DEPRAVAÇÃO TOTAL

Por John Piper.

Quando falamos em depravação do homem, queremos denotar a sua condição natural, sem qualquer graça exercida por Deus para restringir ou transformar o homem. A totalidade dessa depravação não é, evidentemente, que o homem faz tanto mal quanto poderia fazer. Sem dúvida, o homem poderia fazer, para com seu próximo, mais atos maus do que ele faz. Mas, se ele é restringido de fazer mais atos maus por motivos outros que não sua alegre submissão a Deus, então, até a sua “virtude” é má aos olhos de Deus. Romanos 14:23 diz: “Tudo o que não provém de fé é pecado”.

Isto é uma acusação radical de toda “virtude” natural que não flui de um coração que confia humildemente na graça de Deus. Um exemplo pode tornar mais clara esta acusação a respeito de muitas dessas “bondades” humanas. Suponha que você seja o pai de um adolescente. Você lembra ao seu filho que lave o carro antes usá-lo para levar os amigos ao jogo de basquete à noite. Antes, ele concordara em fazer isso. Mas fica bravo e diz que não quer. Você lhe recorda amável e firmemente a promessa já feita e lhe diz que isso é o que você espera. E lhe diz: “Bem, se quer usar o carro hoje à noite, já concordou em lavá-lo”. Ele deixa a sala, furioso. Depois, você o vê lavando o carro. Mas não está fazendo-o por amor ou por um desejo cristão de honrar você como seu pai. Ele quer ir ao jogo com os amigos. Isso é o que constrange a sua “obediência”. Coloquei “obediência” entre aspas porque ela é somente externa. O coração do adolescente está errado. Isto é o que pretendo dizer quando falo que toda “virtude” humana é depravada, se não procede de um coração de amor ao Pai celestial – embora o comportamento se conforme as normas bíblicas.

A condição terrível do coração do homem nunca será reconhecida por pessoas que a avaliam apenas em relação às outras pessoas. Seu filho levará os amigos para o estádio de basquete. Isso é “bondade”, e eles a experimentarão como um benefício. Portanto, o mal de nossas ações nunca pode ser medido apenas pelo dano que causam aos outros humanos. Romanos 14:23 deixa claro que a depravação é a nossa condição, primeiramente em relação a Deus, e, em segundo lugar, em relação ao homem. A menos que comecemos neste ponto, jamais compreenderemos a totalidade de nossa depravação natural. A depravação do homem é total em, pelo menos, quatro sentidos.

NOSSA REBELIÃO CONTRA DEUS É TOTAL

Sem a graça de Deus, não há nenhum prazer na Santidade de Deus e nenhuma submissão prazerosa à Sua autoridade soberana. É claro que homens totalmente depravados podem ser muito religiosos e muito filantrópicos. Podem orar, dar esmolas e jejuar, como Jesus disse (Mateus 6:1 – 18). Mas a religião deles é rebelião contra os direitos de Seu Criador, se não procede de um coração confiante, como de criança, na graça gratuita de Deus. A religião é um dos principais meios pelos quais o homem oculta a sua indisposição de abandonar a autoconfiança e de depositar todas as suas esperanças na misericórdia imerecida de Deus (Lucas 18:9 – 14; Colossenses 2:20 – 23).

A totalidade de nossa rebelião é vista em Romanos 3:9 – 11 e 18: “Já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus (…) Não há temor de Deus diante de seus olhos”. Toda busca que honra a Deus é um dom de Deus. Não se deve à nossa bondade natural. É uma ilustração do ato de Deus em vencer misericordiosamente a nossa resistência natural contra Ele.

O homem natural não busca a Deus.

O fato de que o homem em seu estado natural busca genuinamente a Deus é um mito. Os homens buscam realmente a Deus. Mas eles não o buscam por causa do que Ele é. Os homens buscam a Deus, se necessário, como alguém que possa guardá-los da morte ou aumentar seus prazeres mundanos. Sem a conversão, ninguém vem para a luz de Deus.

Alguns vêm para a luz. Mas ouça o que João 3:20, 21 diz sobre eles: “Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem arguidas as suas obras. Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus”. Sim, há aqueles que vêm para a luz – ou seja, aqueles cujas obras são a obra de Deus.

“Feitas em (ou por) Deus” significa operadas por Deus. Sem esta obra graciosa de Deus, todos os homens odeiam a luz de Deus e não se achegarão a Ele, para que sua maldade não seja exposta – isto é rebelião total. “Não há quem busque a Deus (…) Não há temor de Deus diante de seus olhos”.

EM SUA REBELIÃO TOTAL, TUDO QUE O HOMEM FAZ É PECADO

Em Romanos 14:23, Paulo diz: “Tudo o que não provém de fé é pecado”. Portanto, se todos os homens estão em rebelião total, tudo que eles fazem é o produto de rebelião e não pode ser uma honra para Deus, mas apenas parte da rebelião dos homens. É claro que muitos destes atos que fluem de incredulidade interior se conformam exteriormente com a vontade revelada de Deus (por exemplo, obedecer aos pais e falar a verdade). Todavia, eles não se conformam com a vontade perfeita de Deus por causa da mera conformidade exterior. Todas as coisas devem ser feitas em amor, diz o apóstolo (1 Coríntios 16:14), mas o amor é o fruto da fé (Gálatas 5:6; 1 Timóteo 1:5). Por essa razão, muitos atos exteriormente bons precedem de corações sem a fé que exalta a Cristo e, por conseguinte, sem amor e sem conformidade com o mandamento de Deus. Portanto, esses atos são pecaminosos.

Se um rei ensina aos seus súditos como lutar bem, e, depois, esses súditos se rebelam contra seu rei e usam a mesma habilidade que ele lhes ensinou para resistir-lhe, então, essas habilidades, por mais excelentes, admiráveis e “boas” que sejam, se tornam más. Logo, muitas coisas que o homem é capaz de fazer, ele o faz somente porque foi criado à imagem de Deus. Coisas que são louvadas quando a serviço de Deus, se estiverem a serviço da rebelião autojustificadora do homem, são pecaminosas. Poderemos louvá-las como ecos da excelência de Deus, mas lamentaremos quando forem corrompidas em propósitos que ignoram a Deus. Em Romanos 7:18, Paulo diz: “Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum”. Isto é uma confissão radical da verdade de que, em nossa rebelião, não podemos pensar ou sentir nada que seja bom. Isso faz parte de nossa rebelião. O fato de que Paulo qualificou sua depravação com as palavras “isto é, na minha carne”, mostra que ele estava disposto a afirmar o bem de tudo que o Espírito de Deus produzia nele (Romanos 15:18). “Carne” se refere ao homem em seu estado natural, sem a obra do Espírito de Deus. Portanto, o que Paulo estava dizendo em Romanos 7:18 era que, sem a obra do Espírito de Deus, tudo que pensamos, sentimos e fazemos não é bom.

O bem que realmente importa.

Reconhecemos que a palavra “bem” tem uma grande variação de significados. Teremos de usá-la em um sentido restrito para referir-nos a muitas ações de pessoas caídas que, em relação a Deus, não são realmente boas.

Por exemplo, teremos de dizer que é bom o fato de que a maioria dos incrédulos não mata e que muitos incrédulos realizam atos de benevolência. O que pretendemos dizer quando chamamos essas ações de boas é que elas se conformam mais ou menos ao padrão externo de vida que Deus ordena na Escritura.

No entanto, essa conformidade exterior à vontade revelada de Deus não é justiça em relação a Deus. Não é praticada como fruto de confiança nEle e para a Sua glória; os que a praticam não confiam em Deus como Sua fonte de recursos, embora Ele lhes dê tudo. E a honra de Deus não é exaltada, embora essa seja a Sua vontade em todas as coisas (1 Coríntios 10:31). Por conseguinte, até estes atos “bons” são parte de nossa rebelião, e não são “bons”, em última análise, no sentido que realmente importa – em relação a Deus.

A INCAPACIDADE DO HOMEM PARA SUBMETER-SE A DEUS E FAZER O BEM É TOTAL

Comentando novamente a palavra “carne” referida antes (o homem sem a graça de Deus), achamos Paulo declarando-a ser totalmente escravizada à rebelião. Romanos 8:7, 8 diz: “Por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus”.

O “pendor da carne” (literalmente, “a mente da carne”) é a mente do homem sem a habitação do Espírito de Deus (“Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habita em vós” – Romanos 8:9). Portanto, o homem natural tem uma mentalidade que não se submete, e nem pode se submeter, a Deus. O homem não pode reformar a si mesmo.

Efésios 2:1 afirma que nós, cristãos, éramos todos “mortos” em “delitos e pecados”. Essa morte significa que éramos incapazes de ter qualquer vida espiritual com Deus. Tínhamos vida física, mas nosso coração era empedernido em relação a Deus (Efésios 4:18; Ezequiel 36:26). Nosso coração era cego e incapaz de ver a glória de Deus em Cristo (2 Coríntios 4:4 – 6). Éramos totalmente incapazes de reformar a nós mesmos.

NOSSA REBELIÃO É TOTALMENTE MERECEDORA DE PUNIÇÃO ETERNA

Efésios 2:3 prossegue dizendo que, em nossa morte, somos “filhos da ira”. Isso significa que estamos sob a ira de Deus por causa da corrupção de nosso coração, que nos tornou tão bons quanto mortos diante de Deus. A realidade do inferno é uma acusação clara de Deus sobre a infinitude de nossa culpa. Se a nossa corrupção não merecesse uma punição eterna, Deus seria injusto em ameaçar-nos com uma punição tão severa quanto o tormento eterno. Mas as Escrituras ensinam que Deus é justo em condenar os incrédulos ao inferno (2 Tessalonicenses 1:6 – 9; Mateus 5:29, 30; 10:28; 13:49, 50; 18:8, 9; 25:46; Apocalipse 14:9 – 11; 20:10). Portanto, visto que o inferno é uma sentença de condenação total, temos de pensar em nós mesmos como totalmente dignos de culpa quando estamos sem a graça salvadora de Deus.

ESTA VERDADE TERRÍVEL DA DEPRAVAÇÃO TOTAL

Em resumo, a depravação total significa que nossa rebelião contra Deus é total, tudo que fazemos nesta rebelião é pecaminoso, nossa incapacidade de submeter-nos a Deus ou de reformar a nós mesmos é total, e somos, portanto, merecedores de punição eterna.

É difícil enfatizarmos demais a importância de admitir que a nossa condição é realmente tão má. Se pensarmos em nós mesmos como basicamente bons ou como menos do que em total discordância com Deus, nossa compreensão da obra de Deus na redenção será deficiente. Contudo, se nos humilharmos sob esta verdade terrível de nossa depravação total, estaremos em condição de ver e apreciar a glória e a maravilha da obra de Deus discutida nos quatro pontos seguintes. O alvo deste livro é aprofundar nossa experiência da graça de Deus. O alvo não é deprimir, nem desencorajar, nem paralisar. Conhecer a seriedade de nossa doença nos tornará ainda mais admirados com a grandeza de nosso médico. Conhecer a extensão de nossa rebelião inata nos deixará estupefatos ante a graça e a paciência tolerante de Deus para conosco. A maneira como adoramos a Deus e a maneira como tratamos as outras pessoas, em especial os nossos inimigos, são profunda e admiravelmente afetadas por conhecermos plenamente a nossa depravação. Concordo com Thomas Schreiner em dizer que este versículo é inserido no texto precisamente porque é uma máxima abrangente que possui forte confirmação bíblica: agir sem fé é pecar. “Portanto, Agostinho estava certo em afirmar (On the Proceedings of Pelagius 34; On the Grace of Christ 1.27; On Marriage and Concupiscence 1.4; Against Two Letters of the Pelagians 1.7, 3.14; On the Predestination of the Saints 20) que qualquer ato feito sem fé é pecado”. Romans, Baker Exegetical Commentary on the New Testament, Vol. 6 (Grand Rapids, MI: Baker, 1998), p.739. Schreiner ressalta que Paulo poderia facilmente ter formulado um argumento mais restrito se houvesse terminado na primeira parte do versículo 23: “Mas aquele que tem dúvidas é condenado se comer, porque o que faz não provém de fé”, mas quando ele acrescenta à máxima “tudo o que não provém de fé é pecado”, amplia o fundamento para uma afirmação geral. Schreiner também ressalta o fato de que em Romanos 4:18 – 21 vemos por que isto é assim – ou seja, que agir com fé glorifica a Deus – e que devemos fazer isso em cada detalhe da vida (1 Coríntios 10:31). Não confiar em Deus em cada ação e pensamento é tomar a glória e o poder de Deus para nós mesmos (1 Pedro 4:11; 1 Coríntios 15:10; Gálatas 2:20). Isso é pecado, ainda que o próprio ato externo se harmonize com a vontade de Deus.

Paz e graça.

Capa: Marcos Frade.

Extraído do Livro: Cinco Pontos; Capítulo Dois; 2014 Editora Fiel.

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Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Acadêmico e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
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