JUSTIFICADOS

“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” – Romanos 5:1.

JUSTIFICADOS PELA FÉ E PAZ COM DEUS – EXEGESE DE ROMANOS 5:1 – 11

Por Pr. Plínio Sousa.

Depois de descrever o pecado temível e a perdição de toda a humanidade, Paulo revelou como Cristo, por meio de Sua morte na cruz, forneceu o caminho da salvação para todos os que se achegam a Deus em fé. Em seguida, Paulo se propôs a responder perguntas importantes que estavam, sem dúvida, na mente de seus leitores. As primeiras eram: qual é a extensão ou o quanto é certa essa salvação dada por Cristo? Podemos realmente estar certos? O que acontecerá se pecarmos depois de termos nos voltado para Cristo em fé? Paulo trata dessas questões no capítulo quinto (5:1 – 11).

É um das grandes passagens líricas (que se destaca pelo excesso de sentimentalismo) de Paulo, na qual canta a alegria profunda de confiança em Deus. A confiança da fé, a aceitação de Deus por Sua Palavra, fez o que o esforço por realizar as obras da Lei nunca pôde fazer, deu ao homem paz com Deus. Antes que viesse Jesus, e antes que o homem aceitasse como verdadeiro o que Jesus disse a respeito de Deus, ninguém pôde jamais intimar (estabelecer a presença) com Deus. Há os que viram a Deus não como o supremo bem, mas sim como o supremo mal. Há os que o viram como completamente estranho, totalmente inalcançável.

OS DOIS RELATOS

Em um dos livros do H.G. Wells (Herbert George Wells – 1866 — 1946) encontra-se a história de um homem de negócios cuja mente estava tão tensa e, forçada que estava em sério perigo de uma crise nervosa e mental total. Seu médico lhe disse que a única coisa que poderia salvá-lo era achar a paz que a relação com Deus podia dar-lhe. “O que”, respondeu, “pensar que aquilo, lá encima, possa ter comunhão comigo? Seria mais fácil pensar em refrescar minha garganta com a via Láctea ou estreitar as estrelas com as mãos!”. Deus, para ele, era completamente inalcançável.

Rosita Forbes (16 de janeiro de 1890 – 30 de junho 1967), a viajante, relata que uma noite buscou refúgio em um templo de uma aldeia chinesa, porque não havia onde dormir. Despertou durante a noite e a luz da Lua incidia (atenuava) obliquamente através das janelas sobre os rostos das imagens dos deuses, e em cada rosto se desenhava um grunhido e um gesto de desprezo, como se os homens se odiassem.

ARA – REVISTA E ATUALIZADA

(v.1) “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo…”.

(v.1) “Justificados” — a construção grega desse verbo indica uma declaração legal feita uma vez com resultados permanentes. “Δικαιωθέντες – dikaioma/Dikaiōthentes” significa aquilo que foi julgado justo de tal forma a ter força de lei, por sentença de Deus, ou seja, sentença favorável pela qual Ele, Deus, absolve o homem e o declara aceitável, (v.1) “temos” do grego (ἔχομεν – echomen) — possuímos no presente, “paz com Deus” (v.1) — uma realidade externa e objetiva, não um sentimento interior e subjetivo de serenidade e calma.

O termo “dikaioma¹” em Mateus 12:37 “Porque por tuas palavras serás justificado¹ (dikaioma), e por tuas palavras serás condenado”, refere-se ao dia do julgamento como o dia determinante de sua condenação ou justificação, baseado na resposta de nosso coração ao Espírito. (cf. João 6:29; Isaías 32:17; João 16:33; Efésios 2:14; Colossenses 1:20).

(v.2) “… por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus”.

(v.2) “Acesso”— introdução, só quando nos damos conta de que Deus é o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo chega à nossa vida essa intimidade com Deus, essa nova relação que Paulo chama de justificação. Por meio de Jesus Cristo — diz Paulo — temos entrada, acesso à graça na qual permanecemos firmes. O termo que Paulo utiliza para acesso é “προσαγωγν – prosagōgēn”, um termo que implica duas grandes figuras.

(1) É o termo comum para referir-se à introdução ou apresentação de alguém perante a presença da realeza, e é o termo comum para referir-se à aproximação do adorador a Deus. É como se Paulo dissesse:

“Jesus nos introduz à própria presença de Deus. Jesus nos abre as portas à presença do Rei dos reis; e quando essas portas se abrem o que achamos é graça, não condenação, nem juízo, nem vingança, mas a pura, imerecida, não motivada, incrível bondade de Deus”.

(2) Mas o termo “prosagōgēn” contém outra figura. No grego posterior é o termo usado para referir-se ao lugar onde atracam os barcos. É o termo para enseada ou porto. Se tomarmos neste sentido, significa que por mais que tentemos depender de nossos próprios esforços somos varridos pela tempestade, como marinheiros que enfrentam um mar que ameaça destruí-los totalmente, mas agora ouvimos a palavra de Cristo, alcançamos enfim o porto da graça, e conhecemos a calma de depender não do que podemos fazer por nós mesmos, mas sim do que Deus tem feito por nós. Porque por meio de Jesus entramos na presença do Rei dos reis, entramos no porto da graça de Deus. (cf. Salmos 107:28, 29; João 10:9; Efésios 2:18; Hebreus 10:9; 1 Coríntios 15:1).

O acesso é a esta graça na qual estamos firmes. Esta graça é o favor não merecido de Deus, que declara justificados aqueles que colocaram a sua confiança em Jesus. [Comentário Bíblico Moody, p.43].

“E levantou-se grande temporal de vento, e subiam as ondas por cima do barco, de maneira que já se enchia. E Ele estava na popa, dormindo sobre uma almofada, e despertaram-no, dizendo-lhe: Mestre, não se te dá que pereçamos? E Ele, despertando, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E o vento se aquietou, e houve grande bonança. E disse-lhes: Por que sois tão tímidos? Ainda não tendes fé? E sentiram um grande temor, e diziam uns aos outros: Mas quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?” – Marcos 4:37 – 41. [Somente temos paz com Deus, em Jesus Cristo, o Mestre da sensibilidade, somente Ele resgata por amor, àqueles que não eram resgatáveis, Cristo é a nossa rocha inamovível, Ele é o nosso porto Seguro].

(v.2) “Estamos firmes” — ideia de permanência, de estar fixo e imóvel. O termo grego usado para “estamos firmes” é στήκαμεν – hestēkamen”, que significa continuar seguro e são, permanecer ileso, permanecer pronto, preparado, é a ideia de tornar firme uma pessoa sustentada por uma autoridade. (cf. Filipenses 1:6).

(v.2) “Esperança” — uma certeza ainda não realizada, não um sonho desejoso e incerto. O termo grego é λπίδι – elpidi” que denota não uma esperança no sentido de uma expectativa ou pensamento desejoso sem qualquer fundamento, mas no sentido de expectativa confiante baseada em sólida certeza. A esperança bíblica repousa nas promessas de Deus especialmente naquelas relacionadas à volta de Cristo. O futuro dos redimidos é tão certo que, algumas vezes o N.T fala de acontecimentos futuros usando o passado, como se já estivessem acontecido (cf. Romanos 8:30; Hebreus 11:1; 1 Tessalonicenses 1:3). A esperança nunca é inferior à fé, mas sim uma extensão da fé. A fé é a possessão presente da graça, a esperança é a confiança na consumação da graça futura. (cf. NOTA).

“A tradução gloriemo- nos na esperança deixa de esclarecer ao leitor que o mesmo verbo foi usado aqui, e em 5:3 – “nos gloriamos nas tribulações”. Portanto 5:2 realmente significa: E nos gloriemo-nos na esperança da glória que Deus há ele manifestar ou exibir. A esperança exerce parte vital na vida dos crentes, pois ela se relaciona com tudo o que Deus tem prometido fazer por eles em Cristo”. (Comentário Bíblico Moody, p. 43) – NOTA.

(v.3) “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança…”.

(v.3) “Tribulações” — pressão extrema, como a exercida para extrair óleo de uma azeitona. O termo para tribulações é “θλίψεσιν – thlipsesin” que significa pressão, opressão, estresse, angústia, tribulação, adversidade, aflição, espremer, esmagar, apertar, sofrimento. A ideia é: (1) uma pilha de coisas sendo comprimidas manualmente. (2) colocar uma pressão no que está livre e liberto, e (3) esmagamento de uvas ou azeitonas em uma prensa. (cf. Mateus 5:11; Atos 5:41; 2 Coríntios 12:10; Filipenses 2:17; 2 Timóteo 4:6; Tiago 1: 2, 3, 12; João 16:33).

(v.4) “… e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança”.

(v.4) “Perseverança”— ato de permanecer sobre tremenda pressão sem sucumbir, persistência. O termo grego usado para perseverança é πομονν – hypomonēn”. “Hypomonēn” significa mais que fortaleza; significa o espírito que pode vencer o mundo, não significa o espírito que resiste passivamente, mas sim vence e conquista ativamente as provas e tribulações da vida.

Quando Beethoven estava ameaçado pela surdez, a prova mais terrível para um músico, ele disse: “Agarrarei a vida pelo pescoço”. Isto é “hypomonēn”.

Quando Scott se viu envolto na ruína por causa da quebra de seus editores, disse: “Ninguém dirá Pobre homem! Minha própria mão direita pagará a dívida” Isto é “hypomonēn”.

Alguém disse uma vez a uma alma nobre que estava passando por uma grande tristeza: “A tristeza dá cor à vida, não é certo?” Voltou à réplica: “Certo! E eu me proponho escolher a cor!” Isto é “hypomonēn”. “Hypomonēn” não é o espírito que se deita e permite que o cubram as águas; é o espírito que enfrenta as coisas e as supera.

(v.4) “Experiência”— literalmente, “prova” (δοκιμ– dokimē), um termo usado na testagem de metais preciosos para determinar sua pureza. Denota uma pessoa aprovada, de caráter provado (cf. Tiago 1:12).

SÍNTESE

“Mas esta esperança se torna mais clara na pressão que o dia a dia exerce na vida. O crente se gloria nas tribulações, porque sabe que elas produzirão uma visão mais clara do que está à frente – esperança contendo convicção. A ordem destes versículos é significativa – tribulação, perseverança, experiência, e então esperança. As provações despertam a paciência. A experiência produz o caráter. E o resultado disso tudo é a esperança”.

Paulo disse isto, sua atenção é despertada: Tudo isto é verdadeiro, tudo isto é glorioso, mas o certo é que nesta vida os cristãos se acham em situação difícil. Era difícil ser cristão em Roma. Recordando isto, Paulo alcança um alto clímax. “A tribulação”, diz, “produz paciência”. A palavra utilizada para tribulação é “θλῖψις – thlipsis”, que significa literalmente pressão. Todo tipo de coisas pode fazer pressão sobre os cristãos — a pressão da privação e a necessidade, e a estreiteza das circunstâncias, a pressão do pesar, a pressão da perseguição, a pressão da impopularidade e a solidão. Toda esta pressão, diz Paulo, produz paciência. “Pois as nossas aflições leves e passageiras estão produzindo para nós uma glória incomparável, de valor eterno” – 2 Coríntios 4:17.

“A paciência” continua Paulo, “produz prova”. A palavra que utiliza para prova é “δοκιμὴ – dokimē”. “Dokimē” é usada com referência ao ato de cunhar moedas da maneira como usamos o termo acrisolar. Descreve algo do qual se eliminou toda liga de impurezas, descreve o adquirir qualidades superiores ou excelentes, a ideia é de aperfeiçoar-se, apurar-se. Quando se enfrenta a aflição com paciência, o homem emerge da batalha mais forte, mais puro, melhor e mais perto de Deus.

“A prova” continua Paulo, “produz esperança”. Dois homens podem enfrentar uma situação igual. Esta pode levar um ao desespero, e pode acicatar (incitar) o outro para realizar ações triunfantes. Para um, pode ser o fim da esperança, para o outro pode ser um desafio de grandeza.

“Eu não gosto das crises”, disse Lord Reith¹, “mas eu gosto das oportunidades que elas proporcionam”. Agora, a diferença corresponde à diferença que existe no interior do homem. Se um homem se deixou converter em um ser fraco, impotente e frouxo, se tiver deixado que as circunstâncias o abatam, se se deixou afligir e rebaixar pela aflição, preparou-se a si mesmo de tal maneira que quando sobrevém o desafio da crise não pode fazer outra coisa senão desesperar-se. Se, por outro lado, um homem insistiu em enfrentar a vida com a fronte erguida, se sempre a enfrentou e, enfrentando-a, conquistou coisas, então quando sobrevier o desafio ele o enfrentará com olhos inflamados de esperança. O caráter que aguentou a prova sempre emerge com esperança. E logo Paulo faz uma longa declaração: “A esperança cristã nunca desilude porque está fundada no amor de Deus”.

(1) John Charles Walsham Reith (20 de julho de 1889 – 16 de junho de 1971) era um executivo de radiodifusão britânico que estabeleceu a tradição de independente serviço público de radiodifusão no Reino Unido.

Omar Khayyam¹ (1048 — 1131) escreveu agudamente a respeito das esperanças humanas: “As esperanças humanas em que os homens põem seus corações se fazem cinzas — ou prosperam, mas dali a pouco, como a neve sobre a face poeirenta do deserto, brilha uma horinha ou duas — e vai embora”.

(1) Omar Khayyam poeta, matemático e astrônomo persa dos séculos XI e XII.

Quando a esperança do homem está posta em Deus não se pode tornar pó e cinza. Quando a esperança do homem está posta em Deus não pode ser frustrada. Quando a esperança do homem está posta no amor de Deus nunca pode ser uma ilusão, porque Deus nos ama com um amor eterno, o qual está respaldado por um poder eterno.

(v.5) “Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado”.

(v.5) “Derramado”, termo grego κκέχυται – ekkechytai” que significa despejar, derramar, e no sentido metafórico: dar ou distribuir amplamente — o amor de Deus é dado generosamente aos seus filhos. O termo grego para amor é γάπη – agapē”: Denota o amor autoconcedido que dá livremente sem pedir nada em troca e sem considerar o valor do objeto, “banquetes de amor”. (cf. Jeremias 31:3; Malaquias 1:2; Romanos 11:28, 29; Oséias 11:4; 2 Coríntios 1:22; Gálatas 4:6; Efésios 1:13,14). (cf. NOTA).

“Ora, a esperança não confunde. Mesmo se a esperança se centraliza na futura ação de Deus (8:24, 25), ela tem uma importante possessão presente – o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado. A abundância deste amor no coração dos homens justificados, e o seu alcance, Cristo diz ser a qualidade distintiva dos cristãos (João 13:34, 35). Este amor, derramado em nossos corações, com a esperança que não desaponta, tem o seu exemplo supremo no amor de Deus por nós (Romanos 5:6 – 8)” [Comentário Bíblico Moody] – NOTA.

(v.6) “Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios”.

(v.6) “Fracos”— literalmente “impotentes” em virtude da morte espiritual. O adjetivo grego usado para “fracos” é, σθενν – asthenōn”, expressa algo fraco, frágil e delicado. E “ímpios” (σεβν – asebōn), o termo grego denota um ser destituído de temor reverente a Deus, um ímpio que condena a Deus (v.6) — uma prova de que o amor de Cristo nunca foi baseado em mérito humano. (cf. Gálatas 4:4; Romanos 4:25; Efésios 2:8,9). (cf. NOTA).

“Realmente, quando nós ainda éramos fracos (fraqueza mortal), (Cristo) morreu a seu tempo pelos ímpios. Raros são os exemplos de uma pessoa morrendo por um homem justo. Que alguém possa se aventurar a morrer por um homem bom, por causa do impacto de sua vida, é muito plausível. Mas, que Deus demonstra o Seu amor por nós em Cristo, morrendo por nós enquanto éramos ainda pecadores, não é apenas espantoso, é simplesmente incrível. Quatro vezes nesta seção ocorre a preposição πρ – hyper” (6 – 8). Ela tem um sentido tão amplo que nenhuma palavra pode transmiti-la. Ela realmente envolve em uma só unidade as idéias de “em benefício de”, “em favor de” e “em lugar de”. Se estas idéias forem colocadas dentro da palavra “por”, então todo o significado da morte de Cristo “por” nós começa a despontar”. [Comentário Bíblico Moody] – NOTA.

O que significa “a seu tempo” de Romanos 5:6? É o mesmo de “plenitude dos tempos” de Gálatas 4:4? Sim. São termos sinônimos.

O termo grego “καιρν – kairon” usado para “a seu tempo” significa tempo oportuno, tempo designado, tempo marcado, tempo devido, tempo definido, tempo propício, tempo adequado para agir.

O termo grego “χρόνου – chronou/chronos” usado para “plenitude dos tempos” significa tempo em geral.

“A expressão “plenitude dos tempos”, indica a chegada do tempo escatológico ou messiânico encerrando um longo período de séculos de espera da humanidade”. (cf. Gálatas 4:4).

(7 – 8) “Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o Seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”. (NOTA¹ – NOTA²).

 NOTA¹: “O fato de que Jesus morreu por nós é a prova final do amor de Deus. Seria muito difícil conseguir que um homem morresse por um justo. Seria possível persuadir alguém a morrer por um bom e grande princípio. Alguém poderia ter tão grande amor que fosse movido a dar sua vida por um amigo. Mas o maravilhoso de Jesus Cristo é que morreu por nós quando éramos pecadores, homens maus e numa situação de inimizade e de hostilidade com Deus. O amor não pode ir mais além do que isto”.

NOTA²: “Não foi para salvar homens bons que Cristo morreu, eram pecadores. Não foi para resgatar amigos de Deus que morreu Cristo, eram homens que estavam em inimizade com Deus. E logo Paulo avança mais um passo. Por meio de Jesus nossa situação com Deus foi mudada. Pecadores como éramos, fomos postos em uma correta relação com Deus. Mas isto não é suficiente. Não só precisa mudar nossa situação, mas também nosso estado. O pecador salvo não pode continuar sendo pecador, deve chegar a ser um homem bom. Agora, a morte de Cristo mudou nossa situação, e a ressurreição de Cristo muda nosso estado. Ele não está morto, Ele vive, está conosco sempre, para nos ajudar e nos guiar e nos dirigir, para nos encher com Seu poder de modo que sejamos capazes de vencer a tentação, para revestir nossas vidas com algo de Seu resplendor, se vivermos para sempre em Sua presença ressuscitada Aleluia! Aquele que mudou nossa situação com relação a Deus pode também mudar nosso estado. Começa pondo os pecadores em correta relação com Deus quando são ainda pecadores, continua, por Sua graça, fazendo a esses pecadores capazes de renunciar ao pecado e chegar a ser homens bons”.

A palavra grega usada para “pecador” é: μαρτωλν – hamartōlōn”, um termo usado pelos arqueiros quando se erra o alvo, ou quando um viajante sai da estrada e segue trilhas tortuosas que fazem com que se perca. E não era essa a nossa realidade? “hamartōlōn” denota alguém devotado ao pecado por escolha, um transgressor cujos pensamentos, palavras e atos são contrários às eternas leis de Deus (cf. Efésios 2:1 – 3).

(v.9) “Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo Seu sangue, seremos por ele salvos da ira”.

Mas Paulo rapidamente muda o cenário do nosso anterior estado de pecadores para o agora. Se Deus nos amava quando éramos pecadores, se Cristo morreu por nós então, muito mais agora, tendo sido declarados justificados por Seu sangue, seremos salvos através dEle (Cristo) da futura ira de Deus, do “ódio” Santo de Deus. Observe que a base para a justificação é o sangue de Cristo. Esta futura salvação é do castigo da ira de Deus, do qual se fala em 2 Tessalonicenses 1:9, “eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do Seu poder”. E qual a nossa certeza? O Amor de Deus!

“Se Deus nos amou uma vez, Ele nos amará para sempre, Se Jesus uma vez nos fez Seu, Então para sempre Jesus é nosso” – C.H. Spurgeon.

O termo grego “αματι – haimati” (sangue) é usado especialmente no N.T para o sangue expiatório de Cristo. Seu sangue é o agente para purificação, o perdão e a redenção (cf. 1 João 5:8; Deuteronômio 19:15; João 8:17 – 18).

O termo grego para “salvos” é “σωθησόμεθα – sōthēsometha” que significa salvar, curar, preservar, manter seguro e ileso, resgatar do perigo ou destruição, libertar. O seu equivalente é “σωζω/sozo” que significa salvar da morte física através da cura espiritual perdoando o pecado e suas consequências”. “σωζω – sozo” nas culturas primitivas é traduzido simplesmente por “dar uma nova vida” e “fazer ter um novo coração”. (cf. Isaías 53:5, 6, 10; Ezequiel 36:26).

(v.10) “Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do Seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela Sua vida…”.

Os que agora estão justificados, dizem, que foram reconciliados com Deus, quando inimigos. A base dessa reconciliação ficou explicitamente declarada – mediante a morte de Seu Filho. Fomos reconciliados por Sua morte enquanto ainda éramos inimigos. Sendo isto verdade, conclui o apóstolo, muito mais verdade é que seremos salvos pela Sua vida. Em outro lugar, Paulo destaca que aquele que é ligado ao Senhor é um espírito com Ele (1 Coríntios 6:17), isto é, participa da vida ressurreta e do poder espiritual de Cristo.

Ele também diz: “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então vós também sereis manifestados com Ele, em glória” (Colossenses 3:4). Seremos salvos pela vida de Cristo porque participamos desta vida. Pertencemos a Cristo. O escritor aos Hebreus destaca que Cristo vive para interceder por nós (Hebreus 7:25). A vida intercessora de Cristo na glória tem um desempenho vital na salvação dos crentes. Mas o contexto aqui parece destacar a participação dos crentes na morte e vida ressurreta de Cristo. Os crentes serão salvos, (futuramente) pela sua presente e futura participação na vida de Cristo. (cf. NOTA).

O termo grego usado para “reconciliação” é, “κατηλλάγημεν – katēllagēmen” que significa mudar, trocar, restabelecer, restaurar relacionamentos, tornar as coisas certas, remover uma inimizade. “Katēllagēmen” descreve o restabelecimento de um relacionamento adequado, carinhoso, e interpessoal, que foi quebrado ou rompido. (cf. Efésios 2:3; 2 Coríntios 5:18; Romanos 5:10; Romanos 10:21; Efésios 4:18; Efésios 2:1 – 3).

(v.11) “… e não apenas isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem recebemos, agora, a reconciliação”.

Jactar-se ou gloriar-se em Deus, ato esse por meio do qual o crente afirma sua devoção a Deus, é feito através do Senhor Jesus Cristo. Através dEle acabamos agora de receber a reconciliação. Deus é Aquele que age na reconciliação (2 Coríntios 5:18, 19), e os homens dizem que são reconciliados (Romanos 5:10; 2 Coríntios 5:20), isto é, Deus age sobre eles. Assim, os crentes, dizem, recebem reconciliação. São os recipientes de um relacionamento de paz e harmonia realizado por Deus.

CONCLUSÃO

 Há nomes técnicos para estas coisas. A mudança de nossa situação é a justificação, isto é, quando começa todo o processo da salvação. A mudança de nosso estado é a santificação, isto é, quando o processo de salvação continua, para não terminar até que o vejamos face a face e sejamos semelhantes a Ele.

Aqui há uma coisa que devemos notar. É algo, de extraordinária importância. Paulo é inteiramente claro em que o processo total de salvação, a vinda de Cristo, e a morte de Cristo, é a prova do amor de Deus. Tudo aconteceu para nos mostrar que Deus nos ama. Tudo aconteceu porque Deus nos ama. Agora, muitas vezes a coisa se apresenta como se por um lado houvesse um Cristo benévolo e amante, e pelo outro um Deus colérico e vingativo. A coisa é muitas vezes apresentada como se Cristo fizesse algo que mudou a atitude de Deus para com os homens, que transformou a Deus de um ser colérico em um ser benévolo. Nada poderia estar mais longe da verdade. Todo o processo brota do amor de Deus. Jesus não veio para mudar a atitude de Deus, veio para mostrar qual é e sempre foi a atitude de Deus para com os homens. Ele veio para provar aos homens incontestavelmente que Deus é amor.

“Justificados pela fé, temos paz com Deus, pois, o justo viverá pela fé no Filho de Deus, Jesus Cristo”. Amém.

Glorificado Seja Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.

Paz e graça.

Capa: Marcos Frade.

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Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Geral e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
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