ABORTO E SALVAÇÃO

“Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Digo isso com convicção; Os filhos são herança do Senhor, uma recompensa que Ele dá; (…) Antes de formá-lo no ventre eu (Deus) o escolhi; antes de você nascer, eu o separei e o designei profeta às nações” – Salmos 139:13, 14; Salmos 127:3; Jeremias 1:5.

Por Pr. Plínio Sousa.

Estava me perguntando: uma alma é uma alma – incluindo mente, intelecto e vontade – no momento da concepção, e se sim, o que acontece com bebês que são abortados?

Penso que a resposta é sim. Creio que quando Deus cria vida, cria-a de fato. E, creio que essa vida começa na concepção, e, portanto, a personalidade começa aí. João o Batista, no ventre de sua mãe, é-nos dito, que foi cheio do Espírito Santo. E você se lembra que o bebê pulou de alegria no ventre? Recorde o que Davi disse: “em pecado me concebeu minha mãe” – Salmos 51:5; cf. Salmos 139:13, 14. Assim, de um lado, você tem embriões e fetos que são cheios do Espírito Santo, e do outro, você tem um feto pecaminoso. Isso indica personalidade. Indica responsabilidade. Indica que existe uma alma ali, existe vida. Essa é a minha posição, essa é a verdade contida na Escritura Sagrada, na Palavra de Deus.

Se você estudar as passagens sobre os caminhos, um largo e outro estreito, sendo poucos os que encontram o último, pode ser que o céu será mais populado pela taxa de mortalidade e de aborto, do que será pela fé. O motivo é que, eu creio, que quando as crianças morrem, em algum ponto no tempo após sua personalidade ser iniciada, elas estarão com Deus. Assim, pode ser que encontremos no céu uma grande quantidade dessas pessoas, e, talvez, essa é a razão da taxa de mortalidade ser tão alta em países não-cristãos. Deus é misericordioso, e a salvação pertence, e vem do Senhor.

Então, os bebês e outros incapazes de professar a fé em Cristo vão automaticamente para o céu?

As pessoas frequentemente se perguntam sobre o destino eterno dos bebês e daqueles “incapazes” de entender intelectualmente o Evangelho. A questão é difícil. Infelizmente, a Bíblia não nos oferece nenhuma resposta explícita. Contudo, baseado em várias passagens, bem como num entendimento do caráter de Deus e Seus tratamentos com os homens, podemos desenvolver uma boa idéia de como Ele age em tais situações.

2 Samuel 12:23 é uma das passagens frequentemente citadas para implicar que os bebês vão para o céu. Embora o versículo não diga isso explicitamente, Davi claramente espera um dia reunir-se com sua criancinha falecida. Visto sabermos que Davi é um crente cujo destino foi o céu, podemos inferir que sua esperança de reunião significa que ele esperava que sua criança estivesse no céu. Assim, 2 Samuel 12:23 sugere forte evidência para um destino celestial dos ainda não-nascidos e das crianças que morrem na infância.

Se esse versículo fosse tudo que apoiasse a nossa posição, admitidamente ela não seria muito convincente. Contudo, existem outras evidências que apontam para a mesma conclusão. Primeiro, a Bíblia ensina claramente que Deus se preocupa profundamente com as crianças. Passagens como Mateus 18:1 – 6 e 19:13 – 15 afirmam o amor do Senhor por elas. Esses versículos não declaram que as crianças vão para o céu, mas mostram o coração de Deus por elas. Ele criou e cuida delas, e, além disso, sempre realiza Sua perfeita vontade em cada circunstância.

O salmista nos lembra de que Deus é “cheio de compaixão, e piedoso, sofredor, e grande em benignidade e em verdade” – Salmos 86:15. Ele é o Deus que se tornou carne, para que pudesse levar nossos pecados por Sua morte na cruz (2 Coríntios 5:21). Ele é o Deus que confortará os crentes no céu, pois, “limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor” (Apocalipse 21:4). Podemos estar seguros que Deus fará o que é certo e amável, pois, Ele é o padrão de justiça e amor. Apenas essas considerações parecem ser evidência suficiente do amor particular e eletivo de Deus, mostrado para com aqueles que morrem na infância, ou mesmo antes dela.

Contudo, outro ponto pode ser útil ao responder essa pergunta.

Embora os infantes e crianças pequenas não tenham senso do pecado e da necessidade de salvação, nem colocam sua fé em Cristo, a Escritura ensina que a condenação é baseada na clara rejeição da revelação de Deus – quer geral ou específica – não na simples ignorância dela (Lucas 10:16; João 12:48; 1 Tessalonicenses 4:8).

Podemos dizer definitivamente que os infantes e crianças pequenas compreenderam a verdade demonstrada pela revelação geral de Deus, que os torna “inescusáveis – indesculpáveis” (Romanos 1:18 – 20)?

Eles serão julgados de acordo com a luz que receberam. A Escritura é clara que as crianças e os ainda não-nascidos possuem o pecado original – incluindo a propensão ao pecado, bem como a culpa inerente do pecado original. Mas poderia ser que de alguma forma a expiação de Cristo pagou pela culpa desses pequeninos indefesos? Sim, e, portanto, é uma suposição aceitável que uma criança que morra numa idade muito precoce para ter uma rejeição consciente e deliberada de Jesus Cristo, será levada para estar com o Senhor.

R. C. Sproul ao ser questionado: Quando um bebê morre, ou é abortado, para onde vai a sua alma? Respondi:

A maneira como esta pergunta foi feita indica uma certa ambiguidade a respeito do relacionamento entre aborto e morte. Se a vida começa na concepção, então aborto é um tipo de morte. Se a vida não começa senão com o nascimento, então, obviamente, o aborto não envolve morte. A visão clássica do assunto é que a vida começa com a concepção. Se isto é certo, então a questão da morte da criança ou da morte pré-natal envolve a mesma resposta.

A qualquer hora que um ser humano morre antes de alcançar a idade da responsabilidade (que varia de acordo com a capacidade mental), precisamos confiar em provisões especiais da misericórdia de Deus. A maioria das igrejas crê que existe tal provisão especial da misericórdia de Deus. Esta posição não envolve a suposição que as crianças são inocentes. Davi declara que ele nasceu em pecado e foi concebido em pecado. Com isto ele estava se referindo obviamente à noção bíblica de pecado original. Pecado original não se refere ao primeiro pecado de Adão e Eva, mas ao resultado daquela transgressão inicial.

Pecado original refere-se à condição de decaídos que afeta todo ser humano. Nós não somos pecadores porque pecamos, mas pecamos porque somos pecadores. Isto é, nós pecamos porque nascemos com uma natureza pecaminosa. Embora os infantes não sejam culpados de um pecado real, estão manchados com o pecado original. Por isso, insistimos em que a salvação das crianças depende não de sua suposta inocência, mas da graça de Deus.

Minha igreja em particular (Presbiterian Church in America) crê que os filhos de crentes, que morrem na infância, vão para o céu pela graça especial de Deus. O que acontece aos filhos dos não-crentes é deixado na esfera do mistério. Talvez haja uma provisão especial da graça de Deus para eles também. Certamente esperamos que sim. Embora tenhamos esperança nessa graça, há pouco ensino bíblico específico sobre a matéria. As palavras de Jesus: “Deixai vir a mim os pequeninos porque dos tais é o Reino dos céus” (Mateus 19:14), nos dão algum consolo, mas não oferecem uma promessa categórica da salvação das crianças.

Quando o filho de Davi e Bate-Seba foi levado por Deus, Davi lamentou: “Vivendo ainda a criança jejuei e chorei porque dizia: Quem sabe se o Senhor se compadecerá de mim, e continuará viva a criança? Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim” (2 Samuel 12:22, 23).

Aqui Davi declara sua confiança de que “eu irei a ela”. É uma referência levemente velada à sua esperança de reunir-se com seu filho no futuro, como já dito antes e ratificado a esta altura. Esta esperança de uma reunião futura é a esperança gloriosa de todos os pais que perderam seus filhos. É a esperança reforçada pelo ensino do Novo Testamento sobre a ressurreição.

Talvez uma grande proporção desta geração, em algum tempo ou outro, tenha derramado lágrimas sobre caixões de criancinhas, e talvez, através deste artigo, consolação seja dada a estes. Esse é o objetivo.

C. H. Spurgeon declara:

 (2 Reis 4:8 – 41) Geazi perguntou a essa boa Sunamita se estava bem quanto a ela. Ela estava lamentando o filho que havia morrido, e mesmo assim ela disse “Vai bem”, ela sentia que sua provação seria certamente abençoada (no final das contas). Geazi também perguntou: “Vai bem com teu marido?” Este era velho e avançado em dias, e estava já no processo de amadurecimento final para a morte, mas ainda assim ela disse “Sim, vai bem”. Então veio a pergunta sobre o filho que estava morto em casa, e a pergunta renovaria as suas dores: “Está tudo bem com a criança?” Ela ainda disse: “Vai bem”, talvez respondendo assim porque tinha uma fé que ele logo deveria ser restaurado para ela, e que a ausência temporária estava bem, ou ela respondeu assim porque estava persuadida de que fosse o que fosse que tivesse acontecido com o espírito do seu filho, ele estava seguro debaixo do cuidado de Deus, ele (seu filho) estava feliz à sombra das Suas asas. Portanto, não temendo que ele estivesse perdido, não tendo qualquer suspeita de que seu filho foi lançado para longe do lugar de gozo — porque tal suspeita teria impedido ela de dar tal resposta — ela disse “Sim, o meu filho está morto, mas vai bem”.

Agora, que toda mãe e todo pai, saibam com segurança que tudo está bem com o seu filho, se Deus o tirou de vocês nos dias da infância. Vocês nunca ouviram a sua declaração de fé (pois ele não era capaz de tal coisa), ele não foi batizado no Senhor Jesus Cristo, não foi sepultado com Ele em batismo, não foi capaz de dar aquela “resposta de uma boa consciência para com Deus”, todavia, vocês podem descansar seguros de que tudo vai bem com a criança, bem em um sentido mais alto e melhor do que está bem com vocês mesmos, bem sem limitação, bem sem exceção, bem infinitamente, “bem” eternamente.

Talvez vocês irão dizer “Quais razões temos para crer que tudo vai bem com o nosso filhinho (já morto)?”

Antes que eu entre nisso eu faria uma observação. Tem sido maliciosamente, enganosamente e caluniosamente dito a respeito dos Calvinistas, que nós cremos que algumas crianças (mortas) perecem. Aqueles que fazem esta acusação sabem que tal denúncia é falsa. Eu não ouso mesmo esperar, embora desejasse assim poder fazer, que é com ignorância que tais acusadores nos deturpam. Eles impiamente repetem (e nos atribuem) o que (por nós) tem sido negado mil vezes, o que eles sabem não é a verdade. No conselho de Calvino para Omit, ele toma a promessa justificativa em Êxodo 20:6 “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos”, dada por Deus para o segundo mandamento, “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” – Êxodo 20:4, 5 – ACF, e a interpreta como se referindo a gerações, e então ele parece ensinar que crianças que têm ancestrais piedosos, isto é, verdadeiros salvos, não obstante quão remotamente na árvore genealógica, morrendo como crianças são salvas. Isso certamente incluirá as crianças mortas de toda a raça humana. Dos Calvinistas modernos, não conheço nenhuma exceção, mas todos nós esperamos e cremos que todos que morrem quando crianças são eleitos. Dr. Gill que tem sido recentemente visto como sendo o padrão de Calvinismo, e talvez do ultra-Calvinismo, nunca dá a mínima dica em nenhum momento, nem afirma que qualquer criança tem perecido, mas afirma que isto é um assunto misterioso e nebuloso, mas que é a sua posição, e ele crê que tem as Escrituras para justificar, que os natimortos (feto quando morre dentro do útero materno ou durante o trabalho de parto) não pereceram, mas foram contados com os escolhidos de Deus, e, portanto, entraram no descanso eterno. Nunca temos ensinado contrariamente, e quando somos taxados assim eu o rejeito e digo: “Você pode ter dito assim, mas nós nunca dissemos assim, e você sabe que nunca dissemos tal coisa. Se você ousar repetir tal difamação de novo, então que a mentira marque na sua face em escarlata, se você ainda tiver a capacidade de sentir vergonha”. Nós nunca nem sequer sonhamos com tais coisas. Com poucas e raras exceções, tão raras que eu nunca ouvi delas a não ser da boca de difamadores, nunca imaginamos que as crianças que morreram em tenra idade têm perecido, e temos crido que entram no paraíso de Deus.

PONTOS CONVICTOS ACERCA DA SALVAÇÃO DE BEBÊS (NASCIDOS E MORTOS EM TENRA IDADE OU NATIMORTO)

 (1) Alguns apoiam a idéia do gozo eternal da criancinha na sua inocência. Não fazemos ou mencionamos tal coisa, cremos que a criancinha caiu em pecado dentro do primeiro Adão, “Assim como todos morrem em Adão”. A posteridade inteira de Adão, infante ou adulta, era representada por ele – ele representou todos, e, quando ele caiu, caiu em lugar de todos os seres humanos (todos caíram dentro dele). Não houve nenhuma exceção na aliança das obras feita com Adão (e no alcance das consequências de sua queda) a respeito das criancinhas morrendo, e estes que estavam incluídos em Adão, mesmo que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, têm a sua culpa original. Estes são “nascidos no pecado e inteiramente em iniquidade, em pecado são concebidos pelas suas mães”, assim diz Davi de si mesmo, e (por inferência) de toda a raça humana. Se são salvas não cremos que seja por inocência natural. Entram no céu pelo mesmo caminho que entramos, são recebidas no nome de Cristo. “Ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto”, e não penso nem sonho que haja um fundamento diferente para a criancinha além do que aquele posto para o adulto.

Por qual razão, então, cremos que as criancinhas mortas são salvas?

Cremos que uma criancinha viva está tão perdida como toda a humanidade, e totalmente condenada pela sentença que disse “no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. Ela é salva por ser eleita. No escopo da eleição, no livro da vida do Cordeiro, cremos que serão achadas milhões de almas que só brevemente apareceram sobre a terra e depois voaram para o céu. Todas elas são salvas por terem sido também, como nós, redimidas pelo precioso sangue de Jesus Cristo. Aquele que derramou Seu sangue para todo Seu povo comprou-as com o mesmo preço com o qual redimiu os pais delas e, portanto, elas são salvas porque Cristo representou-as e sofreu por elas no seu lugar. São salvas não sem regeneração, pois “aquele que não nascer de novo (…)” — o texto não designa um homem adulto, mas uma pessoa, qualquer um ser da raça humana — “aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus”. Sem dúvida, numa maneira misteriosa o Espírito de Deus regenera a alma da criancinha e ela entra na glória e é feita adequada para ser participante da herança dos santos da luz. Que isto é possível é comprovado nas Escrituras. João o Batista, foi cheio do Espírito Santo desde o ventre da sua mãe. Lemos de Jeremias também, que a mesma coisa ocorreu a ele, e de Samuel encontramos que ainda criança o Senhor o chamou. Cremos, portanto, que antes que o intelecto possa funcionar plenamente, Deus o qual não opera segunda a vontade do homem, nem do sangue, mas pela agência misteriosa do Seu Espírito Santo, cria na alma da criancinha uma nova criatura em Cristo Jesus, e então ela entra naquele “repouso para o povo de Deus”. Pela eleição, pela redenção, pela regeneração, e em nenhuma outra maneira, a criança entra na glória pela mesmíssima porta pela qual cada crente em Cristo espera entrar. Se não pudéssemos crer que crianças podiam ser salvas como os adultos, se fosse necessário propor que a justiça de Deus tem que ser infringida, ou que o Seu plano da salvação deveria ser ajustado para responder em particular ao caso das criancinhas, então estaríamos em dúvida, mas podemos perceber que é com os mesmos meios, pelo mesmo plano, apoiados no mesmo fundamento, e através das mesmas agências, que a alma da criancinha morta pode contemplar a face do Salvador na eterna glória, e, portanto somos consolados neste assunto.

(2) Primeiramente, temos que deixar bem claro que a nossa convicção sobre salvação de crianças está fundamentada sobre a bondade da natureza de Deus. Dizemos que a doutrina oposta, que diz que algumas criancinhas perecem e estão perdidas, é inteiramente repugnante ao entendimento que temos sobre Aquele cujo nome é Amor. Se tivéssemos um Deus cujo nome era Moloque, se Deus fosse um tirano arbitrário, sem benevolência ou graça, poderíamos supor algumas criancinhas sendo lançadas no inferno, mas nosso Deus, que dá sustento aos filhos dos corvos quando clamam, certamente não achará nenhum regozijo no clamor e gritos das criancinhas lançadas para longe da Sua presença. Lemos dEle que Ele é tão bondoso que cuida dos bois, que não teria atada a boca do boi que trilha o cereal. Sim, Ele cuida do passarinho no seu ninho e não deixaria morrer a mãe deles enquanto aninhando está os seus pequenos. Ele deu mandamentos e ordenanças até para as criaturas irracionais. Ele providencia comida para o animal mais bruto, e também não negligencia nenhuma minhoca mais do que um anjo, e podemos nós crer que, com tal bondade universal quanto essa, que Ele lançaria a alma da criancinha, digo eu, seria contrário a tudo que temos lido e crido dEle, que a nossa fé enfraqueceria diante de uma revelação que afirmaria um fato tão singularmente excepcional ao grau usual de Seus outros feitos. Temos aprendido humildemente a submeter-nos à Sua vontade e não nos atreveremos a criticar ou acusar o SENHOR de tudo, nós confiamos que Ele é justo em tudo que Ele quer fazer. Portanto, qualquer coisa que é revelada por Ele, aceitaremos, mas Ele nunca pediu, e eu acho que Ele nunca pedirá de nós, tão desesperada fé quanto imaginar bondade de Deus na miséria eterna de uma criancinha lançada no inferno. Lembremos que, quando Jonas — o petulante e espontâneo Jonas — desejou a perdição de Nínive, Deus disse a razão pela qual Nínive não deveria ser destruída, ou seja, que continha mais de 120 mil “criancinhas” – pessoas, Ele disse, que não sabiam discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda. Se Deus poupou a Nínive, cuja vida mortal seria poupada, pensaria você que as almas imortais delas, das criancinhas mortas seriam descartadas desnecessariamente? Eu deixo tudo ao seu raciocínio. Não é um caso que devemos ter muitos argumentos. O seu Deus lançaria fora uma criancinha? Se o seu Deus faria isto, então eu estou feliz em dizer que Ele não é o Deus que eu adoro.

Novamente, cremos que lançar no inferno a criancinha que morre seria grosseiramente inconsistente com o caráter revelado do nosso Senhor Jesus Cristo. Quando os Seus discípulos impediram os meninos cujas mães ansiosas lhe trouxeram, Jesus disse: “Deixai vir os meninos a mim e não os impeçais; porque dos tais é o Reino de Deus”. Assim Ele nos ensinou, como John Newton corretamente afirma: “que tais como estes meninos constituem grande parte do Reino de Deus. E, quando consideramos, usando as melhores estatísticas, que é calculado que mais de um terço da raça humana morre ainda criança, e quando consideramos aquelas vastas regiões onde prevalece o infanticídio e os abortos, naturais ou por assassinato, como nos países pagãos tais como a China e outros assim, de modo que talvez metade da população mundial morra antes de chegar à idade da razão — então a instrução do Salvador carrega grande força de fato, dos tais é o reino de Deus”. Se alguns me relembram que o Reino de Deus significa a dispensação da Sua graça sobre a terra, eu respondo: Sim, é verdade, mas também significa a mesma dispensação no céu, pois enquanto parte do Reino de Deus está sobre a terra na igreja, então, desde que a igreja é sempre uma, aquela outra parte da igreja que já está no alto céu também é o reino de Deus. Contudo, o texto prova isto: que criancinhas compõem uma grande parte da família de Cristo e que Jesus Cristo tem amor e amabilidade para com os pequeninos. Quando os meninos clamavam no templo: Hosana! Ele os reprovou? Não, mas regozijou-se nas infantis exclamações. “Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor”. Este texto também parece afirmar que no céu haverá “perfeito louvor” dado a Deus pela multidão dos “querubins” (as criancinhas mortas) que estavam aqui na terra — aqueles pequeninos acariciados no seio dos pais — e subitamente e prematuramente levado ao céu. Não posso crer que Jesus diria às criancinhas “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos!”. Eu não posso pensar que seja possível que Aquele que é amoroso e terno, quando Ele se assentar a julgar as nações, coloque as criancinhas na Sua esquerda e as bana para sempre da Sua presença. Como imaginar que Ele poderia dizer às criancinhas “Tive fome e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; estando nu, não me vestistes, e enfermo, e na prisão, não me visitastes?”. Como poderiam as criancinhas ter feito isto? Se a maior razão de condenação está nos pecados de consciente e deliberada omissão, então como iria Cristo condenar os infantes e lançá-los na perdição por um pecado que as criancinhas não tinham a possibilidade de cometer, por não terem o poder de fazerem o dever?

Ademais, pensamos que a natureza da graça de Deus, se a consideramos, faz com que seja muito improvável, para não dizer impossível, que uma alma de uma criancinha morta devia ser destruída. O que diz as Escrituras? “Onde abundou o pecado, superabundou à graça”. Tal verdade não pode ser dita a respeito de uma criancinha lançada na perdição. Sabemos que Deus é abundantemente gracioso, que tais expressões como “as riquezas incompreensíveis de Cristo”, “Deus, que é riquíssimo em misericórdia”, “grande em benignidade”, “abundantes riquezas da Sua graça”, e outras tais, são verdadeiras sem exageração e sem hipérbole. Sabemos que Deus é bom para com todos, e que as Suas misericórdias são sobre todas as Suas obras, e que, na Sua graça, Ele pode fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos. A graça de Deus buscou no mundo o pior dos pecadores. Não se desviou do mais vil de todos os vis. Aquele que se auto-intitulou o maior dos pecadores tornou-se participante do banquete do amor de Cristo. Todo tipo de pecado e blasfêmia tem sido perdoado ao homem. Ele já salvou perfeitamente os que por Cristo se chegaram a Ele e, pergunto: será consistente com tal graça que ela deve ignorar as multidões de multidões de pequeninos que têm a imagem do Adão terrestre, e não coloque sobre eles a imagem do Adão celestial? Eu não posso conceber tal coisa. Todo aquele que tem provado, experimentado e tocado da graça de Deus, penso eu, vai instintivamente sentir repugnância e se afastar de qualquer outra doutrina senão esta: que, muito seguramente, aqueles que morrem como criancinhas estão salvos.

CONCLUSÃO

E, ainda, um dos mais fortes argumentos de sã inferência se acha no fato que as Escrituras positivamente afirmam que o número das almas salvas, no final das contas, será muito grande. No livro de Apocalipse, lemos a respeito de uma multidão a qual ninguém podia contar. O salmista fala dos tais como sendo tão numerosos com as gotículas de orvalho no ventre da manhã. Muitas passagens Bíblicas profetizam para Abraão, como o pai dos crentes, uma semente tão numerosa quanto às estrelas do céu, ou quanto a areia nas praias. Cristo verá o trabalho da Sua alma e será satisfeito, asseguradamente, não é um pouco que o satisfará. O poder e a beleza da preciosa redenção incluem a redenção de uma grande multidão. Em todo lugar nas Escrituras aparece o ensino de que o céu não será um mundo pequeno, e que a sua população não será como um punhado rabiscado nos campos de uma grande fazenda, mas que Cristo será glorificado por dez milhares de dez milhares que foram redimidos pelo Seu sangue. De onde virão estes? Considerando o mundo geográfico, somente uma pequena parte dele é usualmente chamada de cristandade! Observe num mapa. Daqueles países que são considerados como sendo de crentes em Cristo, quão poucos de seus cidadãos sequer cogitam em carregar o nome de crente verdadeiro. De quão poucos poderia ser dito que têm pelo menos uma ligação nominal com a igreja de Cristo? Entre aqueles membros ativos de alguma das poucas igrejas verdadeiras e fiéis, muitos são hipócritas e não conhecem a verdade! Eu não vejo como possível, a não ser que o milênio seja verdadeiramente literal e terrestre, (que não creio) e assim venha muito em breve e que se estenda muito além de mil anos e seja muito grande a taxa de natalidade e a percentagem dos salvos, eu não entendo como pode ser possível que um número tão grande deve entrar nos céus a não ser a possibilidade de que as almas das criancinhas mortas constituem sua grande maioria. É uma doce crença para a minha mente que serão mais os salvos do que os perdidos, pois em todas as coisas a preeminência será dada a Cristo, portanto, por que não nisto também, isto é, no aspecto quantitativo? Foi um pensamento de um grande teólogo que talvez naquele dia o número dos perdidos não será em proporção maior em relação ao número dos salvos, do que hoje, o número dos criminosos nas penitenciárias não é em maior proporção em relação a aqueles que estão livres. A minha esperança é que seja assim. De qualquer modo, não é o meu dever perguntar: “Senhor, são poucos os que serão salvos?”. A porta é estreita, mas o Senhor sabe trazer milhares por ela sem fazê-la mais larga, e nós não devemos tentar esbarrar qualquer pessoa por a estreitarmos ainda mais. Sim! Eu sei que Cristo terá a vitória e que Ele é seguido por hostes inumeráveis, sei que o vil príncipe do inferno nunca terá tantos seguidores quanto Cristo no Seu triunfo resplandecente. E, se isto é assim, então as almas dos que morrem como criancinhas têm que estar salvas, numeradas como abençoadas, e irão morar com Cristo no porvir, no céu.

Apenas para terminar: suponhamos uma mulher que sofreu um aborto. Posso lhe dizer que a criança está salva agora?

Bem, essa é a minha crença, pois Jesus disse: “Deixai os meninos, e não os estorveis de vir a mim; porque dos tais é o reino dos céus” – Mateus 19:14. E, creio, está dentro do desígnio de Deus que Ele redime aqueles que não sabem diferenciar a sua mão direita da esquerda (Jonas 4:11). E, esse é um dos sinais da infância. Jesus toma-os para estar consigo.

Isso é confortador para uma pessoa que passou por isso. Que maravilha!

“Enquanto escrevia este artigo, visitei o meu filho Abraão de sete meses enquanto dormia, e dormindo serenamente sorriu sem saber que observava-o, em seu rosto vejo o verdadeiro semblante de um filho de Deus, e definitivamente não posso conceber, nem apoiar a ideia de que meu Senhor lançaria Abraão no mais profundo abismo, onde em meio às trevas, ele mesmo sem saber falar, em suas balbuciações gemeria de tormento, e pelos tormentos e fogo eterno sentiria em sua alma a ira de Deus, a ira do Cordeiro, certamente Deus o ama, sou convicto, pois se Deus não amar uma criancinha de meses, seja viva ou morta (pois Deus é Senhor dos vivos), que não sabe diferenciar absolutamente nada, a não ser a mãe que alimenta-a, e o pai que embala-a, não posso crer que Deus me ame, e toda a minha fé seria uma mentira. Certamente, que se Deus me amou uma vez, Ele me amará para sempre, juntamente com o meu filhinho, quer ele esteja vivo, quer ele esteja morto, Deus é bom, amoroso e misericordioso para com os Seus”.

Sim! Ouça, o Antigo Testamento diz que Ele reúne os cordeirinhos em Seu peito e suavemente guia as que amamentam. (Isaías 66:10 – 13) Assim, creio, Deus cuida delas.

Paz e graça.

Capa: Marcos Frade.
Citações: R. C. Sproul – Surpreendido pelo sofrimento: Ouça o chamado de Seu Pai amoroso para suportar o sofrimento. São Paulo: Cultura Cristã – 1998. p. 184 – 185.
John MacArthur Jr – A salvação dos bebês e outros “incapazes”.
Sermão pregado por C. H. Spurgeon (1834 – 1892): Salvação Infantil.

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Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Acadêmico e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
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