OS CREDOS DA REFORMA

Por Pr. Plínio Sousa.

IMPORTÂNCIA E OBJETIVO DOS CREDOS

Os credos da Reforma são as confissões de fé e os catecismos produzidos nesse período ou sob sua inspiração teológica.

Os séculos IV e V foram para a elaboração dos credos (Credo de Nicéia, Credo de Calcedônia) o que os séculos XVI e XVII foram para a feitura das confissões e dos catecismos.

(1) Credo de Nicéia.

O Credo Niceno é uma profissão de fé adotada do Primeiro Concílio Ecumênico reunido na cidade de Niceia da Bitínia (atual İznik, é uma cidade situada na região de Mármara, província de Bursa, Turquia em 325. Chama-se também o Símbolo Niceno em latim: “Symbolum Nicaenum”), e a Profissão de fé dos 318 Padres, referência aos 318 bispos que participaram do Primeiro Concílio de Niceia.

O propósito de um credo é agir como um critério de crença correta, ou ortodoxia. Os credos do cristianismo foram elaborados em momentos de conflito sobre a doutrina: a aceitação ou rejeição de um credo serviu para distinguir os crentes e negadores de uma doutrina específica ou um conjunto de doutrinas. Por essa razão, um credo foi chamado em grego σύμβολον (symbolon), que significava a metade de um objeto quebrado para que, colocada junto com a outra metade, verificasse a identidade do portador. A palavra grega passou para symbolum em latim (“símbolo” em português). O Credo de Niceia foi adotada em face do arianismo. Ário, um presbítero da Igreja de Alexandria, natural da Líbia, havia declarado que, embora o Filho fosse divino, ele era um ser criado no tempo e, portanto, não co-essencial com o Pai. Isto fez com que Jesus fosse considerado inferior ao Pai, que posou desafios soteriológicos para a doutrina nascente da Trindade. O Credo Niceno explicitamente afirma a divindade co-essencial do Filho, aplicando-lhe o termo “consubstancial”. Termina com as palavras “(Cremos) no Espírito Santo” e com um anátema contra os arianos.

“Cremos em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. Ε em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado unigênito do Pai, isto é, da substância do Pai; Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai; por quem foram feitas todas as coisas que estão no céu ou na terra. O qual por nós homens e para nossa salvação, desceu, se encarnou e se fez homem. Padeceu e ressuscitou ao terceiro dia e subiu aos céus. Ele virá para julgar os vivos e os mortos. E no Espírito Santo. E quem quer que diga que houve um tempo em que o Filho de Deus não existia, ou que antes que fosse gerado ele não existia, ou que ele foi criado daquilo que não existia, ou que ele é de uma substância ou essência diferente (do Pai), ou que ele é uma criatura, ou sujeito à mudança ou transformação, todos os que falem assim, são anatematizados pela Igreja Católica”.

(2) Credo de Calcedônia.

O Credo da Calcedônia foi escrito no Concílio de Calcedônia (situada junto a Bizâncio – atual Istambul – Cidade na Turquia), na Ásia menor, em 451. Ele foi resultado do Concílio de Calcedônia no que trata da controvérsia entre as igrejas ocidentais e orientais a respeito da encarnação e a natureza de Jesus Cristo (união hipostática). Algumas igrejas não aceitam esse credo. Por exemplo as igrejas ortodoxas orientais.

“Fiéis aos santos Pais, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, e perfeito quanto à humanidade; verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e de corpo, consubstancial com o Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; em tudo semelhante a nós, excetuando o pecado; gerado segundo a divindade pelo Pai antes de todos os séculos, e nestes últimos dias, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus; um e só mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis; a distinção de naturezas de modo algum é anulada pela união, antes é preservada a propriedade de cada natureza, concorrendo para formar uma só pessoa e em uma subsistência; não separado nem dividido em duas pessoas, mas um só e o mesmo Filho, o Unigênito, Verbo de Deus, o Senhor Jesus Cristo, conforme os profetas desde o princípio acerca dele testemunharam, e o mesmo Senhor Jesus nos ensinou, e o Credo dos santos Pais nos transmitiu”.

(3) Credo dos Apóstolos.

Primeiro artigo (da criação).

Creio em Deus Pai, todo-poderoso, Criador do céu e da terra.

Segundo artigo (da salvação).

E em Jesus Cristo, seu Filho unigênito, nosso Senhor, o qual foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu ao mundo dos mortos, ressuscitou no terceiro dia, subiu ao céu, e está sentado à direita de Deus Pai, todo-poderoso, de onde virá para julgar os vivos e os mortos.

Terceiro artigo (da santificação).

Creio no Espírito Santo, na santa Igreja cristã, a comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição do corpo e na vida eterna. Amém.

(4) Credo de Atanásio.

O Credo de Atanásio, subscrito pelas maiores confissões do cristianismo (Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Ortodoxa e a maior parte dos protestantes), é geralmente atribuído a Santo Atanásio, Bispo de Alexandria (século IV), mas estudiosos do assunto conferem a ele data posterior (século V). Sua forma final teria sido alcançada apenas no século VIII. O texto grego mais antigo deste credo provém de um sermão de Cesário de Arles, no início do século VI. O credo de Atanásio, com quarenta artigos, é um tanto longo para um credo, mas é considerado por Archibald A. Hogde “um majestoso e único monumento da fé imutável de toda a igreja quanto aos grandes mistérios da divindade, da Trindade de pessoas em um só Deus e da dualidade de naturezas de um único Cristo”. Apesar de a data ser incerta, este credo foi elaborado para combater o arianismo e reafirmar a doutrina cristã tradicional da Trindade. (Confira o Credo de Atanásio).

(5) Credo niceno-constantinopolitano.

O Credo niceno-constantinopolitano, ou Símbolo niceno-constantinopolitano, é uma declaração de fé cristã aceite pela Igreja Católica, Igreja Ortodoxa, Igrejas ortodoxas orientais, Igreja Anglicana e pela maioria das denominações protestantes. O nome “niceno-constantinopolitano” indica uma suposta relação com o Primeiro Concílio de Niceia 325 d.C., no qual foi adaptado um credo semelhante (o Credo Niceno), e com o Primeiro Concílio de Constantinopla (381 d.C.), o qual teria revisto o texto de 325. Na Igreja Católica Romana, o Credo de Niceia faz parte da profissão de fé exigida daqueles que realizam funções importantes na Igreja. Alguns cristãos protestantes consideram o Credo niceno-constantinopolitano útil e em certa medida autoritário, mas dão a prioridade à obrigação de interpretar individualmente as Escrituras no seio da comunidade cristã. Outros grupos, por exemplo, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e as Testemunhas de Jeová (Seitas), rejeitam explicitamente algumas das afirmações contidas no credo.

A razão parece evidente: na Reforma, as igrejas logo sentiram a necessidade de formalizar a fé, apresentando sua interpretação sobre diversos assuntos que as distinguiam da Igreja Romana. Com o tempo, surgem outras denominações, que discordavam entre si sobre alguns pontos, o que gerou a necessidade de estabelecer princípios doutrinários próprios. Calvino afirmou que a fé deve ser “explícita”, mas ressaltou que muito do que cremos permanecerá nesta vida de forma implícita por duas razões: (a) nem tudo foi revelado por Deus e (b) nossa ignorância e pequenez espiritual. Por isso, o ensino e estudo constantes da Palavra do Senhor são necessários, a fim de que cada homem, responsável diante de Deus, tenha condições de se posicionar diante do Criador de forma consciente. A fé explícita é patenteada pela Igreja mediante o ensino da Palavra. Essa necessidade determina o uso da razão, a fim de apresentar a doutrina de forma mais razoável possível e simples ao mesmo tempo. Amplitude e simplicidade são dois marcos do ensino ortodoxo. O ser humano é responsável diante de Deus, a quem dará contas de si mesmo, portanto, tendo oportunidade, ele precisa conhecer devidamente a Palavra do Senhor em toda a plenitude revelada. Essas declarações de fé precisavam ser até certo ponto, completas e simples, para que o cristão não iniciado nas questões teológicas pudesse entender o que estava sendo dito, confrontar esse ensinamento com as Escrituras e assim compreender biblicamente sua fé. Esta não deveria ser apenas “implícita”, mas “explícita”.

OS CATECISMOS

Nesse contexto e com objetivos eminentemente didáticos surgem os catecismos (Grego katekhéo = “ensinar”, “instruir”, “informar” – “katēchoumenos – κατηχούμενος”: catecúmeno significa uma pessoa sendo instruída). (cf. Lucas 1:4; Atos 18:25; 21:21, 24; Romanos 2:18; 1 Coríntios 14:19; Gálatas 6:6), constituídos, em boa parte, de perguntas e respostas. Até o século XVI, a palavra catecismo não fora usada nesse sentido. Os catecismos visavam à instrução de crianças e adultos, e isso contribuiu decisivamente para sua proliferação, sendo que a maioria jamais passou da forma manuscrita, visto que muitos pastores os elaboravam apenas para a congregação local, objetivando atender necessidades doutrinárias.

A primeira obra a receber o título catecismo foi o de Andreas Althamer um humanista alemão e reformador Luterano (1500 – 1539) em 1528. Os mais influentes no século XVI foram, porém, os de Lutero (1483 – 1546): O Catecismo maior (1529) e o Catecismo menor (1529), em cujo prefácio Lutero declara por que o redigiu e apresenta sugestões de como ensiná-lo à congregação. Ele quase sempre inicia os capítulos com este teor: “Como o chefe de família deve ensiná-lo com toda a simplicidade à sua casa”, e outras expressões afins. A respeito de suas motivações, ele declarou: A lamentável e mísera necessidade experimentada recentemente, quando também eu fui visitador, é que me obrigou e impulsionou a preparar este catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve, simples e singela. Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. E, infelizmente, muitos pastores são de todo incompetentes e incapazes para a obra do ensino. (…) Não sabem nem o Pai-Nosso, nem o Credo, nem os Dez Mandamentos.

Mais tarde, Calvino elaborou um catecismo intitulado Instrução e confissão de fé, segundo o uso da Igreja de Genebra (1536 – 1537). Desde 1561, todo ministro da igreja deveria jurar fidelidade aos ensinamentos nele expressos e comprometer-se a ensiná-los.

No início da sua estada em Genebra, João Calvino produziu dois importantes documentos para a cidade, uma confissão de fé a ser subscrita pelos residentes e um catecismo para a instrução religiosa das crianças. Esses dois textos tinham grande afinidade entre si e com a obra que o reformador havia publicado alguns meses antes, a Instituição da Religião Cristã ou Institutas. Os catecismos protestantes representaram um novo gênero de literatura cristã. A palavra “catecismo” vem do grego que significa “instruir” (1 Coríntios 14:19). O método da catequese foi amplamente utilizado na igreja antiga como preparação para o batismo (catecumenato), conforme descrito na obra Tradição Apostólica (c. 215), de Hipólito. O primeiro texto desse gênero no contexto da Reforma foi o Pequeno Catecismo de Lutero (1529). Entre os reformados, os primeiros a escreverem catecismos foram Leo Jud (Zurique) bem como Wolfgang Capito e Martin Bucer (Estrasburgo). Todos esses documentos foram eclipsados pelo catecismo de Calvino, também conhecido como “catecismo anterior” ou Catecismo de Genebra.

No dia 16 de janeiro de 1537, Calvino e seu colega Guilherme Farel apresentaram ao conselho municipal os “Artigos concernentes à organização da igreja e do culto em Genebra”. Esses artigos propunham a celebração frequente da Ceia do Senhor, a disciplina da excomunhão e também normas sobre o cântico de salmos e sobre a educação cristã. O resultado foi o catecismo conhecido como Instrução na Fé, cujo título mais completo era Instrução e Confissão de Fé que são utilizados na Igreja de Genebra, descrito como “um sumário breve e simples da fé cristã, a ser ensinado a todas as crianças”. Esse texto é um testemunho da importância que o reformador francês atribuía ao ensino ou educação na fé cristã, mediante o qual as crianças e adolescentes pudessem alcançar maturidade em sua vida moral e espiritual. O documento também é valioso por representar uma síntese da teologia inicial de Calvino conforme refletida na primeira edição das Institutas. Embora tecnicamente distintos das confissões de fé, os catecismos também foram documentos através dos quais os reformados declararam e confessaram a sua fé.

AS CONFISSÕES

Basicamente, as confissões não foram feitas para a instrução na fé cristã (essa era a função dos catecismos). Elas poderiam ser produzidas individualmente para uso privado (A segunda confissão helvética), por um concílio de uma igreja em particular (Cânones de Dort), por um indivíduo que age como representante de sua igreja (Confissão de Augsburgo), por um grupo de teólogos convocados pelo Estado (Confissão de Westminster), ou escrita como defesa de sua fé durante terrível perseguição (A confissão dos valdenses) etc.

Não havia regra para a elaboração de uma confissão, os contextos eram variados. Apesar de haver motivações comuns a todas elas, existiam circunstâncias especiais que conduziam a determinadas ênfases, especialmente no que se refere às questões relativas ao governo e à Igreja Romana. Isso levanta o problema da unificação das confissões. Em 1530, Carlos V, imperador da Alemanha, convoca a Dieta de Augsburgo, cujo objetivo era a unificação político-religiosa dos seus domínios. Nasceu então a Confissão de Augsburgo, redigida por Melanchthon, com o consentimento de Lutero. O imperador não a aceitou e proibiu sua divulgação, mesmo assim, em pouco tempo, ela foi propagada em toda a Alemanha. Calvino entende que a divergência em questões secundárias não deve servir de pretexto para a divisão da igreja, afinal, todos, sem exceção, estão envoltos de “alguma nuvenzinha de ignorância”. Após argumentar contra aqueles que chamavam os reformados de hereges, ele ressalta que a unidade cristã deve ser na Palavra, baseando-se em Efésios 4:5, Filipenses 2:1, 5 e Romanos 15:5. Para os irmãos refugiados em Wezel (Alemanha), que sofriam diversas pressões dos luteranos e sobreviviam numa pequena igreja reformada, Calvino, em 1554, os consola mostrando que, apesar dos grandes problemas pelos quais passavam o mundo, Deus lhes havia concedido um lugar onde poderiam adorar a Deus em liberdade. Também os desafia a não abandonarem a igreja por pequenas divergências nas práticas cerimoniais, sendo tolerantes a fim de preservar a unidade. Contudo, os exorta a jamais fazerem acordos em pontos doutrinários. Mesmo desejando a paz e a concórdia, Calvino entendia que essa paz nunca poderia ser em detrimento da verdade, pois, se assim fosse, essa “paz” seria maldita. Respondendo a uma carta de Thomas Cranmer (1489 – 1556) convidando-o para uma reunião com o objetivo de preparar um credo que fosse consensual para as igrejas reformadas, Calvino, mesmo não podendo ir, o encoraja a manter esse objetivo. A certa altura diz:

“(…) Estando os membros da Igreja divididos, o corpo sangra. Isso me preocupa tanto que, se pudesse fazer algo, eu não me recusaria a cruzar até dez mares, se necessário fosse por essa causa”.

Já no século XVII, algum progresso nesse sentido é evidente, através de formulações doutrinárias mais completas e também após passar o primeiro ardor apaixonado e exclusivista, ainda que surgissem novos debates teológicos nos séculos XVII e XVIII, no período denominado “ortodoxia protestante”. Mesmo assim, as diferenças permaneceram, mas não ferem pontos cruciais da Reforma, como: A Bíblia como autoridade final, a justificação pela graça mediante a fé, o sacerdócio universal dos santos, a suficiência do sacrifício de Cristo para nos salvar, etc.

ASSIM, OS CREDOS DA REFORMA TINHAM TRÊS OBJETIVOS ESPECÍFICOS

(1) Evidenciar os fundamentos bíblicos de seus ensinos.

(2) Demonstrar que suas doutrinas estavam em acordo com os principais credos da Igreja (Apostólico, Niceno, Constantinopolitano).

(3) Demarcar sua posição teológica em relação à Teologia Romana e às demais correntes provenientes da Reforma.

As confissões provenientes da Reforma (séculos XVI e XVII) são divididas em dois grupos: luteranas e calvinistas (reformadas).

PRINCIPAIS CATECISMOS E CONFISSÕES: SUBSÍDIOS HISTÓRICOS

CONFISSÃO GAULESA (1559)

Foi escrita por Calvino e seu discípulo Antoine de la Roche Chandieu (De Chandieu) (1534 – 1591), provavelmente com a ajuda de Theodore Beza (1519 – 1605) e Pierre Viret (1511 – 1571). No Sínodo Geral de Paris (26 – 28/05/1559), reunido secretamente, ela foi revista e ampliada. Calcula-se que a França possuía 400 mil protestantes, existindo em fins de 1561 mais de 670 igrejas calvinistas. Em 1571, realizou-se o Sétimo Sínodo Nacional de La Rochelle, no qual essa confissão foi revisada, reafirmada e solenemente sancionada por Henrique IV, passando a ser chamada também de Confissão de Rochelle. A Confissão gaulesa influenciou profundamente a Confissão Belga (1561) e a Confissão dos Valdenses (1655).

CONFISSÃO ESCOCESA (1560)

Foi escrita sob a liderança de John Knox (1505 – 1572) e adotada pelo Parlamento escocês em 17/08/1560, sendo ratificada em 1567. Em 1572, todos os ministros tiveram de subscrevê-la. Ela permaneceu como confissão oficial da Igreja Reformada Escocesa até 1647, quando então a Igreja adotou a Confissão de Westminster.

CONFISSÃO BELGA (1561)

Inspirada na Confissão gaulesa foi escrita em francês em 1561 por Guido (ou Guy, Wido) de Brès (1523 – 1567) e outros, sendo revisada e publicada em holandês em 1562, chegando a ocupar lugar de suma importância na Igreja Reformada Holandesa. Foi aprovada no Sínodo de Antuérpia (1566), no de Ambères (1566 – após revisão) e em Wessel (1568), e adotada pelo Sínodo Reformado de Emden (1571), pelo Sínodo Nacional de Dort (1574), Middelburg (1581) e pelo grande Sínodo de Dort (29/04/1619), que a sujeitou a minuciosa revisão, comparando a tradução holandesa com o texto francês e latino. Foi traduzida para o holandês (1562) e para o inglês (1768). A Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg (Confira mais adiante) são os símbolos de fé das Igrejas Reformadas na Holanda e Bélgica, sendo também o padrão doutrinário da Igreja Reformada na América e na Igreja Evangélica Reformada Holandesa no Brasil.

TRINTA E NOVE ARTIGOS DA IGREJA DA INGLATERRA (1563)

Em 1552, o arcebispo de Cantebury, Thomas Cranmer, elaborou com outros clérigos Quarenta e Dois Artigos da Religião, após minuciosa revisão, foram publicados em 1553 sob a autoridade do rei da Inglaterra, Eduardo VI. Mais tarde, esses Artigos foram revistos e reduzidos a 39 pelo arcebispo de Cantebury, Matthew Parker (1504 – 1575), e outros bispos. Esse trabalho de revisão e redução foi ratificado pelas duas Casas de Convocação, sendo os Trinta e nove artigos publicados por autoridade do rei em 1563. Em 1571, tornou-se obrigatória a subscrição desses Artigos por todos os ministros ingleses. Os Trinta e nove artigos e o Livro de oração comum (1549) são os símbolos de fé da Igreja da Inglaterra e, com algumas alterações, das demais igrejas da Comunhão Anglicana.

CATECISMO DE HEIDELBERG (1563)

Foi escrita por dois jovens teólogos: Caspar Olevianus (1536 – 1587), professor de Teologia na Universidade de Heidelberg, que recebeu influência de Melanchton e de Peter Martyr Vermigli (1560 – 1562), e Zacharias Ursinus (1534 – 1583), ex-aluno de Melanchton, em Wittenberg (1550 – 1557), e amigo de Calvino.

No prefácio da primeira edição, Frederico III, o “Piedoso” (1515 – 1576), estabeleceu três propósitos para esse catecismo:

(1) Instrução catequética.

(2) Guia para pregação.

(3) Forma confessional de unidade.

Ele foi o primeiro príncipe alemão a adotar um credo reformado distinto do luterano. Adotado por um Sínodo de Heidelberg (19/01/1563), esse catecismo foi aceito também na Escócia, servindo de modo especial para o ensino das crianças. O Sínodo de Dort também o aprovou. Heidelberg é o símbolo das igrejas reformadas da Alemanha, da Holanda, dos Estados Unidos e do Brasil. Os dois pontos fortes desse catecismo são o aspecto não polêmico (com exceção da pergunta 80) e o tom pastoral, suas respostas são uma declaração pessoal de fé, tendo as verdades teológicas aplicação bem direta às necessidades cotidianas do povo de Deus. Por ter sido traduzido para todas as línguas europeias e muitas asiáticas, P. Schaff (1819 – 1893) diz que Heidelberg “tem o dom pentecostal de línguas em raro grau”.

SEGUNDA CONFISSÃO HELVÉTICA (1562 – 1566)

Foi primariamente elaborado em latim, em 1562, pelo amigo, discípulo e sucessor de Zwínglio (1484 – 1531), Henry Bullinger (1504 – 1575). Em 1564, quando a peste voltou a atacar em Zurique, Bullinger perdeu a esposa e as três filhas. Ele mesmo ficou doente, mas foi curado. Nesse ínterim, fez a revisão da confissão de 1562. Como espécie de testamento espiritual, anexou-a ao seu testamento, para ser entregue ao magistrado da cidade, caso falecesse. Essa confissão foi traduzida para vários idiomas (incluindo o árabe) e teve ampla aceitação em diversos países, sendo também adotada na Escócia (1566), Hungria (1567), França (1571) e Polônia (1578). Tornou-se “o elo (…) para as igrejas calvinistas espalhadas por toda a Europa”.

CÂNONES DE DORT (1618 – 1619)

O Sínodo de Dort reuniu-se por autoridade dos Estados Gerais dos Países Baixos, em Dordrecht, Holanda, de 13/11/1618 a 9/05/1619. O Sínodo foi constituído de 35 pastores, um grupo de presbíteros das igrejas holandesas, 5 catedráticos de Teologia dos Países Baixos, 18 deputados dos Estados Gerais e 27 estrangeiros, de diversos países da Europa, tais como Inglaterra, Alemanha, França e Suíça. Dort rejeitou os chamados “Cinco pontos do arminianismo”. Os Cânones de Dort foram aceitos por todas as igrejas reformadas como expressão correta do sistema calvinista.

CINCO PONTOS DO ARMINIANISMO E DO CALVINISMO

Arminianismo.

(1) O homem nunca é de tal modo corrompido pelo pecado que não possa crer salvaticiamente no evangelho, uma vez que este lhe seja apresentado.

Calvinismo.

(1) O homem decaído, em seu estado natural, não tem capacidade alguma para crer no evangelho, tal como lhe falta toda a capacidade para dar crédito à lei, a despeito de toda indução externa que sobre ele possa ser exercida.

Arminianismo.

(2) O homem nunca é de tal modo controlado por Deus que não possa rejeitá-lo.

Calvinismo.

(2) A eleição de Deus é uma escolha gratuita, soberana e incondicional de pecadores, como pecadores, para que venham a ser redimidos por Cristo, para que venham a receber fé e para que sejam conduzidos à glória.

Arminianismo.

(3) A eleição divina dos que serão salvos alicerça-se sobre o fato da provisão divina de que eles haverão de crer, por sua própria deliberação.

Calvinismo.

(3) A obra remidora de Cristo teve como sua finalidade e alvo a salvação dos eleitos.

Arminianismo.

(4) A morte de Cristo não garantiu a salvação para ninguém, pois não garantiu o dom da fé para ninguém (e nem mesmo existe tal dom), o que ela fez foi criar a possibilidade de salvação para todo aquele que crê.

Calvinismo.

(4) A obra do Espírito Santo, ao conduzir os homens à fé, nunca deixa de atingir o seu objetivo.

Arminianismo.

(5) Depende inteiramente dos crentes manterem-se em um estado de graça, conservando a sua fé, os que falham nesse ponto desviam-se e se perdem.

Calvinismo.

(5) Os crentes são guardados na fé na graça pelo poder inconquistável de Deus, até que eles cheguem à glória.

CONFISSÃO DE WESTMINSTER E CATECISMOS (1647 – 1648)

A Confissão de Westminster, o Catecismo maior (1648) e o Catecismo menor (1647) foram redigidos na Inglaterra, na Abadia de Westminster, por convocação do Parlamento. A assembleia funcionou de 01/07/1643 a 22/02/1649. O objetivo primário era a revisão dos Trinta e nove artigos. Trabalharam no texto da confissão 121 teólogos e 30 leigos nomeados pelo Parlamento (20 da Casa dos Comuns e 10 da Casa dos Lordes), 8 representantes escoceses, 4 pastores e 4 presbíteros, “os melhores e mais preclaros homens que possuía”. Os principais debates não foram de ordem teológica (quase todos eram calvinistas), mas sobre o governo da Igreja. “Embora houvesse diversidade quanto à Eclesiologia, havia unidade quanto à Soteriologia”. Nesse ponto, havia quatro partidos: episcopais, presbiterianos, independentes (congregacionais) e erastianos (Os erastianos consideram a igreja como uma sociedade que deve sua existência e sua forma às regulamentações promulgadas pelo estado. Os oficiais da igreja são meros instrutores ou pregadores da Palavra, sem nenhum direito ou poder de governar, exceto o que eles derivam dos magistrados civis). Os erastianos entendiam que o trabalho do pastor era o de ensino, o pastor é o mestre. Prevaleceu, no entanto, o sistema presbiteriano de governo. O Breve catecismo foi elaborado para instruir as crianças. O Catecismo maior, especialmente para a exposição no púlpito, mas não exclusivamente. Eles substituíram em grande parte os catecismos e as confissões mais antigos adotados pelas igrejas reformadas de fala inglesa. Apesar de a Teologia dos catecismos e da Confissão de Westminster ser a mesma, sendo por isso sempre adotado os três, parece que os mais usados são o Catecismo menor e a Confissão.

Esses credos foram logo aprovados pela Assembleia Geral da Igreja da Escócia. Eles tiveram e têm grande influência no mundo de fala inglesa, máxime entre os presbiterianos embora também tenham sido adotados por diversas igrejas batistas e congregacionais. No Brasil, esses credos são adotados pela Igreja Presbiteriana do Brasil, Presbiteriana Independente e Presbiteriana Conservadora.

Paz e graça.

Capa: Marcos Frade.

Citações: (1) Fundamentos da Teologia Reformada – Hermisten Maia – Editora Mundo Cristão. (2) As Confissões Reformadas – Alderi Souza de Matos.

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Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Geral e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
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