A COSMOVISÃO “KUYPERIANA”

Por Abraham Kuyper.

O uso do termo Calvinismo.

O termo Calvinismo pode abranger várias interpretações dependendo da compreensão e definição daquele que o estiver a utilizar. “Para evitar equívocos, devemos primeiro saber o que não deveríamos e o que deveríamos entender por Calvinismo” (KUYPER, 2003, p. 20). O Calvinismo não deve ser entendido como sectário. Kuyper (2003) informou que nos países católicos, especialmente no caso da Hungria e da França, até mesmo aqueles que romperam com todos os traços de simpatia com a fé de seus pais, por participarem de uma tradição que não é nem Romana nem Judaica, são estigmatizados pelo nome não oficial de “Calvinistas”.

O Calvinismo também não deve ser entendido como uma identificação confessional ou denominacional, onde o primeiro é classificado unicamente por sustentar a doutrina da predestinação e o segundo está atrelado a alguma denominação, como é o caso dos “batistas calvinistas” ou “metodistas calvinistas” etc. Segundo Kuyper (2003), o Calvinismo deve ser entendido no sentido estritamente científico, seja em um sentido histórico, filosófico ou político. Historicamente, indicando “(…) o canal pelo qual a Reforma se moveu, até onde ela não foi nem luterana, nem anabatista, nem sociniana” (KUYPER, 2003, p. 22).

Filosoficamente, como: “(…) aquele sistema de concepções que, sob a influência da mente mestre de Calvino, levantou-se para dominar nas diversas esferas da vida” (Ibidem).

No sentido político, “Calvinismo indica aquele movimento político que tem garantido a liberdade das nações em governo constitucional” (Ibid.).

O Calvinismo como Sistema de Vida.

Kuyper (2003) dá provas de que o Calvinismo “não é um fenômeno parcial, nem foi um fenômeno simplesmente temporário, mas é um sistema de princípios abrangente que, enraizado no passado, é capaz de fortalecer-nos no presente e de encher-nos com confiança para o futuro” (p. 28). Há condições essenciais requeridas para sistemas gerais de vida, tais como o Paganismo, o Islamismo, o Romanismo e o Modernismo. Analisando as três relações fundamentais de toda vida humana – “(…) a saber, (1) nossa relação com Deus, (2) nossa relação com o homem, e (3) nossa relação com o mundo” (Ibidem). – percebemos que o Calvinismo preenche todas as condições com superioridade. Na relação do homem com Deus, constatamos que o Paganismo vê Deus na criatura, enquanto que o Islamismo separa Deus da criatura; o Catolicismo coloca a igreja entre Deus e a criatura, e o Modernismo ou nega uma relação (existência) com Deus, ou reveste-se de algum sistema como o panteísmo ou agnosticismo, visando aniquilar o poder da igreja e manter sua relação de independência. Somente no Calvinismo, Deus se comunica com a criatura de forma imediata em “Deus o Espírito Santo” (KUYPER, 2003, p. 30). No relacionamento do homem com o homem, tendo em vista a multiformidade da raça humana, tanto o Paganismo quanto o Islamismo e o Catolicismo, acentuam as diferenças, criando todo tipo de hierarquia e opressão, enquanto que o Modernismo procura eliminar todas as diferenças, destruindo “(…) a vida por colocá-la sob a maldição da uniformidade”.

(KUYPER, 2003, p. 35). Apenas o Calvinismo, de acordo com Kuyper (2003), por derivar sua relação do homem com o homem de sua própria relação com Deus: (…) coloca toda nossa vida humana imediatamente diante de Deus, então segue-se que todos, homem ou mulher, rico ou pobre, fraco ou forte, obtuso ou talentoso, como criatura de Deus e como pecador perdido, não tem de reivindicar qualquer domínio sobre o outro, e que permanecemos iguais diante de Deus, e consequentemente iguais como seres humanos (p. 35, 36). Desta feita, a única distinção entre os homens a ser reconhecida, é aquela que o próprio Deus estabeleça quando confere “(…) a um autoridade sobre o outro, ou enriquece um com mais talentos do que o outro, para que o homem de mais talentos sirva o homem de menos, e nele sirva o seu Deus” (KUYPER, 2003, p. 36). Assim, o Calvinismo condena as desigualdades impostas e dignifica a pessoa, operando transformações sociais. Na terceira condição, a qual analisa nosso relacionamento com o mundo, o Paganismo coloca uma relação muito alta do mundo, enquanto que o Islamismo mantém uma muito baixa. O Catolicismo coloca a igreja e o mundo em total oposição, sendo o primeiro santificado e o outro estando ainda sob a maldição; o Calvinismo, porém, ao enxergar o mundo como criação de Deus e entender a relação entre graça especial e graça comum, percebe com clareza seu papel nesta criação, servindo a Deus no mundo e louvando-o por Suas obras, enquanto que fazendo separação apenas daquilo que é pecaminoso no mundo.

O desenvolvimento destas relações na vida prática traz consequências suficientes para estabelecer o Calvinismo acima de todos os outros sistemas de vida.

O Calvinismo e a Religião.

Ao analisar a Religião como tal, Kuyper (2003, p. 53) se propõe a responder quatro questões fundamentais mutuamente dependentes:

“(1) A Religião existe por causa de Deus ou por causa do homem? (2) Ela deve operar diretamente ou mediatamente? (3) Ela pode manter-se parcial em suas operações ou tem de abraçar o todo de nosso ser e existência pessoal? E, (4) Ela pode manter um caráter normal, ou deve revelar um caráter anormal, isto é, um caráter soteriológico?”.

À primeira pergunta o Calvinismo responde: “(1) A religião do homem não deve ser egoísta e por causa do homem, mas ideal, por causa de Deus” (Ibidem). Enquanto a filosofia religiosa moderna, imbuída de uma concepção mística da religião, aponta para a idéia de uma evolução religiosa do homem, que nasce do contraste esmagador entre ele mesmo e o cosmos que o cerca, passando para uma concepção posterior de um Espírito Supremo que está em contraste com tudo o que é visível, para no fim desembocar na encantadora altivez de seu próprio espírito humano, que o leva a: “(…) prostrar-se diante de algum ideal impessoal, do qual em auto-adoração supõe ser ele mesmo a venerável encarnação” (KUYPER, 2003, p. 54), permanecendo assim uma religião egoísta, sempre presa a seu caráter subjetivo e sempre uma religião por causa do homem; Segundo Kuyper (2003) escreveu: “A posição Calvinista é diametralmente oposta a tudo isto” (p. 55). Embora afirmando que a religião também produz uma benção para o homem, o Calvinismo deixa claro que ela não existe por causa do homem, assim, como o próprio Kuyper acrescentou na mesma pauta: “Não é Deus quem existe por causa de sua criação; a criação existe por causa de Deus. Pois, como diz a Escritura, ele criou todas as coisas para si mesmo”.

Como resposta a segunda pergunta, Kuyper (2003) declara: “(2) Ela não deve operar mediatamente, pela intervenção humana, mas diretamente do coração”. Para Calvino a religião deve ser “(…) ‘nullis mediis interpositis’, isto é, sem a mediação de qualquer criatura, realizar a comunhão direta entre Deus e o coração humano” (KUYPER, 2003, p. 57). Esta é mais uma diferença que se apresenta ao comparar-se a religião por causa do homem e a religião por causa de Deus, pois se: (…) o principal propósito da religião continua sendo ajudar o homem, e visto ser entendido que o homem é digno da graça por sua devoção, é perfeitamente natural que o homem de piedade inferior deva invocar a mediação do homem mais santo. Outro deve procurar por ele o que ele não pode procurar por si mesmo (KUYPER, p. 58).

Todavia, a religião por causa de Deus exige que cada coração humano deva dar glória a Deus, de sorte que nenhum homem pode comparecer no lugar de outro, tendo cada homem que comparecer pessoalmente por si mesmo. Sendo assim, “(…) a religião atinge seu alvo somente no sacerdócio universal dos crentes” (KUYPER, 2003, p. 58).

Respondendo a terceira pergunta ele diz: “(3) Ela não pode permanecer parcial, como correndo ao lado da vida, mas deve exercer controle sobre toda nossa existência” (KUYPER, 2003, p. 53). Para o místico modernista, a religião deve se restringir a um órgão especial, a uma esfera especial e a um grupo especial de pessoas em sua operosidade. Assim, o órgão religioso não deve manifestar-se no todo do ser humano – abrangendo o coração, a força e o entendimento, mas limitar-se ao campo dos sentimentos ou da vontade. Do mesmo modo, “(…) a esfera da vida religiosa deve assumir o mesmo caráter parcial” (KUYPER, 2003, p. 60), de forma que “A religião fica excluída da ciência, e sua autoridade do campo da vida pública; doravante a câmara interior, a cela de oração e o segredo do coração deveriam ser seus lugares de habitação exclusiva” (Ibidem). Nesta perspectiva, a religião é relegada ao campo subjetivo dos sentimentos. Tendo esta parcialidade em seu órgão e esfera, logicamente a prática da religião confinar-se-á a um círculo de pessoas piedosas, imbuídas de sentimentos místicos e vontade energética. A partir de uma perspectiva diferente, todavia favorável aos mesmos conceitos parciais, Roma acabou por enclausurar a religião nas masmorras de seus próprios santuários, e tudo que esteja à parte do estritamente consagrado (ou aspergido por sua água benta), torna-se participante do lado profano da vida. Em oposição a tudo isso, Kuyper (2003) alegou: Todo este conceito sobre o assunto é duramente antagonizado pelo Calvinismo, que vindica para a religião seu caráter universal pleno, e sua completa aplicação universal. Se tudo que é existe por causa de Deus, então segue-se que a criação toda deve dar glória a Deus. O sol, a lua e as estrelas no firmamento, os pássaros do céu, toda a Natureza ao nosso redor, mas, acima de tudo, o próprio homem, que, como sacerdote, deve fazer convergir para Deus toda a criação e toda vida que se desenvolve nela. E embora o pecado tenha insensibilizado grande parte da criação para a glória de Deus, a exigência – o ideal, permanece imutável, que cada criatura deve ser submergida no rio da religião, e terminar por colocar-se como uma oferta religiosa sobre o altar do Todo-Poderoso (p. 62). Em tudo quanto possa aplicar sua mão ou sua mente, o homem deve estar “(…) constantemente posicionado diante da face de seu Deus, está empregado no serviço de seu Deus, deve obedecer estritamente seu Deus, e acima de tudo, deve objetivar a glória de seu Deus”. (KUYPER, 2003, p. 63). Deus é glorificado pela graça especial que derramou sobre os eleitos, mas da graça comum que fez cair sobre cada objeto de sua criação, esta mesma glória lhe resplandece e lhe é atribuída.

Por fim, como resposta ao último questionamento, Kuyper (2003, p. 53) afirma: “(4) Seu caráter deveria ser soteriológico, isto é, deveria nascer, não de nossa natureza caída, mas do novo homem, restaurado pela palingênesis ao seu padrão original”. O homem foi criado com uma religião pura, mas devido a queda assumiu um estado anormal e imperfeito de religiosidade e, por isso, o Calvinista encara a religião a partir de um caráter soteriológico, entendendo a necessidade de “Regeneração, para uma verdadeira existência; e secundariamente, a necessidade de Revelação, para clara consciência”. (KUYPER, 2003, p. 65). Somente por meio deste caráter soteriológico, a religião retoma seu padrão original, que está muito além do padrão estabelecido pelas demais cosmovisões. Como expressou o Dr. Kuyper (2003): Em cada um dos quatro grandes problemas da religião, o Calvinismo tem expresso sua convicção em um dogma apropriado e cada vez tem feito aquela escolha que mesmo agora (…) satisfaz a procura mais ideal e deixa o caminho aberto para um desenvolvimento sempre mais rico” (p. 68).

O Calvinismo e a Política.

O Calvinismo, longe de ser um movimento meramente eclesiástico e dogmático, apresenta uma forma peculiar de compreender e estabelecer sua relação com todas as esferas da vida. O que apresentar-se-á doravante é a relação entre Calvinismo e Estado, concebida a partir de uma visão abrangente da soberania de Deus. Kuyper (2003) declara que este princípio dominante é: (…) no sentido cosmologicamente mais amplo, a Soberania do Deus Trino sobre todo o cosmos, em todas as esferas e reinos, visíveis e invisíveis (…) uma soberania primordial que se irradia na humanidade numa tríplice supremacia, a saber:

(1) A Soberania no Estado.

(2) A Soberania na Sociedade.

(3) A Soberania na Igreja.

Com relação a “Soberania no Estado”, ao contemplar o homem pós-queda, em todo o seu estado pecaminoso e imperfeito, o calvinista enxerga na soberania e providência de Deus a necessidade do magistrado e cede em obediência a autoridade deste, pois encarando-o como um “dom” de Deus para a preservação da ordem, entende que honrando-o, o faz ao próprio Deus que o concedeu, visto que toda autoridade só pode governar pela graça de Deus. Consequentemente, tal perspectiva “Ergue-nos de uma obediência nascida do medo do exército forte, para uma obediência por causa da consciência” (KUYPER, 2003, p. 97). O calvinista, ao olhar para além da lei existente e contemplar a Fonte do Direito eterno que repousa em Deus – o doador de toda autoridade – sente-se encorajado a “(…) protestar incessantemente contra a injustiça da lei em nome deste Direito superior” (Ibidem). Tal confiança do calvinista encontra-se no fato de que acima de qualquer Estado – e toda atrocidade que possa advir deste – encontra-se o Deus Todo-Poderoso que reina! A Este, sua alma pode sempre recorrer em tempos de opressão e suas orações operam poderosamente para abençoar a nação e, sendo assim, abençoar a si mesmo e seu lar. Com relação à Soberania de Deus na sociedade, faz-se necessário distinguir entre Sociedade e Estado como esferas independentes, que, em todo o caso, permanecem sob a soberania de Deus. Kuyper (2003) nos apresenta a Sociedade como sendo de natureza orgânica, pois, ao “(…) originar-se diretamente da criação, possui todos os elementos para seu desenvolvimento na natureza humana como tal” (p. 98). Exemplos disso são as ligações de consanguinidade e outros laços que surgem naturalmente da família; o casamento que se desenvolve da dualidade de homem e mulher; a monogamia que vem da existência original de um homem e uma mulher; as crianças que existem por causa do poder inato de reprodução etc. O Governo, por sua vez, apresenta um caráter mecânico, onde a figura do Estado tem sua razão de existir unicamente devido à corrupção humana que advêm do pecado. Em ambas as esferas, “(…) a autoridade inerente é soberana, isto é, nada tem acima de si exceto Deus” (KUYPER, 2003, p. 101), devendo cada uma exercer esta autoridade em sua própria esfera. A autoridade orgânica na esfera social pode ser apresentada claramente na distribuição que Deus faz de Sua graça comum. Por exemplo: na esfera social da ciência há homens que influenciaram gerações devido à genialidade que lhes fora concedida por Deus, e isto lhes serviu de autoridade sobre outro. Na esfera da arte, Kuyper nos diz que: Todo maestro é um rei no Palácio da Arte, não pela lei da herança ou por nomeação, mas somente pela graça de Deus. E esses maestros também impõem autoridade e não estão sujeitos a ninguém, mas governam sobre todos e, no fim, recebem de todos a homenagem em razão de sua superioridade artística (2003, p. 102). O mesmo pode ser visto na própria esfera da diferenciação das pessoas, onde uma impõe autoridade sobre outra simplesmente devido ao poder soberano da personalidade. Kuyper se refere ainda a uma soberania que é exercida pela própria esfera em si, como no caso da universidade que exerce domínio científico; a academia das belas artes que possui o poder da arte; o grêmio que exerce um domínio técnico etc.; “(…) cada uma destas esferas ou corporações estaria dentro de sua própria esfera de operação” (Ibidem), de forma que: (…) em muitas direções diferentes vemos que a soberania declara-se em sua própria esfera – (1) Na esfera social, pela superioridade pessoal. (2) Na esfera corporativa das universidades, grêmios, associações etc. (3) Na esfera doméstica da família e da vida de casado. (4) Na autonomia pública (Ibid.). Para Kuyper (2003), isto não quer dizer que o governo não tenha direito de interferência nessas esferas autônomas. Há para ele aquilo que chama: (…) tríplice direito e dever: (1) Quando esferas diferentes entram em conflito para forçar respeito mútuo entre as linhas divisórias de cada uma; (2) Defender pessoas individuais e fracas, naquelas esferas, contra o abuso de poder das demais; e (3) Constranger todos a exercer as obrigações pessoais e financeiras para a manutenção da unidade natural do Estado (p. 103, 104). Isto deve ser feito de maneira que a lei conserve os direitos de cada um, para que o poder exercido pelo governo não se torne em abuso. Cada cidadão deve manter em mente que é tanto um direito quanto um dever lutar pela soberania dentro de sua própria esfera. Na relação entre Igreja e Estado, o Calvinismo defende a soberania da Igreja em questões religiosas. Apesar de à princípio haver permanecido ainda, por um pouco, preso a antiga relação mantida entre estas duas esferas, o Calvinismo, posteriormente, foi exatamente o braço que ergueu a bandeira da liberdade de consciência, destacando que o dever do Estado não era manter a unidade de uma igreja visível, como Roma sustentou por séculos – permanecendo a Igreja do Estado (sendo o Estado sujeito a esta), assim como fazem (evidentemente que com algumas diferenças) as igrejas luteranas nos países luteranos, mas “honrar o complexo de igrejas cristãs como a multiforme manifestação da Igreja de Cristo na terra” (KUYPER, 2003, p. 113), e lutar para preservar os direitos individuais de cada igreja, respeitando a soberania da Igreja de Cristo na esfera individual dessas igrejas.

O Calvinismo e a Ciência.

Também em sua relação com a ciência, o Calvinismo mantém uma visão própria e coerente que foi capaz de restaurar, encorajar e promover a atuação científica a partir de sua própria época. Quando na Idade Média o Romanismo, por meio de uma concepção puramente mística, estabeleceu um dualismo entre matéria e espírito– onde a criação era vista como má e impura enquanto que só o espírito era bom e santo – criou-se um desprezo pelas coisas terrenas em detrimento das celestiais. O Calvinismo, porém, manteve firme sua convicção de que “os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de Suas mãos”. Calvino costumava “(…) comparar as Escrituras a um par de óculos que nos capacita a decifrar novamente o Pensamento divino, escrito pela Mão de Deus no livro da Natureza, o qual se tornou obliterado em consequência da maldição” (KUYPER, 2003, p. 127). Tal visão trouxe novamente o interesse pela investigação científica, visto que ao analisar a natureza, o calvinista era sempre convidado a contemplar a mão do Criador que a fez existir. A partir daqui, torna-se evidente para Kuyper (2003, p. 128) estabelecer a relação de que por consequência do pensamento calvinista, “(…) o estudo do corpo recuperou seu lugar de honra ao lado do estudo da alma; e a organização social da humanidade na terra foi novamente considerada como sendo um objeto tão valioso da ciência humana quanto à congregação dos santos perfeitos no céu”. Do mesmo modo, o dogma da predestinação contribuiu significativamente para prover a base e a sustentabilidade que a investigação científica tanto necessitava, pois da sólida confiança nos decretos de Deus, o calvinista obteve a certeza de que o cosmos obedece a uma lei e ordem. Para ele: (…) existe ali uma vontade firme que põe em prática seus desígnios na natureza e na História (…) uma unidade toda compreensível (…) um princípio pelo qual tudo é governado (…) algo que é geral, escondido e, todavia expresso naquilo que é especial. Além disso, força sobre nós a confissão de que deve haver estabilidade e regularidade governando sobre tudo (KUYPER, 2003, p. 121). O Calvinismo contribuiu ainda para com a liberdade da ciência. Ao arrancá-la do poder do Estado e da Igreja, restaurou-a a sua própria esfera soberana de atuação, de onde deveria responder exclusivamente ao Deus que a tornara possível. Isso não quer dizer que “(…) a ciência está totalmente desimpedida para o uso de sua liberdade e que não precisa obedecer leis” (KUYPER, 2003, p. 133). A ciência, pelo contrário, de acordo com Kuyper (2003, p.133) deve restringir-se “(…) a mais íntima conexão com seu assunto e obedecer estritamente às reivindicações de seu próprio método”. Para exemplificar esta questão, Kuyper utiliza-se da metáfora de um peixe que é colocado numa terra seca, onde torna-se perfeitamente livre; todavia, esta sua liberdade só o levaria a expirar e perecer. Sendo assim, um peixe “(…) que é realmente livre para viver e desenvolver-se deve estar totalmente cercado pela água e guiado por suas barbatanas” (Ibidem), ou seja, limitar-se as exigências de sua esfera. De acordo com a perspectiva calvinista, um bom cristão não deve relegar o trabalho científico unicamente às mãos dos não cristãos, mas por ter o ponto de partida correto e a verdadeira compreensão da realidade que o permeia, precisa analisar os dados científicos para que estes redundem em glórias ao seu Deus.

O Calvinismo e a Arte.

A primeira questão a ser considerada aqui é a de que o Calvinismo não desenvolveu um estilo próprio de arte, e isso se deve ao fato de a aliança entre Religião e Arte apresentar uma forma baixa de religiosidade. Enquanto estando em um nível inferior o povo derivava sua adoração do símbolo (como o fez Israel no Antigo Testamento), o Calvinismo, alicerçado na plenitude da revelação que nos foi dada no Novo Testamento, “(…) abandonou a forma simbólica de adoração e rejeitou encarnar seu espírito religioso em monumentos de esplendor, conforme a exigência da arte” (KUYPER, 2003, p. 154), pois, desde que o propósito das sombras e símbolos tiveram seu comprimento, não é mais possível encontrar na literatura apostólica nenhum vestígio ou sombra de arte com propósito de adoração. Portanto, podemos concluir que o fato do Calvinismo abster-se da busca por um estilo artístico próprio se deve principalmente a sua consciência de maturidade e superioridade religiosa. Entretanto, não se deve inferir daí que não haja qualquer espaço para arte no pensamento calvinista, ou mesmo um desprezo por esta. Calvino levantou-se contra o uso indevido da arte, até onde este divertia-se impiamente com a honra da mulher ou estendia-se ao campo da imoralidade, contudo, em seu uso legítimo, ele considerou a arte como um dom do Espírito Santo e declarou que “(…) todas as artes vêm de Deus e devem ser consideradas como invenções divinas” (KUYPER, 2003, p. 160). O Calvinismo, com seu dogma da graça comum, trouxe verdadeira liberdade à expressão artística, pois, já que seu ponto de partida encontra-se na firme convicção da soberania de Deus, atestou categoricamente que “(…) a arte não pode originar-se do Diabo; pois Satanás é destituído de poder criativo. Tudo o que ele pode fazer é abusar das boas dádivas de Deus” (KUYPER, 2003, p. 163). Se por um lado o Calvinismo distanciou-se dos símbolos constituintes das artes objetivas, por outro, ele teve grande influência na promoção das artes subjetivas como a pintura e a música. Ao apresentar sua doutrina da eleição, o Calvinismo apresentou ao meio artístico um novo pano de fundo sobre o qual produzir. Ao mostrar que Deus escolhe para si tanto grandes como pequenos, e que o povo comum, por Sua eleição, também partilha da atenção e cuidado de Deus, o artista pôde mover seus olhos do alto, sublime e celeste descrito pela ordem eclesiástica e voltá-los para o simples, humilde e discreto. O pintor pôde encontrar nova inspiração nos dramas do homem comum e seus detalhes. Na música, o Calvinismo foi além e introduziu algumas modificações. Deve-se reconhecer aqui a inegável atuação de Loys Bourgeois (trazido por Calvino a Genebra para dar expressão musical à adoração do povo) na composição do Saltério de Genebra, e Claude Goudimel que, dentre outras coisas, foi responsável por dar proeminência a soprano, que substituiu o tenor na condução da melodia (mudança que é preservada até hoje), tendo sido assassinado na Noite de São Bartolomeu, na França, por ter abraçado a fé reformada.

O Calvinismo e o Futuro.

Na última de suas Palestras Stone, na Universidade e Seminário de Princeton, Kuyper (2003) apresentou o panorama social, político, histórico, cultural e religioso no qual, principalmente por influência do modernismo, sua própria época (final do século XIX) encontrava-se submersa. É válido ressaltar que, conquanto estejamos mais de cem anos adiante na escala do tempo (início do século XXI), em princípios, não diferimos tanto assim. Embora as expectativas científicas fossem grandemente esperadas e os círculos modernistas profetizassem a grande evolução da humanidade, o homem vivia um vazio existencial, que para nós ficou ainda mais perceptível após o advento das duas grandes guerras mundiais (o colapso da esperança modernista!). Todo este vazio culminava em materialismo e vulgaridade; o homem encontrava-se a girar num mundo controlado por forças impessoais (como o acaso, por exemplo) e, aferrado como estava a sua esperança de evolução, sentia-se cada vez mais desamparado pela ausência de propósitos. O misticismo, ou a luta da Igreja por modernizar-se, numa tentativa de tornar-se relevante, não trouxeram verdadeira transformação e resposta satisfatória a seus inquiridores, pois, negligenciar, ou fazer concessões em pontos fundamentais das verdades reveladas nas Escrituras, jamais trará ao homem o real preenchimento do qual sua alma necessita. Por isso, a nova religião que se desenvolvera, mesmo que a partir de boas intenções e esforços sinceros, ao despir-se da autoridade fundamental da qual derivam seus princípios (colocando assim sua própria cosmovisão em conflito) e seu poder – a saber, a Bíblia – veio a apresentar-se completamente impotente. Portanto, os esforços do Catolicismo, com sua cosmovisão retrógrada; do Luteranismo, amarrado a seu imperador; e do Modernismo, tão aclamado como intelectual e superior, mas que na realidade, como o próprio Dr. Kuyper (2003, p. 195) fez saber: “(…) não tem avançado um único passo no estabelecimento de princípios, de modo algum tem dado um conceito mais elevado da vida, nem tem produzido para nós maior estabilidade e solidez em nossa existência religiosa e ética, isto é, existência verdadeiramente humana”. Por tais motivos, tais empreendimentos têm se revelado ineficazes, ou melhor, incapazes de conduzir o homem a um nível mais elevado de existência. Apenas o Calvinismo, dotado de sua própria biocosmovisão, “(…) fundada tão firmemente sobre a base de seu próprio princípio, elaborada com a mesma clareza e brilhante numa lógica igualmente consistente” (Kuyper, 2003, p. 198), é capaz de trazer verdadeira dignidade e esperança a vida humana, justamente por apresentar-se totalmente superior as demais cosmovisões. Para que o Calvinismo alcance o efeito a que se propõe, isto é, elevar a existência humana a um nível verdadeiramente desenvolvido, Kuyper apresenta quatro pontos sobre os quais se deve refletir:

(1) que o Calvinismo não seja mais ignorado onde ele existe, mas que seja fortalecido onde sua influência continua.

(2) que o Calvinismo seja feito novamente um objeto de estudo a fim de que o mundo exterior possa vir a conhecê-lo.

(3) que seus princípios sejam novamente desenvolvidos de acordo com as necessidades de nosso tempo, e consistentemente aplicados aos vários campos da vida.

(4) que as Igrejas que ainda reivindicam confessá-lo, deixem de sentir vergonha de sua própria confissão (2003, p. 201).

Ele acredita que os objetivos do Calvinismo em prol da humanidade serão alcançados a partir do desenvolvimento destes pontos, e sua confiança, apesar da triste decadência de seus dias, repousa na convicção inabalável de que “(…) o avivamento não vem de homens; é a prerrogativa de Deus e é devido somente à sua soberana vontade (…)” (KUYPER, 2003, p. 208). A missão da Igreja neste mundo é lutar com todas as suas forças, orar com todo o seu coração e esperar com santo fervor que Deus envie o sopro do Seu Espírito vivificante, o qual tem poder para modificar o conceito dos homens.

CONCLUSÃO

Findamos, portanto, afirmando com Ferreira (2006) que: “A cosmovisão cristã provê uma maneira coerente de viver no mundo, abarcando todas as esferas da Criação: da política à educação, passando pelo culto, vida em família, artes e ciência” (p. 288). Partindo de uma epistemologia proveniente do pressuposto de que a Bíblia é a Palavra de Deus Revelada, a biocosmovisão Cristã Calvinista confere ao homem aquilo que a razão e a lógica do Racionalismo, a ciência e as experiências dos sentidos do Empirismo, a intuição do Misticismo e a irracionalidade do Ceticismo, devido às extremas limitações de seus próprios sistemas de pensamento, não são capazes de proporcionar ao homem, isto é, uma verdadeira base para a dignidade humana frente ao “nada” que o ateísmo e o panteísmo (dentre outras cosmovisões) têm para oferecer (FERREIRA E MYATT, 2007, p. 9, 10). A biocosmovisão apresentada por Kuyper proporciona uma teoria própria nas esferas ontológica, ética, estética e teleológica, alicerçada nos dogmas da Criação e Queda, bem como da Redenção em Cristo e consequente Restauração, respondendo, assim, lógica e satisfatoriamente as grandes questões da vida, garantindo, inclusive, uma viabilidade existencial onde não apenas “(…) é possível viver sem hipocrisia e construir uma civilização segundo essa cosmovisão” (FERREIRA E MYATT, 2007, p. 8), mas, indo além, lega ao homem uma filosofia que o permite viver com autenticidade. O calvinismo do Dr. Kuyper, como um sistema abrangente de interpretação do cosmos e da própria vida, por tudo o que já foi apresentado, não somente deve ser abraçado e sustentado por todo cristão convicto da veracidade bíblica, mas para a glória de Deus, deve ser vigorosamente apresentado ao mundo para que, por meio de sua aplicação a cada esfera da vida, a humanidade possa atingir a plenitude de seu desenvolvimento e maturidade.

Paz e graça.

Capa: Marcos Frade.
Revisão: Plínio Sousa.

REFERÊNCIAS

CANUTO, Manoel Sales (Ed.), Prefácio. In: SCHWERTLEY, Brian. O modernismo e a inerrância bíblica. Recife: Os Puritanos, 2000.

FERREIRA, Franklin. Gigantes da fé: espiritualidade e teologia na história da igreja. São Paulo: Vida, 2006.

FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.

KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

OLIVEIRA, Fabiano de Almeida. Philosophando Coram Deo: uma apresentação panorâmica da vida, pensamento e antecedentes intelectuais de Herman Dooyeweerd. Fides Reformata, São Paulo, SP, v. 11, n. 1, p. 73 – 100, jan – jun. 2006.

PORTELA NETO, Francisco Solano (Ed.), Nota biográfica. In: KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

SCHWERTLEY, Brian. O modernismo e a inerrância bíblica. Recife: Os Puritanos, 2000.

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Plinio Sousa

Plínio Sousa é fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE, é Pastor Reformado, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia do N.T. Especializado em Interpretação Bíblica e em Teologia Sistemática; Professor de Grego; Métodos de Estudo Bíblico; EBD — Escola Bíblica Dominical; Teologia do Novo Testamento, Psicologia; Sociologia e Filosofia da Educação, atua como Diretor Geral e Professor do IRSE. É Psicólogo Cristão; Juiz de Paz Eclesiástico; (Autoridade Eclesiástica e Ministro de Confissão Religiosa, Conforme Decreto Lei 3.689/41, artigo 295 VIII §ª 4º); Capelão Cristão; Missionário; Palestrante e Escritor.

Apologista, autor de diversos artigos teológicos, de 04 (quatro) livros, atua como conteudista do Instituto Êxito de Teologia (SP), da WRF — World Reformed Fellowship (Comunidade Mundial Reformada) onde também é membro e do Santo Evangelho (Blogue do IRSE); também atua como co-editor do site Reformados 21. É membro da TDI — Sociedade Brasileira do Design Inteligente sob nº de registro 1057.

Adepto e muito abrangente com a defesa da Teologia Reformada e a herança Puritana. Acredita na inspiração verbal e plenária, na revelação proposicional, infalibilidade, inerrância, clareza e suficiência das Sagradas Escrituras. É Supralapsarianista, Calvinista, Aliancista [Teologia Pactual], Pedobatista, Amilenista, e Cessacionista –, rejeita a crença no livre–arbítrio, no apostolado contemporâneo e nos dons revelacionais. Quanto à liturgia, adota o Princípio Regulador do Culto –, como entenderam os Reformadores.
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