por Brian M. Schwertley | 12 nov 2025 | TEOLOGIA
A crise do Evangelho na Igreja Presbiteriana Ortodoxa (OPC) e na Igreja Presbiteriana da América (PCA).
No âmbito presbiteriano e reformado conservador, uma controvérsia tem se intensificado desde o ano de 2002. Na Igreja Presbiteriana Ortodoxa (OPC) e na Igreja Presbiteriana na América (PCA), tal controvérsia tem sido particularmente dolorosa, pois os ensinos da “Visão Federal” foram adotados por diversos pastores e presbíteros que, por meio de sua doutrina e de seu exemplo, desviaram congregações inteiras das doutrinas das Escrituras e dos Padrões de Westminster em questões cruciais do Evangelho[2].
Na Igreja Presbiteriana Ortodoxa (OPC), a questão dos ensinos da “Visão Federal” está chegando a um ponto decisivo neste verão. A 73ª Assembleia Geral decidirá o que fazer ao discutir o relatório do comitê (“Relatório do Comitê para Estudar a Doutrina da Justificação”), que trata da “Visão Federal”, em junho.
Aproveitamos a ocasião da publicação do Relatório da OPC para tecer alguns comentários sobre ele, discutir o que a OPC e a PCA precisam fazer nessa matéria se desejam evitar uma apostasia completa e oferecer uma análise de por que tão pouco foi feito nos últimos quatro anos para deter a propagação desse ensino perigoso.
É nossa expressa esperança e oração que a OPC e a PCA tratem final e decisivamente da heresia da “Visão Federal”, antes que mais congregações e famílias sejam atraídas para o abismo de um legalismo contrário às Escrituras.
O relatório sobre a justificação, que trata da “Nova Perspectiva sobre Paulo” e da “Visão Federal”, é, do ponto de vista acadêmico, bastante útil[3]. Ele apresenta uma crítica erudita, bem argumentada e organizada desses dois perigosos sistemas teológicos modernos. Condena, de modo inequívoco, praticamente todas as aberrações antibíblicas dos paradigmas da Nova Perspectiva e da Visão Federal.
O mais importante é que afirma explicitamente que a doutrina da justificação ensinada pela “Visão Federal” é contrária à palavra de Deus e à Confissão de Fé de Westminster.
O comitê escreve: — “Assim, nosso exame do ensino da ‘Visão Federal’ em todas essas áreas da Teologia é sempre feito tendo em vista seu impacto sobre a doutrina da justificação. O comitê observa que, quanto à doutrina da justificação, considerada mais estritamente, os problemas da ‘Visão Federal’ incluem a falha em afirmar a imputação da obediência ativa de Cristo, juntamente com uma redefinição da fé que funde a confiança de Cristo no Pai com a nossa fé na obra de Cristo, e que também inclui as boas obras na própria definição de fé (1689 – 1690)”.
O relatório apresenta três recomendações. Primeiramente, recomenda quatorze diferentes tópicos que devem ser usados “com o objetivo de assegurar a fidelidade de cada candidato ao ensino bíblico e confessional sobre a justificação, bem como sua capacidade de articular tal ensino […]” (1690). Em segundo lugar, “que os presbitérios, sessões e pastores sejam proativos ao lidar com o ensino da ‘Nova Perspectiva sobre Paulo [NPP]’ e da ‘Visão Federal [FV]’, que comprometem a pureza do Evangelho” (1961). Em terceiro lugar, que o relatório seja amplamente divulgado na denominação e em outras denominações com as quais mantém relações fraternas (1691). Em resumo, trata-se de uma exortação para maior cuidado na avaliação dos candidatos ao ministério, no ensino sobre os erros da ‘Nova Perspectiva’ e da ‘Visão Federal’, oferecendo este relatório como auxílio para tais recomendações.
Embora, como refutação teológica acadêmica da NPP/FV, estejamos geralmente satisfeitos com o relatório e suas conclusões, existem vários problemas graves relacionados às recomendações do relatório que precisam ser considerados.
[1] – O relatório recomenda a leitura dos escritos desses hereges. Embora os pastores precisem estar cientes de opiniões teológicas perigosas contemporâneas, a fim de proteger o rebanho de Deus, é antibíblico e irresponsável recomendar que os crentes leiam doutrinas heréticas sutis, insidiosas, ambíguas e contraditórias, que desviam as pessoas da fé uma vez entregue aos santos. Não encontramos Paulo, João ou Pedro recomendando a leitura de escritos de judaizantes, gnósticos ou antinomianos. Diversas citações desses hereges em refutações devem ser suficientes.
[2] – As recomendações do relatório falham em pastorear biblicamente o povo de Deus. Esse ponto é evidenciado pelo que o relatório não recomenda. Lembre-se de que o relatório afirma que a doutrina da justificação da ‘Visão Federal’ é contrária às Escrituras e aos Padrões de Westminster. Não estamos lidando apenas com um erro menor ou não escandaloso, mas com um erro que ataca o próprio coração do protestantismo, do evangelicalismo, da fé reformada e do cristianismo. Não há nada no relatório que trate de sanções contra os lobos (hereges) dentro do rebanho[4]. O que o relatório deveria ter recomendado?
Primeiro, os ensinamentos da “Visão Federal” sobre a justificação devem ser declarados uma heresia condenável. Quanto àqueles que pervertem o Evangelho de Cristo, Paulo diz pelo Espírito Santo: — “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema” (Gálatas 1:8, 9). Os comentários de Martinho Lutero sobre esta passagem merecem ser observados.
Ele escreve: — “Portanto, ele claramente excomunga e amaldiçoa todos os mestres em geral, a si mesmo, seus irmãos, um anjo e, além disso, todos os demais, ou seja, todos aqueles falsos mestres que são seus adversários. Aqui se manifesta uma fervorosa intensidade de espírito no Apóstolo, que ousa amaldiçoar todos os mestres em todo o mundo e no céu que pervertem o seu Evangelho e ensinam outro qualquer: — pois todos devem crer naquele Evangelho que Paulo pregou, ou então serão amaldiçoados e condenados. Oxalá que esta terrível sentença do Apóstolo pudesse despertar temor nos corações daqueles que se empenham em perverter o Evangelho de Paulo; e, lamentavelmente, o mundo está hoje cheio de pessoas desse tipo[5]”.
Em segundo lugar, todo oficial da Igreja que adere ao paradigma da “Visão Federal” deve ser destituído do ministério. “Ao homem herege, depois de uma e outra admoestação, evita-o, sabendo que esse tal está pervertido, e peca, estando já em si mesmo condenado” (Tito 3:10, 11). Os tribunais eclesiásticos devem tentar, em duas ocasiões distintas, reconduzir à verdade aquele que adere a doutrinas escandalosamente falsas. “Não se entende por qualquer ‘admoestação’, ou de um indivíduo privado, mas sim por uma ‘admoestação’ dada por um ministro, com a autoridade pública da Igreja; pois o significado das palavras do Apóstolo é como se dissesse que os hereges devem ser repreendidos com censura solene e severa[6]”.
Se essa pessoa não se arrepender, ela deve ser expulsa da Igreja visível por excomunhão. O imperativo “παραιτοῦ–paraitou” “é usado aqui no sentido de ‘rejeitar’ ou ‘demitir’, isto é, remover da comunhão da comunidade cristã” (cf. 1 Coríntios 5:11 – 13; 2 Tessalonicenses 3:14; Mateus 18:17, 18)[7]. Quando um cristão é culpado de ensino escandalosamente falso, Paulo, falando por inspiração divina, deixa claro que palavras, argumentos, declarações e ensinamentos positivos não são suficientes quando os hereges se mostram obstinados. A disciplina eclesiástica deve ser aplicada com firmeza e amor; caso contrário, os debates e batalhas teológicas jamais terão fim (Gálatas 5:15).
Após duas advertências solenes e sóbrias, os hereges devem ser expulsos da Igreja. O impacto da destituição de um cargo eclesiástico pode ser usado por Deus para levá-los do erro de volta ao verdadeiro Evangelho de Cristo. Ademais, o bem-estar da Igreja é protegido. A disciplina da Igreja é um ato de amor em relação ao excomungado (como Paulo afirma: — “[…] para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus” [1 Coríntios 5:5]). Devemos obedecer à Escritura que diz em 1 Timóteo 1:3: — “Como te roguei […] para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina”. Se necessário, presbitérios inteiros podem ser censurados pela assembleia geral ou pelo sínodo, em defesa dos oficiais da Igreja que se manifestaram contra os erros e apresentaram reclamações no presbitério.
Paulo também instruiu Tito sobre o que deve ser feito com os falsos mestres. Ele escreve: — “Retendo firme a fiel Palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes. Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão, aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância” (Tito 1:9 – 11; cf. 12 – 16; 3:10, 11). Quando o Apóstolo afirma que suas bocas devem ser caladas, ele utiliza o verbo grego “ἐπιστομίζειν” (epistomizein), cujo significado primário é “calar a boca com freio, mordaça ou atadura[8]”.
Para Paulo, não basta que Tito redija um artigo ou parecer explicando por que os falsos mestres estão errados. Eles devem ser silenciados. Não lhes deve mais ser permitido ensinar e, se persistirem, devem ser disciplinados e até excomungados, se necessário. “Quando homens são assim refutados por argumentos, vencidos pela espada do Espírito e confrontados pelo poder da verdade, e ainda assim perturbam a paz da Igreja e a fé dos santos, a Igreja pode e deve agir com censura e admoestação, ordenando-lhes silêncio; se não obedecerem, devem ser expulsos da comunhão dos fiéis. E, se se mostrarem perniciosos, devem ser definitivamente cortados[9]”.
Os comentários de Calvino sobre esta passagem aplicam-se perfeitamente à situação em que muitos presbiterianos se encontram hoje.
Ele escreve: — “Um bom pastor deve, portanto, permanecer vigilante, para não permitir silenciosamente que doutrinas ímpias e perigosas avancem gradualmente, nem dar oportunidade a homens perversos de espalhá-las. Pode-se perguntar: — ‘Como pode um bispo obrigar homens obstinados e de vontade própria a se calarem? Pois tais pessoas, mesmo derrotadas em argumentos, continuam a falar; e frequentemente, quanto mais são refutadas e vencidas, mais insolentes se tornam, pois sua malícia se fortalece e inflama, e ainda se entregam à indolência’. A resposta é: — ‘Quando abatidos pela espada da palavra de Deus e sobrepujados pela força da verdade, a Igreja pode ordená-los a permanecer em silêncio; e, se persistirem, ao menos podem ser banidos da comunhão dos crentes, para que não tenham oportunidade de causar dano’[10]”.
Até o presente, a PCA não tem seguido o ensino de Paulo, deixando de ordenar que Steve Wilkins, Richard Lusk, Mark Horne e outros cessem de espalhar seus ensinamentos heréticos sobre justificação, expiação, sacramentos e adoração. Da mesma forma, a OPC não tem tomado providências contra James B. Jordan (membro da Igreja), Prof. Richard Gaffin, Thomas Tyson, Tom Trouwborst e tantos outros que estão corrompendo as ovelhas com seus ensinos.
Semelhantemente, Paulo escreve: — “E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” (Romanos 16:17, 18). Paulo nos adverte a vigiar aqueles que causam divisões na Igreja, pois sua doutrina contradiz o ensino dos Apóstolos. Ele nos ordena a nos afastar de homens que se desviam da fé. Se devemos seguir Paulo e nos separar dos hereges, então precisamos separar-nos também dos falsos profetas e, por extensão, daqueles que os protegem. Os comentários de John Murray são particularmente elucidativos nesse ponto.
Ele escreve: — “Aqui nos deparamos com falsos mestres e propagandistas […]. O tropeço decorre da doutrina falsa e se enquadra na categoria do erro anatematizado em Gálatas. As advertências dirigem-se precisamente a um erro dessa natureza; devemos ‘marcar’ os proponentes para nos afastarmos deles e ‘desviar-nos deles’ […]. Esses mestres eram habilidosos no artifício da ‘palavra suave e lisonjeira’, traço característico de quem corrompe a pureza e a simplicidade do Evangelho[11]”.
Se uma Igreja, por sua omissão irresponsável em lidar com falsos mestres, força os crentes a se separarem a fim de manterem fidelidade ao Evangelho e às orientações destinadas a protegê-lo, então os crentes não devem considerar essa separação como divisão do corpo de Cristo, mas sim como o meio mais eficaz de promover sua verdadeira união. Pois a união deve estar sempre fundamentada na verdade. Somos ordenados a ter a mente de Cristo. Essa separação não se baseia em orgulho ou egoísmo, mas na obediência à vontade de Deus e no interesse supremo da Igreja de Cristo.
Ao lidar com ensinos falsos — especialmente heresias condenáveis — não basta fazer declarações positivas em favor da doutrina verdadeira e, em seguida, emitir advertências gerais contra o falso. Devem existir sanções que respaldem tais declarações. A relutância, até o momento, ao longo de quase quatro anos, em disciplinar mestres em suas próprias fileiras que publicamente defendem heresia grosseira é inconcebível. No início da controvérsia, quando as pessoas ainda buscavam compreender exatamente o que esses homens ensinavam, poderia-se argumentar que algum tempo (um ou dois meses) seria necessário para avaliar corretamente a situação. Mas esta heresia tem sido analisada e exposta por mais de três anos e meio. O que esperam a OPC e a PCA? Quando se arrependerão de sua negligência pecaminosa e flagrante?
O Apóstolo João também ensina que denominações e até mesmo crentes individuais têm a obrigação moral de rejeitar pastores, mestres e presbíteros que apostataram e ensinam heresia condenável.
“Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho. Se alguém vem ter convosco, e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis. Porque quem o saúda tem parte nas suas más obras” (2 João 1:9 – 11). João adverte-nos contra mestres que, intencional ou inadvertidamente, trabalham para destruir a Igreja de Jesus Cristo. “[O] cristão que acolhe o instrutor em sua casa, na verdade, favorece o propósito de seu visitante. Na prática, dá sua bênção à obra do falso mestre. Observe que João não considera isso um ato inocente ou insignificante; ele o chama de participação em obra maligna originada em Satanás […][12]”.
Quanto aos falsos mestres, Matthew Henry escreve: — “Não se deve recebê-los como ministros de Cristo […]. [1] – ‘Não os sustenteis’ […] [2] – ‘Não abençoeis suas empreitadas […]. Não assistais aos seus cultos com vossas orações e bons desejos’ […]. Deus não será patrono da falsidade, sedução e pecado[13]”.
Aquele que apoia um homem ou uma organização com sua presença ou recursos torna-se moralmente responsável pela heresia propagada por esse falso profeta ou denominação. Os membros das congregações da OPC e PCA devem dialogar com seus Conselhos sobre a necessidade de separação e, em unidade, se apartar dessas denominações; todavia, membros individuais e cabeças de família sob Aliança devem retirar imediatamente a si mesmos e seus filhos dessas denominações corruptas, caso as Sessões respectivas se recusem a agir.
Quando a OPC ou a PCA falham em depor ministros publicamente, difundindo essa heresia, elas estão implicitamente dando a esses falsos profetas oportunidades muito maiores de causar dano a Igrejas e crentes reformados em outros lugares. Além disso, estão agindo de maneira que torna muito mais difícil para esses falsos mestres reconhecerem os erros de seus caminhos. Essas denominações podem argumentar que, em diversos momentos, condenaram esses ensinamentos (por exemplo, o recente relatório da OPC sobre justificação [73ª Assembleia Geral, abril de 2006]) e, portanto, suas mãos estariam agora limpas. Mas, se uma denominação condena a doutrina de um professor em um assunto tão crucial como a justificação, considerando-a não bíblica e não confessional, e ainda assim não sustenta essa declaração com a disciplina exigida pela Escritura, de que adianta? O que a OPC e a PCA têm feito essencialmente nos últimos quatro anos é equivalente a dizer: — “O adultério é contrário às Escrituras e aos nossos Padrões. Somos veementemente contrários ao adultério. De fato, precisamos ser mais cuidadosos ao excluir adúlteros da membresia da Igreja. No entanto, não disciplinamos nem excomungamos adúlteros; isso seria demasiado severo e sem amor[14]”. A história da Igreja nos ensina que relatórios e declarações denominacionais sem atos apropriados de disciplina correspondentes alcançam pouco ou nada. Os hereges, geralmente, não saem por vontade própria; eles precisam ser expulsos.
Os homens que ensinam e governam na Igreja de Cristo devem usar seus dons “para edificação, e não para destruição” (2 Coríntios 10:8; 13:10). As doutrinas que apresentam precisam ser bíblicas e claras, se realmente desejam conduzir à salvação e à edificação espiritual da Igreja. Aqueles ministros que promovem este novo ensino não buscam o bem espiritual dos outros, mas os conduzem a múltiplas heresias. Por isso, a Igreja deve exercer a autoridade que Deus lhe conferiu para eliminar este erro mortal; caso contrário, será responsável pelo abuso, apostasia e destruição das ovelhas sob seu cuidado. Homens que, pelo seu ensino, privam seus congregantes da perfeita justiça de Cristo e os conduzem, em lugar disso, aos seus próprios trapos imundos e fétidos de “fidelidade da aliança” para a justificação final, são lobos, e não pastores. Se a OPC e a PCA se recusarem a depor e excomungar os proponentes da “teologia da Visão Federal” que não se arrependem, então, constitucionalmente e em princípio, elas deixam de ser uma Igreja verdadeira. Na prática, tornam-se fundamentalmente apóstatas. Todo o sangue dessas almas, ceifadas por seu ensino condenável sobre a justificação, e que elas deliberadamente se recusaram a remover em nome da tolerância, do amor e da compaixão (falsamente assim chamados), será exigido de suas mãos. “E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: — Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Por isso saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; e não toqueis nada imundo, e eu vos receberei” (2 Coríntios 6:15 – 17).
Terceiro, após o devido processo nos tribunais, aqueles que aderirem e/ou apoiarem os ensinamentos da “teologia da Visão Federal” devem ser excomungados da comunhão da Igreja visível de Jesus Cristo, a menos que se arrependam dessas doutrinas heréticas e retratem quaisquer sermões, escritos, livros, palestras, fitas, sites, boletins, ou outros materiais que promovam tais ensinamentos. “Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, contendas, blasfêmias, ruins suspeitas, perversas contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que ganho seja piedade; aparta-te dos tais” (1 Timóteo 6:3 – 5). Paulo proíbe os servos de Cristo de manter qualquer convívio com tais pessoas. Ele não apenas adverte Timóteo a não se assemelhar a eles, mas o exorta a evitá-los como pragas perigosas[15]. Bons ministros e cristãos se afastarão de tais indivíduos[16]. “Não tenhas nada a ver com tais homens; evita-os em tuas conversas privadas e expulsa-os da Igreja se seus pecados forem escândalos públicos e forem contumazes[17]”. “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade. Mas evita os falatórios profanos, porque produzirão maior impiedade” (2 Timóteo 2:15, 16; cf. 3:5, 13; 4:2 – 4). “Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu. […] Mas, se alguém não obedecer à nossa palavra por esta carta, notai o tal, e não vos mistureis com ele, para que se envergonhe. Todavia não o tenhais como inimigo, mas admoestai-o como irmão” (2 Tessalonicenses 3:6, 14, 15; as passagens discutidas na seção anterior aplicam-se igualmente a este ponto).
Nessas passagens, Paulo ensina, de forma implícita ou explícita: — [1] – Os crentes individuais têm a obrigação moral de se afastar, social e eclesiasticamente, daqueles que ensinam ou vivem na heresia. [2] – A Igreja tem a responsabilidade bíblica de ordenar que os homens cessem de ensinar doutrina falsa. Devem ser silenciados, pois seu ensino é devastador para famílias inteiras (Tito 1:11). [3] – Os falsos mestres devem ser censurados e separados da comunhão e da convivência da Igreja.
“Paulo declara que tais pessoas devem ser afastadas da sociedade dos crentes, para que não tragam desonra à Igreja[18]”.
A marca principal de uma Igreja verdadeira é a pregação e a profissão puras da Palavra (João 8:31, 32, 47; 14:16; 6:34; 2 Timóteo 1:13; 2:2; 3:10, 14; 4:3; Tito 1:9; 2:1; 3:10, 11 etc.). A verdadeira Igreja só pode sustentar-se sobre a doutrina apostólica genuína. Calvino escreve: — “Mas, assim que a falsidade irrompe na cidadela da religião, e a soma da doutrina necessária é derrubada, e o uso dos sacramentos destruído, segue-se certamente a morte da Igreja — assim como a vida de um homem se encerra quando sua garganta é perfurada ou seu coração mortalmente ferido. E isso se evidencia claramente nas palavras de Paulo, quando ensina que a Igreja está fundada sobre o ensino dos Profetas e Apóstolos, tendo Cristo como a principal pedra angular (Efésios 2:20). Se o fundamento da Igreja é o ensino dos Profetas e Apóstolos, que ordena aos crentes confiar sua salvação somente em Cristo — então, se se retira esse ensino, como poderá o edifício continuar de pé? Portanto, a Igreja deve ruir quando morre aquela soma da religião que sozinha pode sustentá-la. E, novamente, se a verdadeira Igreja é o pilar e fundamento da verdade (1 Timóteo 3:15), é certo que nenhuma Igreja pode existir onde a mentira e a falsidade tenham prevalecido[19]”.
Por esta razão, ministros e presbíteros, como guardiães do rebanho, têm a responsabilidade — após seguirem os níveis necessários de admoestação — de “rejeitar” (Tito 3:10), “afastar da Igreja” (1 Coríntios 5:13) e considerar como “gentios” (Mateus 18:17) aqueles que não se arrependem dessa heresia.
A Confissão de Westminster apresenta várias razões pelas quais as censuras eclesiásticas são essenciais: — “As censuras da Igreja são necessárias para a recuperação e reconciliação dos irmãos ofensores, para deter outros de ofensas semelhantes, para purgar o fermento que poderia infectar toda a massa, para vindicar a honra de Cristo e a santa profissão do Evangelho, e para prevenir a ira de Deus, que poderia justamente cair sobre a Igreja se permitisse que sua Aliança e os seus sinais fossem profanados por ofensores notórios e obstinados” (30:3; cf. 1 Coríntios 5; 1 Timóteo 5:20; Mateus 7:6; 1 Timóteo 1:20; 1 Coríntios 11:27 – 34; Judas 23).
Quanto aos ministros que defendem a doutrina da Auburn Avenue ou da “Visão Federal”, colocamos as seguintes perguntas: — [1] – Seu ensino alcança o nível da mais alta censura, chamada excomunhão maior (Mateus 18:17)? Sim, todos os bons protestantes concordam que negar a doutrina da justificação somente pela fé é heresia grave e condenável. [2] – Os defensores dessa doutrina são ensináveis e humildes ou obstinados e rebeldes? Infelizmente, é evidente que se trata do último caso. Confrontados com a verdade, endureceram-se e tornaram-se mais cegos e obstinados. Até o momento, nenhum se arrependeu[20]. [3] – Esses homens receberam as admoestações bíblicas adequadas e tiveram tempo razoável para se arrepender? Esses homens (isto é, pelo menos os líderes proeminentes) foram confrontados de forma privada, pública e foram minuciosamente refutados por escrito[21]. Esta controvérsia já dura quase quatro anos.
Essas respostas levantam outra questão: — por que a OPC e a PCA se recusam a disciplinar praticamente qualquer pessoa ligada a essa heresia?[22] Trata-se de uma questão perplexa. Uma razão pela qual os homens se esquivam de tal dever é que “é um trabalho penoso para toda mente benevolente. É um trabalho no qual ninguém deseja se engajar, a menos que seja compelido pelo senso de dever[23]”.
Outra possível razão é que algumas pessoas interpretam a excomunhão como uma declaração de que a pessoa é não–regenerada e certamente pertence ao inferno. Na verdade, a excomunhão consiste em lançar o ofensor “para fora da Igreja, no mundo, que a Escritura descreve como o reino de Satanás[24]”. Tais pessoas, porém, podem se arrepender e ser readmitidas na Igreja visível. Outra razão provável é que muitos líderes eclesiásticos colocam a paz institucional (ou seja, têm medo de um cisma na Igreja) acima dos requisitos disciplinares da Escritura. Se isso for verdade, esses homens não aprenderam as lições da tomada modernista na PCUSA. Quem busca paz onde não há paz carece de sabedoria. Os cismas virão (alguns já vieram), mas serão os fiéis se separando da corrupção, da apostasia e da covardia, em vez de hereges fugindo da justiça. Líderes que se recusam a exercer disciplina agem como os falsos profetas que diziam: — “Paz, paz”, quando não havia paz (Jeremias 6:14; 8:11). Hoje, a OPC e a PCA permitem que homens permaneçam no ministério como falsos profetas, caminhando pelo caminho largo que conduz à destruição. Diante das claras injunções bíblicas quanto aos falsos mestres, torna-se abundantemente evidente que a resposta escriturística à penetração da “Visão Federal” na OPC e na PCA deve possuir tanto um aspecto positivo quanto negativo.
Além disso, muitos têm uma visão antibíblica da disciplina, considerando-a severa, desnecessária e carente de amor. Aqueles que se opuseram às doutrinas da Auburn Avenue chegaram a ser chamados de insensíveis ou “sem amor”. Contudo, tal perspectiva pressupõe, em contradição com as Escrituras, que a disciplina é algo ruim. A disciplina, de fato, é dolorosa; provoca tristeza e angústia. Mas certamente não é má. Poderíamos até afirmar que a recusa em disciplinar aqueles que certamente a merecem é o oposto do amor, pois conforta as pessoas em seus pecados (Levítico 19:17) e proporciona aos que se rebelam contra Deus uma falsa sensação de segurança.
A razão pela qual a OPC e a PCA estão infestadas de ministros falsos e deficientes reside em seu conceito demasiadamente frouxo de subscrição aos Padrões de Westminster. Ao viajar ou mudar-se para uma nova região, a família que visita uma Igreja da OPC ou PCA não sabe o que encontrará até participar de um culto. Será um serviço celebrativo de “nova vida” (isto é, no estilo arminiano carismático), um culto anglo–católico à maneira de James Jordan, um serviço “tradicional” à moda antiga ou um culto confessionário de Westminster (apenas salmodia a capela)? Haverá os inúmeros ensinos e práticas falsas que são tolerados por exceções aos Padrões: — pedocomunhão, liturgias pré–latelicais da alta Igreja[25], vestes e paramentos sacerdotais[26], interpretações desviantes dos primeiros capítulos de Gênesis, monoconvenantalismo[27], regeneração batismal, conceitos antinomianos do amor na “vida superior”, justificação por obediência fiel, entre outros?
Uma denominação presbiteriana que adota um conceito frouxo de subscrição é “como uma caixa de chocolates […] nunca se sabe o que vai encontrar”. Se a OPC e a PCA desejam deter a decadência, devem cessar de tratar os Padrões como uma régua elástica ou meras recomendações amplas. Devem retornar à subscrição plena de seus antecessores.
Se a OPC e a PCA não condenarem nem censurarem os hereges — o que é provável, dado o avançado estado de decadência doutrinária em que se encontram quanto à criação, ao Evangelho, à moral, ao culto bíblico, aos sacramentos etc. — então deveriam ser transparentes e reescrever os Padrões de Westminster para refletir aquilo que realmente creem, permitem e praticam.
O propósito da subscrição plena é consolidar um sistema teológico específico e protegê-lo da corrupção. Outro objetivo é declarar publicamente o que é confessado e representado. O sistema frouxo vigente hoje não cumpre nenhuma dessas funções. Os Padrões de Westminster tornaram-se, na prática, algo como “isto é o que cremos, às vezes, dependendo de quem seja o pastor local e a sessão da Igreja”.
Na OPC e na PCA de hoje existem dois sistemas religiosos rivais. De um lado, de maneira geral, encontra-se o remanescente conservador do Presbiterianismo da Nova Escola. Do outro lado, temos os sacramentalistas, que são essencialmente anglo–católicos no culto e modernamente judaizantes na doutrina da justificação. Esses últimos não se pautam verdadeiramente por Calvino, Knox ou Melville, mas pelo cristianismo medieval, por Norman Shepherd e pelo neolegalismo. Ambos os lados não podem coexistir em harmonia, pois, em essência, representam dois sistemas religiosos distintos: — um fundamentado exclusivamente na graça, o outro na justiça pelas obras.
A questão central para ambas as denominações é a imposição de sanções. Regras, confissões e leis sem sanções tornam-se, a longo prazo, inúteis.
Uma denominação sem subscrição plena e sem disciplina eclesiástica que a sustente será gradualmente corroída por inúmeras exceções.
Com subscrição plena e disciplina bíblica, os fiéis desfrutam da liberdade que a palavra de Deus concede, havendo previsibilidade tanto na doutrina quanto na ética. Por outro lado, uma subscrição frouxa, acompanhada de pragmatismo e flexibilidade humana, deixa o rebanho à mercê dos caprichos de burocratas liberais da Igreja. Nesse cenário, a doutrina e a prática evoluem lentamente para longe da fé reformada. É por isso que, em diversos aspectos — doutrina, culto e prática — a OPC e a PCA encontram-se hoje consideravelmente mais debilitadas do que estavam há apenas 30 ou 40 anos.
Conclusão.
Tendo brevemente considerado o Relatório da OPC sobre a Justificação, somos levados a concluir o seguinte: — o relatório do comitê da OPC não recomenda que os mestres e defensores da “Visão Federal” que não se arrependem sejam depostos e censurados — precisamente aquilo de que a OPC necessita.
A menos que um oficial da Igreja presente proponha e aprove uma moção para iniciar o processo de admoestação e censura, o relatório permanece pouco mais do que palavras, passíveis de serem ignoradas. Por um lado, a doutrina da “Visão Federal” sobre a justificação é afirmada como contrária às Escrituras; por outro, seus defensores são tolerados como se se tratasse de um erro não vital. Isto constitui um pecado escandaloso, tão grave que justifica separação ou secessão por parte daqueles que desejam ser fiéis à Escritura[28]. Até quando os verdadeiramente reformados (TR[29]) ou os “conservadores” na OPC e na PCA continuarão a tolerar contradições tão evidentes, sérias e até mortais às Escrituras e aos Padrões de Westminster em suas comunhões?[30]
Quem não se separa da tolerância à heresia condenável torna-se cúmplice desses pecados escandalosos. Ao eliminar todas as desculpas — pragmatismos, concepções mundanas de amor, interesses financeiros e manobras burocráticas —, resta apenas a permissão de uma completa negação da suficiência da redenção de Cristo. Tal conivência com um evangelho falso é absolutamente inaceitável.
Quantas congregações e famílias ainda precisarão ser destruídas pela heresia antes que se tome a decisão de se separar?
“Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?” (1 Coríntios 5:6). Chega o momento em que o caminho mais eficaz para a reforma é protestar e secessar [separar-se], rompendo com a jurisdição vigente. A fidelidade neste tempo exige exatamente isso.
Paz e graça.
[1] Por Brian M. Schwertley (2006).
[2] Há diversos ministros e presbíteros da OPC e da PCA que escreveram artigos, participaram de conferências em favor dessa “teologia” e defenderam, nos tribunais eclesiásticos, oficiais da Igreja que sustentam as mesmas ideias — por exemplo: o Prof. Richard Gaffin, Thomas Tyson, Thomas Trouwburst, Peter Lillback, Richard Lusk e Steven Wilkins. Não há diferença substancial entre o “Shepherdismo” e a “Visão Federal”, pois os defensores de ambas participam das mesmas conferências e, juntos, promovem a doutrina da justificação pela fé acrescida de obediência fiel ou boas obras. O livro herético de Norman Shepherd, “The Call of Grace: How the Covenant Illustrates Salvation and Evangelism”, publicado pela editora Presbyterian and Reformed, foi endossado pelo Prof. Richard Gaffin.
[3] O comitê da Assembleia Geral foi formado em 2004 para tratar da “Visão Federal” e da “Nova Perspectiva sobre Paulo”, em razão de uma proposta vinda do Presbitério do Meio–Oeste. Logo na primeira página do relatório há uma advertência sobre os artigos publicados na internet e sobre aqueles que “divulgam opiniões sem a devida reflexão e sem adequada responsabilidade diante de outros”. Os artigos da internet, tidos como não acadêmicos e não confiáveis, são contrastados com materiais “responsáveis”, circulados por “canais ordinários”. Embora, sem dúvida, existam muitos textos antibíblicos e pouco eruditos na internet, os artigos e livros publicados por “respeitáveis” professores de seminários, através desses “canais ordinários”, após “devida reflexão” e “receberem valiosas críticas”, frequentemente não são mais confiáveis do que muitos dos textos heterodoxos disponíveis online. Pode-se citar, por exemplo, os dois livros antibíblicos sobre adoração de John Frame, publicados pela Presbyterian and Reformed e endossados por quatro professores de seminário (“Worship in Spirit and in Truth” foi recomendado por Richard Pratt Jr. e Steven Brown, do Reformed Theological Seminary em Orlando, e por Richard B. Gaffin Jr. e D. Clair Davis, do Westminster Theological Seminary na Filadélfia). Para uma refutação bíblica do ataque de Frame ao Princípio Regulador do Culto e aos Padrões de Westminster, veja Brian M. Schwertley, “The Neo–Presbyterian Challenge to Confessional Presbyterian Orthodoxy”; e também Kevin Reed, “Presbyterian Worship: Old and New”, em Brian M. Schwertley, “Musical Instruments in the Public Worship of God” (Southfield, MI: Reformed Witness, 1999). Outro exemplo é a defesa de James Hurley de que mulheres podem ensinar doutrina a homens no culto público, em seu livro “Man and Woman in Biblical Perspective” (Grand Rapids: Zondervan, 1981). Também os escritos de Meredith Kline sobre o capítulo primeiro de Gênesis, antibíblicos e perigosos, constituem outro caso notório. Poder-se-iam multiplicar tais exemplos, pois os modernos seminários presbiterianos “conservadores” refletem e sustentam as amplas defecções dos Padrões de Westminster que hoje se encontram tanto na OPC quanto na PCA.
[4] As omissões do relatório são particularmente preocupantes, dado o histórico de falhas da OPC em proteger as ovelhas sob seus cuidados quando tiveram oportunidade. O Presbitério da Filadélfia da OPC não conseguiu condenar Norman Shepherd por heresia no final da década de 1970, quando ele foi afastado do Westminster Theological Seminary, na Filadélfia. Além disso, o presbítero John O. Kinnard foi absolvido pela Assembleia Geral da OPC, após ter sido condenado por ensinar a doutrina da justificação pela fé acrescida de obras. Embora Kinnard tenha demonstrado algum arrependimento pela falta de clareza em seu ensino, ele nunca se arrependeu de ensinar a doutrina “shepherdita/Visão Federal” da justificação pela fé e pela obediência fiel (ou pelas obras).
[5] Martinho Lutero, Comentário à Epístola de São Paulo aos Gálatas (Cambridge: James Clarke, 1953), p. 69. William Hendriksen observa: — “A verdade expressa na primeira oração condicional (v. 8) reforça ainda mais a expressa na segunda (v. 9). O raciocínio é o seguinte: — se até mesmo nós, ou um anjo santo, devemos ser objeto da justa maldição de Deus ao pregar um evangelho diferente daquele que anteriormente vos anunciamos, quanto mais os autoproclamados insignificantes que agora se tornam culpados desse crime devem sofrer a ira divina. Aqui a tempestade da condenação se revela em toda a sua intensidade. O ‘Seja anátema’ de Paulo não é um mero desejo, mas uma invocação efetiva. O Apóstolo, como representante plenamente autorizado de Cristo, pronuncia a maldição sobre os judaizantes, que cometem o terrível pecado de declarar falso o verdadeiro Evangelho e de substituí-lo por um evangelho falso, destrutivo e perdido, em lugar do verdadeiro e salvador” (Gálatas e Efésios [Grand Rapids: Baker, 1967, p. 68; 1979], p. 41).
[6] John Calvin, Sermons on Galatians by John Calvin (Audubon, NJ: Old Paths, [1574] 1995), p. 50, 51, 55, 63, 64, 65).
[7] John Calvin, Commentaries on the Epistles to Timothy, Titus and Philemon (Grand Rapids: Baker, 1981), p. 342.
[8] Archibald Thomas Robertson, Word Pictures in the New Testament (Grand Rapids: Baker [1931] n.d.), 4:600.
[9] Thomas Taylor, Exposition of Titus (Minneapolis, MN: Klock and Klock [1619] 1980), p. 174 – 175.
[10] John Calvin, Commentaries on the Epistles to Timothy, Titus and Philemon (Grand Rapids: Baker, 1981), p. 298.
[11] John Murray, The Epistle to the Romans (Grand Rapids: Eerdmans, [1959, 65] 1968), 2:236.
[12] Simon J. Kistemaker, James and I – III John (Grand Rapids: Baker, 1986), p. 384.
[13] Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible [McLean, VA: MacDonald, no date], 5:1102.
[14] Enquanto Deus define frequentemente o amor em termos de sua disposição de castigar o seu próprio povo quando este se desvia, os presbiterianos modernos e corrompidos parecem definir o amor como a disposição de castigar aqueles que creem que o pecado e a heresia devem receber admoestação, repreensão e censura. Quando a RPCUS defendeu o Evangelho de Jesus Cristo em 2002, condenando o ensino da Visão Federal sobre a justificação como heresia, a reação generalizada de muitos presbiterianos e assim chamados teonomistas foi de choque e ira, não contra os hereges condenáveis que negavam o verdadeiro Evangelho, mas contra a RPCUS por defendê-lo. Vivemos em um tempo de ignorância e declínio generalizados.
[15] John Calvin, Commentaries on the Epistles to Timothy, Titus and Philemon, p. 156.
[16] Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible, 6:828.
[17] Matthew Poole, Commentary on the Holy Bible (Carlisle, PA: Banner of Truth, [1685] 1963), 3:788.
[18] John Calvin, Commentaries on the Epistles of Paul the Apostle to the Philippians, Colossians and Thessalonians, p. 352.
[19] John Calvin, Institutes of the Christian Religion (Philadelphia: The Westminster Press, 1960), 4:2:1, 2:1041 – 1042. Sobre a disciplina da Igreja, William Cunningham escreve: — “As censuras são simplesmente a aplicação das declarações das Escrituras à conduta externa dos homens individualmente, sendo ratificadas ou confirmadas por Deus em sua influência sobre a salvação eterna do homem, apenas na medida em que correspondem às declarações de sua Palavra e às circunstâncias reais do caso […]. A exclusão por sentença judicial da Igreja visível é, em substância, uma declaração solene pelos oficiantes eclesiásticos de que consideram a pessoa que excluem como sustentando opiniões ou seguindo um curso de conduta oposto à palavra de Deus” (Discussions on Church Principles: Popish, Erastian, and Presbyterian [Edinburgh: T and T. Clark, 1868], 244 – 245).
[20] Douglas Wilson tem procurado parecer mais ortodoxo e moderado do que seus colegas ao afirmar sua crença na imputação da justiça de Cristo. Embora Wilson, em suas sutis ambiguidades e declarações ortodoxas, possa parecer melhor do que alguns de seus parceiros teológicos na heresia (por exemplo, Rich Lusk), ele deve, na realidade, ser rejeitado como herege porque: — [1] – Apesar de seu tom moderado, chega a praticamente todas as mesmas conclusões que Lusk e Wilkins. [2] – Apoia plenamente o movimento que, em sua essência, é herético e mortal. A Canon Press publica as opiniões mais radicais, e o New St. Andrew’s College emprega Peter Leithart, cujos escritos sobre a Igreja, o culto e os sacramentos são radicalmente heterodoxos. Se um homem apoia um movimento herético com seu dinheiro, escritos, publicações, palestras etc., então esse homem é um herege perigoso.
[21] See Brian M Schwertley, Auburn Avenue Theology: A Biblical Analysis (Iola, WI: Covenanted Reformation Press, 2005); John M. Otis, Danger in the Camp: An Analysis and Refutation of the Heresies of the Federal Vision (Corpus Christi, TX: Triumphant Publications, 2005).
[22] “Os ocupantes de cargos nessas denominações — pastores, presbíteros, diáconos, professores e administradores de seminários — não tomaram nenhuma ação eficaz para impedir a propagação das heresias ou para disciplinar os hereges. Pelo contrário, fizeram exatamente o oposto. Existem redes de “bons camaradas”, formadas ainda nos tempos de seminário, que protegem falsos mestres de qualquer disciplina ou oposição efetiva. Estudantes protegem seus professores; professores protegem seus estudantes; estudantes e professores protegem-se mutuamente. Como controlam os tribunais eclesiásticos, essas redes de “bons camaradas” impediram que os tribunais da Igreja tomassem qualquer medida efetiva contra falsos mestres nas Igrejas presbiterianas. Com a única exceção de John Kinnaird (um presbítero acusado de heresia por membros comuns da Igreja, não por seminaristas, e cuja condenação foi posteriormente revertida pelo mais alto tribunal da Igreja Presbiteriana Ortodoxa, controlado, é claro, pelos seminaristas), nenhum professor foi disciplinado por essas denominações. Em um caso obscuro envolvendo Burke Shade — hoje ‘pastor’ afiliado à seita de Douglas Wilson, a CREC —, o Presbitério de Illiana (PCA) depôs-o do cargo. Quase ninguém tomou conhecimento desse caso fora daquele presbitério, pois este não percebeu que Shade, seguidor de James Jordan, representava um problema muito maior dentro da PCA. Entre as dezenas de pastores, presbíteros e professores de seminário que ensinaram doutrina falsa na OPC e na PCA nos últimos cinco anos, nenhum foi removido do cargo, nenhum foi condenado por erro doutrinário, nenhum foi julgado e nenhum sequer foi formalmente acusado de erro. Alguns presbitérios e congregações emitiram ‘declarações’ sobre certos erros, mas tais declarações são inócuas e superficiais. Os responsáveis pelos seminários e pelas Igrejas falharam em seu dever para com Cristo e sua Igreja, mas até agora conseguiram proteger suas próprias posições e as de seus amigos. Contudo, quando os oficiais da Igreja falham em cumprir seu dever, são julgados por Deus; e Ele levanta cristãos que conhecem e cumprem o seu dever” (John Robbins, The Trinity Review [Unicoi, TN: The Trinity Foundation, February 2006], 1).
[23] Samuel Miller, The Ruling Elder (Dallas, TX: Presbyterian Heritage Publications, [1831, 32, 43, 44] 1999, 189).
[24] Robert Shaw, An Exposition of the Westminster Confession of Faith (Geanies House, Feann: Christian Focus Publications, [1845] 1973), 364.
[25] Refere-se a formas de culto ou rituais que remontam à tradição da “alta Igreja” (high church), particularmente anteriores ao Concílio de Latrão ou que evocam práticas litúrgicas antigas da Igreja Católica. Envolvem cerimônias mais formais, uso de ritos elaborados, gestos ritualísticos e uma ênfase no sacramentalismo, distinguindo-se do culto simples e centrado na Palavra típico do presbiterianismo reformado — nota do tradutor.
[26] São vestes ou roupas específicas usadas por ministros ou líderes litúrgicos durante o culto, como albas, casulas, estolas, capas ou colares litúrgicos. No contexto reformado, seu uso é visto com suspeita, pois pode sugerir uma função sacerdotal sacramentalista, desviando do entendimento de Cristo como único Sumo Sacerdote e da simplicidade do culto bíblico — nota do tradutor.
[27] É a visão teológica que sustenta a existência de um único Pacto entre Deus e a humanidade, negando a distinção bíblica entre o Pacto da Graça no Antigo Testamento (com Abraão e Israel) e o Novo Pacto em Cristo. Na perspectiva reformada clássica, há um Pacto único de graça, mas manifestado em diferentes administrações ou dispensações (Antigo e Novo). O monoconvenantalismo, ao fundir ou eliminar essas distinções, altera a compreensão bíblica da Aliança, do papel da Lei e da continuidade entre Antigo e Novo Testamento — nota do tradutor.
[28] Em vez de um silêncio resignado ou de simplesmente transferir-se para outra denominação, o método histórico reformacional de protesto e secessão é a resposta adequada para alertar outros oficiais da Igreja e membros comungantes quanto à gravidade da corrupção do Evangelho. Estas são heresias condenáveis, semelhantes às dos judaizantes e da Igreja Católica Romana, exigindo uma ruptura.
[29] Truly Reformed.
[30] A prática da subscrição muito frouxa, hoje, em que denominações presbiterianas “conservadoras” abrigam muitas visões teológicas e práticas de culto divergentes, gerou um tipo de independência funcional para as congregações verdadeiramente reformadas (TR). Essas congregações sabem, do ponto de vista humano, que pouco podem fazer a respeito. Assim, inconscientemente — e às vezes até conscientemente — adotam uma postura de “sejamos rigorosos em doutrina e culto — apenas nos deixem em paz”. Talvez cheguem a se ver como uma oásis reformada em um deserto de decadência e apatia. Justificam sua permanência em uma denominação corrupta e deformante dizendo a si mesmas: — “Estamos aqui para ser usados por Deus na reforma desta denominação” ou “Se sairmos, quem ficará para trabalhar pela reforma?”. Como não há evidência de que as TR tenham promovido sequer um vestígio de reforma na OPC ou na PCA nos últimos trinta anos, resta aos irmãos conservadores uma pergunta final: — agora que um dos pilares centrais da fé — a justificação somente pela fé, sem obras da Lei — é aberta e impunemente negado na OPC e na PCA, que desculpa ainda resta?
[31] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.
por Brian M. Schwertley | 2 set 2025 | EDUCAÇÃO
“Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha” (Mateus 12:30 – ACF).
Nos Estados Unidos, a grande maioria dos evangélicos envia seus filhos para escolas públicas. Estas são escolas financiadas por impostos (principalmente impostos sobre a propriedade) e, segundo o Estado, essas escolas devem ser neutras em relação à religião. Portanto, elas devem ser puramente seculares em seu ensino com respeito a todos os vários tópicos. O raciocínio por trás dessa prática é que a América é uma sociedade pluralista com muitas crenças religiosas diversas. Consequentemente, a única maneira de ser justo e “neutro” (nos é dito) é deixar a religião totalmente fora das escolas públicas. Os cristãos professos aceitaram em grande parte esse conceito de neutralidade e raramente se queixaram da educação pública até a geração atual, devido ao grande aumento de mentiras e propaganda de esquerda sobre raça e ética sexual (por exemplo, os professores agora defendem o racismo contra brancos, a fornicação, a homossexualidade, o travestismo e a perversão transgênero etc.). Poder-se-ia dizer que, no passado, os professores de escolas públicas e seus líderes esquerdistas, democratas e anticristãos fingiam ser neutros, enquanto hoje eles têm sido mais abertos e epistemologicamente consistentes com sua visão de mundo e de vida. Esta situação atual forçou muitos cristãos professos a tirar a cabeça da areia.
Em nossos dias, é importante olhar para a Filosofia ou visão de mundo e de vida das escolas públicas e demonstrar que elas são demoníacas e anticristãs de ponta a ponta. Não é mais bíblico ou agradável a Cristo enviar seus filhos para uma escola pública do que teria sido para os judeus na era da Antiga Aliança enviar seus filhos para escolas de Baal, Moloque ou Aserá. Para provar essa afirmação, consideraremos várias áreas diferentes de pensamento. Uma das principais coisas a entender, que fundamenta todos os nossos argumentos relacionados à educação cristã, são os fundamentos filosóficos da educação moderna e o mito da neutralidade religiosa. A ideia de que a religião pode ser divorciada da educação é falsa e absurda. Pode-se ver que isso é impossível uma vez que se entende como a visão de mundo e de vida de uma pessoa afeta seu pensamento, fala e ações em todas as áreas da vida. A cosmovisão de alguém lida com preocupações últimas; isto é, o conceito de vida e realidade de alguém: — de onde viemos; por que estamos aqui; qual é o propósito da vida; qual é a fonte de significado e ética; qual é a definição da família; qual é a base ou fundamento da lei e da justiça? A educação deve ensinar a verdade. Deve ajudar a pessoa a se preparar para a vida. Deve ajudar a pessoa a escolher uma vocação na vida. Todas essas coisas são inescapavelmente religiosas. Governos civis comunistas, socialistas, fascistas e todos os tiranos entendem isso e, portanto, fizeram da educação o objetivo de moldar as crianças em bons e obedientes seguidores e servos do Estado. Com o estatismo, a elite política age como deus e diz aos cidadãos o que deve ser acreditado. O Estado determina a verdade e a ética. O Estado exige aceitação e obediência a seus planos, não simplesmente no âmbito econômico, militar ou legislativo, mas também no que diz respeito à ética. Pois a visão de ética de alguém será inevitavelmente a base de sua ordem jurídica. Para nos ajudar a entender como a cosmovisão secular humanista ou ateísta–estatista difere radicalmente da cosmovisão bíblica, vamos comparar e contrastar essas duas cosmovisões e demonstrar como elas afetam as crianças e o futuro da sociedade e cultura americanas.
Primeiramente, contrastemos o propósito e o objetivo da educação. Quando um governo secular controla a educação, o propósito da educação é tornar as pessoas bons cidadãos do Estado, mesmo que esse Estado seja pagão, ateísta e satânico. Por exemplo, o partido Democrata na América considera que as crianças estão sob o Estado (isto é, os sindicatos de professores estaduais liberais, pró–sodomitas, pró–aborto [o assassinato de crianças não nascidas], pró–socialismo, pró–transgênero, pró–Green New Deal, pró–perversão sexual e hedonismo etc.). Eles querem que as crianças busquem no Estado significado, ética, dependência econômica, salvação etc. Isso era verdade sob os comunistas, fascistas e ditadores do século XX e está acontecendo hoje também, embora geralmente de uma maneira mais sutil e enganosa. As escolas não estão interessadas na verdade ou na sabedoria genuína, mas sim em propaganda para promover seus objetivos políticos de longo prazo. Na cosmovisão cristã, as crianças pertencem a Deus, mas são colocadas diretamente sob a autoridade de seus pais. Se os pais enviam seus filhos para uma escola, eles estão delegando sua autoridade a um professor temporariamente durante o horário escolar. Eles só devem delegar sua autoridade parental dada por Deus quando tiverem certeza de que o professor adere estritamente à visão cristã de mundo e de vida e não ensinará a seu filho nada contrário à Bíblia ou à ética cristã. Em outras palavras, não seria apenas imoral enviar os filhos para uma escola estatal, mas também seria errado para um cristão genuíno (um protestante) enviar seus filhos para uma escola católica romana.
A visão bíblica da criação de filhos é diametralmente oposta ao conceito de neutralidade da escola estatal, que de fato não é neutra. Em Deuteronômio 6:7 e seguintes, Deus ordena aos pais que integrem a visão cristã de mundo e de vida em cada disciplina e em cada área da vida[1]. Todo assunto (seja matemática, história, política, civismo, geologia, biologia, agricultura etc.) deve ser ensinado a partir de uma perspectiva explicitamente cristã e fiel à Bíblia. A palavra de Deus define a ética, a família, o casamento, o Estado, o sentido da vida e tudo o mais. Deuteronômio 6:7 (e seguintes) pressupõe que não existe neutralidade nem esfera secular da vida fora da autoridade de Deus. Todo o processo de formação de um filho do Pacto deve ser “do Senhor”. Ele deve ser definido e regulado pelas Sagradas Escrituras, para a glória de Deus. Todo ensino, disciplina, educação e conhecimento devem convergir em inteira devoção e obediência a Jesus Cristo, assim como cada raio de luz converge para o sol.
É, evidentemente, uma violação do Primeiro Mandamento (“Não terás outros deuses diante de mim” – Êxodo 20:3) sustentar a posição de que o Estado humanista secular tem autoridade sobre a educação e, portanto, que Deus e Jesus Cristo não têm autoridade alguma. Tal posição não é estar a favor de Cristo, mas contra Ele (Mateus 12:30). Trata-se de uma recusa premeditada e deliberada de confessar Jesus Cristo diante dos homens (Mateus 10:32, 33). O sistema escolar estatal americano está ensinando, por preceito e exemplo, que Deus, Jesus Cristo e a Bíblia nada têm a ver com a educação. É ilegal orar a Deus, ler a Bíblia, confessar Jesus Cristo e ensinar os Dez Mandamentos como fonte de ética nas escolas públicas. Mas é legal e popular ensinar os direitos dos sodomitas, o aborto sob demanda, a perversão transgênero e o estatismo. A palavra de Deus, porém, diz que “o temor do Senhor é o princípio do conhecimento” (Provérbios 1:7); que as filosofias humanas não são segundo Cristo (Colossenses 2:8). Deus deu a Cristo “todo o poder no céu e na terra” (Mateus 28:18). Não há nenhuma área da vida que esteja fora de seu controle e domínio. As escolas públicas estão em aberta rebelião contra Jesus Cristo, pois rejeitam sua autoridade sobre a sala de aula.
Gordon Clark escreve: — “Como Deus julga o sistema escolar que lhe diz: — ‘Ó Deus, nós nem negamos, nem afirmamos a tua existência; e, ó Deus, nós nem obedecemos, nem desobedecemos aos teus mandamentos; somos estritamente neutros’? Que ninguém falhe em compreender o ponto: — O sistema escolar que ignora a Deus ensina seus alunos a ignorar a Deus; e isso não é neutralidade. É a pior forma de antagonismo, pois julga a Deus como irrelevante e sem importância nos assuntos humanos. Isto é ateísmo[2]”.
Sempre que os homens deixam de lado a palavra de Deus inspirada e infalível, eles a substituem por um elemento puramente humano. Em vez de verdades e ética transcendentais e eternas que vêm de Deus, obtemos alguma forma de autonomia humana. O surgimento do humanismo secular no Ocidente explica por que a ética moderna está em constante evolução e mudança. A ética agora é relativa à cultura e aos desejos das elites seculares e grupos de interesse em um dado momento. Práticas que, por quase dois mil anos, foram consideradas imorais, repugnantes, abomináveis e até ilegais, devido à influência positiva da Bíblia e do cristianismo na sociedade, são agora vistas como morais, virtuosas e socialmente positivas. O casamento heterossexual entre um homem e uma mulher deu lugar à fornicação legalizada, ao adultério (divórcio sem culpa), à homossexualidade, ao travestismo e à perversão transgênero. As coisas chegaram a tal ponto que homens e mulheres nem sequer são reconhecidos como tais. O ateísmo leva ao positivismo jurídico e à ideia de que as pessoas simplesmente criam sua própria ética. Essa autonomia humana resultou em pessoas criando ou definindo sua própria realidade. Se penso que sou uma mulher, então sou. Se uma mulher pensa que é um homem, então ela é um homem, e assim por diante. Todo esse relativismo radical e niilismo ateísta é ensinado hoje no sistema escolar público. No entanto, cristãos professos ainda colocam seus filhos em escolas estatais.
Se a ética não vem de Deus, então não existem direitos inalienáveis. A posição do humanismo secular é que a ética e os direitos provêm do Estado. Com o cristianismo bíblico, a Lei moral está acima da Suprema Corte e de todos os magistrados civis. Somente uma Lei moral transcendente, absoluta e imutável, que procede de um Deus infinito e pessoal, garante o verdadeiro Estado de Direito e a proteção contra um Estado messiânico e sedento de poder. Esquerdistas e democratas falam sobre o Estado de Direito, mas não creem realmente nele. Há apenas dez anos, a maioria dos democratas, inclusive Joe Biden e Barack Obama, era contra o casamento homossexual. Agora o promovem vigorosamente. Anos atrás, o vice-presidente Albert Arnold Gore Jr., mais conhecido como Al Gore, era contra o aborto, assim como muitos democratas. Há apenas setenta anos, praticamente toda a população do nosso país se opunha ao aborto. Como os liberais modernos não possuem um ponto de referência ético absoluto, eterno e imutável, eles simplesmente seguem o que é popular nos círculos acadêmicos liberais e esquerdistas. Os sumos sacerdotes de sua religião humanista, secular e satânica são os acadêmicos das universidades, que revestem suas ideias arbitrárias, relativistas e puramente positivas sobre ética (e sobre o que consideram ser o comportamento humano adequado) com um palavreado intelectual vazio. Eles são os falsos profetas ou sacerdotes de Moloque do Estado anticristão. Seus sacramentos são a perversão sexual e o aborto. São o equivalente moderno dos adoradores de Baal. Eles não adoram a Baal em busca de fertilidade, mas são narcisistas que adoram a si mesmos e aos prazeres hedonistas.
Os objetivos da educação cristã e do sistema escolar público ou estatal são radicalmente distintos no que diz respeito à concepção de sabedoria e disciplina. O objetivo da educação estatal (além de transformar todas as crianças em fiéis discípulos pró–sodomia, pró–aborto e pró–transgênero dos estatistas democratas) é a autoexaltação, a autodescoberta e a plena realização da autonomia e independência humana em relação a Deus. Isso se fundamenta na suposição de que as crianças nascem boas ou como uma tábula rasa, prontas para a autocriação e exaltação. Espera-se que cada um determine seu próprio propósito, significado e ética, separado de Deus, e viva audaciosamente nessa ilusão hedonista autoproclamada. Trata-se de uma fusão de ateísmo, narcisismo, hedonismo e subjetivismo radical. É por essa razão que a homossexualidade, a perversão transgênero, a imoralidade sexual e uma completa redefinição de homens, mulheres e da família são defendidas. Segundo os estatistas e progressistas humanistas seculares, a maneira correta de viver não é confiar em Cristo e obedecê-lo como Senhor, mas sim viver como se fosse o próprio deus, determinando por si mesmo o que é bom e mau, e até mesmo definindo a própria realidade. Essa idolatria radical e relativismo supostamente trariam vida, significado e felicidade. Em vez disso, resultam em niilismo, miséria, julgamento e morte.
A visão cristã da educação é ensinar, treinar e disciplinar as crianças com base na palavra de Deus, para que sejam progressivamente santificadas (ou seja, tornem-se mais santas, justas e eticamente separadas do sistema maligno do mundo ao longo do tempo) e, assim, adquiram a verdadeira sabedoria bíblica. Somente o sistema, a cosmovisão e a ética bíblicas (que só podem ser santificadoras se estiverem conectadas à fé em Jesus Cristo e à união com Ele em sua obra redentora) promovem a verdadeira prudência bíblica. As crianças cristãs aprendem discrição, discernimento, percepção e sabedoria prática ou, em termos modernos e coloquiais, “senso bíblico de realidade”. As crianças do Pacto são preparadas para uma vida de trabalho de domínio verdadeiramente satisfatório sob a liderança de Cristo. Sob a orientação bíblica de um pai cristão, as crianças devem desenvolver um caráter autenticamente cristão. Elas devem ser “formadas” em um sentido profundamente cristão. O propósito do ensino é “conhecer a sabedoria e a instrução, discernir as palavras de entendimento, acolher a instrução da sabedoria, da justiça, do juízo e da equidade; conceder prudência aos simples, e ao jovem, conhecimento e discernimento” (Provérbios 1:2 – 4).
Os cristãos são ensinados a estabelecer uma família cristã (casamento heterossexual e monogâmico) para exercer um domínio piedoso sobre a terra, para a glória de Deus. Tudo é centrado em Cristo, e assim as crianças são ensinadas a viver para Deus, não para si mesmas. O objetivo é imitar Jesus em sua natureza humana, e não seguir ateus, estatistas, feministas ou pervertidos sexuais. A educação deve ser plenamente bíblica e cristocêntrica.
Diferentemente do humanismo secular, que considera o homem intrinsecamente bom, a cosmovisão bíblica reconhece que o homem é caído, espiritualmente morto, culpado pelo pecado e depravado por natureza. Por essa razão, enfatiza-se a fé em Jesus Cristo e sua obra perfeita de redenção, bem como a disciplina bíblica, isto é, repreensão, admoestação, punição (como, por exemplo, palmadas) ou sanções baseadas na Lei moral de Deus ou na ética cristã. Crianças que não são disciplinadas de maneira cristã não aprendem autocontrole e comportamento bíblico adequado, que são necessários para funcionar em uma família cristã sólida e em uma sociedade que respeita a lei. Portanto, a educação bíblica nunca é apenas uma questão intelectual. Ela deve ser sempre acompanhada de repreensão verbal, correção, admoestação e, quando necessário, castigo físico. O fato de que as crianças precisam de admoestação pressupõe que elas violaram algum padrão ético e, portanto, precisam ser confrontadas verbalmente sobre comportamento ou discurso “inadequado”. Também pressupõe que o objetivo dessa admoestação ou correção é o reconhecimento do erro e uma mudança de comportamento na direção correta. Ou seja, deve haver arrependimento que leve a uma transformação na personalidade e no comportamento.
Esse ponto suscita algumas questões em relação às escolas públicas. Primeiro, as escolas públicas incluem a disciplina na educação da criança? Segundo, se as escolas públicas utilizam disciplina, qual é o seu padrão? É de conhecimento comum que a disciplina nas escolas públicas é muito frouxa e, em algumas escolas, é praticamente inexistente. Esse fato não surpreende por quatro razões. [1] – A palmada em crianças agora é considerada abuso infantil. [2] – O comportamento rebelde (especialmente em adolescentes) é visto como um aspecto normal e até benéfico do crescimento. [3] – As escolas estatais não estão realmente interessadas em incutir “valores antiquados” ou ética cristã, mas principalmente em produzir jovens adultos que amem o estatismo. Deve-se ter em mente que as escolas estatais são um estabelecimento religioso (o humanismo secular) e seu principal trabalho não é a educação, mas a promoção dessa religião. [4] – Muitos professores modernos de escolas públicas não veem o mau comportamento como um problema ético, mas como um sintoma do ambiente. Crianças hiperativas são medicadas com Ritalina[3] e, quando crianças e jovens adultos cometem crimes, frequentemente nos dizem que tais pessoas foram vítimas da sociedade. [5] – O padrão que as escolas públicas usam como base para a disciplina é um padrão falso, ímpio, satânico e mundano. Não há neutralidade na ética. As escolas públicas usarão disciplina contra aqueles que defendem a ética cristã (por exemplo, o casamento heterossexual monogâmico, o ensino da Bíblia e da natureza de que há apenas dois gêneros, masculino e feminino, estabelecidos no ventre e exibidos no nascimento; as pessoas devem ser julgadas unicamente com base em seu caráter e comportamento, não em raça ou cor da pele [sim, progressistas e democratas defendem o racismo]; as pessoas não devem ser julgadas ou colocadas em uma classe ou categoria com base no que outros fizeram há mais de cento e cinquenta anos). Além disso, os descendentes dos africanos negros que capturaram e venderam outros africanos negros como escravos também são obrigados a pagar reparações? Ademais, como alguém pode descobrir quais ancestrais foram culpados desse pecado específico? A Bíblia enfatiza a responsabilidade pessoal e não permite a transferência de culpa por comportamento perverso ou criminoso.
Quando os cristãos colocam seus filhos em uma escola pública, eles estão delegando sua autoridade parental a incrédulos que sustentam uma cosmovisão radicalmente antibíblica. Eles estão submetendo seus filhos a uma forma de admoestação satânica. Consequentemente, as crianças cristãs receberão repreensão, correção e castigo por comportamentos piedosos (por exemplo, iniciar grupos de oração, defender Cristo em sala de aula, testemunhar aos outros, falar a verdade sobre sexo antes do casamento e homossexualidade, alertar sobre falsas religiões etc.). E elas receberão elogios por discursos ímpios (por exemplo, discursos que aceitam e promovem a autonomia humana, o relativismo, o travestismo, a homossexualidade, o evolucionismo, o politeísmo, o racismo [como ações afirmativas], o multiculturalismo, o feminismo, o estatismo etc.). A admoestação satânica que as crianças recebem nas escolas públicas é projetada para promover uma mudança de personalidade e comportamento em uma direção explicitamente anticristã.
Além disso, mesmo que um professor ou administrador de uma escola pública discipline uma criança por algo verdadeiramente antiético (como mentir, roubar, xingar ou brigar), eles (por política estabelecida) não podem fornecer razões bíblicas para a disciplina, mas devem recorrer ao pragmatismo ou a algum conceito de lealdade à humanidade ou ao Estado. Dizer a uma criança “não minta porque você precisa ser um bom cidadão” ou “não roube porque isso viola a fraternidade humana” transmite algo muito diferente de dizer: — “não minta ou roube porque tal comportamento viola a Lei moral de Deus e o desagrada” ou “João, você sabe que a Bíblia diz que os mentirosos não entrarão no reino dos céus?”. A disciplina nas escolas públicas é aplicada em termos de utilidade para o Estado, e não em termos bíblicos de serviço e glorificação a Deus. O sistema escolar público proíbe estritamente que professores, administradores e alunos confessem Cristo, promovam a Lei bíblica ou defendam o senhorio de Jesus Cristo sobre todas as áreas da vida. Ele exige que todas as crianças e professores desobedeçam explicitamente o ensino do Apóstolo Paulo sobre a necessidade de aplicar a centralidade de Cristo a cada pensamento ao longo de todos os dias: — “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas; destruindo argumentos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” (2 Coríntios 10:4, 5).
As escolas públicas negam a doutrina cristã da criação por Deus e permitem apenas que a macroevolução seja ensinada às crianças. A criação é uma doutrina bíblica fundamental, que constitui a base para a distinção entre Criador e criatura e para uma epistemologia bíblica (isto é, como o verdadeiro conhecimento é possível e acessível). Se o universo e os seres humanos são produto de tempo, mais matéria, mais acaso, então tudo está em constante fluxo. A ética e o sentido da vida são apenas um epifenômeno temporário de máquinas de carne evoluídas. O homem está em fluxo dentro de um universo em fluxo ou de pura contingência. A teoria macroevolucionária é o fundamento filosófico do ateísmo e do humanismo secular. Ela é a base epistemológica da ética relativista. O estatismo e a remoção da liberdade cristã dependem dela.
Se o homem evoluiu de lodo primordial, então não há razão real para a ética em absoluto. Ela é puramente arbitrária. Não passa de opiniões baseadas em sentimentos ou emoções. Esse ensino é a razão pela qual o nosso governo civil moderno crê que pode inventar leis do nada ou que juízes ou uma simples maioria podem decidir o que é certo e o que é errado. Essa visão é a forma pela qual mais de sessenta milhões de bebês não nascidos foram assassinados a sangue–frio nos Estados Unidos. É a forma pela qual a abominação da homossexualidade e do transgenerismo foi declarada boa e lícita. Seria correto para um pai cristão expor seu filho de sete ou oito anos a um ataque dogmático e organizado contra a doutrina fundamental da criação?
As escolas públicas ensinam que a ética está em constante evolução; que a sociedade ou a maioria determina o que é comportamento aceitável. A Bíblia ensina que a Lei moral se fundamenta na natureza de Deus e é imutável, absoluta e inegociável. As escolas públicas ensinam que o homem é basicamente bom e que muitos maus comportamentos resultam de má genética, de influências do ambiente ou de doenças (por exemplo, alcoolismo, dependência de drogas). A Bíblia ensina que o homem nasce com a culpa e a corrupção do pecado e que toda transgressão da Lei de Deus é maldade. As escolas públicas identificam muitas atividades malignas como permissíveis e até virtuosas (por exemplo, fornicação, homossexualidade, feitiçaria, idolatria, rebelião contra os pais etc.). Também condenam fortemente muitas doutrinas fundamentais do cristianismo, como a afirmação de Cristo de ser o único caminho para Deus, a visão bíblica da família e assim por diante. As escolas públicas não têm base realmente sólida para o ensino da ética. Somente a Bíblia fornece razões lógicas e seguras pelas quais enganar, roubar, estuprar, praticar a imoralidade sexual e assassinar são pecados. As escolas públicas defendem uma filosofia humanista secular, naturalista, pluralista, relativista e anticristã que contradiz as Escrituras em cada ponto fundamental. Os pais simplesmente não podem ser fiéis aos mandamentos bíblicos de incutir em seus filhos uma cosmovisão cristã se os enviarem para a cova satânica dos leões que é a educação pública. Todo pensamento deve ser levado cativo à obediência de Cristo, não à obediência do Estado pagão.
Enviar filhos cristãos a uma escola pública significa colocar os filhos do Pacto em um ambiente pagão, onde podem ser influenciados e corrompidos por incrédulos ímpios. O Apóstolo Paulo diz: — “[…] as más conversações corrompem os bons costumes” (1 Coríntios 15:33). A palavra (ὁμιλίαι–homiliai) traduzida como “conversações” (KJV[4]) ou “companhia” “significa um ajuntar, companheirismo. É o contato, associação com o mal, que é declarado ser corruptor[5]”. É totalmente irresponsável enviar filhos do Pacto a uma sociedade de mestres ímpios e malfeitores. “A vida espiritual é abafada na atmosfera da sociedade carnal, e uma espécie de embriaguez rapidamente domina aquele que a frequenta[6]”. As crianças são frequentemente muito ingênuas e suscetíveis à pressão dos colegas e à influência de pessoas em posições de autoridade (isto é, professores). Uma criança do Pacto em uma escola pública é atacada de todos os lados por doutrina demoníaca, disputas profanas, zombarias grosseiras, música satânica, exaltação da fornicação e da rebelião, ódio à autoridade legítima e toda sorte de tentações mortais. Quantos filhos do Pacto tiveram suas mentes poluídas e sua moral corrompida na escola pública? Tristemente, multidões!
Anos atrás, o Instituto Gallup realizou uma pesquisa entre evangélicos, e um de seus achados foi que as taxas de apostasia entre os filhos de evangélicos são alarmantes. Quando cristãos professos enviam seus filhos às escolas estatais de Moloque para serem doutrinados por propaganda anticristã durante toda a semana, cinco a seis horas por dia, não deveriam se surpreender quando seus filhos se tornam traidores de Cristo e do reino de Deus. O princípio do discipulado para toda a vida (Deuteronômio 6:7 e seguintes) foi cooptado pelo Estado secular e anticristão, enquanto os cristãos oferecem a seus filhos uma aula de quarenta e cinco minutos, superficial, medíocre e sem doutrina, na escola dominical. Podem os cristãos ser sal e luz para a nossa cultura quando seus filhos são educados por estatistas ímpios e esquerdistas, e quando seus colegas são hedonistas, perversos e insensatos cegos? Os pais cristãos precisam atentar às palavras de Provérbios: — “O justo é mais excelente do que o seu próximo, mas o caminho dos ímpios faz errar” (Provérbios 12:26). “O que anda com os sábios ficará sábio, mas o companheiro dos tolos será destruído” (Provérbios 13:20). “Espinhos e laços há no caminho do perverso; o que guarda a sua alma retira-se para longe dele” (Provérbios 22:5). “Não sejas companheiro do homem briguento nem andes com o colérico, para que não aprendas as suas veredas, e tomes um laço para a tua alma” (Provérbios 22:24, 25). “Não tenhas inveja dos homens malignos, nem desejes estar com eles. Porque o seu coração medita a rapina, e os seus lábios falam a malícia” (Provérbios 24:1, 2).
Os pais cristãos nunca devem se esquecer de que as escolas públicas, por lei, são obrigadas a ensinar cada disciplina a partir de uma perspectiva autônoma e satânica. A cada hora de cada dia, os professores das escolas públicas despejam mentiras. Além disso, as escolas públicas são verdadeiras cloacas [chiqueiros] de imoralidade. As crianças nelas encontram um verdadeiro banquete de perversidades disponível a cada dia. Praticamente qualquer droga, qualquer forma de perversão sexual, toda forma de satanismo religioso, e assim por diante, está facilmente acessível. Os pais cristãos têm uma obrigação pactual de proteger seus filhos de um ambiente tão anticristão. Enviar os filhos a um centro de propaganda do ateísmo e do niilismo não é o procedimento correto, sábio ou amoroso. Mesmo quando adultos cristãos (espiritualmente maduros e preparados para a batalha) passam tempo entre os ímpios, devem fazê-lo em seus próprios termos, e não nos termos estabelecidos pelos ímpios. Hodge escreve: — “Somente quando os homens se associam com os ímpios com o desejo e o propósito de lhes fazer o bem é que podem confiar na proteção de Deus para preservá-los da contaminação[7]”.
Mesmo aqueles que não se tornaram apóstatas por terem frequentado a escola pública ainda podem ser influenciados pela exaltação do sistema maligno do mundo promovida por essas instituições e, assim, acabam sincretizados e comprometidos intelectual e moralmente. Eles também perderam a oportunidade superior de uma escola explicitamente cristã ou da educação no lar. Há muitos cristãos professos que foram parcialmente corrompidos e negativamente influenciados pela propaganda que receberam nas escolas estatais quando crianças. A influência do feminismo, do estatismo, da evolução, do relativismo ético, do existencialismo, do anti–intelectualismo e assim por diante está fortemente evidenciada em Igrejas cujas crianças frequentaram escolas públicas. Uma educação não cristã é uma má educação. Quando pais cristãos colocam seus filhos em escolas públicas, estão perdendo a única oportunidade de oferecer a seus próprios filhos uma boa educação cristã. Ninguém que leve a Bíblia a sério pode argumentar que uma educação sem Cristo, ou uma educação agnóstica/ateísta, seja uma boa educação. Do ponto de vista bíblico, isso é impossível.
Olhando para o que Deuteronômio 6:1 – 9 e outras passagens, como Efésios 6:4, ensinam, podemos ver que os pais são os responsáveis pela educação de seus filhos, não o Estado. Deus não autorizou o magistrado civil nem concedeu ao Estado a autoridade para estabelecer um sistema de escolas públicas financiado por impostos. Temos um sistema mantido por coerção estatal, em que pais estritamente cristãos são forçados a pagar os salários de ateus, estatistas democratas, sodomitas, feministas, insensatos que odeiam a Cristo, racistas convictos e socialistas dedicados. A aceitação, por parte de cristãos professos, do sistema de escolas públicas da América é uma adesão à doutrinação satânica e ao Estado messiânico anticristo. Os cristãos precisam aprender que Deus estabeleceu diferentes esferas pactuais de responsabilidade (isto é, a Igreja, o Estado e a família). O Estado não deve invadir a responsabilidade da família ou da Igreja. A essência do estatismo — ou, como Hillary coloca, “é preciso uma aldeia para criar uma criança” — é tornar o Estado, e não os pais, o senhor e formador de todas as crianças. Hitler disse: — “Dê-me seus filhos e eu controlarei o futuro”.
Devemos ter em mente que a Bíblia confere ao magistrado civil uma autoridade limitada sob Deus. Ao governo civil foi dada a tarefa de proteger a sociedade, aplicando sanções negativas contra o mal público. O magistrado civil é ministro de Deus “para castigar o que faz o mal” (Romanos 13:4). O governo civil tem pleno direito de arrecadar impostos para cumprir seu dever de proteção, aplicando sanções contra o mal. Contudo, não possui autorização bíblica para invadir as instituições pactuais ordenadas por Deus — a Igreja e a família — a menos que um crime (definido biblicamente) tenha sido cometido. Poucos cristãos professos argumentariam que o magistrado civil tem o direito de administrar os sacramentos ou exercer disciplina eclesiástica. Entretanto, a maioria dos cristãos professos não vê problema no Estado coletar impostos por meio de coerção para realizar algo que a Escritura declara explicitamente pertencer aos pais (Deuteronômio 6:4 – 9; Efésios 6:4). O Estado não possui maior legitimidade bíblica para arrecadar impostos destinados à educação pública do que para edificar templos budistas ou erigir santuários hindus. As únicas pessoas a quem Deus conferiu autoridade para instituir escolas para crianças são os pais. “A escola cristã, corretamente entendida, é uma extensão natural do lar cristão. Ela existe unicamente para complementar — e jamais substituir — a instrução dos pais no lar. Escola e família devem caminhar lado a lado na formação e educação da criança[8]”.
Quando o governo civil estabelece escolas públicas, ele se coloca como o pai de todas as crianças. Tal governo considera todos os filhos como propriedade do Estado. “Essa visão é fundamental para as filosofias da educação estatista. Ela se manifesta de forma especial em todas as formas de marxismo, tanto no socialismo nacional quanto no internacional. A criança é um recurso do Estado, a ser desenvolvido e utilizado para o bem-estar do próprio Estado[9]”. Quando os pais colocam seus filhos em uma escola estatal, em essência estão apoiando a reivindicação messiânica do Estado de exercer jurisdição total sobre a família. Esses pais estão contribuindo para a religião de poder do Estado–Moloque. Eles também se tornam culpados de roubo contra o próximo, pois a tributação sem autorização divina é furto. Seus filhos estudam às custas do contribuinte. Muitos desses contribuintes são idosos, não têm filhos e vivem de rendas fixas. Beneficiar-se da coleta ilegal de impostos sobre a propriedade para sustentar escolas estatais é pecado. Se todos os cristãos professos retirassem seus filhos das escolas públicas, o sistema de ensino público entraria em colapso. Então, a maior instituição de controle estatista e de difusão da irreligião, do socialismo, do ateísmo e do niilismo seria encerrada. Por que os cristãos professos não assumem a dianteira no fechamento do sistema de escolas públicas? A resposta provavelmente está no amor ao “Mamom” (Mateus 6:24; Lucas 16:13). Quantos cristãos professos enviaram seus filhos diretamente para o inferno apenas para economizar dinheiro?
Lembrem-se também de que as crianças são muito mais suscetíveis à propaganda e à doutrinação do que os adultos maduros. Uma educação cristã adequada é concebida para ajudar os filhos do Pacto a resistirem aos argumentos intelectuais do mundo e às tentações da carne. Colocá-los na cova demoníaca da educação estatal produz exatamente o oposto: — expõe-os aos atrativos e às mentiras do mundo quando estão mais vulneráveis. Não presumam que sejam capazes de neutralizar todas as falsidades e absurdos antiéticos que as crianças aprendem nas escolas públicas. Mas como, perguntamos, poderão os pais cristãos combater ensinamentos dos quais, em grande parte, nem sequer têm consciência?O fato de muitos pais cristãos reconhecerem que seus filhos precisam ser “desprogramados [reorientados][10]” ou “despaganizados[11]” todos os dias após a escola é uma admissão tácita do perigo que as escolas públicas representam para os filhos cristãos. Jesus disse: — “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação” (Mateus 26:41). As tentações virão, mas devemos fazer todo o possível para não entrar nelas. Quando você coloca seus filhos em uma escola estatal ateísta, com professores esquerdistas e satânicos e colegas pagãos, mundanos e hedonistas, está deliberadamente colocando-os em uma situação de tentação. Obedeça a Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo, e diga não à educação pública.
A Bíblia ensina que a formação integral dos filhos do Pacto, incluindo educação e disciplina, é responsabilidade dos pais cristãos, em particular do pai. Isso abrange tanto a instrução formal quanto a informal. Uma cosmovisão bíblica deve permear toda a existência de uma criança do Pacto. As passagens bíblicas que tratam da educação e do treinamento dos filhos (por exemplo, Deuteronômio 6:6 – 9; Efésios 6:4) ensinam que uma educação explicitamente cristã é obrigatória. Não se trata de uma questão opcional ou de preferência. Esse ensino exige que os pais cristãos mantenham seus filhos do Pacto fora das escolas públicas. As escolas públicas devem ser evitadas pelas seguintes razões:
[1] – Não integram a fé cristã em todas as áreas da vida nem em cada disciplina acadêmica.
[2] – Violam o Primeiro Mandamento ao aderirem ao politeísmo político, ao humanismo secular e ao agnosticismo ou “ateísmo polido”.
[3] – Não promovem a obediência a Jesus Cristo e às suas leis, mas ao Estado pagão.
[4] – Corrompem a moral dos filhos do Pacto por meio de um ensino falso e perigoso, além do contato com um corpo estudantil ímpio.
[5] – Não possuem disciplina bíblica. Sua disciplina é frouxa e fundamentada em princípios anticristãos.
[6] – Violam o princípio bíblico que coloca a educação da criança nas mãos dos pais, e não do Estado.
[7] – Violam o Oitavo Mandamento, pois são financiadas por meio do roubo estatal.
As Igrejas devem ajudar os pais cristãos a serem fiéis aos imperativos das Escrituras quanto à criação de filhos. Os pais precisam ser instruídos com a verdade acerca de suas muitas responsabilidades, bem como receber treinamento e orientação. Ao implementar políticas bíblicas sobre a educação cristã, as Igrejas devem ter em mente que novos convertidos e a maioria dos cristãos professos foram influenciados por anos de propaganda estatista e por anos de instrução não bíblica dentro da própria comunidade evangélica nesse assunto. Portanto, quando uma Igreja se arrepende e começa a transição de ser uma congregação onde muitos, ou mesmo a maioria dos membros, ainda mantêm seus filhos em escolas públicas para tornar-se uma comunidade em que nenhuma criança mais frequenta escolas estatais, essa mudança deve ser realizada com ensino cuidadoso e com admoestação paciente e amorosa. Uma vez que um pai cristão fiel tenha compreensão sólida de todos os argumentos e questões bíblicas envolvidos no debate sobre a educação cristã, obedecerá de bom grado à palavra de Deus nessa área. Lembremo-nos das palavras de Paulo: — “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Colossenses 2:8).
Paz e graça.
[1] Deuteronômio 6:1 – 9 declara: — “Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou o Senhor vosso Deus para ensinar-vos, para que os cumprísseis na terra a que passais a possuir; para que temas ao Senhor teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos, que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os dias da tua vida, e que teus dias sejam prolongados. Ouve, pois, ó Israel, e atenta em os guardares, para que bem te suceda, e muito te multipliques, como te disse o Senhor Deus de teus pais, na terra que mana leite e mel. Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por frontais entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas”. O equivalente no Novo Testamento a este trecho é Efésios 6:4: — “E vós, pais, não provoqueis à ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor”. Isso é reforçado por 1 Coríntios 10:31: — “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus”. Devemos conduzir a educação de nossos filhos de maneira que glorifique a Deus. Jesus Cristo deve ser o centro ou o eixo de todo o sistema educacional, não o Estado ou mesmo nossos desejos egoístas e pecaminosos. A educação da criança promove seu amor e obediência a Cristo, ou incentiva seu serviço e devoção a um Estado ateu ou pagão? A perspectiva cristã de mundo e vida deve ser estudada, discutida e aprendida ao longo do dia, sendo cuidadosa e intencionalmente integrada em cada tema da educação.
[2] Gordon H. Clark, A Christian Philosophy of Education (Jefferson, MD: The Trinity Foundation, 1988 [1946]), 73.
[3] A Ritalina é um medicamento estimulante do sistema nervoso central, cujo princípio ativo é o metilfenidato. É utilizada no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e de distúrbios de sono, como a narcolepsia — nota do tradutor.
[4] Optei pela versão Almeida Corrigida Fiel (ACF), uma vez que ela verte igualmente o termo por “conversações”, preservando assim a proximidade lexical com o original inglês — nota do tradutor.
[5] Charles Hodge, 1 and 2 Corinthians (Carlisle, PA: Banner of Truth, 1974 [1857, 59]), 240.
[6] Frederick Lewis Godet, Commentary on First Corinthians (Grand Rapids: Kregel, 1977 [1889]), 824.
[7] Charles Hodge, I and II Corinthians, 340.
[8] John M. Otis, “The Necessity for the Christian School” in Journal of Christian Reconstruction: Symposium on the Education of the Core Group (Vallecito, CA: Chalcedon, 1987), Vol. II, no. 2, 29.
[9] Rousas John Rushdoony, The Philosophy of the Christian Curriculum (Vallecito, CA: Ross House, 1985), 141 – 142.
[10] Libertos da programação ideológica — nota do tradutor.
[11] Libertos da influência pagã — nota do tradutor.
[12] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.
por Brian M. Schwertley | 26 ago 2025 | TEOLOGIA
Em nossos dias, é muito comum ver imagens de Cristo em Igrejas e lares. Imagens do Salvador são frequentemente encontradas em vitrais, saguões de Igrejas, salas de aula de escolas cristãs, salas de estar, capas de livros, programas de televisão carismáticos, outdoors de Igrejas, Bíblias de família e na parede atrás do púlpito. A grande maioria das livrarias “cristãs” vende uma ampla variedade de imagens de Jesus. Há de tudo, desde a representação efeminada do Messias do norte da Europa até as versões grotescamente musculosas e semelhantes ao Hulk. Mesmo em Igrejas Reformadas (que deveriam ter mais discernimento), imagens do Servo Sofredor são bastante comuns em materiais de escola dominical. As representações do Filho de Deus violam as Escrituras ou são apenas obras de arte perfeitamente aceitáveis, contanto que não sejam adoradas ou usadas como auxílio à adoração? Tenha em mente que os protestantes de Igrejas menos formais que usam imagens de Cristo insistem que as imagens não são usadas em cultos religiosos. No máximo (dizem eles), são apenas representações artísticas usadas para fins educacionais.
Embora muitas pessoas que usam imagens de Jesus sejam muito sinceras e não se prostrem diante de tais imagens, o uso de tais imagens é, no entanto, ilícito e pecaminoso. Existem muitas razões pelas quais o uso de imagens de Cristo é antibíblico.
Primeiro, o uso de imagens de nosso Senhor é uma violação do Segundo Mandamento. Este mandamento diz: — “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” (Êxodo 20:4, 5).
Este mandamento proíbe adorar ídolos de qualquer categoria ou imagens de Deus, bem como qualquer figura de coisa criada. Também proíbe o uso de imagens como auxílio para a adoração ou devoção. Os papistas, por exemplo, dizem que não adoram um crucifixo ou uma estátua de Cristo, mas que tais imagens são auxílios ou meios através dos quais se presta culto ao Filho de Deus. “Os romanistas fazem imagens de Deus Pai, pintando-o em seus vitrais de igreja como um ancião; e uma imagem de Cristo no crucifixo; e, por ser contra a letra deste mandamento, eles o apagam sacrilegamente [ímpiamente] de seu catecismo e dividem o décimo mandamento em dois[2]”.
Os protestantes modernos que usam imagens de Jesus ressaltam que, ao contrário dos romanistas, ortodoxos orientais e anglicanos de alta Igreja, eles não se prostram nem adoram imagens do Senhor. Eles argumentam que suas imagens são puramente educacionais, artísticas ou lembretes históricos. Além disso, é notado que imagens de pessoas, cenas históricas, figuras famosas e animais são universalmente aceitos como permitidos entre os protestantes, desde que não se prostrem, sirvam ou adorem essas coisas. Assim, ter uma imagem de Jesus não difere de ter uma imagem de Abraham Lincoln ou de um amigo próximo. Embora este argumento típico faça sentido para muitas pessoas, ele precisa ser enfaticamente rejeitado pelas seguintes razões.
[1] – Jesus não é como Abraham Lincoln ou qualquer outra pessoa, porque Ele é tanto Deus quanto homem em uma só Pessoa. Portanto, qualquer imagem de nosso Senhor seria automaticamente de natureza religiosa ou devocional. Sendo assim, ela cairia imediatamente sob o perímetro bíblico do Princípio Regulador do Culto. Em outras palavras, uma imagem do Salvador não pode ser considerada um item pertencente à esfera das coisas indiferentes (adiáfora). Se os crentes devem usar imagens do Senhor, eles devem primeiro encontrar mandato divino [autorização divina] na palavra de Deus para seu uso.
Existe mandato divino para representações pictóricas do Messias? Não, não existe. Não há mandamentos para fazer imagens de nosso Senhor. Na verdade, tais imagens violam claramente o Segundo Mandamento, pois uma imagem verdadeira de Jesus deveria evocar adoração no crente. Se uma representação pitoresca traz pensamentos de amor, devoção e louvor em relação ao Filho de Deus, então, obviamente, ela é um auxílio ou meio para a adoração, mesmo que as pessoas não se prostrem diante da imagem.
[2] – A palavra de Deus não dá aos crentes informações suficientes para fazer uma representação fiel da aparência física de Cristo. Isaías nos diz que, com relação à aparência do Salvador, não há nada de beleza para agradar os olhos (veja 53:2). No livro de Apocalipse, há uma descrição apocalíptica do Senhor exaltado (por exemplo, Apocalipse 1:13 – 17) e do Salvador como um Cordeiro imolado (Apocalipse 4:6). No entanto, nenhum estudioso competente consideraria essas declarações apocalípticas como descrições literais de Cristo. Elas são visões proféticas vívidas que têm a intenção de ensinar à Igreja uma rica Teologia a respeito de nosso Senhor e sua obra. Os Apóstolos que passaram mais de três anos com Jesus, que sabiam exatamente como era seu rosto humano e tinham fortes memórias de sua pessoa e obra, poderiam ter trabalhado com artistas para deixar à Igreja um retrato preciso do Messias. No entanto, eles se recusaram a deixar à Igreja tal retrato. Portanto, é óbvio que Deus não aprova retratos de seu Filho.
Segundo, uma vez que nenhuma imagem precisa de Cristo pode ser produzida pelo homem, todas as imagens do Salvador são representações falsas do Filho de Deus. Mas (como alguns podem objetar), se é permitido fazer representações artísticas de batalhas famosas e até mesmo dos Apóstolos, por que seria errado fazer o mesmo com o Messias? Mais uma vez, devemos ser lembrados de que Jesus é totalmente único. Embora Ele tivesse um corpo e alma humanos reais (1 João 1:14), “ainda assim sua natureza humana subsiste em sua Pessoa divina, que nenhuma imagem pode representar (Salmos 45:2)[3]”. O Filho de Deus é distinto porque somente Ele é o supremo objeto de nossa fé. Isso significa que tudo o que devemos crer a respeito dEle deve vir somente da revelação divina, porque, “tudo o que não é de fé é pecado” (Romanos 14:23). Qualquer imagem do Senhor que seja fruto da imaginação humana é “adoração voluntária”, por estabelecer uma invenção do homem no lugar ou ao lado dos dados bíblicos concernentes a Cristo. Quando a fé é direcionada a fantasias humanas no lugar ou ao lado da fé na revelação divina, a religião bíblica é rebaixada com o humanismo.
Como Jesus, que é “o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6), ou o Espírito Santo, que é “o Espírito da verdade” (João 16:13), poderiam ser honrados ou agradados com fantasias humanas a respeito do Filho? O fato de nosso Senhor ser tanto Deus quanto homem em uma só Pessoa torna todas as representações humanas do Filho totalmente inapropriadas e até abomináveis. Fazer uma versão falsa do Messias é ainda mais perverso do que fazer uma versão simulada da Bíblia. Além disso, o que pensaria um dos Apóstolos das muitas imagens perversas do Salvador que são comuns hoje (por exemplo, o Jesus efeminado, loiro e de olhos azuis; o Jesus do Black Power; o Jesus hippie de Hollywood; o Jesus dos filmes evangélicos; o Jesus musculoso das livrarias)? Pedro e João ficariam totalmente chocados com esse lixo irreverente, desrespeitoso, antibíblico, humanista e blasfemo. Além disso, como os artistas não podem formar uma representação fiel da aparência física do Salvador, suas representações do Senhor são inevitavelmente influenciadas por sua “teologia” e cosmovisão. Muitas das pinturas, gravuras e desenhos populares vistos em livros e Bíblias de família hoje são produtos do liberalismo do século XIX, do “feminismo cristão”, do Arminianismo e de formas pietistas de Antinomianismo. Esses sistemas teológicos falsos apresentam um retrato unilateral e distorcido de nosso Senhor. Ele é geralmente apresentado como o Jesus gentil, o mestre manso e humilde que enfatizava o amor e a paternidade de Deus; que era um simpático professor de ética; que jamais se irava com pecadores ou pregava sobre pecado, juízo e ira vindoura. Johannes G. Vos escreve: — “Talvez mais pessoas vivendo hoje tenham derivado suas ideias de Jesus Cristo dessas imagens tipicamente ‘liberais’ de Jesus do que tenham derivado suas ideias de Jesus da própria Bíblia. Essas pessoas, inevitavelmente, pensam em Jesus como uma pessoa humana, em vez de pensarem nEle, segundo o ensino bíblico, como uma Pessoa Divina com uma natureza humana. O efeito inevitável da aceitação popular de imagens de Jesus é superenfatizar a sua humanidade e esquecer ou negligenciar a sua divindade (o que, é claro, nenhuma imagem pode retratar)[4]”.
Também, imagens de nosso Senhor perpetuam a falsa doutrina pré–milenista de que o Messias não está presentemente reinando como Rei à destra de Deus. Muitos evangélicos creem que o Senhor realmente não governa sobre a terra até a sua Segunda Vinda. Teologicamente, veem Jesus muito parecido com o que era em seu Estado de Humilhação. O Apóstolo Paulo rejeita tal pensamento. Ele diz: — “Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo” (2 Coríntios 5:16). Vivemos na era pós–ressurreição. O Messias já não é o Servo Sofredor manso e humilde. Agora Ele é o Cavaleiro do cavalo branco, o Rei vitorioso, que está glorificado, que tem todo o poder no céu e na terra (Mateus 28:19). A Bíblia inteira, e nada além da Bíblia, deve informar nosso entendimento de Cristo. Todo aspecto de sua pessoa e obra é objeto de nossa fé. Qualquer coisa que coloque uma fantasia, uma invenção humana ou uma imagem falsa de nosso Senhor diante de nossos olhos, ou em nossas mentes, não fortalece a fé bíblica, mas a corrompe e degrada. Se você quer ver o Salvador, então estude, medite e memorize a Escritura, pois é nela que o Messias é revelado em toda a sua glória. Durham escreve: — “Não é lícito ter imagens de Jesus Cristo […] porque, se não desperta devoção, é vão; se desperta devoção, é uma adoração por meio de uma imagem ou representação e, portanto, uma quebra palpável do Segundo Mandamento[5]”.
Terceiro, todas as imagens do Salvador promovem implicitamente a antiga heresia de Nestório, que separava ambas asnaturezas de Cristo — a humana da divina[6]. Quando os Apóstolos olhavam para Jesus, contemplavam o Deus–Homem. Assim, o Apóstolo João pôde escrever: — “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1:14). Além do fato de que imagens do Filho de Deus são falsas impressões artísticas, eles também não podem retratar a natureza divina do Messias. Assim, eles não apenas o retratam como infinitamente menor do que Ele era, é e sempre será; mas também subtraem a sua glória divina. Eles implicitamente ensinam uma Teologia falsa de Cristo. Esta observação é uma das razões principais pelas quais a Igreja primitiva condenou as imagens de Jesus. Um importante concílio da Igreja em Constantinopla (754 d.C.) decretou: — “Se qualquer pessoa dividir a natureza humana, unida à Pessoa de Deus, o Verbo; e, tendo-a apenas na imaginação de sua mente, tentar, portanto, pintar a mesma em uma ‘Imagem’; que seja tida como amaldiçoada. Se qualquer pessoa dividir Cristo, sendo Ele um só, em duas pessoas; colocando de um lado o Filho de Deus e, do outro, o filho de Maria; nem confessar a união contínua que é feita; e, por essa razão, pintar em uma ‘Imagem’ o filho de Maria, como se subsistisse por si mesmo; que seja amaldiçoada. Se qualquer pessoa pintar em uma ‘Imagem’ a natureza humana, sendo deificada pela união dela a Deus, o Verbo; separando-o, por assim dizer, da Divindade assumida e deificada; que seja tida como amaldiçoada”.
A respeito deste concílio, Philip Schaff escreve: — “O concílio, apelando para o Segundo Mandamento e outras passagens das Escrituras que denunciam a idolatria (Romanos 1:23, 25; João 4:24), e para as opiniões dos Pais (Epifânio, Eusébio, Gregório Nazianzeno, Crisóstomo etc.), condenou e proibiu a adoração pública e privada de imagens sagradas sob pena de deposição e excomunhão […]. Ele denunciou todas as representações religiosas feitas por pintor ou escultor como presunçosas, pagãs e idólatras. Aqueles que fazem imagens do Salvador, que é Deus e também homem em uma Pessoa inseparável, ou limitam a incompreensível Divindade aos limites da carne criada, ou confundem suas duas naturezas como Êutiques, ou as separam como Nestório, ou negam a sua Divindade como Ário; e aqueles que adoram tal imagem são culpados da mesma heresia e blasfêmia[7]”.
Imagens de Cristo são mentiras da imaginação que pervertem e degradam a doutrina bíblica de nosso Senhor. Devemos nos lembrar de nosso digno e precioso Salvador não por fantasias artísticas grosseiras, mas celebrando a Ceia do Senhor, participando dos meios da graça e meditando nas Escrituras. Paulo diz que “a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Romanos 10:17). Jesus nos diz que a santificação vem por meio da palavra de Deus. “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (João 17:17). Impressões artísticas do Filho de Deus podem despertar as emoções. Podem trazer uma lágrima aos olhos ou alegria ao coração. Mas, visto que são meras invenções da mente humana, elas não podem santificar ou aumentar a nossa fé. De fato, como violações não ordenadas do ensino expresso da Bíblia, elas são destrutivas da fé e da santificação. “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos. Amém” (1 João 5:21).
Imagens de nosso Senhor não podem santificar porque: — [1] – derivam da imaginação do artista e, portanto, são ficções; e [2] – pervertem o ensino bíblico acerca do Salvador teantrópico[8], roubando-lhe a glória, separando as duas naturezas — a divina da humana. Este fato tem implicações importantes para aqueles que querem manter imagens para fins educacionais (por exemplo, materiais de escola dominical para crianças).
Perguntamos àqueles a favor de imagens do Filho de Deus para fins educacionais as seguintes questões. Como você pode ensinar a verdade ao colocar uma mentira (isto é, uma fantasia humana, uma representação fictícia) diante dos olhos das crianças? Quantas crianças crescem pensando no Messias como um fracote de olhos azuis, efeminado, de cabelos compridos e hippie devido à ignorância e incompetência dos professores de escola dominical? Como você espera que as crianças sejam santificadas por algo que não tem base nas Escrituras e, portanto, é uma invenção da mente do homem? (Lembre-se que a Bíblia não dá nenhuma descrição física de nosso Senhor, a não ser por algumas passagens que não podem ser realmente representadas por um artista, por exemplo, Mateus 17:2; Apocalipse 1:13 e seguintes).
Paulo diz que as filosofias humanas e as regras e regulamentos autônomos não têm valor contra a indulgência da carne[9] (Colossenses 2:8, 21 – 23). Imagens de Jesus para uso educacional ou devocional são invenções feitas pelo homem que não têm base nas Escrituras e, portanto, são tradições humanas que caem sob a condenação de Deus.
Quarto, tanto a Bíblia quanto a História da Igreja ensinam que imagens religiosas inventadas por homens para uso educacional ou devocional são laços do diabo que corrompem o povo de Deus com idolatria e declínio. Por causa de nossa natureza pecaminosa, os corações dos homens são facilmente — e, tristemente, com frequência — atraídos a formas sensuais e corruptas de culto. Em 2 Reis 18:4 lemos que o piedoso rei Ezequias despedaçou a serpente de bronze que Moisés havia feito, porque o povo de Israel queimava incenso a ela. A serpente de bronze (ao contrário de imagens de Cristo) era uma imagem lícita porque fora ordenada por Deus. Ainda assim, tão logo se tornou um objeto devocional religioso, Jeová quis que fosse destruída como item de superstição e idolatria.
Na Igreja antiga, imagens foram feitas para honrar os santos, a virgem Maria e Jesus. Essa prática levou a todo tipo de práticas supersticiosas, corruptas e idólatras: — oração a santos mortos; a adoração e o culto a Maria; beijar os pés de estátuas dos santos; guardar e adorar relíquias; dias de santos; peregrinações; vestir estátuas com roupas diferentes para dias santos diferentes; procissões com estátuas e imagens em honra aos santos, à virgem–mãe e a Cristo; catedrais construídas para honrar as relíquias de santos mortos, e assim por diante.
Não há dúvida de que muitas das pobres almas iludidas que levaram a Igreja pelo caminho demoníaco e sombrio do Romanismo eram sinceras. Elas provavelmente eram muito piedosas e tinham as melhores das intenções. Mas o amor delas por invenções humanas, suas adições ao culto que Deus havia autorizado, levaram à plena e condenável religião do papismo. “Mas, dizem os Papistas, as imagens são os livros dos leigos, e são boas para lembrá-los de Deus. Um dos Concílios Papistas afirmou que poderíamos aprender mais por uma imagem do que por um longo estudo das Escrituras […]. Para os Papistas dizerem que se servem de uma imagem para se lembrarem de Deus, é como se uma mulher dissesse que anda em companhia de outro homem para se lembrar de seu marido[10]”.
Para os protestantes modernos ignorarem o claro ensino das Escrituras e da história como se estivessem imunes aos perigos da superstição e da idolatria é arrogante, insensato e mortal. A Igreja papal não se desenvolveu na monstruosidade demoníaca que é agora da noite para o dia. Mas, como Paulo advertiu, “Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?” (1 Coríntios 5:6).
A prática bastante comum hoje (mesmo em Igrejas presbiterianas conservadoras) de usar imagens de Jesus em materiais educacionais (por exemplo, livros, vídeos, materiais de escola dominical) viola o Segundo Mandamento, ensina uma falsa doutrina do Messias, corrompe o culto a Deus, é descaradamente desrespeitosa com a Segunda Pessoa da Trindade e, portanto, deve ser odiada e evitada por todos os cristãos que creem na Bíblia. Os antepassados da ala calvinista da Reforma se abstiveram escrupulosamente, por uma questão de princípio, do uso de imagens de Cristo.
Note as palavras de John Knox no “Book of Disciple, Third Head” (1560): — “Pois que Vossas Honras estejam asseguradamente persuadidas, que a ira de Deus reinará, não apenas sobre o idólatra cego e obstinado, mas também sobre os que negligentemente o toleram; especialmente se Deus tiver armado as mãos deles com poder para suprimir tais abominações. Por idolatria entendemos a Missa, a invocação de santos, a adoração de imagens e a guarda e retenção das mesmas; e, finalmente, toda honra a Deus que não esteja contida em sua Santa Palavra”.
Façamos o mesmo e voltemos à estrita e consciente adesão ao Segundo Mandamento por parte dos nossos antepassados espirituais. O fato de o uso de imagens de Cristo ser generalizado entre cristãos professos em nossos dias não o torna certo. Isso, infelizmente, é mais um sinal da ampla decadência e apostasia entre muitas Igrejas modernas. Que Deus nos capacite a adorar nosso precioso Salvador apenas de uma maneira autorizada por sua infalível Palavra.
Paz e graça.
[1] Por Brian Schwertley (2002).
[2] Thomas Watson, The Ten Commandments (Carlisle, PA: Banner of Truth, 1965 [1692, 1890]), 61.
[3] Fisher’s Catechism, from Q & A #51, answer to subquestion #9.
[4] Johannes G. Vos, The Westminster Larger Catechism: A Commentary (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed, 2002), 292.
[5] James Durham, The Law Unsealed: or A Practical Exposition of the Ten Commandments.
[6] “E se for dito que a alma do homem não pode ser pintada, mas o seu corpo pode, e ainda assim essa pintura representa um homem; eu respondo, isso acontece porque ele tem apenas uma natureza, e o que a representa, representa a pessoa; mas não é assim com Cristo: — a sua divindade não é uma parte distinta da natureza humana, como a alma do homem (o que é necessariamente suposto em todo homem vivo), mas uma natureza distinta, apenas unida com a humanidade naquela única pessoa, Cristo, que não tem igual; portanto, o que o representa não deve representar apenas um homem, mas deve representar Cristo, Emanuel, Deus–Homem, caso contrário não é a sua imagem. Além disso, não há autorização para representá-lo em sua humanidade; nem qualquer possibilidade plausível disso, a não ser como os homens imaginam; e isso será chamado de retrato de Cristo? Seria isso chamado de retrato de qualquer outro homem se fosse desenhado ao bel–prazer dos homens, sem levar em conta o padrão? Novamente, não há utilidade para isso; pois ou essa imagem teria que ter apenas uma estima comum com outras imagens, e isso ofenderia a Cristo, ou um respeito peculiar de reverência, e assim pecaria contra o mandamento que proíbe toda reverência religiosa a imagens, mas, sendo Ele Deus e, portanto, o objeto de adoração, devemos ou dividir suas naturezas, ou dizer que aquela imagem ou figura não representa Cristo” (Da obra “The Law Unsealed: or A Practical Exposition of the Ten Commandments”).
[7] Phillip Schaff, History of the Christian Church (Grand Rapids: Eerdmans, 1987 [1910]), 4:457 – 458
[8] “Teantrópico” designa o mistério da dupla natureza de Jesus Cristo: — a união perfeita do verdadeiro Deus (θεός) e do verdadeiro homem (ἄνθρωπος) em uma só e indivisível Pessoa — nota do tradutor.
[9] Com fundamento em Colossenses 2:8, 21 – 23, o autor sustenta que as imagens de Jesus não passam de invenções humanas, desprovidas de respaldo bíblico e, por isso, incapazes de refrear a natureza pecaminosa — a “indulgência da carne” — ou de promover a verdadeira santificação — nota do tradutor.
[10] Thomas Watson, The Ten Commandments, 61.
[11] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.
por Brian M. Schwertley | 29 jul 2025 | TEOLOGIA
Introdução.
Um tema controverso, evitado por muitos pastores e concílios em nossos dias, é o uso de véus (ou coberturas de cabeça) no culto público. Há diversas razões pelas quais tal assunto é negligenciado. [1] – Muitos o consideram um “jogo perdido”, sobretudo por parte de presbitérios que desejam evitar ofender pessoas de opiniões divergentes. [2] – A passagem que trata do uso de véus é de difícil interpretação e, por isso, tem sido empregada para sustentar pontos de vista completamente distintos. [3] – O uso de coberturas na adoração pública é, na atualidade, tanto raro quanto impopular. De fato, não poucas mulheres — e até alguns homens — sentem-se profundamente ofendidos com a prática. Pastores já foram demitidos ou pressionados a renunciar unicamente pelo fato de suas esposas cobrirem a cabeça no culto. [4] – Lamentavelmente, muitos ministros, em nossa era, compreendem seu ofício não como arautos da verdade, mas como meros gestores de pessoas. Assim, doutrinas e práticas que geram controvérsia precisam ser evitadas ou reinterpretadas de forma a justificar os costumes atuais.
Ainda que o uso de véus no culto público seja controverso e impopular, há razões importantes pelas quais tal prática deve ser seriamente considerada. Uma razão evidente é que o Apóstolo Paulo dedica uma porção significativa de um capítulo em sua epístola para tratar deste tema. O Apóstolo, movido pelo Espírito, apresenta argumentos detalhados em favor do uso de coberturas. Ora, tudo quanto se encontra na palavra de Deus requer nossa mais atenta consideração. Ademais, Paulo ordena o uso de véus por parte das mulheres no culto. Caso tal prática deva ser rejeitada ou ignorada em nossos dias, é imperioso que a Igreja possua razões exegéticas claras para tanto. Como cristãos, nossa lealdade suprema não pertence ao “status quo”, nem ao espírito de nosso tempo, mas ao Senhor Jesus Cristo e à sua Palavra infalível.
Antes de adentrarmos o ensino do Apóstolo quanto ao uso do véu em 1 Coríntios 11:2 – 16, algumas considerações preliminares se fazem necessárias. [1] – O ensinamento paulino acerca das coberturas de cabeça está inserido em uma seção mais ampla da epístola que trata de desordens no culto público: — o véu das mulheres (11:2 – 16); a conduta imprópria na Ceia do Senhor (11:17 – 34); e o mau uso dos dons espirituais (12:1 – 31). Portanto, a passagem em questão não trata do uso contínuo do véu por parte das mulheres em todos os momentos, mas especificamente no contexto do culto. [2] – Embora não saibamos exatamente como Paulo tomou conhecimento do problema em Corinto, é provável que tenha sido por meio de carta (cf. 1 Coríntios 7:1). De qualquer modo, o Apóstolo considerou a questão suficientemente grave para tratá-la com detalhe. [3] – Esta seção das Escrituras parte do pressuposto de que ao menos algumas mulheres em Corinto haviam deixado de cobrir a cabeça durante o culto público. Embora não saibamos ao certo o motivo desse abandono, é possível que algumas tenham mal compreendido ou aplicado erroneamente o ensino paulino de que, em Cristo, “não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28 – ACF)[2]. O ensino do Apóstolo de que, na esfera da salvação, as distinções sociais, raciais e mesmo de gênero são irrelevantes, pode ter sido distorcido em uma negação das diferenças de função e ordem. O fato de Paulo enfatizar a ordem divina de autoridade (cf. 1 Coríntios 11:3, 7 – 9) implica que havia necessidade de correção nesse ponto. [4] – O Apóstolo inicia a seção que trata dos abusos no culto público louvando os coríntios por guardarem as tradições (v. 2). A palavra traduzida como “tradições” (παράδοσις–parádosis), ou “preceitos” (ACF), neste contexto, refere-se à palavra de Deus transmitida por Paulo. O fato de o Apóstolo oferecer louvor antes da correção tem intrigado diversos comentadores. Por que o Apóstolo começa uma seção de correção de práticas errôneas com um elogio à obediência à doutrina apostólica inspirada? Há algumas respostas plausíveis a essa questão. É possível que os abusos em Corinto tenham sido praticados por uma pequena minoria na Igreja; assim, Paulo poderia louvar o corpo principal por sua fidelidade. Outra possibilidade é que Paulo elogie os coríntios por sua fidelidade em muitas áreas antes de corrigi-los, como um estímulo à fidelidade ainda maior. Em outras palavras, ele os louva pelo bem antes de os admoestar pelo mal. O Apóstolo os corrige de maneira amorosa e delicada, como um pai trata um filho sensível.
1 – Uma declaração teológica fundamental.
Curiosamente, o Apóstolo inicia seu ensino acerca do uso do véu no culto público, não com uma repreensão ou descrição do problema, mas com uma declaração teológica fundamental: — “Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo” (v. 3). Tal afirmação serve como ponto de referência para os versículos 4 e 5. O fato de algumas mulheres em Corinto não estarem cobrindo suas cabeças durante o culto público é sintoma de um problema maior: — revela uma compreensão distorcida do significado da obra de Jesus para as relações sociais na era da Nova Aliança. Por isso, Paulo principia com uma afirmação quanto à ordem de autoridade instituída por Deus na criação. “Com a intenção de provar que é algo indecoroso a mulher se apresentar numa assembleia pública com a cabeça descoberta, e, por outro lado, que é impróprio ao homem orar ou profetizar com a cabeça coberta, ele começa destacando os arranjos divinamente estabelecidos[3]”. O Apóstolo apresenta quatro gradações de autoridade que se aplicam à ordem criada: — Deus, Cristo, o homem, a mulher.
[1] – A cabeça de Cristo é Deus.
Este ponto refere-se ao fato de que, em seu estado encarnado como Mediador, Jesus assumiu voluntariamente uma posição de submissão ao Pai. Evidentemente, como segunda Pessoa da Trindade, o Filho é igual em poder e autoridade a Deus.
[2] – A cabeça de todo homem é Cristo.
Tal afirmação é verdadeira sob diversos aspectos. Como Deus e Criador, o Filho é o Senhor supremo sobre todos os homens e mulheres. Além disso, em seu ofício de Mediador divino–humano, Jesus recebeu toda autoridade no céu e na terra (Mateus 28:18). Ele é a Cabeça da Igreja e o Salvador do corpo (Efésios 1:22, 23; Colossenses 1:16).
[3] – A cabeça da mulher é o homem.
Deus estabeleceu o homem em posição de autoridade sobre a mulher. O Apóstolo explicará esse princípio com mais profundidade nos versículos 7 e 8: — “O homem é primeiro em ordem de existência, foi formado primeiro, e a mulher dele, feita para ele, e não ele para a mulher; por isso deve ser cabeça e principal […] e ela deve estar sujeita a ele em tudo quanto é natural, civil e religioso. Além disso, o homem é cabeça da mulher para prover e cuidar dela, nutri-la e amá-la, protegê-la e defendê-la de toda afronta e injúria[4]”.
A liderança pactual do homem sobre a mulher foi estabelecida por Deus no sexto dia da criação (Gênesis 2:18 – 25). Este princípio é ensinado por toda a Escritura. Exemplo notável se encontra em Efésios 5:23: — “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da Igreja, sendo Ele próprio o salvador do corpo” (ver também 1 Pedro 3:1, 5, 6; Romanos 7:2; 1 Coríntios 11:8, 9; 1 Timóteo 2:12, 13; 3:4, 5, 12; Isaías 54:5; Jeremias 3:20; 31:32; Oséias 2:2, 7; Números 30:3 – 15; Êxodo 22:16, 17; 21:1 – 11).
Há diversos aspectos a serem notados na declaração inicial de Paulo quanto à autoridade. Primeiro, o Apóstolo não se empenha em provar o princípio da autoridade e subordinação, mas o afirma como fato estabelecido pela ordem criada de Deus. Segundo, a estrutura de autoridade apresentada por Paulo é universal quanto ao tempo e lugar. Sendo uma ordenança da criação — isto é, um princípio fundado na realidade criada por Deus —, a liderança do homem sobre a mulher não é, de modo algum, fruto de cultura ou evolução social. A liderança pactual do homem sobre a mulher aplica-se a toda a história e a todas as culturas. Qualquer tentativa de contornar o ensino de Paulo neste ponto constitui ato de rebelião contra o próprio Deus, que estabeleceu tal estrutura de autoridade. Terceiro, a palavra traduzida como “cabeça” (κεφαλή–kephalé) significa “governante”, “líder” ou “aquele que possui autoridade sobre”. As tentativas feministas e igualitárias de esvaziar o sentido claro do texto, interpretando “kephalé” como “fonte”, já foram amplamente refutadas[5]. Quarto, a afirmação paulina quanto à autoridade do homem sobre a mulher não implica inferioridade feminina. Homens e mulheres são iguais metafisicamente — quanto ao ser, essência ou natureza —, embora diferentes em vários aspectos (por exemplo, os homens são fisicamente mais fortes; Pedro chama a mulher de vaso mais fraco — 1 Pedro 3:7). Ambos são igualmente redimidos diante de Deus, salvos e santificados da mesma forma, com igual dignidade, como filhos de Deus em Cristo (Gálatas 3:28; 1 Pedro 3:7). Portanto, as mulheres não são cidadãs de segunda classe na família, na Igreja ou na sociedade. A distinção entre homens e mulheres, segundo Paulo, refere-se à função e ao propósito: — o homem foi criado para liderar de modo amoroso — isto é, como líder servo (Mateus 20:25 – 28; Efésios 5:25 – 33); a mulher foi criada como auxiliadora, para submeter-se respeitosamente ao marido e assisti-lo na tarefa do domínio piedoso (Gênesis 2:18; 1 Coríntios 11:9; Efésios 5:22, 23). Quinto, a declaração fundamental de Paulo no versículo 3 ensina que Deus considera vergonhosa a cabeça descoberta da mulher no culto público, não por indecência ou inconformidade cultural, mas porque simboliza a usurpação da ordem criada por Deus.
Após delinear a ordem de autoridade ordenada por Deus, Paulo prossegue apresentando exemplos concretos de violações desse princípio, bem como argumentos adicionais em favor do uso do véu no culto público.
2 – Desonra e vergonha.
No argumento seguinte, Paulo apresenta uma situação hipotética no culto público a fim de tratar da aparência do homem e da mulher no ato de adoração — com cobertura (no caso dos homens) ou sem ela (no caso das mulheres): — “Todo o homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça. Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada. Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu” (1 Coríntios 11:4 – 6 – ACF).
3 – Oração e profecia.
Antes de considerarmos o argumento do Apóstolo quanto à vergonha, há certos pontos preliminares que requerem atenção. É necessário definir a referência paulina à oração e à profecia no culto público. Muitos comentaristas veem problema na menção de mulheres orando e profetizando na adoração pública, visto que, em 1 Coríntios 14:34, 35, as mulheres são ordenadas a guardar silêncio na assembleia. Ora, sendo impossível que a Escritura se contradiga, e especialmente inconcebível que o próprio Apóstolo se contradiga de forma tão clara na mesma epístola, estudiosos propõem interpretações distintas, mas plausíveis, para resolver tal aparente dificuldade. Calvino argumenta que a menção à oração e à profecia por parte das mulheres é meramente hipotética, visto que mais adiante Paulo proíbe tal prática de modo absoluto[6]. Outra possibilidade é que o Apóstolo considere a profecia — sendo revelação direta de Deus — como uma exceção ao falar comum (por exemplo, a exposição não–inspirada das Escrituras). Em outras palavras, se a profecia é o próprio Deus falando, sem mediação interpretativa, então a mulher, ao profetizar, não está exercendo autoridade sobre o homem Veja o comentário de Matthew Henry sobre esta passagem[7].
A interpretação mais adequada é que os atos de oração e profecia mencionados por Paulo representam a participação congregacional no culto público. Os estudiosos chamam de sinédoque a figura que designa a parte pelo todo — neste caso, uma parte do culto público. O comentarista John Gill oferece uma explicação elucidativa desta passagem, ao afirmar: — “Não que à mulher fosse permitido orar publicamente na congregação, muito menos pregar ou explicar a Palavra, pois tais coisas lhes eram proibidas (cf. 1 Coríntios 14:34, 35; 1 Timóteo 2:12). Antes, refere-se a toda mulher que participa no culto público com o ministro em oração, que ouve a pregação da Palavra, ou que entoa os louvores de Deus junto com a congregação[8]”. De fato, embora as mulheres não ensinem nas assembleias públicas nem conduzam a oração, oram liturgicamente — isto é, em unidade com toda a congregação, como no Pai–Nosso — e entoam cânticos inspirados, que são profecias das Escrituras, especialmente quando cantam os Salmos.
A importância de compreender adequadamente o significado de oração e profecia reside no seguinte: — se o uso do véu fosse exigido apenas durante o ato específico de apresentar oração inspirada ou nova doutrina diretamente de Deus, poder-se-ia argumentar que a prática do uso de cobertura para as mulheres se restringia ao século primeiro, cessando com a morte dos Apóstolos e o fechamento do cânon. Todavia, sendo universal o uso da cobertura tanto na Igreja oriental quanto na ocidental no período pós–apostólico, revela-se extremamente improvável que o uso do véu se limitasse ao momento exato em que a oração ou o ensino divinamente inspirados eram manifestados.
4 – O que é um véu ou cobertura para a cabeça?
Quando Paulo fala em “cobertura para a cabeça”, estaria referindo-se a um pedaço de tecido — isto é, um véu — conforme a interpretação tradicional, ou estaria aludindo ao cabelo comprido? Há várias razões que indicam que a cobertura mencionada deve ser entendida como um véu ou pano. Primeiramente, as palavras e expressões que Paulo usa para descrever essa cobertura são empregadas em outros textos das Escrituras para indicar um tecido sobre a cabeça. No versículo 4, a frase incomum “κατὰ κεφαλῆς ἔχων–kata kephalēs echōn”, traduzida como “tendo a cabeça coberta” e que significa literalmente “com a cabeça coberta e o véu caindo para baixo”, é usada na Septuaginta para traduzir expressões hebraicas referentes a véus ou mantos cobrindo a cabeça. “Embora o idioma de Paulo seja singular, não carece de precedentes. Em Ester 6:12, diz-se que Hamã ‘apressou-se para sua casa, chorando e com a cabeça coberta’ (RSV). A LXX – Septuaginta [grega] traduz esta expressão como kata kephalēs (= ‘para baixo da cabeça’). De modo semelhante, Plutarco refere-se a Cipião, o Jovem, que caminhava por Alexandria ‘com o ἱμάτιον–himation para baixo da cabeça’, significando que cobria a cabeça com parte da toga para não ser reconhecido pelo povo. Quase certamente, pois, Paulo está empregando este idioma para indicar uma cobertura externa de tecido[9]”.
O contraste que Paulo estabelece entre homens e mulheres no versículo 5 é ainda mais claro do que no versículo 4. Aqui, o Apóstolo utiliza a expressão “tendo a cabeça descoberta”, ou literalmente “sem véu”. A palavra grega, em todas as suas formas variadas usadas ao longo desta seção (por exemplo, v. 5, akatakalyptō – “sem véu”; v. 6, ou katakalyptetai – “não está velada”; v. 6, katakalyptesthō – “seja velada”; v. 7, ouk opheilei katakalyptesthai – “não deve estar velado”; v. 13, akatakalypton – “sem véu”) refere-se claramente a uma cobertura de tecido ou véu.
Essa interpretação é sustentada pela Septuaginta (isto é, a tradução grega do Antigo Testamento concluída em 247 a.C.), a qual utiliza as várias formas de “katakalyptō” para descrever uma cobertura feita de tecido. Em Gênesis 38:4 – 15, a mesma palavra (ekalupisato, katekalupato) é utilizada para descrever Tamar cobrindo-se com um véu. É evidente que isso não se refere a uma cobertura capilar. Em Isaías 47:2, 3, lemos: — “Toma as mós e moe a farinha. Remove o teu véu (apokalypsai to katakalumma), descobre as pernas (anakalupsai tas polias) […]. A tua nudez será descoberta (anakaluphthēsetai)”. Mais uma vez, a cobertura é de tecido ou pano. A palavra “akaluptos”, ou “descoberta”, deriva da palavra “kalumna”, que significa “véu”. A palavra “kalumna” é usada dezoito vezes na tradução grega do Antigo Testamento (isto é, a Septuaginta; Êxodo 26:14; 27:16; 34:33, 34, 35; 39:20; 40:5; Números 3:25; 4:8, 10, 11, 12, 14 [duas vezes], 31; 1 Crônicas 17:5). Todas as vezes que essa palavra ocorre tanto no Antigo quanto no Novo Testamento (por exemplo, 2 Coríntios 3:13, 14, 15, 16), ela sempre se refere a um véu de tecido. Nunca é usada para descrever o cabelo. Consequentemente, a menos que o contexto imediato se refira especificamente ao cabelo, devemos sempre considerar kalumna (ou um de seus derivados) como referência a um véu de tecido usado sobre o cabelo. Segundo, a cobertura da cabeça do homem é associada à vergonha pelo Apóstolo Paulo. O pano de fundo dessa afirmação encontra-se no Antigo Testamento, onde, em tempos de tristeza ou quando os homens experimentavam vergonha, cobriam a cabeça com um véu de tecido. Em 2 Samuel 15:30, lemos: — “E Davi subiu pela subida das Oliveiras, subindo e chorando; e tinha a cabeça coberta, e ia descalço; também todo o povo que estava com ele cobriu cada um a sua cabeça, e subiram chorando” (cf. Ester 6:12). “Outro exemplo da palavra hebraica ocorre em Jeremias 14:3, 4, quando os homens se envergonham e se confundem, e cobrem as suas cabeças, por causa da seca [de chuvas] trazida pelo juízo de Deus. A única outra ocorrência veterotestamentária desta palavra na forma gramatical ‘Qal’ dá-se em Ester 7:8; parece que, em cada um desses eventos do Antigo Testamento, está em vista uma cobertura externa de pano[10]”. Terceiro, a ideia de que a cobertura se refere ao cabelo e não a um véu de tecido é tornada impossível pela comparação que Paulo faz entre estar descoberta e ter cabelo curto, masculino. No versículo 5, o Apóstolo declara que estar descoberta é mau porque é vergonhoso, como ter cabelo curto (isto é, tosquiado ou rapado). Seria absurdo dizer que é errado ou vergonhoso para uma mulher ter cabelo curto no culto público porque ter cabelo curto é como ter cabelo curto. Note ainda o que o Apóstolo afirma no versículo 6: — “Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também”. Faria sentido Paulo dizer: — “Se a mulher tem cabelo curto, então que tenha cabelo curto também”? Não, de modo algum! O Apóstolo está dizendo que, se a mulher vai aparecer na Igreja sem véu ou cobertura de tecido (o que é vergonhoso), então ela deveria também cortar o cabelo curto como uma escrava ou uma lésbica. A analogia do Apóstolo só faz sentido se ele estiver comparando uma atividade vergonhosa com outro ato vergonhoso. Se ambas as atividades forem idênticas, então toda a analogia perde o sentido. Alguns cristãos tentaram contornar essa analogia definindo “tosquiar” e “rapar” de maneiras diferentes: — uma significando cabelo curto, e a outra apontando para uma cabeça calva. Esse argumento cai por terra quando observamos que Paulo usa os termos como sinônimos no versículo 6: — “tosquiada ou rapada”. A cobertura só pode referir-se a um pano ou véu; o cabelo simplesmente não serve e não pode funcionar nesse contexto. Quarto, no versículo 7, Paulo afirma que o homem não deve cobrir-se porque “[ele] é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem”. Assim, a mulher deve estar coberta. Somente a glória de Deus deve estar descoberta durante o culto. No versículo quinze, somos informados de que o cabelo comprido da mulher é a sua glória. Como somente a glória de Deus deve estar descoberta no culto público, a glória da mulher deve estar coberta. “O cabelo de uma mulher não pode ser ao mesmo tempo a glória e aquilo que cobre a glória! Nada pode ser ao mesmo tempo ‘A’ e ‘não–A’ da mesma maneira e no mesmo sentido. Paulo nos ensinou que o objeto que é a glória não pode também cobrir a glória! E ele nos ensinou que somente a glória de Deus deve ser vista no culto[11]”. Obviamente, então, a glória da mulher (isto é, seu cabelo comprido) deve ser coberta com um pano ou tecido de algum tipo.
5 – É o cabelo?
Há uma objeção comum a todos os argumentos anteriores. Geralmente, ela toma a forma de uma pergunta. Paulo não diz explicitamente no versículo 15 que o cabelo é dado a ela “como cobertura”? Em outras palavras, por que uma mulher deveria usar um véu como cobertura quando Paulo diz que o cabelo longo é sua cobertura? Há várias razões pelas quais o cabelo longo não poderia ser a cobertura que Paulo exige ao longo deste capítulo. Como observado, o significado da palavra para cobertura usada nos versículos 4, 5, 6, 7 e 13 refere-se claramente a uma cobertura de pano ou véu na Escritura. Curiosamente, quando o Apóstolo se refere ao cabelo longo como uma cobertura, ele usa uma palavra grega completamente diferente (περιβόλαιον– peribolaion) para distinguir um tipo de cobertura de cabeça de outro. É notável que, quando Paulo se refere a um véu de pano neste capítulo, ele sempre usa uma forma diferente de “kalumna” (katakalupto, akatakaluptos, akatakalupto), mas assim que discute o cabelo como uma cobertura, ele introduz uma palavra grega completamente diferente (peribolaion). Paulo está fazendo uma clara distinção entre esses dois tipos de coberturas que, infelizmente, se perde na tradução. O Apóstolo não quer que confundamos a cobertura de cabelo com a cobertura de pano (o véu). Além disso, (como observado) se o cabelo longo for substituído por uma cobertura de pano nos versículos 5 e 6, as passagens não fazem sentido algum (por exemplo: — “Se ela está rapada, então que se rape”). Se a principal preocupação de Paulo no capítulo 11 é ensinar às mulheres que elas devem vir ao culto com cabelo longo, então por que não simplesmente ensinar sobre a necessidade de as mulheres terem cabelo longo o tempo todo como uma lei da natureza? Não haveria razão para ter uma discussão separada sobre cabelo longo no culto público porque o cabelo de uma mulher não é algo que pode ser removido e substituído em um momento quando se deseja. Além disso, a ideia de que a cobertura de cabeça é cabelo longo exigiria que se interpretasse a cobertura de cabeça em referência aos homens no versículo 4 como cabelo longo, o que é extremamente improvável.
A referência de Paulo ao cabelo comprido como cobertura natural aparece em meio a uma série de razões para o uso de uma cobertura de tecido no culto público. O argumento que apela ao cabelo longo toma um dos subpontos de Paulo em favor do uso do véu e o transforma na proposição principal de toda a seção. Se a única e principal preocupação de Paulo fosse simplesmente que as mulheres mantivessem o cabelo longo e os homens o cabelo curto, por que não iniciar a discussão com esse ponto? Além disso, por que Paulo usaria uma palavra referente à cobertura de tecido em todo o seu argumento e, então, empregaria uma palavra grega diferente no versículo 15, se estivesse preocupado apenas com estilos de cabelo?
Um dos maiores problemas para o argumento do cabelo longo é que cabelos curtos, em estilo masculino ou lésbico, em mulheres, e estilos longos e efeminados em homens, não constituem apenas um problema no culto público, mas uma clara violação da Lei de Deus quanto à manutenção da diferença ordenada por Deus entre os sexos. Se as mulheres estivessem tentando parecer-se com homens — o que era um comportamento comum entre lésbicas no mundo greco–romano —, Paulo teria tratado tal conduta perversa em sua seção sobre imoralidade sexual, e não como algo meramente impróprio no culto público.
É evidente, então, que o Apóstolo aponta para a natureza (ou a ordem natural), onde o cabelo comprido da mulher é uma cobertura natural, como evidência de apoio ao uso de uma cobertura de tecido no culto público. “A implicação é que, como a natureza providenciou às mulheres um adorno de cabelo, ela está destinada, não, é claro, a considerar isso como um substituto para outra cobertura, mas a usar um véu quando estiver orando a Deus na companhia de homens, sendo a natureza considerada como fornecedora da norma mesmo para tal vestimenta[12]”.
John Murray escreve: — “O grego do versículo 15 é certamente o grego da equivalência, como usado com frequência no Novo Testamento, e isso justificaria a tradução: — ‘o cabelo lhe é dado por cobertura’. A cobertura de cabelo comprido provida pela natureza (versículo 15) “não interfere com a exigência da cobertura adicional contemplada nos versículos 5, 6 e 13”, e de fato Paulo apela a ela como apoio à cobertura artificial. Bruce Waltke observa: — “A pressuposição é usada aqui mais próxima de seu significado original de ‘em oposição’. O cabelo comprido da mulher está ‘em oposição’ e ‘corresponde’ à cobertura desejada para a assembleia pública”. A cobertura natural do versículo 15 ‘reclama’ a cobertura cultual dos versículos 4 a 7. O ponto é que os versículos 5, 6 e 13 contemplam uma cobertura artificial que deve ser colocada nas assembleias de culto da Igreja, enquanto os versículos 14 e 15 ‘apresentam uma consideração da ordem natural em apoio àquilo que é ordenado anteriormente na passagem, mas que não é, em si mesma, equivalente a isso. Em outras palavras, o cabelo comprido é uma indicação da [natureza] quanto à diferenciação entre homens e mulheres, e assim a cobertura da cabeça exigida nos versículos 5, 6 e 13 está em conformidade com o que a ‘natureza’ ensina[13]”.
O estudioso grego Buchsel observou que: — “a preposição ‘anti’, que tem o significado básico de ‘em oposição a’ ou ‘no lugar de’, pode se referir a ‘um mero equivalente em estimação […] ou similaridade’[14]”. Ele cita 1 Coríntios 11:15 como um exemplo de similaridade. Em outras palavras, Paulo não está dizendo que o cabelo longo da mulher é a cobertura de cabeça que ele defende no culto, mas sim que é semelhante à cobertura de pano. A natureza aponta para o uso de uma cobertura de pano no culto público. Godet escreve: — “Foi objetado, não sem um toque de ironia, que pelo próprio motivo de que a natureza dotou a mulher de tal cobertura, ela não precisa adicionar uma segunda e artificial. Mas isso é um equívoco quanto ao verdadeiro alcance do argumento do Apóstolo. Tudo é espiritual em sua visão. Ele quer dizer que a natureza, ao constituir cada um dos dois sexos como fez, deu a ambos a entender a maneira pela qual cumprirão seu destino; para o homem, será uma ação pública e independente; para a mulher, a vida no retiro doméstico e silencioso. Quem quer que tenha a menor apreciação das coisas da natureza reconhecerá a verdade profunda desse simbolismo […]. A constituição física da mulher é uma revelação da vontade do Criador a respeito dela. Não se conformar a essa indicação não é apenas ofender a propriedade social, é também transgredir a vontade do Criador[15]”.
Com relação ao argumento em favor do cabelo comprido como cobertura, há mais um ponto que precisa ser notado. Tem sido a experiência deste autor que virtualmente todos (pastores, presbíteros, consistórios[16], indivíduos) que argumentam que o cabelo comprido é a cobertura no culto público não exigem que as mulheres tenham cabelo comprido. Por que esse fato é importante? É importante porque revela que, ao menos para muitas pessoas, o argumento do cabelo comprido não passa de uma desculpa para evitar o verdadeiro sinal de submissão — uma cobertura de pano na cabeça. Muitos evitam essa acusação argumentando que a principal preocupação do Apóstolo nesta seção das Escrituras é ensinar aos crentes que os penteados devem ser diferentes para homens e mulheres. Em outras palavras, o comprimento é relativo. O cabelo das mulheres deve ser ao menos um pouco mais longo, ou ao menos de um estilo diferente, mais feminino, do que o dos homens. Se esta é, de fato, a intenção do Apóstolo — isto é, tratar apenas de estilos de cabelo distintos entre os sexos — então, como já observado, por que ele inseriria tal argumento em uma seção que trata especificamente do decoro e da reverência no culto público? Devemos, então, acreditar que uma inversão dos papéis sexuais quanto à aparência é permitida fora do culto público? Infelizmente, muitos pastores que hoje se debruçam sobre a exegese desta passagem bíblica mostram-se mais empenhados em justificar as conveniências das práticas eclesiásticas atuais do que em discernir com rigor o verdadeiro sentido do texto. Pastores que pregam sermões que ofendem um grande número de mulheres influenciadas pelo feminismo na Igreja geralmente sofrem algum tipo de perseguição.
6 – Desonrando a sua cabeça.
Paulo afirma que o homem que cobre a cabeça no culto público desonra a sua cabeça, e a mulher que não cobre a cabeça desonra a sua. O que significa desonrar a sua cabeça? Há, basicamente, três interpretações para esta afirmação. A primeira entende o termo “cabeça” de modo metafórico. Assim, o homem desonra sua cabeça, Jesus Cristo, enquanto a mulher desonra sua cabeça, o homem (isto é, seu marido, ou pai, ou, no caso de viúvas, os presbíteros etc.).
Em apoio a esta interpretação, Fee escreve: — “A ‘cabeça’ que seria envergonhada é a ‘cabeça’ metafórica do homem, Cristo. Vários elementos deixam isso claro: — [1] – O assíndeto[17] (ausência de partícula conjuntiva) vincula a frase de modo mais estreito possível ao versículo 3; [2] – Paulo usa o pronome pessoal ‘dele’ em vez do reflexivo ‘dele mesmo’; [3] – referir-se a si próprio dessa forma multiplicaria os usos metafóricos sem aviso prévio; [4] – caso contrário, a afirmação teológica precedente não teria lugar algum no argumento. Portanto, Paulo está afirmando que, se o homem ‘tivesse com a cabeça descoberta’ ao orar ou profetizar, traria vergonha a Cristo de alguma forma, ou ao menos à relação estabelecida pelo fato de Cristo ser a sua ‘cabeça’[18]”.
A segunda interpretação entende o termo “cabeça” de modo literal. Ou seja, o homem que cobre a cabeça desonra a si mesmo; a mulher que não a cobre desonra a si mesma. Charles Hodge prefere essa interpretação, fundamentando-se em três pontos: — “[1] – Na cláusula imediatamente anterior, a palavra é usada literalmente: — ‘Se ele cobrir a cabeça, desonra a sua cabeça’. [2] – Em 1 Coríntios 11:5, a mulher que se apresenta descoberta desonra a própria cabeça, ou seja, a si mesma, e não ao marido, conforme o contexto demonstra. [3] – É mais evidente que um homem que age contra sua posição desonra a si mesmo do que quem o colocou naquela posição. Por exemplo, um oficial militar de alta patente que aparecesse à frente de suas tropas trajando o uniforme de um soldado comum, em vez de sua vestimenta oficial, poderia ser mais propriamente acusado de desonrar a si mesmo do que ao seu soberano. Da mesma forma, para um homem livre apresentar-se com as vestes distintivas de um escravo era uma desonra. Assim, diz o Apóstolo, se o homem se apresenta com o sinal convencional de sujeição sobre a cabeça, desonra a si mesmo. Ora, se o homem foi designado para representar o domínio de Deus, deve portar-se conforme tal dignidade, e não aparecer com trajes femininos[19]”.
A terceira interpretação combina as duas anteriores. Em outras palavras, Paulo emprega deliberadamente o termo “cabeça” — ambiguamente neste contexto — porque deseja que os coríntios compreendam que a violação da ordem quanto à veste adequada no culto público traz não apenas desonra sobre si mesmo, mas também vergonha sobre aquele que é sua autoridade; isto é, sobre o Cabeça do homem ou da mulher. O homem, ao usar cobertura na cabeça durante o culto, envergonha-se ao vestir-se como mulher na assembleia, e desonra a Cristo ao ocultar a glória de Deus. A mulher, ao não usar cobertura, envergonha-se ao parecer-se com um homem, e desonra seu marido ao assumir postura que usurpa sua autoridade. “A mulher descoberta desonra a sua cabeça, porque é na cabeça que a indecência se manifesta. Além disso, ao reivindicar igualdade com o outro sexo, ela envergonha a cabeça de seu próprio sexo[20]”.
Isto é, a mulher sem véu desonra a sua cabeça, pois é justamente em sua cabeça que se torna visível a indecência de sua atitude. Além disso, ao reivindicar igualdade com o sexo masculino, ela desonra a autoridade própria do seu sexo, envergonhando tanto a si mesma quanto à ordem criada por Deus[21].
A terceira interpretação é a mais plausível, considerando que, imediatamente antes dos versículos 4 e 5, “cabeça” refere-se claramente à autoridade sobre o homem ou a mulher. Contudo, logo após esses versículos, torna-se evidente que a mulher sem cobertura envergonha a si mesma, pois é tida como se estivesse “tosquiada ou rapada”. Assim, a mulher que não usa véu desonra-se por apresentar-se de modo vergonhoso e traz desonra a seu marido ao usurpar-lhe a autoridade.
7 – Tosquiada ou rapada.
O argumento de Paulo em favor de uma cobertura de pano para as mulheres, nos versículos 5 e 6, baseia-se numa comparação entre estar descoberta no culto e ter a cabeça tosquiada ou rapada. O termo “tosquiada” [κείρω–keirō — tosquiar como ovelhas] refere-se ao corte de cabelo curto com tesoura ou lâmina. Já “rapada” [ξυράω–xuraō] refere-se ao corte com navalha. O ponto comum de ambos os termos é que a mulher assume uma aparência masculina.
Este argumento levanta a seguinte questão: — por que é vergonhoso para a mulher ter cabelo curto? Embora seja comum ouvir sermões que associam o cabelo curto ou rapado ao sinal de prostituição em Corinto, não há evidência literária ou arqueológica contemporânea que sustente tal interpretação[22]. Nas Escrituras, bem como em sociedades antigas e modernas (ao menos até tempos muito recentes), a cabeça tosquiada ou rapada, representa vergonha ou desonra. Em Isaías 7:20, o ato de raspar os cabelos é usado como figura de destruição de modo profundamente humilhante. Young comenta: — “Nenhuma afronta poderia ser maior do que esta. Uma teocracia tosquiada, desonrada, devastada […][23]”. Era prática comum entre as nações antigas tosquiar os cabelos dos povos vencidos. A cabeça rapada ou tosquiada era sinal de vergonha e humilhação. Mulheres escravizadas frequentemente tinham a cabeça raspada[24]. Recorde-se de que, no mundo antigo, a maioria dos escravos era adquirida por meio de conquistas militares. Nas culturas grega e romana dos dias de Paulo, a parceira “masculina” ou dominante em relações lésbicas frequentemente ostentava cabelo curto, como os homens. Essa prática perversa ainda é comum entre lésbicas em nossos dias[25].
Em ambas as culturas do Oriente Médio e da Europa, o ato de tosquiar os cabelos de uma mulher também está associado ao adultério. Vincent escreve: — “Entre os judeus, uma mulher condenada por adultério tinha os cabelos tosquiados, com a seguinte fórmula: — ‘Porque te desviaste dos costumes das filhas de Israel, que andam com a cabeça coberta, por isso te sobreveio aquilo que escolheste’. Segundo Tácito, entre os germanos, uma mulher adúltera era expulsa da casa do marido com a cabeça raspada; e o Código de Justiniano (ou Codex Justinianus[26]) prescrevia essa mesma penalidade para a mulher adúltera, caso o marido se recusasse a recebê-la de volta após o prazo de dois anos[27]”.
Durante a Segunda Guerra Mundial, mulheres francesas que mantiveram relações com soldados alemães tiveram suas cabeças raspadas como sinal de vergonha e desonra por seu comportamento indecoroso. Acerca dos gregos, Moffat acrescenta: — “Esta era uma repreensão bem conhecida entre as mulheres gregas. Uma das comédias de Menandro tratava da afronta feita a uma moça por um amante ciumento que lhe cortou os cabelos curtos — e a cena se passava em Corinto; uma mulher raspada era desonrada, mesmo que sua cabeça fosse raspada ou cortada contra sua vontade, e muito mais ainda se ela mesma cortasse seus cabelos curtos, imitando os homens[28]”.
É importante enfatizar que, embora o ato de raspar ou tosquiar os cabelos de uma mulher tenha sido considerado algo humilhante — trazendo vergonha sobre ela em praticamente todas as culturas ao longo da história —, o argumento do Apóstolo não se fundamenta na cultura nem no costume. O cabelo curto na mulher é vergonhoso porque transgride a ordem natural estabelecida por Deus. Tal afirmação torna-se evidente pela declaração imediatamente anterior do Apóstolo concernente à ordem de autoridade divinamente instituída (v. 3), bem como por outros argumentos fundamentados na prioridade da criação (v. 8, 9), e pelos versículos 14 e 15, onde se assevera que o cabelo curto na mulher é contrário à natureza. Quando Deus criou Adão (homem) e Eva (mulher), Ele os distinguiu de diversas maneiras. O cabelo longo na mulher e o cabelo curto no homem é uma dessas distinções naturais. Tal ponto será tratado com maior profundidade ao considerarmos 1 Coríntios 11:14, 15. Essa distinção também deve manifestar-se no vestuário das pessoas após a queda. O Senhor declara ser uma “abominação” que mulheres se vistam como homens e vice-versa. Deuteronômio 22:5 declara: — “Não haverá traje de homem na mulher, e nem vestirá o homem roupa de mulher; porque, qualquer que faz isto, abominação é ao Senhor teu Deus”.
8 – Seja tosquiada.
Após declarar que a mulher que comparece ao culto público sem cobertura na cabeça envergonha sua cabeça — pois a cabeça descoberta é tão vergonhosa quanto estar rapada — Paulo reforça seu argumento com duas sentenças condicionais que dizem essencialmente a mesma coisa sob duas perspectivas distintas. Primeiro, ele afirma que, se a mulher se recusa a usar cobertura na cabeça, então que corte todo o cabelo. Em outras palavras, se ela não vai usar a cobertura que é apropriada — o que é vergonhoso —, então que seja coerente e torne-se ainda mais vergonhosa, cortando o cabelo para parecer-se com um homem. Para parafrasear: — “Se estás disposta a envergonhar-te recusando-te a usar o sinal de submissão que é devido, então torna tua rebeldia — e a vergonha que a acompanha — explícita, evidente e ainda mais chocante, apresentando-te na Igreja como um homem”.
Em seguida, Paulo inverte o argumento com outra sentença condicional. Se é vergonhoso para a mulher ter os cabelos cortados (isto é, “tosquiados” ou “rapados”) — o que certamente o é —, então que cubra a sua cabeça. Note que, ao final do versículo 6, o Apóstolo emite o imperativo ou mandamento: — “que ponha o véu [que se cubra]”. O uso do imperativo significa que Paulo não está apenas oferecendo um conselho amigável ou sugerindo uma questão voluntária. O Apóstolo, sob inspiração divina, ordena que as mulheres usem uma cobertura de pano na cabeça durante o culto público.
Podemos não gostar do que Paulo tem a dizer. Pode não se encaixar em nossa cultura moderna “libertada”, onde as mulheres muitas vezes querem parecer e agir como os homens. Pode não ser popular nas Igrejas evangélicas e reformadas modernas, que tristemente são frequentemente influenciadas por nossa cultura pagã e degenerada. O que importa é que Deus nos revelou sua vontade sobre essa questão em sua Palavra autoritativa. Portanto, devemos nos submeter a ela, queiramos ou não; seja popular ou não. Trata-se de um mandamento divino.
Quando Paulo chega ao fim da seção que trata dos abusos no culto público (incluindo a questão das coberturas de cabeça, capítulos 11 — 14), ele sublinha seus ensinamentos lembrando aos coríntios de sua autoridade apostólica. Ele escreve: — “Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor” (1 Coríntios 14:37). “A contínua influência de Cristo pelo Espírito sobre as mentes de seus Apóstolos, o que é uma prerrogativa divina, é aqui assumida ou afirmada[29]”.
O argumento do Apóstolo, até aqui, está integralmente enraizado no modo como Deus ordenou todas as coisas desde a criação. A estrutura da autoridade divina e o apelo à própria natureza não devem — nem logicamente podem — ser interpretados como meros reflexos culturais ou costumes transitórios. Trata-se de um princípio criacional, enraizado na ordem eterna e imutável estabelecida por Deus.
9 – A glória do homem.
O principal argumento do Apóstolo baseia-se na posição do homem e da mulher na criação, no que diz respeito à glória. 1 Coríntios 11:7 diz: — “O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem”. Paulo afirma que o homem está moralmente obrigado a não cobrir a cabeça porque é a imagem e glória de Deus. “O verbo ὀφείλει–opheilei [deve], que aparece novamente no versículo 10, geralmente traz conotações morais, indicando algo que deve ou não deve ser feito[30]”. Por outro lado, a mulher está obrigada a usar o véu porque é a glória do homem[31].
Esta afirmação suscita a questão: — o que Paulo quer dizer com “imagem” e “glória”? O Apóstolo claramente remete ao relato da criação em Gênesis (cf. Gênesis 1:26 – 28; 2:18 – 24). No relato criacional, Gênesis 1:27, tanto o homem quanto a mulher são chamados imagem de Deus. Ambos portavam a semelhança do Criador; ambos foram criados com conhecimento, justiça e santidade. Contudo, há uma diferença entre homem e mulher. O homem é dito refletir a Deus de maneira única, que a mulher não possui. O homem é a glória de Deus em um sentido que a mulher não é. Como a Escritura distingue o homem da mulher? A resposta a esta questão é a chave para compreender o pensamento de Paulo. A principal diferença entre o homem e a mulher reside no papel ordenado do homem em exercer domínio sobre a terra. O homem reflete a Deus de modo distinto da mulher, pois detém o papel de liderança na família, na Igreja e no Estado. A mulher foi colocada por Deus em posição subordinada, em um papel de submissão ao homem. Essas diferentes funções são ilustradas no relato da criação (Gênesis 2:18 – 24), onde Adão é formado diretamente do pó da terra, e Eva é criada a partir do homem. Paulo até mesmo desenvolverá essa observação em 1 Coríntios 11:8, 9: — de Deus para o homem, do homem para a mulher. “Porque o homem não provém da mulher [mas de Deus], mas a mulher [não provém de Deus, mas] do homem” (1 Coríntios 11:8) — grifo do tradutor.
O termo “glória” não é mencionado no relato de Gênesis. Entretanto, o uso desse termo por Paulo neste contexto não é difícil de discernir. Como é que o homem é a glória de Deus? O homem é a glória de Deus não apenas porque é a coroa da criação divina, mas também porque reflete a majestade, o reinado e a soberania de Jeová como nenhuma outra criatura. Deus criou o homem diretamente do pó para governar toda a criação. Como cabeça do Pacto, ele tem a responsabilidade direta de liderança, de cumprir o mandato da dominação, de dirigir pactualmente as esferas da vida (por exemplo, a família, a Igreja, o Estado). O homem reflete o atributo divino da soberania de modo especial. Portanto, segundo o ensino inspirado de Paulo, se o homem cobre a cabeça no culto público, ele está simbolicamente negando seu lugar especial como imagem e glória de Deus. Por isso, é errado que o homem cubra a cabeça. “Por causa dessa alta dignidade, Paulo julga correto que não haja sinal algum de subordinação no homem quando ele adora[32]”.
A mulher, por outro lado, é a glória do homem. Foi tomada do homem para ser uma ajudadora idônea a ele. Ela é sua assistente especial na tarefa do domínio piedoso. Não reflete a glória de Deus como governante, mas reflete a glória do homem como soberano, pois serve sob sua autoridade. “Ela recebe e revela o que há de majestade nele. Ela sempre assume sua posição; torna-se rainha se ele é rei, e manifesta aos outros a riqueza e a honra que possam pertencer ao seu marido[33]”. Por isso, a mulher deve adorar com a cabeça coberta.
Embora tudo isso possa parecer algo esotérico às mentes modernas, já condicionadas — em certa medida — por nossa cultura perversa, que rejeita a estrutura de autoridade ordenada por Deus, trata-se, na realidade, de um argumento simples e belo. No culto público, a glória de Deus não deve ser encoberta. O homem cristão, redimido por Cristo e, assim, restaurado à sua devida posição como homem de domínio em Cristo, deve refletir publicamente a glória de Deus durante o culto. A mulher cristã, por sua vez, deve demonstrar sua fé em Cristo e sua restauração à tarefa que Deus lhe confiou sob a autoridade do marido, cobrindo a sua cabeça no culto público.
A glória de Deus deve ser manifesta durante o culto, enquanto a glória do homem é coberta. O argumento de Paulo aqui torna claro que a questão do véu não é simplesmente uma questão de cultura ou costume. A cabeça descoberta do homem e a cabeça coberta da mulher refletem a relação horizontal entre homem e mulher estabelecida na criação, bem como a relação vertical entre o homem e a mulher redimidos e Deus durante o culto público. A restauração da relação do homem e da mulher com a criação, entre si e com Deus está em exibição nas assembleias cristãs. É algo que os anjos de Deus podem observar e do qual podem aprender.
10 – Cabeça pactual ou ordenança da criação.
O Apóstolo sustenta o argumento precedente mencionando dois fatos históricos registrados na narrativa da criação de Adão e Eva. Este versículo não apenas reforça o argumento paulino quanto à glória no versículo 7, mas também a afirmação inicial no versículo 3: — “o cabeça da mulher é o homem”. Primeiramente, Eva teve sua origem a partir de Adão. “Adão não foi de modo algum derivado (ek) de uma mulher; foi criado diretamente por Deus. O contrário é verdadeiro quanto à mulher. Eva foi derivada (ek) de Adão: — ‘osso dos meus ossos e carne da minha carne’”. Paulo faz declaração semelhante sobre a criação de Adão e Eva para provar a subordinação da mulher ao homem em 1 Timóteo 2:12, 13: — “Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva”. O Apóstolo inspirado afirma que o método divino na criação de Adão e Eva serve a um propósito distinto. Deus estava instituindo Adão e Eva como arquétipos do homem e da mulher para todas as gerações posteriores. Adão foi criado primeiro por ser o líder, o cabeça pactual da mulher. Eva foi formada a partir de Adão para estar a seu lado como adjutora idônea. Matthew Henry esclarece que tal distinção não implica inferioridade da mulher, mas aponta para uma diferença de propósito divinamente ordenada: — “Embora o homem tenha sido criado por último entre as criaturas, como o mais excelente e sublime de todas, o fato de Eva ter sido formada depois de Adão, e dele retirada, confere honra especial à mulher, como a glória do homem, conforme 1 Coríntios 11:7. Se o homem é a cabeça, ela é a coroa — a coroa de seu marido, a coroa da criação visível. O homem foi feito do pó refinado, mas a mulher, do pó duplamente refinado, afastada ainda mais da terra[34]”. O homem foi criado primeiro como imagem da glória divina; a mulher, por sua vez, foi formada depois, a partir do homem, tornando-se, assim, o reflexo do próprio reflexo daquela glória original.
Em segundo lugar, Paulo refere-se ao propósito da mulher. Eva foi criada para Adão, como sua auxiliadora adequada. “[Ela] foi criada por causa dele, e não ele por causa dela[35]”. “Ela foi, portanto, naturalmente feita para estar sujeita a ele, pois foi criada para ele, para seu auxílio, ajuda e consolo. E aquela que foi destinada a estar sempre em submissão ao homem não deve fazer nada nas assembleias cristãs que pareça uma pretensão de igualdade[36]”. Deus poderia ter criado Adão e Eva simultaneamente e do mesmo modo. Porém, criou Adão primeiro e então tirou Eva dele para nos ensinar sobre a autoridade e a liderança pactual no matrimônio. Paulo nos mostra que a relação entre homem e mulher — onde a esposa é subordinada ao marido e a mulher é a glória do homem — funda-se em uma ordenança da criação. Essas realidades são perpétuas e devem ser refletidas no culto público. As orientações do Apóstolo quanto ao uso do véu na adoração não se apoiam em costumes, culturas ou circunstâncias passageiras, mas em dois fatos originários da criação de Adão e Eva. Por isso, o ensino paulino sobre o véu não pode ser relativizado por apelos culturais, como se ele estivesse preocupado apenas em não ofender os princípios pagãos gregos sobre a moda feminina.
11 – Por causa dos anjos.
Paulo, no versículo 10, dá uma razão adicional para as coberturas de cabeça: — “Portanto, a mulher deve ter sobre a cabeça sinal de poderio, por causa dos anjos”. Esse versículo levanta duas perguntas. O que Paulo quer dizer com “poderio [autoridade]”? (grego, “ἐξουσία–exousia” — poder, autoridade) e o que o termo “anjos” se refere? O termo poderio ou autoridade refere-se à cobertura de pano na cabeça de uma mulher, que é um sinal de que ela está sob a autoridade de seu marido. Poole escreve: — “A coisa significada aqui é posta pelo sinal, assim como o sinal é frequentemente posto pela coisa significada. Assim, a arca, que é chamada de arca da força de Deus em Salmos 132:8, é por sua vez chamada de sua força em 1 Crônicas 16:11[37]”. O Apóstolo argumenta que a mulher deve ter sobre a cabeça um símbolo que denote a autoridade de seu cabeça no Pacto. O véu indica que ela submete-se com alegria e boa vontade à autoridade do homem que Deus lhe pôs por cabeça. Ela reconhece sua chefia. Curiosamente, tem sido a experiência deste escritor que as mulheres compreendem, de fato, o simbolismo do uso do véu. Esse entendimento, porém, costuma manifestar-se em ódio e desprezo pelo sinal da submissão. A razão da veemente oposição ao uso do véu não é o ódio natural a chapéus ou mantilhas, mas sim a oposição pecaminosa ao que o tecido simboliza — a subordinação da mulher. Não encontramos o espírito moderno do feminismo na piedosa Rebeca, que cobre a cabeça com seu véu na presença de Isaque como sinal de sujeição (Gênesis 24:65[38]).
A segunda palavra que precisa ser definida é “anjos”. Existem apenas duas interpretações plausíveis para esse termo neste contexto particular. Uma possibilidade é que Paulo o utilize para se referir a ministros e oficiais da igreja, que por vezes são identificados como anjos nas Escrituras (por exemplo, Apocalipse 2:1, 8, 8, 12, 3:1; 3:1, 7, 14). A interpretação mais sólida e comum é que o Apóstolo se refere aos anjos de Deus (isto é, os santos anjos), que são espíritos ministradores para o benefício dos eleitos de Deus. A Bíblia afirma repetidamente que os anjos se preocupam e agem em favor da Igreja de Cristo. Lucas nos informa (15:7, 10) que os anjos no céu celebram a conversão de todo pecador. Godet diz: — “Segundo Efésios 3:10, os santos anjos contemplam, com reverente adoração, as multiformes maravilhas operadas pelo Espírito de Deus na Igreja; conforme 1 Timóteo 5:21, eles são, juntamente com Deus e Cristo Jesus, testemunhas do ministério dos servos do Senhor; e, nesta mesma Epístola (4:9), formam, com os homens, aquele universo racional que assiste às lutas e padecimentos apostólicos. Por que, então, não estariam invisivelmente presentes nas assembleias solenes da Igreja, onde se manifestam tantas obras da graça? Como poderia uma conduta contrária à ordem divina — atentando contra o decoro sagrado, do qual os anjos são puros representantes — deixar de entristecê-los? E como não haveria tal dor e vergonha, sentidas por esses celestes espectadores, de lançar uma sombra sobre a serenidade do culto? Em Cristo, céus e terra se unem (João 1:52)[39]”.
Em Isaías 6:2, somos informados de que os anjos “se cobrem” ou “se velam” enquanto adoram. Também foram testemunhas da criação original do mundo (Jó 38:7), ocasião em que se estabeleceu a ordenança criacional da liderança pactual. Embora Paulo não explique em detalhes como ou por que os anjos compreenderiam que mulheres adorando com a cabeça descoberta é algo chocante e desordenado, todo o seu argumento pressupõe que assim o seja. Surge, então, a seguinte indagação: — se a questão do véu fosse meramente uma convenção cultural, faria algum sentido o argumento baseado nos anjos? Acaso os anjos se escandalizariam com a falta de elegância ou com o desrespeito a conceitos gregos, ou romanos de vestimenta apropriada? Certamente que não! Mais uma vez se percebe que Paulo não apela a normas culturais nem a circunstâncias passageiras.
Após tratar com notável minúcia da liderança pactual do homem e da subordinação da mulher — especialmente à luz da criação —, o Apóstolo interrompe-se para considerar a interdependência mútua entre o homem e a mulher. Ele escreve: — “Todavia, nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor. Porque, como a mulher provém do homem, assim também o homem provém da mulher, mas tudo vem de Deus” (1 Coríntios 11:11, 12). Por que Paulo se detém para afirmar o que é evidente — que a mulher veio do homem (Adão) e que, desde a criação, todos os homens nascem de mulher? Após declarar que a mulher é a glória do homem e foi criada por causa dele, o Apóstolo deseja evitar qualquer impressão de que a mulher exista como escrava do homem, ou que seja inferior a ele. “O que Paulo vinha dizendo poderia ser facilmente compreendido como uma subordinação indevida da mulher. Longe disso estava o seu pensamento. Há uma parceria entre os sexos, e no Senhor, um não existe sem o outro[40]”. Deus estabeleceu a estrutura de autoridade da forma como o fez, não para que os homens dominem sobre as mulheres, mas para que possam servir mais eficazmente a Cristo e cumprir o mandato cultural. “O único objetivo do Apóstolo é mostrar a verdadeira natureza e os limites da subordinação da mulher ao homem[41]”. Dado o grande abuso que as mulheres têm sofrido nas mãos de homens pagãos, e o fato de que até mesmo homens cristãos ainda lutam com suas naturezas pecaminosas, a admoestação de Paulo torna-se necessária. “A subordinação da esposa ao seu marido é santamente moderada em Cristo pela unidade da vida espiritual da qual ambos participam no Senhor[42]”.
12 – Um apelo à consciência cristã.
Após ressaltar a mútua dependência entre homem e mulher no Senhor, o Apóstolo Paulo dirige-se à consciência cristã: — “Julgai entre vós mesmos: — é decente que a mulher ore a Deus descoberta?” (v. 13). O que quer dizer Paulo com “julgai entre vós mesmos”? Acaso pretende ele afirmar que o uso do véu é mera questão de opinião pessoal ou juízo autônomo? De modo algum. Antes, trata-se de um apelo à consciência cristã — aquela que é moldada e instruída pela revelação divina nas Escrituras e pela ordem natural estabelecida por Deus na criação. Paulo acabara de expor doutrina inspirada pelo Espírito acerca da ordem de autoridade divinamente instituída, bem como do desígnio da criação. Ficara evidente que os fatos criacionais — como a forma e o propósito da criação de Adão e Eva — ensinam que é impróprio à mulher comparecer ao culto público com a cabeça descoberta. Tal impropriedade será reiterada no versículo seguinte, quando o Apóstolo volta a apelar à própria natureza, isto é, à ordem natural estabelecida por Deus desde o princípio.
Que Paulo não apela à consciência humana como um padrão independente, fica evidente pela própria forma da pergunta. A interrogação do Apóstolo é retórica e formulada de modo a exigir uma resposta negativa. Assim, Paulo não interrompe seu ensinamento sobre a cobertura da cabeça para perguntar: — “O que pensais disto?”; antes, ele afirma: — “Sabeis que é indecente, vergonhoso e errado que a mulher adore na assembleia pública com a cabeça descoberta”. A pergunta retórica serve para enfatizar que todo aquele cujo juízo se submete à palavra de Deus deve reconhecer essa verdade.
13 – O apelo de Paulo à ordem natural.
A fim de sustentar a pergunta retórica anterior, Paulo apela para a natureza, afirmando: — “Ou não vos ensina a mesma natureza que é desonra para o homem ter cabelo crescido? Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu” (v. 14, 15). A questão fulcral que emerge dessa exortação é: — qual o significado do termo “natureza”? A compreensão desse conceito exercerá influência decisiva sobre a aplicabilidade deste texto para a Igreja contemporânea. Dada a importância da palavra, procederemos à análise das interpretações mais correntes, antes de expor aquilo que julgamos ser o sentido bíblico autêntico.
Uma compreensão comum deste texto é que Paulo estaria simplesmente adotando a Filosofia grega vigente, que identificava costumes culturais como extensões da Lei Natural. Porém, essa interpretação enfrenta sérios entraves que comprometem sua validade.
Primeiramente, ignora-se o fato de que Paulo não apenas escreveu sob inspiração divina, mas também condenou a Filosofia humana em outra Epístola (cf. Colossenses 2:2 – 10, 20 – 23). Evidentemente, ele não considerava a opinião dos homens pecadores como parâmetro para estabelecer ordenanças eclesiásticas (para a Igreja).
Em segundo lugar, essa interpretação retrata Paulo como um pragmatista, preocupado não com a defesa de princípios universais decorrentes da ordem criada por Deus, mas com a simples evitação de críticas sociais. Em outras palavras, o Apóstolo estaria buscando adequar o culto público à cultura grega e romana para não ofender os pagãos, pois tal ofensa cultural poderia dificultar a propagação do Evangelho e perturbar a paz da Igreja.
Em terceiro lugar, o exemplo usado por Paulo — homens com cabelo curto e mulheres com cabelo longo — não era uma prática universal em sua época (este ponto será analisado com maior profundidade adiante). De fato, nunca houve na história um tempo em que o cabelo curto nos homens fosse um costume universal. Se Paulo estivesse, de alguma forma, acomodando meramente a cultura, então: — [1] – a universalidade do argumento paulino se desfaz; [2] – poder-se-ia esperar que ele estabelecesse regras relativas à cobertura da cabeça conforme o costume regional (por exemplo, nas regiões germânicas, um costume distinto poderia prevalecer em relação ao culto público, em contraste com as áreas gregas); [3] – o Apóstolo não poderia afirmar que a prática de participar do culto público sem cobertura da cabeça não era aceita em nenhuma Igreja cristã (1 Coríntios 11:16[43]).
Em quarto lugar, a ideia de que Paulo estaria simplesmente seguindo as práticas culturais de seu tempo — em vez de fundamentar seu argumento em algo universal e transcultural, inerente à criação — reduz o Apóstolo a um relativista cultural no que concerne ao culto público. Aceitar tal interpretação implica que esta passagem sobre a cobertura da cabeça perderia sua aplicação direta nos dias atuais, pois na cultura ocidental moderna praticamente tudo é tolerado. Há mulheres de cabelo curto em quase todas as profissões, algumas até com cortes “moicano” ou cabeça raspada. Ademais, o cabelo comprido nos homens tem sido aceito desde os anos 1960, ainda que não esteja mais na moda. Aqueles que rejeitam o uso do véu com base no argumento cultural devem responder às seguintes indagações: — se um dia quase todas as mulheres adotarem cabelo curto por ser considerado feminino e elegante na sociedade, será que as Igrejas deveriam exigir o cabelo curto para evitar conflito com o costume vigente? E quanto aos missionários que atuam em culturas estranhas? Se certa cultura considera um disco labial feminino como símbolo de submissão, as autoridades eclesiásticas deveriam impor seu uso no culto público? A resposta a essas perguntas é clara. Uma vez que se vincula o mandamento do Apóstolo a convenções culturais, todo o texto passa a ser determinado pela cultura. Para o cristão, a cultura deve estar submetida à Lei de Deus revelada nas Escrituras, jamais o contrário.
14 – O argumento cultural.
Outra visão — que guarda certa afinidade com a anterior — admite que Paulo, ao longo do capítulo 11, de fato apela para a ordem criada por Deus, mas sustenta que a manifestação cultural dessa ordem para homens e mulheres não é fixa nem imutável. Em outras palavras, o véu de tecido seria uma expressão cultural de uma verdade universal, exigida apenas nas culturas que reconhecem o véu como símbolo da submissão da esposa ao marido ou, mais amplamente, da subordinação da mulher ao homem. O cerne deste argumento é que os véus eram necessários na cultura paulina, mas não o seriam em nossa cultura atual, visto que seu uso e significado teriam se perdido. Essa interpretação é muito comum entre estudiosos evangélicos contemporâneos. Embora supere a visão anterior — que via Paulo como mero repetidor da Filosofia grega —, ainda assim padece de muitos dos mesmos problemas. Observemos, pois, algumas objeções a essa interpretação.
Primeiramente, essa visão parte da premissa não comprovada, nem historicamente, nem textualmente, de que Paulo estaria reforçando um costume grego. Seria, pois, prática universal entre as mulheres gregas ou romanas o uso público do véu, como supõe a argumentação cultural? Se se provar que tal costume não era comum entre gregas e romanas, nem em contextos públicos, nem em rituais religiosos, toda a argumentação cultural desmorona. Após um estudo exaustivo sobre as práticas dominantes referentes à cobertura da cabeça na época de Paulo, o estudioso alemão Oepke conclui, em essência, que o Apóstolo estava impondo um costume bíblico aos gregos, em desacordo com seus hábitos costumeiros. Observe as conclusões deste estudo, onde se lê: — “Antes se afirmava entre os teólogos que Paulo simplesmente estava endossando a lei não escrita do sentimento helênico e helenístico sobre o que era apropriado. Contudo, essa visão é insustentável. De fato, o véu não era desconhecido na Grécia. Era usado em parte como adorno e em parte em ocasiões especiais, como em encontros para casamento, no luto (cf. também Penélope) e no culto às divindades ctônicas (na forma de uma veste lançada sobre a cabeça). Mas é totalmente errado dizer que as mulheres gregas eram obrigadas a usar véu em público. Plutarco pode parecer sugerir isso […]. Mas a primeira passagem refere-se ao costume romano, sobre o qual Plutarco talvez não estivesse bem informado, e a segunda reflete costumes lacônicos especiais. As passagens contrárias são tantas e tão inequívocas que não podem ser anuladas por duas afirmações do sábio de Chairóneia que não são categóricas e que talvez tenham sido motivadas por uma tendência especial. A inscrição dos mistérios de Andânia (Ditt. Syll., 736), que dá uma descrição exata das mulheres participando da procissão, não menciona o véu. De fato, a ordem cultual de Lycosura parece proibi-lo. Imperatrizes e deusas, mesmo as que mantêm sua dignidade, como Hera e Deméter, são retratadas sem véu, enquanto as hetairas às vezes usam capuzes. Helena aparece diante de Paris com a parte superior do corpo descoberta, mas com véu. Na época de Tertuliano, as judias eram proeminentes nas ruas do Norte da África porque usavam véus (De Corona, 4, ed. F. Oehler, I [1853], 424 ff.; De Oratione, 22 [CSEL, 20, 193]). Portanto, o uso do véu não era um costume geral; era judaico. Se o uso do véu pelas mulheres judias era comum no Ocidente, podemos presumir que era uma regra aceita no Oriente. O judeu considerava típico das mulheres gentias andarem descobertas (Nu. r., 9 on 5:18, Str.–B., III, 429). Contudo, embora o costume fosse aplicado com particular rigor pelos judeus, era mais oriental do que distintamente judaico. A cidade natal de Paulo, Tarso, é uma fronteira. Evidências do uso do véu em Tarso são fornecidas por Dião Crisóstomo (Or., 33, 46) e moedas com a imagem de Tyche de Tarso. Há exceções, mas Tarso é mais rigoroso do que o restante da Ásia Menor. Em geral, pode-se dizer que a etiqueta quanto ao véu se torna mais rigorosa quanto mais se avança para o Oriente. Essa regra é claramente confirmada pelas disposições de um antigo código assírio: — mulheres casadas e viúvas devem usar véu em locais públicos. Por outro lado, a cabeça da prostituta, aqui equiparada à escrava, deve permanecer descoberta sob ameaça de severas penalidades. Quando um homem desejava tornar legítima uma esposa, exigia-se um ato especial de velamento. Paulo, portanto, estava tentando introduzir nas congregações em solo grego um costume que correspondia à sensibilidade oriental e especialmente judaica, e não grega. Em princípio, a exigência deveria se estender a todas as mulheres em todas as situações. Na prática, porém, Paulo aplica isso às mulheres casadas nas Igrejas e, num primeiro momento, restringe-o à esfera da vida que está diretamente sob a jurisdição da congregação, isto é, o culto divino[44]”.
McKnight observa que William Ramsay, reconhecido especialista na cultura grega do tempo de Paulo, está de acordo: — “Historicamente, o uso de cobertura na cabeça era um costume comumente observado em público por mulheres de origem judaica, mas não pelas gregas. A cobertura usada pelas judias, segundo muitos comentaristas, era provavelmente uma grande peça de tecido — como um xale ou manto — um artigo comum de vestuário que podia servir como véu sempre que se mostrasse apropriado. Quanto à diferença entre os costumes gregos e judaicos, Dião Crisóstomo (escrevendo em 110 d.C.) observou que não havia nada de verdadeiramente ‘grego’ nos habitantes de Tarso (cidade grega de Paulo); contudo, encontrou algo digno de louvor: — agradou-lhe sobremaneira o modo extremamente modesto de vestir das mulheres de Tarso, que saíam sempre com o rosto profundamente velado. ‘E isso apesar do fato de tal prática ser totalmente distinta dos costumes gregos’ (The Cities of St. Paul, William Ramsay, p. 202). Em outras palavras, o uso de cobertura na cabeça não era o costume em outras cidades, e especialmente não nas cidades de tradição grega[45]”.
Se fosse de fato costume das mulheres gregas ou romanas usarem coberturas sobre a cabeça em público ou em seus ritos religiosos, então o argumento cultural poderia ser compreensível. Contudo, o ensino do Apóstolo Paulo contrasta diretamente com as práticas greco–romanas daquela época[46]. O Apóstolo não estava honrando a prática grega, tampouco instruindo que as mulheres usassem véus no culto público por receio de ofender os costumes daquela sociedade. Ao contrário, o ensino inspirado de Paulo — se considerado dentro do contexto cultural vigente — teria sido ofensivo à sensibilidade grega, sendo visto como uma prática distintamente judaica ou oriental. É claro, pois, que Paulo impôs uma prática bíblica sobre uma cultura pagã. A ideia de que ele estaria apenas seguindo costumes helênicos, em vez de dirigi-los com autoridade apostólica, carece de qualquer fundamento sólido. Isso significa, portanto, que as culturas modernas — americanas, europeias, africanas ou asiáticas — devem submeter-se às diretrizes de 1 Coríntios 11, independentemente de sua aceitabilidade cultural. A Escritura é a norma reguladora da cultura, não o contrário. Ademais, a experiência deste autor testifica que as mulheres modernas, inclusive nos Estados Unidos, compreendem intuitivamente o significado simbólico e teológico da cobertura da cabeça. Tal compreensão é uma das razões pelas quais o véu é tão fortemente odiado e combatido por feministas de todas as vertentes.
Segundo, o exemplo dado por Paulo — de que o cabelo comprido em homens é contrário à natureza — não seria aceito por muitos gregos. Como observa Moffat: — “Seus ouvintes gregos devem ter acolhido com simpatia um apelo à natureza. Mas ficariam surpresos ao serem questionados se o cabelo longo não era vergonhoso para os homens. E os heróis espartanos de longas madeixas nos tempos antigos? E os filósofos contemporâneos, que usavam cabelos longos como sinal de ascetismo, ou para demonstrar desprezo pelo mundo? Ora, ‘o grego usa cabelo longo porque é grego, e não bárbaro’, como protestava o moralista Apolônio (Epist. viii.). Paulo, porém, considerava isso efeminado, e louvava as tranças femininas (1 Pedro 3:3) não apenas como glória, ou ornamento, mas como uma espécie de cobertura. A implicação é que, assim como a natureza deu à mulher um véu de cabelo, ela está destinada, não, é claro, a considerar isso como substituto de uma cobertura adicional, mas a usar um véu quando ora a Deus em companhia de homens, sendo a natureza considerada como fornecendo a norma até mesmo para tal vestimenta[47]”.
Ao tratar dos estilos capilares antigos, Aune escreve: — “O cabelo comprido era frequentemente considerado pelos gregos como sinal de afeminamento no homem (H. Herter, “Effeminatus”, RAC 4:629) ou de laxismo moral na mulher (Ps. Phocylides 212). Contudo, as modas mudam: — os homens gregos, em tempos, apreciavam cabelos longos (Herodotus 1.82; Plutarch Lysander 1; co. Plato Phaedo 89 B–C), embora, no século V a.C., apenas os espartanos mantivessem esse costume (Aristophanes Aves 1281–82; Philostratus Vita Apoll. 8.7). Os romanos usavam cabelo comprido até o século III a.C., depois do qual consideravam o cabelo longo bárbaro ou antiquado (Juvenal 5.30). Os gauleses usavam cabelos compridos, e por isso a Gália Setentrional era chamada ‘Gallia Comata’ — ‘Gália dos cabelos longos’. Apollonius de Tyana, seguindo a prática dos filósofos, mantinha os cabelos desgrenhados (Philostratus Vita Apoll. 8.7). Guerreiros partas ostentavam cabelos longos (Plutarch Crassus 24.2), e muitos intérpretes entendem o exército demoníaco de gafanhotos como uma imagem mito–poética da ameaça parta (veja Excursus 16A: Rome and Parthia)[48]”.
O ensino de Paulo de que o cabelo comprido no homem é vergonhoso não foi universalmente aceito no mundo antigo, tampouco o é nos dias atuais.
A única posição coerente, tanto no contexto amplo quanto no específico do texto, é que a “natureza” refere-se à ordem criada por Deus, e que as distinções entre os sexos, instituídas no princípio, são universais e obrigatórias. Assim, o uso do véu pelas mulheres no culto público não repousa em costumes locais ou temporais, mas na própria criação. Tal interpretação é inevitável por diversas razões. Em primeiro lugar, o termo grego “φύσις–phusis” (“natureza”) nas Escrituras jamais designa costumes culturais relativos, mas princípios morais estabelecidos na criação. Paulo afirma: — “Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza [phusis]” (Romanos 1:26). O comportamento homossexual, diz o Apóstolo, é contra a natureza, isto é, contra a ordem original de Deus no ato criador. O conceito da Lei natural nas Escrituras não é opinião humana sobre o mundo pós–queda, tampouco princípio extraído fora da revelação escrita; e, obviamente, jamais contraria a Escritura. Lei natural e Lei escrita ensinam a mesma verdade. Paulo parte do pressuposto de que as diferenças visíveis entre homem e mulher são fatos evidentes da ordem criada, não porque fossem opinião dos gregos ou romanos, mas porque assim o declara a infalível palavra de Deus. O Senhor condena o uso de vestes transvestidas, o estilo unissex ou a inversão de papéis homossexuais como “abominação” (Deuteronômio 22:5) — uma afronta perversa contra a ordem divina. Do mesmo modo, a inversão voluntária dos penteados é igualmente abominável.
Quando Paulo formula a pergunta histórica sobre a “natureza” ensinar que o cabelo longo no homem é desonroso (note-se que o Apóstolo emprega o mesmo termo grego — “ἀτιμία–atimía” — em Romanos 1:26 para descrever a vileza do comportamento homossexual), ele está refletindo o ensino da Lei de Deus. Sabemos que o cabelo longo nos homens não era aceitável na era da Antiga Aliança por meio de um exemplo histórico. Quando Deus quis distinguir os nazireus dos demais homens israelitas, ordenou que deixassem crescer os cabelos (Números 6:5). O nazireu era imediatamente reconhecido em Israel como um homem que vivia em separação singular para com Deus, por seus cabelos mais longos do que o comum[49]. Quando o Senhor deseja enfatizar a natureza aterradora e perversa das bestas que saem do abismo, está escrito: — “[…] tinham cabelos como cabelos de mulheres, e os seus dentes eram como de leões” (Apocalipse 9:8). O cabelo longo dessas bestas serve para acentuar sua malignidade, perversão e oposição à ordem natural.
Em segundo lugar, se se admitir a interpretação de que, ao falar de “natureza”, Paulo está se referindo aos costumes gregos e romanos — e que, sendo os costumes mutáveis, os imperativos do Apóstolo acerca do véu podem ser descartados ou reinterpretados de forma completamente distinta —, então se está definindo a Lei natural de modo relativista. Tal concepção é inteiramente contrária às Escrituras, que ensinam que Deus tem uma só Lei, um único padrão ético, comunicado ao homem de duas maneiras: — por meio da Escritura e por meio da natureza (Salmos 19, cf. v. 2, 3, 8, 9). É por isso que as nações pagãs são frequentemente condenadas por Deus por transgredirem os preceitos éticos revelados em sua Lei (inclusive os casos morais), ainda que não possuíssem a revelação escrita. A revelação natural da Lei de Deus jamais deve ser contraposta à sua revelação especial. Tampouco deve ser tratada como uma norma relativista, sujeita às mutações das concepções humanas corrompidas do que é certo ou errado. Compreendendo-se, pois, o modo pelo qual a Escritura define a natureza em relação à conduta cristã, todas as tentativas de relegar o uso do véu à categoria do lava–pés ou da saudação oriental (como “saudai-vos uns aos outros com ósculo santo”) caem por terra.
Em terceiro lugar, o apelo de Paulo à natureza como realidade da ordem criada por Deus harmoniza-se perfeitamente com o contexto imediato. O Apóstolo já tratara da ordem de autoridade instituída por Deus (1 Coríntios 11:3), da ignomínia de a mulher estar descoberta no culto (v. 6), da criação do homem e da mulher com seus respectivos propósitos (v. 7 – 9), bem como da consideração devida à presença dos anjos (v. 10). O recurso à natureza — conforme definida biblicamente — resume, reforça e culmina todos os argumentos anteriores fundamentados na realidade da criação, isto é, naquilo que Deus estabeleceu desde o princípio. A razão pela qual a mulher foi criada com forma e aparência distintas — como os longos e formosos cabelos, seu véu natural — é que ela possui um chamado singular da parte de Deus. Tal vocação deve manifestar-se no culto público por meio do uso do véu. A ideia de que Paulo define natureza como costume mutável e arbitrário mina, em vez de sustentar, os argumentos precedentes do Apóstolo baseados na criação e em sua ordem. Algo que está sujeito a mudanças e que pode ter significações distintas conforme tempo e lugar não pode servir de fundamento para a conduta no culto público. Este ponto é tristemente confirmado por muitas Igrejas evangélicas e reformadas contemporâneas, que, valendo-se do argumento do costume, ignoram ou anulam o ensino paulino ao longo de todo o capítulo. Em outras palavras, um argumento decisivo a favor do uso do véu, conforme exposto pelo Apóstolo, tem sido pervertido em argumento contrário.
15 – O apelo à prática universal da Igreja.
Paulo conclui sua discussão sobre o uso do véu no culto público com um apelo à autoridade apostólica e à prática universal da Igreja: — “Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem as Igrejas de Deus” (1 Coríntios 11:16). Há diversos pontos importantes a serem observados a respeito deste versículo.
A discussão de Paulo acerca do uso do véu começa e termina com um apelo à autoridade apostólica (v. 2, 16). Embora o Apóstolo fundamente o uso do véu com argumentos cuidadosos, extraídos tanto da revelação geral quanto da especial, ele relembra aos coríntios sua autoridade singular como Apóstolo inspirado. Com efeito, Paulo enfatiza essa autoridade apostólica ao empregar o pronome “nós” — “nós não temos tal costume”. No contexto, o “nós” refere-se a todos os Apóstolos. Os ensinamentos inspirados e autoritativos do Apóstolo, os quais foram inscritos para nosso proveito, são fundamentais para a Igreja e vinculantes para todos os tempos (Efésios 2:20). O apelo de Paulo à autoridade apostólica visa encerrar completamente qualquer debate adicional sobre o uso do véu. Em essência, o Apóstolo declara: — “Vede, se alguém quiser contender quanto a este assunto (isto é, contra o uso do véu no culto público), saiba que não está apenas contradizendo a mim, mas a todos os Apóstolos. Estamos unânimes neste ponto — e não apenas nós, mas todas as Igrejas de Jesus Cristo”. Hodge comenta: — “Com tais pessoas [isto é, os contenciosos perturbadores], todo argumento é inútil. A autoridade é o único fim da controvérsia com tais perturbadores da paz. A autoridade aqui invocada é a dos Apóstolos e das Igrejas. A primeira é decisiva, porque os Apóstolos foram investidos de autoridade não apenas para ensinar o Evangelho, mas também para organizar a Igreja e decidir tudo quanto diz respeito às ordenanças e ao culto cristão. A autoridade das Igrejas, embora não coercitiva, é, todavia, grande. Ninguém está justificado — salvo por fundamentos claramente escriturísticos e por necessidade de obedecer a Deus antes que aos homens — a afastar-se dos usos estabelecidos da Igreja em matérias de interesse público[50]”.
Qualquer pessoa podia adentrar uma Igreja cristã do primeiro século, fosse na Ásia Menor, na Palestina, na Grécia ou em Roma, e ali observar uma lição viva sobre a liderança pactual e a família cristã. Tristemente, o contrário se verifica em nossos dias. A decadência moderna pode ser observada na maioria das Igrejas a cada santo dia do Senhor, pois a ordem apostólica raramente é obedecida. O feminismo e uma exegese negligente e aduladora dos homens contribuíram para a disseminada desobediência à autoridade apostólica nos tempos atuais. O único remédio para tamanha rebelião contra este imperativo bíblico (cf. 1 Coríntios 11:6b) é o arrependimento.
Note-se também que, ao contrário das Igrejas reformadas modernas, que ensinam e praticam a diversidade quanto a esta questão, Paulo exige uniformidade de doutrina e prática. O Apóstolo declara que, se alguém se mostrar contencioso (isto é, inclinado a disputas ou argumentações dissensiosas) acerca deste assunto, deve cessar tal atitude e submeter-se à autoridade apostólica e à prática universal da Igreja. Paulo reconhece que há pessoas na Igreja que discordam de seu ensino sobre o uso do véu. Ele admite que alguns podem até se indignar com sua doutrina. Todavia, esse reconhecimento não o conduz a agir como um burocrata eclesiástico moderno, sem firmeza, que procura agradar a todos em questões controversas. Pelo contrário, Paulo apoia-se na verdade inspirada de sua argumentação e exige uniformidade de doutrina e prática neste ponto. A verdadeira unidade bíblica se edifica sobre o ensino das Escrituras. Uma unidade duradoura somente se alcança quando os crentes se submetem à autoridade da palavra de Deus.
A ideia moderna de que a unidade se alcança por meio do compromisso, permitindo práticas e doutrinas mutuamente contraditórias na Igreja, é rejeitada por Paulo. O Apóstolo inspirado sabe que seus argumentos em favor do uso do véu no culto não se baseiam em costumes contemporâneos, mas na verdade bíblica e em realidades criacionais que perdurarão enquanto durar a presente dispensação terrena. A liderança pactual do marido sobre sua esposa, bem como o propósito da mulher, permanecem os mesmos hoje como eram quando Paulo escreveu este capítulo (1 Coríntios 11:7, 8, 9). O belo cabelo da mulher ainda lhe é dado como véu natural, como sua glória, assim como no passado (1 Coríntios 11:14, 15). A ordem divina de autoridade, do Pai para Cristo, e do homem para a mulher, evidentemente, jamais foi revogada (1 Coríntios 11:3). Os anjos de Deus ainda observam o culto público do Senhor, como o faziam no primeiro século (1 Coríntios 11:10). Quando consideramos a argumentação cuidadosa do Apóstolo, seu raciocínio brilhante, analogias sublimes e autoridade como mestre inspirado, podemos compreender seu dogmatismo e recusa em ceder neste ponto. Para Paulo, permitir diversidade de ensino ou prática nesse assunto seria admitir que toda a sua argumentação estava errada. Para os eclesiásticos modernos, permitir diversidade de prática nesse ponto é, implicitamente, negar a perspicuidade da Escritura e a autoridade apostólica. Crentes modernos que professam crer na inspiração e autoridade da Escritura, mas que querem contender com o Apóstolo Paulo acerca de seu ensino sobre os véus, devem arrepender-se e submeter-se ao mandamento inspirado do principal Apóstolo de Cristo: — “[…] que ponha o véu” (1 Coríntios 11:6).
Além disso, note-se que o “costume” (“nós não temos tal costume” — v. 16) ao qual Paulo se refere é a prática de mulheres frequentarem o culto descobertas (isto é, sem usar um véu de tecido sobre a cabeça). Este ponto é importante, pois a declaração de Paulo tem sido usada por alguns exegetas para anular o ensino de todo o capítulo.
Antes de considerarmos as razões pelas quais o “costume” referido é o não uso do véu pelas mulheres, é imprescindível estabelecer uma tradução correta da afirmação do Apóstolo. Praticamente todas as traduções modernas (NASB, NEB, RSV e NIV) traduzem “τοιαύτην–toiautēn” como “outro” (“não temos outro costume”). Talvez a razão para essa frequência na má tradução seja o receio dos intérpretes de apresentar um verso que contrarie o contexto imediato. Em outras palavras, reconhecem o absurdo de Paulo dizer: — “não temos costume de as mulheres usarem véu em culto público”, logo após ordenar que as mulheres cubram a cabeça, seguido de diversas razões que exigem o uso do véu (o absurdo é válido tanto para quem entende véu como pano quanto como o próprio cabelo comprido). Contudo, seguindo as regras ordinárias do grego, “toiautēn” significa “tal”, e não “outro”. Clark observa: — “Das versões em inglês, somente a KJ e a ARV de 1901 traduzem o grego corretamente. As demais estão claramente erradas; “ἡμεῖς τοιαύτην συνήθειαν οὐκ ἔχομεν–hēmeis toiautēn synētheian ouk echomen” só pode significar: — “Não temos tal costume”. Traduções estrangeiras mantêm a melhor erudição da KJ e da ARV[51]”.
Tendo esclarecido a tradução correta da segunda parte do versículo 16, retornemos ao sentido adequado do termo “costume”. Sobre este, há três principais interpretações:
[1] – O costume referido seria o uso do véu no culto. Esta visão entende a expressão “não temos tal costume” como uma ab–rogação total do uso do véu, como se os argumentos precedentes que o ordenam fossem insuficientes ou culturalmente condicionados. Tal interpretação é manifestamente absurda. A ideia de que Paulo, após dedicar a maior parte do capítulo a justificar o uso do véu pelas mulheres, pudesse então afirmar que os Apóstolos e todas as Igrejas rejeitam tal prática, implicaria uma negação tácita da inspiração verbal. Qualquer interpretação que apresente Paulo contradizendo-se explicitamente na mesma página, comprometendo sua integridade moral como se zombasse dos coríntios, deve ser rejeitada por todo cristão que crê na Bíblia.
[2] – Outra interpretação é que o costume refere-se à prática da contenda (por exemplo, Calvino, de Wette, Meyer e Edwards). Embora não contrarie o ensino de Paulo como a anterior, esta também não é a interpretação mais plausível. Ser contencioso é uma falha ou vício, não um costume. Ademais, seria necessário que Paulo explicasse que nenhum Apóstolo defende contendas nem que nenhuma Igreja institucionalmente as aceita? Evidentemente, não.
[3] – A única interpretação que faz justiça ao contexto e se mostra coerente é que o “costume” referido seja o das mulheres comparecerem ao culto público sem véu. O único costume em questão, que fundamenta toda a passagem, é este: — a mulher que assiste ao culto sem estar coberta. Godet afirma: — “Paulo quer dizer que nem ele, nem os cristãos por ele formados, nem, em geral, qualquer uma das Igrejas de Deus — quer as que ele não fundou, quer as que são propriamente suas — permitem tal procedimento em seus usos e costumes eclesiásticos; cf. 1 Coríntios 14:36, 37, onde a ideia aqui simplesmente indicada é desenvolvida. A prova material dessa afirmação de Paulo encontra-se nas representações cristãs descobertas nas Catacumbas, onde os homens sempre aparecem com os cabelos cortados curtos, e as mulheres com a ‘palla[52]’, um lenço que cai sobre os ombros[53]”. Charles Hodge concorda. Ao criticar a interpretação de que “costume” significaria o hábito de ser contencioso, ele escreve: — “A única justificativa para tal entendimento é a afirmação de Paulo: — ‘não temos tal costume’, que, segundo alguns, não poderia referir-se ao costume das mulheres comparecerem sem véu. Mas por que deveria ser assim? Os Apóstolos e as Igrejas formavam uma unidade indivisível — nem as Igrejas, nem seus guias infalíveis aprovavam tal prática. Ademais, no contexto, nenhum outro costume é mencionado além daquele que Paulo vem discutindo. ‘Se alguém parecer contencioso’ não constitui um costume, tampouco aponta para algo a que a expressão ‘tal costume’ possa naturalmente se referir[54]”.
Consideremos mais uma vez a plenitude do argumento do Apóstolo em 1 Coríntios 11:16. Paulo afirma que todos os Apóstolos concordam que as mulheres devem cobrir suas cabeças no culto público; que em toda Igreja — seja na África, Ásia ou Europa, seja entre judeus, gentios, gregos ou bárbaros — as mulheres adoram a Cristo com a cabeça coberta. Tal declaração explica por que, ao longo da história da Igreja, em todas as suas ramificações — Ortodoxa Oriental, Católica Romana, Protestante (Luterana, Episcopal, Reformada), Copta etc. — até cerca dos anos 1960, as mulheres adoravam com suas cabeças cobertas. O testemunho da história da Igreja só se explica se a prática universal da Igreja apostólica foi que as mulheres cobrissem a cabeça com um véu de pano durante o culto público. A triste verdade é que o uso do véu foi abandonado porque: — [1] – pastores não pregavam todo o conselho de Deus; [2] – chapéus e lenços tornaram-se fora de moda; [3] – as Igrejas foram infectadas pelo egalitarianismo[55] e feminismo. Lamentavelmente, quando a prática antibíblica das mulheres adorarem com a cabeça descoberta se espalhou, pastores e mestres defenderam o costume corrente, ao invés de chamar a Igreja ao arrependimento. Seria prudente que os homens da Igreja contemporânea reconsiderassem sua ampla deserção a uma ordenança apostólica que foi prática universal da Igreja cristã por dois milênios. Teriam, porventura, esses homens modernos descoberto algo que escapou ao olhar penetrante de Paulo, de Agostinho, de Anselmo, de Calvino, de Hodge e de John Murray? Certamente que não![56]
Conclusão.
Ainda que o uso de véus no culto público não possua o mesmo peso que os santos mistérios da Trindade, das duas naturezas de Cristo ou da justificação pela fé somente, contudo, não é de menor relevância, por diversas razões:
[1] – É ordenado pela Escritura e, por isso, não pode ser descartado como uma receita malsucedida. Quando Deus se pronuncia sobre um assunto, nosso dever é crer e obedecer, quer nos agrade, quer não.
[2] – Em nossos dias, quando o matrimônio e a vida familiar atingem níveis alarmantes de ruína, toda doutrina e prática que sustente a liderança pactual do homem e a submissão da esposa requer nossa mais zelosa adesão. O uso do véu representa o ensino de Deus acerca do matrimônio. Por conseguinte, não devemos escarnecer ou aborrecer esta prática bíblica, mas abraçá-la de todo o coração.
[3] – A cultura contemporânea, especialmente na América, torna-se cada vez mais pagã, hedonista e anticristã. Toda prática bíblica que distingue o povo de Deus do espírito desta era e oferece um testemunho contra ela deve ser acolhida pelos fiéis. Certamente não agimos como sal e luz diante de uma cultura ímpia quando rejeitamos imperativos bíblicos concernentes à liderança pactual e, em seu lugar, imitamos o mundo.
[4] – Um problema recorrente nas Igrejas ao longo dos últimos cem anos tem sido a intrusão de princípios igualitaristas e feministas em suas crenças e práticas. Um modo excelente de conter tão pernicioso sincretismo é obedecer aos preceitos bíblicos que o feminismo abomina — como o uso do véu. A melhor defesa é uma ofensiva fiel.
Que o Senhor nos conceda retornar ao ensino dos Apóstolos neste ponto, para que as famílias sejam fortalecidas e os anjos devidamente instruídos.
Apêndice — Os Pais da Igreja sobre o uso do véu.
1 – Paedagogus, O Instrutor, Livro 2, Capítulo 11.
Ainda que possas com grande propriedade usar a linguagem dirigida àquele que disse: — “Teu braço é formoso; sim, mas não é para o olhar público. Teus quadris são formosos; porém, foi a resposta, somente para meu marido. E teu rosto é belo. Sim; mas somente para aquele que me desposou”. Contudo, não desejo que mulheres castas concedam ocasião para tais elogios àqueles que, por meio dos elogios, procuram motivos para censura; e não somente porque é proibido expor o tornozelo, mas porque também foi ordenado que a cabeça seja coberta e o rosto velado; pois é maldição que a beleza seja armadilha para os homens[57].
2 – Fragmentos de Clemente de Alexandria, Livro 4. A Coroa, Capítulo 4.
Se, por estas e outras normas semelhantes, exigires mandamento expresso das Escrituras, não o encontrarás. Apresentar-se-á a ti a tradição como sua origem, o costume como seu sustentáculo, e a fé como seu guardião. Que a razão confirma a tradição, o costume e a fé, tu mesmo perceberás, ou aprenderás de quem o saiba. Enquanto isso, crerás haver uma razão digna de submissão. Acrescento um exemplo a mais, para mostrar-te como se dava entre os antigos. Entre os judeus, era tão comum às mulheres cobrirem a cabeça com véu que assim se reconheciam. Pergunto, neste caso, onde está a lei? Deixo de lado o Apóstolo. Se Rebeca, ao avistar de longe seu prometido, baixou imediatamente o véu, essa modéstia particular não poderia instituir lei, ou o teria feito somente para aqueles que possuem a mesma razão que ela. Que as virgens sejam veladas, e só quando estão para se casar, e não antes de reconhecerem o esposo destinado. Se Susana, sujeita a ser descoberta em seu julgamento, serve como argumento para o uso do véu pelas mulheres, digo que o véu era voluntário. Ela veio acusada, envergonhada pela desonra, ocultando justamente sua beleza, pois já temia agradar. Não creio que, querendo atrair, andasse velada pelas ruas do marido. Mesmo admitindo que estivesse sempre velada, peço que mostres a lei do traje para este e quaisquer outros casos. Se não a encontrares, segue que a tradição concedeu ao costume esta forma, buscando depois autorização apostólica pela correta interpretação da razão. Estes exemplos mostram claramente que podes defender até mesmo a observância da tradição não escrita, fundada no costume; testemunho legítimo da tradição, quando confirmado pelo uso contínuo e prolongado. Mesmo em assuntos civis, o costume é aceito como lei quando falta preceito legal expresso; e pouco importa se depende da escritura ou da razão, pois esta é o fundamento da lei. Contudo, dirás: — se a razão é base da lei, tudo que for justificado por ela será lei; ou crês que todo crente pode criar e estabelecer lei, desde que conforme a Deus, útil à disciplina e promotora da salvação, quando o Senhor diz: — “Mas por que não julgais vós mesmos o que é justo?”. E não apenas para sentenças judiciais, mas para toda decisão que nos cabe, o Apóstolo acrescenta: — “Se de alguma coisa ignorais, Deus vo-lo há de revelar”. Ele mesmo costumava aconselhar, mesmo sem mandamento do Senhor, falando como possuidor do Espírito de Deus, que guia em toda a verdade. Assim, seu conselho, validado pela razão divina, tornou-se equivalente a mandamento divino. Por isso, inquira com zelo este mestre, preservando o respeito pela tradição, seja qual for sua origem; não te detenhas no autor, mas na autoridade, especialmente no costume, que devemos reverenciar para não faltar intérprete. E se a razão é dom de Deus, aprenderás não apenas se deves seguir o costume, mas o porquê[58].
3 – Fragmentos de Clemente de Alexandria, Livro 4 — A Coroa, Capítulo 14.
Muito menos convém ao cristão colocar sobre sua cabeça o serviço da idolatria — ou melhor, diria, sobre Cristo mesmo, pois Cristo é a Cabeça do homem cristão — (sua cabeça) é tão livre quanto o próprio Cristo, sem obrigação de cobrir-se, quanto mais de cingir-se com uma faixa. Mas até mesmo aquela cabeça que deve estar velada — refiro-me à da mulher —, já ocupada por essa própria ordenança, não está livre para ostentar também uma coroa. A ela cabe o peso da própria humildade. Se não deve aparecer com a cabeça descoberta por causa dos anjos, quanto mais ofenderá os anciãos celestiais, que talvez estejam então coroados nas alturas, ao colocar uma coroa sobre si. Pois que é a coroa na cabeça da mulher, senão beleza tornada sedução? Sinal de lascívia manifesta, abandono notório da modéstia, incêndio aceso da tentação. Assim, a mulher, instruída pela prudência apostólica, não se adornará com excessos, para que também não se veja coroada com nenhuma primorosa disposição dos cabelos. Que espécie de coroa, pergunto-vos, recebeu Ele — o que é Cabeça do homem e glória da mulher, Cristo Jesus, Esposo da Igreja — em favor de ambos os sexos? Uma de espinhos, penso eu, e de abrolhos — figura dos pecados que o solo da carne produziu para nós, mas que o poder da cruz removeu […].
4 – Tertuliano – Parte Quarta, Livro 2, Seção 3 — Sobre o Uso do Véu pelas Virgens (Mulheres).
[1] – Jerônimo — Carta 38.
Em tempos passados, nossa estimada viúva era sumamente exigente no vestir, passando dias inteiros diante do espelho a corrigir minúcias. Agora, ousadamente, diz: — “Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (2 Coríntios 3:18). Noutros tempos, criadas lhe arranjavam os cabelos, e sua cabeça, sem culpa alguma, era forçada a ornamentos ondulados. Agora, deixa os cabelos em paz, e seu único adorno é o véu. Antes, até o mais macio leito de penas lhe parecia áspero, e mal repousava sobre montes de almofadas. Agora, ergue-se pronta para a oração; sua voz aguda clama aleluia antes de todas, e é a primeira a louvar o Senhor[59].
[2] – Dois Livros Sobre o Arrependimento — §69.
Que o próprio costume nos sirva de mestre. A mulher cobre o rosto com o véu para que, em público, sua modéstia permaneça resguardada. Para que seu semblante não encontre com facilidade o olhar de um jovem, seja velada com o véu nupcial, a fim de que, mesmo em encontros fortuitos, não se exponha à ferida — seja do outro, seja de si mesma — pois ambas, de fato, recairiam sobre ela. Ora, se ela cobre a cabeça com o véu para não ver nem ser vista inadvertidamente (pois, estando velada a cabeça, oculta-se o rosto), quanto mais deve cobrir-se com o véu da modéstia, para que tenha, mesmo em meio à multidão, seu próprio lugar secreto.
[3] – Santo Ambrósio — Livro 1, Capítulo 12.
“Que véu poderia cobrir-me com maior dignidade”, disse ela, “do que o altar, que consagra os próprios véus? Véu nupcial mais honroso não há, sobre o qual Cristo, Cabeça de todos, é diariamente consagrado[60]”.
Paz e graça.
[1] Por Brian Schwertley (2008).
[2] A interpretação ortodoxa padrão de Gálatas 3:28 (a qual foi sustentada pelos Reformadores e universalmente aceita até que a Igreja fosse influenciada pelo feminismo no século XIX) é que o versículo fala da unidade entre homem e mulher como beneficiários da graça de Deus em Cristo (veja Martin Luther, Commentary on Galatians (Cambridge: James Clarke, [1575] 1978), 342 – 343; John Calvin, Commentary on Galatians (Grand Rapids: Baker, 1981), 112; John Gill, Exposition of the New Testament, 9:25; Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible, 6:663; James W. Porteous, The Government of the Kingdom of Christ (Edinburgh, 1873), 168; Ernest DeWitt Burton, Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Galatians (Edinburgh, T&T Clark, 1980), 206 – 207; Otto Schmoller, Lange’s Commentary on the Holy Scriptures: — The Epistle of Paul to the Galatians ([1870] 1978) 2:88; R. C. H. Lenski, Interpretation of St. Paul’s Epistles to the Galatians, Ephesians and Philippians (Minneapolis: Augsburg, [1937] 1961), 188 – 189; Ronald Y. K. Fung, Epistle to the Galatians (Grand Rapids: Eerdmans, 1988), 175 – 176.
[3] John Calvin, Commentary on the Epistles of Paul the Apostle to the Corinthians (Grand Rapids: Baker, 1981), 1:353.
[4] John Gill, Exposition of the New Testament (Streamwood, IL: Primitive Baptist Library, [1809] 1979), 2:683.
[5] See Wayne Gruden, “The Meaning of Kephale (Head): A Response to Recent Studies” in John Piper and Wayne Gruden, ed., Recovering Biblical Manhood and Womanhood: A Response to Evangelical Feminism (Wheaton: Crossway Books, 1991), 425 ff.
[6] Calvino escreve: — “Parece, contudo, supérfluo que Paulo proíba a mulher de profetizar com a cabeça descoberta, enquanto em outro lugar ele proíbe totalmente que as mulheres falem na Igreja (1 Timóteo 2:12). Portanto, não lhes seria permitido profetizar mesmo com a cabeça coberta, e assim não haveria propósito em discutir aqui a questão do véu. Pode-se responder que o Apóstolo, ao condenar aqui uma prática, não elogia a outra. Pois, quando os repreende por profetizar com a cabeça descoberta, não lhes concede permissão para profetizar de outra forma, mas apenas adia a condenação desse vício para outra passagem, a saber, no capítulo quatorze” (Comentário à Primeira Epístola aos Coríntios, 11:356; cf. Charles Hodge, 1 and 2 Corinthians [Carlisle, PA: Banner of Truth, (1857) 1959], 208 – 209).
[7] Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible, 6:561.
[8] John Gill, An Exposition of the New Testament, 2:684.
[9] Gordon Fee, The First Epistle to the Corinthians (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), 506 – 507.
[10] Sherman Isbell, Authority and the Woman’s Head: — Notes on 1 Corinthians 11:2 – 16 (1995), unpublished paper.
[11] Richard Bacon, Paul’s Discourse on the Use of Head coverings in Public Worship: An Exposition of 1 Corinthians 11:2 – 16 (First Presbyterian Church of Rowlett, TX: 1997), Internet article.
[12] James Moffat, The First Epistle of Paul to the Corinthians (London: Hadder and Stoughton, 1938), 154.
[13] John Murray, “The Use of Head Coverings in the Worship of God”, A personal letter written on November 16, 1973, published in Presbyterian Reformed Magazine, Winter 1992.
[14] Buchsel, “anti” in Gerhard Kittel, ed., Theological Dictionary of the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1964), 1:372.
[15] Frederic Louis Godet, Commentary on First Corinthians (Grand Rapids: Kregel [1889] 1977), 557 – 558.
[16] Na Tradição Reformada, especialmente na presbiteriana e continental (como a reformada holandesa), “consistório” é o nome dado ao conselho de presbíteros que governa uma igreja local. Refere-se ao Conselho Presbiteriano local, e “consistórios” é sua tradução para o contexto reformado continental — ambas designações para o corpo de presbíteros que pastoreiam a Igreja local sob Cristo, o Cabeça da Igreja — nota do tradutor.
[17] Assíndeto é uma figura de linguagem ou recurso estilístico que consiste na omissão deliberada das conjunções entre palavras, frases ou orações, de modo a conferir maior rapidez, intensidade ou ênfase ao discurso. Em vez de ligar termos por meio de conectivos como “e”, “ou”, “mas”, eles são justapostos diretamente. Exemplo clássico: — “Vim, vi, venci.” (Júlio César) — onde as conjunções que poderiam ligar as ações são suprimidas. No estilo erudito e bíblico, o assíndeto pode sugerir força e vigor na narrativa, aproximando o texto do ritmo poético e da eloquência da Escritura Sagrada — nota do tradutor.
[18] Gordon D. Fee, The First Epistle to the First Epistle to the Corinthians, 506.
[19] Charles Hodge, 1 and 2 Corinthians (Carlisle, PA: Banner of Truth, [1857] 1958), 208.
[20] Archibald Robertson and Alfred Plummer, First Epistle on St. Paul to the Corinthians (Edinburgh: T&T Clark, [1911] 1978), 230.
[21] Grifo do tradutor.
[22] Veja Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians, 511.
[23] Edward J. Young, The Book of Isaiah (Grand Rapids: Eerdmans, 1965), 1:298.
[24] Veja A. T. Robertson, Word Picture in the New Testament (Grand Rapids: Baker, 1951), 4:160.
[25] Fee, 511, footnotes 80 and 81.
[26] Trecho da Novella 134.10 do Código de Justiniano. Texto original (em latim, adaptado da edição de Schoell e Kroll, Corpus Juris Civilis): — “Si adulterii crimen evidenter fuerit comprobatum, poena a Constantino constituta adhibeatur, et complices atque ministri tam nefarii criminis eadem poena plectantur. […] Mulier vero adultera competenti poena subiaceat et in monasterio includatur. Si maritus intra biennium eam recipere voluerit, liceat ei id facere et cum ea convivere, nec matrimonium propter id quod interim accidit dissolvatur. Post biennium vero (si non recepta fuerit), aut si maritus fuerit antequam eam receperit, capillis tonsis habitum monachalem induat et in monasterio reliquam vitam degat”. Tradução para o português: — “Se o crime de adultério for claramente comprovado, a punição estabelecida por Constantino será aplicada, e os cúmplices e assistentes desse crime ímpio sofrerão a mesma pena. […] A mulher adúltera deverá sofrer a penalidade apropriada e ser confinada em um mosteiro. Se o marido desejar aceitá-la de volta dentro de dois anos, ele tem o direito de fazê-lo e de viver com ela, e o casamento não será afetado pelo que ocorreu nesse meio–tempo. Quando esse prazo passar (e ela não for readmitida), ou se o marido morrer antes de aceitá-la de volta, seus cabelos deverão ser cortados, ela deverá assumir o hábito monástico e viver no mosteiro pelo resto da vida”. Resumo das penalidades (conforme Novella 134.10): — [1] – Confinamento imediato em mosteiro: — Após a condenação por adultério, a mulher é imediatamente enviada a um mosteiro como punição inicial. [2] – Possibilidade de readmissão: — O marido tem até dois anos para decidir readmiti-la. Se o fizer, o casamento permanece válido, sem consequências legais adicionais. [3] – Punição definitiva (se não readmitida): — Caso o marido não a aceite de volta em dois anos, ou se ele morrer antes disso: — [a] – Seus cabelos são cortados (capillis tonsis), o que implica a raspagem da cabeça, uma prática comum para marcar a entrada na vida monástica e simbolizar humilhação e penitência. [b] – Ela assume o hábito monástico (habitum monachalem induat), formalizando sua condição de monja. [c] – Ela permanece no mosteiro pelo resto da vida (in monasterio reliquam vitam degat), sem possibilidade de retorno à vida secular — nota do tradutor.
[27] Marvin, R. Vincent, Word Studies in the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, [1887] 1946), 3: 247.
[28] Moffat, 151.
[29] Charles Hodge, 1 and 2 Corinthians, 307.
[30] Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians, 514, footnote 8.
[31] No versículo 7, Paulo emprega uma figura de linguagem (uma elipse), na qual a obrigação da mulher em 7b é intencionalmente omitida por estar implícita como o oposto da obrigação do homem no culto público.
[32] Leon Morris, The First Epistle of Paul to the Corinthians (Grand Rapids: Eerdmans, 1958), 153.
[33] Charles Hodge, 1 and 2 Corinthians, 210.
[34] Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible (McLean, VA: McDonald Publishing House, n. d.), 1:19.
[35] Charles Hodge, 1 and 2 Corinthians, 210.
[36] Matthew Henry, 6:562.
[37] Matthew Poole, A Commentary on the Holy Bible, (Carlisle, PA: Banner of Truth, 1963 [1685]), 3:578.
[38] “E disse ao servo: — Quem é aquele homem que vem pelo campo ao nosso encontro? E o servo disse: — Este é meu senhor. Então tomou ela o véu e cobriu-se” (ACF).
[39] Frederic Louis Godet, Commentary on First Corinthians, 553.
[40] Leon Morris, 1 Corinthians, 155.
[41] Charles Hodge, 1 and 2 Corinthians, 212.
[42] Godet, 553.
[43] “Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem as Igrejas de Deus” (ACF).
[44] Oepke, “Kalupto” in Gerhard Kittle, ed., Theological Dictionary of the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1965), 3:562 – 563. Emphasis added.
[45] Clyde McKnight, Concerning The Head Covering, Internet article.
[46] Havia no mundo greco–romano um culto no qual tanto homens quanto mulheres cobriam a cabeça durante o sacrifício pagão. Esta prática, contudo, não influenciou em nada o ensino do Apóstolo sobre o culto público. Os homens judeus começaram a cobrir a cabeça no serviço público das sinagogas provavelmente algumas gerações após o encerramento do cânon das Escrituras do Novo Testamento. Os sacerdotes que ministravam no serviço do templo cobriam a cabeça durante suas ministrações. Esta prática, porém, não deve ser considerada uma contradição ao ensino de Paulo em 1 Coríntios 11 porque: — [1] – o dever sacrificial dos sacerdotes era cerimonial; [2] – os sacerdotes não adoravam num culto público com suas famílias, mas serviam a Deus sozinhos como uma classe especial separada; [3] – o turbante na cabeça do sacerdote tem um significado completamente diferente do véu na cabeça da mulher; [4] – os sacerdotes usavam um uniforme especial. “Essencialmente, um uniforme chama atenção para o ofício ou função da pessoa, em oposição à sua personalidade individual. Ele enfatiza seu trabalho em vez de seu nome” (G. J. Wenham, The Book of Leviticus [Grand Rapids: Eerdmans, 1979], p. 138). Sobre as vestes do sumo sacerdote, Wenham acrescenta: — “Ao vestir estas roupas, ele assumia para si toda a honra e glória do sumo sacerdócio […]. Suas vestes gloriosas simbolizavam o significado de seu ofício. Provavelmente também havia significado simbólico atribuído aos itens individuais da veste sacerdotal, mas isso agora nos escapa” (Ibid., p. 139). Kellogg escreve: — “As vestes oficiais do sumo sacerdote o marcavam […] como o servo do Deus do tabernáculo, cuja libré ele trajava. Pois aquelas cores, em suas diversas modulações de luz, possuíam todas uma referência simbólica ao Deus da luz, Criador do universo, do qual o tabernáculo mosaico era um tipo” (S. H. Kellogg, The Book of Leviticus [Minneapolis, MN: Klock and Klock, 1978, 1899], p. 193).
[47] James Moffatt, The First Epistle of Paul to the Corinthians (London: Houghter and Stoughton, 1958), 154.
[48] David E. Aune, Revelation 6 – 16 (Nashville: Thomas Nelson, 1998), 532.
[49] A proibição de Deus aos homens que fazem o voto de nazireado de cortarem o cabelo (Números 6:5) levanta uma questão óbvia quanto à declaração de Paulo sobre o cabelo comprido ser vergonhoso e contrário à ordem criada. Se é errado ou vergonhoso para um homem ter cabelo comprido, como então Deus poderia ordenar aos nazireus que deixassem crescer o cabelo? Há várias razões pelas quais o voto nazireu não deve ser usado para contrariar o ensino de Paulo em 1 Coríntios 11. Primeiro, era bem sabido pelos israelitas que o voto nazireu era extraordinário e que o cabelo comprido do nazireu nada tinha a ver com efeminação. O cabelo comprido simbolizava um aumento do poder do Espírito, o qual aumentava a fé, a virtude e a graça. O cabelo apontava para uma maior consagração a Deus. Segundo, Deus, que estabeleceu a ordem natural das coisas, tem o direito de fazer exceções à ordem normal das coisas; nós não temos. Terceiro, há elementos positivos quanto à aparência que Deus pode ou poderia alterar, sem que isso contradiga de modo algum a Lei moral. Deus criou Adão e Eva com uma diferença na aparência. Eva tinha cabelo comprido e belo, e Adão, cabelo curto. Jeová poderia ter feito a diferença na cor do cabelo (por exemplo, homens com cabelo preto; mulheres com cabelo rosa), mas Ele escolheu o comprimento do cabelo como diferença. Assim, embora em circunstâncias normais os homens devam ter cabelo curto, exceções podem ser feitas para os nazireus e para aqueles que não podem cortar o cabelo por razões de saúde. Este ponto, contudo, não significa que possamos anular o mandamento de Paulo por causa de costumes ou opiniões pessoais.
[50] Charles Hodge, 1 and 2 Corinthians, 214.
[51] Gordon Clark, First Corinthians (Jefferson, MD: The Trinity Foundation, 1991 [1975]), 178.
[52] Uma “palla” era um tipo de manto ou xale usado por mulheres na Antiguidade — no mundo romano e grego —, especialmente por matronas (mulheres casadas e de posição respeitável). Era uma peça de vestuário longa e retangular, normalmente colocada sobre os ombros e enrolada ao redor do corpo e, muitas vezes, também usada para cobrir a cabeça em público, funcionando como sinal de posição, respeito e proteção legal. A “palla” simbolizava modéstia, decoro e respeito diante da presença pública, especialmente em contextos formais ou religiosos — nota do tradutor.
[53] Frederic Louis Godet, Commentary on First Corinthians (Grand Rapids: Kregel, 1977 [1889]), 560.
[54] Charles Hodge, em sua obra 1 and 2 Corinthians, p. 214, sustenta esta interpretação correta. Leon Morris também a corrobora, afirmando: — “Paulo não pretende entrar em disputas com aqueles inclinados a batalhas verbais (‘contenciosos’, ‘φιλόνεικος–philoneikos’, é quem ama a contenda). Tais indivíduos prolongam argumentos indefinidamente. Diante dessa atitude, Paulo recorre ao costume universal. ‘Não temos tal costume’, ou seja, o costume de mulheres orarem ou profetizarem com a cabeça descoberta. A quem exatamente se refere o ‘nós’ não é claro, mas a adição ‘nem as Igrejas de Deus’ demonstra que o hábito descrito é comum a todas as Igrejas cristãs” (1 Corinthians, Grand Rapids: Eerdmans, 1958, p. 136). Alfred Plummer concorda, escrevendo: — “Existem pessoas tão afeitas à disputa que contestam até as conclusões mais evidentes; e os coríntios eram assim. Porém, o Apóstolo não lhes dá ocasião. Se questionarem o decoro e a natureza neste assunto, pode-se dizer que os mestres não possuem costume algum que permita às mulheres aparecerem sem véu — algo desconhecido nas congregações cristãs. É possível que ‘hēmeis’ se refira apenas a ele mesmo, mas provavelmente significa que não conhece Apóstolo algum que permita tal prática” (First Epistle of St. Paul to the Corinthians, Edimburgo: T and T Clark, 1978 [1911], p. 235).
[55] No âmbito teológico e eclesiástico, o termo “egalitarianismo” refere-se à visão que sustenta a igualdade funcional entre homens e mulheres no exercício de ministérios e liderança dentro da Igreja, negando distinções de posições baseadas no sexo. Essa perspectiva contrasta com a visão complementarista tradicional reformada, que reconhece diferenças de papéis e funções, mas iguais valor e dignidade entre os gêneros — nota do tradutor.
[56] Alguns que rejeitam a submissão ao ensino de Paulo sobre o véu de cabeça apegam-se à palavra “costume” em 1 Coríntios 11:16 para alegar que se trata de uma prática cultural, temporária e contingente. Tal argumento deve ser veementemente rechaçado pelos seguintes motivos. [1] – A argumentação paulina, que sustenta o imperativo “que ela esteja coberta”, não pode ser reduzida a mera aprovação de um costume local e passageiro. A invocação da ordenança da criação referente à cabeça da Aliança, do propósito do homem e da mulher, do testemunho da natureza e da revelação geral, bem como da observação dos anjos, torna tal entendimento manifestamente absurdo. [2] – A afirmação de que em toda Igreja, em toda parte, não se permite que a mulher adore com a cabeça descoberta prova o caráter transcultural do uso do véu. Cumpre lembrar que as mulheres gregas não tinham costume de cobrir a cabeça em seus rituais. [3] – A palavra grega para costume, “συνήθεια–sunétheia”, usada no versículo 16, designa a prática habitual das Igrejas, e não um mero costume superficial, como um festival local ou efêmero. O estudioso Paul K. Jewett (que certamente não é simpatizante da autoridade do Pacto nem da ortodoxia presbiteriana) concorda: — “Portanto, a observação do Apóstolo (v. 16) de que as Igrejas de Deus não têm tal costume (sunétheia) de as mulheres desvelarem suas cabeças durante o culto público não pode significar que ele considerasse toda a questão como um mero costume. Embora se possa argumentar isso, não se pode dizer que esse seja o sentido do texto. Muito pelo contrário, esse costume particular, no pensamento de Paulo, fazia parte da tradição apostólica que ele lhes havia transmitido e à qual estavam vinculados. Este é, de fato, o tom com que ele inicia toda a discussão, elogiando-os por guardarem firmemente as tradições (paradosis) ‘assim como foram entregues a vós’ (v. 2)” (Man as Male and Female [Grand Rapids: Eerdmans, 1975], 118).
[57] Schaff, P. The Ante–Nicene Fathers. electronic ed. Garland, TX: Galaxie Software, 2000.
[58] Schaff, P. The Ante–Nicene Fathers. electronic ed. Garland, TX: Galaxie Software, 2000.
[59] Schaff, P. The Nicene and Post-Nicene Fathers Second Series Vol. VI. Oak Harbor: Logos Research Systems, 1997.
[60] Schaff, P. The Nicene and Post-Nicene Fathers Second Series Vol. X. Oak Harbor: Logos Research Systems, 1997.
[61] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.
por Brian M. Schwertley | 26 maio 2025 | TEOLOGIA
1 – Introdução.
Nos dias atuais, quando cristãos professos consideram inovações, acomodações culturais e a modernização do culto público a Deus como boas e necessárias para fins de entretenimento, relevância e crescimento da Igreja, um trecho das Escrituras que precisa ser considerado é Levítico 10:1 – 6 (ACF): — “E os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o Senhor, o que não lhes ordenara. Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor. E disse Moisés a Arão: — Isto é o que o Senhor falou, dizendo: — ‘Serei santificado naqueles que se chegarem a mim, e serei glorificado diante de todo o povo’. Porém Arão calou-se. E Moisés chamou a Misael e a Elzafã, filhos de Uziel, tio de Arão, e disse-lhes: — ‘Chegai, levai a vossos irmãos de diante do santuário, para fora do arraial’. Então chegaram, e os levaram nas suas túnicas para fora do arraial, como Moisés lhes dissera. E Moisés disse a Arão, e a seus filhos Eleazar e Itamar: — ‘Não descobrireis as vossas cabeças, nem rasgareis vossas vestes, para que não morrais, nem venha grande indignação sobre toda a congregação; mas vossos irmãos, toda a casa de Israel, lamentem este incêndio que o Senhor acendeu’”.
Este trecho é fundamental, pois nos orienta sobre como devemos nos aproximar do único Deus verdadeiro, infinitamente justo e santo, de forma geral, e nos ensina, de maneira particular, como adorar a Yahweh no culto. Antes de discutirmos os detalhes específicos desta seção das Escrituras, é necessário considerar algumas questões introdutórias.
2 – Ocasião e contexto.
Primeiro, a ocasião e o contexto deste incidente são significativos. Em Levítico 8, Arão e seus filhos foram separados e ordenados para seu ofício sacerdotal especial. Isso foi um evento público, realizado em estrita conformidade com o mandamento de Deus em Êxodo 29. Toda a congregação se reuniu diante do recinto da tenda da congregação, onde estava o grande altar de bronze, para assistir ao serviço de ordenação e à consagração do tabernáculo. Arão e seus filhos foram lavados com água, vestidos com suas vestes sacerdotais especiais e ungidos com óleo. Tudo isso foi seguido por uma oferta de santificação–purificação. Wenham explica: — “Se Deus estivesse presente nos sacrifícios oferecidos pelo sacerdote, seu santuário precisava ser purificado da poluição do pecado, especificamente das poluições introduzidas pelos próprios sacerdotes. Para esse fim, o primeiro sacrifício foi uma oferta de purificação em nome de Arão e seus filhos: — eles impuseram as mãos sobre o novilho (Levítico 8:14). O sacrifício segue exatamente as instruções em Êxodo 29:10 – 14, e é muito semelhante ao ritual estabelecido para a oferta de purificação de um sacerdote em Levítico 4. Aqui, no entanto, Moisés oficia no lugar dos sacerdotes, que ainda não foram ordenados, e o sangue é aplicado ao altar de holocaustos, em vez de no véu e no altar de incenso (Levítico 4:6, 7)[2]”.
A oferta pelo pecado, na qual Arão e seus filhos impuseram as mãos sobre um novilho, simbolizava a imputação de seu pecado e culpa a Cristo, a verdadeira e perfeita oferta pelo pecado. Isso foi seguido por um holocausto que simbolizava o holocausto que Jesus suportou como resgate pelo pecado. Identificando-se com o animal limpo, abatido e consumido, eles estavam dedicando-se publicamente ao serviço de Deus por meio do sacrifício perfeito que viria. Tudo isso foi seguido por uma oferta pacífica, com parte do sangue da vítima sacrificial aplicado na orelha direita, no polegar direito e no dedo grande do pé direito, bem como nas vestes de Arão e seus filhos (Levítico 8:23, 24, 30). “O sangue indica (Êxodo 24) que, no Pacto, Israel se tornou o povo de Deus. Assim, aqui o sangue liga Deus e Arão, mostrando de maneira visível que ele é agora o homem de Deus, seu representante especial entre Israel[3]”.
R.K. Harrison explica a importância desta cerimônia: — “A aplicação do sangue em partes específicas dos corpos de Arão e seus filhos foi um gesto altamente simbólico, relacionado diretamente ao sacerdote e seu trabalho. De maneira simbólica, todo o corpo foi consagrado ao serviço do Senhor, e, ao aceitar a aplicação, o sacerdote reconhecia as obrigações inerentes ao simbolismo. Doravante, ele deveria ouvir cuidadosamente os pronunciamentos de Deus para proclamá-los corretamente. Suas mãos deveriam ser dedicadas inteiramente às coisas relacionadas ao trabalho do Senhor, para não ser tentado a realizar atos malignos. Seus pés deveriam ser sempre direcionados de tal maneira que estivessem continuamente andando nos caminhos do Senhor. O uso do sangue neste ritual separava o sacerdote das preocupações mundanas e o dedicava completamente ao serviço de Deus[4]”.
Há uma ênfase aqui no fato de que o papel do sacerdote é puramente ministerial. Os ouvidos devem ouvir o que Deus autorizou ou ordenou. As mãos devem realizar obedientemente tudo o que Deus requer. Os pés devem andar em todos os mandamentos de Deus. O papel do sacerdote e, por implicação, de todos os ministros e presbíteros, não é de criatividade ou inovação, mas de total submissão. Deus é tão santo e perfeito em todos os seus atributos que só pode ser servido e adorado conforme Ele requer em sua revelação especial — a palavra de Deus.
Não devemos nos aproximar de Deus, seja na salvação, no culto ou na ética, de forma autônoma, como criadores independentes do que pensamos que Deus gosta ou considera aceitável. Devemos ouvir exatamente o que Ele diz e obedecer. Não devemos acrescentar nem subtrair coisa alguma do que Ele ordenou (cf. Êxodo 20:4, 5; Deuteronômio 4:2; 12:32; 1 Crônicas 15:15; 2 Crônicas 29:25; Jeremias 7:31; 19:5; Mateus 15:1 – 3, 8, 9; Colossenses 2:8, 20 – 23). Como oficiais ordenados que estavam entre o povo e Deus no culto cerimonial do Antigo Pacto, os sacerdotes tinham uma responsabilidade especial de ensinar ao povo completa obediência e submissão. Qualquer criatividade pessoal, autonomia ou invenção humana nas esferas de salvação, culto ou ética é uma traição ao ofício sacerdotal e ao propósito principal de seu ministério.
3 – Continuação do contexto.
Em Levítico 8:36, lemos que “Arão e seus filhos fizeram todas as coisas que o Senhor havia ordenado pela mão de Moisés”. Até então, tudo bem. Eles se submeteram a tudo o que Deus lhes ordenou para a consagração. Ficaram no tabernáculo por sete dias e fizeram exatamente o que Deus lhes exigiu. Ao fim dos sete dias de ordenação, estando agora Arão e seus filhos plenamente consagrados ao seu ofício especial, foi convocado um serviço especial no oitavo dia (o primeiro dia de uma nova semana), para que dessem início ao exercício de sua obra mediadora. Este serviço é descrito em Levítico 9. Arão e seus filhos obedeceram fielmente a Deus e realizaram suas tarefas sacerdotais como ordenado. Nadabe e Abiú auxiliaram seu pai em algumas das tarefas sacrificiais (Levítico 8:9, 13, 18), exceto em certas coisas reservadas exclusivamente ao sumo sacerdote. O procedimento culminou em Levítico 9:22 – 24 (ACF): — “Depois Arão levantou as suas mãos ao povo e o abençoou; e desceu, havendo feito a expiação do pecado, e o holocausto, e a oferta pacífica. Então entraram Moisés e Arão na tenda da congregação; depois saíram, e abençoaram ao povo; e a glória do Senhor apareceu a todo o povo. Porque o fogo saiu de diante do Senhor, e consumiu o holocausto e a gordura, sobre o altar; o que vendo todo o povo, jubilaram e caíram sobre as suas faces”.
O fogo que saiu do Senhor e consumiu o sacrifício nos lembra do fogo que caiu do céu para consumir o sacrifício de Gideão (Juízes 6:20, 21), Elias (1 Reis 18:38) e Salomão na dedicação do templo (2 Crônicas 7:1, 2). Deus estava mostrando ao povo que o pecado e a culpa foram removidos, o sacrifício foi aceito e, assim, a ira de Deus foi removida. Deus estava reconciliado com o povo por meio do Cordeiro que viria, e assim o Senhor pôde aparecer como um amigo e pai amoroso para o povo. Isso é demonstrado pela teofania e pela bênção falada de Arão ao povo (por exemplo, Números 6:22 – 26). O povo respondeu com um grito de alegria e reverência. Além disso, caíram sobre seus rostos (Levítico 9:24), um ato de grande humildade e homenagem.
A importância do fogo que sai de Deus no caso de julgamento é encontrada em Deuteronômio 4:24, que será citado em Hebreus 12:29. No contexto, lemos: — “Guardai-vos e não vos esqueçais da Aliança do Senhor vosso Deus, que tem feito convosco, e não façais para vós escultura alguma, imagem de alguma coisa que o Senhor vosso Deus vos proibiu. Porque o Senhor teu Deus é um fogo que consome, um Deus zeloso” (ACF). Hebreus fala de servir a Deus com reverência e temor porque “nosso Deus é um fogo consumidor” (v. 29).
Há duas lições a aprender com tais passagens:
[1] – O fogo é usado para simbolizar a presença de Deus, talvez com ênfase na santidade, pureza e aversão de Deus ao pecado. Quando Deus fez ou estabeleceu o Pacto com Abraão, e o patriarca cortou os pedaços e os arrumou, “eis que um forno de fumaça e uma tocha de fogo passaram por aquelas metades” (Gênesis 15:17). Yahweh apareceu a Moisés na sarça ardente (Êxodo 3:2) e a Israel na coluna de fogo e fumaça (Êxodo 13:21; 14:24). Quando o Pacto foi feito com Israel no Monte Sinai, “o Senhor descera sobre ele em fogo” (Êxodo 19:18). O fato de que um fogo deveria ser mantido aceso no altar e não podia apagar simbolizava Deus como um fogo consumidor (Levítico 6:12, 13). Em Isaías 6:3, 4, após os serafins exclamarem uns aos outros no templo celestial, “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória […] a casa se encheu de fumaça”. Após Manoá (o pai de Sansão) oferecer um cabrito ao Senhor, quando a chama subiu do altar para o céu, “o anjo do Senhor subiu na chama do altar; o que vendo Manoá e sua mulher, caíram em terra sobre seus rostos” (Juízes 13:20). O fogo de julgamento contra o pecado é direcionado à vítima inocente. Portanto, a ira ou furor de Deus contra aquele que faz a oferta com fé é propiciado ou apaziguado. Podemos nos aproximar do Deus verdadeiro e vivo somente por meio de Cristo, tanto para estabelecer uma relação pactual amigável quanto para oferecer um culto aceitável. O fogo do juízo e a maldição da Lei de Deus, que trazem o holocausto, são lançados sobre Jesus no lugar daqueles que nEle creem e confiam em sua perfeita redenção (expiação vicária).
[2] – O fogo é o símbolo supremo do castigo de Deus contra o pecado. Deus fez chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra (Gênesis 19:24 – 28). Somos informados que esse fogo veio “do Senhor desde os céus” (v. 24). Quando Deus julgou o Egito, enviou fogo à terra (relâmpagos): — “[…] havia saraiva, e fogo misturado entre a saraiva” (Êxodo 9:24). Quando o povo no deserto carecia de fé e reclamava contra Yahweh, a “ira de Deus se acendeu”. “E aconteceu que, queixou-se o povo falando o que era mal aos ouvidos do Senhor; e ouvindo o Senhor a sua ira se acendeu; e o fogo do Senhor ardeu entre eles e consumiu os que estavam na última parte do arraial” (Números 11:1). Quando Corá e duzentos e cinquenta líderes da congregação se revoltaram contra Moisés e Arão (bem como contra o sistema civil e religioso de governo que Deus havia instituído) e reclamaram da liderança de Moisés e de sua situação no deserto (Números 16:1 – 14), Corá, Datã e Abirão foram engolidos pela terra: — “Então saiu fogo do Senhor, e consumiu os duzentos e cinquenta homens que ofereciam o incenso” (Números 16:35). Nadabe e Abiú foram consumidos por fogo por usarem fogo não autorizado ou não ordenado. Os duzentos e cinquenta rebeldes foram consumidos por fogo por usurparem o ofício sacerdotal, como se o homem pecador tivesse autoridade para instituir seus próprios ofícios ou formas de governo eclesiástico.
Em Deuteronômio 32:22, na Canção de Moisés, o grande líder e profeta nos diz o que acontecerá quando Israel provocar a ira de Deus por sua idolatria flagrante: — “Porque um fogo se acendeu na minha ira, e arderá até ao mais profundo do inferno, e consumirá a terra com a sua colheita, e abrasará os fundamentos dos montes”. O fogo divino da ira de Deus, acendido por pecados habituais e desafiadores, não conhece limites em sua força destrutiva. Alcança os frutos da terra, as profundezas dos montes e até mesmo os domínios sombrios dos mortos incrédulos. A ira de Deus contra o pecado e a rebelião é algo terrível e impressionante. Só podemos entendê-la se meditarmos na santidade e justiça infinitas de Deus. A ira e o julgamento de Deus são necessários devido à santidade e pureza de sua natureza.
Por meio de Jeremias, Deus advertiu os judeus a se arrependerem: — “[…] para que o meu furor não venha a sair como fogo, e arda de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras” (Jeremias 4:4). Em Jeremias 15:14, Deus acrescenta: — “E te farei passar aos teus inimigos numa terra que não conheces; porque o fogo se acendeu em minha ira, e sobre vós arderá”. Em Ezequiel, lemos sobre “o fogo do meu furor” (Ezequiel 22:21). Em Sofonias 1:18, o profeta advertiu o povo, dizendo: — “pelo fogo do seu zelo toda esta terra será consumida”. Naum falou, dizendo: — “A sua cólera se derramou como um fogo” (Naum 1:6). O inferno é comparado a Tofete (Jeremias 7:31 – 33) ou Geena, onde o verme não morre, e o fogo não se apaga (Isaías 66:24; cf. Ezequiel 20:47; Marcos 9:43 – 49), o lugar onde os pecadores impenitentes são lançados em uma fornalha de fogo (Mateus 13:40, 41). Haverá choro e ranger de dentes (Mateus 13:42). A punição final é ser lançado, corpo e alma, no lago de fogo (Apocalipse 20:15), pois a fumaça de seu tormento sobe para sempre (Apocalipse 14:11; 19:3). Jesus disse: — “Toda árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo” (Mateus 7:19).
Tudo isso nos dá um pano de fundo para o julgamento de Nadabe e Abiú por fogo da presença de Deus. Em Levítico 8, eles foram consagrados para fazer exatamente como o Senhor lhes ordenou. Em Levítico 9, sua ordenação é celebrada quando o sacrifício, que representa a morte expiatória de Jesus Cristo, é realizado pelo sacerdote e aceito por Deus. O Senhor, por meio do fogo, consumiu o holocausto e a gordura no altar (Levítico 9:24). Se confiamos em Cristo e em sua obra de redenção, o abate, o julgamento e o fogo da ira que merecemos são colocados sobre o Salvador. Os que não creem estão desprovidos de qualquer refúgio contra a santa e justa ira de Deus que se acende contra o pecado. Eles devem esperar apenas “uma certa expectação horrível de juízo, e ardor de fogo, que há de devorar os adversários” (Hebreus 10:27). Tudo isso flui da santidade e justiça de Deus.
4 – Posição e reputação.
A posição ou reputação anterior de Nadabe e Abiú são notáveis. Esses homens eram líderes religiosos altamente privilegiados devido à sua posição como primeiro e segundo filhos de Arão, o sumo sacerdote (Êxodo 6:23). Nadabe era a próxima pessoa na linha para se tornar o sumo sacerdote após a morte de seu pai. Sua posição eminente pode ser vista em Êxodo 24 durante a confirmação do Pacto. Deus disse a Moisés: — “Depois disse a Moisés: — Sobe ao Senhor, tu e Arão, Nadabe e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel; e adorai de longe” (Êxodo 24:1). Então, em Êxodo 24:9, 10, lemos: — “E subiram Moisés e Arão, Nadabe e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel. E viram o Deus de Israel, e debaixo de seus pés havia como que uma pavimentação de pedra de safira, que se parecia com o céu na sua claridade”. Arão e seus dois filhos mais velhos foram chamados a subir a montanha por causa de seu futuro chamado como sacerdotes. Havia três níveis distintos de aproximação: — [1] – Moisés; [2] – Arão, Nadabe e Abiú, bem como os setenta anciãos; [3] – bem abaixo, onde o povo foi mantido atrás de limites estabelecidos para sua própria segurança (Êxodo 19:12, 21). Aqui, Deus convoca Moisés e os líderes — tanto religiosos quanto civis — a subirem ao monte para adorá-lo e contemplar a sua glória. Nadabe e Abiú receberam o privilégio sublime de presenciar a presença especial de Deus, fazendo-o na qualidade de representantes entre Deus e o povo. A impressionante santidade do Senhor não anula seu propósito de estabelecer intimidade e proximidade com seu povo pactual. Essa comunhão, porém, foi firmada com base na expiação pelo sangue — ou seja, na mediação do Messias que haveria de vir (cf. Êxodo 24:4 – 6, 8). As estipulações deste Pacto — compreendendo os deveres éticos, cerimoniais, governamentais e cultuais — fluem da relação sacrificial estabelecida por meio da oferta vicária e sangrenta. Nadabe e Abiú deveriam estar plenamente conscientes de que os termos do Pacto, sobretudo aqueles relativos à salvação e ao culto, não eram deixados à imaginação humana, mas prescritos. Moisés escreve as palavras da Aliança e, mais uma vez, as lê em voz alta ao povo. Nadabe, Abiú, os anciãos e toda a congregação sabiam com clareza o conteúdo daquilo a que se obrigavam mediante juramento solene.
O Pacto é uma relação de amor e compromisso, um tratado entre Deus e Israel. É estabelecido com base no sangue de animais limpos derramado em sacrifício vicário, que simboliza a morte sacrificial de Cristo. As leis de Deus reveladas a Moisés são as instruções deste Pacto. O Pacto é de graça, pois somente Cristo pode remover o pecado, a culpa e a inimizade entre Deus e o homem pecador. A Lei do Pacto é para a santificação do homem e a manutenção deste Pacto. Quando não há fé, o povo corre para ídolos e quebra a Lei do Pacto.
A posição de Nadabe e Abiú agrava grandemente seu pecado ao oferecer fogo estranho, pois, como líderes religiosos de alto nível, tinham a responsabilidade de conhecer a verdade e ensiná-la e obedecê-la fielmente como exemplos e mediadores para o povo. Se os homens da Igreja têm a capacidade de decretar ritos e cerimônias na Igreja, como os artigos anglicanos ensinam e os evangélicos assumem, então certamente Nadabe e Abiú, com sua grande posição de autoridade na Igreja, teriam o direito de usar fogo e oferecer incenso da maneira que escolhessem. Mas eles não tinham. Eles tinham o dever de ensinar Israel no caminho da santidade, obedecendo às instruções de Deus e não adicionando ou subtraindo da Lei do Pacto de Deus.
5 – Identificação e natureza do pecado.
O pecado de Nadabe e Abiú é descrito em Levítico 10:1: — “E os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o Senhor, o que não lhes ordenara”. O pecado é especificamente identificado como fogo estranho. A palavra “estrangeiro” (זוּר–zûr) refere-se a algo que é estranho, profano ou não autorizado. É usada para descrever a mulher adúltera (ou seja, a mulher não legalmente autorizada a ter relações com o marido de outra mulher; Provérbios 2:16; 5:3, 20; 6:24; 7:5). Também é usada para descrever homens que não são sacerdotes legais e autorizados (Êxodo 30:33; Levítico 22:12; Números 16:40). O que o tornava estranho, profano ou não autorizado é declarado claramente no final do versículo: — “o que Ele (Yahweh) não lhes ordenara”. Em outras seções das Escrituras, aprendemos que o incenso prescrito só deveria ser queimado usando fogo ou brasas retiradas do altar. Em Levítico 6:13, aprendemos que os sacerdotes deveriam manter o fogo no altar queimando perpetuamente: — “O fogo arderá continuamente sobre o altar; não se apagará”. Em Levítico 16:12, 13, lemos qual fogo deveria ser usado para queimar o incenso santo no Dia da Expiação: — “Tomará também o incensário cheio de brasas de fogo do altar, de diante do Senhor, e os seus punhos cheios de incenso aromático moído, e o levará para dentro do véu. E porá o incenso sobre o fogo perante o Senhor, e a nuvem do incenso cobrirá o propiciatório, que está sobre o testemunho, para que não morra”. Além disso, quando Moisés ordenou a Arão que queimasse incenso e fizesse expiação para deter a praga do julgamento de Deus, ele disse em Números 16:46: — “Toma o teu incensário, e põe nele fogo do altar, e deita incenso sobre ele, e vai depressa à congregação, e faze expiação por eles; porque grande indignação saiu de diante do Senhor; já começou a praga”. As brasas no altar eram brasas santas especiais, pois o fogo havia se originado diretamente de Deus (sinal visível de sua aprovação e presença gloriosa). O fogo havia descido originalmente do céu sobre o altar. Sabemos que o incenso está associado à oração nas Escrituras. O porquê das brasas ter que vir do altar nunca é especificado. Provavelmente tem a ver com o fato de que nossas orações não podem ser reconhecidas e aceitas sem a obra redentora de Cristo. Quando a praga foi detida em Números 16, a expiação teve que ser feita, e então o incenso foi lançado sobre as brasas santas, formando uma nuvem densa. Arão, como um tipo de Cristo, fica entre os vivos e os mortos e coloca uma cobertura (kipper) sobre o povo para protegê-lo da ira de Deus. Jesus expia nossos pecados por sua morte sacrificial, intercede à destra de Deus por nós, e nossas orações são recebidas em nome de Cristo.
Este incidente gerou muita especulação devido à severidade de sua punição. Alguns argumentam que esses homens estavam bêbados, com base em Levítico 10:9, 10: — “Não bebereis vinho nem bebida forte, nem tu nem teus filhos contigo, quando entrardes na tenda da congregação, para que não morrais; estatuto perpétuo será isso entre as vossas gerações; e para fazer diferença entre o santo e o profano e entre o imundo e o limpo”. Segundo a tradição rabínica antiga, Nadabe e Abiú cometeram um sacrilégio ao oficiarem no tabernáculo enquanto estavam intoxicados. Há dois problemas sérios com essa interpretação. [1] – Quando o Espírito Santo especificou a natureza de seu pecado, nada é dito sobre embriaguez ou insinceridade. Eles foram julgados por Deus por inventarem ou criarem uma prática relacionada ao culto a Deus. Fizeram algo não autorizado ou ordenado por Deus. A ideia de que estavam bêbados é pura especulação. Se estivessem bêbados, isso teria sido observável e registrado por Moisés. O julgamento sobre eles foi severo, indicando que Deus realmente queria que Israel (e nós) aprendesse uma lição crucial sobre como se aproximar de Yahweh no culto. Se a lição específica aqui fosse não beber ou ficar bêbado antes de assistir, ou conduzir o culto, então Deus não nos diria isso claramente neste trecho para que todos pudéssemos entendê-lo imediatamente? O ponto ou lição óbvia que ele nos diz explicitamente é: — Eles fizeram algo “que Ele não havia ordenado” (Levítico 10:1). A razão pela qual os homens da Igreja frequentemente especulam sobre embriaguez é o simples fato de que rejeitam a razão clara (inequívoca) dada pelo próprio Yahweh: — Não foi ordenado, autorizado ou prescrito. Eles entendem que, se aceitarem a razão dada pelo texto, devem abandonar todas as suas invenções, inovações e tradições humanas no culto. Tal arrependimento radical e obediência estrita e fiel eles não estão dispostos a fazer. [2] – Uma das razões pelas quais os sacerdotes não deveriam beber bebidas alcoólicas, para serem sóbrios e atentos, está relacionada ao seu ministério de ensino. Não há indicação de que Nadabe e Abiú estavam ensinando durante as festividades. O desenvolvimento de um caráter bíblico disciplinado para conduzir o culto e o ensino é necessário, independentemente de suas ações presunçosas, antibíblicas e descuidadas naquele dia. Embora beber bebidas alcoólicas seja explicitamente proibido ao conduzir seu ministério no tabernáculo, não ignoremos o ensino claro de nosso texto: — Eles fizeram algo na esfera do culto que não foi ordenado por Deus.
Outro argumento é que Nadabe e Abiú ofereceram incenso estranho ou não autorizado, pois a Bíblia ordena uma receita específica para o incenso santo usado no templo e proíbe explicitamente o uso de qualquer outro tipo de incenso (Êxodo 30:34 – 38). Esse argumento é facilmente refutado se considerarmos as seguintes observações. [1] – A queima de incenso nas Escrituras nunca é chamada de oferta de fogo. O propósito do incenso é produzir fumaça, as brasas apenas permitem que o incenso queime. Se o problema fosse incenso estranho, então Moisés teria dito incenso estranho, não fogo estranho. [2] – Que o fogo não autorizado era o problema é indicado pelo julgamento deles: — Eles “ofereceram fogo estranho (ou não autorizado) perante o Senhor, o que não lhes ordenara. Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor” (Levítico 10:1, 2). Mesmo uma criança lendo este trecho concluiria que o julgamento correspondeu ao pecado. A maneira pela qual Deus os julgou (por fogo) indica a justa desaprovação de Deus ao uso de fogo não autorizado e não ordenado no culto sagrado.
Há uma lição aqui que é inconfundível se alguém tem ouvidos para ouvir. Enquanto em Levítico 9 contemplamos as grandes bênçãos e benefícios associados a se aproximar de Deus no culto exatamente como Ele ordenou, Levítico 10 nos ensina, solenemente, que Deus não aceita culto inventado, criado, concebido ou inovado pela mente do homem. De fato, é cristalino a partir desta seção das Escrituras que Deus não apenas se recusa a aceitar culto inventado ou inovado, bem como todas as tradições humanas no culto, mas odeia tal culto com um santo ódio. Yahweh, o Deus verdadeiro e vivo a quem servimos por meio de Cristo, não aceita culto voluntário ou culto criado pela mente de homens finitos e pecadores. Deus é tão santo quesó aceita culto que se origina por seu Espírito Santo.
Este ensino é tido como radical em nossos dias, e a imensa maioria dos homens da Igreja — e mesmo muitos cristãos — não está disposta a aceitá-lo; contudo, não há em nosso texto qualquer traço de ambiguidade, obscuridade ou dificuldade. Todo culto que vem da mente do homem é rejeitado, pecaminoso e odiado por Deus. Por que algo tão claro e óbvio é rejeitado por tantas Igrejas e cristãos professos? A resposta está em uma maneira de pensar baseada no humanismo e pragmatismo. A visão comum hoje é que, se um crente é sincero no que ele concebe, e a prática não é explicitamente condenada na Bíblia, então Deus aceitará essa prática e colocará sua aprovação e bênção sobre ela. Além disso, nos dizem, as pessoas amam essas inovações e tradições humanas. Elas atraem muitas pessoas que, de outra forma, não viriam.
Há muitos problemas com tal pensamento.
[1] – A noção de que inovações em Teologia, ética e na forma de se achegar a Deus quanto à salvação são claramente erradas e perigosas, mas que invenções na forma de cultuá-lo seriam boas e aceitáveis, contradiz frontalmente a própria natureza de Deus.
Uma vez que Deus é absolutamente santo e justo; é um fogo consumidor e habita em luz inacessível; a ideia de que podemos criar nossas próprias maneiras de adorar a Deus é absurda à primeira vista. Quando uma pessoa na terra se aproxima de um rei ou rainha em sua corte, ela é obrigada a seguir um certo protocolo. Não deve entrar vestindo bermudas, mascando chiclete ou fumando um cigarro, e é obrigada a se dirigir ao rei ou à rainha de maneira respeitosa. Praticamente todos sabem disso e reconhecem que o respeito pela autoridade, ou por aqueles no poder, exige isso. No entanto, quando se trata de se aproximar de Yahweh no culto, enquanto Ele está sentado em seu trono com o Cordeiro cercado por miríades de santos anjos, nos dizem que praticamente qualquer coisa serve. É óbvio que aqueles que rejeitam o Princípio Regulador do Culto estão considerando o culto de uma perspectiva humanística, antropocêntrica, arbitrária, egoísta e pragmática.
[2] – Não há nada em nosso texto que indique qualquer insinceridade ou motivos malignos por trás da inovação dos filhos de Arão.
Lendo o contexto e a história anterior de Nadabe e Abiú, temos todas as razões para acreditar que eles tinham boas intenções com suas ações naquele dia. Após um serviço de ordenação tão glorioso e uma demonstração tão impressionante do fogo flamejante de Yahweh consumindo o sacrifício que eles acabaram de testemunhar, por que, raciocinaram eles, seria errado, como exemplo de nosso amor, reverência e adoração, oferecer algum incenso com este fogo comum na presença imediata de Deus? Eles haviam sido recentemente consagrados. Estavam vestindo suas vestes sacerdotais especiais. O dia, de fato, era santo. Eles estiveram perto de Deus na montanha, pois o próprio Deus os convidou a subir. O que, pensaram eles, poderia haver de errado com algumas pequenas variações da Lei designada de Deus quanto ao culto de Yahweh? Mas todo esse pensamento humanístico e pragmático não teve efeito algum sobre o Senhor. Deus considerou toda essa sinceridade humanística como pecaminosa e maligna. Portanto, “saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor” (Levítico 10:2). É estranho e ilógico como muitas igrejas reformadas corrompidas, bem como grande parte do evangelicalismo moderno, tratam a questão do culto. Não consideram aceitáveis inovações teológicas, ainda que seus proponentes ocupem posições de autoridade e sejam sinceros em suas convicções. Tais inovações doutrinárias são prontamente rejeitadas — como, de fato, devem ser. Se alguém acrescenta algo arbitrário à ética revelada nas Escrituras, pastores e presbíteros reformados prontamente rejeitam tais adições como humanismo ou legalismo. E se homens da Igreja introduzem acréscimos à doutrina da salvação, tais pessoas são — com razão — imediatamente condenadas e, se necessário, disciplinadas. No entanto, quando se trata do culto ao Deus infinito, santo, único e verdadeiro, Criador de todo o universo, aí sim parece haver lugar para a preguiça, o humanismo, as inovações e as tradições humanas, como se fossem perfeitamente aceitáveis. Aqueles que rejeitam a lição de Nadabe e Abiú são culpados de seguir o mesmo pensamento que os filhos de Arão (uma espécie de pragmatismo humanístico). A permissão de inovações no culto, de acordo com nosso texto e a analogia das Escrituras, revela: — [A] – Uma lamentável ausência do devido senso da majestade, glória e santidade de Yahweh, com quem temos de lidar. Trata-se de uma omissão indesculpável. [B] – Uma falta de consciência apropriada acerca de nossa própria pecaminosidade, corrupção inerente e vileza moral. Não apenas há entre nós e Deus uma distância infinita em natureza e condição — pois somos criaturas finitas e pecadoras —, mas, em virtude dos remanescentes do pecado que ainda habitam em nós, não temos absolutamente nenhum direito de determinar os meios, métodos ou elementos pelos quais nos aproximamos de Deus no culto. [C] – Uma ousadia orgulhosa, carnal e mundana ao nos arrogarmos o direito de inventar deveres sagrados. Quando fixamos nossos olhos em quem Deus é — um fogo consumidor — e em quem nós somos — criaturas caídas, resgatadas unicamente pela graça soberana —, deveria brotar em nós um temor reverente, inseparável de toda aproximação dEle no culto. Contemplar como Deus tratou o culto humanista, pragmático e inventado deveria mover nossas almas a uma postura de profunda cautela, precisão e vigilância espiritual nessa área santa.
[3] – A ideia de que os homens podem criar o que desejarem no culto a Deus, desde que não seja expressamente condenado pelas Escrituras, é inviável historicamente e é uma negação implícita da uniformidade bíblica do culto que é necessária para uma compreensão escriturística da unidade da Igreja.
Se o conteúdo e os elementos do culto forem determinados pelos homens — limitados apenas por proibições explícitas —, então o pragmatismo, a opinião humana, a tradição e a popularidade inevitavelmente expulsarão, com o tempo, o culto bíblico. A história da Igreja, desde a era apostólica até o surgimento do catolicismo romano, atesta de forma contundente essa verdade. O culto simples e regulado da Igreja apostólica, com o passar do tempo, degringolou em pompa vazia, rituais cerimoniais e idolatria manifesta, como se vê no sistema romano. Os Apóstolos de Cristo jamais reconheceriam o culto romano como cristão; antes, o condenariam como idolatria pagã disfarçada de fé. Da mesma forma, à medida que Igrejas reformadas e presbiterianas passaram a redefinir ou abandonar a sola Scriptura, e especialmente o Princípio Regulador do Culto, seu culto afastou-se gradualmente do modelo bíblico — derrapando rumo a uma complexidade humanista e a uma estética moldada pela aceitação popular e mundana.
O Princípio Regulador é necessário e requerido, porque as Escrituras são perfeitas e suficientes, e o homem é caído, pecador e corrupto. Portanto, o homem não deve ser considerado digno de confiança para determinar o que Deus deseja no culto. Deus não precisou fornecer à Igreja do Antigo Testamento uma longa lista de fogos proibidos para uso no culto. Bastou-lhe designar um único tipo de fogo — o que procedia de sua presença —, e isso foi suficiente. O ensino explícito de nosso texto é claro e solene: — tudo quanto Deus não ordena no culto, Ele proíbe. A maioria dos cristãos professos hoje se ofende com esse princípio bíblico crucial e faz tudo o que pode para contorná-lo e evitar suas implicações. Mas Deus, sendo absolutamente santo e justo, não tem o direito de determinar como e com quais elementos e conteúdo o adoramos? Dada a doutrina da sola Scriptura e a da perfeição e suficiência das Escrituras, faz sentido que Deus permita autonomia humana no culto, que Ele fique impressionado com nossas invenções manchadas pelo pecado e centradas em nós mesmos? S.H. Kellogg resume belamente nossas observações até agora. Ele escreve: — “Esta, portanto, é a primeira lição desta trágica ocorrência. Lidamos com um Deus extremamente zeloso, que será adorado conforme sua vontade, ou de modo algum. E não podemos reclamar. Se Deus é o ser que as Sagradas Escrituras nos ensinam, deve ser seu direito inalienável determinar e prescrever como será servido. A segunda lição, quase igualmente clara, é que, para Deus, a intenção de fazer o bem, embora possa atenuar, não justifica a desobediência quando Ele já revelou sua vontade. Ninguém pode imaginar que Nadabe e Abiú tinham más intenções; ainda assim, por seu pecado, morreram. Além disso, somos aqui impressionantemente ensinados que, com Deus, uma alta posição não confere imunidade quando alguém peca; muito menos uma alta posição na Igreja. Pelo contrário, quanto maior a exaltação em honra e privilégio espiritual, mais rigorosamente um homem será responsabilizado por cada falha em honrar aquele que o elevou[5]”.
Note que homens em altas posições na Igreja não podem tornar santo o que é profano por argumentos inteligentes, votação majoritária ou decreto de um bispo. Uma oferta autônoma é uma oferta mundana e pecaminosa. Quando humanos, à parte da revelação de Deus e, portanto, à parte da autoridade divina, impõem suas próprias ideias, tradições ou invenções ao culto de Deus, eles não exaltam Deus, que nunca ordenou tais coisas. Pelo contrário, exaltam o homem e impõem uma forma de tirania religiosa sobre o rebanho. Quando simplesmente seguimos o que Deus ensinou, ordenou ou autorizou em sua Palavra, retemos a simplicidade do culto evangélico e vivemos sob a liberdade do Senhor — livres das doutrinas, mandamentos e ordenanças de homens pecadores e arrogantes. Portanto, nossa Confissão de Fé nos instrui sabiamente, dizendo: — “Deus sozinho é o Senhor da consciência, e a deixou livre das doutrinas e mandamentos dos homens que são, em qualquer coisa, contrários à sua Palavra; ou além dela, em questões de fé e culto. De modo que acreditar em tais doutrinas, ou obedecer a tais mandamentos, por consciência, é trair a verdadeira liberdade de consciência […]” (XX.2). Sobre boas obras, a Confissão diz: — “Boas obras são apenas aquelas que Deus ordenou em sua santa Palavra, e não aquelas que, sem a autorização dela, são concebidas pelos homens, por zelo cego, ou sob qualquer pretexto de boas intenções” (XVI.1). Sobre o culto, a Confissão diz: — “Mas o caminho aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo, e tão limitado por sua própria vontade revelada, que Ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens, ou as sugestões de Satanás, sob qualquer representação visível, ou qualquer outro caminho não prescrito nas Sagradas Escrituras” (XXI.1).
6 – O julgamento de Deus sobre o pecado de Nadabe e Abiú.
A seriedade de seu pecado é indicada pela punição, que foi imediata e mortal. Levítico 10:2 diz: — “Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor”. A frase “saiu fogo de diante do Senhor” é exatamente a mesma usada para descrever o que Deus fez aos sacrifícios que haviam sido oferecidos anteriormente. O fogo de julgamento que consumiu o sacrifício substitutivo agora é direcionado aos sacerdotes que ofereceram fogo estranho. Esse fogo veio diretamente de diante do Senhor. Saiu de cima do propiciatório, através do Lugar Santo e então atingiu ambos os inovadores sob sua nuvem de fumaça profana. Eles ofereceram fogo não autorizado (isto é, não ordenado), portanto, quase instantaneamente foram mortos por fogo. O fogo saiu como um relâmpago e os matou no local onde ofereceram fogo estranho. Quando os homens se aproximam de Deus da maneira que Ele prescreveu, o sacrifício é consumido como um sinal de que seu pecado é removido e, assim, o povo é abençoado. Mas quando os homens se aproximam de Deus com suas próprias ideias sobre religião no culto, eles são amaldiçoados por desobediência, autonomia humana e culto voluntário.
Este foi um julgamento público, terrível e assustador de Deus que, de uma perspectiva humana, parece muito severo. Mas devemos comparar este incidente, em certo grau, com o que ocorreu com Ananias e Safira logo após o estabelecimento do Novo Pacto. O Pacto Mosaico acabara de ser estabelecido. A Lei de Deus estava sendo escrita. O sacerdócio arônico acabara de entrar oficialmente em vigor. As instruções para a bênção do Pacto envolviam uma obediência sincera e habitual a tudo o que Deus havia ordenado, sem adicionar ou subtrair (Deuteronômio 4:2; 12:32). O povo havia prometido publicamente obedecer à Lei do Pacto duas vezes (Êxodo 19:8; 24:7). No entanto, aqui, logo após sua ordenação, Nadabe e Abiú estão adicionando sua própria cerimônia ou procedimento inventado ao culto de Deus que não havia sido ordenado. Yahweh estava fazendo, neste caso, um exemplo público de juízo. Esses homens agiram em seu ofício como sacerdotes. Estavam vestindo suas vestes oficiais ou uniformes sacerdotais. Conduziram sua inovação diante do santuário à vista de todo o povo. Se as ações desses homens não fossem tratadas imediatamente e com firmeza, toda a congregação do Senhor teria concluído que o culto voluntário ou inovações humanas no culto são aceitáveis e agradáveis a Deus. Portanto, Yahweh não apenas os atinge imediatamente, mas o faz de maneira chocante e dramática, projetada para identificar seu pecado. Eles foram mortos por fogo, e Moisés instruiu Arão e todo o povo que isso ocorreu porque o fogo que eles usaram não havia sido autorizado ou ordenado por Deus. Tenha em mente que, quando Deus estava no meio de estabelecer as regras ou princípios relacionados ao que é permitido no culto para todas as gerações futuras, Nadabe e Abiú estavam ensinando por exemplo público exatamente o oposto. Rushdoony chama suas ações de sacrilégio. Ele escreve: — “Aqui temos um exemplo de sacrilégio. Sacrilégio é o roubo direcionado contra Deus; é uma tentativa de violar sua soberania e apropriar-se do que pertence a Deus para o serviço do homem, ou de misturar as prerrogativas de Deus com a vontade humana. Deus não apenas reivindica nossas primícias e dízimos, mas também a nós mesmos e nossa vontade como seus para comandar. Somos propriedade e posse de Deus; fomos criados para seus propósitos, e não para os nossos. Não nos é dito que Nadabe e Abiú fizeram o que Deus havia proibido, mas o que ele não havia ordenado. Recebemos as leis da santidade, e nada que possamos fazer ou adicionar à Palavra–Lei de Deus pode aumentar nossa santidade; a autonomia, literalmente autolei, apenas nos torna profanos[6]”.
Essa ira pública vindicou a honra e santidade próprias de Deus. O Senhor é desonrado pelo culto humanístico centrado no homem. A nuvem de incenso que deveria ter sido um aroma agradável era um fedor profano e maligno porque foi acesa por brasas não autorizadas. O Senhor a quem servimos é um fogo consumidor.
Pode a reforma vir quando o culto de Deus é tratado como um show da Broadway e os homens veem o culto como algo que deve agradar o homem pecador? Se os homens considerassem o Nome de Deus como santo, encheriam o culto com truques humanísticos e nonsense[7] que agrada aos pagãos? No céu, os anjos entendem a santidade de Deus. Lá, sua reverência por Yahweh é total. Os anjos mais próximos de Deus devem cobrir seus rostos por causa da imensa glória do Senhor, mas os homens vêm a Deus no culto hoje com shows de marionetes, grupos de teatro, pastores comediantes e bandas de rock. Não há preocupação com o que agrada a Deus, mas apenas com o que agrada aos homens. O culto ordenado por Deus nas Escrituras é descartado como lixo sem valor, enquanto os homens se parabenizam por suas inovações inteligentes que enchem os bancos. Quando os homens declaram suas invenções carnais como santas e agradáveis a Deus, embora tais coisas não sejam ordenadas e, portanto, obviamente não possam ser santas, eles, em princípio, estão participando de uma espécie de idolatria. Eles honram a criatura em vez do Criador. Sempre mantenha em mente a santidade de Deus, sua gloriosa transcendência. Ele habita em luz inacessível. Você realmente acredita que tal ser fica impressionado com suas invenções humanísticas em relação ao culto? Se estudarmos cuidadosamente as Escrituras e meditarmos em oração sobre a majestade incompreensível e a santidade tremenda de Deus, então o buscaremos unicamente como Ele mesmo ordenou.
A severa punição aqui é destinada a nos ensinar a levar a sério o princípio ou regra principal de Deus para o culto a si mesmo. Isso é absolutamente fundamental para manter a pureza do culto e a fidelidade pactual ao longo do tempo. Uma vez que o Princípio Regulador do Culto é permitido ser violado, nada impede que uma montanha de corrupções entre com o passar do tempo. A Igreja de Cristo é uma instituição muito antiga, com quase 2000 anos. Se algo não ordenado por Deus passa a ser aceito a cada vinte anos, então, ao longo dos séculos, centenas de inovações que Deus abomina serão permitidas e florescerão livremente. Pense na Igreja papal, por exemplo. Eles têm uma montanha de tradições humanas corrompendo seu culto: — água benta, fazer o sinal da cruz, genuflexão, orações pelos mortos, bem como orações a Maria e aos santos; o uso de incenso, instrumentos musicais, dias santos criados pelo homem, a proibição de carne, celibato, extrema–unção, a missa, relíquias, velas, cruzes, sete sacramentos, penitência, confissão a um sacerdote, peregrinações, purgatório, limbo, o papado e a prelazia. Embora algumas dessas coisas sejam claramente proibidas, muitas só podem ser condenadas pelo Princípio Regulador do Culto.
7 – Continuação do julgamento e suas implicações.
Infelizmente, Israel não aprendeu a lição deste julgamento chocante por fogo. Eles sincretizaram seu culto com paganismo quase imediatamente e se enredaram com idolatria. O reino do norte adotou ritos sagrados não ordenados, dias santos não autorizados e um novo sacerdócio não levítico (completamente inventado). Deus destruiria o reino do norte em 722 a.C. A história do Antigo Testamento, bem como a história da Igreja cristã, nos ensina de modo claro e repetido que a natureza pecaminosa — mesmo entre o povo professamente de Deus — é fortemente inclinada às inovações e tradições humanas. Há em nós uma tendência remanescente ao culto voluntarista que deve ser vigorosamente combatida e sufocada em sua raiz. Igrejas reformadas que quebraram seus pactos e corromperam seu culto com entulho papista — como os dias santos não ordenados; métodos cerimoniais do culto judaico já ab–rogados, como o uso de instrumentos musicais no culto público; e hinos não–autorizados de composição humana e não–inspirada — defendem suas corrupções com paixão e até com ira, dizendo: — “Como ousas exigir prova nas Escrituras? Quem pensas que és para desafiar nossas tradições estimadas?”. Devemos compreender com clareza: — corrupções ou permissões de tradições humanas no culto caminham lado a lado com o abandono progressivo da doutrina bíblica de que os mestres e governantes da Igreja têm somente autoridade ministerial, e não legislativa. Pois, se os homens podem inventar elementos, conteúdos, cerimônias ou dias santos relacionados ao culto, então por que não aplicar também o pragmatismo humano e suas inovações à ética cristã e à disciplina eclesiástica?
A destruição de Israel e o cativeiro babilônico curaram a nação do sincretismo com o culto baalita e a idolatria, mas seu amor pela autonomia humana simplesmente tomou outras direções. Na época em que nosso Senhor andou na terra, o povo estava sobrecarregado com uma massa de tradições rabínicas adicionadas à Lei (uma sobreposição autônoma e humanística sobre a ética e o culto bíblicos) que fazia os homens desconsiderarem e não obedecerem aos mandamentos de Deus (Mateus 15:6). Aprenda a lição da história: — “Todo culto voluntário, em toda a sua infinita variedade de formas, tende a confundir a consciência, ao confundir os mandamentos de Deus com as práticas e tradições dos homens; e toda a história, não menos da Igreja do que de Israel, mostra que a tendência de todo esse culto voluntário é à subversão tanto da moralidade quanto da religião, ocasionando, muitas vezes, uma total incompreensão quanto ao que realmente é a essência da religião agradável a Deus[8]”.
O Senhor enfatizou esse julgamento pela remoção pública dos corpos mortos. Os dois homens agora eram cadáveres que profanavam o lugar santo. A natureza sobrenatural e dirigida por Deus do julgamento é ainda mais indicada pelo fato de que as vestes sacerdotais foram deixadas sem qualquer marca de queimadura. As roupas ou uniformes foram ordenados, mas os homens eram culpados, e o fogo atingiu apenas os culpados. Os primos de Arão, Misael e Elzafã (Levítico 10:4), foram instruídos a remover os corpos mortos e levá-los para fora do acampamento. Seus corpos mortos eram sinais do julgamento que vem sobre a autonomia humana e a quebra do Pacto — “Um profeta poderia ter apontado Israel adiante, daquela cena triste, para o dia vindouro de vergonha e vingança. ‘Eles sairão, e olharão os cadáveres dos homens que transgrediram contra mim. Pois seu verme não morre, e seu fogo não se apaga. Eles serão uma abominação para toda a carne’” (Isaías 66:24)[9].
Tais julgamentos instantâneos são raros nas Escrituras, onde o pecador culpado não é confrontado por outros crentes ou autoridades da Igreja e dado a oportunidade de buscar a Deus em oração, arrepender-se e confessar, dizendo: — “Senhor, pequei. Reconheço meu pecado e o abandono; tem misericórdia de mim”. Seu pecado foi tão sério e público que foram instantaneamente atingidos com morte súbita.
8 – A razão de Deus por trás deste julgamento especial.
Em Levítico 10:3, somos informados da explicação de Deus para a severidade e imediatismo do julgamento: — “E disse Moisés a Arão: — ‘Isto é o que o Senhor falou, dizendo: — Serei santificado naqueles que se chegarem a mim, e serei glorificado diante de todo o povo’”. Este foi um julgamento triste e devastador para Arão, que acabara de perder seus filhos primogênito e segundo nascido. Logo após esse julgamento, Moisés e Arão se aproximaram dos corpos mortos e olharam para eles. Moisés, o grande líder e profeta que frequentemente recebia revelações diretas de Deus, disse a Arão e ao povo como Deus queria que interpretassem o que acabara de ocorrer. O ponto que Yahweh faz é iluminador. Deus deve ser buscado apenas por meio da forma que Ele mesmo instituiu, ordenou e autorizou, pois Ele é santo. Entre os pagãos, o conceito de santidade era externo e quase mecânico. Os sacerdotes pagãos podiam fazer o que quisessem porque haviam sido separados ritualmente para seus deveres. Mas o conceito bíblico de santidade inclui a perfeição ética de Deus. Por Deus ser absolutamente santo, perfeito, transcendente e justo, Ele é a fonte da verdadeira ética, doutrina e culto, não o homem finito e pecador. Ir além da palavra de Deus e criar suas próprias regras de abordagem no culto é não honrar, reverenciar ou obedecer a Deus. Buscar melhorar o culto de Deus, adicionando inovações humanas a ele, é desonrar o que Deus ordenou como insuficiente e imperfeito. É agir como Eva em sua desobediência no jardim, abraçando a autonomia humana ou autolei.
Um dos propósitos centrais do culto bíblico é glorificar a Deus e proclamar ao mundo a sua transcendência e unicidade. Já o culto humanístico — ao acrescentar ou retirar da palavra de Deus — opera em sentido oposto, obscurecendo sua glória e profanando sua santidade. Ele honra e glorifica o homem pecador. Tal filosofia humanística é a principal fonte do farisaísmo e do romanismo. O povo pactual deve ser humilde e depender exclusivamente de Deus para ética, culto e doutrina. Por sua obediência habitual à Lei moral de Deus e uma obediência cuidadosa e exata ao se aproximar de Yahweh no culto (fazendo apenas o que Ele ordenou ou autorizou), o povo pactual deve reconhecer e declarar a santidade de Deus perante o mundo. A obediência é um sinal de fé. Ela revela uma satisfação, contentamento, confiança e aprovação do culto evangélico puro, simples e verdadeiro. Calvino escreve: — “Se refletirmos quão santa é a coisa que é o culto de Deus, a enormidade da punição de forma alguma nos ofenderá. Além disso, era necessário que sua religião fosse sancionada em seu próprio início; pois se Deus tivesse permitido que os filhos de Arão transgredissem com impunidade, eles teriam depois negligenciado descuidadamente toda a Lei. Esta, portanto, foi a razão para tamanha severidade, para que os sacerdotes vigiassem ansiosamente contra toda profanação[10]”.
Jeremiah Burroughs captura belamente o ponto da declaração de Moisés a Arão: — “‘Arão, embora eu reconheça que a mão de Deus pesa sobre você hoje, é justo que você se submeta a Ele. É apropriado que Deus seja glorificado, independentemente do que lhe aconteça. Você é precioso para Deus, mas o Nome de Deus é ainda mais precioso para Ele do que você. Independentemente das vidas de seus filhos, é justo que Deus seja honrado e seu Nome santificado, não importa o que ocorra com seus filhos ou seus consolos; portanto, que seu coração se aquiete. Você sofreu uma grande perda e aflição, mas Deus recebeu glória. Deus glorificou a si mesmo’. Como Deus glorificou a si mesmo? De maneira significativa, pois, por meio desse julgamento, Deus realizou um ato que fez todo o povo da terra temê-lo, levando-os a adorá-lo com toda reverência. Todo o povo da terra, ao ver e ouvir sobre esse julgamento, aprenderá para sempre a temer e reverenciar esse Deus. Eles dirão: — ‘Como nos apresentaremos diante desse Deus santo? Precisamos ter cuidado em sua presença e adorá-lo conforme Ele deseja ser adorado’. É como se Moisés dissesse: — ‘Esta honra que Deus obteve, gravando-se nos corações do seu povo por este meio, deves considerá-la bem maior do que as vidas de teus filhos, sejam eles quem forem’. Esse é o propósito do discurso de Moisés a Arão[11]”.
A Lei do Pacto era clara. Tudo feito no culto tinha que ser ordenado. Não há nada ambíguo ou difícil sobre a sola Scriptura, ou o Princípio Regulador do Culto. Quando Nadabe e Abiú ofereceram fogo estranho ou não autorizado, eles estavam violando a Lei do Pacto e agindo publicamente em claro desafio a Deus. Adicionar suas próprias ideias, elementos ou conteúdo ao culto de Deus é um ato de rebelião flagrante, pois, não apenas é uma clara violação do que Deus ordenou, mas também é uma negação implícita da santidade e glória única de Deus. O que Yahweh nos diz por meio de Moisés é que a maneira como nos aproximamos dEle no culto não é arbitrária, mas está enraizada na sua própria natureza. Se o culto fosse puramente circunstancial e, portanto, pudesse ser moldado pela cultura de alguém ou pelas tradições queridas de alguém, então Deus obviamente não se ofenderia com invenções humanas. Além disso, se alguém pensa que a punição de Deus sobre Nadabe e Abiú foi muito severa ou dura, então ele não entende da santidade e justiça de Deus. R.C. Sproul explica: — “Como conciliamos esta narrativa com o que Gênesis ensina anteriormente sobre o caráter da justiça de Deus? Gênesis afirma que o juiz de todos fará o que é certo (Gênesis 18:25). A suposição básica de Israel é que os julgamentos de Deus são sempre de acordo com a justiça. Sua justiça nunca é injusta, nunca caprichosa, nunca tirânica. É impossível para Deus ser injusto, porque sua justiça é santa[12]”.
A principal aplicação do ensino de Deus por meio de Moisés em Levítico 10:3 é dada ao sacerdócio ou à liderança eclesiástica. Os homens que são santos e separados para Deus para ofertar e ensinar são julgados por um padrão muito alto. Espera-se que executem as instruções de Deus referentes ao culto exatamente como foram ordenadas por Ele, sem desviar para a direita nem para a esquerda. Devem cumprir fielmente cada jota e cada til da Palavra inspirada, sem negligenciar nenhum preceito, tampouco inventar novos modos, caminhos, tradições ou formas de culto. Deus exige uma obediência pronta, sincera e integral aos seus mandamentos, sem diluir ou obscurecer o que foi revelado por meio de invenções humanas ou por ignorância voluntária.
O Antigo Testamento está repleto de severas advertências que reforçam este princípio com firmeza inexorável. Em Números 20, Moisés foi proibido de entrar na terra prometida porque, ao ser ordenado por Deus que falasse à rocha diante de Israel para dela sair água, preferiu golpeá-la com a sua vara. Na palavra de Deus: — “Porquanto não crestes em mim, para me santificardes diante dos filhos de Israel, por isso não introduzireis esta congregação na terra que lhes tenho dado” (Números 20:12). Moisés deixou de cumprir a ordem divina, substituindo-a por sua própria ação ou julgamento, ato que revela a raiz do problema: — a falta de fé e a recusa em honrar a santidade do Senhor. Essa advertência ecoa com vigor em todo o desígnio do culto. Outro exemplo pungente é Uzá, amigo do rei Davi, que ao tentar estabilizar a Arca de Deus estendeu a mão e tocou-a, sendo mortalmente ferido por isso (2 Samuel 6:7). Embora piedoso, Uzá tornou-se exemplo público de desobediência, por ignorar a palavra do Senhor e o procedimento ordenado por Moisés (1 Crônicas 15:13 – 15). Este episódio revela o Princípio Regulador do Culto: — Nele não há espaço para pragmatismo, inovação ou concessão aos caprichos humanos. O que aos olhos humanos possa parecer correto ou desejável é irrelevante diante da ordem sagrada. Tradição e criatividade humanas jamais podem ser fonte legítima de autoridade no culto divino. Tudo o que não se fundamenta nas Escrituras é profano, inaceitável e pecaminoso. Como afirma a Confissão Belga: — “Devemos nos satisfazer com as ordenanças que Cristo e os Apóstolos nos ensinaram” (Artigo 35). Assim, rejeitamos todas as invenções humanas e quaisquer leis que o homem queira introduzir no culto de Deus, que prendam e imponham as consciências de qualquer forma.
9 – Implicações para hoje.
A implicação de tudo isso, para os nossos dias, é manifesta e incontornável. Todos os ministros e presbíteros devem manter-se vigilantes contra qualquer inovação no culto que ouse adentrar a Igreja do Senhor. Como supervisores do rebanho de Deus, cumpre-lhes zelar para que somente o que foi ordenado por Ele seja praticado no santo ajuntamento. Os primeiros presbiterianos dos tempos da Primeira e da Segunda Reforma foram diligentes e fiéis nesse dever sagrado. Com zelo piedoso, purgaram da Igreja todas as tradições pagãs e romanistas que haviam-se infiltrado ao longo dos doze séculos anteriores.
Práticas como o uso de incenso e de instrumentos musicais — ambos elementos levíticos e cerimoniais, próprios da antiga dispensação — foram abolidas. Dias santos forjados por mãos humanas, tais como a Quaresma, o Natal, a Páscoa, a Quarta-feira de Cinzas e outros, foram rejeitados como invenções não ordenadas por Deus; e qualquer um que os praticasse era submetido à disciplina eclesiástica. Ritos supersticiosos como o sinal da cruz e o uso da água benta foram deixados para trás, como sombras profanas que não têm lugar no culto espiritual da Nova Aliança.
A rejeição de toda tradição humana no culto divino encontra clara expressão no “First Book of Discipline (Primeiro Livro de Disciplina)” (1560), que condena a missa, a invocação dos santos, a veneração de imagens e a observância de todos os dias santos e festas “que os papistas inventaram”, bem como “toda honra a Deus não contida em sua santa Palavra”. Essas vitórias foram solenemente ratificadas no “National Covenant (Pacto Nacional)” de 1580, com o intuito de consolidar as conquistas reformadas e de preservá-las intactas para as gerações futuras, contra toda forma de regressão ou corrupção. A Segunda Reforma, em 1638, concordou com as reformas anteriores e na Assembleia Geral de Glasgow, aboliu totalmente a prática do calendário cristão ou dias santos criados pelo homem “porque não são ordenados nem garantidos pelas Escrituras” (Ato sessão 17). A posição da Igreja Escocesa e dos puritanos na Inglaterra é bem representada pelas respostas às perguntas 107 e 108 no Catecismo Maior de Westminster: — “Os pecados proibidos no Segundo Mandamento consistem em todo planejamento, aconselhamento, ordenação, uso ou, de qualquer modo, aprovação de qualquer culto religioso que não tenha sido instituído pelo próprio Deus. Os deveres requeridos neste mandamento abrangem a recepção, observância e manutenção puras e integrais de todo culto religioso e ordenanças conforme Deus as estabeleceu em sua Palavra; em particular, a oração e ação de graças em nome de Cristo; a leitura, pregação e escuta da Palavra; a administração e recepção dos sacramentos; o governo e disciplina da Igreja; o ministério e sua sustentação; o jejum religioso; o juramento pelo nome de Deus e a confissão de votos a Ele; assim como a desaprovação, detestação e oposição a todo culto falso; e, conforme o lugar e chamado de cada um, a remoção desse culto e de todos os monumentos de idolatria”.
A aplicação do caso de Nadabe e Abiú, feita pelo próprio Deus, suscita uma questão grave e pertinente: — Estarão os presbíteros e pastores presbiterianos e reformados modernos firmes como guardiães do culto puro, conforme a clara exigência da Palavra divina em nossos dias? Com poucas exceções — como a Igreja Presbiteriana Livre da Escócia, a Igreja Livre Continuada, o Presbitério Reformado (Steelitas), a Igreja Presbiteriana de Westminster e algumas Igrejas reformadas independentes — a resposta é negativa. O Princípio Regulador do Culto foi em grande parte abandonado, cedendo lugar a um culto de vontades humanas e pragmatismo — como se observa na Igreja Presbiteriana Ortodoxa, na Igreja Presbiteriana na América e nas diversas comunhões reformadas conservadoras holandesas e alemãs — ou mantido de forma inconsistente, como na Igreja Presbiteriana Reformada da América do Norte. Em termos gerais, pode-se afirmar que as Igrejas presbiterianas “conservadoras” contemporâneas têm demonstrado maior zelo em preservar tradições humanas e inovações recentes do que em sustentar exclusivamente o que Deus ordenou. Hoje, não há um real esforço para aplicar o Princípio Regulador do Culto, pois, no culto público, a sola Scriptura foi substituída pelo pragmatismo e pelo apego às tradições humanas. Por isso, o culto na vasta maioria das Igrejas reformadas não difere substancialmente das práticas de Igrejas evangélicas arminianas, que jamais conheceram o Princípio Regulador.
Em tais Igrejas, a grande parte dos fiéis se satisfaz plenamente com suas tradições humanas e corrupções não ordenadas. Ademais, quando surge um homem de Deus que se opõe ao culto de vontades humanas e busca restaurar os padrões da Confissão de Westminster e dos Pactos, é tratado como insensato e iludido.
O culto nas Igrejas reformadas encontra-se, assim, comprometido e corrompido; tais acréscimos humanos foram tolerados por tanto tempo que já não são mais considerados pecado por muitos presbiterianos professos. Contudo, essa postura frouxa, profana, autônoma e pagã diante do culto deve ser veementemente rejeitada.
O episódio do fogo estranho, ou não autorizado, nos ensina que Yahweh, nosso Deus da Aliança, infinitamente santo, cuida profundamente de como nos aproximamos dEle no culto. Ele é zeloso de seu santo nome e rejeita enfaticamente tudo que não está autorizado pela Escritura.
A atitude moderna para com o culto não é reverente, respeitosa ou fiel; tem muito em comum com a abominável Igreja papal. Se os líderes eclesiásticos não cumprirem uma das tarefas mais essenciais do seu ministério — guardar com zelo a pureza do culto —, a Igreja inevitavelmente derivará rumo a Roma.
Diante de nós está a escolha decisiva: — autonomia humana ou teonomia divina.
Paz e graça.
[1] Por Brian Schwertley (2021).
[2] Gordon J. Wenham, The Book of Leviticus (Grand Rapids: Eerdmans, 1979), p. 141.
[3] Ibid., 143.
[4] R.K. Harrison, Leviticus: An Introduction and Commentary (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1980), p. 100.
[5] S.H. Kellogg, The Book of Leviticus (Minneapolis: Klock & Klock, [1899] 1978), p. 240 – 241.
[6] R.J. Rushdoony, Leviticus (Vallecito, CA: Ross House Books, 2005), p. 95 – 96.
[7] Algo sem sentido, absurdo, tolice, disparate.
[8] S.H. Kellogg, The Book of Leviticus, p. 245 – 246.
[9] Andrew Bonar, A Commentary on Leviticus (Carlisle, PA: Banner of Truth, [1846] 1989), p. 197.
[10] John Calvin, (Grand Rapids: Baker, 1980), 3:431.
[11] Jeremiah Burroughs, Gospel Worship or The Right Manner of Sanctifying the Name of God in General (Ligonier, PA: Soli Deo Gloria [1648] 1990), p. 10 – 11.
[12] R.C. Sproul, The Holiness of God (Wheaton, IL: Tyndale, 1985, 98), p. 103 – 104.
[13] Pr. Dr. Plínio Sousa — Tradutor: — notas e significações.