OS DISCÍPULOS ARGUMENTATIVOS E UM DESCONHECIDO QUE EXPULSAVA DEMÔNIOS

“Começou uma discussão entre os discípulos, acerca de qual deles seria o maior. Jesus, conhecendo os seus pensamentos, tomou uma criança e a colocou em pé, a seu lado. Então lhes disse: ‘Quem recebe esta criança em meu nome, está me recebendo; e quem me recebe, está recebendo aquele que me enviou. Pois, aquele que entre vocês for o menor, este será o maior’. Disse João: ‘Mestre, vimos um homem expulsando demônios em teu nome e procuramos impedi-lo, porque ele não era um dos nossos’. ‘Não o impeçam’, disse Jesus, pois quem não é contra vocês, é a favor de vocês” – Lucas 9:46 – 50.

Por Pr. Plínio Sousa.

Os discípulos mostram-se homens normais ao debaterem seus relativos méritos e argumentam sobre “qual deles seria o maior” (v.46). A palavra usada para “maior” é (“μείζων – meizōn/megas”) que significa pessoas, eminentes pela habilidade, virtude, autoridade, poder,

coisas altamente estimadas por sua importância: de grande momento, de grande peso, algo para ser altamente estimado por sua excelência, ou seja, a palavra “megas” imprime a ideia de grandes coisas, das bênçãos preeminentes de Deus (cf. Marcos 10:37; Mateus 20:21; “O pedido dos filhos de Zebedeu”), de coisas que excedem os limites de um ser criado, coisas arrogantes (presunçosas) e cheio de arrogância, e por fim depreciador da majestade de Deus, tais posições causam facções e invejas, que acabam por fim, desonrando a Deus. (cf. Marcos 10:41; 1 João 4:20; 1 João 3:15; Mateus 5:22).

“A soberba gera divisão. A caridade, a comunhão” ― Santo Agostinho.

“Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine; então serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão”. – Salmos 19:13 (Ver. Provérbios 8:13; 11:2; 16:18; Marcos 7:22,23; Sofonias 2:10; Isaías 9:9,10; Jeremias 48: 29; Ezequiel: 7:20; Oséias 5:5; Obadias 3; Daniel 5:20). Receba o exame e a correção da Palavra de Deus. Entenda que fazer isso afastará você do pecado (cf. Tiago 1:21-25).

“A humildade dos hipócritas é o maior e o mais altaneiro dos orgulhos” – Martinho Lutero.

Existe um bom humor nessa cena com Jesus, seus discípulos e uma criança. Enquanto os discípulos discutiam sobra a sua própria grandeza, Jesus gentilmente “tomou uma criança e a colocou em pé, a seu lado (v.47)”. Ironicamente, aqueles que receberam o dom da sabedoria divina “mistérios” (8:10) agiram agora como as próprias crianças.

Por ora entendamos que o termo referido “criança” é no sentido da falta de malícia. Ainda não é possuidora da sabedoria humana, sendo este produto da ilusão “terrena, animal e diabólica” (Tiago 3:15). Por esta razão é que dizendo a uma criança que há monstros no escuro, esta se apavora, ou que há desenhos nas nuvens, esta reconhece. Isto porque a criança não possui os conhecimentos baseados na experiência de vida terrestre. Assim sendo, são em última análise livres. Ou seja, sem conceitos, julgamentos, preconceitos, medos, nem nada que lhes tolhem a vida.

“Irmãos, não sejais meninos (crianças) no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento” – 1 Coríntios 14:20.

Faz-se necessário examinarmos o versículo 10 do capítulo anterior (8), que diz: “A vocês foi dado o conhecimento dos mistérios¹ do Reino de Deus, mas aos outros falo por parábolas, para que ‘vendo, não vejam; e ouvindo, não entendam’. (Lucas 8:10). (cf. NOTA).

(1) NOTA. A palavra usada para “mistério” é (“μυστήρια – mystēria”) onde o sentido é, de “iniciar nos mistérios”, portanto, um segredo conhecido apenas para os iniciados, algo escondido que requer revelação especial. No NT, a palavra denota algo que as pessoas jamais poderiam saber por seu próprio conhecimento e que exige uma revelação de Deus. Os pensamentos, dispensações e planos secretos de Deus continuam escondidos da humanidade não regenerada, mas são revelados a todos os crentes. No grego bíblico, é a verdade revelada (cf. Colossenses 1:26; Mateus 16:16,17 “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”).

Em resposta à insensatez dos discípulos, Jesus empregou um duplo sentido aqui, “pois aquele que entre vocês for o menor (criança), este será o maior (v.48)”.

A palavra grega usada para “maior” é, (“μείζων – meizōn/megas”), logo, pode-se afirmar que os discípulos estavam passando dos limites de seres criados, com presunção, e cheios de arrogância, e por fim depreciadores da majestade de Deus. E, como podemos entender esse comportamento presunçoso e arrogante (de superioridade)? Pelo simples fato, de outrora terem recebido o dom da sabedoria divina, “mistérios” (8:10). Portanto, “um segredo conhecido apenas para os iniciados presunçosos”, e por isso envaideceram, e consequentemente ensoberbeceram-se (cf. 1 Timóteo 3:6 “Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo, “orgulho” – Isaías 14:12).

Em contraste, a palavra grega para “menor” (“μικρότερος – mikroteros”), que também significa mínimo. Da mesma forma, a palavra maior é “megas”, que também pode significar amplo.

Com uma criança em pé ao Seu lado, Ele divertiu-se a custa dos discípulos, e o verbo aqui “divertir” não está ligado a “recrear”, mas a fazer mudar de pensamento, dissuadir, e de aplicação doutrinal. Era como se Ele estivesse dizendo: “Vocês pensam que está criança é insignificante “mikroteros” (cf. Marcos 10:14; Lucas 18:15 “Os discípulos as repreendiam, por certo achando-se superiores”), porque ela é de pequena estatura, “insignificante” (mikroteros). Mas Jesus diz: No entanto, vocês, que são fisicamente grandes (megas), discutem entre si, de modo tolo, acerca de quem é o maior (megas)”. (cf. Lucas 18:15; Mateus 19:14; Marcos 10:14).

Jesus determina o que deve ser feito a respeito de conduta “pois aquele que entre vocês for o menor, este será o maior (v.48)”. A palavra grega para vendo, conhecendo do (v.47) “conhecendo os seus pensamentos” é (“εἰδὼς/eidos) que descreve experimentar algum estado ou condição, examinar, tratar algo, discernir, é um conhecimento fundado na experiência pessoal, conhecimento obtido pela proximidade, significa ver como os olhos da mente, uma percepção clara e puramente mental. Jesus sabia de suas reais intenções.

A luz de Lucas 9:48 entendemos a indignação¹ de Jesus em Marcos 10:14.

“Quando Jesus viu isso, ficou indignado, e lhes disse: Deixem vir a mim as crianças, não às impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas”.

É como se Jesus dissesse a eles: Vocês ainda não entenderam nada acerca do Reino de Deus! (Lucas 18:34). Na primeira Epístola de Pedro (2:2,3), o ensinamento de Jesus é confirmado “Como crianças recém-nascidas, desejem de coração o leite espiritual puro, para que por meio dele cresçam para a salvação, agora que provaram que o Senhor é bom”, e passado para Paulo possivelmente por Pedro, em (1 Coríntios 14:20) também é confirmado no ensino paulino.

(1) “Indignação” (ἠγανάκτησεν – ēganaktēsen/aganakteo) de “agan” (muito) e “achthos” (mágoa, pesar, similar à base estar muito ofendido, descontente, desagradado, insatisfeito, assim Jesus se sentia).

Julgar pelos padrões humanos, como tamanho e idade, pode levar a erros sobre o valor humano (lembre-se de Davi, pequena estatura, mas grande coração para Deus, em 1 Samuel 16:7).

A realização pessoal e a posição social, intelectual na comunidade, assunto do debate deles, não eram a verdadeira medida da grandeza, e essa realidade infelizmente está inserida em nossa comunidade, pelos debates teológicos atuais. Quem será o maior? Quem venceu? E quando será o próximo debate, e quais assuntos debaterão? Uma péssima situação no tempo de Jesus, e agora não é diferente, devemos repudiar tal ação.

O relato de Lucas é o único do incidente que enfatiza o “divertimento” do comentário de Jesus. Mateus interpreta o tamanho da criança como uma metáfora para humildade (Mateus 18:4 – “Tornar humilde” – “ταπεινώσει/tapeinōsei”, a palavra significa rebaixar, humilhar, degradar a si mesmo. Descreve uma pessoas que é desprovida de qualquer arrogância a auto-exaltação – uma pessoa que se entrega de bom grado a Deus e sua vontade).

Marcos toma-o como uma metáfora para último, a aparente insignificância de ser um servo (Marcos 9:35 – “Será o derradeiro de todos os servos” – “ἔσχατος/ eschatos”, a ideia de último no tempo ou no lugar, último numa série de lugares, último numa sucessão temporal, assim como o apóstolo Paulo se colocava:

“… depois destes apareceu também a mim, como a um que nasceu fora de tempo (derradeiro; último). Pois sou o menor dos apóstolos e nem sequer mereço ser chamado apóstolo…” – 1 Coríntios 15:8,9).

As deficiências espirituais dos discípulos tornam-se óbvias em um comentário creditado ao apóstolo João. Essas são as únicas palavras explicitamente creditadas a João nos evangelhos, e Jesus não as aprova. Os discípulos tinham acabado de ser instruídos sobre o erro de julgar pelos valores humanos. As crianças, embora pequenas, têm um coração que crê. Os adultos, mesmo aqueles a quem os segredos do Reino foram confiados (8:10) e que acabaram de descer do monte da Transfiguração, argumentativos (9:28), mostram-se incapazes de colocar a fé em ação contra um inimigo obstinado (9:41). Apesar de multidões enormes tornaram-se parte do ministério peregrino de Jesus, João ainda busca a política da exclusão ao desejar o exercício do poder de Jesus a um estranho.

“Disse João: Mestre, vimos um homem expulsando demônios em teu nome e procuramos impedi-lo, porque ele não era um dos nossos” (v.49).

O Jesus de Lucas tem desconstruído barreiras sociais, e intelectuais ao longo da narrativa. Aqui, Ele oferece novamente uma nova visão de uma comunidade na qual a exclusão não é o princípio governamental. Por meio de contraste, João parece um tanto farisaico, querendo reservar o poder de expulsar demônios somente aos Doze. Os discípulos exercem sentimentos contrários aos ensinamentos de Jesus, em diversas ocasiões, e Jesus os repreende por palavras e, ações. (cf. Lucas 9:55,56; Lucas 10:38; Lucas 9:39; João 4:27). O que chama atenção é que Lucas, por ser detalhista não menciona o nome do homem, “vimos um homem”, indicando que João não teve a capacidade de perguntar o nome, demonstrando assim um sentimento sectário, e partidarista.

Esse espírito sectário em João é confirmado por sua ação má no (v.54), onde “os Boanerges – Filhos do trovão” João e Tiago perguntam a Jesus, “Senhor, queres que façamos cair fogo do céu para destruí-los, assim como Elias fez?”. O que chama atenção é que eles citam Elias, mas o fato é que Elias não orou para que o fogo matasse os profetas de “baal”, mas para que fosse evidenciado o verdadeiro Deus de Israel, e para que os corações fossem voltados para Deus em temor e tremor, através de uma manifestação extraordinária de grande poder, e não para que os falsos profetas fossem destruídos. É fato que o profeta Elias destrói a todos os profetas de baal, mas tudo “conforme a Palavra de Deus, é uma situação diametralmente oposta”. (cf. 1 Reis 18:36).

A oração de Elias.

“Ó Senhor, Deus de Abraão, de Isaque e de Israel, que hoje fique conhecido que tu és Deus em Israel e que sou o teu servo e que fiz todas estas coisas por ordem tua. Responde-me, ó Senhor, responde-me, para que este povo saiba que tu, ó Senhor, és Deus, e que fazes o coração deles voltar para ti. Então o fogo do Senhor caiu e queimou completamente o holocausto, a lenha, as pedras e o chão, e também secou totalmente a água na valeta” – 1 Reis 18:36-38.

O princípio de comunidade de Jesus é amplamente inclusivo, estendendo os braços abertos a todos os que não são “contra vocês”, contra Jesus e a Sua Palavra (v.50), Aliás, aquele renegado e desconhecido homem é o primeiro no Evangelho a expulsar demônios “em nome de Jesus”. Ele é um pioneiro entre os setenta que logo serão enviados por toda a região aos pares, para curarem e pregarem, e é exemplo da piedade renegada que Jesus endossou na narrativa. Os setenta retornarão relatando que “até os demônios se submetem a nós, em teu nome” (19:17). O movimento de Jesus continua a expandir seu alcance na comunidade. O fato curioso é que “aquele homem” expulsava demônios, e os discípulos não! (Lucas 9:40). “Roguei aos teus discípulos que o expulsassem, mas eles não conseguiram”.

 “Deus cria a partir do nada. Portanto, enquanto um homem não for nada, Deus nada poderá fazer com ele” Está na natureza de Deus criar algo a partir do nada. Esta é a razão porque Ele não pode usar alguém que ainda não chegou a ser nada – Martinho Lutero.

“Deus não despede ninguém vazio, exceto aqueles que estão cheios de si mesmos” – Dwight L. Moody.

Paz e graça.

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Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Acadêmico e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
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