ABORTO: A MORTE OCULTA

Por Leonardo Dâmaso.

Aborto é a interrupção precoce da gravidez, por meio da remoção espontânea ou induzida de um feto, antes ou depois de oito ou nove semanas de gestação, decorrendo em sua morte.

O artigo 128 do Código Penal brasileiro (de 1940) permite o aborto quando há risco de vida para a mãe e quando a gravidez é resultado de violência sexual. Há pouco tempo, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, aprovou a obrigatoriedade do SUS (Sistema Único de Saúde) para realizar o aborto nos termos da lei. Atualmente, existem projetos de ampliação da lei, que também asseguram o aborto no caso de má-formação do feto, com diminuta possibilidade de vida após o parto. Baseado no artigo 128, o aborto é permitido no Brasil somente nos dois casos supramencionados, e desde que haja o consentimento do pai e atestado de pelo menos dois médicos constatando a situação.

Todavia, conforme vimos, existem dois tipos de aborto: o aborto espontâneo, que ocorre por complicações físicas, e o aborto induzido ou provocado. Esses tipos de aborto são executados por razões médicas, sob o “amparo” da lei, ou de modo clandestino, efetuado por médicos inescrupulosos ou por pessoas leigas, o que constitui crime. Pode acontecer pela ingestão de medicamentos que ocasionam o aborto ou através de cirurgia. Quando feito de modo inadequado, o aborto pode causar graves complicações, e, inclusive, resultar na morte da mulher. No entanto, o STF (Supremo Tribunal Federal), no dia 29 de novembro de 2016, sancionou a lei de que o aborto, nos três primeiros meses de gravidez, não é considerado crime.

Mas o que a Escritura, como nossa regra de fé e conduta, diz sobre o aborto?

Não há uma prescrição legal na Escritura proibindo explicitamente o aborto. Porém, a razão dessa “lacuna” é óbvia: era inadmissível que uma mulher israelita, no Antigo Testamento, desejasse um aborto. Assim sendo, não havia a necessidade de mencionar uma proibição direta na Lei.

Para os judeus, as crianças eram consideradas como um presente ou herança de Deus (cf. Gênesis 33:5; Salmos 113:9; 127:3). Ele é quem concedia a gravidez às mulheres, especialmente para as estéreis, de forma milagrosa (cf. Gênesis 29:33; 30:22; 1 Samuel 1:19, 20). Não ter filhos para os judeus era um tipo de “maldição”, já que o nome da família do marido não poderia ser eternizado (Deuteronômio 25:6; Rute 4:5).

Contudo, entendemos que o aborto era algo tão contrário à mentalidade israelita que bastava o mandamento Não matarás ou não cometam assassinato (Êxodo 20:13). Entretanto, vivemos numa época bastante diferente. A sociedade pós-moderna, em sua maioria, tem uma visão distorcida da família. Muitos veem os filhos como uma obrigação e/ou até como um obstáculo para o trabalho e a realização profissional (pois um filho recém-nascido necessita de cuidados especiais), um “gerador” de despesa financeira. Para muitos, um filho obsta a liberdade do casal para entretenimentos, como o lazer a dois e viagens pessoais, enfim, os filhos impedem o casal de usufruírem da vida. Essa é a visão distorcida que a sociedade pós-moderna tem da família. Decerto, os cristãos devem ser guiados pela Palavra de Deus e não pela ética humanista/relativista da sociedade hodierna.

Isto posto, vamos apresentar agora dez argumentos utilizados pelos defensores do aborto e refutar cada um deles. Vejamos, pois:

(1) O direito de soberania do corpo.

Este argumento demonstra que a mulher tem plena liberdade para fazer o que quiser com o seu corpo. O lema dos abortistas é o seguinte: “O corpo é meu, e, portanto, faço o que quiser com ele!” Em outras palavras, meu corpo, minhas regras, conforme um vídeo lançado pela Rede Globo apoiando o “aborto” destaca (você pode assistir ao vídeo clicando aqui). Desse modo, o aborto é um direito da mulher, e o feto que há dentro dela lhe pertence.

Esta questão está relacionada com a resposta da pergunta: Quando é que, no processo de concepção, gestação e nascimento, o embrião (e posteriormente o feto) se torna um ser humano, adquirindo assim o direito à vida?

Os abortistas aduzem que o embrião (e depois o feto) torna-se um ser humano após um período de gestação. Por isso, abortar antes dessa fase não seria assassinato. Em países como os Estados Unidos, Alemanha, França, Holanda e Reino Unido, o aborto não é reputado crime e permitido até o sétimo mês de gestação. Outros, porém, são mais radicais. Em 1973, a Suprema Corte dos Estados Unidos sancionou uma lei permitindo o aborto, alegando que uma criança não nascida não é uma pessoa, e, portanto, não tem direito constitucional.

O feto não é a extensão do corpo da mãe, não faz parte do corpo dela. Em toda a gestação, o agente ativo é o feto e o passivo é a mãe. Se a mulher fosse o agente ativo, o feto seria expulso do corpo da mãe como um “corpo estranho”. Por isso a placenta impede que o corpo (o feto) seja expulso. É o feto que regula todo o período da gestação. Apesar de a mulher ser a receptora, ela também possui um papel de “preservadora” do bebê em seu ventre, mesmo sendo passiva em toda a gestação.

Em contraposição, muitos biólogos, geneticistas e médicos são unânimes em afirmar que a vida biológica inicia-se desde a concepção, conforme o relato das Escrituras atesta. A Palavra de Deus assevera este conceito: Deus considera a vida de crianças antes mesmo de elas virem a nascer (cf. Êxodo 4:11; 21:21 – 25; Jó 10:8 – 12; Salmos 139:13 – 16; Jeremias 1:5 e Lucas 1:39 – 44). A Escritura indica que o corpo, a vida e as faculdades do homem se originam simultaneamente na concepção.

Os Pais da Igreja reconheceram esta verdade, que aparece nos escritos de Tertuliano, Jerônimo, Agostinho, Clemente de Alexandria e outros. No Império Romano pagão, o aborto era praticado livremente, mas os cristãos se posicionaram contra essa atrocidade. Destarte, a evidência biológica e Escriturística assegura que crianças não nascidas são seres humanos, e que abortá-las é cometer assassinato.

(2) Privar quem se opõe à cultura da morte apelando para a “laicidade do estado”.

Uma pergunta deve ser feita: Em que momento a luta contra o genocídio interfere na laicidade do estado?

Os relativistas declaram que o aborto envolve aspectos morais, éticos, legais e possui uma vasta influência religiosa, cuja avaliação depende da singularidade de cada pessoa. Defender a vida é uma questão moral, ética, legal, mas não necessariamente religiosa. A luta contra o aborto não é completamente religiosa, conforme argumentam os abortistas. Eles entendem que o pilar da luta contra o aborto é a religião. Assim, os defensores do aborto ressaltam que os seus opositores, baseados na religião, estão privando a mulher do seu direito. Contudo, matar é um direito? Abortar é cometer assassinato!

Por mais repulsivos que sejam os pecados de violência sexual e roubo, nenhum desses se compara ao do assassinato, pois quem mata, com exceção da legítima defesa, acidentalmente ou em casos de guerra, mata alguém que é a imagem e semelhança de Deus, uma vez que só Ele tem o direito de tirar a vida (Deuteronômio 32:39).

(3) Fetos não são considerados humanos, são apenas um conjunto de células.

Alguns abortistas entendem que, durante os três primeiros meses de gestação, o feto não possui ciência e, portanto, não são humanos. Mas não se torna humano aquilo que já é em princípio. A vida humana começa a partir da concepção e não na gestação, conforme vimos no primeiro argumento.

(4) A justificativa de bebês “anencéfalos” para advogar o aborto.

Não existem bebês anencéfalos, pelo contrário, existem bebês que nascem com má formação do encéfalo. Um feto sem o encéfalo morreria no ventre da mãe. Os abortistas que defendem que um feto com má formação cerebral tem que morrer são, na verdade, eugenistas, isto é, aqueles que defendem a eugenia. Francis Galton (1822 – 1911) foi o criador desse termo; basicamente significa “bem nascido”.

Embora a eugenia seja controversa, Galton a definiu como “o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações, seja física ou mentalmente”. Segundo alguns eugenistas, se for constatado durante a gravidez através de “ultrassonografias”, “amniocentese” e biópsia do “vilo corial” (que detectam a síndrome de down, por exemplo) que uma criança irá nascer com alguma deformação genética irreversível, a melhor alternativa é abortá-la, para que a criança não sofra, vivendo o resto de sua vida como um ser deficitário.

 (5) Justificar e legitimar o aborto.

O argumento é o seguinte: “Se o aborto acontece naturalmente ou por alguma complicação física, ele deveria ser legalizado”. Isso é uma falácia lógica! Um fato ou uma experiência pessoal não é motivo para determinar um valor ou uma lei. Então, se abortos espontâneos acontecem, eles devem ser legalizados? De modo nenhum!

Ora, se pensarmos dessa maneira, devemos legalizar também o estupro, a pedofilia, o roubo, pois tais coisas acontecem sem a nossa vontade assim como o aborto espontâneo. E, se determinados crimes são praticados mesmo que eu não deseje que eles sejam praticados, eu devo pensar que a pedofilia, por exemplo, deva ser considerada um outro modo de relação sexual “diferente” e/ou comum, apesar de muitos não aceitarem, assim como a legalização da maconha? Jamais!

(6) Culpar os opositores da morte pela eventual morte de mulheres que assassinam os seus filhos em clínicas que realizam o aborto.

Vemos aqui uma inversão revolucionária. Os que defendem a vida, que são contra o aborto, são responsáveis pela morte das mulheres que tentam assassinar seus próprios filhos. Segundo os abortistas, os conservadores, isto é, os defensores da vida, estão obrigando as mulheres a matarem seus filhos. Pelo contrário, estamos instruindo as mulheres a fazerem justamente aquilo que condenamos em princípio! Na mente insana dos que propugnam o aborto, os opositores deste pecado são culpados pelas mulheres que o realizam. Porém, se rejeitamos o aborto, estamos limitando as mulheres de realizá-lo, não é? Indubitavelmente, esse argumento dos abortistas é uma prova cabal de que estamos num embate político e moral com pessoas que esbarram na irracionalidade.

(7) Falsificar estatísticas para justificar o infanticídio legalizado.

A mídia sensacionalista e esquerdista mente de forma impudica, divulgando falsas estatísticas de que centenas de mulheres morrem em abortos ilegais no Brasil. Se vermos a estatística no SUS, pouquíssimas mulheres morrem como resultado de aborto ilegal, sendo um número até compatível com o risco de morte no parto.

(8) Utilizar, por conveniência (e não por convicção), os ideais teóricos do liberalismo para justificar o infanticídio legalizado, afirmando que o Estado não pode interferir.

O estado não pode impedir o aborto – que “crianças inocentes” morram ainda no ventre materno – mas pode interferir para fomentá-lo, endossá-lo e financiá-lo através do governo submetido à organizações internacionais inescrupulosas e à grupos revolucionários.

(9) Legitimar o assassinato daquele que nasceu concebido de estupro.

De fato, abortar uma criança é puni-la por um crime que ela não cometeu. Tanto a criança como a mulher que foi violentada sexualmente são inocentes! Quem deve ser punido é o lunático que cometeu o crime de estupro. Os abortistas salientam que os defensores da vida são condescendentes em incentivar o estupro e o aborto. Com efeito, defendemos o contrário: o estuprador deve ser punido severamente por este crime. Por outro lado, é bem verdade que cerca de metade das acusações de estupro que são emitidas pela mídia sensacionalista, esquerdista e desonesta são falsas, uma vez que são produto da mente insana de muitas feministas.

(10) Como o estado não pode coagir uma mulher a criar uma criança que foi pomo de um estupro, então é justo abortá-la.

Todavia, o estado não pode obrigar uma mulher a criar uma criança que foi concebida por um ato de violência sexual. Não há nenhuma lei que obrigue a mulher a criar essa criança. A luta dos conservadores é para que a mulher não aborte, assassinando uma criança inocente. Reitero, tanto a mulher como a criança são vítimas do estuprador.

Ora, a violência sexual ocasiona em graves consequências psicológicas na mulher, como depressão, perturbação mental, isolamento social, resistência amorosa e sexual, etc. Por isso, é necessário que a mulher, a adolescente, ou a esposa que foi vítima de estupro receba cuidados médicos especiais para se recuperar desta calamidade. É imprescindível o apoio da família e dos amigos. É importante também recorrer a um tratamento psicológico e, sobretudo, ao aconselhamento pastoral, no caso de a mulher ser cristã, embora não seja limitado somente aos cristãos. O aconselhamento pastoral pode muito bem ser utilizado como um meio para evangelizar mulheres que foram abusadas sexualmente.

Contudo, se a mulher que foi violentada sexualmente engravidar, ela tem o direito de não querer assumir o filho, que é inocente, mas não tem o direito de abortar, conforme demanda a Escritura, embora a lei permita o aborto no caso de estupro. A mulher que não quiser assumir o filho que foi pomo de violência sexual – uma situação extremamente difícil – pode disponibilizá-lo para adoção já na maternidade, após dar à luz.

Algumas consequências físicas do aborto.

(1) Cancro da mama, do útero, ovários e fígado.

(2) Perfuração uterina.

(3) Lesões cervicais.

(4) Gravidez ectópica – É a gravidez em uma das trompas de falópio, um tubo que conduz os óvulos dos ovários para o útero. Esse tipo de gravidez é conhecida como gravidez tubária. Em alguns casos, uma gravidez ectópica ocorre na cavidade abdominal, do ovário ou no colo do útero.

(5) Complicações nos partos subsequentes.

(6) Endometriose – Doença caracterizada pela presença do endométrio, tecido que reveste o interior do útero, fora da cavidade uterina, ou seja, em outros órgãos da pelve, como as trompas, ovários, intestinos e bexiga.

(7) Esterilidade definitiva.

 Algumas consequências mentais.

(1) Perturbação psicológica, do sono, ingestão descontrolada de medicamentos psicotrópicos.

(2) Propensão ao suicídio.

(3) Propensão a diversos problemas cognitivos.

Capa: Marcos Frade.

Paz e graça.

DOWNLOAD ABORTO: A MORTE OCULTA

Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Geral e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
LER  O QUARTO MANDAMENTO
error: Protegido!
%d blogueiros gostam disto: