O ESPINHO NA CARNE DE PAULO

“Para impedir que eu me exaltasse por causa da grandeza dessas revelações, foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás, para me atormentar” – 2 Coríntios 12:7.

Por Pr. Plínio Sousa.

Devido a algumas ambiguidades, parece muito imprudente tirar conclusões dogmáticas sobre certas particularidades desta seção. O que está claro, entretanto, é que o espinho na carne (uma dificuldade ou aflição muito intensa ou enfraquecedora) tinha vindo através de um mensageiro de Satanás (provavelmente um ataque instigado de maneira demoníaca). A providência divina claramente permitiu isso (gramaticalmente, um, “passivo divino”, indicando Deus como o agente invisível supervisionando todo o processo), para que Paulo pudesse evitar que se exaltasse pelas excelências das revelações.

Embora seja fútil tentar identificar o “espinho”, ele causou grande consternação em Paulo e, em última instância, serviu para um bom propósito, tornando-se a ocasião para uma revelação a ele da graça triunfante de Deus, que basta em meio às fraquezas de Paulo.

Também devemos notar que, embora Deus não responda às alegações repetidas de Paulo, “para que desviasse de mim”, removendo-o, não há nenhum indício de que Deus esteja aborrecido com Paulo por alegar dessa maneira. Na verdade, a resposta de Jesus (v.9) indica a preocupação de Deus em responder, mesmo que diferentemente do que Paulo havia orado.

É importante notar que a resposta de Jesus não foi vista como punitiva por Paulo, nem fez com que ele se resignasse esbofeteando-o com uma atitude de derrota. Pelo contrário, afirmou em Paulo que, sempre que Satanás o esbofeteia (quer diretamente como adversário destrutivo ou indiretamente como agente controlado por Deus para realizar o desenvolvimento do caráter), ele pode se gloriar de suas fraquezas, pois a graça e poder te bastam para permitir que ele continue em seu ministério apostólico. Nem o espinho, qualquer mensageiro de Satanás, nem qualquer teste de Deus para aprimorar o caráter farão com que ele pare de servir a Deus. Ele pode, portanto, sentir prazer (…) porque, quando está pessoalmente fraco, ele pode ser forte em Jesus.

Vejamos dois pontos cruciais:

(1) O propósito do espinho na carne era fazer com que Paulo permanecesse humilde. Qualquer pessoa que tivesse encontrado Jesus, falado diretamente e sido enviado pessoalmente por Ele (Atos 9:2 – 8) ficaria, em seu estado natural, orgulhoso da sua experiência incrível. Acrescente a isso o fato de que Paulo tinha sido guiado pelo Espírito Santo a escrever muito do Novo testamento, e é fácil ver como ele poderia ter se tornado orgulhoso e arrogante.

(2) Sabemos que a aflição veio de Satanás ou de um dos seus mensageiros. Assim como Deus permitiu que Satanás atormentasse a Jó (Jó 1:1 – 12), Deus permitiu que Satanás atormentasse Paulo para que Seu propósito e Sua vontade fossem executados.

Dr. Simon Kistemaker comentando 2 Coríntios 12:7b diz:

(1) “Portanto, para que eu não ficasse empolgado demais, foi-me dado um espinho na carne”. Essa afirmação conclusiva é introduzida pelo advérbio, portanto. Mas dificilmente essa palavra pode se ligar ao versículo 6b com seu conteúdo específico. Em lugar disso, a declaração resume a ênfase que Paulo dá, de se gloriar de suas fraquezas. A soberba se intromete sorrateiramente na alma humana e passa a reinar de tal forma que a pessoa não perceba sua presença.

Ao longo do discurso de Paulo sobre o gloriar-se, ele deu ao Senhor a glória e honra. Seu desejo é permanecer humilde e abster-se de gloriar-se de si mesmo e de suas realizações. Ele sabe que o privilégio de vivenciar visões e revelações celestiais poderia resultar em orgulho. A tentação de se elevar acima de seus companheiros era real.

O Senhor interveio dando a Paulo um espinho na carne. O grego emprega o termo “skolops – σκόλοψ”, que significa pedaço pontiagudo de madeira, estaca, paliçada, estaca afiada ou farpa. Não é correto pensar em empalação ou crucificação, porque Paulo sempre usa “stauros – σταυρος” quando escreve sobre a cruz (cf. 1 Coríntios 1:17, 18; Gálatas 5:11; 6:12; Efésios 2:16; Filipenses 2:8; 3:18; Colossenses 1:20; 2:14; Hebreus 12:2). Aqui a palavra tem o sentido de um espinho ou outro objeto que fere a pele de Paulo e o machuca. Paulo também usa a palavra carne, que aponta à fragilidade de seu corpo físico. A maioria dos estudiosos concorda que esse termo deve ser interpretado literalmente, isto é, Paulo suportava dor física.

(2) “Um mensageiro de Satanás, para esbofetear-me, para que eu não fique eufórico demais”. A segunda parte do versículo 7 visa explicar a primeira parte. No entanto, as dificuldades em se entender o que Paulo quer dizer aumentam a cada cláusula. Gostaríamos de acreditar que os leitores originais dessa epístola tivessem entendido o sentido dessas palavras, mas o fato de que Paulo está revelando sua visita celestial pela primeira vez é indicação de que sua referência ao espinho em sua carne também é notícia nova.

Paulo escreve que sua aflição física é um mensageiro de Satanás, isto é, um dos anjos maus de Satanás. Ao dar a Paulo um espinho para lhe causar desconforto físico, Deus permite que Satanás mande um dos seus anjos para atormentar o apóstolo. Somos lembrados de Jó, que também foi afligido por Satanás; na verdade, Deus impôs limites para Satanás, que só podia fazer o que Deus lhe permitia fazer (cf. Jó 1:12; 2:6).

A frase seguinte, “para esbofetear-me”, é ainda mais descritiva, isto é, o mensageiro de Satanás feria Paulo no rosto. Isso aconteceu quando membros do Sinédrio deram murros em Jesus (Mateus 26:67; Marcos 14:65). Tanto Paulo como Pedro usa a palavra quando falam em apanhar injustamente (1 Coríntios 4:11; 1 Pedro 2:20).

Como relacionamos o “espinho na carne” com “mensageiro de Satanás”, e essas duas expressões, por sua vez, com esmurrar o rosto de Paulo?

Explicações do mal de Paulo são numerosas; há pelo menos doze diferentes sugestões, várias delas bem aproveitáveis. Entre as sugestões estão à epilepsia, a histeria, a nevralgia, a depressão, problemas de visão (cf. Gálatas 4:14, 15), malária, lepra, reumatismo, um impedimento na fala (cf. 10:10; 11:6), tentação, inimigos pessoais (comparar com 11:13 – 15) e maus-tratos de um demônio. Essas teorias são habilmente defendidas por estudiosos que conhecem tanto a literatura judaica quanto a vida de Paulo descrita em Atos e nas epístolas. Certamente, algumas conjecturas são dignas de consideração. Mas cada uma esbarra contra objeções de peso. Quer aconteça ter sido a aflição de Paulo um problema externo ou interno, o resultado permanece o mesmo: nossas teorias são meras suposições, pois não sabemos o que afligia o apóstolo.

Notamos um contraste descrito nesse versículo. Paulo, que se ergue ao terceiro céu para ver a luz celestial, é depois continuamente atormentado por um mensageiro do príncipe das trevas. Paulo diz aos leitores que esse contraste aconteceu para que ele se conservasse humilde, “para que eu não fique eufórico demais”. Duas vezes nesse versículo (v.7b) ele escreve a mesma cláusula, obviamente para maior ênfase.

A narrativa – Aflição Compensatória 12:1 – 10.

Havia uma certa “obrigação moral” (“dei – δεῖ”, como em Efésios 6:20; Colossenses 4:4) na glória de Paulo, ainda que não fosse conveniente (cf. 8:10; cons. o mesmo verbo em João 11:50; 16:7; 18:14; 1 Coríntios 6:12; 10:23). Este versículo expressa a compulsão de Paulo (é necessário que me glorie), a repulsão (ainda que não convém), e o impulso (passarei as visões e revelações do Senhor).

(2 – 4). O apóstolo objetivou-se com o propósito de defender suas visões e revelações à vista dos falsos êxtases dos falsos mestres. Sua visão era:

(1) Pessoal – Conheço um homem (…). (v.2);

(2) Cristã – (…) em Cristo (portanto, não pertencente ao judaísmo ou paganismo). (v.2);

(3) Histórica – (…) há catorze anos (portanto com data histórica – não uma ficção). (v.2);

(4) Misteriosa – (se no corpo, não sei; se fora do corpo, não sei). (v.2);

(5) Estática (inerte) – (…) foi arrebatado até ao terceiro céu (Enoque, Elias, Ezequiel). (v.4);

(6) Revelatória – (…) ouviu palavras inefáveis (…). (v.4);

(7) Indelével (inextinguível) – (…) foi-me posto um espinho na carne (…). (v.7).

As idéias aqui são duas principalmente: 1) Se Paulo deseja gloriar-se mais, não seria néscio; pois ele falava a verdade (“alētheian – ἀλήθειαν”; cf. o uso em 4:2; 6:7; 7:14; 11:10; 13:8). 2) Ele os poupou (“pheidomai – φείδομαι”; cf. o uso em 1:23; 13:2) de uma exibição mais detalhada de seus privilégios especiais temendo que alguém pudesse estimá-lo acima do que visse ou ouvisse dele (v.6). Paulo não tinha desejo de se tornar um “super-homem” nem de encorajar uma adoração de homens, ainda que “heróis”.

Se tivermos sensibilidade deveríamos ler esta passagem com certa reverência devido ao fato de que nela Paulo desnuda (despoja) seu coração e ao mesmo tempo nos mostra sua glória e dor.

Contra sua vontade ainda está dando a conhecer suas credenciais, e nos relata uma experiência diante da qual só podemos nos maravilhar e nem sequer tentar sondar. Da maneira mais estranha parece estar fora de si mesmo, observando-se. “Conheço um homem”, diz. O homem é ele mesmo, e, entretanto pode olhar ao que teve essa surpreendente experiência com uma espécie de objetividade enigmática, assombrado de que tivesse ocorrido a ele. Para o místico o grande fim de toda experiência religiosa é a visão de Deus, e até para além dela, a união com Deus. Sempre buscou o momento maravilhoso no qual “aquele que vê e aquele que é visto sejam um”.

Em suas tradições os judeus diziam que quatro rabinos tinham tido visões de Deus. Ben Azai tinha visto a glória e morreu. Ben Soma ao vê-la ficou louco. Acer depois de vê-la “castrou-se”, quer dizer que apesar da visão se converteu num herege e arruinou o jardim da verdade. Só Akiba subiu em paz e retornou em paz.

Não podemos nem pensar o que aconteceu a Paulo. Não precisamos criar teorias sobre o número de céus existentes, pelo fato de que Paulo menciona o terceiro céu. Simplesmente quer dizer que seu espírito se elevou a um êxtase e a uma cercania com Deus impossível de ultrapassar. Ajudar-nos-á a notar algo belo. A palavra paraíso (“Paradeison – Παράδεισον”) provém de um termo persa que significa jardim amuralhado (cf. NOTA). Quando um rei persa desejava conferir uma honra muito especial a alguém que apreciava, o fazia acompanhante em seu jardim, e lhe outorgava o direito de caminhar pelos jardins com ele numa relação próxima e íntima. Nesta experiência, como nunca antes e nunca depois, Paulo tinha acompanhado a Deus.

NOTA: Paradeison – Παράδεισον significa entre os persas, um grande cercado ou reserva, parque, sombreado e bem irrigado, era fechado por muros. Outro significado: as regiões superiores dos céus. De acordo com os pais da igreja primitiva, o paraíso no qual nossos primeiros pais habitaram antes da queda ainda existe, não sobre a terra ou nos céus, mas acima e além do mundo.

Moody declara uma perspectiva também plausível, admissível.

“E depois da glória chega à dor. A palavra (skolops – σκόλοψ) pode significar aguilhão ou espinho, mas o mais provável é que queira dizer estaca. Empalava-se a alguns criminosos numa estaca pontiaguda. Paulo sentia que em seu corpo se retorcia algo semelhante”.

Mas então, o que era esse aguilhão na carne?

Deram-se muitas respostas a esta pergunta. Primeiro podemos considerar aquelas que foram sustentadas por homens eruditos, mas que em face das evidências, devemos descartar.

(1) Tem-se dito que significava tentações espirituais, a tentação da dúvida, evitar os deveres da vida apostólica, o remorso de consciência quando sucumbia a essas tentações. Este era o ponto de vista de Calvino.

(2) Outro significado é o da oposição e perseguição que Paulo teve que sofrer a batalha constante com aqueles que não estavam de acordo com ele e tentavam destruir seu trabalho. Esse era o ponto de vista de Martinho Lutero.

(3) Também tem-se dito que significam as tentações carnais. Quando os monges e os ermitões se encerravam em seus monastérios e celas encontravam que o sexo era o último instinto que podiam reprimir. Com seus ideais ascéticos desejavam eliminá-lo e não podiam, porque os obcecava. Sustentou-se que Paulo era assim. Este é o ponto de vista católico-romano que existe ainda hoje em dia. (Não aceito pela igreja protestante). Pois, Paulo defendia sua posição celibatária, como dom de Deus (cf. 1 Coríntios 7:7, 35). (cf. NOTA).

NOTA: Paulo declara claramente que está falando sobre preferência pessoal quando desafia os solteiros a continuarem no celibato. (v.35). O casamento e o celibato é um assunto individual e relativo, dependendo, em parte, da capacidade de cada um de controlar a paixão sexual. O impulso sexual não é pecaminoso, e permanecer solteiro, ao invés de se casar, não personifica virtude moral superior.

William Barclay diz que nenhuma destas soluções pode ser correta por estas três razões.

(a) A mesma palavra estaca indica uma dor quase selvagem.

(b) A imagem que temos diante de nós é um quadro de sofrimento físico.

(c) Qualquer que fosse o aguilhão era intermitente, porque apesar de que às vezes prostrava a Paulo, não o separava totalmente de sua tarefa. Portanto consideremos as outras respostas sugeridas.

(4) Tem-se dito que o aguilhão era o aspecto pessoal de Paulo. “A presença pessoal dele é fraca” (2 Coríntios 10:10). Sugere-se que sofria de alguma desfiguração que lhe dava feio aspecto e que estorvava sua tarefa. Mas isso não explica a dor que deve ter existido.

(5) Uma das soluções mais comuns é a epilepsia. É dolorosa, recorrente, aquele que a padece pode continuar com sua tarefa entre ataques. Pode ser repulsiva. No mundo antigo era atribuída à ação dos demônios. Traz junto visões e transes tais como os que tinham Paulo. Antigamente quando alguém via um epilético cuspia para afastar o demônio maligno. Em Gálatas 4:14 Paulo diz que quando os Gálatas viram sua enfermidade não o rechaçaram. A palavra em grego (exeptysate – ἐξεπτύσατε) significa literalmente não me cuspiram. Depois de tudo Júlio César, Oliver Cromwell e Napoleão foram epiléticos. Mas esta teoria tem consequências difíceis de aceitar. Significaria que as visões de Paulo correspondiam às que percebe uma mente temporariamente alienada, que eram transes epiléticos, e nos é difícil crer que as visões que mudaram o mundo se devessem a ataques epiléticos.

(6) Uma das teorias mais antigas diz que Paulo sofria enxaquecas severas que o prostravam. Tanto Tértulo (advogado e orador empregado pelos judeus para apoiar Ananias no julgamento de Paulo de Tarso perante o governador romano da Judeia Félix – Atos 24:1 – 9). como Jerônimo criam nisso.

Agora, isto bem pode nos levar à verdade. Ainda existe outra teoria na que se sustenta que Paulo sofria de uma doença dos olhos. Isto explicaria os dores de cabeça. Depois do momento de glória no caminho a Damasco, Paulo ficou cego (Atos 9:9). Pode ser que seus olhos nunca mais se tenham recuperado. Paulo diz que os Gálatas arrancariam os olhos para os darem a ele (Gálatas 4:15). No final de Gálatas escreve: “Vede com que letras grandes vos escrevi de meu próprio punho” (Gálatas 6:11), como se estivesse descrevendo os caracteres grandes e torpes que poderia fazer um homem que apenas pudesse ver. (cf, Atos 23:1 – 5).

Mas o mais provável é que Paulo sofresse de ataques crônicos recorrentes de certa febre malária virulentos que frequentava as costas do Mediterrâneo oriental. Os nativos da zona, quando desejavam machucar a um inimigo pediam a seus deuses que sua alma “ardesse” com essa febre. Uma pessoa que a padeceu descreve a dor de cabeça que a acompanha comparando-o com: “um ferro candente que atravessasse a fronte”. Outro o descreve como “a dor rangente e monótono numa têmpora, como a máquina de um dentista — a cunha fantasmal entre as mandíbulas”, e diz que quando a dor se agravava “alcançava a soleira da resistência humana”. Na realidade isto merece a descrição de um aguilhão na carne, ou até uma estaca na carne. O homem ousado que suportava continuamente a lista de sofrimentos de um apóstolo tinha que lutar com essa agonia.

Paulo recebeu a promessa e a realidade da graça que tudo pode.

Consideremos algumas das coisas para as quais essa graça era suficiente a Paulo através de alguns aspectos de sua vida.

(1) Era suficiente para o cansaço físico.

Permitia-lhe prosseguir. João Wesley pregou quarenta e dois mil sermões, viajava uma média de sete mil quilômetros por ano. Cavalgava cerca de noventa ou cem quilômetros diários e pregava uma média de três sermões por dia. Quando tinha oitenta e três anos escreveu em seu jornal: “Maravilho-me de mim mesmo. Nunca me canso, nem pregando, nem viajando, nem escrevendo”. Era essa obra da graça que tudo pode. (Neste momento faço das palavras de Wesley as minhas, espero ter a quantidade de sermões e de obras deste notável homem de Deus no final de minha vida, não me canso de escrever, aprender e ensinar com sofrimentos para glória de Deus).

(2) Era suficiente para a dor física.

Ela o fazia capaz de tolerar a cruel estaca. Uma vez um homem foi visitar uma jovem que estava de cama morrendo de uma enfermidade incurável e muito dolorosa. Levou consigo um livrinho destinado a alentar os que passavam momentos difíceis, um livro alegre, cheio de sol, que fazia rir. “Muito obrigado”, disse ela, “mas conheço esse livro”. “Você o tem lido?”, perguntou o visitante. E a jovem respondeu: “Eu o escrevi”. Era obra da graça que tudo pode.

(3) Era suficiente para a oposição.

Paulo teve que enfrentá-la durante toda sua vida e nunca cedeu. Por grande que fosse não dava seu braço a torcer, nem se retirava. Essa era obra da graça que tudo pode.

(4) Ela o fazia capaz, como o demonstram todas as suas cartas, de enfrentar a calúnia.

Não há nada mais difícil de enfrentar que a calúnia, a interpretação errônea e o juízo equivocado e cruel.

Uma vez um homem jogou um balde de água sobre Arquelau da Macedônia. Este não disse nada. E quando um amigo lhe perguntou como tinha podido aguentá-lo tão serenamente, disse: “Não atirou a água sobre mim, mas sim sobre o homem que ele pensou que eu era”.

A graça que tudo pode fazia que Paulo não se preocupasse com o que os homens pensassem, mas pelo que Deus sabia que era.

A glória da vida é que encontramos em nossa fraqueza a graça maravilhosa, porque sempre a extremidade do homem é a oportunidade de Deus.

Comentários Adicionais sobre 12:7b.

Muitas dessas propostas têm tido seus adeptos através dos séculos, mas por falta de evidência bíblica continuam sendo meras suposições.

(1) Depressão. Pelo capítulo 1 já tomamos conhecimento de que Paulo estava desanimado pelas suas experiências na Ásia Menor (1:8). Ele havia encontrado reveses severos causados por pessoas, tais como o ourives Demétrio (Atos 19:25 – 41). Mas isso dificilmente explica o espinho na carne de Paulo. Muito embora Paulo tenha experimentado oposição, nenhuma indicação nos é dada de que tenha sofrido de depressão séria. Ao contrário, ele escreve: “Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não completamente perplexos” (4:8). Somos “entristecidos, mas sempre alegres” (6:10).

(2) Visitação de demônios. Essa teoria ensina que quando Paulo estava no céu, foi dominado pelo orgulho. Mas de repente foi atacado por um demônio que o punia para conservá-lo humilde. Paulo orou três vezes ao Senhor para fazer com que o ataque parasse, mas foi-lhe dito que tinha de aprender sua lição e confiar na suficiência da graça de Deus. Há objeções exegéticas a essa interpretação: o desconforto físico do espinho na carne não é uma provação temporária no céu, mas uma dor persistente na terra. E mais, não há indicação no texto de que Paulo tenha vivenciado um castigo no céu, porque lá é um lugar muito improvável para um demônio vencer o apóstolo. E, por fim, um espinho na carne foi dado a Paulo não por um mensageiro de Satanás, e sim pelo Senhor, que permitiu que o mensageiro de Satanás o esbofeteasse.

CONCLUSÃO

Uma passagem clássica. A magnitude das revelações de Paulo (sobre grandeza, cf. 2 Coríntios 12:7; 4:7; Gálatas 4:13) levou o Senhor a lhe dar um estorvo divino (um espinho) para reduzir qualquer tendência de exaltação orgulhosa. Paulo precisava de um lembrete que lhe fizesse ver que, apesar do seu arrebatamento, ainda era um homem entre os homens. Nossas informações são muito imprecisas (1:8) para justificar nossa dogmatização quanto à natureza exata desse espinho na carne.

Paulo orou especificamente (por causa disto), encarecidamente (pedi ao Senhor), e com propósito (que o afastasse de mim). O tempo perfeito em me disse registra a completa aquiescência de Paulo na resposta definitiva de Cristo. Só aqui no N.T. encontrarmos a minha graça (cf. o uso em Filipenses 1:7). O verbo (Arkei – Ἀρκεῖ), no predicado “te basta”, indica que a graça de Cristo está “cheia de força infalível” – suficiente. Este verbo foi algumas vezes traduzido para estar satisfeito (Lucas 3:14; 1 Timóteo 6:8; Hebreus 13:5). O presente passivo de “teleitai – τελεῖται” (o tempo perfeito em João 19:28, 30; 2 Timóteo 4:17) significa está sendo (continuamente) aperfeiçoado (Hebreus 5:9). O verbo repouse (episkēnōsē – ἐπισκηνώσῃ) aparece apenas aqui no grego bíblico. O verbo simples “eskēnōsen – ἐσκήνωσεν” se encontra em João 1:14; Apocalipse 7:15; 21:3. A tradução de Plummer, “estenda uma tenda sobre mim”, é uma reminiscência da fraseologia do Antigo Testamento (Êxodo 33:22; Salmos 90:17; 91:4; Isaías 49:2; 51:16).

Ninguém pode sentir prazer (eudokoumen – εὐδοκοῦμεν; cf. 5:8) nas adversidades mencionadas aqui, a não ser por amor de Cristo (cf. 5:20; Filipenses 1:29; Colossenses 1:24; 3 João 7). Sobre quando (hotan – ὅταν), cf. 2 Coríntios 10:6.

“Ele nos livrou e continuará nos livrando de tal perigo de morte. Nele temos colocado a nossa esperança de que continuará a livrar-nos (…)” – 2 Coríntios 1:10.

Paulo orava para que lhe fosse tirado esse aguilhão, mas Deus respondeu esta oração como o faz tantas vezes — não lhe tirou o mal, mas sim lhe deu a força para suportá-lo. Deus não nos priva das coisas; capacita-nos para vencê-las e sair delas.

“Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo” – João 16:33.

Paz e graça.

Capa: Marcos Frade.
Citações: Comentário de Simon Kistemaker sobre 2 Coríntios; Comentário Bíblico William Barclay e Comentário Bíblico Moody.

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Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Acadêmico e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
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