deus e fabricaram novos cultos. Em decorrência disso, é dito posteriormente que eles, atemorizados por esse castigo, adotaram os ritos prescritos na Lei; mas como não estavam adorando com pureza o verdadeiro Deus, diz-se duas vezes que eles o temeram e que eles não o temeram (2 Reis 17:24 – 25, 32 – 33, 41). Pelo que concluímos que uma parte da reverência que lhe é devida consiste simplesmente em adorá-lo da forma que Ele ordena, sem misturar as nossas próprias invenções. E os reis piedosos sempre são louvados pois agiram em conformidade com todos os seus preceitos, e não se desviaram nem para direita nem para a esquerda (cf. 2 Reis 22:1, 2; 1 Reis 15:11; 22:43; 2 Reis 12:2; 14:3; 15:3; 15:34; 18:3). Digo mais, não obstante muitas vezes no culto inventado pelos homens a impiedade não seja claramente vista, ainda assim ela é condenada severamente pelo Espírito, porque desvia-se do preceito de Deus. O altar de Acaz, cujo modelo fora trazido de Samaria (2 Reis 16:10), poderia à primeira vista parecer aumentar a dignidade do templo, porque a intenção de Acaz era oferecer nele sacrifícios ao único Deus, o que parecia fazer-se com mais esplendor do que no altar original. Contudo vemos como o Espírito abomina esse atrevimento pela única e exclusiva razão de que as invenções humanas no culto a Deus são outras tantas corrupções (2 Reis 16:10 – 18). E quanto mais a vontade de Deus nos é revelada, tanto menos inescusável é a nossa ousadia ao tentar alguma coisa.
[7] – O culto maligno é abominação a Deus.
Muitos se maravilham de que o Senhor ameace severamente com tão horríveis castigos o povo que o adorava com mandamentos de homens (Isaías 29:13, 14), e declare que em vão é adorado por preceitos humanos (Mateus 15:9). Mas se eles levassem em conta o que é depender exclusivamente das determinações de Deus em questões de religião (que é prerrogativa da sabedoria divina), compreenderiam de uma vez as razões pelas quais o Senhor abomina tais rituais perversos, que lhe são oferecidos segundo a vontade da natureza humana. Pois, ainda que neles haja alguma aparência de humildade na obediência às leis desse culto a Deus, eles, não obstante, em nada são humildes aos olhos de Deus, pois impõem a si mesmos essas mesmas leis a que obedecem. E esta é a razão pela qual Paulo nos admoesta tão diligentemente para não sermos enganados por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo as tradições dos homens (Colossenses 2:4 e seguintes], nem por aquilo que ele chama de “ethelothreskeia”, que é culto de si mesmo, inventado pelo homem à parte do ensinamento de Deus (Colossenses 2:23, 22). Assim é certamente. E é necessário que a nossa sabedoria, bem como a de todos os homens, seja tida por loucura, para que Ele seja reconhecido como o único sábio. Este, sem dúvida, não é o caminho adotado pelos que, com as suas tradições inventadas pelos caprichos dos homens, querem forçar uma fingida obediência a Deus, que é, na verdade, unicamente prestada aos homens.
[8] – Réplica à contraprova romanista.
Enfim, qualquer nova invenção com que os homens procuram honrar a Deus, nada mais é que uma contaminação da verdadeira santidade — As leis e tradições da Igreja, e a consciência cristã diante de Deus.
[9] – A questão básica.
É esta a questão a ser discutida: — se a Igreja tem ou não o legítimo direito de obrigar as consciências com as suas leis. Tal discussão não se refere à ordem política, mas preocupa-se apenas com o modo pelo qual Ele ordenou como deve ser devidamente adorado, e pelo modo como se deve preservar a liberdade espiritual que se refere a Deus. Tem-se tornado costume chamar de tradições humanas a todas as disposições relativas ao culto a Deus criadas pelos homens, à parte da sua Palavra. O nosso argumento é contra essas coisas, não contra as santas e úteis determinações da Igreja que servem para a preservação da disciplina, da honestidade ou da paz.
[10] – Orientações para determinar que constituições humanas são inadmissíveis.
Paulo emprega a primeira razão quando contende, na carta aos colossenses, contra os falsos apóstolos que procuravam oprimir as Igrejas com novas cargas (Colossenses 2:8). Ele usa a segunda razão na carta aos gálatas, num caso semelhante (Gálatas 5:1 – 12). Coerentemente, ele argumenta na carta aos colossenses que não devemos buscar no homem a verdadeira doutrina do culto a Deus, porque Deus tem fiel e plenamente nos instruído de que modo devemos adorá-lo. Para provar isso, ele diz no primeiro capítulo que o Evangelho contém toda a sabedoria pela qual o homem de Deus é aperfeiçoado em Cristo (Colossenses 1:28). No começo do segundo capítulo ele declara que todos os tesouros da sabedoria e do entendimento estão ocultos em Cristo (Colossenses 2:3). Disso logo conclui que os fiéis devem estar vigilantes para não se apartarem do aprisco de Cristo por causa da sedução da vã filosofia, conforme as ordenanças de homens (Colossenses 2:8). Mas, no final do capítulo, ele condena mais vigorosamente toda religião auto–imposta, isso é, a todo culto fingido, que os homens criaram por si mesmos ou receberam de outros, e a todos os preceitos que se atrevem a promulgar no que respeita ao culto a Deus (Colossenses 2:16 – 23) — Constituições eclesiásticas que autorizam cerimônias no culto são tirânicas, frívola e contrárias à Escritura.
[11] – Segundo esse princípio, as constituições romanas devem ser rejeitadas.
Ainda não falei das graves abominações com que eles têm se esforçado para destroçar toda a piedade. Com certeza não considerariam como crime tão atroz a falta de obediência, até mesmo à menor das tradições, se não cressem que o culto divino consiste dessas suas ficções. Portanto, que pecado cometemos se não queremos aceitar que a maneira legítima de servir a Deus seja ordenada pelo capricho dos homens, o que Paulo ensinou ser intolerável? Principalmente quando nos ordenam a adorar a Deus segundo “os rudimentos do mundo” (Colossenses 2:20), dos quais, testifica Paulo, são contra Cristo. Ademais, é bem sabido com que rigor extremo obrigam as consciências à obedecerem a tudo quanto ordenam. Quando nos opomos a isso, fazemos causa comum com Paulo, que não queria permitir de forma alguma que as consciências dos fiéis se submetessem aos caprichos dos homens (Gálatas 5:1).
[12] – As constituições papais negam a lei de Deus.
Mas há ainda algo pior. Uma vez que se tenha começado a definir a religião com essas tão vãs ficções, tal iniquidade é sempre acompanhada de uma outra odiosa impiedade, razão por que Cristo repreendeu os fariseus. É que eles tornavam nulos os mandamentos de Deus por causa das tradições dos homens (Mateus 15:3). Não quero contender com os nossos presentes legisladores usando as minhas próprias palavras; que prevaleçam, digo eu, se puderem de qualquer forma ficar limpos da acusação de Cristo.
[13] – As constituições papais são vazias e inúteis.
Eu sei que a minha descrição delas como tolas e inúteis não serão críveis à sabedoria da carne, que tem tanto deleite nelas que veria a Igreja como totalmente desfigurada se dela fossem retiradas. Mas isso é o que Paulo escreve: ― “Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético, e por isso, por causa do seu rigor, parecem ser capazes de dominar a carne” (Colossenses 2:23). Jamais deveríamos nos esquecer dessa salutar advertência! As tradições humanas, diz ele, ocultam o engano sob a aparência de sabedoria. De onde procede essa aparência enganosa? Do fato de terem sido inventadas por homens. O espírito humano reconhece nelas o que é propriamente seu e, uma vez reconhecido, abraça-o com mais prazer do que a qualquer outra coisa verdadeiramente excelente, mas não tão de acordo com a sua vaidade. Além disso, por se afigurarem capazes de refrear os deleites da carne, e a sujeitá-la a rigorosa abstinência, parecem ter sido sabiamente criadas. Mas, que diz Paulo quanto a isso? Rasga ele as suas máscaras, para que os ingênuos não sejam iludidos pela falsa aparência delas? Ao contrário, como pensava que era bastante contestá-las como invenções humanas, passou de largo sem nem as mencionar, como se as considerasse de nenhum valor (Colossenses 2:22). Paulo sabia, de fato, que todas as maneiras de servir a Deus inventadas pelos homens estavam condenadas, e que, quanto mais deleite propiciasse à natureza humana, mais tidas por suspeita seria aos fiéis; ele sabia que a falsa aparência de humildade exterior está tão distante da verdadeira humildade quanto é facilmente reconhecida como tal; ele, por fim, sabia que a disciplina elementar não deve ser mais estimada do que o sacrifício corporal. Ele queria que essas mesmas coisas — razão pela qual as tradições humanas eram tão estimadas pelos homens — servissem aos fiéis para contestá-las.
[14] – Aplicações gerais das percepções comuns.
Porque sempre que entra no coração dos homens a superstição de querer adorar a Deus com as suas próprias invenções, todas as leis decretadas com esse propósito degeneram imediatamente nesses graves abusos. Porque Deus não ameaça apenas a uma ou outra era, mas a todos os séculos e eras com essa maldição: — “perecerá a sabedoria e desvanecerá a inteligência de todos os que o adorarem com doutrinas de homens” (Isaías 29:13, 14). Essa cegueira é a causa daqueles que menosprezam as tantas advertências de Deus, e espontaneamente se enredam nessas armadilhas mortíferas, abraçarem todo tipo de absurdo. Mas se, deixarmos de lado as circunstâncias atuais, queiramos apenas compreender quais são as tradições de todas as épocas que deveriam ser repudiadas pela Igreja e por todos os homens piedosos, veremos que é certa e clara a definição de que são leis à parte da Palavra de Deus, leis feitas pelos homens, tanto para prescrever o modo de adorar a Deus quanto para subjugar as consciências, como se fossem coisas necessárias à salvação. Mas, no presente caso, suponha-se que, deixando de lado todas as máscaras e disfarces, atentássemos verdadeiramente para aquilo que deveria ser a nossa primeira preocupação e que é de grande importância para nós, isso é, o tipo de Igreja que Cristo queria para que pudéssemos nos moldar e ajustar ao padrão dela. Veríamos, então, facilmente que não é Igreja a que, ultrapassando os limites da palavra de Deus, formula, a seu irresponsável capricho, novas leis. Não foi a lei, uma vez dada à Igreja, instituída perpetuamente como boa? “Tudo o que eu te ordeno observarás; nada lhe acrescentarás, nem diminuirás” (Deuteronômio 12:32). E em outra passagem: ― “Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso” (Provérbios 30:6). Como não podem negar que isso foi dito à Igreja, que outra coisa, fazem senão apregoar a sua rebeldia, da qual vangloriam-se a ponto de que, mesmo depois dessas proibições, atrevem-se a acrescentar e misturar sua própria fantasia à doutrina de Deus?
Longe de nós esteja, assentir com a falsidade deles, pelas quais trazem tamanho insulto à Igreja! Compreendamos o quão falsamente se pretende o nome de ― Igreja sempre que se trata desse apetite e desejo dos homens — que não conseguem conservar-se dentro dos limites determinados por Deus, sem que, insolentemente, corram após as suas próprias invenções.
Nada há envolto, obscuro ou ambíguo nas palavras que proíbem à Igreja universal acrescentar ou subtrair qualquer coisa da palavra de Deus, quando estão envolvidos o culto ao Senhor e os preceitos de salvação. O Senhor, que há muito tempo atrás declarou que nada o ofendia mais do que ser adorado por rituais humanamente inventados, não se tornou falso a si mesmo.
[15] – As constituições romanas não remontam aos apóstolos, tampouco à “tradição apostólica”.
Mas remontar a origem dessas tradições (com as quais a Igreja tem sido desde então oprimida) aos apóstolos é pura falsidade e engano. Porque toda a doutrina dos apóstolos tem esse objetivo: — “não sobrecarregar as consciências com novas observâncias, nem contaminar o culto a Deus com as nossas próprias invenções”. Portanto, se houver na história e nos antigos registros algo digno de crédito, os apóstolos não somente ignoravam aquilo que os romanistas atribuem a eles, como sequer o ouviram.
Confissão de Fé em nome das Igrejas Reformadas da França (1662).
[1] – Do culto de Deus.
Agora — em conformidade com a sua declaração de que obedecer é melhor que sacrificar (1 Samuel 15:22), associada à sua imutável injunção para darmos ouvido ao que Ele ordena — se tivéssemos que oferecer da nossa parte um sacrifício designado e aceitável, argumentaríamos que não nos cabe inventar o que nos parecer bom, nem obedecer ao que pode ter sido inventado pela mente de outra pessoa, mas limitar-nos-íamos simplesmente à pureza da Escritura. Porquanto cremos que nada que dela proceda, mas que tenha sido apenas ordenado por autoridade de homem, não é digno de ser considerado como culto a Deus. O segundo axioma é que, quando supomos poder servir a Deus ao nosso próprio modo, Ele o repudia como corrupção. É essa a razão por que Ele exclama através do profeta Isaías que toda a verdadeira religião tem sido pervertida ao se obedecer aos mandamentos de homens (Isaías 29:13). E nosso Senhor Jesus Cristo confirma o mesmo ao dizer que em vão haveríamos de conhecer a Deus por meio das tradições humanas (Mateus 15:9). É, portanto, com boa razão, que a sua supremacia espiritual sobre as nossas almas permanece inviolável, e que nas mínimas coisas a sua vontade, assim como um cabresto, conduzirá nossas devoções.
[2] – Da tradição humana.
Temos nesta questão advertências tão notáveis da experiência comum, que estamos cada vez mais convencidos a não traspassar os limites da Escritura. Pois desde que os homens começaram a criar leis para regularem o ato de culto a Deus e subjugarem a consciência, não há mais fim nem conta delas, ao passo que, por outro lado, Deus tem punido tal temeridade, cegando-os com ilusões tais que podem fazê-los estremecer. Quando nos prestamos a examinar de perto o que são realmente as tradições humanas, descobrimos que são um abismo, e que o número delas é infindável. E há, contudo, abusos tão absurdos e enormes, que é espantoso o quanto os homens são estúpidos — não fosse Deus ter levado a efeito a vingança que anunciou pelo seu profeta Isaías, cegando e enfatuando o sábio que pretendesse adorá-lo observando mandamentos de homens (Isaías 29:14).
[3] – Das intenções idólatras.
Desde que os homens se apartaram da pura e santa obediência a Deus, descobriram que as boas intenções eram suficientes para aprovar qualquer coisa. Isso foi o escancarar da porta para todo tipo de superstições. Tem sido a origem do culto às imagens, da compra de missas, do encher da Igreja de pompa e ostentação, de correr daqui para lá em peregrinações, de fazer promessas por tudo que está ao alcance. Mas o abismo aqui é tão profundo que nos basta apenas citar alguns exemplos. Honrar a Deus por meio de humanas invenções está tão longe de ser legítimo que não haveria firmeza, nem certeza, terra firme ou ancoradouro na religião: — “tudo haveria de soçobrar (naufragar), e o cristianismo em nada seria diferente das idolatrias dos pagãos”.
A necessidade de Reformar a Igreja (1544).
Além do mais, a regra que faz a distinção entre o culto puro e o corrompido é de universal aplicação, para que não possamos adotar qualquer recurso que pareça adequar-se a nós mesmos, mas para atentarmos às injunções d‘aquele que é o único apto a prescreve-las. Portanto, se pretendemos ter a sua aprovação à nossa adoração, esse estatuto, que Ele em todo lugar reitera com o maior rigor, tem que ser cuidadosamente obedecido. Há uma dupla razão pela qual o Senhor, ao condenar e proibir todo culto fictício, exige que obedeçamos apenas à sua voz. A primeira tende grandemente a estabelecer a sua autoridade de modo que não sigamos nosso próprio arbítrio, mas dependamos inteiramente da sua soberania; e, em segundo lugar, a nossa insensatez é tanta que, ao sermos deixados livres, tudo de que somos capazes de fazer é desviarmo-nos. E uma vez que tenhamos nos apartado da reta vereda, não terá fim a nossa peregrinação, até que estejamos soterrados sob uma multidão de superstições. Portanto — para fazer valer o seu direito de domínio absoluto — é merecidamente que o Senhor impõe com rigor aquilo que Ele quer que façamos e rejeita, de pronto, todos os meios humanos em desacordo com seu mandamento. É também com justiça que define expressamente quais sejam os nossos limites, para que não nos seja permitido — ao inventarmos perversos modos de culto — provocar a sua ira contra nós. Bem sei quão difícil é persuadir o mundo de que Deus desaprova todos os modos de culto não sancionados expressamente pela sua Palavra. A persuasão oposta, que se lhes entranha, por assim dizer, nas suas próprias juntas e medulas, é de que tudo aquilo que fazem — desde que apresente algum tipo de zelo pela honra de Deus — tem em si mesmo aprovação suficiente. Mas Deus não apenas considera infrutífero, como também abomina totalmente, tudo o que por nossa própria conta consideramos ser zelo pelo seu culto. E se estiver em oposição ao seu mandamento, o que ganhamos indo contra ele? As palavras de Deus são claras e distintas: ― “o obedecer é melhor do que o sacrificar” (1 Samuel 15:22), “em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mateus 15:9). Qualquer acréscimo à sua Palavra, especialmente nessa questão, é uma mentira. O mero ― culto de si mesmo (“ethelothreskeia”) é vaidade. É esse o veredito, e uma vez que o juiz haja decidido, não há mais o que debater. Havendo notado que a Palavra de Deus é o teste que distingue entre o seu culto verdadeiro e aquilo que é falso e corrompido, prontamente inferimos que a forma total do culto divino dos dias presentes, de modo geral, nada mais é que pura corrupção. Pois os homens não atentam ao que Deus ordenou, ou ao que Ele aprova, para poder servi-lo de modo apropriado, mas dão a si mesmos o direito de inventar modos de culto, e depois os impõem a Ele como substituto à obediência. Se pareço exagerar o que digo, que sejam examinados todos os atos pelos quais geralmente supõe-se adorar a Deus. Atrevo-me a deixar de fora a décima parte deles, como se não fosse o fruto à toa das suas próprias mentes. Que mais haveríamos de considerar? Deus rejeita, condena, abomina toda adoração fictícia, e usa a sua Palavra como cabresto para nos manter em absoluta obediência. Quando sacudimos de nós esse jugo, andamos erráticos após as nossas próprias fantasias e lhe oferecemos um culto, obra da precipitação humana, que, por mais que nos possa deleitar, é, à sua vista, frivolidade, ou antes, vileza e corrupção. Os advogados das tradições humanas descrevem-nas com belas e aparatosas cores, e Paulo certamente admite que eles portam uma certa aparência de sabedoria; mas como Deus valoriza a obediência mais que a todos os sacrifícios, o fato de não ser sancionado pelo mandamento de Deus deveria ser razão suficiente para a rejeição de qualquer modo de culto. Por havermos, com respeito ao culto, eliminado as observâncias vazias e infantis e adorado a Deus mais simplesmente, nossos adversários logo nos acusam de tendermos tão–somente à hipocrisia. Os fatos atestam que nada detratamos do culto espiritual a Deus. Pelo contrário, quando [algo] havia grandemente caído em desuso, nós o restabelecemos às suas antigas prerrogativas. O pior de tudo, entretanto, é que, não obstante tenha Deus com tanta frequência e rigor interditado todos os modos de culto prescritos pelo homem, a única forma de adoração que lhe foi prestada consistiu de invenções humanas. Que base têm, então, nossos inimigos para vociferarem que quanto a isso nós abandonamos a religião? Primeiro, não participamos minimamente em nada daquilo que Cristo condena como sem valor, quando declara ser inútil adorar a Deus com as tradições humanas. A coisa, talvez, teria sido mais fácil de suportar se a única consequência dela fosse apenas a perda dos esforços humanos em prol de um culto inútil; mas como, segundo tenho chamado a atenção, Deus em muitas passagens proíbe qualquer novo culto desprovido da sanção da sua Palavra, e declara-se gravemente ofendido pela presunção de tal culto inventado, ameaçando-o de severa punição, fica claro que a reforma que temos introduzido foi exigida por uma forte necessidade. Não estou inadvertido de quão difícil é persuadir o mundo de que Deus rejeita e até mesmo abomina tudo que, relativamente a seu culto, é inventando pela razão humana. O erro desse item deve-se a várias razões: ― “todo mundo tem-se em alta conta”, diz o antigo provérbio. Por essa causa é que o fruto da nossa própria mente nos delicia, e, além disso, como admite Paulo, esse pretenso culto tem aparência de sabedoria. Portanto, como tem ele em grande parte um esplendor exterior agradável à vista, é mais aprazível à nossa natureza carnal do que somente aquele que Deus requer e aprova, mas que é menos ostentoso. Entretanto, no julgamento dessa questão, nada há mais cegante e enganoso ao entendimento dos homens do que a hipocrisia. Embora demande-se dos verdadeiros adoradores a entrega do coração e da mente, os homens estão sempre querendo inventar um modo de servir a Deus com característica totalmente diferentes, sendo o objetivo deles, cumprirem em seu favor alguma observância física, mantendo a mente em si mesmos. Além disso, imaginam que por terem lhe forçado essa pompa exterior, ficaram, através desse artifício, livres se darem a si mesmos. Esta é a razão pela qual submetem-se a inumeráveis observâncias que os fatigam miseravelmente, sem medida e sem fim, e por que preferem andar erráticos num labirinto perpétuo, em vez de simplesmente adorarem a Deus em espírito e em verdade. Como poderíamos, sem que pecássemos, deixar de repreender a zombaria que é adorar a Deus com nada mais que gesticulações exteriores e fantasias humanas? Sabemos o quanto Ele odeia a hipocrisia, contudo ela imperava no culto fictício que se praticava em toda parte. Ouvimos os tão amargos termos com os quais o profeta protesta veementemente contra todo tipo de culto fabricado pela precipitação humana. Todavia uma boa intenção — isto é, uma insana licença para o homem ousar o que bem lhe aprouver — era considerada a perfeição da adoração. Pois é certo que no todo do culto que se havia firmado, dificilmente existia uma única observância que possuísse sansão autoritativa da palavra de Deus. Não devemos, quanto a essa questão, apoiar-nos em nosso próprio juízo, ou no de outros homens. Precisamos escutar a voz de Deus, e ouvir a sua consideração quanto a profanação do culto que se dá quando os homens, ultrapassando os limites da sua Palavra, atiram-se à larga em suas próprias invenções. As razões que Ele dá para punir os israelitas com cegueira, após terem perdido a pia e santa disciplina da Igreja, são duas, a saber, o predomínio da hipocrisia, e o ― “culto de si mesmo” (“ethelothreskeia”) significando assim uma forma de culto planejada pelos homens.
O verdadeiro método de se conceder paz à cristandade e reformar a Igreja (1548).
Devemos acrescentar que o conhecimento dessa questão demanda a sua própria explicação. Há dois aspectos principais. Primeiro, temos que assumir que o culto espiritual a Deus não consiste de cerimônias exteriores nem de quaisquer outros tipos de obras, sejam quais forem; e segundo, nenhum culto é legítimo a menos que seja formulado de tal maneira que tenha por sua única regra a vontade d‘aquele a quem é celebrado. Ambas essas proposições são absolutamente necessárias. Como nossos sentidos não vão além de nós mesmos e do mundo material, assim também avaliamos Deus por nós mesmos. É por essa razão que sempre nos deleitamos mais na aparência exterior, que não tem qualquer valor à vista de Deus, do que no íntimo culto do coração, que somente Ele aprova e exige. Por outro lado, é notória a libertinagem das nossas mentes, que prolifera, especialmente nessa época, onde nada tem sido suficientemente atrevido. Os homens se dão o direito de imaginar todos os tipos de culto, e de moldá-los e remodelá-los ao seu bel–prazer. Não é pecado exclusivo à nossa era, pois desde o princípio que o mundo porta-se licenciosamente assim para com Deus. Ele mesmo proclama que não há nada que valorize mais do que à obediência (1 Samuel 15:22). Por essa razão, a todos os modos de culto ideados contrariamente ao seu mandamento, Ele não apenas os reputa por vazios, mas condena claramente. Que necessidade tenho eu de aduzir provas numa questão tão óbvia? Passagens com esse sentido deveriam ser proverbiais entre os cristãos.
Breve formulação de uma Confissão de Fé.
Eu confesso que toda a regra do justo viver, como também da instrução em fé, estão majoritariamente consignadas nas Sagradas Escrituras, às quais, sem criminalidade, nada pode ser acrescentado nem subtraído. Por essa razão aborreço tudo que, da imaginação dos homens, poderia ser-nos imposto como artigos de fé, e nos obrigar a consciência por meio de leis e estatutos. E, portanto, repudio em geral tudo que tem sido introduzido no culto a Deus sem a autoridade da Palavra de Deus. Dessa sorte são todas as cerimônias papistas. Em resumo, abomino o jugo tirânico pelo qual as consciências miseráveis têm sido opressas — como a lei das confissões auriculares, celibato, e outras da mesma espécie.
Carta a Edward Seymour, Conde de Hertford, Duque de Somerset, Regente da Inglaterra durante e Menoridade de Edward VI (1548).
Glorificado seja Deus, que não necessitais aprender qual seja a verdadeira fé dos cristãos, e a doutrina que devem defender, parecendo que pelo vosso meio a verdadeira pureza da fé tem sido restaurada. Isso é, que consideramos a Deus como o único governante das nossas almas; que consideramos a sua Lei como a única regra e diretório para as nossas consciências, não o servindo segundo as tolas invenções de homens; que também segundo a sua natureza deve ser adorado em espírito e pureza de coração. Por outro lado, reconhecendo que nada há em nós mesmos exceto toda miséria, e que somos corruptos em todos os nossos sentimentos e afeições, de forma que as nossas almas são um vero abismo de iniquidade, totalmente sem esperança em nós mesmos; e que, havendo exaurido toda a presunção da nossa própria sabedoria, valor, ou poder em fazer o bem, devemos recorrer à fonte de toda a bênção, que está em Jesus Cristo.
“[…] é Deus que estatui que não será adorado de nenhum outro modo exceto conforme à sua própria determinação, Ele não pode tolerar a invenção de outros novos modos de culto. Tão logo os homens permitam a si mesmos andarem errantes para além dos limites da palavra de Deus, quanto mais labor e ansiedade demonstrem em adorá-lo, tanto mais pesada é a condenação que trazem sobre si mesmos, porque, por tais invenções, é que a religião é desonrada” (João Calvino).
Paz e graça.
[1] Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, 1ª Edição — Março de 2001, Traduzido do original em inglês: Sola Scriptura and the Regulative Principle of Worship de Brian M. Schwertley, Editora Os Puritanos, p. 85 – 102.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Brian M. Schwertley | 14 jan 2019 | TEOLOGIA
4 – O Declínio Reformado.
Muitas Igrejas reformadas também abandonaram a autoridade exclusiva da Bíblia sobre o culto. Muitas denominações reformadas e presbiterianas permanecem oficialmente apegadas à Sola Scriptura na esfera do culto. O papel da Escritura quanto ao culto é denominado de Princípio Regulador do Culto (PRC). Este princípio declara que todas as partes ou elementos do culto tem que possuir sanção divina, isto é, toda parte do culto que possui significado religioso (isto é, coisas e atos que não são circunstanciais) tem de ser autorizada ou por um mandamento direto da Escritura (por exemplo, “fazei isto em memória de mim” – Lucas 22:19); ou pela inferência lógica da Escritura (isto é, pode não ser um mandamento explícito, mas, quando diversas passagens são comparadas elas ensinam ou delas deduze-se uma prática da Escritura, por exemplo, batismo infantil); ou por um exemplo histórico bíblico (por exemplo, a mudança do dia de culto público corporativo do sétimo para o primeiro dia da semana). Dito de modo simplificado, toda prática de culto tem de ser comprovada pela Escritura. Tal princípio (se seguido rigidamente) elimina do culto todas as invenções humanas, pragmatismo e sincretismo pagão, e, portando, deixa a Igreja no mesmo estado em que estava nos dias apostólicos.
Hoje, infelizmente, a maioria das Igrejas reformadas abandonaram o princípio regulador, e por isso, permitem muitas práticas que não foram prescritas pela Bíblia (por exemplo, dias santos extra–bíblicos como Natal, São João e Páscoa, hinos não inspirados, corais, música instrumental, etc.). Muitas Igrejas reformadas estão seguindo os passos do arminianismo, do reavivalismo, do carismatismo, e do culto no estilo do movimento de crescimento de Igrejas. Um excelente exemplo dessa deterioração é a Igreja Presbiteriana na América (PCA). As estatísticas a seguir documentam a sua decadência. Há vinte e cinco anos atrás a PCA tinha 2% de Igrejas que cantavam exclusivamente salmos; 40% tradicionais (por exemplo, usando o Trinity Hymnal, com piano e órgão); 50% tradicional com alguns cânticos da Escritura e instrumentos musicais variados; e somente 8% tinha a mistura tradicional/contemporâneo. Hoje, aproximadamente 70% de suas Igrejas têm a mistura tradicional/contemporâneo. Hurst escreve: ― Se [eles] não têm dança e teatro é porque não há quem os dirija; mulheres e jovens podem dirigir o culto como orações individuais e leitura da Escritura, o aplauso é aceitável para [um] ato bem feito; a música pode tomar a forma de [uma] apresentação. Menos de 1% das Igrejas da PCA aderem hoje exclusivamente ao canto de salmos (isto é, culto bíblico).
Alguns conservadores dentro das denominações reformadas têm expressado preocupação quanto a tendência de suas denominações de desviarem-se rapidamente do culto tradicional para o culto contemporâneo, ou celebrativo. Esses homens tentam estancar a maré do culto moderninho discutindo sobre como o culto tem de ser digno, majestoso e reverente. Seu grito de batalha é: ― “decentemente e em ordem”. Não obstante concordemos de coração com nossos irmãos quanto a necessidade de reverência, decência e ordem no culto público a Deus, discordamos quanto ao problema fundamental que está causando uma tão rápida decadência no culto. Para curar a doença é preciso fazer mais do que tentar aliviar os sintomas, é necessário ir à raiz do problema. Como as denominações reformadas rejeitaram ou redefiniram o Princípio Regulador do Culto, tornando-o virtualmente inútil, todos os esforços para uma séria reforma no culto serão derrotados. Sem uma rígida interpretação do princípio regulador o debate sobre o culto deslocar-se-á da discussão exegética sobre o que é sancionado pela Escritura para uma disputa primária sobre as preferências humanas. A beleza e sabedoria do Princípio Regulador do Culto é que ele protege a Igreja de nossos próprios corações pecaminosos. O culto que está firmemente fundamentado na sólida rocha da Escritura é imune aos ventos e às ondas da opinião humana, do modismo e da excentricidade.
Paz e graça.
[1] Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, 1ª Edição — Março de 2001, Traduzido do original em inglês: Sola Scriptura and the Regulative Principle of Worship de Brian M. Schwertley, Editora Os Puritanos, p. 24 – 42.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.
por Brian M. Schwertley | 5 jan 2019 | TEOLOGIA
3 – O Evangelicalismo.
Os evangélicos também são culpados de restringir a aplicação da autoridade da Bíblia. Quando o assunto é culto, os evangélicos não crêem que a Escritura é suficiente. Eles diriam que nada que seja pecaminoso deve fazer parte do culto. Entretanto crêem que os homens têm autoridade para dar qualquer forma e conteúdo que acharem ser útil ao culto. Infelizmente o entendimento de culto dos episcopais e luteranos tem sido adotado pela grande maioria dos cristãos professos. Essa visão pragmática do culto tem, previsivelmente, conduzido ao caos litúrgico nas Igrejas evangélicas. Sempre que as Igrejas abandonam o Sola Scriptura na esfera do culto e abraçam o pragmatismo, o resultado é um ato de culto que se torna crescentemente antropocêntrico e pagão.
Tal fato tem se tornado cada vez mais evidente nos últimos trinta anos, na medida em que as Igrejas têm adotado o paradigma de culto dos especialistas em crescimento de Igrejas. Estes especialistas que buscam sua sabedoria em técnicas de comércio, na psicologia, na sociologia e não na Bíblia, afirmam que a melhor maneira para se alcançar o crescimento da Igreja é torná-la mais amigável à clientela incrédula. Esta tática envolve uma diminuição da ênfase na Palavra pregada e nos sacramentos em favor de um ato de culto que divirta e proporcione entretenimento. A ênfase dos mais modernos atos de culto evangélicos está no entretenimento. Tais cultos não alimentam o intelecto, antes, pelo contrário, estimulam as emoções. Os cultos modernos têm pouco em comum com o culto apostólico, e muito em comum com Las Vegas, Hollywood e Broadway. Em muitas Igrejas as pessoas até aplaudem depois da apresentação, como se estivessem num teatro ou concerto.
O resultado é que o culto evangélico moderno não glorifica Deus, mas o homem. É basicamente um show do homem, voltado para o homem, com canções agradáveis ao homem e montes de entretenimento: — pastores comediantes, solistas musicais, grupos de rock, bandas gospel, célebres oradores convidados, peças, esquetes, vídeos, cantores, corais, dança litúrgica e assim por diante. O culto pragmático, centrado no homem, tem influenciado até a arquitetura das Igrejas. A característica principal de uma casa de reunião puritana era o púlpito sobre o qual descansava uma grande Bíblia. O aspecto principal de uma mega–Igreja moderna é o palco. As pessoas que elaboraram o culto episcopal e luterano, com todos aos seus desvios humanos, tentaram, pelo menos, ser reverentes e majestosas. Geralmente o culto evangélico moderno não é, nada disso; é grosseiro, não–nutritivo e insosso.
Quando nos aproximamos de um Deus três vezes Santo, que é infinito em perfeição, não deveria ser a nossa única preocupação aprender o que Ele tem ordenado e concentrar nossa atenção naquilo que o agrada e não naquilo que nos agrada e nos faz sentir bem? Quando aderimos consistentemente ao Sola Scriptura e, por causa disso, dependemos apenas da suficiente e infalível Palavra de Deus para determinar o que é culto aceitável, eliminamos a possibilidade de se introduzir na Igreja o culto papal, pagão, imposto por alguma liderança eclesiástica, ou o pragmático culto a si mesmo. A adoração é possivelmente a mais importante atividade em que a Igreja se envolve. Portanto, quando buscamos direção quanto ao culto, não deveríamos colocar a nossa confiança em Deus e em sua infalível Palavra, em vez de buscarmos as opiniões do homem pecador? Relacionamo-nos com um Deus que é muito zeloso; ou Ele é adorado como Ele quer ser, ou não é adorado de modo algum. Nem podemos nos queixar. Se Deus for um Ser tal como nos ensina a Escritura Sagrada, é seu direito inalienável determinar e prescrever como será servido. É arrogante e tola a idéia de que homens pecadores possam, com seus acréscimos, melhorar e tornar mais suficiente o culto que Deus autorizou em sua Palavra. Young escreve: — “O entendimento iluminado contenta-se em aprender os preceitos de Deus e [tem] renovada a sua vontade de andar neles, entretanto, o coração regenerado não pode, como tal, querer fazer o mais leve acréscimo aos mandamentos de Deus. Sempre que crentes verdadeiros agiram inconsistentemente quanto a isso, eles invariavelmente permitiram a introdução de grande corrupção no santuário de Deus”.
Paz e graça.
[1] Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, 1ª Edição — Março de 2001, Traduzido do original em inglês: Sola Scriptura and the Regulative Principle of Worship de Brian M. Schwertley, Editora Os Puritanos, p. 24 – 42.
[2] Pr. Me. Plínio Sousa — Revisor: — notas e significações.