O MILÊNIO

 

 REFLEXÃO EXEGÉTICA – APOCALIPSE 20:1 – 3

“Vi descer do céu um anjo que trazia na mão a chave do abismo e uma grande corrente” – Apocalipse 20:1.

Por Pr. Plínio Sousa.

A visão começa com um conhecido “vi” (Καὶ εἶδον – Kai eidon) que indica uma nova visão em vez de uma sequência cronológica de eventos.

“Então vi” (Kai eidon; lit., “e eu vi”) é usada trinta vezes no Apocalipse para introduzir uma nova narrativa visual, ou como aqui, para dar sentido a uma nova cena dentro de uma visão continuada, ou para ressaltar uma figura importante ou ação dentro de uma narrativa visual.

Outra vez, João vê “um anjo descendo dos céus” (cf. 10:1; 18:11) com autoridade para o cumprir os propósitos de Deus. “A chave do abismo” foi usada anteriormente na narrativa para abrir o poço e liberar uma praga de gafanhotos (cf. 9:1 – 11). Em Apocalipse as chaves (1:18; 3:7; 9:1; 20:1) são símbolos do julgamento de Deus e de seu poder sobre Satanás. Aqui é usada para encarcerar Satanás (v.3). A “grande corrente” (ἅλυσιν – halysin; lit. “corrente” ou “algema”) necessária para um adversário tão formidável está “na” sua “mão” pronta para ser usada.

O Anjo toma o “dragão” que foi introduzido anteriormente (12:3, 4,7, 9, 13, 16, 17; 13:2 e 4) e aqui é identificado como “a antiga serpente”, o “diabo” e “Satanás” (cf. 12:9). O verbo (ἐκράτησεν –ekratēsen – “κρατεω – krateo” significa literalmente agarrar alguém a fim de mantê-lo sob domínio) inclui a ideia de dominação e controle. Isso combina com prisão (δεω – deo), assim como a prisão de João Batista (Marcos 6:17). Prender satanás ou demônios era uma metáfora comum nos escritos judeus (por exemplo, 1 Enoque 10:4; 11:12; Jubileu 5:6; 2 Enoque 7:2; 2 Baruque 56:13) “Naquele tempo eles que agiu como este eram atormentados em cadeias” – 2 Baruque 56:13. (At that time they who acted like this were tormented in chains) muito embora apenas aqui o período de tempo de “mil anos” seja designado.

Uma vez que o Diabo foi preso e acorrentado, ele jogado “no abismo” (ἄβυσσον – abysson – Abismo que significa a profundidade imensurável, de Orco, um golfo muito profundo ou uma fenda nas partes mais profundas da terra usado como o receptáculo comum dos mortos e especialmente como a habitação dos demônios) que é trancado com a “chave” (κλεῖν – Klein no N.T., denota poder e autoridade. (cf. Lucas 11:52; Mateus 16:19; Apocalipse 1:18; 3:7; 9:1; Isaías 22:22) do anjo (20:1). Selar a serpente no e insondável abismo a impede de enganar ainda mais “as nações” (eti) conforme fez no Jardim do Éden (Gênesis 3:1; cf. também Gênesis 3:15) e durante seu tempo na terra (cf. Apocalipse 12:9 e 12).

Contudo, a influência de Satanás não acabou. No fim “dos mil anos” (…) Ele deve (dei) “ser solto”. O uso de “dei” sugere permissão Divina (cf. 1:1; 4:1; 10:11; 11:5; 13:10; 17:10; 22:6). Essa liberdade descrita em Apocalipse 20:7 – 10 dura apenas “um curto período de tempo” (μικρὸν χρόνον – mikron chronon) literalmente “um pouco de tempo”.

No início da narrativa, sua falta de tempo na terra encheu Satanás de fúria (Apocalipse 12:12). Alguns equiparam o tempo aos três anos e meio de opressão da quarta besta de Daniel 7:25; 8:14; 9:27).

Agostinho especula que a razão pela qual Satanás deve ser solto é para que todos possam ver o poder dentro do adversário de Deus, mas isso não encontra indicação nas escrituras e conjecturar é infrutífero. A humildade também ocorre em prol da interpretação do milênio, uma vez que textos comprobatórios podem ser juntados para posicionamentos díspares e a argumentação a favor de um ponto de vista em detrimento de outro é sempre baseada nos posicionamentos hermenêuticos mais abrangentes e preconceitos teológicos. O assunto é complexo e tem ocupado intérpretes por toda história da interpretação bíblica, incluindo os da Igreja Primitiva.

Aplicação por Anthony A. Hoekema.

Concordo que Apocalipse 19:11 – 16 descreve a Segunda Vinda de Cristo. Mas não concordo que o que é descrito no capítulo 20 segue-se necessariamente de forma cronológica ao que é descrito no capítulo 19, da mesma forma que o que é descrito no capítulo 12 (o nascimento do filho varão) ao que é descrito nos últimos versos do capítulo 11 (o julgamento dos mortos e a entrega de recompensas aos santos).

Concentrando-me em Apocalipse 20:1 – 6, devo admitir que a interpretação de Ladd (George Eldon Ladd ) destes versos faz sentido e é coerente com a interpretação que ele adotou ao relacionamento entre os capítulos 19 e 20. Não tenho dificuldades em reconhecer sua exegese desta passagem como uma opção válida para os evangélicos, e gosto da maneira cuidadosa e lúcida, própria de um estudioso, em que ele expõe seus pontos de vista.

Mas discordamos, realmente, em nossa interpretação desta passagem. Confio, porém, que ele e os outros que partilham de seus pontos de vista estejam prontos a reconhecer que minha interpretação não vem de uma abordagem liberal da escritura nem de um arrogante abandono do texto, mas de um modo diferente de entender as palavras que estão diante de nós.

Discordo quanto aos seguintes quatro assuntos: Primeiramente, Ladd não nos diz muita coisa do acorrentamento de Satanás descrito nos versos 1 a 3. Ele não diz exatamente o que pensa significar o acorrentamento nem mostra com precisão o que entende por “não mais engane as nações”. Ele não relaciona o acorrentamento de Satanás mencionado aqui com as passagens nos Evangelhos que falam de tal acorrentamento como tendo começado já no tempo da primeira vinda de Cristo. Tentei mostrar que é possível entender-se o acorrentamento de Satanás em Apocalipse 20:1 – 3 como significando que Satanás não pode impedir a propagação do Evangelho durante a presente era, não pode reunir os inimigos de Cristo para atacar a igreja, e que esse acorrentamento acontece durante toda a era da igreja do Novo Testamento.

Em segundo lugar, Ladd traduz a palavra grega “ezesan”, em ambas as suas ocorrências nesta passagem, por “tornaram à vida”. Esta é, confirmada, uma tradução possível.

Outra tradução igualmente possível, porém, é como faz a American Standard Version (Nota do tradutor: assim como as versões mais utilizadas em português): “viveram”.

Em terceiro lugar, Ladd interpreta “ezesan” em ambos os casos como ressurreição física. Concordo com ele que a palavra precisa ter o mesmo significado as duas vezes que é utilizada, e que é uma exegese irresponsável dar um significado à primeira ocorrência da palavra e outro à segunda. Porém, entendo a palavra como é utilizada aqui com o significado não de regeneração, mas transição da morte física para a vida com Cristo no Céu durante o período entre a morte e a ressurreição. Os crentes falecidos tomam parte nessa vida, mas os incrédulos não.

Ladd entende “ezesan” nos versos 4 e 5 como o significado de ressurreição física em ambos os casos. Para apoiar essa interpretação ele indica duas outras passagens no livro de Apocalipse onde “ezesan” tem este significado: 2:8 e 13:14. Concordo com ele sobre 2:8, mas não 13:14. A segunda passagem fala da besta…

“[…] que recebera a ferida da espada e vivia”.

Ladd comenta que a ferida foi “ferida mortal”, ou ferida que levou à morte, e que “vivia” aqui, portanto, significa ressurreto dentre os mortos. Mas o verso 3, a que se refere, não diz que a besta morreu, mas que uma de suas cabeças foi…

“… como ferida de morte, e a sua chaga mortal foi curada”.

A palavra grega “hõs” usada aqui diz-nos que a besta não foi morta, mas apenas pareceu ter sido morta. Por esta razão creio que “vive”, no verso 14, não pode significar ressurreição física.

Há, no entanto, outros usos do verbo “zao” (de onde vem “ezesan”) no livro de Apocalipse que não tem o significado de ressurreição física. Em 7:2 e 15:7, por exemplo, a palavra é usada para descrever o fato que Deus vive para sempre; em 3:1 é usada para descrever o que poderíamos chamar de uma vida espiritual:

“tens nome de que vives, e estás morto”.

A referência a outros usos do verbo “zao”, portanto, não pode ter força decisiva neste assunto. Eu prefiro fazer alusão ao paralelo de Apocalipse 20:4,5 e que encontramos no capítulo 6:9 – 11. Aqui, João viu […].

“[…] as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram” (veja a semelhança na linguagem, com 20:4: “as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus”).

Essas almas de mártires falecidos estão aparentemente conscientes e podem se comunicar; são-lhes dadas vestiduras brancas e lhes dizem que repousem. As vestiduras brancas e o descanso sugerem que eles estão gozando um tipo de bênção provisória, que aponta para o “eschaton” final. Esta é exatamente a situação das almas descritas do capítulo 20, que diz-se que reinam com Cristo enquanto esperam a ressurreição do corpo, que ainda não ocorreu (cf. 20:11 – 13). Apesar da palavra “viveram” (ezesan) não ser usada em 6:9 – 11, a situação descrita nestes versos é paralela à situação descrita em 20:4.

Minha interpretação do significado de “ezesan”, portanto, não está em desarmonia com o restante do livro de Apocalipse. Também não está em desarmonia com o restante do capítulo 20, que prediz a ressurreição do corpo e o julgamento final no fim do capitulo, após a descrição do reinado de mil anos. Apesar dos pré-milenistas costumarem entender a ressurreição descrita nos versos 11 – 15 como ressurreição dos incrédulos mortos apenas, não há indicação nestes versos que a ressurreição mostrada aqui limita-se a eles. Na verdade, o verso 15 diz:

“E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo”.

Mas há alguma indicação de que nenhum dos que diz-se aqui foram ressuscitados dos mortos foi achado inscrito no livro da vida?

Em quarto lugar, concordo que o governo de Cristo agora é praticamente invisível (embora não inteiramente) e que esperamos a expressão visível total desse governo após o retorno de Cristo. Mas porque limitar essa expressão visível a um período de mil anos? Por que essa expressão visível do governo de Cristo precisa ainda acontecer, como Ladd diz, na História (quer dizer, “no mundo como nós o conhecemos”)? Por que, por exemplo, os crentes precisam ser ressuscitados para viver num mundo que ainda não foi glorificado e ainda geme por causa da presença do pecado, rebelião e morte (cf. 8:19 – 22)? Por que o Cristo glorificado precisaria voltar a terra para governar sobre seus inimigos com vara de ferro e assim ter de suportar ainda oposição à sua soberania? Esta fase de sua obra não ficou completa durante seu estado de humilhação? Não está Cristo voltando na plenitude de sua glória para introduzir, não um período intermediário de paz e bênçãos limitadas, mas o estado final da perfeição ilimitada?

Citação: Resposta do amilenista Anthony A. Hoekema ao ensaio do pré-milenista histórico George Eldon Ladd. Trecho do livro Milênio, de Robert G. Clouse.

Paz e graça.

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Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Acadêmico e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
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