AS OBRAS DA CARNE E O FRUTO DO ESPÍRITO

EXEGESE – GÁLATAS 5:19 – 22

“Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já os adverti, que os que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio” – Gálatas 5:19 – 22.

Por Pr. Plínio Sousa.

Nenhum trecho da Bíblia apresenta um mais nítido contraste entre o modo de vida do crente cheio do Espírito Santo e aquele controlado pela natureza humana pecaminosa do que 5:16 – 26. Paulo não somente examina a diferença geral do modo de vida desses dois tipos de crentes, ao enfatizar que o Espírito e a carne estão em conflito entre si, mas também inclui uma lista específica tanto das obras da carne, como do fruto do Espírito.

OBRAS DA CARNE:

“Ora, as obras da carne são manifestas (…)” (19).

“Da Carne” (σαρκὸς “sarkos/sarx”) é a natureza pecaminosa com seus desejos corruptos, a qual continua no cristão após a sua conversão, sendo seu inimigo moral (Romanos 8:6, 5; Gálatas 5:17, 21). Aqueles que praticam as obras da carne não poderão herdar o Reino de Deus (5:21). Por isso, essa natureza pecaminosa precisa ser resistida e mortificada numa guerra espiritual contínua, que o crente trava através do poder do Espírito Santo (Romanos 8:4 – 14; cf. NOTA Gálatas 5:17).

“O Espírito e a carne são diretamente opostos um ao outro, conforme evidenciados por suas “obras” e “frutos” (v.19 – 22). O resultado é um conflito implacável e arrebatador dentro dos cristãos, em que eles não podem ser vitoriosos por sua própria força (cf. Romanos 7:15 – 23)”. (NOTA DE GÁLATAS 5:17).

AS OBRAS DA CARNE (5:19 – 21) INCLUEM:

“(…) imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já os adverti, que os que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus (19 – 21).

(1) “Imoralidade Sexual e Prostituição” (πορνεία “porneia”) de todas as formas, isto inclui, também quadros, filmes ou publicações pornográficos (cf. Mateus 5:32; 19:9; Atos 15:20, 29; 21:25; 1 Coríntios 5:1). Os termos “μοιχεία (moicheia) e (πορνεία) porneia” são traduzidos por um só em português: “prostituição” (Relação sexual ilícita: adultério, fornicação, homossexualidade, lesbianismo, relação sexual com animais, relação sexual com parentes próximos (Levíticos 18) relação sexual com um homem ou mulher divorciada (Marcos 10:11, 12). Sentido metafórico: Adoração de ídolos, da impureza que se origina na idolatria, na qual se incorria ao comer sacrifícios oferecidos aos ídolos.

(2) “Impureza” (ἀκαθαρσία “akatharsia”) pecados sexuais, atos pecaminosos e vícios, inclusive maus pensamentos e desejos o coração (Efésios 5:3; Colossenses 3:5).

Impureza física no sentido moral: impureza proveniente de desejos sexuais, luxúria, vida devassa de motivos impuros.

(3) “Lascívia e Libertinagem” (ἀσέλγεια “aselgeia”) sensualidade. É a pessoa seguir suas próprias paixões e maus desejos a ponto de perder a vergonha e a decência. (2 Coríntios 12:21).

Luxúria desenfreada, excesso, licenciosidade, lascívia, libertinagem, caráter ultrajante impudência, desaforo, insolência são alguns significados ligado a “aselgeia” (cf. NOTA).

“A idéia fundamental de “ασωτια (asotia)” é “desperdício ou sobra desordenada; a de “ασελγεια”, ousadia contra a lei e capricho corrupto” (Trench). “ασωτια (asotia) – prodigalidade: o status de o filho pródigo, a energia do filho pródigo, o perdulário, a diversão” significa gasto rápido e extravagante, principalmente pela satisfação dos desejos sensuais. Denota um curso de vida libertino, dissoluto. Em “ασελγεις” também está incluída a idéia de libertinagem, frequentemente de lascividade, mas o pensamento fundamental é o de não contenção, o insolente fazendo qualquer coisa que seu capricho sugerir” (NOTA).

(4) “Idolatria” (εἰδωλολατρία “eidōlolatria”) a adoração de espíritos, pessoas ou ídolos, e também a confiança numa pessoa, instituição ou objeto como se tivesse autoridade igual ou maior que Deus e Sua Palavra (Colossenses 3:5).

(5) “Feitiçaria” (φαρμακεία “pharmakeia”) espiritismo, magia negra, adoração de demônios e o uso de drogas e outros materiais, na prática da feitiçaria, artes mágicas, frequentemente encontrado em conexão com a idolatria e estimulada por ela. (Êxodo 7:11, 22; 8:18; Apocalipse 9:21; 18:23).

(6) “Inimizades, ódio e discórdia” (ἔχθραι “echthrai”) intenções e ações fortemente hostis, antipatia e inimizade extremas (cf. Lucas 23:12; Efésios 2:14).

(7) “Porfias” (ἔρις “eris”) brigas, oposição, luta por superioridade (Romanos 1:29; 1 Coríntios 1:11; 3:3) de afinidade incerta, contenda, disputa e discussão.

(8) “Emulações, Ciúmes e Inveja” (ζῆλος “zēlos”) ressentimento, inveja amarga do sucesso dos outros (Romanos 13:13; 1 Coríntios 3:3; Tiago 3:16; Hebreus 10:27; Atos 5:17; 13:45). (cf. Nota Números 5:11 – 30 “Água da Inveja”). (cf. NOTA).

“(De acordo com a lei de Moisés, em Números 5:11 – 30, homens obcecados com inveja deveriam apresentar seu caso diante de sacerdotes e juízes com provas. No caso de não existirem provas, ele teria de se satisfazer simplesmente com o ritual em que a mulher tomava a “água da inveja” e permitir que Deus revelasse se havia infidelidade ou não. De acordo com Levítico 20:10 e Deuteronômio 22:22, o homem envolvido em um caso de adultério é sempre o primeiro responsável. Todos os casos de pena de morte exigem um julgamento justo com pelo menos duas a três testemunhas)”. (NOTA).

A palavra “zelos” (um termo omamopoeic que imita o som da água borbulhando do calor e talvez derivado de STRONG: 2204 / zeo, “a ferver”) – adequadamente, emoção queima (sentimento interior fervendo, “ebulição do calor” J. Thayer); (figurativamente) algo muito fervoroso como com zelo alimentado pelo Espírito para servir ao Senhor. Esta raiz (zē-) é utilizada tanto negativa (“inveja/Ciúme”) e positiva (“zelo”) dependendo do contexto. No contexto de Gálatas 5 é utilizado negativamente para inveja. A raiz (zē- “zelo”) significa literalmente “quente o suficiente para ferver”. Ele é metaforicamente utilizado de “raiva, amor, zelo ardente” (AS) – ou seja, para queimar (em espírito). Pode se referir a “ira de ebulição, amor, zelo, para o que é bom ou mau” (J. Thayer).

(9) “Iras” (θυμοί “thumos/thymoi”) ira ou fúria explosiva que irrompe através de palavras e ações violentas (Colossenses 3:8; 2 Coríntios 12:20; Lucas 4:28). (cf. NOTA).

O termo “thumos” significa raiva inflamatória, uma raiva explosiva, uma agitação turbulenta, uma agitação fervorosa, ímpetos impulsivos de raiva. (NOTA).

(10) “Pelejas”( ἐριθεῖαι “eritheia/eritheia”) ambição egoísta do poder (2 Coríntios 12:20; Filipenses 1:16, 17).

“(eritheia) Uma palavra que antes significava trabalho honrado e passou a significar intriga desonrosa. A mesma palavra, depois passou a descrever uma pessoa que só estava preocupada com o seu bem-estar, uma pessoa suscetível a ser subornada, uma pessoa ambiciosa e rebelde procurando oportunidades de promoção. Deixe-me problematizar por um momento”. (cf. NOTA).

“Propaganda eleitoral ou intriga por um ofício; aparentemente, no N.T uma distinção requerida, um desejo de colocar-se acima, um espírito partidário e faccioso que não desdenha a astúcia; partidarismo, sectarismo. Antes do N.T, esta palavra é encontrada somente em Aristóteles, onde denota uma perseguição egoísta do ofício político através de meios injustos. Paulo exorta ser um em Cristo, não se colocando acima ou sendo egoísta (Filipenses 2:3). Tiago 3:14 fala contra ter amor-próprio ou se vangloriar. (Wayne Steury)”. (NOTA).

(11) “Dissensões” (διχοστασίαι “dichostasiai/dichostasia”) introduzir ensinos cismáticos na congregação sem respaldo na Palavra de Deus (Romanos 16:17; Atos 15:1; 1 Coríntios 5:11; 2 Timóteo 3:5; Tito 3:10; 2 Tessalonicenses 3:6; 2 João 10).

(12) “Heresias” (αἱρέσεις “hairesis/ haireseis”) grupos divididos dentro da congregação formando conluios egoístas que destroem a unidade da Igreja (1 Coríntios 11:19). (cf. NOTA).

“σχισμα (schisma – rasgão, divisão, dissensão) é divisão real, separação, “αἱρέσεις – hairesis/ haireseis” é antes a tendência de separar, assim é realmente mais fundamental que σχισμα (schisma – rasgão, divisão, dissensão)”. (NOTA).

(13) “Invejas” (φθόνοι “phthonos/phthonoi”) antipatia ressentida contra outra pessoa que possui algo que não temos e queremos.

(14) “Homicídios” (Φόνοι “phónoi”/φόνος “phonos”) matar o próximo por perversidade. A tradução do termo “phonos” na Bíblia de Almeida está embutida na tradução de methe, a seguir, por tratar-se de práticas conexas.

(15) “Bebedices/Embriaguez” (μεθη “methai”) descontrole das faculdades físicas e mentais por meio de bebida embriagante. Outros significados intoxicação, embriaguez. (cf. NOTA).

“(methai) “μεθη” é a palavra comum para embriaguez. (potos) “ποτος” é antes concreto, bebedeira, festejo. (oinophlugia) “οινοφλυγια” é uma condição prolongada de embriaguez, orgia. (komos) “κωμος” inclui baderna e farra, geralmente como resultado da embriaguez, orgia, farra, uma ideia de procissão noturna e luxuriosa de pessoas bêbadas e galhofeiras que após um jantar desfilavam pelas ruas com tochas e músicas em honra a Baco ou algum outro deus, e cantavam e tocavam diante das casas de amigos e amigas; por isso usado geralmente para festas e reuniões para beber que se prolonga até tarde e que favorece a folia. (kraipale) “κραιπαλη” denota a náusea e desconforto que resulta da embriaguez, tontura e a dor de cabeça causada pelo excesso de vinho”. (NOTA).

(16) “Glutonarias” (κωμος “komos”) diversões, festas com comida e bebida de modo extravagante e desenfreado, envolvendo drogas, sexo e coisas semelhantes. (cf. NOTA).

“Inclui baderna e farra, geralmente como resultado da embriaguez, orgia, farra, uma ideia de procissão noturna e luxuriosa de pessoas bêbadas e galhofeiras que após um jantar desfilavam pelas ruas com tochas e músicas em honra a Baco ou algum outro deus, e cantavam e tocavam diante das casas de amigos e amigas; por isso usado geralmente para festas e reuniões para beber que se prolonga até tarde e que favorece a folia”. (NOTA).

As obras da carne podem ser categorizadas como pecados da carne (v.19), pecados ligados à religião pagã (os dois primeiros termos do v.20), pecados de temperamento (os noves seguintes) e pecados de embriaguez (os últimos dois). As palavras finais de Paulo sobre as obras da carne são severas e enérgicas: quem se diz crente em Jesus e participa dessas atividades iníquas exclui-se do reino de Deus, não terá salvação (5:21; cf. 1 Coríntios 6:9).

CONCLUSÃO

“Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei” (v.22, 23).

Essas virtudes são características como fruto em contraste a “obras”. Somente pelo Espírito Santo pode produzi-las, e não nossos próprios esforços. Um outro contraste é que, enquanto as obras da carne são mais de uma, o fruto do Espírito Santo é um e indivisível. Quando o Espírito Santo controla completamente a vida de um crente, ele produz todas essas graças. As três primeiras dizem respeito a nossa atitude em relação a Deus, a segunda tríade lida com os relacionamentos sociais, e o terceiro grupo descreve os princípios que guiam a conduta de um cristão.

“Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos”. (v.24).

Paulo descreve metaforicamente o arrependimento como uma crucificação da vida antiga, afastando-se completa e finalmente dela. O tempo verbal indica um ato decisivo, que realizamos na nossa conversão.

“Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito” (v.25).

 Aqui, a palavra grega para “andemos” (στοιχεω “stoicheo”) é literalmente “andar em linha com” (caminhar em ordem, a ideia de andar numa fila como a marcha de um soldado). Não é o mesmo “andar” do (v.16), cuja forma grega costuma ser usada para o andar físico. Andemos (…) No Espírito é seguir ao longo do caminho que Ele estabelece.

Conselho prático: “Não sejamos presunçosos, provocando uns aos outros e tendo inveja uns dos outros” (v.26). Se assim vivemos, será evidenciado em nosso testemunho o exercício de amor ao próximo, e consequentemente provado de que o amor de Deus habita abundantemente em nós (Igreja).

 “Ninguém jamais viu a Deus; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor está aperfeiçoado em nós. Sabemos que permanecemos nele, e ele em nós, porque Ele nos deu do seu Espírito (…). Dessa forma o amor está aperfeiçoado entre nós, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como Ele. Ele nos deu este mandamento: Quem ama a Deus, ame também seu irmão – (1 João 4:12, 13, 17, 21)”.

Paz e graça.

Capa: Marcos Frade.

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Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Acadêmico e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
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