EXPIAÇÃO LIMITADA

Por John Piper.

A expiação é a obra de Deus em Cristo, na cruz, pela qual Ele completou a obra de Sua vida perfeitamente justa, cancelou a dívida de nosso pecado, satisfez a ira santa de Deus contra nós e ganhou para nós todos os benefícios da salvação. A morte de Cristo foi necessária porque Deus não mostraria uma consideração justa por Sua glória se ignorasse os pecados, como que os varrendo para debaixo do tapete, sem nenhuma recompensa. Este é o ensino de Romanos 3:25, 26: A quem (Cristo) Deus propôs, no Seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a Sua justiça, por ter Deus, na Sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos, tendo em vista a manifestação da Sua justiça no tempo presente, para Ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus. Você pode ver, com base nas palavras enfatizadas, que a morte de Cristo foi necessária para vindicar a equidade de Deus em justificar os ímpios pela fé.

Por que é assim? Porque seria injusto perdoar pecadores, como se o pecado deles fosse insignificante, quando, de fato, o pecado é um insulto contra o valor da glória de Deus. E, visto que o valor da glória de Deus é infinito, a ofensa é infinitamente ultrajante. Por isso, Jesus tomou a maldição que era devida ao nosso pecado, para que fôssemos justificados e a justiça de Deus fosse vindicada.

O QUE CRISTO REALIZOU REALMENTE?

A expressão “expiação limitada” trata da pergunta “por quem Cristo fez tudo isto?” – “Por quem Cristo morreu?” “Ele expiou os pecados de quem?” – “Em favor de quem Ele comprou os benefícios da salvação?” Mas, por trás destas perguntas sobre a extensão da expiação, está a pergunta igualmente importante sobre a natureza da expiação. O que Cristo realizou realmente na cruz em favor daqueles pelos quais Ele morreu? Essa pergunta nos levará a uma resposta mais exata para as outras. Se você dissesse que Cristo morreu da mesma maneira por todos os seres humanos, então, teria de definir a natureza da expiação muito diferentemente do que o faria se cresse que Cristo morreu de uma maneira específica por aqueles que realmente creem. No primeiro caso, você creria que a morte de Cristo não garantiu decisivamente a salvação de ninguém, apenas tornou todos os homens salváveis, de modo que alguma outra coisa seria decisiva em salvá-los, ou seja, a sua escolha. Nesse caso, a morte de Cristo não removeu realmente a sentença de morte e não garantiu realmente vida nova para ninguém. Em vez disso, ela apenas criou possibilidades de salvação, que seriam tornadas reais por pessoas que proveriam a causa decisiva, ou seja, a sua fé. Neste entendimento da expiação, a fé e o arrependimento não são dons de Deus, comprados por sangue para pecadores específicos, mas, em vez disso, são atos de alguns pecadores que tornam o sangue funcional para eles. Você começa a perceber quão intimamente esta doutrina da expiação está ligada à doutrina anterior, da graça irresistível. O que penso ser o ensino da Bíblia é que a própria graça irresistível foi comprada com o sangue de Jesus. O novo nascimento foi comprado com sangue. O chamado eficaz foi comprado com sangue. O dom do arrependimento foi comprado com sangue. Nenhum destes atos de graça irresistível é merecido. Vêm a nós porque Cristo os adquiriu com Seu sangue e Sua justiça. Mas isso significa que Ele não os adquiriu da mesma maneira para todos. Do contrário, todos seriam nascidos de novo, seriam chamados eficazmente e receberiam o dom do arrependimento. Portanto, a questão experiencial e pessoal com a qual nos deparamos agora neste capítulo é: cremos que Cristo obteve decisivamente para mim o chamado, a vida e o arrependimento que tenho agora? Ou ofereço estas coisas de mim mesmo, de modo que aquilo pelo que Ele morreu é contado como meu? Porque, se Cristo morreu da mesma maneira por todas as pessoas, Sua morte não obteve infalivelmente a graça regeneradora ou a fé ou o arrependimento para aqueles que são salvos. Devemos ter regenerado a nós mesmos sem o miraculoso comprar com sangue realizado por Cristo, devemos ter chegado à fé e ao arrependimento por nós mesmos, sem os dons da fé e do arrependimento comprados com sangue. Em outras palavras, se cremos que Cristo morreu da mesma maneira por todos os homens, os benefícios da cruz não podem incluir a misericórdia pela qual somos trazidos à fé, porque todos os homens seriam trazidos à fé, mas eles não o são. Todavia, se a misericórdia pela qual somos trazidos à fé (graça irresistível) não faz parte do que Cristo comprou na cruz, somos deixados a obter de outra maneira a nossa libertação da morte, da cegueira e da rebelião. Somos deixados a criar, de outra maneira, o nosso próprio caminho para entrarmos na segurança de Cristo, visto que Ele não obteve esta entrada (novo nascimento, fé, arrependimento) por nós, quando morreu.

QUEM LIMITA REALMENTE A EXPIAÇÃO

Portanto, torna-se evidente que não é o calvinista que limita a expiação, e sim aqueles que negam que a morte expiatória de Cristo realiza o que necessitamos desesperadamente – ou seja, a salvação da condição de morte, dureza e cegueira, sob a ira de Deus. Eles limitam o poder e a eficácia da expiação, para que possam dizer que ela foi realizada até em favor daqueles que morrem em incredulidade e são condenados. A fim de dizer que Cristo morreu da mesma maneira em favor de todos os homens, eles têm de limitar a expiação a uma possibilidade ou a uma oportunidade de salvação, se homens caídos puderem escapar de sua morte e rebelião para obter fé por um meio eficaz, não provido pela cruz.

Por outro lado, nós não limitamos o poder e a eficácia da expiação. Pelo contrário, afirmamos que, na cruz, Deus tinha em vista a redenção concreta e eficaz de Seus filhos de tudo que os destruiria, inclusive a sua própria incredulidade. E afirmamos que, quando Cristo morreu especificamente por Sua noiva, Ele não criou simplesmente uma possibilidade ou uma oportunidade de salvação, mas comprou realmente e obteve infalivelmente para eles tudo que é necessário para torná-los salvos, incluindo a graça da regeneração e o dom da fé. Não negamos que Cristo morreu, em algum sentido, para salvar todos. Paulo disse, em 1 Timóteo 4:10, que em Cristo, Deus é o “Salvador de todos os homens, especialmente dos fiéis”. O que negamos é que a morte de Cristo foi no mesmo sentido em favor de todos os homens. Deus mandou Cristo para, em algum sentido, salvar todos. E o enviou para salvar, em um sentido mais específico, aqueles que creem. A intenção de Deus é diferente para cada grupo. Essa é uma maneira natural de entendermos 1 Timóteo 4:10. Para “todos os homens”, a morte de Cristo é o fundamento para a oferta gratuita do evangelho. Este é o significado de João 3:16: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. O enviar o Filho é para todo o mundo no sentido que Jesus deixou claro: para que todo o que nEle crê não pereça. Nesse sentido, Deus enviou Jesus para todos. Ou, usando as palavras de 1 Timóteo 4:10, Deus é o “Salvador de todos os homens” porque Cristo morreu para prover uma oferta de perdão totalmente confiável e válida, para que todo aquele que confiar em Cristo, sem exceção, seja salvo. Quando o evangelho é pregado, Cristo é oferecido a todos, sem discriminação. E a oferta é plenamente autêntica para todos. O que é oferecido é Cristo, e qualquer um – qualquer um – que recebe a Cristo, recebe tudo que Ele comprou para Suas ovelhas, Sua noiva. O evangelho não oferece uma possibilidade de salvação. Ele é a possibilidade de salvação. Mas o que é oferecido é Cristo, e nEle, a infinita realização que Ele consumou em favor de Seu povo, por meio de Sua morte e ressurreição.

O PAPEL CRUCIAL DA NOVA ALIANÇA

O fundamento bíblico para dizermos que Cristo morreu não somente para tornar disponível a salvação para todos os que crerem, mas também para comprar a fé dos eleitos é o fato de que o sangue de Jesus adquiriu as bênçãos da nova aliança para o Seu povo. A fé dos eleitos e chamados de Deus foi comprada com “o sangue da (nova) aliança” (Mateus 26:28). O ponto de vista arminiano apresenta os pecadores como necessitados da ajuda divina para crerem. Isso é verdade. Precisamos de ajuda. No entanto, muito mais ajuda do que a que o arminianismo propõe. Nesse ponto de vista, o pecador, depois de ser ajudado por Deus, provê o impulso decisivo. Deus apenas ajuda, o pecador decide. Assim, “o sangue da aliança” não garante decisivamente a nossa fé. A causa decisiva da fé é a autodeterminação humana. A obra expiatória de Cristo, eles dizem, estabelece esta possibilidade, mas não garante o resultado. Todavia, a nova aliança, comprada pelo sangue de Cristo, ensina algo muito diferente. Observemos o ensino da nova aliança. Deus expressou os termos da nova aliança por meio de Jeremias: “Eis aí vêm dias, diz o SENHOR, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam a minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o SENHOR. Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o SENHOR: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhes inscreverei (…) Perdoarei as suas iniquidades e dos seus pecados jamais me lembrarei” (Jeremias 31:31 – 34). Uma diferença fundamental entre a nova aliança prometida e a velha aliança feita “com seus pais” é que eles quebraram a velha aliança, mas na nova aliança Deus imprimirá neles a lei e a inscreverá no seu coração, para que as condições da aliança sejam garantidas pela iniciativa soberana de Deus. A nova aliança não será quebrada. Isso é parte do propósito de Deus. Ela faz reivindicações dos participantes da aliança, e as garante e preserva. Deus torna este fato ainda mais claro no capítulo seguinte de Jeremias: “Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho, para que me temam todos os dias, para seu bem e bem de seus filhos. Farei com eles aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim. Alegrar-me-ei por causa deles e lhes farei bem” (Jeremias 32:39 – 41). Deus faz, pelo menos, seis promessas neste texto: (1) farei com eles uma aliança eterna; (2) eu lhes darei o tipo de coração que garante o temerem a mim para sempre; (3) nunca deixarei de lhes fazer o bem; (4) porei o temor a mim no seu coração; (5) não deixarei que se apartem de mim; (6) eu me alegrarei em lhes fazer o bem. Aqui, em Jeremias 32, torna-se ainda mais claro do que em Jeremias 31 o fato de que Deus está tomando a iniciativa soberana para garantir que a nova aliança seja bem sucedida. Deus não deixará no poder da vontade humana caída o obter e o preservar a sua permanência na nova aliança. Ele dará um novo coração – um coração que teme o Senhor. Será decisivamente uma obra de Deus e não do homem. E Deus agirá nesta aliança para que “nunca se apartem de mim” (Jeremias 32:40). John Owen comentou: “Esta é, então, uma das principais diferenças entre as duas alianças – aquela que o Senhor fez no passado apenas exigia a condição; agora, na nova aliança, Ele também a realiza em todos os participantes, aos quais esta aliança é estendida”. Ezequiel profetizou da mesma maneira: Deus tomará a iniciativa e dará um novo coração e um novo espírito.

“Dar-lhes-ei um só coração, espírito novo porei dentro deles; tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei coração de carne” – Ezequiel 11:19.

“Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” – Ezequiel 36:26, 27.

Um coração de pedra não regenerado é a grande razão por que Israel não creu nas promessas de Deus, nem o amou de todo o seu coração, toda a sua mente e força. Se a nova aliança deverá ser mais bem sucedida do que a velha aliança, Deus terá de remover o coração de pedra e dar ao Seu povo um coração que o ama. Em outras palavras, Ele terá de tomar uma iniciativa miraculosa para garantir a fé e o amor de Seu povo. Isto é exatamente o que Moisés disse que Deus faria: “O SENHOR, teu Deus, circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares o SENHOR, teu Deus, de todo o coração e de toda a tua alma, para que vivas” (Deuteronômio 30:6).

Em outras palavras, na nova aliança, Deus promete que tomará a iniciativa e criará um novo coração, para que as pessoas se tornem membros da nova aliança, por iniciativa dEle e não delas mesmas. Se alguém desfruta de participação na nova aliança, com todas as suas bênçãos, isso acontece porque Deus perdoou sua iniquidade, removeu seu coração de pedra, lhe deu um coração sensível, que teme e ama a Deus, e a fez andar nos estatutos dEle. Em outras palavras, a nova aliança promete a regeneração. Promete criar fé, amor e obediência onde antes havia apenas dureza.

O SANGUE DE JESUS OBTÉM A PROMESSA DA NOVA ALIANÇA

O que encontramos quando chegamos ao Novo Testamento é que Jesus é o mediador desta nova aliança. Ele a garante por meio de Seu próprio sangue. Esta é a conexão entre a expiação e a nova aliança: o sangue de Jesus é o sangue da nova aliança. O propósito de Sua morte era estabelecer esta aliança em todos os termos que já vimos. De acordo com Lucas 22:20, na última ceia, Jesus tomou o cálice depois da haver ceado, e disse: “Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado em favor de vós”. Paulo recontou isto em 1 Coríntios 11:25: “Depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue”. Entendo que isto significa que as promessas da nova aliança foram compradas pelo sangue de Cristo. Ou, usando a linguagem de Hebreus: isto torna Jesus o “fiador de superior aliança” (Hebreus 7:22). “Por isso mesmo, Ele é o Mediador da nova aliança, a fim de que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia sob a primeira aliança, recebam a promessa da eterna herança aqueles que têm sido chamados” (Hebreus 9:15). Portanto, todas as promessas da nova aliança são promessas compradas por sangue. Quando elas se tornam reais para nós, isso acontece porque Jesus morreu para torná-las reais. Isto significa que as promessas específicas da nova aliança, de criar um povo de Deus e manter um povo de Deus, são aquilo por que Jesus morreu. O meu pensamento é que nem todas as promessas da nova aliança dependem da condição de fé. Antes, uma das promessas feitas na nova aliança é que a própria condição de fé será dada por Deus. Essa é a razão por que digo que o povo da nova aliança é criado e preservado por Deus. “Porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim” (Jeremias 32:40). Em primeiro lugar, Deus põe em nós o temor a Ele. E nos guarda de nos afastarmos dEle. Deus cria Seu novo povo e mantém este novo povo. Ele faz isto pelo sangue da aliança, que Jesus disse era Seu próprio sangue (Lucas 22:20). O resultado deste entendimento da nova aliança é que há uma expiação definida para o povo da nova aliança. Na morte de Cristo, Deus assegura um grupo definido de pecadores indignos como Seu próprio povo, por comprar e garantir a condição que eles têm de satisfazer para serem parte de Seu povo. O sangue da aliança – o sangue de Cristo – compra e garante o novo coração de fé e de arrependimento. Deus não fez isso por todos. Ele o fez por um grupo “definido” ou “específico”, os quais são totalmente indignos. E, visto que Deus o fez por meio de Jesus Cristo, o grande pastor, que deu Sua vida em favor das ovelhas, podemos dizer: a Ele “seja a glória para todo o sempre” (Hebreus 13:21). Esta realização é uma parte importante da glória da cruz de Cristo!

JESUS DEU A VIDA PELAS OVELHAS

Há muitas passagens bíblicas que apoiam o que acabamos de ver e ensinam que o propósito de Deus na morte de Cristo incluía o ajuntamento de um povo da nova aliança por meio de Sua graça irresistível. Por exemplo, em João 10:15, Jesus disse: “Dou a minha vida pelas ovelhas”. Isto não é o mesmo que dizer “dou minha vida por todas as pessoas”. No evangelho de João, “as ovelhas” não são todas as pessoas. Nem a palavra “ovelha” se refere àqueles que haviam usado seu poder de autodeterminação para produzirem fé. Em vez disso, as ovelhas são aqueles que Deus escolheu e deu ao Filho (João 6:37, 44). A sua fé é possível porque eles são ovelhas. Vemos isto em João 10:26, onde lemos que Jesus disse: “Vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas”. Em outras palavras, ser uma ovelha capacita a pessoa a crer e não o contrário. Portanto, as ovelhas não se tornam primeiramente ovelhas por crerem, elas são capazes de crer porque são ovelhas. Por isso, quando Jesus disse: “Dou a minha vida pelas ovelhas”, as Suas palavras significam: por meio de meu sangue, eu compro aqueles que meu Pai me deu e obtenho a fé e todas as bênçãos que são dadas àqueles que estão unidos a mim. João 17 segue a mesma direção. Ali, Jesus limita Sua oração às Suas ovelhas – aqueles que o Pai lhe deu. Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste (…). É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus (…). E a favor deles eu me santifico a mim mesmo, para que eles também sejam santificados na verdade (João 17:6, 9, 19). A santificação em vista nestas palavras era a morte de Jesus, que Ele estava prestes a sofrer. Portanto, Jesus estava dizendo que Sua morte visava especificamente àqueles em favor de quem Ele orava. “É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste” (João 17:9). E por estes Ele se santificou. Por estes Ele deu a Sua vida.

JESUS MORREU PARA REUNIR OS FILHOS DE DEUS

João nos fala de uma profecia do sumo sacerdote, que expressa uma ideia semelhante. Nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo e que não venha a perecer toda a nação. Ora, ele não disse isto de si mesmo; mas, sendo sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus estava para morrer pela nação e não somente pela nação, mas também para reunir em um só corpo os filhos de Deus, que andam dispersos (João 11:50 – 52). Há “filhos de Deus” espalhados por todo o mundo. Estes são as “ovelhas” – aqueles que o Pai deu ao Filho e trará irresistivelmente a Jesus. Jesus morreu para reunir estas pessoas em um único rebanho. A ideia é a mesma de João 10:15, 16: “Dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor”. O “reunir” mencionado em João 11:52 e o “conduzir” são a mesma obra de Deus. E ambas compõem o propósito divino da cruz de Cristo. Cristo não morreu para tornar isto possível, mas para fazer isto acontecer. É descrito novamente por João em Apocalipse 5:9, onde lemos que o céu canta para Cristo: “Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação”. De acordo com João 10:16, João não diz que a morte de Cristo comprou todas as pessoas e sim pessoas de todas as tribos do mundo. Esta é a maneira como devemos entender passagens como 1 João 2:2, que alguns usam para argumentar contra a doutrina da expiação limitada ou definida. Em palavras muito reminiscentes de João 11:52, João disse: “Ele (Cristo) é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro”. A questão é: isto significa que Cristo morreu com a intenção de satisfazer a ira de Deus por todas as pessoas no mundo? De tudo que temos visto nos escritos de João, é improvável que este seja o significado. Pelo contrário, a correspondência verbal entre João 11:51 – 52 e 1 João 2:2 é muito íntima para escaparmos da convicção de que, em ambas as passagens, a intenção de João é a mesma. Ora, ele não disse isto de si mesmo; mas, sendo sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus estava para morrer pela nação e não somente pela nação, mas também para reunir em um só corpo os filhos de Deus, que andam dispersos (João 11:51, 52). Ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro (1 João 2:2). O “mundo inteiro” é correspondente com “filhos de Deus, que andam dispersos”. Portanto, é natural pensarmos que o objetivo do apóstolo em 1 João 2:2 é enfatizar que a obra propiciatória de Deus, em Cristo, não é paroquial, como se Ele estivesse interessado apenas nos judeus, ou em uma única classe, ou em uma única raça. Nenhum grupo humano pode dizer: “Ele é a propiciação apenas pelos nossos pecados”. Não, a obra propiciatória de Cristo tem o propósito de reunir pessoas do “mundo inteiro”. “Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco” (João 10:16) – de todo o mundo. São as “ovelhas” em favor das quais Ele morreu, os “filhos de Deus” redimidos que estão dispersos, o povo comprado “de toda tribo, língua, povo e nação”.

UM RESGATE POR MUITOS

Em harmonia com o que já vimos, por exemplo, em Apocalipse 5:9 (“com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação”), Jesus disse: “O próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:45). Ele não disse “resgate por todos” e sim “resgate por muitos”, assim como Apocalipse 5:9 diz “compraste (…), os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação”. Sei que a palavra “muitos” não prova meu argumento. “Muitos” poderia logicamente significar “todos”. Meu objetivo é apenas mostrar que “muitos” (em vez de “todos”) se harmoniza com os limites que já vimos neste capítulo. De modo semelhante, na última ceia, Jesus disse: “Isto é o meu sangue, o sangue da (nova) aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mateus 26:28). Hebreus 9:28 diz: “Assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação”. E Isaías 53:12 diz que o Servo sofredor “levou sobre Si o pecado de muitos”.

CRISTO SE ENTREGOU PELA IGREJA

Uma das passagens mais claras sobre a intenção específica de Deus na morte de Cristo é Efésios 5:25 – 27: “Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito”. Nesta passagem, Paulo diz que o beneficiário tencionado da morte de Cristo é a igreja, a noiva de Cristo. Uma das razões por que sou zeloso por esta doutrina da expiação limitada ou redenção particular é que desejo que a noiva de Cristo seja impelida apropriadamente pelo amor particular que Cristo teve por ela quando morreu. Não foi um amor que envolve todo o mundo, foi um amor que comprou uma noiva. Deus conhecia aqueles que eram Seus. E enviou Seu Filho para obter esta noiva para este Filho. Do céu, Ele veio e a buscou Para ser a Sua noiva santa; Com Seu sangue, a comprou E, pela vida dela, Ele morreu. Neste sacrifício, há um amor particular pela noiva, que a igreja perde de vista ao pensar que Deus não tinha em mente um povo específico quando comprou a igreja com o sangue de Seu Filho. Eu costumava dizer à igreja à qual servia: amo todas as mulheres desta igreja, mas amo minha esposa de uma maneira especial. Eu não queria que Nöel (esposa) pensasse que ela é amada apenas porque amo todas as mulheres da igreja e porque ela é uma mulher. Há um amor universal por todos, mas há um amor particular que Cristo tem pela noiva. E, quando Ele morreu, havia um alvo específico naquela morte em favor dela. Cristo a conhecia desde a fundação do mundo e morreu para obtê-la.

A LÓGICA PRECIOSA DE ROMANOS 8:32

Romanos 8:32 é outro texto importante sobre o assunto do desígnio e extensão da expiação. Em toda a Bíblia, esta é uma das promessas mais preciosas de Deus para Seu povo. Paulo disse: “Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” A pergunta não respondida pressupõe a nossa capacidade de respondê-la e torná-la uma promessa inabalável: “Visto que Deus não poupou seu próprio Filho, mas, antes, o entregou por todos nós, ele nos dará, muito certamente, todas as coisas com ele”. Neste versículo, a quem se refere o “nós”? São as pessoas referidas nos versículos 29 – 31: Aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? A razão por que Paulo pode “nos” fazer a impressionante a promessa que faz no versículo 32 – Deus nos dará infalivelmente todas as coisas com Cristo – é que as pessoas referidas são as conhecidos de antemão, as predestinadas, as chamadas, as justificadas. Estas são as “ovelhas”, os “filhos de Deus dispersos”. E, para essas pessoas, Paulo diz, a morte de Cristo é garantia absoluta e inabalável de que receberão com Ele todas as coisas. Esta é a lógica maravilhosa de Romanos 8:32. No entanto, o que acontece com esta lógica, se Deus entregou Seu Filho desta maneira em favor de milhares de pessoas que não recebem todas as coisas, mas, de fato, perecem? A lógica é destruída. Ela se torna: “Se Deus não poupou Seu próprio Filho, antes, o entregou por todas as pessoas no mundo, então, visto que muitas delas são perdidas, não é verdade que elas receberão, muito certamente, todas as coisas com Ele”. Esse não é o argumento do versículo. O versículo diz: porque Deus entregou o Filho por Seu povo, esse povo – conhecido de antemão e predestinado desde a fundação do mundo – receberá todas as coisas que Deus tem para dar. Portanto, o desígnio de Deus em entregar o Filho não é uma oferta geral para todo o mundo, e sim uma aquisição inalterável de riquezas infinitas para Seu povo. Meu grande desejo é que o povo de Deus veja isto e se aprofunde na graça desta redenção particular. Na expiação, somos amados de maneira específica e não geral. Nosso futuro está garantido, de modo particular, pelo sangue de Cristo. Em resumo, o ensino bíblico da expiação limitada é que a morte de Cristo tinha um desígnio específico para Seus eleitos. Cristo estava comprando, não uma possibilidade de eles crerem e serem salvos, antes, estava comprando o próprio crer. A conversão dos eleitos de Deus é comprada com sangue. A vitória sobre a nossa morte e rebelião contra Deus não é realizada decisivamente por nós, de modo que nos qualificamos para a expiação. A graça soberana de Deus vence a nossa morte e rebelião. E essa graça foi comprada para nós na morte de Cristo. Se quisermos aprofundar-nos em nossa experiência da graça de Deus, isto é um oceano de amor para desfrutarmos. Deus não quer que a noiva de Seu Filho sinta-se amada com um amor geral, que envolve todo o mundo. Deus quer que a noiva de Seu Filho sinta-se encantada com a especificidade do Seu amor, o qual Ele derramou sobre ela antes de o mundo existir. Deus quer que nos sintamos um povo focalizado: “Escolhi vocês. E enviei meu Filho para morrer a fim de que eu os tenha”. Isto é o que oferecemos ao mundo. Não o guardamos para nós mesmos. E não o abandonamos por dizer: tudo o que temos a oferecer ao mundo é o amor geral de Deus por todas as pessoas. Não, oferecemos isto. Oferecemos uma expiação completa e definida. Oferecemos Cristo. Não dizemos: venham para uma possibilidade. Dizemos: venham a Cristo. Recebam a Cristo. E o que lhes prometemos, se vierem, é que serão unidos a Ele e à sua noiva. E tudo que Cristo comprou para Sua noiva será deles. Tudo que Cristo adquiriu com absoluta certeza será a porção deles para sempre. A sua fé provará que estão entre os eleitos. E o virem a Cristo provará que são os beneficiários específicos de Sua redenção particular, sua expiação definida. Para solidificar este aprofundamento de nossa experiência da graça de Deus, nos voltamos agora para a doutrina da eleição. Porque foi em favor dos eleitos que Cristo morreu com este desígnio imensurável de amor eterno.

Paz e graça.

Capa: Marcos Frade.

(1) O argumento seguinte é desenvolvido mais completamente em John Piper, “My Glory I Will Not Give to Another: Preaching the Fullness of Definite Atonement for the Glory of God”, em David e Jonathan Gibson, eds., From

Heaven He Came and Sought Her: Definite Atonement in Historical, Biblical, Theological, and Pastoral Perspective (Wheaton, Illinois: Crossway, 2013).

(2) John Owen, The Death of Death in the Death of Christ, em The Works of John Owen, ed. W. H. Goold, 16 vols. (Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1967 (1850 – 1853), 10:237.

(3) Samuel J. Stone, “The Church’s One Foundation”.

Extraído do Livro: Cinco Pontos; Capítulo Quatro; 2014 Editora Fiel.

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Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Geral e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
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