GRAÇA IRRESISTÍVEL

Por John Piper.

Você notará que estou mudando a ordem natural do acróstico TULIP. O “I” representa a graça irresistível e vem, naturalmente, em quarto lugar. Estou colocando-o em segundo, depois do “T”, que representa a depravação total. A razão para isso é que, no passar dos anos, tenho visto que a maioria dos cristãos tem uma experiência consciente e pessoal da graça irresistível, embora nunca lhe tenham dado esse nome. Esta experiência pessoal da realidade da graça irresistível ajuda as pessoas a assimilarem mais rapidamente do que tratam estes cinco pontos. E isto, por sua vez, dispõe as pessoas para a veracidade bíblica dos outros pontos.

Sendo mais específico, raramente encontro crentes que querem receber o crédito por sua própria conversão. Há algo da verdadeira graça no coração do crente, que o faz querer dar toda a glória a Deus. Por exemplo, se você perguntar a um crente como responderá a pergunta de Jesus no último julgamento: “Por que você creu em mim quando ouviu o evangelho, mas seus amigos não creram quando o ouviram?”, poucos crentes responderão dizendo: “Por que eu fui mais sábio ou mais esperto ou mais espiritual ou mais treinado ou mais humilde”. A maioria de nós sente instintivamente que deve glorificar a graça de Deus, dizendo: “Se não fosse pela graça de Deus, eu também estaria perdido”. Em outras palavras, sabemos intuitivamente que a graça de Deus foi decisiva em nossa conversão. Isso é que pretendemos dizer com a expressão “graça irresistível”.

MAS RESISTIMOS REALMENTE À GRAÇA

A doutrina da graça irresistível não significa que toda influência do Espírito Santo não possa ser resistida. Significa que o Espírito Santo, sempre que quer, pode vencer toda a resistência e tornar sua influência irresistível.

Em Atos 7:51, lemos que Estêvão disse aos líderes judeus: “Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, também vós o fazeis”. E Paulo falou sobre entristecer e apagar o Espírito Santo (Efésios 4:30; 1 Tessalonicenses 5:19). Deus faz muitos apelos e sugestões que são resistidos. De fato, toda a história de Israel no Antigo Testamento é uma longa história de resistência humana aos mandamentos e às promessas de Deus, como mostra a parábola dos lavradores maus (Mateus 21:33 – 43; cf. Romanos 10:21). Esta resistência não contradiz a soberania de Deus. Ele a permite e vence sempre que quiser.

A doutrina da graça irresistível significa que Deus é soberano e pode suplantar toda resistência quando quiser. “Segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão” (Daniel 4:35). “No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada” (Salmos 115:3). Quando Deus age para cumprir seu propósito soberano, ninguém pode resistir-lhe. “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42:2).

A OBRA DE DEUS EM TRAZER-NOS À FÉ

Isto é o que Paulo ensinou em Romanos 9:14 – 18, que fez o seu oponente dizer: “De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade?” Ao que Paulo respondeu: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?” (Romanos 9:20, 21).

Mais especificamente, a graça irresistível se refere à obra soberana de Deus em vencer a rebelião de nosso coração e trazer-nos à fé em Cristo, para que sejamos salvos. Se a doutrina da depravação total, como explicamos no capítulo anterior, é verdadeira, não pode haver salvação sem a realidade da graça irresistível. Se estamos mortos em delitos e pecados, sendo incapazes de submeter-nos a Deus por causa de nossa natureza rebelde, jamais creremos em Cristo, se Deus não vencer a nossa rebelião.

Alguém pode dizer: “Sim, o Espírito Santo tem de atrair-nos a Deus, mas podemos usar nossa liberdade para resistir ou para aceitá-lo”. Todavia, isso não é o que a Bíblia ensina. Se não houver a ação contínua da graça salvadora, sempre usaremos nossa liberdade para resistir a Deus. Isso é o que significa ser “incapaz de submeter-se a Deus”. “O pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Romanos 8:7, 8). Se uma pessoa se torna humilde ao ponto de submeter-se a Deus, isso acontece porque Deus lhe deu uma natureza nova, humilde. Se uma pessoa permanece tão endurecida de coração e orgulhosa que não se submete a Deus, isso acontece porque Deus não lhe deu tal disposição de espírito. Mas, para vermos isso mais persuasivamente, devemos examinar as Escrituras.

SE O PAI NÃO TROUXER

Em João 6:44, Jesus disse: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer”. Esse trazer é a obra soberana da graça, sem a qual nenhum de nós será salvo de nossa rebelião contra Deus. Outra vez, alguém pode objetar, dizendo: “Deus atrai para si mesmo todos os homens e não apenas alguns”. Em seguida, ele pode citar João 12:32: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo”.

No entanto, há alguns problemas sérios nesta objeção. Um dos problemas é que a palavra traduzida por “todos” (no grego, “pantas”) não se refere a todas as pessoas. Jesus disse apenas: “Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo”. Devemos averiguar contextos semelhantes em João para determinar ao que este “todos” provavelmente se refere. Um contexto semelhante está no capítulo anterior – João 11:50 – 52. Caifás, o sumo sacerdote, falou mais verdades do que ele mesmo sabia, disse João.

“(…) Nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo e que não venha a perecer toda a nação. Ora, ele não disse isto de si mesmo; mas, sendo sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus estava para morrer pela nação e não somente pela nação, mas também para reunir em um só corpo os filhos de Deus, que andam dispersos”. As últimas palavras descrevem o alcance da morte de Jesus, conforme João a apresenta no evangelho. Jesus não morreu por um único grupo étnico, mas “para reunir em um só corpo os filhos de Deus, que andam dispersos” – todos eles. Isto é uma referência aos gentios que Deus atrairia eficazmente a si mesmo quando ouvissem o evangelho. Eles são chamados “filhos de Deus” porque Deus os escolheu para serem adotados, como Paulo disse em Efésios 1:4, 5. Portanto, se este é um bom texto correspondente, o todos em João 12:32 não se refere a todos os seres humanos e sim a todos “os filhos de Deus”. “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos (os filhos de Deus) a mim mesmo” – de toda tribo, língua, povo e nação (Apocalipse 5:9). Ou você poderia dizer: “Eu atrairei todas as minhas ovelhas”, porque Jesus disse: “Dou a minha vida pelas ovelhas” (João 10:15) – todas elas; e: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem” (João 10:27) – todas elas. Ou poderia dizer: “Eu atrairei todos os que são da verdade”, porque Jesus disse: “Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz” (João 18:37). Ou poderia dizer: “Atrairei todos os que são de Deus”, porque Jesus disse: “Quem é de Deus ouve as palavras de Deus” (João 8.47). Ou poderia dizer: “Eu atrairei todos os que o Pai me dá”, porque João 6:37 diz: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim”.

Em outras palavras, permeando o Evangelho de João está à verdade de que Deus Pai e Deus Filho atraem pessoas das trevas para a luz decisivamente. E Cristo morreu por isto. Ele foi levantado por isto – para que todos sejam atraídos a Ele – todos os filhos, todas as ovelhas, todos os que são da verdade, todos aqueles que o Pai dá ao Filho. O que João 12:32 acrescenta é que isto acontece hoje na história por ser Cristo mostrado a todo o mundo e por serem pregadas as boas novas de que todo aquele que crer em Cristo será salvo. Na pregação do Cristo levantado, Deus abre os ouvidos dos surdos. As ovelhas ouvem a voz de Jesus e o seguem (João 10:16, 27). A principal objeção a usar João 12:32 (atrair todos) para negar que o trazer de João 6:44 (“Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer”) realmente produz o vir a Cristo é a maneira como João descreveu a relação entre o trazer do Pai e o fracasso de Judas em seguir a Jesus até ao fim.

Em João 6:64, 65, Jesus disse: “Contudo, há descrentes entre vós. Pois Jesus sabia, desde o princípio, quais eram os que não criam e quem o havia de trair. E prosseguiu: Por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a

mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido”.

Observe que Jesus mostrou que a razão por que ele disse (lembre João 6:44) que “ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido ( = for atraído)” era explicar por que “há descrentes entre vós”. Poderíamos parafrasear isto assim: Jesus sabia desde o começo que Judas não cria nele, apesar de todo o ensino e de todos os convites que recebera. E, porque Jesus sabia disso, o explicou nas palavras “ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido”.

Houve muitas influências para o bem na vida de Judas – neste sentido, Judas foi cortejado, convidado e atraído por três anos. Mas o ensino de Jesus, em João 6:44 e 6:65, é que a resistência de Judas à graça não foi o fator crucialmente decisivo. O que foi crucialmente decisivo foi isto: “não lhe foi concedido” o vir a Cristo. Ele não foi “trazido” pelo Pai. O dom decisivo e irresistível da graça não lhe foi dado. Essa é a razão por que falamos de “graça irresistível”. Em nós mesmos somos, todos, tão resistentes à graça quanto Judas. E a razão por que qualquer um de nós veio a Jesus não é que somos mais espertos ou mais sábios ou mais virtuosos do que Judas, e sim que o Pai venceu nossa resistência e nos trouxe a Cristo. Todos somos salvos pela graça irresistível – graça maravilhosa! Muito tempo meu espírito esteve preso, Preso no pecado e nas trevas da natureza; Teus olhos lançaram um raio despertador – Acordei, a prisão resplandeceu com luz; As algemas caíram, o coração foi liberto, Levantei-me, saí e passei a seguir-te. Isto é o que acontece quando o Pai “nos traz” irresistível e infalivelmente a Jesus.

OS REQUISITOS PARA A SALVAÇÃO COMO DONS DE DEUS

Agora, considere a maneira como Paulo descreveu o arrependimento como um dom de Deus. Em 2 Timóteo 2:24, 25, ele disse: “Ora, é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente, disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda (…) o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade”.

Assim como Jesus disse que o vir a ele é dado pelo Pai (João 6:44), assim também Paulo disse, nesta passagem, que o arrependimento é “concedido” pelo Pai. Deus pode dar o arrependimento. Observe que Paulo não estava apenas dizendo que a salvação é um dom de Deus. Estava dizendo que os requisitos para a salvação são também um dom. Quando uma pessoa ouve um pregador dizer: “Arrependa-se e venha a Cristo”, ela pode escolher resistir a essa exortação. Pode desobedecer-lhe. Pode dizer: “Não, eu não me arrependerei”. Entretanto, se Deus lhe dá o arrependimento, ela não pode resistir, porque o próprio significado do dom do arrependimento é que Deus mudou o nosso coração e o tornou disposto a arrepender-se. Em outras palavras, o dom do arrependimento é a anulação da resistência ao arrependimento. Esta é a razão por que chamamos esta obra de Deus “graça irresistível”. A resistência ao arrependimento é substituída pelo dom do arrependimento. Foi assim que todos nós chegamos a arrepender-nos. Milhares de pessoas verdadeiramente arrependidas não sabem disso. Aprenderam coisas erradas sobre como foram convertidas e, por isso, estão paralisadas em sua adoração e amor. Talvez você seja uma delas. Se isso é verdade, não fique com raiva de seus mestres, exulte com grande alegria por ter compreendido 2 Timóteo 2:25, e permita que seu coração transborde de gratidão e alegria humilde por causa da nova consciência de quão admirável é o seu arrependimento. É um dom totalmente gratuito de Deus. Isso significa que Ele o ama mais particularmente do você já havia pensado.

NUNCA CONTRA A NOSSA VONTADE

Isto deve deixar evidente que a graça irresistível nunca significa que Deus nos força a nos arrependermos ou a crermos ou a seguirmos a Jesus, contra a nossa vontade. Isso seria uma contradição, porque o crer, o arrepender-se e o seguir a Jesus são sempre espontâneos, pois, do contrário, seriam hipocrisia. A graça irresistível não arrasta o indisposto para o reino, ela muda a disposição do coração. Ela não opera com constrangimento a partir do exterior, como algemas e cadeias. Ela opera com poder a partir do interior, como nova sede, nova fome e desejo impulsionador. Portanto, a graça irresistível é compatível com a pregação e o testemunho que tentam persuadir as pessoas a fazerem o que é sensato e está em harmonia com seus melhores interesses. Deus usa o ministério da Palavra para realizar essas mudanças sobrenaturais no coração. E essas mudanças produzem o arrependimento e a fé. Paulo escreveu em 1 Coríntios 1:23, 24: “Nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus”. Note os dois tipos de “chamado” implícitos no texto. Primeiramente, a pregação de Paulo foi dirigida a todos, tanto judeus como gregos. Isto é um tipo de chamado geral do evangelho. Oferece salvação imparcial e indiscriminadamente a todos. Todo aquele que crer no Cristo crucificado o terá como Salvador e Senhor. Mas frequentemente este chamado geral cai em ouvidos não receptivos e é designado como loucura.

Observe, porém, em segundo lugar, que Paulo se referiu a outro tipo de chamado. Ele disse que, entre aqueles que ouviram, judeus e gregos, houve alguns que, além de ouvir ao chamado geral, foram “chamados” de outra maneira. “Mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (v. 24). Em outras palavras, eles foram chamados de uma maneira que não mais consideravam a cruz como loucura, mas como a sabedoria e o poder de Deus. Algo aconteceu nos corações que mudou a maneira como viram a Cristo. Descrevemos isto não como o chamado geral e sim como o chamado eficaz de Deus. É semelhante ao chamado de Lázaro para fora do sepulcro. Jesus clamou em alta voz: “Lázaro, vem para fora” (João 11:43). E o morto saiu. Esse tipo de chamado cria aquilo que ordena. Se diz: “Vive!”, Ele cria a vida. Se diz: “Arrependa-se!”, Ele cria o arrependimento. Se diz: “Creia!”, Ele cria a fé. Se diz: “Siga-me”, Ele cria a obediência. Paulo disse que todos aqueles que são chamados neste sentido não mais consideram a cruz como loucura e, em vez disso, consideram-na como o poder de Deus. Não vêm a Cristo por coerção.

Agem livremente, com base no que valorizam como infinitamente precioso. Isso é o que acontece com eles. Sua resistência à cruz foi vencida porque o chamado de Deus rompeu a cegueira espiritual deles e lhes fez ver a cruz como sabedoria e poder. Isto é o que pretendemos dizer com graça irresistível.

“Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora ardo no desejo de tua paz” – Santo Agostinho.

EM OPERAÇÃO POR TRÁS DE NOSSA VONTADE

Como Deus age para mudar a nossa vontade, sem coerção contra a nossa vontade, é explicado em 2 Coríntios 4:4 – 6: Nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus. Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos, por amor de Jesus. Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, Ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo. Visto que os homens são cegos para a preciosidade de Cristo, um milagre precisa ser operado a fim de que cheguem a ver e crer. Paulo comparou este milagre com o primeiro dia da criação, quando Deus disse: “Haja luz”. Uma das afirmações mais admiráveis a respeito de como todos nós fomos trazidos da

cegueira para a luz – da escravidão para a liberdade, da morte para a vida – é: “Deus (…) resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo”. Uma luz real – uma luz espiritual – resplandeceu em nosso coração. Foi a luz “do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo” (v.6). Ou, como diz o versículo 4, “a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus”. Em outras palavras, Deus faz a glória – a verdade e a beleza autoautenticadoras – de Cristo ser vista e experimentada em nosso coração. A partir desse momento, o nosso desejo com respeito a Cristo é mudado fundamentalmente. Isto é, de fato, uma nova criatura – um novo nascimento. Isto é, em essência, o ato divino equivalente ao chamado eficaz que vimos em 1 Coríntios 1:24: “Para os que foram chamados (…) Cristo (é agora visto como) poder de Deus e sabedoria de Deus”. Aqueles que são chamados têm seus olhos abertos pelo poder soberano e criativo de Deus, para que não mais vejam a cruz como loucura, e sim como o poder e a sabedoria de Deus. O chamado eficaz é o milagre que remove a nossa cegueira. Deus faz a glória de Cristo resplandecer com beleza irresistível. Isto é graça irresistível.

O SENHOR LHE ABRIU O CORAÇÃO

Outro exemplo desta obra está em Atos 16:14, que nos informa que Lídia ouvia a pregação de Paulo. Lucas disse: “O Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia”. A menos que Deus abra o nosso coração, não

ouviremos a verdade e a beleza de Cristo na mensagem do evangelho. Este abrir o coração é o que queremos dizer com graça irresistível. Ela vence a resistência obstinada, de cegueira para a beleza e de surdez para a bondade das boas novas. Outra maneira de descrevê-la é “novo nascimento” ou ser nascido de novo. O novo nascimento é uma criação miraculosa de Deus, que capacita uma pessoa anteriormente “morta” a receber a Cristo e, assim, ser salva. Não produzimos o novo nascimento por meio de nossa fé. Deus produz a nossa fé por meio do novo nascimento. Observe a maneira como João expressa este relacionamento: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus” (1 João 5:1). Isto significa que ser nascido de Deus vem primeiro e crer é o passo seguinte. Crer em Jesus não é a causa de sermos nascidos de novo, é a evidência de que fomos “nascidos de Deus”.

O NOVO NASCIMENTO: UM ATO DE CRIAÇÃO SOBERANO

Para confirmar isto, observe, com base no Evangelho de João, como o nosso receber a Cristo se relaciona com o sermos nascidos de Deus: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1:12, 13). João diz que Deus dá o direito de serem filhos de Deus a todos aqueles que recebem a Cristo (v.12). Depois, João continua e diz que aqueles que recebem a Cristo “não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. Em outras palavras, é necessário receber a Cristo para se tornar um filho de Deus, mas o nascimento que introduz uma pessoa na família de Deus não é possível pela vontade do homem. Somente Deus pode realizá-lo.

O homem é morto em delitos e pecados (Efésios 2:1). Ele não pode tornar a si mesmo novo ou criar nova vida em si mesmo. Precisa ser nascido de Deus. Depois, com a nova natureza de Deus, o homem vê a Cristo pelo que Ele realmente é e recebe espontaneamente a Cristo por tudo que Ele é. Os dois atos (novo nascimento e fé) estão conectados de tal modo, que não podemos distingui-los na experiência. Deus nos gera de novo e o primeiro sinal de vida no filho nascido de novo é a fé. Portanto, o novo nascimento é o efeito da graça irresistível, porque é um ato de criação soberana – “não (…) da vontade do homem, mas de Deus”. Esta verdade gloriosa do novo nascimento e de como ele acontece é tão maravilhosa, que escrevi um livro inteiro sobre ela, intitulado “Finalmente Vivos: O que Acontece quando Nascemos de Novo”. Se você quer aprofundar-se nas maravilhas da graça irresistível, esse livro é um bom material que você pode examinar.

Começamos este capítulo dizendo que a maioria dos cristãos sabe intuitivamente que a graça de Deus foi decisiva em produzir nossa conversão. Vemos aqueles que resistem ao evangelho e dizemos: “Se não fosse pela graça de Deus, eu também estaria perdido”. Agora, no final do capítulo, espero que esteja mais claro por que isso é verdade. Deus venceu realmente a nossa resistência. Ele nos atraiu realmente a Si mesmo. Ele nos deu realmente o arrependimento. Ele nos fez realmente nascidos de novo, para que recebêssemos a Cristo. Ele resplandeceu realmente em nosso coração com a luz da glória de Cristo. E nos chamou realmente – como Lázaro – da morte para a vida. Não é surpreendente, então, que todos os cristãos verdadeiros, mesmo antes de aprenderem estas coisas, sabem intuitivamente que a graça foi decisiva em trazê-los a Cristo. Frequentemente, o coração precede a mente em direção à verdade. Esta é, certamente, a condição de muitos cristãos no que diz respeito à graça irresistível. Mas agora vimos, por nós mesmos, esta verdade na Palavra de Deus. Meu desejo é que, por causa disso, você tenha uma experiência mais profunda da graça de Deus. Que você adore a Deus e ame as pessoas como nunca antes. Isso é o que uma experiência mais profunda da graça soberana faz.

Paz e graça.

Capa: Marcos Frade.

Extraído do Livro: Cinco Pontos; Capítulo Três; 2014 Editora Fiel.

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Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Geral e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
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