BENEDICTUS

 A PROFECIA DE ZACARIAS

“Naquele dia farei brotar o poder na casa de Israel, e abrirei a tua boca no meio deles; e saberão que eu sou o SENHOR” – Ezequiel 29:21.

Por Pr. Plínio Sousa.

PROFECIA – propheteia – προφητεια

Você sabe o que é profecia? Será que existe alguma profecia ainda a ser revelado da vontade de Deus?

A palavra profecia tem alguns significados, como predição do futuro, que se crê de inspiração divina, vaticínio. Predição feita por indivíduo que pretende saber ler o futuro, previsão. Anúncio de um acontecimento futuro, feito por conjetura. É justamente por esses significados que examinaremos o “Benedictus” (Cântico de Zacarias).

A palavra profecia para o grego “prophētéia” que significa predição, profecia, dom da profecia, explicação dos livros sagrados pela inspiração do Espírito Santo.

O cântico de Zacarias pode ser dividido em duas partes. A primeira dos versículos 67 a 75 é uma canção de agradecimento pelo cumprimento das esperanças messiânicas da nação judaica, mas com um tom cristão característico. Como há muito, na família de Davi nasceria o poder para defender a nação contra seus inimigos e agora, novamente, aquele que há tanto lhes havia sido privado e há tanto esperavam lhes fora restaurado, mas num sentido mais elevado e espiritual. O corno (chifre) é um sinal de poder e o “corno da salvação” significava o poder de libertação.

Ao mesmo tempo em que os judeus impacientemente suportaram o fardo do domínio romano, eles continuaram esperando pela época em que a Casa de Davi seria seu libertador. Esta libertação agora estaria próxima e Zacarias notou que esta seria o cumprimento do juramente do Deus de Abraão, mas ela é descrita como uma libertação não em termos de poderes terrenos, mas “em santidade e justiça diante dele por todos os nossos dias”.

A segunda parte do cântico é um discurso de Zacarias ao seu próprio filho, que teria um importante papel no esquema da redenção, pois, ele seria um profeta e pregaria a remissão dos pecados antes da “vida da Aurora lá do alto”. A profecia de que ‘irás ante a face do Senhor preparar os seus caminhos’ era uma alusão às já muito conhecidas palavras do profeta Isaías “Preparai no deserto o caminho de Jeová, endireitai no ermo uma estrada para o nosso Deus” – Isaías 40:3, que depois João irá assumir como sua própria missão “Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías” – João 1:23, e que todos os três evangelhos sinóticos adotaram, “Pois é a João que se refere o que foi dito pelo profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas”. – Mateus 3:3, “Conforme está escrito no profeta Isaías: Eis aí envio eu ante a tua face o meu anjo, que há de preparar o teu caminho”. – Marcos 1:2 e “Como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas” – Lucas 3:4.

Assim como o cântico de Maria, o cântico de Zacarias tem uma introdução (v.68), uma estrutura (v.96 – 75) e uma conclusão (v.80). Ele tem outra estrutura dupla: os versículos 68 – 75 referem-se ao Messias vindouro; os versículos 76 – 79 referem-se a João batista.

(67) “Então, seu pai Zacarias foi cheio do Espírito Santo e profetizou”.

Agora, Zacarias também foi cheio do Espírito Santo e profetizou, assim como Isabel e o bebê João haviam sido cheios do Espírito Santo na visita de Maria (v.15,41). Os verbos para encher estão na voz passiva (eplēsthē), indicando que Isabel, Zacarias e João são os receptáculos, e não os indicadores da ação divina. Na narrativa de Maria, o Espírito Santo a “cobrirá” (v.35).

De uma forma quase contagiosa, a presença do Espírito Santo está espalhando-se na narrativa, engolfando todos aqueles envolvidos no drama.

Essa visitação do Espírito na vida pessoal é o aspecto definidor da nova comunidade. Quando as pessoas entram na comunidade, elas compartilham uma experiência comum no Espírito. A obra do Espírito é tanto pessoal como coletiva. Isso antecipa um tema de Lucas, especialmente evidente em Atos. Neste, a plenitude do Espírito sempre trata da entrada na comunidade cristã (Atos 2:1 – 4; 8:14 – 25; 9:17 – 19; 19:1 – 6).

Esse Espírito contagioso é reminiscente da profecia israelita primária, na qual a inundadora presença divina tinha e si uma fisicalidade, afetando os que estavam na proximidade do fato (Veja 1 Samuel 10:9 – 13). Assim como um profeta dominado por uma compulsão divina (Jeremias 4:19), Zacarias experimentou uma santidade extática, difusora, que arrasta tudo em seu caminho.

Lucas define o discurso de Zacarias como uma profecia (Lucas 1:67), em vez de uma oração ou hino de ação de graças. Como um sacerdote que profetiza, ele é uma raridade na tradição israelita. Aqui, Zacarias traz ao drama a influência de sua posição como sacerdote, com a autoridade do templo e o poder profético do Espírito. O Espírito opera pela instituição do templo, além de inundar diretamente a vida dos nossos personagens.

É evidente que o versículo relata que a fala do sacerdote Zacarias era uma fala inspirada pelo Espírito Santo. E que Zacarias está cheio do Espírito de Deus.

Na profecia proclamadora o porta voz tem a certeza de que Deus está usando-o para sua vontade, como o profeta Jeremias que sabia que Deus estava usando-o para profetizar para Israel. “Não deis ouvidos às palavras dos profetas, que entre vós profetizam; fazem-vos desvanecer; falam da visão do seu coração, não da boca do Senhor”. – Jeremias 23:16. Mas Deus não anula a humanidade, todos os profetas tinha sua intimidade intacta. Um Deus pessoal, lidando com seres dotados de personalidade.

Zacarias tem uma fala inspirada por Deus, ele, sabendo que João Batista foi o predecessor do Messias. Então entendemos nesse versículo que uma profecia deve ser inspirada por Deus, pois, o primeiro ponto que nos chama atenção é o enchimento do Espírito Santo em Zacarias. E outra coisa é que Zacarias não era profeta, mas um sacerdote. Nesse momento Deus usaria a qualquer um, Deus não se limita aos profetas. No tempo dá graça todos podem profetizar, 1 Coríntios 14:31 “Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados”.

Hoje a igreja atual é atacada com muitas “profecias”, será que isso está certo? Será que a “profecia” está ligada somente ao que vai acontecer no futuro, “predição”? Pois, geralmente o que se ver são “profecias futuras”, predições, quase sempre ligadas às soluções de problemas terrenos. Será que isso é profecia?

 (68 – 70) “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, pois, que visitou e redimiu o Seu povo. Ele concedeu poderosa salvação na casa de Davi, seu servo. Assim como prometera por meio dos seus santos profetas desde a antiguidade”.

Lucas usa o tempo aoristo para seus verbos no versículo 68, novamente indicando que a redenção já está realizada no sentido profético (como nos v.51 – 53) e o texto de Apocalipse 13:8. Deus visitou e redimiu o seu povo (v.68b). O grego “epeskepsato”, “Já veio” ou “visitou”, ocorre no início e no fim do cântico (v. 68b, 78b), criando delimitadores literários em torno do hino.

Lucas cita uma frase da LXX identificando Deus: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel” (v.68a ARA; cf. Salmos 41:13; 106:48; 1 Reis 8:15). O anúncio de que Ele já redimiu o seu povo (Lucas 1:68b) é uma incrível declaração de fé e esperança messiânicas, dadas as terríveis circunstâncias políticas de Israel na época.

Essa é a primeira vez que Lucas usa a palavra “lytrōsin”, redenção ou resgate, que ocorre somente aqui e em 2:38 (“Redenção de Jerusalém”) e, ademais, no NT, somente em Hebreus 9:12. A palavra ocorre na LXX referindo-se à vida (Salmos 49:8), ao povo (Salmos 111:9; 130:7) e à obras do Senhor (Isaías 63:4). O uso dela aqui é uma declaração teológica significativa sobre a importância do nascimento de João e de Jesus.

Ele promoveu poderosa salvação para nós (Lucas 1:69; veja 2 Samuel 22:3; Salmos 18:2). Na literatura bíblica, o chifre do animal simboliza poder (Lucas 1:63 NVI usa “horn of salvation, “o chifre de salvação”). O se tamanho denota seu relativo poder (veja Daniel 7:8; 8:21). Quando ele é cortado, isso significa uma perda de poder (Jeremias 48:25). O messias é “um poderoso Salvador” (Lucas 1:69 NTLH), isto é, Ele “trará um poderoso resgate”. A linhagem do seu servo Davi (v.69) reitera os versículos 29 e 32. Zacarias não tem seu próprio filho João em vista (já que ele é da linhagem de Abias), mas um novo rei davídico que vem após João (veja a genealogia de Jesus 3:23 – 37).

O que entendemos nos versículos 68 e 70 é que profecia é a interpretação de acontecimentos para entender as obras das mãos de Deus, por enquanto não existe nada em relação ao futuro. Esses versículos é uma interpretação do que o profeta Jeremias tinha predito no capítulo (23:5,6) “Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, e praticará o juízo e a justiça na terra, Nos seus dias Judá será salva, e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA”.

Ele fala do passado, e interpreta o nascimento de seu filho João Batista como cumprimento da profecia messiânica.

“Pois é a João que se refere o que foi dito pelo profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas”. – Mateus 3:3, “Conforme está escrito no profeta Isaías: Eis aí envio eu ante a tua face o meu anjo, Que há de preparar o teu caminho”. – Marcos 1:2 e “Como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas”. – Lucas 3:4.

Nesses versículos fica claro a interpretação de Zacarias do passado, quando o mesmo cita “santos profetas da antiguidade”, mas a pergunta é: Como era feito essa interpretação? Como Zacarias interpretou a essa situação que acontecia no presente? Por Moisés (Livro da lei/Instrução – Pentatêuco), pelos profetas e pelo livro de Salmos, ou seja, para se entender o que é profecia devemos recorrer sempre às escrituras sagradas. Zacarias nesse momento também interpreta a situação do que estava acontecendo no presente, que era o nascimento do seu filho, algo predito pelas escrituras, algo que acontecera no passado dito pelos santos profetas. Vejamos, até agora nada de predição, somente passado e presente.

Aprendemos que o “profeta” de Deus é aquele que interpreta a vontade de Deus pelas escrituras, e somente pela escritura.

Então, chegamos a um ponto crucial, que profecia é analisar o presente, entender o que está acontecendo no presente, e sempre interpretar o presente a luz da vontade de Deus, nesse versículo fica muito claro que a profecia é a análise do presente, e não somente predizer o futuro, Zacarias analisa o presente interpretando o passado, isso certamente levará a uma “visão” do que acontecerá no futuro.

(71) “Salvando-nos dos nossos inimigos e das mãos de todos os que nos odeiam…”.

 Salvando-nos dos nossos inimigos e da mão de todos os que nos odeiam é uma linguagem bíblica. Isso tinha ressonância com o fato de os judeus viverem sob ocupação romana na época de Zacarias (cf. 2:38 e Salmos 106:10).

Além disso, também era bem-vindo pela comunidade de Lucas, que vivia em um mundo pós-templo de hegemonia romana. A reiteração desse tema em Lucas 1:74 reforça a significância política da profecia como um acontecimento de médio prazo. Zacarias não está falando de inimigos espirituais em séculos vindouros, mas de inimigos seculares da época atual.

NOTA:

Os judeus na sociedade romana no primeiro século.

Os judeus sofriam perseguições no interior do Império Romano do primeiro século, por muitas razões (veja Hadas-Lebel, 1993, p.200 – 206).

  • Na antiguidade, não se ficava um dia sem trabalhar. Os judeus eram considerados preguiçosos e desleais ao império, porque descansavam por um dia em honra ao Senhor.
  • Já dissemos que a circuncisão era uma prática por que eles sofriam escárnio (cf. 1:59).
  • Os judeus eram também considerados ateístas por causa da recusa de adorar aos deuses romanos ou ao imperador. Os tumultos políticos que se levantavam por causa da imposição de Roma ao reinado vassalo de Herodes, o Grande, e subsequentemente o governo direto da Judeia depois de 6 d.C., aumentavam essas dificuldades.

A grande revolta de 66 – 70 d.C. Foi uma expressão da angústia nacional, que já fazia parte da vida de judaica nos dias de Zacarias. Essa angústia aumentou com uma crise na sétima década do primeiro século. Logo, a destruição de Jerusalém e do templo, sete décadas depois do nascimento de João, mostra que as palavras de Zacarias tinham um significado real. Sua esperança pela salvação era de natureza política e religiosa. Vivendo na era da pós-destruição, a comunidade de Lucas continuava a esperar por uma redenção política, uma esperança que somente retrocedia com o passar do tempo.

(72 – 75) “… para mostrar sua misericórdia aos nossos antepassados e lembrar sua santa aliança, o juramento que fez ao nosso pai Abraão: resgatar-nos da mão dos nossos inimigos para servi-lo sem medo, em santidade e justiça, diante dele todos os nossos dias”.

Uma referência é feita pela segunda vez no capítulo ao juramento que Deus fez ao nosso pai Abraão (v.73; cf. v.55). Nas narrativas do nascimento, a promessa de fertilidade é a ideia principal em foco. O miraculoso nascimento do filho de Zacarias e Isabel é uma renovada afirmação da antiga promessa de fertilidade para o povo de Israel (Gênesis 12:1 – 4; 22:19,17). O nascimento de João afirma o cumprimento da promessa de procriação. Deus agora mostrará misericórdia a Israel e lembrar sua santa aliança (v.72).

O tema do resgate no versículo 72 é reiterado no versículo 74, no contexto dessa promessa de fertilidade. Compare com “da mão de todos que nos odeiam”, no versículo 71, com “resgatar-nos da mão dos nossos inimigos”, no versículo 74. A fertilidade e a segurança nacional são dois eixos da existência de Israel. Sem elas, a nação não consegue sobreviver; sem elas, o conceito de poderosa salvação é impossível para Zacarias.

Nesses versículos mostra o quanto é importante à interpretação das escrituras para se entender o que se passa no presente, e consequentemente o que acontecerá no futuro. Uma pergunta deve ser levantada nessa altura do texto: Como Zacarias sabia que Deus havia outrora feito um pacto com Abraão? O Pentatêuco é a resposta para Zacarias, Especialmente o livro de Gênesis, pois, o mesmo era um sacerdote que examinava a lei (Escritura Sagrada), quer ter certeza do que irá acontecer no futuro? Examine diariamente as escrituras. Por isso Zacarias sabia o que estava acontecendo em sua época, e tinha uma visão muito clara do que iria acontecer em um futuro breve. E você pode perguntar: Como isso se chama? A resposta é simples: Isso se chama profecia bíblica, a examinação da escritura para entender de forma clara o presente ao qual estamos inseridos, e, o futuro que nos espera. Você consegue perceber o que significa profecia? Está ficando claro?

Por exemplo, o que é profecia, e como se define? Se faça a essa pergunta: O profeta Isaías profetizou algo novo? A resposta é não! Claro que não. Vejamos a ideia das profecias no tempo de Isaías “Arrependam-se e obedeça ao seu DEUS, ao único Deus”. Essa profecia era algo novo para Israel? Mas uma vez a resposta é não! Moisés já tinha falado isso em Deuteronômio 28 (Livro das Instruções), benção “obediência”, maldição “desobediência”, você consegue perceber que na maioria das profecias bíblicas, não existe uma mensagem nova embutida, mas sempre a Palavra de Deus em todos os tempos? “Arrependei-vos e crede no Evangelho” – Marcos 1:15.

A profecia raramente trazia algo novo, mas sempre construía algo em cima de um acontecimento anterior, algo que havia acontecido no passado. A maior testificação que profecias nascem de outras antigas profecias, são as referências em relação às promessas messiânicas e seu cumprimento, tudo que foi profetizado no passado se cumpriu no presente sem nada de novo.

  • Seria a semente de uma mulher, profecia no passado, Gênesis 3:15 e seu cumprimento no presente, Lucas 2:7.
  • Seria descendente de Abraão profecia no passado, Gênesis 18:18 e seu cumprimento no presente, Mateus 1:1.
  • Seria descendente de Isaque profecia no passado, Gênesis 17:19 e seu cumprimento no presente, Mateus 1:2.
  • Seria descendente de Jacó profecia no passado, Gênesis 28:14 e seu cumprimento no presente, Mateus 1:2.
  • Descenderia da tribo de Judá profecia no passado, Gênesis 49:10 e seu cumprimento no presente, Mateus 1:2,3.
  • Seria o herdeiro do trono de Davi profecia no passado, Isaías 9:7 e seu cumprimento no presente, Lucas 1:32,33.
  • Seu lugar de nascimento profecia no passado, Miquéias 5:2 e seu cumprimento no presente, Mateus 2:1; Lucas 2:4 – 7.
  • A época de seu nascimento profecia no passado, Daniel 9:25 e seu cumprimento no presente, Lucas 2:1 – 2; 2:3 – 7.
  • Nasceria de uma virgem profecia no passado, Isaías 7:14 e seu cumprimento no presente, Mateus 1:18.
  • A matança dos meninos profecia no passado, Jeremias 31:15 e seu cumprimento no presente, Mateus 2:16 – 18.
  • A fuga para o Egito profecia no passado, Oséias 11:1 e seu cumprimento no presente, Mateus 2:13 – 15.

Notou algo novo sendo mudado no presente? Não! Porque não se pode mudar algo que Deus desde a eternidade decretou. O que é isso? A resposta é: Profecia. Se examinarmos o passado teremos um presente vivo e cheio de sentido, isso aconteceu com o sacerdote Zacarias que interpretou o passado para entender o presente, um acontecimento profético extraordinário que estava para se cumprir, o nascimento daquele que seria o predecessor do Salvador, não somente dos judeus, mas também dos gentios. O nascimento do profeta João Batista era uma viva esperança para o povo de Israel naquele vil momento.

Então, concluímos nesses versículos que primeiro Zacarias observou o presente, ele entendeu o cumprimento da profecia pelo nascimento de seu filho. Segundo, com a interpretação da escritura, Zacarias compreendeu o presente, e teve uma “visão” do que aconteceria no futuro, e uma frase define bem essa visão de um futuro esperançoso e próximo: “Aquele menino seria um profeta do Altíssimo”, não há nada de novo para o futuro de Israel, apenas o entendimento de um renovo prometido (uma promessa de redenção), pela interpretação da vontade de Deus que vem desde o passado sendo proclamado pelos santos profetas, Zacarias entende o momento presente de sua época.

(76 – 80) “E você, menino, será chamado profeta do Altíssimo, pois irá adiante do Senhor, para lhe preparar o caminho, para dar ao seu povo o conhecimento da salvação, mediante o perdão dos seus pecados, por causa das ternas misericórdias de nosso Deus, pelas quais do alto nos visitará o sol nascente para brilhar sobre aqueles que estão vivendo nas trevas e na sombra da morte, e guiar nossos pés no caminho da paz. E o menino crescia e se fortalecia no espírito; e viveu no deserto, até aparecer publicamente a Israel”.

 Aqui, a ênfase desvia-se do Messias vindouro (v.69 – 75) de volta para o precursor João (76,77). “E você menino, será chamado profeta do Altíssimo, pois, irá adiante do Senhor, para lhe prepara o caminho” (v.76). O texto amplifica as palavras de Gabriel em 1:7: “No espírito e no poder de Elias (…) para deixar um povo preparado para o Senhor”. Isso também prefigura os temas proféticos que surgirão no ministério de João, em 3:1 – 6 e 7:26,27.

Certamente, existem aqui ecos de Malaquias 3:1: “Vejam, eu enviarei o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim. E então, de repente, o Senhor que vocês buscam virá para o seu templo” (cf. Malaquias 4:5; Lucas 1:17; Mateus 11:14). Lucas 1:76 também antecipa a citação de João sobre Isaías 40:3-5 no início de seu ministério (Lucas 3:4 – 6): “Preparem o caminho para o Senhor”.

Lucas tem a intenção de que a proclamação de João, sem dúvida, seja entendida como o cumprimento dessa profecia de Isaías.

No versículo 77 continua com esta frase: “Para dar ao seu povo o conhecimento da salvação, mediante o perdão dos seus pecados”. O tema do perdão dos pecados era central no ministério público de João. (Como indicado em Josefo em Ant. 18.5.2 §§ 116 – 119 – João “exortava os judeus a levarem uma vida justa”. Veja Lucas 3:1 – 21; 7:18 – 36 para algo mais sobre o ministério de João.)

A linguagem no versículo 77 prefigura a importância que o perdão assumirá no mundo histórico mais amplo e Lucas à medida que sua narrativa progride.

Para Lucas, o tema do arrependimento e do perdão dos pecadores é o paradigma condutor da salvação.

O versículo 78a mostra o meio pelo qual o perdão dos pecados se tornará disponível: “Por causa das ternas misericórdias de nosso Deus” (v.78). As misericórdias de Deusnão são simplesmente a causa do perdão dos pecados (como na NVI). Ela é a agência pela qual o perdão é encontrado (“pelas entranhas da misericórdia do nosso Deus”, ARC). O perdão é uma jornada empreendida pelo exercício do arrependimento, como as muitas histórias de Lucas sobre os pecadores ilustrarão.

Perceba novamente os parênteses criados pelo uso de “episkepsetai”, visitado, nos versículos 68b e 78b. Na narração de Lucas, somos visitados por uma ofuscante presença de Deus nesses eventos. A visitação nos vem como um amanhecer “pelas quais do alto visitará o sol nascente” (v.78b). Nós não causamos isso, nem o procuramos; simplesmente é a hora de sua chegada – sua hora marcada. Como em todas as epifanias (v.11 – 15a), esse sol nascente tem a ver com Deus agindo primeiro, entrando no drama humano espontaneamente.

Para Lucas, o advento do Messias significa que a luz de Deus brilhará sobre “aqueles que estão vivendo nas trevas” (v.79). Essa imagem é dependente da profecia de Isaías sobre a Galileia, em Isaías 9:1,2 (veja Mateus 4:5 – 16). É uma continuação da metáfora do sol nascente em Lucas 1:78b. No Salmo 107:10 e em Isaías 42:7, os prisioneiros que Deus resgata estão “nas trevas”. O hodon eirēnēs, “o caminho da paz” (Lucas 1:79 ARC), é aquele prometido pelo “Príncipe da Paz” de Isaías 9:6,7 (Lucas 1:32; veja Isaías 59:8; Romanos 3:17).

Em uma característica estilística padrão, Lucas conclui a narrativa do nascimento de João Batista como uma declaração sintetizadora: “E o menino crescia e se fortalecia em espírito; e viveu no deserto, até aparecer publicamente a Israel”. A mesma fórmula aparecerá ao final da narrativa do nascimento de Jesus e também ao final da narrativa de sua juventude (Lucas 2:40,52). Essas declarações sintetizadoras devem seu formato a 1 Samuel 2:26: “E o menino Samuel continuava a crescer, sendo cada vez mais estimado pelo Senhor e pelo povo”.

João viveu uma vida ascética no deserto (Veja 3:2,4; 7:24) até entrar em seu ministério público. Ele evoca comparações com outras figuras importantes do AT, tias como: Abraão, Moisés e Elias. Cada um deles também peregrinos no deserto enquanto seguia a Deus. João parece ter sido ascético de um tipo diferente, entretanto, já que ele aparentou ser um residente permanente no deserto (3:2,3: 7:24). As pessoas iam até ele naquele local; ele não ia às cidades delas.

O Evangelho de João coloca as atividades dele nessa época em um lugar ao sudeste de Jericó (cf. João 1:28). Existe uma afinidade entre o modo de vida de João e os adeptos do Qumrã, uma comunidade ascética também localizada ao sudeste de Jericó, no litoral do mar morto. Assim como João, esse grupo se separava daquilo que acreditavam ser a corrupção de Jerusalém e do sacerdócio de seu templo.

João Batista e a comunidade Qumrã eram ambos representantes de movimentos de protestos dentro do Judaísmo na época de Jesus. Eles tinham pensamentos similares ascéticos e contrários ao sistema e usavam uma linguagem sobrenatural semelhante.

Os movimentos religiosos, porém, não surgem em um vácuo social. Eles surgem no contexto de conflitos sociais e religiosos complexos. A motivação que impulsionava João para o deserto pode ter tido origens parecidas com aquelas que levaram os protestantes de Qumrã para os litorais do mar morto.

CONCLUSÃO

O ministério de João Batista é teologicamente importante para Lucas, porque João enfatiza que o arrependimento e o perdão dos pecados são exigidos da comunidade para a vinda do Messias (1:77; 3:8). Nessa teologia, a mera ideia de um messias inspira a contrição, porque o seu advento deve ser a consumação da busca humana pelo perdão dos pecados. Mais amplamente no NT, essa consumação é a resolução de toda a história da rebelião humana, desde Adão até Cristo (cf. Romanos 4:15; 1 Coríntios 15:22,45).

Se o ministério de João parece rígido nessa insistência de penitência nos próximos capítulos (cf. 3:1 – 21), é porque nada menos do que penitência é arrogância, na presença do Messias. Do ponto de vista teológico, a mensagem de João é tão rígida quanto é francamente realística.

A comunidade seja a de Zacarias, a de Lucas ou a nossa não pode apresentar-se diante de Deus com uma atitude insincera sobre o pecado e a rebelião. Essa falta de sinceridade era uma afronta a todos os profetas anteriores a João. Lucas, por intermédio de João, renova essa chamada profética a Israel para um arrependimento pessoas e nacional. No nível nacional, os ouvintes de João foram chamados a apresentarem-se ao Messias como um povo santo – uma nação de penitentes preparados para o Seu advento.

João Batista foi o último profeta e o predecessor de Jesus, mas mesmo assim, ele nunca anunciou o futuro de ninguém como forma adivinhação, e muito menos algo de caráter terreno. Pelo contrário, ele foi um porta-voz de Deus, a voz que clamou no deserto arrependimento, anunciou as “boas novas”, gritou em alta voz: “O reino de Deus é chegado!”, pregou a salvação, Jesus Cristo como o Filho enviado de Deus Pai para salvação de Seu povo escolhido, para consumação de um decreto eterno, para resgatar do pecado aqueles que foram predestinados à salvação desde antes a fundação do mundo, resgatar os não resgatáveis, afirmar a salvação de todo àquele que creria no Cordeiro “… o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” – João 1:29; João 3:16; Atos 13:48; Efésios 1:4,5. E condenação para todos aqueles que negariam a mensagem do evangelho.

Então o que podemos dizer em relação à Profecia? A profecia é interpretar as escrituras de forma realística para se entender a concretude do presente, tendo uma visão da eternidade que nos espera, sendo para “alguns” condenação eterna, e para outros vida eterna.

Se você examina as escrituras você pode “profetizar”, ou seja, o ato de “profetizar” é simplesmente a proclamação da vontade de Deus, e sabemos que a vontade de Deus é que o Evangelho seja anunciado em todas as nações. Profecia é a escritura, profecia é a autoridade da escritura sendo anunciada. Profecia é a exposição da escritura a pecadores, é a exposição da vontade de Deus, é a salvação por Cristo Jesus, o único caminho, a única verdade e o único meio de vida eterna, que nos é dada pela Graça mediante a fé, e isto não vem de nenhum homem, mas é um dom de Deus, uma dádiva, oferecido pelo livre conselho de Sua vontade (Beneplácito) – Efésios 2:8,9.

A nossa “profecia” futura é: Cristo voltará para nos levar para junto dEle para todo sempre. Amém.

Devemos orar para que haja uma ação iluminadora do Espírito Santo em nossas mentes, para que possamos interpretar as escrituras de forma correta, devemos “profetizar” arrependimento e vida eterna, e não algo que está fadado à destruição, algo temporal. A escritura já nos fora revelada, temos acesso às reveladas para nossa instrução em justiça e toda perfeita obra. Assim seremos verdadeiros “profetas” de Deus, verdadeiros bereanos, cristãos que estudam diligentemente as escrituras (Atos 17:10 – 12). “Orare et Labutare” – João Calvino.

“Agora você sabe o que é profecia?”

Paz e graça.

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Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Acadêmico e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
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