PODEMOS JULGAR UNS AOS OUTROS?

Por Leonardo Dâmaso.

Texto base: Mateus 7:1 – 5.

Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também. Por que tu vês o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão.

 INTRODUÇÃO

Frequentemente, tanto cristãos como não cristãos, utilizam-se desta porção da Escritura para alegar que não devemos julgar uns aos outros. Segundo esta “regra popular” do Não julgue, para que não seja julgado!, a qual está aferrada na mente das pessoas, não devemos fomentar, de maneira alguma, qualquer tipo de crítica ou aferição moral sobre outras pessoas. É terminantemente proibido! Se, porventura, insistirmos em reprovar algum ato execrável de alguém, estaremos incorrendo em desobediência ao que a Escritura determina para não fazermos, e também seremos alvos de veementes críticas e avaliações negativas dos que “aparentemente” observam o preceito de que não devemos julgar.

Contudo, será mesmo que não se pode criticar alguém? É isso mesmo o que a Escritura ensina? É proibido julgar uns aos outros? Não! Podemos expressar nossas opiniões sobre aquilo que está errado. Devemos criticar, pois, ao contrário do que muitos imaginam, é um imperativo bíblico de extrema importância e necessário por algumas razões que veremos a seguir. Mas, para isso, existem alguns critérios na Escritura que devem observados no ato de “julgar”.

O texto a lume é uma parte do sermão que Jesus enunciou no monte. Os versículos 1 – 5 compreendem um pequeno trecho da perícope maior, que termina no versículo 12. Destarte, podemos extrair duas lições que o Senhor ensina aqui por dois imperativos – um negativo (o que não devemos fazer) – e outro positivo (o que devemos fazer), os quais são:

1 – O dever social dos cristãos (7:1, 2). 2 – O dever pessoal dos cristãos (7:3 – 5).

ARGUMENTAÇÃO

1 – O dever social dos cristãos (1 – 2).

Temos aqui um imperativo negativo, e, em seguida, a explicação do mesmo.

O termo julgueis, no grego κρινω (krino), é a disposição de criticar de maneira acentuada. Significa “distinguir, decidir (mentalmente ou judicialmente). Vingar, concluir, condenar, maldizer, decretar, recorrer à lei; questionar, sentenciar a, pensar. É separar, discriminar entre o bem e o mal, selecionar, escolher o bem. No Novo Testamento, é formar ou proferir uma opinião, depois de separar e considerar os detalhes de um caso”.  Aqui, ele não pode se referir à corte legal, ainda mais que 5:33 – 37 proíbe juramento judicial. E, ainda menos, esse versículo proíbe que seja feito qualquer tipo de julgamento, pois as distinções morais esboçadas no sermão do monte exigem que julgamentos decisivos sejam feitos.

Portanto, Jesus afirma que não devemos julgar e medir os outros, pois, se o fizermos, também seremos julgados e medidos inexoravelmente – não por eles – mas por Deus. Ele admoesta sobre a maneira em que não devemos proceder no ato de criticar ou repreender o próximo. A ordem de Deus para não sermos juízes implacáveis é para que seja evitada a pretensa ambição de querermos assumir o papel que pertence somente a Deus: o justo e perfeito juiz dos homens!

Hendriksen escreve:

À luz do que Jesus mesmo diz neste trecho (v.6), do qual se deduz que devemos considerar certos indivíduos como sendo cães e porcos, e à luz de João 7:24; 1 Coríntios 5:12; 6:1 – 5; Gálatas 1:8, 9; Filipenses 3:2; 1 Tessalonicenses 2:14, 15; 1 Timóteo 1:6, 7; Tito 3:2, 10; 1 João 4:1; 2 João 10; 3 João 9, e outras tantas passagens que poderiam acrescentar-se, é evidente que não se trata de uma condenação tão completa contra a formação de uma opinião a respeito de uma pessoa e de expressá-la abertamente.

Jesus mesmo chagara a certas conclusões referentes aos escribas e fariseus e não hesitou em expressá-las (Mateus 5:20; 6:2, 5, 16; 15:1…; 23:1). Embora seja verdade que não podemos ler o que está no coração de nosso próximo como Jesus era capaz de fazer (João 2:24, 25), de modo que nosso juízo deve ser mais reservado e jamais deve ser definitivo, não há nada no ensino, quer do próprio Cristo, quer dos apóstolos depois dele, que nos alivie da obrigação de formar opinião sobre as pessoas e agir com base em tais opiniões. Assim, fica subentendido que às vezes será nosso dever expressar nossos juízos.

Provavelmente Jesus se referiu às atitudes e ações dos fariseus, que censuravam aos outros em tudo, sem jamais reconhecerem a presença de quaisquer defeitos neles mesmos (João 7:49). Essa era a atitude típica deles. Paulo ilustra esse ensino em Romanos 2:1. Os versículos 17 – 29 aludem diretamente ao judeu como indivíduo que julga ao gentio, mas que, na realidade, fazia as mesmas coisas que este. Os fariseus eram o exemplo mais destacado desse pecado.

J. C. Ryle observa outras questões acerca da importância e necessidade da crítica. Ele disse:

Nosso Senhor não intencionava de modo algum dizer que é errado proferir um juízo desfavorável sobre a conduta e a opinião de outras pessoas. Precisamos ter opiniões bem formadas e decididas. Devemos julgar todas as coisas (1 Tessalonicenses 5:21). Devemos provar os espíritos (1 João 4:1). Nem, tampouco, Cristo quis dizer que seja errado reprovar os pecados e as faltas de outras pessoas, enquanto nós mesmos não tenhamos atingido a perfeição e não estejamos destituídos de falta. Tal interpretação seria uma contradição a outras passagens da Escritura. Isso tornaria impossível condenar o erro e as falsas doutrinas. Seria um impedimento para qualquer um que desejasse ser ministro do evangelho ou juiz. A terra estaria nas mãos dos perversos (Jó 9:24). As heresias se espalhariam. Os malfeitores se multiplicariam por toda a parte.

O que o nosso Senhor condena é um espírito crítico que tudo encontra alguma falta. A prontidão em condenar as pessoas por causa de pequenas coisas ou questões de pouca importância, o hábito de fazer julgamentos duros e precipitados, a disposição em exagerar nos erros e fraquezas do próximo, e de sempre pensar o pior – isso tudo o Senhor proíbe. Essas coisas eram comuns entre os fariseus e continuam sendo comuns desde aquela época, até hoje. Todos precisamos vigiar para não cairmos em tal erro.

Com efeito, Jesus ensina que a disposição para julgar, repreender ou criticar alguém não é proibida, mas indispensável no tempo oportuno, em ocasiões específicas. “A crítica ferina deprime aqueles contra as quais ela é dirigida, e enfraquece, em vez de fortalecer a sua fibra moral”. No entanto, o criticismo descomedido, desequilibrado, impiedoso, sem amor, pecaminoso e desnecessário que é condenado por Jesus, não o julgamento sensato.

2 – O dever pessoal dos cristãos (3 – 5).

Desta vez, temos o segundo imperativo – que é positivo – e, em seguida, a explicação do mesmo, assim como o do primeiro.

A palavra argueiro, no grego καρφος (karphos), literalmente cisco (conforme traduziu a NVI, Almeida Século 21 e BJ), “sugere pó, ao passo que a metáfora se dá a partir de uma farpa minúscula de “cavaco”, do mesmo material que é feita a trave”. É “uma partícula muito pequena que irrita” os olhos. A ideia subjacente é a de um “homem com uma grande “trave” no seu olho e que não conseguia enxergar nada direito, propõe-se a remover a pequena farpa do olho do seu irmão, uma operação delicada, que exigia visão clara”.

No grego, a palavra trave δοκον (dokon), é um cepo no qual se apoiam as tábuas de casa (segundo os papiros), travessa, viga, barrote, prancha (Moffatt). “Uma estaca que se ressalta grotescamente do olho. É possível que Jesus estivesse citando um provérbio semelhante a “quem tem telhado de vidro não joga pedra no telhado dos outros”.

O argueiro representa um pecado da pessoa; e a trave um pecado daquele que julga o próximo. Ora, Jesus ensina que aquele que tem maior pecado não tem o direito de repreender severamente o outro, ainda que a censura fosse apropriada. Todavia, um julgamento assim não é legítimo, porquanto a situação daquele que julga é pior do que a situação do que está sendo julgado. Por vezes, os pecados que os cristãos mais julgam são os próprios pecados que ocasionam mais problemas aos críticos. Por isso, Jesus denomina aquele que censura o pecado do outro tendo maior pecado do que ele de hipócrita (v.5)!

Aqui se caracteriza qualquer pessoa com uma disposição farisaica, uma vez que no coração de todos os seguidores de Cristo até ao ponto em que a graça ainda não os transformou completamente, se esconde um fariseu. A conclusão é que esta passagem se aplica a todos, no sentido de que todos precisam examinar-se a si mesmos (1 Coríntios 11:28), a fim de que não andem descobrindo faltas nos outros, nem procurem corrigi-los sem se auto examinarem e autodisciplinarem. Uma pessoa pode ser muito boa aos seus próprios olhos (Lucas 18:11, 12), todavia, se ela não é humilde, então, pelo prisma divino, há uma viga em seu olho, a viga da auto justificação. Isso faz de tal pessoa um oftalmologista cego que tenta realizar uma cirurgia no olho de outra pessoa. Por mais grave que o erro do próximo possa parecer aos olhos do pretenso “oftalmologista”, não era um mero “argueiro”, uma pequena mancha, comparada com a sua justiça própria, um defeito tão patente aos olhos de Deus, equivalente à viga do olho do crítico?

Quando, pela soberana graça, esta viga for removida, então aquele que antes punha defeitos, estará habilitado a ver suficientemente claro para remover do olho do seu irmão o argueiro, ou seja, estará em condições de restaurar o seu irmão com espírito de brandura, e examinando-se, por exemplo, à luz de 1 Coríntios 13, e cuidará para que ele mesmo não seja tentado (Gálatas 6:1).

Vimos, então, a maneira sensata em que devemos proceder no ato de criticar ou repreender o próximo – a saber – sem hipocrisia!

CONCLUSÃO

John Stott ressalta que o padrão de Jesus para os relacionamentos na contracultura cristã é alto e sadio. Em todas as nossas atitudes e no comportamento relativo a outras pessoas, nem devemos representar o juiz (severo, censurador e condenador) nem o hipócrita (que acusa os outros enquanto se justifica), mas o irmão, cuidando dos outros a ponto de primeiro acusar-nos e corrigir-nos para depois procurarmos ser construtivos na ajuda que lhes vamos dar. Precisamos ser tão críticos conosco como somos geralmente com os outros, e tão generosos com os outros como sempre somos conosco. Assim, cumpriremos a Regra Áurea que Jesus nos dá no versículo 12 e agiremos em relação aos outros como gostaríamos que eles fizessem conosco.

Fica claro, então, que Jesus nunca proibiu o julgamento, a crítica ou a repreensão aos outros, mas sim, que o fizéssemos de maneira hipócrita, impiedosa e insolente. Do contrário, seria impossível coadunar passagens como Mateus 18:15 – 17; João 7:24; 1 Coríntios 5:1 – 13; 6:1 – 4 com Mateus 7:1 – 6 e, assim, a Escritura ruiria em contradição. Julgar é uma prática fundamental da vida cristã. Eivados de amor, somos chamados a exercer constantemente o papel de “juízes” nas coisas pertencentes a Deus. O julgamento adequado e no momento propício transforma vidas.

Mas, o cristão que não executa este papel, contribui para que o erro, o pecado e as heresias se propaguem na vida da igreja e, consequentemente, para que as pessoas continuem vivendo enviesadamente. Cristãos que não julgam pecam, visto que são omissos e desprovidos de convicção (Tiago 5:17); portanto, acabam se tornando cúmplices de toda sorte de atos imorais e antiéticos dos que vivem ao seu redor.

Contudo, não julgar é errado e julgar é certo, uma vez que as devidas condições sejam observadas: 1) que primeiro nos examinemos acuradamente (cf. 1 Coríntios 11:31); 2) que nos coloquemos sob o mesmo juízo e estejamos dispostos a admitir que todos nós somos propensos a errar, pecar e cair; 3) e que ao julgar, criticar, repreender ou emitir opiniões, nosso objetivo seja instruir os outros a reparar os seus erros e pecados e encorajá-los a perfilar suas vidas nos caminhos de Deus.

Paz e graça.

Capa: Marcos Frade.

NOTAS:
Dicionário do Novo Testamento Grego James Strong.
Carson, Mateus, pág. 224.
William Hendriksen, Mateus, volume 1, pág. 502 – 503.
Champlin, Mateus, pág. 330.
J. C. Ryle, Meditações no Evangelho de Mateus, pág. 45 – 46.
R. V. Tasker, Mateus: introdução e comentário, pág. 63.
Vincent. Estudo no Vocabulário Grego do Novo Testamento, pág. 40.
A. T. Robertson. Comentário Mateus e Lucas à luz do Novo Testamento Grego, pág. 91.
William Hendriksen, Mateus, volume 1, pág. 505 – 506.
John Stott. O Sermão do Monte.

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Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Geral e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
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