SERMÃO SOBRE JÓ 1:9 – 12

Por João Calvino.

“Mas Satanás respondeu ao Senhor, dizendo: Acaso é por nada que Jó teme a Deus? Porventura não tens posto uma sebe em volta dele, da sua casa e de tudo o que ele tem? Tens abençoado o trabalho das suas mãos, e os seus bens multiplicam-se na terra. Mas estende a mão agora, toca em tudo quanto ele tem, e ele te amaldiçoará no teu rosto! Disse o Senhor a Satanás: Eis que tudo o que ele tem está ao teu dispor; somente contra ele próprio não estendas a tua mão. E saiu Satanás de diante do Senhor”.

Embora o Diabo aqui esteja fazendo seu mister, que é o de perverter todo o bem, acusando falsamente a Jó, como se este fosse um hipócrita, sem embargo, ele descobre o mal que existe voluntariamente nos homens, ao qual somos inclinados por natureza. Pois, como é astuto e velhaco, sabe bem de que lado nos atacar. Reparemos então que aqui o diabo revela um vício pelo qual estamos todos manchados até que Deus nos cure dele por sua graça: isto é, que nos períodos de prosperidade conseguimos bendizer a Deus. Contudo, se esse nos aflige, mudamos a conversa e então começamos a murmurar contra Ele, esquecendo-nos de todo o louvor que lhe atribuíamos enquanto nos tratava segundo nosso desejo.

Desta forma, há muitos hipócritas que só são conhecidos e descobertos quando Deus os aflige. Porque, enquanto estão na comodidade e no descanso, não demonstram a rebelião que neles há, ela fica oculta. Eis por que as Escrituras nos mostram com tanta frequência que Deus prova os Seus, examinando-os por meio das aflições, colocando-os na fornalha qual ouro, não apenas para serem purgados, mas também para serem conhecidos (1 Pedro 1:7). Pois as aflições têm duas utilidades: uma delas, mortificar Deus os vícios que existem em nós. Quando Ele nos aflige, somos domados, Ele manda que nos retiremos deste mundo e que não sejamos dados às nossas volúpias e delícias carnais. A outra é que, tal como na fornalha o ouro é provado, para que se conheça se há escória, assim também Deus revela o que nós somos ao nos atribular.

Porque os homens não conhecem a si próprios antes de serem assim provados. Antes de havermos passado pela peneira, temos a impressão de que tememos a Deus, de que não há o que censurar em nós, não obstante, há as imperfeições que nos são desconhecidas. Ele no-las revela, Ele faz com que a sintamos quando envia alguma angústia, algum desgosto, e então percebemos qual é a nossa fraqueza. Ora, se Deus faz com que as aflições de Seus fiéis sirvam como um espelho no qual esses se contemplam, com mais forte razão mostrará aos outros os seus, se há nos corações destes fé e obediência, se são hipócritas ou se o servem em verdade.

Isso é o que temos para observar nessa passagem, e, de fato, a experiência no-lo demonstra. Pois vemos muitos assim, os quais, quando Deus lhes envia tudo que lhes apetece, sua fala é doce como açúcar, segundo se diz, esse bom Deus será tão louvado por suas maravilhas, sim, quando encontram seus pratos cheios, nada lhes faltando, Ó, lhes é bastante fácil confessar que Deus é bom. Contudo, se Ele começa a lhes tratar rudemente e as coisas não vêm do seu agrado, eles se aborrecem. Se Deus continua a proceder com severidade ainda maior, então irrompem em murmuração, sim, arrotando blasfêmias contra Ele, mesmo que não as pronunciem pela boca, seu coração está repleto de veneno, de maneira tal que seguram sua cólera, indignando-se contra Deus por ele não os tratar da forma como querem. Vedes então como, na época de prosperidade, há muitos que bendizem a Deus, mas isso não é senão hipocrisia dos que não querem fazer isso, pois são piores que aqueles que se iludem de tal modo que ignoram seus vícios. Sendo assim, pois, reparemos que Satanás considerou aqui os males pelos quais os homens estão maculados. Percebemos também com que inimigo temos que lidar: — ele nos espreita e espia de todos os lados para ver onde consegue uma entrada para nos ferir.

Em vista disso, então, atentemos bem que, quando tivermos louvado a Deus e o tivermos servido no tempo de prosperidade, isso não é tudo: — porém, devemos nos preparar para, quando aprouver a Deus nos atormentar e nos submeter a muitos males e misérias, apesar disso, açaimarmo-nos, para termos essa humildade de a ele nos subjugarmos, para sermos pacientes e calmos para receber todas essas correções. Se não chegarmos a tal prova, quer dizer, se não formos pacientes quando Deus nos afligir, todo o serviço que lhe fizermos não será grande coisa. É verdade que Deus aceita bem os Seus nos tempos de prosperidade, mas em qualquer caso, devemos considerar a razão por que nos faz passar por essa peneira de aflições. Por conseguinte, então, temos que guardar bem essa doutrina aqui. E, de resto, quando é dito aqui que os homens, estando atribulados por aflições, maldirão a Deus na face, é verdade que tal não se dá ao primeiro golpe, pois ainda há alguma reverência a Deus gravada em nós, tal que suportamos algum descontentamento. Bem, nós gemeremos em segredo, nós ficaremos contrariados e agastados, mas abrir a boca para blasfemar de Deus ainda nos horroriza.

Quando estivermos assim entristecidos e o mal aumentar ou perdurar por tempo demasiado, então se acende como fogo a nossa impaciência e começamos a vomitar o que antes estava abrigado em nossos corações. Vedes como, com o tempo, os que são afligidos maldirão a Deus na face, ou seja, extravasando além da medida, não mais apreendendo a majestade divina para se humilhar debaixo dela, não sabendo que, se forem rebeldes, não mais terão essa apreensão de seu juízo que os impediria de ultrapassarem os limites.

Desta sorte, temos bom motivo para orar a Deus, a fim de que faça refrear tanto nossas línguas quanto os nossos corações e que nunca permita que incorramos nesse excesso de o maldizer abertamente, mas em vez disso, que o resultado dos castigos que Ele nos envia seja tão ditoso que se nos torne em proveito e salvação, visto ser esta a Sua intenção quando nos aflige. Eis o que temos que depreender dessa passagem.

Observemos, porém, que Satanás, embora seja o pai da mentira, fala aqui a verdade quando diz que Deus era como uma muralha para Jó, e que guarnecia sua casa de todos os lados, e que Ele o fazia prosperar. Vedes como ele se transfigura em anjo de luz (2 Coríntios 1:14). Porque, estando diante de Deus, ele tem que expor as coisas como são, pois não há lugar para se valer de tais embustes, como usados com os homens para ludibriá-los. Desse modo, Satanás pega princípios que são verdadeiros, só que para aplicá-los mal, porque ele nada quer senão a perdição de Jó. Ora, ele diz que Deus era para esse uma defesa. Saibamos então que, para sermos sustentados neste mundo, Deus deve colocar nisso a mão, pois o que é a nossa vida, e a quantas necessidades ela está sujeita? Não podemos então subsistir um minuto se não formos conservados pela graça divina.

De igual maneira, tudo o que possuímos precisamos ter de Deus, que nos abastece. Com efeito, quem é que fala aqui? Satanás, o mesmo que virá nos arruinar inteiramente se não estivermos, por assim dizer, bem murados, se Deus não nos servir de baluarte, como ainda veremos no decorrer do texto. Porque, tão logo Satanás obtém sua permissão, vemos como ele pilha todos os bens de Jó, e com que impetuosidade ele o faz.

Antes, então, era preciso que Jó estivesse munido da graça de Deus e que ela lhe servisse de muralha em todo o derredor. Ora, essa doutrina nos é bem útil, pois somos admoestados através dessa para orar a Deus para que se compraza em nos guardar, visto que, estando neste mundo, estamos como que em uma floresta cheia de bandidos. Eis também porque nas Escrituras estes títulos aqui lhes são atribuídos: nosso escudo, broquel, muralha, trincheira, baluarte, bastião, torre e fortaleza.

Porque é que as Escrituras usam tantos termos para denotar que a proteção de Deus é forte?

É para que sejamos ensinados que sem Ele pereceremos cem mil vezes por dia e que Ele deve velar incessantemente pela nossa segurança. Vedes, pois, como eu disse, que é necessário que os homens saibam que sua vida nada é, que ela é mais frágil que qualquer outra coisa, que ela está sujeita a uma infinidade de mortes, de modo que através disso apela-se a eles para que orem a Deus a fim de que Ele os guarde. E, quando tiver chegado aquele dia de suas vidas, necessariamente conhecerão que Deus os sustentou, e atribuir-lhe-ão o louvor de tudo. Isso é o que temos a observar nessa passagem.

Ora, se Satanás, que é o inimigo de toda verdade, confessa que é Deus a muralha dos homens (e é constrangido a falar assim, como se estivesse sob tortura), considerando que Deus nos faz provar a sua virtude, fazendo com que a sintamos, que ingratidão será se fizermos confissão inferior à de Satanás, o qual, por suas mentiras, nada mais quer senão empanar, sim, anular totalmente a graça divina, com o feito de que esta fique desconhecida?

Desse modo, pois, vemos que os que não refletem sobre essa proteção de Deus são piores que o diabo, e forçosamente se tornam embrutecidos, sim, de todo enfeitiçados. Quanto a essa frase, é isso.

Subsequentemente, é dito que Deus deu permissão a Satanás para fazer o que bem lhe parecesse sobre todos os bens de Jó, menos tocar na pessoa desse. Aqui, à primeira vista, pode-se admirar de Deus permitir que Jó, seu servo, ficasse ao arbítrio de Satanás. Convém que o diabo tenha tal crédito para com Deus, que, quando pede licença a esse para nos fazer mal, seja-lhe outorgada? E dá a impressão que Deus lhe favorece, dá a impressão que Deus, no entretempo, brinca conosco como que com uma bola. Reparemos, porém, que, quando Deus permitiu isso a Satanás, não foi para o agradar, Ele não foi movido pelo pedido de Satanás, tampouco induzido a consentir que Jó fosse afligido daquele jeito.

Ele já havia decretado isso em seu conselho antes de Satanás haver emitido qualquer palavra, antes de esse haver feito tal pedido. Deus queria afligir Seu servo, e o queria por causa justa, a qual nos foi desvendada. Contudo, quando ela nos for desconhecida, devemos abaixar a cabeça, dizendo que Deus é justo e imparcial em tudo o que faz. Este, então, é o primeiro ponto que temos que notar, a saber, que Deus aqui não atendeu Satanás como se fosse movido por suas solicitações, porém pela sua boa vontade, querendo afligir Jó, concedeu a Satanás o que pediu. Sim, para envergonhar a esse e para obter um triunfo maior contra ele, deixando-o confundido. Pois esse calculava que Jó amaldiçoaria a Deus na face, isto é, blasfemaria de boca cheia quando fosse maltratado daquela forma severa. E por que agiu assim? Porque Satanás leva em conta quem nós somos, a saber, que logo nos derramamos como água, que nossa virtude nada é.

Entretanto, ele não apreende a graça de Deus, o quanto ela é forte e invencível em nós. É verdade, apesar disso, ele a sente e experimenta, no entanto, não a conhece. E vedes como ele se engana, vedes sobre o que ele faz o seu cálculo, que quando consegue ter sua licença para nos atormentar, seremos logo vencidos, seremos de imediato tragados pela tristeza e que, nesse desespero, blasfemaremos de Deus. Eis o que Satanás espera e o que ele tenciona. Sim, mas Deus lhe resiste, e zomba dessa sua esperança, visto que interpõe antes a graça de Seu Espírito Santo e Satanás fica confuso ao ver que não pode atingir aquilo que queria tentar contra os servos de Deus, que tudo resultou no contrário, no oposto de sua intenção.

Assim sendo, Deus, conhecendo qual seria o resultado das aflições de Jó, havia determinado em Seu conselho afligi-lo, sim, sem ser incitado a isso por Satanás. Mas por que, então, as Sagradas Escrituras nos dizem aqui que isso foi feito por requisição de Satanás?

Ora, isso se dá por dois motivos. Primeiro, para que, quando formos vergastados por Deus, saibamos que é Satanás quem o solicita, sim, para com isso nos colocar em desespero. E São Paulo nos revela tal coisa no trecho que citamos dias passados (Efésios 6:12), que guerreamos contra as potências espirituais, não contra a carne e o sangue. Então, assim que nos sobrevier algum mal, saibamos que Satanás o maquinou, a fim de que resistamos a ele pela fé e estejamos munidos e armados do poder de Deus, conhecendo que aquele tem um tão grande poder contra nós, para que recorramos àquele que pode nos fortalecer. Eis, pois, a que as Escrituras se referem.

Depois, em segundo lugar, também nos quer mostrar a paternal bondade de Deus para conosco ao nos sustentar como Seus filhos, não dando a licença que nosso inimigo bem desejaria ter sobre nós e também não deixando que ele tenha prazer em nos afligir, pois não sabe esse que isso é apropriado para a nossa salvação. Verdade é que devemos ter isto como algo inabalável, se não soubermos o porquê de Deus nos afligir, todavia, confessemos sempre que Ele é justo.

No entanto, devemos ainda ter esta doutrina gravada em nossos corações, a saber, que Deus nos ama tão ternamente que não quer senão nos abater, nos poupar, nos ter como que em seu regaço – eis como as Escrituras falam disso. Agora, pois, quando vemos Satanás querendo acender o fogo, pedindo a Deus que Jó seja perseguido, notemos que as Escrituras nos revelam que Deus não nos trata tão severamente à toa, que não é para sermos perseguidos por nosso inimigo, visto que Ele não quereria outra coisa que não nos ter em repouso e comodidade se nos fosse conveniente, mas porque é bom que sejamos assim exercitados pelas aflições, sim, pelas mãos de Satanás. Então Deus a permite, posto que Ele sabe ser bom e proveitoso para nós. Isso, digo eu, é o que temos a observar.

Ora, sendo assim, tomemos um exemplo diverso. No primeiro livro dos Reis, no último capítulo, também se fala de como Ele realiza suas conferências decisórias (a tenu ses assises – realizou a Sua sessão), há uma descrição tal como está aqui, que o Profeta viu a Ele, o qual estava assentado sobre seu trono e que lá perguntava: — “Quem enganará Acabe por mim?” Satanás não se antecipou a Deus nesse caso, não veio dizer: — “Se me deres permissão para iludir Acabe, eu farei tudo o que quiseres”.

Porém, é Deus quem inicia, dizendo: — “Ó, encontrarei Eu um espírito de mentira que vá ludibriar Acabe? Porque quero que ele submerja até às profundezas do inferno”. Ora, por que Ele fala desse jeito? Porque se trata de executar uma justa vingança contra um hipócrita, um desprezador cheio de crueldade, um inimigo mortal de todo bem. Este é Acabe, que perverteu totalmente o serviço de Deus, que o profanou totalmente com seus ídolos, estando cheio de rebelião e de maldade contra os Profetas e não querendo dar ouvidos a admoestação alguma.

Ao ficar esse endurecido dessa forma em suas depravações, de modo tal que nada se ganhava ao querer trazê-lo de volta ao reto caminho, havendo Deus tentado tudo e visto que é um homem perdido, então Ele convoca uma reunião para deliberar (tient ses assises – realiza a Sua sessão), perguntando: — “Quem enredará Acabe?” Porque Deus quer ali cumprir Seu ofício de juiz. Percebemos então que, quando Deus quer punir os maus e executar contra ele sua ira segundo o que merecem, não espera para ser solicitado por Satanás, mas se antecipa a este.

Nessa passagem, quando se trata de afligir Jó, ou seja, de Deus tratar severamente um de Seus filhos, isso deve se suceder pela perseguição do inimigo. Eis a diferença que nos revela a razão pela qual o pedido de Satanás nessa passagem lhe é concedido. Sendo assim, atentemos bem para o fato de que as Escrituras, de todos os modos, quer sempre nos instruir a glorificar a Deus e que, conhecendo a bondade dEle para conosco, tenhamos motivo para o exaltar. Todavia, que aprendamos que a vingança divina contra todos os maus é justa, e que, se Ele castiga, está exercendo Seu ofício, com o objetivo de ser temido, receado e honrado em todo o mundo. Isso é o que temos que guardar.

Apesar disso, pode-se ainda achar estranho a maneira com que Deus se serve de Satanás. Porém, já dissemos que, se não ficarmos bem resolvidos sobre este ponto – que os demônios estão sob a direção de Deus, de tal modo que nada podem fazer sem sua licença – derramar-nos-emos como água. Há mais, a saber, que os demônios são como verdugos para executar os juízos de Deus e as punições que Ele quer realizar sobre os perversos. Eles são também como açoites pelos quais Deus castiga Seus filhos.

Em resumo, o diabo tem que ser o instrumento da cólera de Deus, executando à vontade desse. Não que a faça de bom grado, como dissemos, mas é por Deus deter o poder soberano sobre todas as criaturas, as quais devem se sujeitar a Ele e se voltarem para onde bem lhe parecer. Contudo, há aqui uma grande divergência, a qual temos que notar, pois, quando Deus permitiu que Satanás afligisse Jó, disse ao segundo: — “Vê que podes destruir todos os seus haveres, mas não toques em sua pessoa”. E, mesmo depois que esse arruinou todos os bens, diz: — “Tu podes tocar na pessoa dele, mas não te aproximes de sua alma”.

Nisso ainda vemos que Deus sempre guarda a alma de Jó, de modo tal que Satanás só o pode atormentar em seus bens, em sua vida mortal e em sua honra, posto que não possui poder para entrar até na alma, para fazer Jó cair em erro e extravasar em impaciência. Isso será melhor entendido pela analogia contrária. Quando Deus consente que Satanás execute sua ira sobre os incrédulos, não somente permite que ele aflija-os em seus bens, aflija-os com doenças ou de outra maneira qualquer, mas vai mais além, dando-lhe o poder do erro e de poder enganar, como no já mencionado exemplo de Acabe.

Vede Deus dizendo: — “Quem seduzirá Acabe por mim?” E Satanás diz: — “Eu serei espírito de mentira na boca dos Profetas dele”. Vemos aí uma licença que é muito maior do que esta aqui citada: — pois não é apenas questão de que Acabe seja ludibriado por algum meio exterior, mas vedes os Profetas que o iludem sob aparência de verdade. E isto é o que São Paulo declara (2 Tessalonicenses 2:10): — que, quando os homens não querem obedecer a Deus e à sua verdade, nem se resignar a isso, sobretudo quando Deus lhes dá a graça de se manifestar a eles e lhes mostrar o caminho de salvação, se forem tão desgraçados a ponto de rejeitar e repelir semelhante graça divina, eis, então, que Deus lhes envia os falsos Profetas e os enganadores, os quais não só perverterão toda boa doutrina, mas também serão cridos, porque lhes dará a eficácia do erro.

É preciso ponderar bem sobre esse termo, já que possui grande significação. Pois o que se quer dizer com eficácia do erro?

Essa acontece quando Deus retira de nós Sua iluminação e ficamos com os espíritos fascinados, tornamo-nos de tal forma estúpidos que não temos discernimento maior do que o dos animais irracionais.

Conquanto a cilada seja de todo patente, tropeçamos sem ver uma partezinha dela. E por quê? Porque não há mais conselho nem prudência em nós, visto que Deus deu a Satanás o poder de nos ludibriar e enredar, sim, de nos cegar totalmente e nos fascinar, de modo tal que não sabemos nos voltar para cá nem para lá para não cairmos em algum logro novo. Vede, digo eu, como Deus trabalha com todos os infiéis e réprobos, dando a Satanás a eficácia do erro, de tal maneira que os pode enganar sem se eles se apercebam disso. Ora, não é assim que Ele age para com os Seus quando os aflige: — pois, malgrado Satanás os assaltar, são preservados e têm como repelir suas tentações, porque Deus os armou da sua virtude, de tal forma que Satanás não pode fazer senão o que Ele permite.

E Ele coloca diante desse uma barreira, de sorte que toda a fúria procedente do segundo é tão abreviada que nada pode contra quem porta o bom prazer de Deus. Isso é o que temos a notar e, igualmente, observar que os juízos divinos são exercidos tanto sobre os bons quanto sobre os maus. É verdade que, se quisermos seguir nossa opinião, poderemos nos maravilhar de como isto é feito, de Deus dar tal autoridade e favor a Satanás para esse poder nos engodar. Isso, pois, parecer-nos-á bem estranho à nossa imaginação.

Mas, e daí? Devemos nos humilhar ao ver as Escrituras falarem assim e esperar o dia em que entenderemos melhor os segredos de Deus, os quais nos são hoje incompreensíveis. Logo, temos que aprender a exaltá-los, temos que adorar os juízos divinos, os quais nos são tão admiráveis, até que nos sejam melhor conhecidos. Porque temos uma medida pequena demais para conhecê-los agora em sua totalidade.

Então, devemos caminhar em humildade, conhecendo em parte, até que tenhamos plenitude de revelação no último dia. Mas, seja como for, não devemos ignorar o que as Escrituras nos revelam, a saber, que Deus se serve de tal modo de Satanás que este sempre está pronto para fascinar os homens quando estes merecem, sobretudo quando recusam a obedecer à verdade, devem então ser levados pela mentira.

Quando se trata dos fiéis, Deus também permite que eles por vezes sejam iludidos por Satanás, visto como Jó, no fim, não fica isento desse mal. E também percebemos isso na História Sagrada a respeito de Davi (1 Crônicas 21:1), porque, quando este fez a contagem do povo, de onde é que adveio tal coisa? Traz o texto que foi o diabo quem suscitou todo esse mal, quando Davi contou o povo de Deus daquele jeito. Davi então, não obstante ser do número dos filhos de Deus, não deixa de algumas vezes ficar preso pelo poder de Satanás para ser ludibriado. Mas, ao vermos isso, temos boa razão para orar a Deus e ir para debaixo da sombra de Suas asas, para que Ele nos esconda lá, por que, se semelhante coisa sucedeu a Davi, o que será de nós? Todavia, reparemos também que, quando Deus concede tal favor a Satanás sobre os fiéis, isso não se dá senão por pouco tempo. Eis porque é dito que sua virtude está sobre os incrédulos e sobre todos os rebeldes, não é sem motivo que São Paulo (Efésios 2:2) coloca ali tal distinção.

Diz que ele opera agora em todos os incrédulos, ele coloca o reino de Satanás nos que estão separados de Deus e cortados de Sua Igreja. Por quê? Porque vedes seus limites, mas, quando ele consegue consternar os filhos de Deus, nosso Senhor o permite para os humilhar, a fim de que, quando estiverem atormentados dessa forma dura e, sem embargo, resistindo aos ataques que lhes são perpetrados, saibam que isso não é deles, mas que estão sustentados de outra parte, a saber, da graça de Deus e da virtude de Seu Santo Espírito.

Sendo assim, normalmente, quando Deus permite a Satanás tentar os fiéis, é para que tudo lhes sirva como remédio. E nisso vemos uma maravilhosa bondade de Deus, que converte o mal em bem, pois o que é que Satanás pode dar que não peçonha e veneno? Porque sabemos que nele só há morte, pois dela é chamado o príncipe (Hebreus 2:14).

Assim, pois, tudo o que Satanás pode produzir tende à ruína dos homens e para os fazer perecer. Entretanto, Deus inventará o meio pelo qual o mal que vem de Satanás se nos seja convertido para salvação.

Eis São Paulo fora de si, segundo confessa, depois de haver falado das revelações tão altas que lhe foram dadas. Deus, diz ele, mostrou que eu não me elevasse demais (2 Coríntios 12:8). Essa foi uma provisão boa e bem útil para São Paulo, porque sabemos que o orgulho nos precipita nos abismos, posto que nada há que irrite mais a Deus. Pois este se declara sempre inimigo dos orgulhosos e dos que presumem ser algo pela própria virtude.

Ora, São Paulo estaria em tal perigo se Deus não tivesse dado o remédio. E de que forma isso se deu?

Diz que ele enviou o mensageiro de Satanás para o estapear. Vedes Satanás trabalhando em São Paulo, sim, pela permissão de Deus. E qual o desfecho disso? Satanás realmente cuidava prejudicar São Paulo, sua intenção era desviá-lo para que deixasse o serviço de Deus e que, estando agastado dos problemas e misérias que suportava incessantemente, retirasse-se um pouco do cristianismo.

Isso era o que Satanás pensava. Mas, e aí? Deus contemplava um outro fim, queria conservar na rédea Seu servo, para que esse não olvidasse de não se elevar demais. E por esse motivo é esbofeteado. Ele usa essa símile particular, que Deus não o exercita como um militar a cavalo no campo de batalha, para lhe dar uma vitória gloriosa, porém, estapeia-o com ignomínia e opróbrio. Convém que o santo apóstolo, estando dotado de tão excelentes dons do Espírito de Deus, esteja assim sujeito a Satanás, que lhe cospe na vista, que lhe perpetra muitas ignomínias. Vemos então como Deus converte o mal em bem quando faz com que todos os aguilhões de Satanás se nos sirvam de remédio, e que por esse meio Ele nos purga dos vícios que estão ocultos em nós. Destarte, temos que louvar a Deus em tudo e por tudo, sim, apesar de inicialmente Seus juízos nos serem por demais severos à nossa imaginação e não o possamos conceber senão segundo nosso sentido carnal. Quando, pois, houvermos ponderado bem sobre tudo, teremos sempre do que exaltar a Deus. Quanto a essa passagem, onde se diz que Ele deu licença a Satanás para afligir Jó, é isso. Sim, mas Deus o impediu de tocar na pessoa desse. Resumindo, temos que notar que, quando Deus permite que sejamos assaltados assim por Satanás, que nos faz muitos ataques bem rudes, todavia, é por medida, Ele sabe até onde podemos aguentar e o que nos é conveniente.

Agora, para finalizar, é dito que Satanás saiu da presença do Senhor. Não que Satanás fez o que bem lhe pareceu, como se Deus não mais tivesse visto, mas é para indicar qual a fúria dele, qual é o seu modo habitual, a saber, que fez o pior que pôde, sem atentar que estava sujeito a Deus, que usou de sua rebelião e que brutal e subitamente destruiu os bens de Jó, conquanto haja ainda uma outra coisa denotada nesse termo, qual seja, que Satanás efetivamente demonstrou a licença que obteve. Porque dissemos que aqui esse conselho estrito de Deus, desconhecido dos homens foi-nos declarado.

Pois as Escrituras falam assim das coisas que nos são patentes, como logo depois Jó foi despojado de todos os seus bens, como seus filhos são mortos, como foi afligido em sua pessoa, isso foi notório a todos, mas esses desconheciam o que foi supramencionado, a saber, que Deus se faz ouvir em suas conferências (tenu ses assises – dadas as suas fundações), e que tudo estava disposto por Seu conselho, nada acontecendo sem a sua providência. Os que possuíram os olhos da fé para compreender isso o entenderam, mas os outros perceberam somente as coisas que se faziam. Vedes por que é dito agora que Satanás saiu da presença do Senhor. Pois as Sagradas Escrituras distinguem entre as coisas exteriores que se vão e o conselho de Deus, que não é conhecido senão por Seus fiéis, que se elevam acima de toda razão e de todos os sentidos naturais. Porque jamais chegaremos ao conhecimento da majestade de Deus se não elevarmos todas as nossas faculdades.

Agora as Escrituras retornam à história, ao dizer que Satanás saiu da presença do Senhor, isto é, foi visivelmente percebido e ficou patente como ele afligiu Jó. Eis o que é dito ali. O restante do trecho é sempre para expressar a natureza de Satanás, o qual, transbordando de raiva, mete fogo e chama, como se quisesse arruinar tudo, em suma, é seu múnus tentar, como dele se diz quando se fala que Jesus foi tentado (Mateus 4:3).

Eis o tentador. Tal palavra e título são atribuídos particularmente a Satanás. Por quê? Para que saibamos que ele nada mais quer que não a ruína total, que não colocar a humanidade em confusão. Vede o motivo de ele não estar desocupado, ele ronda, ele nos importuna para nos levar à perdição com ele e nada quer senão ficar desobrigado da obediência a Deus e perverter tudo. Quando conhecermos isso, devemos ser ainda mais incitados a orar a nosso Deus, para que nos receba em Suas mãos e em Sua guarda, pois, quando tivermos sido assim recebidos, ficaremos a salvo contra as tribulações que Satanás tramar contra nós. Mas, uma vez que Deus se afasta de nós, apenas tirando a mão, seremos de imediato vencidos por Satanás. Eis então como somos instruídos, por um lado, a nos humilhar, a caminhar em temor e cuidado e, por outro, invocar a Deus, sabendo que, quando formos por Ele socorridos, nada nos faltará. Sim, ainda que com grandes dificuldades, devemos batalhar e, não obstante essas, asseguremo-nos da vitória que Ele prometeu a todos os Seus.

“Prostrar-nos-emos agora ante a majestade de nosso Deus. Amém”.

Paz e graça.

Revisão: Pr. Me. Plínio Sousa.
Capa: Marcos Frade.
Tradução: Vanderson Moura da Silva.

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Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Acadêmico e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
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