A VIDA DO VERDADEIRO DISCÍPULO DE CRISTO

“Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” – Lucas 9:23.

Por Pr. Plínio Sousa.

Os discípulos de Cristo demonstraram, em certos momentos da vida, exclusivismo, partidarismo, egoísmo, imaturidade, bairrismo e outros comportamentos ruins. Eles erraram quando na verdade deveriam acertar (Lucas 9:40, 41). Jesus Cristo censurou tais comportamentos e corrigiu o grupo seleto, mas não os abandonou.

Na narrativa bíblica veremos como, em diferentes circunstâncias, os discípulos agiram de forma oposta àquilo que o Senhor lhes havia ensinado e como Jesus os conduziu à maneira certa de agir. Esses fatos demonstram que os seguidores de Cristo eram seres humanos que viviam suas limitações latentes, e como tal, dependiam de Deus para superá-las. Esses exemplos servem para nos orientar em nossa jornada de fé a fim de que possamos cultivar as verdadeiras virtudes da fé como a oração, a Palavra de Deus, tendo como regra o repúdio do exclusivismo, os valores invertidos, a ansiedade, a falta de perdão e a vida dupla, características de um falso cristão.

A luz do Evangelho segundo escreveu Lucas, cinco ¹axiomas (verdades inquestionáveis) são encontrados nos (v.23 – 27), um para cada versículo (Paralelo aos Evangelhos sinóticos Marcos 8:34 – 9:1; Mateus 16:24 – 28). O tema da morte, a partir de Lucas 9:22, é o fio da narrativa que une todos os cinco ditos:

(1) A Cruz (v.23).

(2) Perder a vida (v.24).

(3) Destruir a vida (v.25).

(4) Envergonhado no julgamento (v.26).

(5) Provar a morte (v.27).

(v.23) Os discípulos seguiram o Mestre quando Ele os chamou da primeira vez (5:11), mas naquela ocasião eles não tinham idéia que a sua carreira terminaria com a cruz. Eles ainda pensavam em termos de conquista e poder (22:24). Este apelo foi uma advertência solene para a reavaliação do preço do discipulado. Negue significa exatamente o que Pedro fez no julgamento de Jesus: “ele recusou-se a reconhecê-lo”.

Os versículos 23 – 27 introduzem a noção de que, ao compartilhar o poder de Jesus, os discípulos irão também compartilhar o Seu sofrimento. Há uma progressão nos cinco axiomas, desde a Cruz com sua viva agonia, à perda da vida em si, à finalidade do julgamento, até provar a morte em si. O versículo 23 diz, “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (cf. 14:27).

A cruz era a forma mais comum de execução no primeiro século na Palestina. Mas, a ênfase aqui não é nos martírios literais dos discípulos, mas a vida de obrigação imposta pelas notícias do iminente sofrimento de Jesus (v.22). Os discípulos aprendem que o poder e a autoridade (9:1) entregues a eles por Jesus vêm como um preço – eles também irão sofrer.

Metaforicamente, levar uma cruz envolve “abnegação” e o “seguir”. O ministério itinerante, é claro, ocasiona uma imensa quantidade de verdadeira abnegação para os seguidores de Jesus. Mas essas ideias são sutilmente apropriadas para descrever a vida diária do discipulado. A “cruz” torna-se uma metáfora para as responsabilidades do discipulado que, por sua vez, são uma forma de “morte” em relação à velha vida.

A expressão tome (…) a sua cruz é anterior ao tempo de Jesus, pelo que sabemos. Alguns têm afirmado que essa linguagem foi colocada posteriormente nos lábios de Jesus pela Igreja (Fitzmyer 1981, 1:785; Funk e Hoover 1993, p.79).

Mas “tomar a sua cruz”, o que pode significar isto nos lábios de Jesus?

Jesus sabia muito bem o que significava a crucificação. Quando era menino de uns onze anos, Judas, o Galileu, também chamado Judas de Gamala tinha encabeçado uma rebelião contra Roma. Tinha atacado ao exército real em Séforis, que estava a uns seis quilômetros de Nazaré. A vingança dos romanos foi rápida e repentina. Queimaram a cidade integralmente, seus habitantes foram vendidos como escravos, e dois mil rebeldes foram crucificados com o passar do caminho para que fossem uma terrível advertência para outros que queriam fazer o mesmo. Tomar nossa cruz significa estar preparados para enfrentar coisas como esta por nossa fidelidade a Deus, significa estar dispostos a suportar o pior que um homem nos possa fazer pela graça de sermos fiéis para com Deus. De qualquer forma, Lucas acrescenta a condição de que o discípulo tome sua cruz diariamente (Marcos 8:34; Mateus 16:24). Isto torna o carregar a cruz uma questão de estilo de vida rotineira para o discípulo da pós-ressurreição. (cf. NOTA).

NOTA: Segundo Flávio Josefo, a reação armada começou entre os judeus da Galileia, liderada por Judas, natural da cidade de Gamala, que dirigiu um assalto à guarnição romana em Séforis (capital da Galiléia).

A revolta foi duramente reprimida pelos romanos e, embora Josefo não informe o destino de Judas, é provável que ele tenha morrido em combate ou aprisionado e executado.

Judas também é citado pelo rabino Gamaliel, membro do Sinédrio, como exemplo de falso messias, segundo os Atos dos Apóstolos 5:35 – 36. Em suas “Antiguidades Judaicas”, Josefo atribui a Judas de Gamala e ao fariseu Zadoq, a fundação do movimento Zelota, que pregava a luta armada contra os opressores romanos.

Moody define Dia a dia tome a sua cruz da seguinte forma.

 “Uma aceitação voluntária das responsabilidades e sofrimentos incidentes ao discípulo de Cristo. Siga-me (O termo grego para siga-me é akoloutheitō –  ἀκολουθείτω que denota juntar-se a alguém como um discípulo). Um imperativo envolvendo ação persistente: Que prossiga me seguindo”.

A partir dessa perspectiva, carregar a cruz é uma poderosa metáfora para a devoção sacrificial exigida dos discípulos. (cf. NOTA).

NOTA: A Teologia da cruz em Lucas.

 Lucas refere-se à cruz simplesmente como um instrumento de morte (23:26; Atos 2:23; 4:10). Na presente passagem, ela refere-se metaforicamente às cargas e responsabilidades do discipulado (9:23; 14:27). A cruz não é um símbolo da morte expiatória de Cristo em nenhum lugar em Lucas, como por exemplo, em Colossenses 1:20; 2:14. Tampouco é uma palavra código para a fé cristã – a “cruz de Cristo” (como 1 Coríntios 1:17; Gálatas 6:12, por exemplo).

Lucas usa a cruz para referir-se à vida de discipulado. Ela refere-se “à atitude de abnegação que concerne sua vida neste mundo como já consumada” (Marshall, 1978, p.373). “Para Lucas, então, a teologia da cruz está enraizada, não tanto na teoria da expiação, mas no retrato da narrativa da vida do fiel discipulado como o caminho da cruz” (Green, 1997, p.372).

Paulo ocasionalmente se refere à “crucificação” na vida dos crentes em termos similares aos de Lucas (cf. Gálatas 2:20). Tipicamente, porém, Paulo refere-se à cruz tanto como o instrumento da morte de Jesus Cristo e do divino meio da salvação.

Embora nenhuma teologia da expiação esteja explícita no Evangelho de Lucas, Atos designa um significado salvífico à morte de Jesus: “onde o mataram, suspendendo-o num madeiro” (Atos 10:39). A isso, Lucas acrescenta: “de que todo o que nEle crê recebe  o perdão dos pecados mediante o Seu nome” (Atos 10:43). Isso é o mais próximo que Lucas chega da teologia da expiação. A declaração mais conhecida e explícita de ideia da expiação na tradição sinótica aparece em Marcos 10:45: Jesus deu “a sua vida em resgate por muitos”.

(24 – 26) Os próximos três axiomas (verdades inquestionáveis) prosseguem o tema da morte, isto é, o ganhar e o perder a vida. As palavras de Jesus parecem irônicas: “Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá, mas quem perder a vida por minha causa, este a salvará” (v.24). Em termos literais, isso poderia dizer que os discípulos deveriam receber o martírio a fim de ganharem a salvação eterna. Mas Lucas, com certeza, propõe esse ponto metaforicamente. Nesse sentido, levar a cruz significa que os discípulos perdem a sua vida ao gastá-la altruisticamente. Reservar a vida para propósitos egoístas significa perder o valor espiritual da vida. Dar a sua vida para Deus e os outros levará às riquezas espirituais. Por isso toda a Lei se resume em dois mandamentos:

“Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:37 – 39).

Essa é uma ideia comum em outras religiões orientais onde a “ligação” a realidades físicas é geralmente considerada a causa de todo sofrimento. Ao “desprender-se” dos desejos mundanos, a vida espiritual torna-se possível. Por isso o apóstolo João exorta aos crentes em relação às coisas mundanas “Não ameis o mundo nem o que nele existe. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 João 2:15). “Todo aquele que é nascido de Deus vence o mundo; e este é o triunfo que vence o mundo: a nossa fé!” (1 João 5:4).

O apóstolo Paulo também exorta os crentes em sua epístola aos Romanos:

“E não vos amoldeis ao sistema deste mundo, mas sede transformados pela renovação das vossas mentes, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:2).

Essas exortações endossam, ratificam o ensinamento do Mestre Jesus.

“Portanto, de que adianta uma pessoa ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mateus 16:26; Marcos 8:36; Lucas 9:25).

A ideia do axioma de Jesus não é tão diferente. Sua chamada ao altruísmo não desvaloriza a vida, como faz o martírio. Ao contrário, ela exorta os discípulos a valorizar o aspecto espiritual da vida acima do físico. “Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração” (Mateus 6:19 – 21). Lembre-se que seu coração segue seus “tesouros”, coloque seus “tesouros” onde você quer que sua vida seja. Evite colocar suas afeições e lealdades em lugar errado por motivo de possessões pessoais. Mesmo sendo o homem mais rico da história da humanidade, Salomão termina sua trajetória afirmando: “Agora que já se ouviu tudo, aqui está à conclusão: Tema a Deus e guarde os seus mandamentos, pois isso é o essencial para o homem” (Eclesiastes 12:13).

O versículo 25 expande essa ideia. Aqui, o problema específico é o apego às posses. Aquele que ganhar o mundo irá, no entanto perder a vida. Aqueles que valorizam os bens materiais acima dos espirituais colocam-se em risco. Aliás, cada um irá negar a si mesmo e perderá sua verdadeira identidade. “O materialismo cobra um preço moral da alma”. É por isso que até os “pobres” em Lucas podem ter alegria (6:20).

No versículo 26, Jesus adverte: aqueles que se envergonham de mim e das minhas palavras, demonstram colocar a opinião dos companheiros humanos acima da opinião do Divino. Isso é, novamente, uma valorização do físico acima do espiritual.

(v.27) O dito final desse grupo de cinco é tão enigmático que já deu lugar a várias interpretações: “algumas que aqui se acham de modo nenhum experimentarão a morte antes de verem o Reino de Deus” Alguns desejam sustentar que ao Jesus dizer isto estava pensando em seu retorno com glória, que declarou que isso aconteceria durante a vida de alguns dos que se encontravam ali, e que, portanto se equivocou totalmente. Não é assim. O que Jesus está dizendo é o seguinte: “Antes que passe esta geração, verão sinais de que o Reino de Deus está a caminho”. Sem dúvida isto era certo. Algo tinha chegado ao mundo que, como a levedura na massa, tinha começado a mudá-lo.

Seria bom que, às vezes, deixássemos nosso pessimismo e pensássemos na luz que se esteve abrindo caminho lentamente no mundo. Estejamos contentes – o Reino está a caminho – e faremos bem em agradecer a Deus pelos sinais de sua aparição, vivemos, e reinamos com Cristo com toda certeza o “já”, mas “ainda não”.

CONCLUSÃO

A fidelidade de um cristão a Deus e integridade moral é demonstrada em meio a uma cultura pagã. Fruto da formação moral e espiritual recebida de Deus mediante a Escritura por iluminação do Espírito Santo, onde tudo converge em Cristo Jesus. A Sua Palavra é, e sempre será autoritativa, suficiente, infalível e inerrante, apta a guiar o Seu povo nessa árdua peregrinação. As atitudes dos cristãos se fazem necessárias, a desafiar o príncipe desse século, Satanás, a maior “autoridade” do mundo outrora (Mateus 4:8, 9).

Certa vez Leonard Ravenhill disse:

“Minha maior ambição na vida é estar na lista dos mais procurados do diabo”.

Nosso presente adversário, porém vencido por Cristo, e aprisionado em um profundo abismo para que não mais engane as nações, todos os eleitos serão alcançados pelo Evangelho. Aleluia! E certamente as portas do inferno não mais prevalecerão contra a Igreja de Cristo, e assim é impossível que os eleitos fiquem enganados, mas isso não significa que Satanás não possa atingir os cristãos como um cão faminto, furioso e encoleirado, se nos aproximarmos dele certamente seremos atacados, e mordidos. E por algum tempo ficaremos impedidos para pregoarmos o Evangelho de Jesus, por estarmos com feridas provocadas pelo ataque raivoso de nosso adversário em grande cólera, o Diabo. O Diabo é enfraquecido em suas ações pelo testemunho verdadeiro do cristão.

“E aconteceu que, indo nós para o lugar de oração, nos saiu ao encontro uma jovem escrava que estava tomada por um espírito que a usava para prognosticar eventos futuros. (…) Seguindo a Paulo e a nós, vinha essa moça gritando diante de todos: Estes homens são servos do Deus Altíssimo e vos anunciam o caminho da salvação!” (Atos 16:16, 17).

“Um dia, o espírito maligno lhes respondeu: Jesus, eu conheço, Paulo, eu sei quem é; mas vocês, quem são?” (Atos 19:15).

Estamos no século XXI, um tempo marcado pelo paganismo, sincretismo religioso, misticismo e ensinamentos híbridos acerca da sã doutrina. Somos desafiados a luz da Escritura a termos firmeza de caráter. Adotando uma postura moral que jamais negue a fé e a ética cristã no mundo. A integridade moral dos ensinamentos de Jesus Cristo tem muito a nos ensinar. Prossigamos com a nossa cruz, levando-a diariamente, negando-se a si mesmo e servindo a Cristo com a nossa vida em sacrifício vivo, santo e agradável a Ele. Louvado seja Deus Pai, Deus Filho Jesus Cristo e Deus Espírito Santo por toda eternidade. Amém.

Paz e graça.

Capa: Marcos Frade.
Citações: Comentário Bíblico Moody; Willian Barclay; David A. Neale – Dicionário Grego Strong.

¹Axiomas: são verdades inquestionáveis universalmente válidas, muitas vezes utilizadas como princípios na construção de uma teoria ou como base para uma argumentação. A palavra axioma deriva da grega “axios”, cujo significado é digno ou válido. Em muitos contextos, axioma é sinónimo de postulado, lei ou princípio.

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Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Geral e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
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